PAIXÃO DE JESUS
30/03/2026
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
O grande compositor alemão Johann Sebastian Bach
(1685-1750), dentre inumeráveis e belíssimas composições, deixou-nos uma solene
interpretação da Paixão de Jesus Cristo segundo João, intitulada
simplesmente Johannespassion. O grande músico compôs sua
obra à base dos capítulos 18 e 19 do IV Evangelho, extraídos da tradução
luterana, introduzindo textos poéticos, em forma de comentários,
de Barthold Heinrich Brockes, contidos no hinário luterano. A
estreia da obra se deu em grande estilo na igreja de São Nicolau, em Leipzig,
na Sexta-feira Santa, 07 de Abril de 1724.
Além da orquestra, coro e vozes principais, tenor, baixo,
soprano e contralto, Bach acrescentou um grande coral para interpretar a
participação do povo na trágica narrativa da Paixão de Jesus Cristo. Este
exuberante conjunto musical manifesta a grandiosidade do ato cantado em estilo
barroco. A musicalidade daí emanada transporta o ouvinte a uma profunda
reflexão e espiritualidade. Os textos poéticos, intercalados nas perícopes do
IV Evangelho, ajudam nesta reflexão e fazem resplandecer a beleza da narrativa
joanina. Apresentaremos, a seguir, três destes textos de Brockes.
O primeiro deles precede a perícope de Jo 18,1-14.
Trata-se de um intróito a toda a narrativa que se segue. Em
grande estilo, o coro brada: “Senhor, nosso Redentor, a cuja glória
em toda a terra é senhora, mostra-nos, através da tua paixão, que tu,
verdadeiro Filho de Deus, por todos os tempos, até na maior humilhação, foste
glorificado”. Trata-se de um “aperitivo” ao que se vai ouvir e assistir a
seguir: o drama da Paixão, desde o Jardim do Getsêmani, até o Jardim do Gólgota.
Bem mais à frente, após a apresentação da ária número 30
“Tudo está consumado!”, entra a narrativa do tenor a anunciar “e
inclinando a cabeça, entregou o Espírito”. Daí tem início a segunda
referência que desejamos apresentar, comentando a morte de Jesus. Dirigindo-se
ao crucificado, o baixo lhe interroga, em magnífico monólogo: “Meu amado
Salvador, deixa que te pergunte: agora que foste crucificado e
disseste ‘Tudo está consumado!’, sou eu livre da morte? Posso, pelo teu
sofrimento e morte, herdar o reino dos céus? Todo o mundo foi salvo? Certo, tu
não podes responder-me por causa de tuas dores, mas inclina a cabeça e
diga em silêncio: ‘Sim’”. E o coro entoa, em grande estilo, com arranjos
variados: Consumatum est!
Por fim, a última referência que aqui trago é do gran finale da
apresentação. Após a recitação do último texto joanino, 19,38-42, o coro entoa
uma espécie de réquiem, embalando o descanso do Senhor. Daí entra o coral, que
assume a voz de todo o povo, aclamando em oração: “Ah, Senhor, deixa que os
teus doces anjos, no último instante da vida, portem ao seio de Abraão o
meu espírito; que o corpo, na sua câmara, bem docemente, sem pena e tormento,
repouse até o dia novíssimo. Então, acorda-me da morte, que os meus olhos
possam contemplar-te na plena glória, ó Filho de Deus, meu Salvador e trono de
graça! Senhor Jesus Cristo, ouve-me: eu desejo louvar-te eternamente!”
A obra retrata a teologia própria que emana de um tempo e
uma espiritualidade específicos: o barroco. Mesmo não sendo uma
teologia atual, à luz do Concílio Vaticano II, a beleza poética dos
comentários de Brockes, alinhavados ao texto
joanino, e à riqueza da música de Bach nos fazem vislumbrar
a beleza da arte inspirada no cristianismo, que, por sua parte, manifesta a
beleza da salvação da humanidade. Dostoievski tinha razão: é a
beleza que salva o mundo. Não se trata de uma beleza que
segue padrões de visibilidade. Trata-se de uma beleza que une estética com a
ética, corpo desfigurado que remete à oblação incondicional à humanidade.
A Palavra de Deus, unida à arte, nos apresenta esta
beleza singular: Deus que passa pela experiência da paixão e morte para gerar
vida e vida em abundância (Jo 10,10). Vida que se extingue para gerar vida
nova. É o grão de trigo semeado na terra. Se morre, produzirá muito fruto
(cf. Jo 12,24). É essa experiência de morte e vida de um Deus
apaixonado pela humanidade que celebramos nos dias da Semana Maior de nossa fé
cristã, a Semana Santa. Preparemo-nos para nos deparar com a beleza, não
somente de nossas liturgias e religiosidade popular, mas da vida
doada para a salvação do mundo!
Não basta ficar somente na admiração
da celebração. É preciso unir a fé com a vida. É preciso trazer a
celebração para o nosso cotidiano e observar que a Paixão de Jesus continua na
Paixão do mundo. É preciso constatar que Jesus continua a ser incompreendido,
injuriado e humilhado hoje. Quem procura seguir Jesus nos seus ensinamentos,
como seus verdadeiros discípulos-missionários, segue na direção da cruz, acaba
bebendo o mesmo cálice de sua paixão e morte (cf.
20,20-28). Os fiéis seguidores do Senhor não conseguem encontrá-lo
hoje, nos irmãos e irmãs que sofrem, e ficar indiferentes. Mesmo
perseguidos e exterminados, eles poderão ouvir do Rei-Pastor que separa as
ovelhas dos cabritos:
“Vinde, benditos de meu Pai. Recebei em herança o Reino que
meu Pai vos preparou desde a criação do mundo, pois eu estava com fome, e me
destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me
recebestes em casa; estava nu, e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na
prisão, e viestes até mim. (…) Em verdade, vos digo: todas as vezes que
fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o
fizestes” (Mt 25,34b-36.40b).

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