Aleteia
Brasil - publicado em 13/04/17
O rito do Lava-Pés, na Quinta-Feira
Santa, contém um duplo significado, à luz do Evangelho de João:
– uma imitação do gesto realizado por Cristo ao lavar os pés
dos Apóstolos no Cenáculo;
– a expressão do doar-se a si mesmo, exemplificada com
aquele ato.
Não por acaso, o gesto é chamado de “mandatum” (“mandamento”) na
antífona recitada na cerimônia: “Mandatum novum do vobis, ut diligatis
invicem, sicut dilexi vos, dicit Dominus” (“Um novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros como eu vos amei, diz o Senhor“; João 13,34).
De fato, o mandamento do amor fraternal compromete todos
os discípulos de Jesus, sem qualquer distinção ou exceção. Em instruções
litúrgicas do século VII já lemos a indicação de que o Pontífice e todos os
membros do clero devem realizar o rito do lava-pés, o que também pode ser
conferido, com variações em diferentes dioceses e abadias, no Pontifical Romano
do século XII, no Pontifical da Cúria Romana do século XIII e no Missal Romano
do Papa São Pio V, de 1570, que diz:
“Post denudationem altarium
(…) conveniunt clerici ad faciendum mandatum. Maior abluit pedes minoribus:
tergit et osculatur”
(“Após o desnudamento do
altar, os clérigos procedem ao cumprimento do ‘mandatum’. O maior lava os pés
dos menores, os enxuga e os beija”).
O “mandatum“, em sua essência, não é reservado ao
clero: o seu sentido é o de colocarmos em prática o serviço humilde a todos os
nossos irmãos, conforme o exemplo de Jesus a todos os seus discípulos.
Precisamente por isso, o rito do lava-pés, ao longo da
história da Igreja, não foi necessariamente
reservado a doze clérigos ou a doze homens. No “De Mandato seu
lotione pedum” (“Sobre o ‘mandatum’ ou lava-pés“), que consta
no Caeremoniale Episcoporum de 1600, é mencionada a tradição
de que o bispo deve lavar, enxugar e beijar os pés de “treze” pessoas pobres,
após tê-las vestido e alimentado e ter-lhes ofertado esmola em caridade. O
ato poderia igualmente ser conduzido com religiosos, de acordo com os costumes
locais ou a determinação do bispo, mas não de modo obrigatório.
As mudanças mais recentes no rito estabelecem que quaisquer
indivíduos podem ser escolhidos dentre o povo de Deus, já que a
significação do rito não se limita a uma imitação exterior do gesto de Jesus;
trata-se de expressar o sentido profundo do ato realizado por
Ele: doar-se “até o fim” pela salvação da humanidade, ato que assume
importância universal.
O amor de Cristo, abrangendo toda a humanidade,
faz de todas as pessoas irmãos e irmãs pela força do Seu
exemplo. O “mandatum” deixado por Ele nos convida a transcender o ato
físico de lavar os pés do outro para vivenciar o pleno sentido desse
gesto: servir, com amor palpável, ao próximo.
Os 3 verbos do lava-pés, segundo o Papa Francisco
Na audiência geral que antecedeu a Semana Santa de 2016,
o Papa Francisco abordou o significado do lava-pés, esse ato
de Jesus na Última Ceia que foi “tão inesperado e chocante” a ponto de
que “Pedro nem queria aceitá-lo”.
Quando se abaixou até os pés dos discípulos e os lavou,
Jesus quis deixar claro que se fez servo e que nós
também devemos ser servos uns dos outros: “Também vós deveis lavar
os pés uns dos outros”, afirma Ele, explicitamente, em Jo 13,12-14.
SERVIR
Ser “servos” uns dos outros nada tem a ver com “servilismo”
ou “escravidão”: trata-se do “mandamento novo” do amor real ao próximo através
do “serviço concreto”, e não apenas “de palavra”. O amor é um “serviço
humilde”, concretizado “no silêncio”: “Não saiba a tua mão esquerda o que
faz a direita”, pede Ele, em Mt 6,3.
PERDOAR
O lava-pés representa o chamado de Jesus a “confessarmos
os nossos pecados e a rezarmos uns pelos outros, para saber-nos perdoar de
coração”. O papa Francisco evocou neste sentido um texto de Santo
Agostinho: “Não desdenhe o cristão fazer aquilo que Cristo fez. Porque
quando o corpo se inclina até o pé do irmão, acende-se no coração o sentimento
de humildade, ou, já se existisse, é alimentado (…) Perdoemo-nos os nossos
erros e rezemos uns pelo perdão dos pecados dos outros. Assim, de algum modo,
lavaremos nossos pés mutuamente”.
AJUDAR
O papa recordou as pessoas que vivem a vida inteira “no
serviço dos outros” e, como exemplo, contou que recebeu uma carta de uma pessoa
agradecida por este ano da misericórdia: a pessoa em questão “me pediu rezar
por ela, para que ela esteja mais perto de nosso Senhor. A vida dessa pessoa
era cuidar da mãe e do irmão; a mãe está de cama, idosa, lúcida, mas sem poder
se mexer; e o irmão é deficiente, numa cadeira de rodas”. Francisco resumiu
duas vezes este caso declarando: “Isto é amor!”.
Conclusão
O Papa Francisco encerrou a audiência com uma frase que
sintetiza toda a mensagem:
“Queridos irmãos e irmãs: ser
misericordiosos como o Pai significa seguir Jesus no caminho do serviço”.


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