Translate

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Os Padres do Deserto e a Eucaristia como remédio contra os demônios

Raland | Shutterstock

Aleteia Espanha - publicado em 26/11/25

O que os Padres do Deserto nos dizem para guiar nossa vida espiritual em circunstâncias muito específicas? Ninguém escapa da luta contra os demônios.

Menem, o Grande, cujo nome significa pastor em grego, foi um Pai do Deserto dos séculos IV e V. Ele é o Abba (Pai) mais frequentemente citado nos Apotegmas do deserto e cita fortemente a importância da Eucaristia. Pais do Deserto em um de seus aforismos, ele evoca o "veneno dos anjos malignos" que afeta os monges:

“Está escrito: ‘Como a corça anseia pelas águas correntes, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus meu’ (Salmo 42,1). Na solidão, os cervos comem muitas serpentes, e como o veneno os queima, eles correm para a fonte; a queimação do veneno se acalma quando bebem. O mesmo acontece com os monges que vivem no deserto. O veneno dos anjos maus os queima: portanto, aos sábados e domingos, eles anseiam se aproximar das fontes que são o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e serem purificados de toda a amargura dos anjos maus” (Poemen, 30).

A onipresença dos anjos malignos

O comentário feito pelo Abade Poemen (ou Pastor, é o mesmo nome) sobre o primeiro versículo do Salmo 41 (42) é muito bonito: aqueles cervos sedentos são nossos modelos, eles têm sede da Água Viva que flui do lado de Cristo.

Mas a aplicação proposta pelo grande ancião nos surpreende: os monges que vivem no deserto enfrentam constantemente anjos malignos e acabam absorvendo veneno, por isso têm sede e anseiam encontrar na Eucaristia dominical a purificação que os libertará da amargura contraída pelo contato com os demônios.

O que podemos dizer, nós que vivemos no mundo e temos que lidar constantemente com o Inimigo? É difícil para nós acreditarmos que almas totalmente devotadas a Deus estejam tão expostas à pressão dos anjos malignos.

No entanto, Santo Agatão, outro Padre do Deserto, nos adverte: "Não há nada mais difícil do que a oração, porque os demônios não poupam esforços para interromper esse poderoso meio de nos desarmar."

O remédio da Eucaristia

A primeira conclusão a que se chega com o conselho de Poemen é que a luta está em toda parte. Se a vida monástica não é fácil, nenhuma vocação cristã está isenta dela. Ninguém entra para um convento em busca de segurança, assim como a vida matrimonial não é garantia de equilíbrio e virtude tranquila.

A segunda lição é esta: para todos, a Eucaristia é o remédio: ela nos mantém preparados para a luta, sendo ao mesmo tempo a doce consolação dos nossos esforços para seguir a Cristo.

Fonte: https://pt.aleteia.org/2025/11/26/os-padres-do-deserto-e-a-eucaristia-como-remedio-contra-os-demonios/

Em Porto Alegre, depois de 87 anos, o Seminário São José não tem mais seminaristas

Seminário São José em Gravataí (RS) | Marcos Koboldt/ACI Digital

Por Marcos Koboldt

19 de nov de 2025 às 12:52

A falta de vocações levou a arquidiocese de Porto Alegre à decisão de fechar o Seminário São José. Inaugurado em 1938, o seminário serviu de residência e escola para muitos padres e bispos quando estavam em seu processo de formação, especialmente no ensino médio e a etapa do propedêutico. No início deste semestre, os últimos residentes - cinco seminaristas da etapa do propedêutico, ano inicial de transição para o seminário maior - foram transferidos para Porto Alegre.

Segundo o bispo-auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre dom Juarez Albino Destro, a decisão foi tomada para oferecer aos jovens um local mais apropriado. “A ala onde funcionava, de fato, o seminário deve ser reformada”, explica Dom Juarez.

O Seminário São José dividia o espaço com a Casa de Retiros, local destinado para receber encontros, palestras, retiros e eventos. “Na época em que se reformou o prédio para ser casa de encontros, retiros, eventos, deixou-se a ala de habitação dos seminaristas para ser reformada com as entradas provenientes da casa de encontros - valores com a locação seriam revertidos para a reforma daquela ala. Desta forma, o plano é reformar a ala do seminário que ainda não foi reformada, completando-se a inteira e possibilitando novamente ser habitada. O que falta definir é o futuro do prédio, podendo continuar inteiramente dedicado a receber retiros e eventos ou se irá reservar um espaço para os seminaristas”, completa o bispo auxiliar de Porto Alegre.

Tristeza com a saída do seminário e menos vocacionados

 A decisão de transferir os últimos seminaristas de Gravataí para Porto Alegre provocou tristeza em ex-alunos que passaram pelo local. É o caso do jornalista Rodrigo Jankosi, 40 anos, que fez a etapa do Propedêutico no ano de 2009.

“Fui forjado nas Pastorais Sociais da Igreja Católica. Foi ali que despertou em mim o interesse pela vida religiosa. O processo de discernimento vocacional durou cerca de cinco anos, até que cheguei ao Seminário São José, em Gravataí, para cursar o propedêutico. Ali se abria uma nova janela de conhecimentos e vivências que levo comigo para toda a vida. Ao saber da saída dos últimos seminaristas das dependências do seminário, um sentimento estranho me tomou. Penso que as novas gerações de vocacionados talvez não tenham a oportunidade de viver as experiências que aquele espaço mágico nos proporcionava. Rezo para que a Arquidiocese não se renda, mais uma vez, à especulação imobiliária e não permita que aquele lugar sagrado seja entregue às incorporadoras”, declarou Jankosi.

Também ex-aluno do Propedêutico no Seminário São José, o professor e músico João Fernando Schafer de Brum, 40 anos, ingressou no ano de 2005 quando estava no primeiro ano do Ensino Médio e fez o propedêutico três anos depois. Em sua avaliação não há sentido em manter um grupo pequeno de seminaristas em um local tão grande como o Seminário. “Quando fiz o Ensino Médio, moravam na casa mais de 50 seminaristas das duas etapas. Alguns anos depois retornei para ministrar aulas de música e o número já era bem menor. Se couber uma crítica penso que o trabalho de animação vocacional caiu demais. Entendo que com a internet as coisas se complicaram, mas há pouco empenho em buscar novas vocações. Muitas vezes podemos perder bons candidatos pois eles não sabem como é a rotina do Seminário”, ponderou Schaefer.

Seminário são José e a cidade de Gravataí

A história do Seminário são José é uma parte essencial da identidade histórica e cultural da cidade de Gravataí. A ideia de sua fundação surgiu no contexto de expansão da vida religiosa no Rio Grande do Sul durante a década de 1930. As obras tiveram início em 1936, com ampla mobilização da comunidade católica local, e seguiram em ritmo constante até março de 1938, quando o seminário foi solenemente inaugurado. A data escolhida, 19 de março de 1938, coincidia com a festa litúrgica de São José e com o jubileu de 25 anos de episcopado de dom João Becker, arcebispo de Porto Alegre entre os anos de 1912 e 1946.

Até o ano de 1950, a administração e a formação dos seminaristas estavam sob a responsabilidade da Companhia de Jesus. Após o encerramento do contrato com os Jesuítas, a arquidiocese de Porto Alegre assumiu diretamente a condução da instituição, dando continuidade à formação de seminaristas do clero secular.  Nesta época, o Seminário São José ocupava uma área de 300 hectares - hoje o total é de aproximadamente 10 hectares.

Em 1967, acompanhando as transformações pedagógicas e eclesiais do período pós-Concílio Vaticano II, o seminário passou a se chamar Escola Vocacional São José, incorporando também leigos e religiosos ao corpo docente. A nomenclatura e o currículo foram adaptados ao ensino de primeiro e segundo grau. O funcionamento da instituição era sustentado por diferentes fontes: a produção agrícola da granja do Seminário, as contribuições dos pais dos alunos e o apoio constante da Mitra Arquidiocesana, além da generosidade de benfeitores conscientes da importância das vocações religiosas.

 Nesse mesmo período, parte das turmas foi transferida para o Seminário São João Vianney, na cidade de Bom Princípio, distante 60 quilômetros da capital Porto Alegre, e criou-se o Curso de Aperfeiçoamento, voltado a preparar melhor os seminaristas para os estudos superiores de Filosofia e Teologia.

Segundo registros históricos, até 1985 passaram pelo Seminário 2.936 alunos, dos quais 285 foram ordenados padres e vários tornaram-se bispos. Em 1986, por exemplo, o Seminário de Gravataí contava com 41 alunos na 7ª série, 19 na 8ª série e 22 no curso de aperfeiçoamento.

O administrador Pedro Stein, 48 anos, passou pelo Seminário São José neste período. Aos 12 anos, em 1989, ingressou para estudar na sétima série. Ele conta que o testemunho de seu pároco foi decisivo para dar uma resposta ao que Deus inspirava em seu coração.

“O tempo que passei no Seminário São José de Gravataí foi muito importante para a minha fé. Lá eu aprendi a rezar melhor, a conhecer mais sobre Jesus e a viver com outras pessoas que também queriam seguir a Deus. Tudo o que vivi lá me ajudou a ser uma pessoa melhor e mais próxima de Jesus, e eu vou guardar pra sempre tudo o que aprendi nesse tempo tão especial”.

Morador de Gravataí, o professor de história e pesquisador Amon da Costa recorda que o trabalho formativo realizado no interior dos muros do Seminário São José trouxe benefícios para toda a cidade. “Mais do que um centro de formação sacerdotal, o Seminário São José consolidou-se como espaço de educação, cultura e espiritualidade que marcou profundamente a história social e religiosa de Gravataí. Seus muros testemunharam não apenas a formação de padres e bispos, mas também de líderes comunitários, professores, missionários e cidadãos comprometidos com o bem comum e com a fé cristã”.

*Jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul no ano de 2004. Entre 2004 e 2014 trabalhou como repórter em diferentes empresas de comunicação de Porto Alegre. Entre os anos de 2022 e 2024 foi Assessor de Comunicação da Arquidiocese de Porto Alegre.

https://www.acidigital.com/noticia/65549/em-porto-alegre-depois-de-87-anos-o-seminario-sao-jose-nao-tem-mais-seminaristas

Catequese do Papa: recuperar a confiança na vida para gerar vida

Audiência Geral, 26/11/2025 - Papa Leão XIV (Vatican News)

Na Audiência Geral desta quarta-feira, 26/11, Leão XIV convidou os fiéis a redescobrirem a esperança que nasce da Ressurreição e a renovarem a coragem de viver e de gerar vida em um mundo marcado pela desconfiança e pelo medo.

Thulio Fonseca – Vatican News

A Praça São Pedro acolheu milhares de peregrinos na manhã desta quarta-feira, 26 de novembro, para a Audiência Geral com o Papa Leão XIV. Dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre o tema do Jubileu 2025 – “Jesus Cristo, nossa esperança”, o Pontífice refletiu hoje sobre a força iluminadora da Ressurreição diante dos desafios atuais, propondo como tema: “Esperar na vida para gerar vida”.

Logo no início, o Papa recordou que a Páscoa de Cristo “ilumina o mistério da vida” e permite contemplá-la com esperança, mesmo quando esta parece árdua ou marcada por sofrimento. A existência humana – afirmou – é recebida como dom: não a escolhemos, mas somos chamados a acolhê-la, nutrindo-a continuamente com cuidado, proteção e vitalidade.

Esse dom suscita, desde sempre, as grandes perguntas do coração humano: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido desta viagem? Perguntas que revelam que viver “evoca um significado, uma direção, uma esperança”.

Um mundo adoecido pela falta de confiança

O Pontífice diagnosticou uma das grandes feridas do nosso tempo: a falta de confiança na vida. Muitos, observou, já não a percebem como possibilidade e dom, mas como ameaça, algo a ser temido para não se frustrar. Diante dessa postura, o convite de Leão XIV foi claro: recuperar a coragem de viver e de gerar vida, testemunhando que Deus é “Aquele que ama a vida”, como proclama o Livro da Sabedoria:

“Sem esperança, a vida corre o risco de parecer um parêntese entre duas noites eternas, uma breve pausa entre o antes e o depois da nossa passagem pela Terra. Esperar pela vida, pelo contrário, significa antecipar o destino, acreditar com certeza naquilo que ainda não podemos ver ou tocar, confiar e entregarmo-nos ao amor de um Pai que nos criou porque nos amou e quer que sejamos felizes.”

Gerar vida, explicou o Papa, é participar da lei estrutural da criação, que culmina no dom recíproco entre homem e mulher. Mas também significa promover o ser humano em todas as dimensões: apoiar a maternidade e a paternidade, fortalecer economias solidárias, cuidar da criação, praticar a escuta e oferecer presença e auxílio concreto.

Papa Leão XIV durante a Audiência Geral   (@Vatican Media)

Entre Caim e Abel: a liberdade ferida

A catequese recordou ainda que a liberdade humana torna a vida um drama, como narra a história de Caim e Abel. A rivalidade, a inveja e a violência continuam a marcar a nossa história.

“Mas a lógica de Deus é outra”, sublinhou o Santo Padre. Deus permanece fiel ao seu desígnio de amor e continua a sustentar a humanidade, “mesmo quando, seguindo os passos de Caim, ela obedece ao instinto cego da violência nas guerras, nas discriminações, nos racismos, nas múltiplas formas de escravidão, quando ela se desvia pelo caminho da violência”.

A esperança que sustenta mesmo em meio às trevas

Leão XIV concluiu lembrando que a Ressurreição de Cristo é a força que sustenta o discípulo, especialmente quando as trevas do mal obscurecem o coração e a mente:

“Quando a vida parece ter-se extinguido, bloqueada, eis que o Senhor Ressuscitado passa novamente e caminha conosco e por nós. Ele é a nossa esperança.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

terça-feira, 25 de novembro de 2025

De coração a coração: Evangelizar numa época de mudanças (2) (Parte 1/2)

Combate, proximidade e missão (Opus Dei)

De coração a coração: Evangelizar numa época de mudanças (2)

Esta é a missão que o Senhor nos confia: levar aos outros o contato com alguém vivo, deixar entrever, em nossa vida concreta, que Cristo é real, que ele pode realmente estar presente em nossa história, em nossas relações e em nossas fraquezas.

21/11/2025

Trata-se de uma das parábolas mais breves de Jesus e que tem todo o sabor de sua infância. “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado” (Mt 13, 33). Na Nazaré do século I, não havia padarias; as donas de casa cuidavam de todo o processo de elaboração do pão: moer o grão, amassar a farinha, misturá-la com o fermento e, por fim, assar a massa no forno. Santa Maria fazia assim, enquanto os olhos do Menino Jesus não perdiam nenhum detalhe[1].

Vinte séculos depois, na outra margem do Mediterrâneo, um menino da mesma idade assistia, durante as férias de verão, com prazer a esse ritual: “Eu gostava, nas minhas temporadas de verão, quando menino, de ver o pão sendo feito. Naquela época, não pretendia tirar consequências sobrenaturais: interessava-me porque as empregadas me traziam um galo, feito com aquela massa. Agora me lembro com alegria de toda a cerimônia: era um verdadeiro ritual preparar bem o fermento — uma pelota de massa fermentada, proveniente da fornada anterior —, que se juntava à água e à farinha peneirada. Feita a mistura e amassada, cobriam-na com uma manta e, assim protegida, deixavam-na repousar até inchar a mais não poder. Depois, posta em pedaços no forno, saía aquele pão bom, vistoso, maravilhoso. Porque o fermento estava bem conservado e preparado, deixava-se desfazer — desaparecer — no meio daquela quantidade, daquela multidão, que a ele devia a qualidade e a importância”[2].

Como o fermento

O Reino de Deus é como o fermento. Para transformar a massa não é necessário muito fermento: basta que ele esteja realmente vivo e bem misturado, a ponto de não se poder distingui-lo do resto da massa[3]. Então, produz-se esse processo discreto, aparentemente inócuo, mas incomparável: a fermentação, que permite produzir o pão. “Que nosso coração se encha de alegria pensando em ser isso: levedo que faz fermentar a massa (...); chegar a todos os corações, realizando em todos o grande trabalho de transformá-los em pão bom, que seja a paz – a alegria e a paz – de todas as famílias, de todos os povos: iustitia, et pax, et gaudium in Spiritu Sancto; justiça, paz e gozo no Espírito Santo”[4].

Com o tempo, São Josemaria se referiria com muita frequência a essa parábola do Senhor[5], pois enxergava nela uma imagem muito eloquente para descrever o dinamismo apostólico do Opus Dei: cristãos perfeitamente integrados à sociedade, chamados a vivificá-la a partir de dentro, como fermento[6]. Nesse sentido, embora o mundo secularizado possa ser visto às vezes como um ambiente hostil, ele é, na verdade, o meio natural para o carisma do Opus Dei. E vice-versa: a Obra, como um elemento da família da Igreja, responde especificamente à necessidade de encarnar a mensagem cristã em todas as esferas da vida de um mundo secularizado.

São Josemaria compreendeu desde bem cedo que a Obra não veio resolver um problema circunstancial da sociedade ou da Igreja[7], pois o mundo sempre precisará do estímulo divino que o renove em suas próprias profundezas. Ao mesmo tempo, esse dom do Espírito Santo à Igreja não é casual, mas acontece em um momento de transição de uma “sociedade cristã” para um mundo de “missão” apostólica. Em uma época na qual o cristianismo já não está no centro da vida cultural e institucional, a voz mais clara e de maior credibilidade que podemos oferecer é a de nossa vida concreta, vivida com Cristo e junto aos outros. É o momento de conversas autênticas, de rostos próximos, de corações que se abrem. É o momento de um apostolado que exige a presença de Jesus por meio de seus discípulos em todos os cantos do mundo.

Testemunhas antes que mestres

O homem contemporâneo, como escreveu São Paulo VI, “O homem contemporâneo escuta de melhor boa vontade as testemunhas dos que os mestres, e se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”[8]. Este é um apostolado que parte, mais do que percebemos, do que vivemos. Aqui, mais do que respostas ou argumentos brilhantes, o decisivo é uma vida com Cristo e a simplicidade de deixá-la transparecer. São Josemaria sugeria isso certa vez: “Na verdade, basta que os deixeis conversar com vocês”[9]; basta levar o fogo de Cristo no coração e caminhar junto com os outros – é esse o sentido original de conversar – pelo caminho da vida.

Há uma fome oculta no coração de muitas pessoas. Uma necessidade de sentido, de beleza, de verdade que muitas vezes não se expressa com palavras religiosas, mas que se faz sentir no cansaço diário, nas dúvidas, nas ansiedades e nas fragilidades. É precisamente aí que podemos entrar com delicadeza, não como mestres, mas como companheiros de jornada. Com humildade, que é “andar na verdade”[10], contaremos a eles o que nos sustenta, o que nos dá paz, onde encontramos força, o que nos faz ter esperança. Compartilharemos nossa vida interior, nossa busca e nossa relação de amizade íntima com o Senhor, mostrando também — e talvez principalmente — nossa vulnerabilidade, pois é nela que melhor se vê a graça.

“Se procedermos assim, daremos aos que nos rodeiam o testemunho de uma vida simples e normal, com as limitações e defeitos próprios da nossa condição humana, mas coerente. E ao perceberem que somos iguais a eles em todas as coisas, os outros sentir-se-ão impelidos a perguntar-nos: Como se explica a vossa alegria? Donde vos vêm as forças para vencer o egoísmo e o comodismo? É então o momento de lhes descobrir o segredo divino da existência cristã, de lhes falar de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, de Maria; o momento de procurar transmitir, através das nossas pobres palavras, a loucura do amor de Deus que a graça derramou em nossos corações”[11].


[1] Cfr. F. M. William, Vida de Maria, a Mãe de Jesus, Herder, Barcelona 1982, p. 151.

[2] São Josemaria, Carta 1, n. 5

[3] “Para ser levedo, é necessária uma condição: que passeis despercebidos. O levedo não surte efeito se não penetra na massa, se não se confunde com ela” (Carta 1, n. 5). “Uma única coisa deve distinguir-nos: não nos distinguimos. ´Por isso, para algumas pessoas que gostam de chamar a atenção ou de fazer palhaçadas, somos esquisitos, porque não somos esquisitos” (Ibid., n. 8).

[4] Ibid., n. 5.

[5] Cfr.por exemplo, Amigos de Deus, n. 257; Carta 29, nn. 7-8; Forja, n. 973.

[6] Cfr. São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n. 12.

[7] Cfr. São Josemaria, Instrucción, 19/03/1934, nn. 6, 8, 14.

[8] São Paulo VI, Discurso aos membros do "Consilium de Laicis", 2 de outubro de 1974: texto original em francês, em: AAS 66 (1974), pp. 567-570.

[9] São Josemaria, palavras de uma tertúlia por volta de 1958, anotadas em P. Rodríguez:“Omnia traham ad meipsum”. O sentido de João 12, 32 na experiência espiritual de Mons. EscriváRomana 13 (1991/2) p. 349.

[10] Santa Teresa de Jesus, Castelo interior ou moradas 6, 10.

[11] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 148

Fonte: https://opusdei.org/pt-br/article/de-coracao-a-coracao-evangelizar-numa-epoca-de-mudancas-ii/

Santo Agostinho, mestre da fé, da razão e da busca de Deus para a Igreja hoje

Santo Agostinho e a Palavra de Deus (Província Agostiniana)

“Sub Regula Augustini” é o tema do encontro internacional que está sendo realizada no Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. Mais de uma centena de especialistas, acadêmicos, religiosos, religiosas e freiras de todo o mundo estão reunidos desde segunda-feira para refletir sobre a influência do pensamento agostiniano ao longo dos séculos. Destacou-se a constante referência dos últimos papas ao Pai da Igreja, propondo-o como um mestre cujo testemunho continua sendo válido.

Tiziana Campisi – Vatican News

Mais de uma centena de especialistas, acadêmicos, religiosos, religiosas e leigos, de diferentes países do mundo, estão participando do Congresso Internacional “Sub Regula Augustini. A recepção na ordem da figura e da doutrina de Santo Agostinho na vida religiosa ao longo da história”, no Pontifício Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. Promovido pela Comissão Internacional para o Pontifício Instituto Patrístico e Estudos Agostinianos, em colaboração com o Instituto Histórico Agostiniano, o evento, que começou na segunda-feira passada, terminará amanhã, 22 de novembro, com uma visita à cidade de Viterbo. A visita será feita ao convento agostiniano renascentista, que conta com um magnífico claustro com afrescos que contam histórias do bispo de Hipona e episódios bíblicos, e à igreja da Santíssima Trindade. Na tarde de quinta-feira, às 18 horas, ocorreu uma celebração litúrgica na basílica de Santo Agostinho, em Campo Marzio. Pela manhã desta quarta-feira, os participantes foram à Praça de São Pedro para a audiência geral do Papa Francisco, que os saudou.

Registro do Congresso "Sub Regula Augustini" no Augustinianum, em Roma (Vatican News)

Santo Agostinho mestre para nosso tempo

O religioso agostiniano Kolawole Chabi dedicou esta manhã um discurso à influência de santo Agostinho no magistério dos últimos pontífices, destacando a constante referência dos últimos papas em encíclicas, discursos e homilias à herança agostiniana. Com o objetivo de propor o bispo de Hipona “também para nosso tempo como um mestre”, cuja visão de fé e razão e a busca constante de Deus continuam sendo válidas na Igreja contemporânea. Começando com Pio XI, o acadêmico mencionou a encíclica Ad Salutem humani, onde é enfatizada a influência duradoura na teologia cristã, na filosofia e na cultura ocidental dos escritos do grande pai da Igreja. Pio XII, por outro lado, reconheceu o Hiponense como um guia espiritual e intelectual, elogiando, em particular, sua capacidade de articular claramente questões morais e teológicas e de responder aos desafios de seu tempo com sabedoria e profundidade. O padre Chabi também falou de como João XXIII havia encontrado em Santo Agostinho um exemplo de abertura, conversão e busca incansável da verdade, e recordou que Paulo VI gostava tanto da difusão do pensamento de Agostinho que desejou pessoalmente inaugurar o Augustinianum em 4 de maio de 1970. João Paulo II também elogiou a profundidade intelectual e espiritual do bispo de Hipona, “considerando-o alguém que tem algo a oferecer a todo ser humano de nosso tempo”. São incontáveis as citações agostinianas em Bento XVI, que “tinha uma admiração especial por Santo Agostinho”. No próprio Ratzinger emerge “uma fé que não tem medo de dialogar com a cultura e a filosofia contemporâneas, seguindo o exemplo de Santo Agostinho, que buscava compreender a fé através do intelecto”, continuou o clérigo, mencionando, além disso, a primeira encíclica Deus caritas est, na qual o pontífice alemão afirma que deve muito ao pensamento de Santo Agostinho.

Citações do Papa Francisco

Finalmente, o padre Chabi assinalou que o Papa Francisco também se refere a Agostinho em várias ocasiões. Como, por exemplo, em 15 de setembro de 2022, no voo de Nur-Sultan de volta a Roma, no final da visita apostólica ao Cazaquistão, quando ele pediu para “ler o comentário de Santo Agostinho sobre os pastores (Sermão 46)”, acrescentando que “se faltar o coração do pastor, não há trabalho pastoral”. E mesmo em sua recente carta encíclica Dilexit nos, Francisco cita o Doutor da Graça quatro vezes. Em particular, no parágrafo 103, ele destaca que Agostinho “abriu o caminho para a devoção ao Sagrado Coração como um lugar de encontro pessoal com o Senhor”, especificando que para ele “o peito de Cristo não é apenas a fonte da graça e dos sacramentos”, mas também “a origem da sabedoria mais preciosa, que é a de conhecê-lo”.

A espiritualidade agostiniana nas diferentes formas de vida

Durante os trabalhos do Congresso, foi dado amplo espaço aos relatórios sobre a influência do grande pai da Igreja no monaquismo , nas ordens religiosas e nas famílias que vivem de acordo com suas regras. Mas também foi examinada em profundidade a iconografia do bispo de Hipona e seu impacto na espiritualidade agostiniana ao longo dos séculos. Também se deu espaço à hagiografia agostiniana masculina, à santidade e à mística nas mulheres e, novamente, ao movimento feminino agostiniano, às congregações de vida apostólica agregadas à Ordem de Santo Agostinho e a relação com os leigos, e também à presença do Doutor da Graça no recente Magistério da Igreja. E na tarde desta quarta-feira, o padre Rocco Ronzani, prefeito do Arquivo Apostólico Vaticano, enfocou o laicato agostiniano e a espiritualidade na vida e nos apostolados da Ordem. O padre Ronzani explicou que a relação com os leigos na Ordem Agostiniana, assim como esta nasceu “no processo de reforma e de renovada evangelização da sociedade medieval europeia”, se desenvolveu na origem da própria ordem mendicante. De fato, “alguns dos grupos religiosos” que se uniram a ela, “entre 1244 e 1256, também surgiram do desejo de numerosos leigos de levar uma vida verdadeiramente apostólica”.

As formas de colaboração dos leigos

Houve diferentes formas de colaboração dos leigos na família religiosa agostiniana, disse o padre Ronzani, mas pelo menos três “de participação na vida e no apostolado da ordem, desde suas origens”. A primeira, a oblação, poderia ter sido a inserção nas comunidades dos frades ou o leigo levava uma vida externa. Foram precisamente os oblatos externos, então institucionalmente unidos em grupos “que, de alguma forma, refletiam a vida das comunidades religiosas e prolongavam sua experiência no mundo secular”, que deram origem à Ordem Terceira, com “leigos e leigas que levavam não apenas uma vida ascética, mas também a vida comum”, que em alguns casos foram o “primeiro núcleo dos institutos religiosos que surgiram na idade moderna e contemporânea e que eram afiliados à ordem”. Embora, acrescentaram os religiosos agostinianos, “não raros grupos de mulheres, oblatos e terciários, por meio de processos às vezes complexos, tornaram-se verdadeiros mosteiros de vida contemplativa”. O terceiro e último grupo de leigos era o das confrarias ligadas ao culto, especialmente à Virgem Maria e aos santos da ordem.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Oração a Santa Catarina de Alexandria contra acidentes

By Zvonimir Atletic | Shutterstock

Reportagem local - publicado em 29/11/19

Santa Catarina, através de um gesto de fé, conseguiu quebrar as engrenagens da máquina em que seria torturada. Por isso, tornou-se intercessora contra os acidentes de qualquer natureza.

Catarina é descrita pelos registros históricos como uma jovem de dezoito anos, cristã, de rara beleza, filha do rei Costus, de Alexandria, no Egito. Muito culta, dispunha de vastos conhecimentos teológicos e humanísticos.

Viveu nos tempos difíceis do Governador romano do Egito e da Síria, Maximino, um perseguidor e exterminador de cristãos. De acordo com as narrativas, o martírio da bela cristã teve início com sua recusa a Maximino. Este, apaixonara-se por ela e precisava anular sua liderança sobre a expansão do cristianismo. Ofereceu-lhe poder e riqueza materiais e estava disposto a divorciar-se para se casar com ela, contanto que passasse a adorar outros deuses. Catarina recusou firmemente e ao mesmo tempo tentou convertê-lo, desmistificando os deuses pagãos. Sem conseguir discutir com a moça, o governador chamou sábios do reino para auxiliá-lo. Ao tentar defender suas seitas com saídas teóricas e filosóficas, acabaram sendo convertidos por Catarina. Irado, Maximino condenou todos ao suplício e à morte. Exceto Catarina, para a qual preparou algo especial. Mandou torturá-la com rodas equipadas com lâminas cortantes e ferros pontiagudos. Com os olhos elevados ao Senhor, Catarina rezou e fez o sinal da cruz. Ocorreu então o prodígio: o aparelho desmontou. Transtornado, o imperador levou-a para fora da cidade e comandou pessoalmente sua tortura e depois sua decapitação.

Ela é considerada a padroeira dos estudantes, dos filósofos e dos que trabalham com máquinas. Santa Catarina de Alexandria integra a relação dos quatorze santos auxiliares da cristandade

Oração a Santa Catarina de Alexandria – Proteção contra acidentes:

Ó Santa Catarina, vós quebrastes a roda da engrenagem das mãos dos torturadores e por isto sois invocada como protetora contra os acidentes; eu vos peço, protegei-me de todo e qualquer acidente.

Acidentes de trânsito, acidentes com arma de fogo, acidentes de quedas e tombos, acidentes a pé e a cavalo, acidentes com instrumentos de trabalho, acidentes com venenos e agrotóxicos, acidentes com máquinas e explosivos, acidentes de mordidas de cobras ou aranhas, acidentes em casa, na estrada, na roça, no campo ou no mato.

Protegei meu corpo de todo e qualquer perigo que a cada instante estou sujeito a enfrentar.

Defendei também a minha alma contra os perigos espirituais, que são tantos, em toda parte.

Santa Catarina, protegei-me e salvai-me.

Amém!

 Fonte: https://pt.aleteia.org/2019/11/29/oracao-a-santa-catarina-de-alexandria-contra-acidentes/

Doutrina da Fé: a monogamia não é um limite, o matrimônio é promessa de infinito

O matrimônio é promessa de infinito (Vatican News)

Publicada a Nota doutrinal “Una caro. Elogio à monogamia”, que aprofunda o valor do matrimônio como “união exclusiva e pertencimento recíproco”, uma união totalizante que, no dom completo de si ao outro, respeita sua dignidade. A importância da caridade conjugal e a atenção aos pobres. A condenação da violência, seja física seja psicológica: “O matrimônio não é posse”. Em uma época individualista e consumista, educar os jovens ao amor como responsabilidade e esperança no outro.

Isabella Piro – Cidade do Vaticano

“Unidade indissolúvel”: assim a Nota doutrinal do Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) define o matrimônio, ou seja, como uma “união exclusiva e pertencimento recíproco”. Não por acaso, o documento — aprovado por Leão XIV no último dia 21 de novembro, memória litúrgica da Apresentação da Bem-Aventurada Virgem Maria, e apresentado hoje à imprensa, 25 de novembro — traz o título “Una caro (uma só carne). Elogio à monogamia”. No documento explica-se que aqueles que se doam plena e completamente um ao outro só podem ser dois; de outro modo, seria um dom parcial de si mesmo que não respeita a dignidade do parceiro.

“Caríssimos, se nos amarmos assim, sobre o fundamento de Cristo, que é ‘o Alfa e o Ômega’, ‘o Princípio e o Fim’, seremos sinal de paz para todos na sociedade e no mundo. E não ...

As motivações do documento

Três são as motivações que estão na origem do texto: em primeiro lugar — escreve na introdução o cardeal prefeito, Víctor Manuel Fernández — há a atenção ao atual “contexto global de desenvolvimento do poder tecnológico”, que leva o homem a pensar-se como “uma criatura sem limites” e, portanto, distante do valor de um amor exclusivo e reservado a uma única pessoa. Menciona-se também as discussões com os bispos africanos sobre o tema da poligamia, recordando que “estudos aprofundados sobre as culturas africanas” desmentem “a opinião comum” acerca da excepcionalidade do matrimônio monogâmico. Por fim, o documento constata, no Ocidente, o crescimento do “poliamor”, ou seja, formas públicas de união não monogâmica.

A unidade conjugal e a união entre Cristo e a Igreja

Nesse contexto, o documento do DDF deseja realçar a beleza da unidade conjugal que, “com a ajuda da graça”, representa também “a união entre Cristo e sua esposa amada, a Igreja”. Destinada sobretudo aos bispos, a Nota — sublinha o cardeal Fernández — quer igualmente ajudar os jovens, os noivos e os esposos a captar “a riqueza” do matrimônio cristão, de modo a estimular “uma reflexão serena e um aprofundamento prolongado” sobre o tema.

O pertencimento fundamentado no consentimento livre

Dividido em sete capítulos, além das Conclusões, o texto reafirma que a monogamia não é uma limitação, mas a possibilidade de um amor que se abre ao eterno. Dois elementos aparecem decisivos: o pertencimento recíproco e a caridade conjugal. O primeiro, “fundado no consentimento livre” dos cônjuges, é reflexo da comunhão trinitária e torna-se “uma forte motivação para a estabilidade da união”. Trata-se do “pertencimento do coração, onde somente Deus vê” e onde só Ele pode entrar, “sem perturbar a liberdade e a identidade da pessoa”.

Numa mensagem enviada a um seminário promovido pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Leão XIV convida as pessoas a se tornarem “pescadores de famílias” a fim de ...

Não profanar a liberdade do outro

Assim entendida, “a mútua pertença própria do amor recíproco exclusivo implica um cuidado delicado, um santo temor de profanar a liberdade do outro, que tem a mesma dignidade e, portanto, os mesmos direitos”. Porque quem ama sabe que “o outro não pode ser um meio para resolver suas próprias insatisfações” e sabe que o próprio vazio nunca deve ser preenchido “por meio do domínio do outro”. A esse respeito, a Nota lamenta “as tantas formas de desejo doentio que desembocam em várias manifestações de violência explícita ou sutil, de opressão, de pressão psicológica, de controle e, por fim, de asfixia”. Trata-se de “falta de respeito e de reverência diante da dignidade do outro”.

O matrimônio não é posse

Ao contrário, um “nós dois” saudável implica “a reciprocidade de duas liberdades que nunca são violadas, mas se escolhem mutuamente, deixando sempre intacto um limite que não pode ser ultrapassado”. Isso acontece quando “a pessoa não se dispersa na relação, não se funde com a pessoa amada”, no respeito por todo amor saudável “que nunca pretende absorver o outro”. A Nota destaca que o casal poderá “compreender e aceitar” um momento de reflexão ou algum espaço de solidão ou autonomia pedido por um dos cônjuges, visto que “o matrimônio não é posse”, não é “pretensão de tranquilidade absoluta”, nem libertação total da solidão (somente Deus, de fato, pode preencher o vazio sentido por um ser humano), mas sim confiança e capacidade de enfrentar novos desafios. Ao mesmo tempo, convida-se os cônjuges a não se recusarem mutuamente, porque “quando a distância se torna muito frequente, o ‘nós dois’ se expõe à sua possível eclípse”. Um diálogo sincero permitirá, em vez disso, sanar as causas do afastamento recíproco e encontrar o equilíbrio justo.

A oração, meio precioso para crescer no amor

O pertencimento recíproco expressa-se também na ajuda mútua entre os cônjuges para amadurecer como pessoas: nisso, a oração é “um meio precioso” mediante o qual o casal pode santificar-se e crescer no amor. Assim, realiza-se a caridade conjugal, “força unitiva” “afetiva, fiel e total”, “dom divino” pedido na oração e nutrido na vida sacramental e que, precisamente no matrimônio, torna-se “a maior amizade” entre dois corações próximos, que se amam e que se sentem “em casa” um no outro.

Leão XIV, em mensagem enviada ao bispo de Séez, diocese que celebra o décimo aniversário da canonização dos pais de Santa Teresa do Menino Jesus, os chama de um “casal exemplar” e ...

Sexualidade e fecundidade

Graças ao poder transfigurador da caridade, será também possível compreender a sexualidade “em corpo e alma”, isto é, não como um impulso ou um desabafo, mas como “um presente maravilhoso de Deus” que orienta à doação de si e ao bem do outro, considerado na totalidade de sua pessoa. A caridade conjugal se desdobra igualmente na fecundidade, “ainda que isso não signifique que este deva ser o objetivo explícito de cada ato sexual”. Ao contrário, o matrimônio conserva seu caráter essencial mesmo quando é sem filhos. Recorda-se, além disso, a legitimidade do respeito pelos tempos naturais de infertilidade.

As redes sociais e a urgência de uma nova pedagogia

Todavia, “no contexto do individualismo consumista pós-moderno”, que nega o fim unitivo da sexualidade e do matrimônio, como preservar a possibilidade de um amor fiel? A resposta, afirma o documento, encontra-se na educação: “O universo das redes sociais, onde o pudor desaparece e proliferam as violências simbólicas e sexuais, mostra a urgência de uma nova pedagogia”. É preciso, portanto, “preparar as gerações para acolher a experiência amorosa como mistério antropológico”, apresentando o amor não como mera pulsão, mas como chamado à responsabilidade e “capacidade de esperança de toda a pessoa”. A educação para a monogamia não é “arcaísmo”, nem “coerção moral”, mas constitui “uma iniciação à grandeza de um amor que transcende a imediatidade” e antecipa, de certo modo, “o próprio mistério de Deus”.

Em discurso feito em italiano, inglês e espanhol, Leão XIV exortou os missionários digitais a agirem contra a divisão e ofereceu três indicações: a missão de anunciar a paz, ...

A atenção aos pobres, “antídoto” à endogamia

A caridade da união conjugal também se manifesta nos casais que não se fecham em seu individualismo, mas se abrem a projetos compartilhados para “fazer algo belo pela comunidade e pelo mundo”, pois “o ser humano realiza a si mesmo colocando-se em relação com os outros e com Deus”. De modo diverso, trata-se apenas de egoísmo, autoreferencialidade, endogamia a ser combatida, por exemplo, praticando “o sentido social” do casal que se empenha, conjuntamente, na busca do bem comum. Central, nesse âmbito, é a atenção aos pobres, os quais — como afirmou Leão XIV — são “uma questão familiar” do cristão, não um mero “problema social”.

O amor conjugal como promessa de infinito

Concluindo, a Nota reafirma que “todo matrimônio autêntico é uma unidade composta por dois indivíduos, que exige uma relação tão íntima e totalizante que não pode ser compartilhada com outros”. Portanto, entre as duas propriedades essenciais do vínculo matrimonial — unidade e indissolubilidade — é a primeira que fundamenta a segunda: a fidelidade é possível somente a partir de uma comunhão escolhida e renovada. Somente assim o amor conjugal será uma realidade dinâmica, chamada a um crescimento e a um desenvolvimento contínuos no tempo, em uma “promessa de infinito”.

Leão XIV recebeu alguns membros do Órgão Consultivo Internacional da Juventude, do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Em seu discurso preparado e entregue, ele os ...

Do Livro do Gênesis ao magistério dos Papas

Destaca-se que a Nota oferece também um amplo excursus teológico, filosófico e poético sobre o tema da monogamia, a partir do capítulo 2 do Gênesis (“Os dois serão uma só carne”) e passando pelos Padres da Igreja, entre os quais Santo Agostinho, que descreve a beleza da unidade conjugal como “um caminhar juntos, lado a lado”. Não faltam, depois, referências aos principais pronunciamentos magisteriais sobre o tema: de Leão XIII, que liga a defesa da monogamia à defesa da dignidade da mulher, a Pio XI, autor da encíclica Casti connubii. São numerosas, ainda, as citações do Concílio Vaticano II, nas quais se evidencia como o amor monogâmico é espelho da “igual dignidade de cada um dos cônjuges”.

Paulo VI e João Paulo II

Ulteriores reflexões surgem a partir de passagens de São Paulo VI que, na encíclica Humanae vitae, sublinha sim o significado procriativo do matrimônio, mas, ao mesmo tempo, mostra também outro, inseparável do primeiro, isto é, o significado unitivo. De São João Paulo II recorda-se, por sua vez, a “hermenêutica do dom”: o ser humano, imagem de Deus, foi criado para doar-se ao outro e somente nessa doação de si realiza o verdadeiro significado de sua existência. Além disso, porque Deus fez o homem à sua semelhança criando-o homem e mulher, daí decorre que “a humanidade, para se assemelhar a Deus, deve ser um casal”.

O jovem Karol Wojtyła

De Karol Wojtyła retoma-se também a reflexão filosófica realizada quando jovem bispo, particularmente o “princípio personalista” que exige “tratar a pessoa de modo correspondente ao seu ser” e não como “um objeto a serviço de outra pessoa”, como acontece na poligamia. Ao mesmo tempo, o futuro Pontífice nega a tese rigorista que vê a sexualidade matrimonial apenas como finalidade procriativa, sustentando, ao contrário, que “existe uma alegria conforme” tanto à união física quanto à dignidade da pessoa. Porque o outro pode ser amado como pessoa e, “ao mesmo tempo, desejado”.

Na introdução que preparou para o livro "Youcat. Amor para sempre", publicado pela fundação editora do Catecismo oficial para os jovens da Igreja Católica, Francisco compara os ...

Bento XVI e Francisco

Amplos trechos remetem também a Deus caritas est e Amoris laetitia: com a primeira encíclica de Bento XVI recorda-se que o matrimônio acolhe e leva a cumprimento “aquela força arrebatadora que é o amor, o qual, em sua dinâmica de exclusividade e definitividade, não quer mortificar a liberdade humana”, mas sim “abre a vida a um horizonte de eternidade”. Da exortação apostólica do Papa Francisco retoma-se em particular o capítulo IV, com uma descrição detalhada do amor e da caridade conjugal.

Leão XIV

Por fim, de Leão XIV cita-se sobretudo a mensagem para o décimo aniversário da canonização de Louis e Zélie Martin, pais de Santa Teresa do Menino Jesus. Nela, o Pontífice descreve os esposos como “um modelo de fidelidade e de atenção ao outro; de fervor e perseverança na fé; de educação cristã dos filhos; de generosidade no exercício da caridade e da justiça social; um modelo também de confiança na provação”.

Alguns filósofos do século XX

O documento do DDF percorre também o pensamento de alguns filósofos do século XX, como Emmanuel Lévinas, o qual vê na união exclusiva do matrimônio “um face a face” que “reivindica para si o pertencimento recíproco exclusivo e não transferível para fora daquele ‘nós dois’”. Daí decorre que “a poligamia, o adultério ou o poliamor se fundamentam na ilusão de que a intensidade da relação possa ser encontrada na sucessão de rostos”. Do pensador Jacques Maritain recorda-se, por sua vez, a concepção do amor como “uma completa e irrevogável doação de um ao outro”, na busca do bem do outro até a união total com Deus.

“Sub Regula Augustini” é o tema do encontro internacional que está sendo realizada no Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. Mais de uma centena de especialistas, acadêmicos, ...

A palavra poética

Um capítulo à parte é dedicado à “palavra poética”: os versos célebres de autores como Whitman, Neruda, Montale, Tagore e Dickinson aprofundam o sentido de pertencimento que se experimenta no “nós dois” e que chega a ser percebido como totalizante, indestrutível e intransferível. Porque, ao final, como dizia Santo Agostinho, “Dá-me um coração que ama e compreenderá o que digo”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A impressionante lista dos 117 santos mártires assassinados por ódio à fé no Vietnã

Nheyob / CC BY-NC 2.0

Aleteia Brasil - publicado em 24/11/17 - atualizado em 24/11/25

E são apenas os que puderam ser identificados...

A evangelização chegou ao Vietnã no século XVI e, enquanto muitos acolheram Jesus Cristo com alegria logo de início, também começou rapidamente uma perseguição brutal contra os cristãos.

Milhares de vietnamitas foram martirizados, entre eles bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, incluindo alguns missionários espanhóis e franceses; embora muitos deles tenham sido enterrados de forma anônima, a sua lembrança ainda permanece bem viva na comunidade católica.

Desse grupo de valentes cristãos, São João Paulo II canonizou 117 católicos cujos nomes foram identificados. A canonização foi celebrada em 1988 e a festa litúrgica desses mártires foi fixada no dia 24 de novembro.

Dos 117 mártires canonizados, 75 foram decapitados, 22 estrangulados, 6 queimados vivos, 5 esquartejados e 9 condenados a morrer na cadeia, sofrendo torturas.

Public Domain

Esta é a impressionante lista desses 117 santos mártires do Vietnã:

1. André DUNG-LAC, Sacerdote 21-12-1839

2. Domingos HENARES, Bispo O.P. 25-06-1838

3. Clemente Inácio DELGADO CEBRIAN, Bispo O.P. 12-07-1838

4. Pedro Rosa Úrsula BORIE, Bispo M.E.P. 24-11-1838

5. José Maria DIAZ SANJURJO, Bispo O.P. 20-07-1857

6. Melchior GARCIA SAMPEDRO SUAREZ, Bispo O.P. 28-07-1858

7. Jerônimo HERMOSILLA, Bispo O.P. O1-11-1861

8. Valentim BERRIO OCHOA, Bispo O.P. 01-11-1861

9. Estevão Teodoro CUENOT, Bispo M.E.P. 14-11-1861

10. Francisco GIL DE FEDERICH, Sacerdote O.P. 22-O1-1745

11. Mateus ALONSO LECINIANA, Sacerdote O.P. 22-O1-1745

12. Jacinto CASTANEDA, Sacerdote O.P. 07-11-1773

13. Vicente LE OUANG LIEM, Sacerdote O.P. 07-11-1773

14. Emanuel NGUYEN VAN TRIEU, Sacerdote 17-09-1798

15. João DAT, Sacerdote 28-10-1798

16. Pedro LE TuY, Sacerdote 11-10-1833

17. Francisco Isidoro GAGELIN, Sacerdote M.E.P. 17-10-1833

18. José MARCHAND, Sacerdote M.E.P. 30-11-1835

19. João Carlos CORNAY, Sacerdote M.E.P. 20-09-1837

20. Vicente DO YEN, Sacerdote O.P. 30-06-1838

21. Pedro NGUYEN BA TUAN, Sacerdote 15-07-1838

22. José FERNANDEZ, Sacerdote O.P. 24-07-1838

23. Bernardo VU VAN DUE, Sacerdote 01-08-1838

24. Domingos NGUYEN VAN HANH (DIEU), Sacerdote O.P. 01-08-1838

25. Santiago Do MAI NAM, Sacerdote 12-08-1838

26. José DANG DINH (NIEN) VIEN, Sacerdote 21-08-1838

27. Pedro NGUYEN VAN TU, Sacerdote O.P. 05-09-1838

28. Francisco JACCARD, Sacerdote M.E.P. 21-09-1838

29. Vicente NGUYEN THE DIEM, Sacerdote 24-11-1838

30. Pedro VO BANG KHOA, Sacerdote 24-11-1838

31. Domingos TUOC, Sacerdote O.P. 02-04-1839

32. Tomás DINH VIET Du, Sacerdote O.P. 26-11-1839

33. Domingos NGUYEN VAN (DOAN) XUYEN, Sacerdote O.P. 26-11-1839

34. Pedro PHAM VAN TIZI, Sacerdote 21-12-1839

35. Paulo PHAN KHAc KHOAN, Sacerdote 28-04-1840

36. José DO QUANG HIEN, Sacerdote O.P. 09-05-1840

37. Lucas Vu BA LOAN, Sacerdote 05-06-1840

38. Domingos TRACH (DOAI), Sacerdote O.P. 18-09-1840

39. Paulo NGUYEN NGAN, Sacerdote 08-11-1840

40. José NGUYEN DINH NGHI, Sacerdote 08-11-1840

41. Martinho TA Duc THINH, Sacerdote 08-11-1840

42. Pedro KHANH, Sacerdote 12-07-1842

43. Agostinho SCHOEFFLER, Sacerdote M.E.P. 01-05-1851

44. João Luís BONNARD, Sacerdote M.E.P. 01-05-1852

45. Felipe PHAN VAN MINH, Sacerdote 03-07-1853

46. Lourenço NGUYEN VAN HUONG, Sacerdote 27-04-1856

47. Paulo LE BAo TINH, Sacerdote 06-04-1857

48. Domingos MAU, Sacerdote O.P. 05-11-1858

49. Paulo LE VAN Loc, Sacerdote 13-02-1859

50. Domingos CAM, Sacerdote T.O.P. 11-03-1859

51. Pedro DOAN LONG QUY, Sacerdote 31-07-1859

52. Pedro Francisco NERON, Sacerdote M.E.P. 03-11-1860

53. Tomás KHUONG, Sacerdote T.O.P. 30-01-1861

54. João Teofano VENARD, Sacerdote M.E.P. 02-02-1861

55. Pedro NGUYEN VAN Luu, Sacerdote 07-04-1861

56. José TUAN, Sacerdote O.P. 30-04-1861

57. João DOAN TRINH HOAN, Sacerdote 26-05-1861

58. Pedro ALMATO RIBERA, Sacerdote O.P. 01-11-1861

59. Paulo TONG VIET BUONG, Leigo 23-10-1833

60. André TRAN VAN THONG, Leigo 28-11-1835

61. Francisco Javier CAN, Catequista 20-11-1837

62. Francisco DO VAN (HIEN) CHIEU, Catequista 25-06-1838

63. José NGUYEN DINH UPEN, Catequista T.O.P. 03-07-1838

64. Pedro NGUYEN DicH, Leigo 12-08-1838

65. Miguel NGUYEN HUY MY, Leigo 12-08-1838

66. José HOANG LUONG CANH, Leigo T.O.P. 05-09-1838

67. Tomás TRAN VAN THIEN, Seminarista 21-09-1838

68. Pedro TRUONG VAN DUONG, Catequista 18-12-1838

69. Paulo NGUYEN VAN MY, Catequista 18-12-1838

70. Pedro VU VAN TRUAT, Catequista 18-12-1838

71. Agostinho PHAN VIET Huy, Leigo 13-06-1839

72. Nicolau BUI DUC THE, Leigo 13-06-1839

73. Domingos (Nicolau) DINH DAT, Leigo 18-07-1839

74. Tomás NGUYEN VAN DE, Leigo T.O.P. 19-12-1839

75. Francisco Javier HA THONG MAU, Catequista T.O.P. 19-12-1839

76. Agostinho NGUYEN VAN MOI, Leigo T.O.P. 19-12-1839

77. Domingos Bui VAN UY, Catequista T.O.P. 19-12-1839

78. Estevão NGUYEN VAN VINTI, Leigo T.O.P. 19-12-1839

79. Pedro NGUYEN VAN HIEU, Catequista 28-04-1840

80. João Batista DINH VAN THANH, Catequista 28-04-1840

81. Antônio NGUYEN HUU (NAM) QUYNH, Leigo 10-07-1840

82. Pedro NGUYEN KHAC Tu, Catequista 10-07-1840

83. Tomás TOAN, Catequista T.O.P. 21-07-1840

84. João Batista CON, Leigo 08-11-1840

85. Martinho THO, Leigo 08-11-1840

86. Simão PHAN DAc HOA, Leigo 12-12-1840

87. Inês LE THi THANH (DE), Leiga 12-07-1841

88. Mateus LE VAN GAM, Leigo 11-05-1847

89. José NGUYEN VAN Luu, Catequista 02-05-1854

90. André NGUYEN Kim THONG (NAM THUONG), Catequista 15-07-1855

91. Miguel Ho DINH HY, Leigo 22-05-1857

92. Pedro DOAN VAN VAN, Catequista 25-05-1857

93. Francisco PHAN VAN TRUNG, Leigo 06-10-1858

94. Domingos PHAM THONG (AN) KHAM, Leigo T.O.P. 13-01-1859

95. Lucas PHAM THONG (CAI) THIN, Leigo 13-01-1859

96. José PHAM THONG (CAI) TA, Leigo 13-01-1859

97. Paulo HANH, Leigo 28-05-1859

98. Emanuel LE VAN PHUNG, Leigo 31-07-1859

99. José LE DANG THI, Leigo 24-10-1860

100. Mateus NGUYEN VAN (NGUYEN) PHUONG, Leigo 26-05-1861

101. José NGUYEN DUY KHANG, Catequista T.O.P. 06-11-1861

102. José TUAN, Leigo 07-01-1862

103. José TUC, Leigo 01-06-1862

104. Domingos NINH, Leigo 02-06-1862

105. Domingos TORI, Leigo 05-06-1862

106. Lourenço NGON, Leigo 22-05-1862

107; Paulo (DONG) DUONG, Leigo 03-06-1862

108. Domingos HUYEN, Leigo 05-06-1862

109. Pedro DUNG, Leigo 06-06-1862

110. Vicente DUONG, Leigo 06-06-1862

111. Pedro THUAN, Leigo 06-06-1862

112. Domingos MAO, Leigo 16-06-1862

113. Domingos NGUYEN, Leigo 16-06-1862

114. Domingos NHI, Leigo 16-06-1862

115. André TUONG, Leigo 16-06-1862

116. Vicente TUONG, Leigo 16-06-1862

117. Pedro DA, Leigo 17-06-1862

________

Fonte: https://pt.aleteia.org/2017/11/24/a-impressionante-lista-dos-117-santos-martires-assassinados-por-odio-a-fe-no-vietna/

Papa aos Servos de Maria: sejam sinais de paz num mundo marcado por conflitos

Papa Leão XIV com membros dos Servos de Maria (@Vatican Media)

"Ser Servos em um mundo polarizado, construir o que nos une valorizando as diferenças" é o tema do Capítulo Geral dos Servos de Maria, Ordem quase única na história das congregações religiosas, pois não nasceu em torno de um único fundador, mas de um grupo de sete amigos.

Vatican News

O Papa Leão XIV recebeu em audiência na manhã desta segunda-feira, 24 de novembro, os participantes do Capítulo Geral de número 215 dos Servos de Maria. Todo evento do gênero, afirmou o Pontífice em seu discurso, constitui um retorno às fontes e, ao mesmo tempo, um olhar para o futuro. As duas coisas não podem ser separadas: quanto mais se volta às origens, mais capaz se torna de criatividade e profecia.

Retornar às fontes significa recuperar três dimensões: o Evangelho, a Regra - neste caso a de Santo Agostinho - e o clamor dos pobres, expresso pelo tema do Capítulo: "Ser Servos em um mundo polarizado, construir o que nos une valorizando as diferenças".

Papa discursa aos Servos de Maria   (@Vatican Media)

Portadores de amizade e paz

E para que possam viver esse retorno triplo ao máximo, não só nestes dias, mas sempre, o Santo Padre recomendou três meios, típicos da própria tradição: fraternidadeserviço e espiritualidade mariana.

Quanto à primeira, a fraternidade, Leão XIV ressaltou o fato de que a Ordem dos Servos de Maria é um caso quase único na história das congregações religiosas, pois não nasceu em torno de um único fundador, um  líder carismático, mas em torno de um grupo de sete amigos: um verdadeiro grupo evangélico.

“Em um mundo como o nosso, isso é sinal de uma tarefa e vocação particulares: viver e trazer fraternidade, especialmente onde as pessoas estão divididas por conflitos, riqueza, diferenças culturais, raça ou religião. Em todos esses contextos, vocês são chamados a serem portadores de amizade e paz, assim como os "Sete" que, em suas cidades, embora divididos por ódios fratricidas, tornaram-se portadores de reconciliação e caridade.”

A vida segundo o Evangelho

E isso leva ao segundo meio: o serviço. É significativo ter escolhido ser e se chamar "Servos", e que a fundação tenha dado seus primeiros passos no contexto de um hospício para os pobres: o Hospital Fonte Viva del Bigallo. Lá, seus fundadores se colocaram a serviço dos doentes, peregrinos, mulheres pobres: em suma, os últimos de seu tempo. A vida segundo o Evangelho é assim, disse o Papa: “é a paixão por Deus e pelo homem, que nos leva a amar o céu e a terra com a mesma intensidade”.

Leão XIV encorajou os membros da Ordem em seu serviço aos pobres – imigrantes, presos, doentes – assim como em seu compromisso de promover uma ecologia integral para a proteção da criação e das pessoas nos lugares onde trabalha.

Por fim, o terceiro meio: espiritualidade mariana. O Pontífice enalteceu o trabalho realizado por meio da Faculdade Teológica Marianum, bem como pelo cuidado pastoral dos muitos santuários marianos que lhe foram confiados.

“Queridos amigos, que Maria, presente na Cruz, forte e fiel, mostre a vocês como estar ao lado das inúmeras cruzes onde Cristo ainda sofre em seus irmãos e irmãs, para trazer conforto, comunhão, ajuda e o precioso pão do afeto”, concluiu o Santo Padre, concedendo a todos a sua bênção apostólica.

Papa Leão XIV com membros dos Servos de Maria (@Vatican Media)
Papa Leão XIV com membros dos Servos de Maria (@Vatican Media)
Papa Leão XIV com membros dos Servos de Maria (@Vatican Media)

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

JOÃO PAULO I: Aquele encontro em Fátima (Parte 2/2)

Albino Luciani com Monsenhor Mario Senigaglia, secretário do Patriarca de setembro de 1969 a outubro de 1976, em Veneza, em 1970 | 30Giorni.

JOÃO PAULO I

Arquivo 30Dias nº 01 – 2007

Aquele encontro em Fátima

Em julho de 1977, Albino Luciani conheceu a Irmã Lucia. Como aconteceu esse encontro e como ele se desenrolou? Pela primeira vez, o secretário do Patriarca Luciani relata e revela... Uma entrevista com Monsenhor Mario Senigaglia.

Entrevista com Mario Senigaglia por Stefania Falasca

Ela encontrou Luciani ao retornar de Fátima. O que ele lhe disse?
SENIGAGLIA: Lembro-me de entrar em seu escritório e ele dizer: "Sente-se". Isso significava que ele estava disposto a conversar. Ele me contou sobre a viagem, a atmosfera de oração autêntica e os comoventes atos de penitência que presenciou em Fátima. Sobre os peregrinos que fizeram a longa jornada descalços sobre as pedras da esplanada , sob o sol, e sobre as mulheres piedosas que, quando necessário, tratavam os pés desses peregrinos na chegada. Falamos então sobre a diferença com Lourdes e depois novamente sobre essas diferentes formas de piedade, e conforme a conversa prosseguia, em certo momento, perguntei-lhe sobre Coimbra: "Sei que o senhor esteve lá e também teve a oportunidade de conhecer a Irmã Lúcia..." E ele disse: "Sim, sim, eu a vi... Ah! ' Essa freira bendita '", disse-me ele, "ela pegou minhas mãos nas suas e começou a falar..." Ele ficou ali parado, pensando por um instante, com as mãos juntas, e continuou: "... Essas freiras malditas, uma vez que começam a falar, nunca mais param..." Ele me disse, porém, que não havia falado sobre as aparições e que apenas lhe perguntara algo sobre a famosa "dança do sol".

E depois?
SENIGAGLIA: E foi isso. Chegamos ao cerne da questão veneziana. Antes de encerrar o assunto, porém, eu lhe disse, já que eu era o editor da Gente Veneta na época : "Sua Eminência, por que o senhor não escreve um artigo sobre esse encontro?" E ele disse: "Está bem, com prazer, farei isso." E foi isso que ele escreveu em seguida.

Ele se refere ao relatório publicado em 23 de julho de 1977...
SENIGAGLIA: Exatamente. E lá ele escreveu o que havia me mencionado e tudo o que tinha em mente dizer sobre o assunto. Ele escreveu, não sem seu habitual bom humor , sobre a natureza jovial e a fala rápida da pequena freira, que insistia com tanta energia e convicção na necessidade de freiras, padres e cristãos com cabeças fortes hoje, e sobre o interesse apaixonado que ela demonstrava, em seu discurso, por tudo o que dizia respeito à Igreja e seus problemas urgentes. Ele então escreveu que as revelações, mesmo as aprovadas, não são artigos de fé, que se pode pensar o que quiser sobre o assunto sem prejudicar a própria fé, e concluiu com o que sempre repetia sobre o significado desses lugares marianos, ou seja: que aparições, não aparições, mensagens, não mensagens, os santuários estão lá apenas para nos lembrar do ensinamento do Evangelho, que é orar.

Ele alguma vez voltou a abordar esse assunto com ela?
SENIGAGLIA: Não. Terminou aí. E, para ser honesta, eu nem estava curiosa o suficiente para perguntar mais nada. Mesmo que houvesse oportunidades, se quiséssemos. No dia 26 daquele mesmo mês, partimos juntas para o santuário mariano de Pietralba, no Alto Adige, como fazíamos todos os anos. E ficamos lá até 5 de agosto. Dez dias. Lembro-me de que passamos esses dias tranquilamente, fazendo longas caminhadas nas montanhas.

E a Marquesa, teve a oportunidade de vê-la novamente depois? O que ela lhe disse sobre esse encontro?
SENIGAGLIA: Eu a vi novamente em Veneza, em setembro, durante a Bienal. Ela me disse que havia ficado satisfeita com a peregrinação. Que a Irmã Lúcia também havia ficado satisfeita e que, conversando com ela depois, a freira lhe disse que achava Luciani uma pessoa maravilhosa.

Ela fez alguma outra referência às palavras da Irmã Lúcia?
SENIGAGLIA: Não.

Mas isso não significa que eles não quisessem relatar outra coisa... Luciani anotava fatos e reflexões estritamente pessoais?
SENIGAGLIA: Diários pessoais... Ele não mantinha nenhum. Nem mesmo o tipo de diário espiritual, como os diários da alma de Roncalli, por exemplo. Deixe-me contar um episódio.

Histórias...
SENIGAGLIA: Após a morte do Cardeal Urbani, antecessor de Luciani na Sé de Veneza, de quem eu era secretário e cujo testamento fui nomeado executor, me vi com uma grande quantidade de seus escritos particulares com referências a pessoas, coisas e até eventos delicados. Então, fui pedir conselhos a Luciani sobre como deveria proceder a esse respeito. Ele me deu seus conselhos e, em seguida, comentou rindo: "Dom Mario, não se preocupe, no que me diz respeito, nunca lhe darei esses problemas."

Portanto, não há anotações particulares sobre esse encontro...
SENIGAGLIA: Esse tipo de escrita não era exatamente da sua natureza, do seu estilo. Metódico e organizado, ele possuía, no entanto, um vasto arquivo de anotações e esboços de suas leituras. Uma rica biblioteca de notas, na qual os tópicos eram divididos em temas e que ele continuamente reabastecia com critérios jornalísticos. Elas eram rabiscadas em diários antigos e naqueles cadernos que ele usava antes, com linhas, capa preta e borda vermelha. E esse arquivo era usado por ele para preparar sermões, discursos ou artigos de jornal. Quando foi a Roma para o conclave, ligou para mim e pediu que eu lhe enviasse os diários nos quais havia anotado suas observações sobre os documentos do Concílio. Quando fez seus primeiros discursos como Papa, eu poderia dizer de qual diário e qual página ele havia retirado as informações: eram os escritos dos quais ele tantas vezes se inspirava para seus discursos. Portanto, para entender seus pensamentos e sua postura, inclusive em relação aos eventos de Fátima, basta observar o que ele disse e escreveu publicamente.

Ele já havia falado sobre os eventos de Fátima?
SENIGAGLIA: Sim. Extensivamente. Mesmo no septuagésimo aniversário das aparições. Ele revisitou a história delas, a atitude da Igreja e a atitude que os fiéis deveriam ter em relação a esses eventos. Seu pensamento era marcado por extrema cautela, que também considerava inadequados aqueles que, aceitando as aparições como verdadeiras, as exploravam, distorcendo-as para servir a propósitos políticos ou similares, sem relação com as próprias aparições. Em suma, esses escritos nos falam sobre sua maneira de avaliar e julgar os eventos, e também sobre sua maneira de ser, de se relacionar, que é a de um homem impermeável a sugestões, equilibrado, focado no essencial e que observa com uma ironia sutil, aguda e desmistificadora. Ele desmistificava tudo. Até mesmo a si próprio e seus próprios encontros.

Um ano depois, em março de 1978, porém, houve um episódio que esteve na raiz de declarações subsequentes sobre aquele encontro em Fátima. Luciani contou ao irmão, Edoardo, que havia conhecido a Irmã Lúcia e, vendo-o transtornado, Edoardo associou esse fato às previsões que a freira havia feito sobre o seu futuro…
SENIGAGLIA: Essas são impressões, hipóteses, deduções pessoais que Edoardo expressou imediatamente após a morte do irmão. E para as quais não posso responder. Edoardo, porém, não sabia como essa circunstância havia se desenrolado. Luciani apenas lhe disse que havia conhecido a Irmã Lúcia. Nada mais.

O cardeal Albino Luciani atravessa a Praça de São Marcos, que está inundada pela cheia | 30Giorni.

Mas essa inquietação permanece...
SENIGAGLIA: Mas quantas vezes, quando fomos visitar as freiras enclausuradas em Veneza, eu o ouvi comentar depois: "Essas mulheres abençoadas... elas nunca saem e não perdem nada... elas conhecem os problemas da Igreja melhor do que nós!" Ele conversou com a Irmã Lúcia sobre essas coisas em geral. Sobre a Igreja com seus problemas atuais e agudos, o perigo da apostasia. Ele disse isso. E então ele pode ter voltado a refletir sobre isso, não sem preocupação.

Em resumo, você nunca deu importância a esse encontro, nunca o relacionou à eleição de Luciani e à sua morte repentina...
SENIGAGLIA: Não. Nem antes nem depois de sua morte. Eu lhe disse. Veja, eu vi Luciani novamente naquela manhã, quando ele saiu de Veneza para o conclave. Ele estava preparado para o que aconteceria naquele conclave; ele sabia, estava ciente disso. Assim como os outros. Nenhuma surpresa. Bispos e cardeais de todo o mundo vieram visitá-lo em Veneza. Todos o conheciam, todos o respeitavam. Afinal, ele já havia sido escolhido em 1972. Aqui mesmo, em Veneza, Paulo VI colocou a estola sobre seus ombros. É sabido. Aquilo foi mais do que uma verdadeira profecia ad personam . E diante dos olhos de todos. Mais do que isso... não havia necessidade de mais nada. Então, isso é tudo, no que diz respeito a Luciani. Quanto a Cadaval...

Quanto a Cadaval?
SENIGAGLIA: Ela morreu quase centenária em 1997. Vinte anos depois daquele encontro em Coimbra, portanto. E até o fim permaneceu ativa e lúcida. Ela nunca fez qualquer alusão, nem eu jamais intuí, por suas palavras, o menor indício da premonição ou das profecias da Irmã Lúcia a respeito de Luciani. No ano anterior à morte de Cadaval, em junho de 1996, enquanto eu estava em Fátima para exercícios espirituais, celebrei missa no convento de Coimbra com outro sacerdote, e a Marquesa também nos permitiu encontrar brevemente a Irmã Lúcia. Ela até gentilmente nos ofereceu um carro para nos levar e trazer de volta. Isso também diz muito sobre a amizade que se desenvolveu e continuou ao longo do tempo com ela, e sobre quantas oportunidades eu tive, em todos esses anos desde a morte de Luciani, de vê-la e conversar com ela.

Com licença... mas por que você nunca me contou todas essas coisas antes?
SENIGAGLIA: ...Eles não me perguntaram. Se tivessem perguntado, eu teria respondido. Se tudo se transforma em um conto de fadas, estamos apenas perdendo tempo perseguindo fantasias.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF