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terça-feira, 31 de março de 2026

Leão XIV convida a rezar pelos sacerdotes em crise

Papa Leão XIV em oração (Arquidiocese de Braga - PT)

A intenção de oração do Papa para o mês de abril enfatiza o acompanhamento humano e espiritual dos presbíteros que atravessam momentos de dificuldades..

Vatican News

Foi divulgada, nesta terça-feira (31/03), a mensagem de vídeo com a intenção de oração do Papa Leão XIV para o mês de abril, em que o Pontífice convida a rezar pelos sacerdotes em crise.

Através da Rede Mundial de Oração do Papa - com a campanha “Reza com o Papa” – o Santo Padre convida os cristãos e as pessoas de boa vontade a um breve tempo de oração, para reconhecer e aprofundar que por trás de cada ministério há uma vida que também necessita de cuidado, proximidade e escuta.

“Senhor Jesus, Bom Pastor e companheiro de caminhada, hoje colocamos nas tuas mãos todos os sacerdotes, especialmente os que atravessam momentos de crise, quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte do que a esperança.”

O Papa pede ao Senhor "que conhece as suas lutas e feridas", para que renove nos sacerdotes em crise "a certeza do seu amor incondicional".

Leão XIV afirma que os presbíteros "não são funcionários nem heróis solitários, mas filhos amados, discípulos humildes e estimados, e pastores amparados pela oração de seu povo".

Além disso, o Pontífice destaca a importância de redescobrir a dimensão comunitária do ministério sacerdotal.

“Pai bom, ensina-nos, como comunidade, a cuidar dos nossos presbíteros: a escutá-los sem julgar, a agradecer sem exigir perfeição, a partilhar com eles a missão batismal de anunciar o Reino com gestos e palavras, e a acompanhá-los com proximidade e oração sincera. Que saibamos amparar aqueles que tantas vezes nos amparam.”

O Papa reconhece que o cuidado dos sacerdotes é uma responsabilidade partilhada entre todo o Povo de Deus.

Em sua oração, o Papa pede ao Espírito Santo para reacender "nos nossos sacerdotes a alegria do Evangelho" e que eles possam contar com amizades saudáveis, "redes de apoio fraterno, sentido de humor quando as coisas não acontecem como esperavam, e com a graça de redescobrir sempre a beleza de sua vocação". Que eles não percam a confiança em Deusnem a alegria de servir à "Igreja com um coração humilde e generoso".

Sustentar fraternalmente aos que sustentam

O diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, pe. Cristóbal Fones, destaca que esta intenção de oração é algo particularmente importante: “O Papa nos recorda que temos que sustentar fraternalmente aos que nos sustentam. Eu mesmo sinto isto em minha experiência, convivendo com tantos companheiros e amigos sacerdotes que atravessam momentos difíceis. É fundamental recordar a importância do acompanhamento humano, da amizade sincera e, sobretudo, da força da oração que sustenta. Os sacerdotes precisam saber que não estão sozinhos”.

À luz do recente magistério da Igreja — desde o Concílio Vaticano II até os ensinamentos dos últimos pontífices — se evidencia que o sacerdote é um homem frágil que necessita de misericórdia, proximidade e compreensão. Por isso, a insistência para que não enfrentem sozinhos os momentos de desânimo, mas se deixem acompanhar e sustentar pela comunidade. A fraternidade sacerdotal, a vida partilhada e a oração do Povo de Deus são como fontes essenciais de graça, capaz de renovar sua vocação e sustentá-los em sua missão de cada dia.

“O Senhor não busca sacerdotes perfeitos”

Uma Igreja sinodal é também uma Igreja que cuida e sustenta a vocação dos sacerdotes, ajudando os presbíteros a serem pastores, irmãos e pessoas melhores. O Papa Francisco, em “O Vídeo do Papa” de julho de 2018, mostrou preocupação por seus irmãos sacerdotes, e disse: “O cansaço dos sacerdotes… Sabem quantas vezes penso nisso?”

Em 27 de junho de 2025, por ocasião do Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, o Papa Leão XIV dirigiu-se aos presbíteros com estas palavras: “Não tenham medo de sua fragilidade: o Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar como Ele mesmo nos amou”. Um dia antes, em 26 de junho de 2025, Leão XIV interpelou os participantes do encontro internacional “Sacerdotes felizes - «Eu vos chamo amigos», promovido pelo Dicastério para o Clero durante o Jubileu dos Sacerdotes, dizendo: “No coração do Ano Santo, queremos testemunhar juntos que é possível ser sacerdotes felizes, porque Cristo nos chamou, Cristo fez de nós seus amigos: é uma graça que queremos acolher com gratidão e responsabilidade”.

Como Rede Mundial de Oração do Papa queremos destacar que esta intenção não é somente um convite a rezar, mais também a agir: promover espaços de escuta, fomentar comunidades acolhedoras, evitar críticas destrutivas, e fortalecer vínculos como comunidade.

Sobre a Rede Mundial de Oração do Papa

A Rede Mundial de Oração do Papa é uma Obra Pontifícia confiada à Companhia de Jesus. Está presente em mais de 90 países e reúne uma comunidade espiritual de mais de 22 milhões de pessoas que procuram viver cada dia com disponibilidade para colaborar na missão de Cristo. No centro desta missão estão as intenções mensais de oração do Papa, que convidam a centrar-se nos desafios da humanidade e na missão da Igreja.

Foi fundada em 1844 como Apostolado da Oração. Em dezembro de 2020, o Papa Francisco instituiu esta Obra Pontifícia como Fundação Vaticana e aprovou os seus estatutos definitivos em julho de 2024.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Padre Luís Modino, um missionário espanhol na Amazônia

Padre Miguel Modino (Aleteia)

Paulo Teixeira - publicado em 24/02/26

O pensamento e a trajetória do Padre Luís Miguel Modino, missionário espanhol que, após 19 anos no Brasil (especialmente na Amazônia), retorna à sua diocese de origem na Espanha.

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Após quase duas décadas de uma entrega profunda ao solo brasileiro, o Padre Luís Miguel Modino prepara-se para um novo capítulo. Missionário fidei donum, Modino tornou-se uma voz respeitada na Igreja e entre os povos da Amazônia. Para ele, o ato de comunicar não é um apêndice da evangelização, mas a própria essência da missão. Em um mundo saturado de ruídos, ele defende uma comunicação que nasce da escuta e do "cheiro das ovelhas", transformando o jornalista em um porta-voz de realidades muitas vezes silenciadas pela grande mídia.

A missão de escutar

Para Modino, a comunicação eclesial eficaz começa muito antes da primeira linha escrita ou do primeiro clique na câmera. “Ela nasce no silêncio e na convivência”, disse em entrevista ao Vatican News. Durante seus anos na Amazônia, acompanhando comunidades indígenas e ribeirinhas, ele aprendeu que o verdadeiro comunicador deve primeiro ser um aprendiz da realidade local. Esta é a primeira etapa de qualquer missão que se pretenda autêntica: a capacidade de se deixar afetar pela vida do outro.

Em suas reflexões sobre o período em que serviu na Diocese de São Gabriel da Cachoeira e na Arquidiocese de Manaus, o sacerdote é enfático: "Somente ouvindo, somos capazes de valorizar e descobrir as riquezas que ali existem, o esplendor da Amazônia que nos chama a comunicá-la". Para ele, o comunicador missionário tem o dever de superar preconceitos e oferecer ao mundo uma "nova história" da região, que vá além das tragédias e foque na resistência e na beleza dos povos originários.

Missão digital

Com o avanço das tecnologias e a consolidação das redes sociais, Modino não se esquivou do desafio de habitar o ambiente virtual. Para ele, a internet não é apenas uma ferramenta, mas um "continente" que precisa ser evangelizado com a mesma dedicação que uma paróquia física. "A missão digital precisa ser purificada, mas nunca abandonada. Não percamos a oportunidade de oferecer a Boa Nova às centenas de milhões de pessoas que hoje habitam o continente digital", afirma o sacerdote. Para ele, o missionário digital é um novo carisma necessário para acompanhar aqueles que estão distantes das estruturas paroquiais tradicionais.

Missão e pontes

Ao se despedir do Brasil em dezembro de 2025, Padre Luís Miguel Modino deixa um legado de pontes construídas. Sua atuação na REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e no CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) exemplifica como a comunicação pode unir as dores das periferias ao coração do Vaticano. A missão de comunicar, portanto, é um serviço à unidade e à denúncia profética.

O retorno à Espanha não significa o fim de sua tarefa, mas uma mudança de geografia. A bagagem que leva do Brasil, carregada de nomes, rostos e lutas, continuará a alimentar sua vocação. "Onde quer que haja ódio, os missionários levam o amor; onde há desespero, eles levam a esperança", recorda Modino, citando a premissa que guiou seus 19 anos em terras brasileiras.

Padre Miguel Modino

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Magistério da Igreja e interpretação das Escrituras - Parte II

Papa Leão XIV celebra Missa por ocasião do XXX Dia Mundial da Vida Consagrada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 2 de fevereiro de 2026. ANSA / Vatican Media)  (ANSA)

Na publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II escreveu que “guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico Vaticano II (...) tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o o amor de Cristo que excede toda a ciência".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

"Em sua catequese intitulada “Um único depósito sagrado”, Leão XIV recordava que na Constituição Dogmática Dei Verbum ressoa o texto paulino que diz: «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja», interpretado pelo «magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo». “Depósito” – explicou - é um termo que, na sua matriz original, é de natureza jurídica e impõe ao depositário o dever de conservar o conteúdo, que neste caso é a fé, e de o transmitir intacto”. E “ainda hoje o “depósito” da Palavra de Deus está nas mãos da Igreja e todos nós, nos vários ministérios eclesiais, devemos continuar a conservá-lo na sua integridade, como estrela polar para o nosso caminho na complexidade da história e da existência”.

Dando sequência a sua reflexão precedente. Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje a segunda parte de “Magistério da Igreja como intérprete fiel da Palavra”:

"O Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou objetivo/material. Na publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II escrevia assim: “Guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico Vaticano II, inaugurado há trinta anos pelo meu predecessor João XXIII, de feliz memória, tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o amor de Cristo que excede toda a ciência (cf. Ef 3,19)”.

Datada em 11 de outubro de 1992, trigésimo aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, décimo quarto ano do meu pontificado. HÁ uma “CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II FIDEI DEPOSITUM PARA A PUBLICAÇÃO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, REDIGIDO DEPOIS DO CONCÍLIO VATICANO II”

Este mesmo Catecismo: “Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo aos Apóstolos: ‘Quem vos escuta escuta-me a Mim’ (Lc 10,16), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que os seus pastores lhes dão, sob diferentes formas”. Sim, é preciso – sob pena de se criarem cismas ou “magistérios” paralelos – dar, sob o grau de assentimento que os pronunciamentos do Papa e dos Bispos o exijam, adesão aos seus ensinamentos e orientações; do contrário, podem recusar a voz do Pastor para seguir a um ladrão ou mercenário que, evidentemente, não é Pastor (cf. Jo 10,11-16). Afinal, quem diz: “Não siga o Magistério da Igreja”, de modo indireto ou até inconsciente, afirma: “Sigam a mim e às minhas doutrinas”. Eis o grave perigo!"

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 30 de março de 2026

SÃO BENTO: Indícios de amizade espiritual (Parte 2/2)

Vestindo Bento com o monge Romano e seu retiro para oração na gruta, Magister Conxolus, Histórias de São Bento, Igreja Inferior, Subiaco | 30Giorni.

SÃO BENTO

retirado do nº 05 – 2005, Revista 30Dias.

Indícios de amizade espiritual

Comunidade de espírito entre São Bento, o Padre Luigi Giussani e o Papa Bento XVI.

por Dom Giacomo Tantardini

O começo permanente e o confront com o espírito da utopia
Estas palavras evangélicas ("Quem me segue tem a vida eterna e cem vezes mais aqui na terra" cf. Mc 10,29-30) recordam o que o próprio Cardeal Ratzinger, em 1993, ao apresentar Um Evento da Vida Que É uma História , livro publicado pelo Il Sabato que reúne entrevistas e conversas com o Padre Giussani, definiu como "o confronto com o espírito da utopia". E não se tratava tanto de um confronto "decisivo", como o é, com as utopias mundanas, mas sim da "nossa tentação" (palavras de Giussani de outubro de 1976), isto é, a tentação que nós, cristãos, temos, "imediatamente após a intuição correta" do fato cristão, de "nos entregarmos, mais ou menos, ao privilégio concedido a um projeto".

O cem vezes mais não é o resultado de um projeto, de um programa. “Meu verdadeiro programa de governo não é fazer a minha vontade, não é seguir as minhas próprias ideias, mas escutar, com toda a Igreja, a palavra e a vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele, para que Ele mesmo guie a Igreja nesta hora da nossa história”, disse novamente Bento XVI em sua homilia na Missa de inauguração do seu ministério. A plenitude da vida terrena, como a vida eterna, tem um começo, uma fonte “permanente” (cada palavra da primeira aparição de Bento XVI na Praça de São Pedro, que se enchia de romanos que se apressavam para ver o novo Papa, permanece na memória: “Confiando em Sua ajuda permanente”). O começo “permanente” é Jesus Cristo, o Senhor ressuscitado.

“A Igreja está viva porque Cristo está vivo, porque Ele verdadeiramente ressuscitou” (domingo, 24 de abril). E no domingo, 1º de maio, quando, dirigindo-se às Igrejas Orientais que celebravam a Páscoa, ele repetiu com veemência: “ Christós anesti!” Sim, Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou!'', o aplauso imediato que se elevou da praça repleta de fiéis em direção àquela janela foi belíssimo.

Aqui, a comunhão de mente e coração entre São Bento, Bento XVI, Padre Giussani e os menos fiéis é luminosa e total.

'O Padre Giussani sempre manteve o olhar de sua vida e seu coração fixos em Cristo' (Cardeal Ratzinger, na Catedral de Milão, no funeral de Giussani). 'Precisamos de homens que mantenham o olhar fixo em Deus, aprendendo com ele a verdadeira humanidade' (em Subiaco). E, novamente em Subiaco, o Cardeal Ratzinger concluiu a conferência citando a belíssima frase que São Bento repete duas vezes na Regra: 'Nada se preceda a Cristo, que pode nos conduzir a todos à vida eterna'. Aqui, capítulo 72: ' Christ omnino nihil praeponant '. No capítulo 4: « Nihil amori Christi praeponere / nada se preceda ao amor de Cristo».

Quando, a partir deste permanente prae-ponereAo priorizar as coisas, corre-se o risco de dar prioridade a um projeto, a um programa, e isso "produz um trabalho árduo e exaustivo, pesado e amargo" (Giussani, novamente em outubro de 1976). São Bento fala de "um zelo amargo que afasta a pessoa de Deus e leva ao inferno", novamente no capítulo 72, citado pelo Cardeal Ratzinger em Subiaco. E no capítulo 4, ele escreve: " Zelum non habere ", que no Evangelho poderíamos traduzir como "não te preocupes" (cf. Mt 6,25-34).
Esse amor de Cristo que sempre vem em primeiro lugar (é o Seu amor: "... eles consideram que o bem que há neles não pode vir deles, mas de Deus e, portanto, engrandecem o Senhor que opera neles", Prólogo da Regra), esse olhar fixo n'Ele gera "um bom zelo que afasta a pessoa dos vícios e leva a Deus e à vida eterna" (novamente do capítulo 72, citado pelo Cardeal Ratzinger em Subiaco). "E estar presente não significa não se expressar: a presença também é expressividade. A utopia tem como modo de expressão a fala, o planejamento e a busca ansiosa por ferramentas e formas organizacionais. A presença tem como modo de expressão gestos de verdadeira humanidade, isto é, de caridade" (Giussani, outubro de 1976).

Quão surpreendente, mesmo do ponto de vista humano, e quão católico, mesmo do ponto de vista teológico, que todo bom gesto, toda boa obra sempre surja e floresça de algo que parece nada, como uma atração ( A Atração de Jesus , título de um livro de Giussani, Rizzoli), de algo que parece nada, como um olhar ( Olhando para Cristo , título de um livro de Ratzinger, Jaca Book). Assim, somos tomados pela mão e "conduzidos pelo Evangelho / per ducatum Evangelii " (Prólogo da Regra). Assim, ao "ver Cristo verdadeiramente", compreende-se que "encontrar Cristo significa seguir Cristo" (Cardeal Ratzinger no funeral de Giussani). Assim, compreende-se por que São Bento inclui "não preferir nada ao amor de Cristo" entre "os instrumentos das boas obras" (título do capítulo 4: Quae sunt instrumenta bonorum operum ).

Mesmo a mais excelente obra, a liturgia, sem prejuízo da validade dos sacramentos, seria reduzida, nas palavras do Cardeal Ratzinger, a uma "celebração de si mesmo", a um "teatro", se não fosse um "pensar n'Ele", um ser "voltado para o Senhor". Tornar-se-ia um formalismo pesado, pesado porque foi construído por nós. Perderia aquela transparência de beleza que (Ratzinger recordou num dos seus mais belos discursos, no Congresso Eucarístico de Bolonha em 1997, aludindo a uma antiga lenda sobre as origens do cristianismo na Rússia) encheu de admiração os embaixadores do Príncipe Vladimir de Kiev quando assistiram à sagrada liturgia na Basílica de Santa Sofia em Constantinopla. "O que os impressionou foi o próprio mistério que, precisamente por transcender a discussão, fez resplandecer o poder da verdade diante da razão." A misericórdia de Cristo e a não trivialização do mal

Entre os instrumentos para as boas obras, São Bento coloca "nunca desesperar da misericórdia de Deus / e nunca desesperar da misericórdia de Deus " (capítulo 4). Isso é consolo para aqueles que, como o próprio Bento se considerava (" nobis male viventibus ", capítulo 73), são pobres pecadores. Toda a Regra, precisamente por ser um simples e humilde deixar-se guiar pelo Evangelho (" per ducatum Evangelii "), é um exemplo maravilhoso de como "a misericórdia de Cristo não pressupõe a banalização do mal" (Ratzinger), de como "o fio da moralidade não só surge da misericórdia, mas também é atestado e preservado nela" (Giussani).

Abadia da Gruta Sagrada, Subiaco | 30Giorni.

Tendo como imagem ideal do cristão aquele que "repete sempre o que disse aquele publicano do Evangelho" (capítulo 7), a Regra é a proposta clara, breve e concreta, primeiramente dos mandamentos de Deus, que Bento XVI enumera com insuperável realismo no início do capítulo 4, e depois dos preceitos que indicam o que se deve fazer e o que se deve evitar nas diversas circunstâncias da vida. Precisamente porque "a primeira coisa a fazer é orar com súplica constante ( istantissima oratione ) Àquele que completa toda boa obra que se inicia" (Prólogo); precisamente porque "o instrumento mais eficaz a usar", por exemplo, em relação a um irmão pecador, é "a oração para que o Senhor, que tudo pode ( qui omnia potest ), opere a salvação" (capítulo 28), os mandamentos e preceitos são propostos sem eliminar ou esvaziar nada. “Não há nada mais realista do que afirmar fielmente os princípios retos. E o tempo trará a mudança. E a mudança que ocorrer será suficiente para testemunhar o milagre de Deus em nós. E essa fidelidade em repetir os princípios retos, qualquer um que a tenha experimentado um pouco, sabe o quanto é mortificação” (Giussani). A alternativa ao moralismo que condena (os outros) reside em repetir o que é bom e o que é mau, juntamente com a pergunta d'Aquele que tudo pode. 

Essa repetição, esse perguntar “sempre, sem cansar” ( Lc 18,1) é a coisa mais simples e humilde que podemos fazer, e “é própria daqueles que não têm nada mais precioso do que Cristo” (capítulo 5 da Regra). Por isso, gostaria de concluir estas notas agradecendo à pessoa que, dois meses antes de ser eleito Papa, concordou em escrever a introdução de um pequeno livro de orações que também contém o que e quantas coisas são necessárias para fazer uma boa confissão. "Por isso, fico muito feliz que a 30Giorni esteja publicando uma nova edição deste pequeno livro que contém as orações fundamentais dos cristãos, desenvolvidas ao longo dos séculos. Elas nos acompanham em todos os momentos de nossas vidas e nos ajudam a celebrar a liturgia da Igreja por meio da oração. Espero que este pequeno livro se torne um companheiro de viagem para muitos cristãos. Roma, 18 de fevereiro de 2005. Cardeal Joseph Ratzinger. Obrigado."

Fonte: https://www.30giorni.it/

O Tríduo Pascal envolve três momentos do Mistério em uma única celebração

Tríduo Pascal (cnbb)

O TRÍDUO PASCAL ENVOLVE TRÊS MOMENTOS DO MISTÉRIO EM UMA ÚNICA CELEBRAÇÃO

28/03/2018

Nesta quinta-feira, os católicos no mundo inteiro iniciam a celebração do Tríduo Pascal, ou seja, o período de tempo que vai da tarde de quinta-feira Santa até a manhã do Domingo de Páscoa.

São João Paulo II, ainda papa escreveu na carta aos sacerdotes, por ocasião da Quinta-feira Santa, de 1999, “o Triduum Sacrum, os dias santos por excelência, durante os quais misteriosamente participamos no regresso de Cristo ao Pai, por meio da Sua Paixão, Morte e Ressurreição. De fato, a fé garante-nos que essa passagem de Cristo ao Pai, ou seja, a Sua Páscoa, não é um acontecimento que diga respeito só a Ele; também nós somos chamados a tomar parte nela: a Sua Páscoa é a nossa Páscoa”.

O bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Armando Bucciol, explica que o Tríduo Pascal envolve três momentos em uma única celebração.

Quinta-feira Santa

“Começamos com a celebração da Ceia Pascal, na quinta-feira à noite, em que nós fazemos memória da grande ceia da despedida, que começa, segundo o evangelista João, com o gesto do lava-pés. Cristo manifesta sua disponibilidade a amar até o fim, ele se considera o servo da humanidade”.

Sexta-feira da Paixão

“Depois da Ceia Pascal, com a celebração da Eucaristia, memória viva do maior mistério do amor de Deus, do sacrifício de Cristo até as últimas consequências, eis que, na sexta-feira, nós celebramos este rito sóbrio de uma intensíssima espiritualidade da morte do Senhor. Naquele dia, a Igreja não tem a celebração da eucaristia, mas convida seus fiéis a olhar, a contemplar o crucificado, Cristo que morre na Cruz. Ele nos amou até doar a última gota do seu sangue”.

Sábado Santo

“Depois do silêncio do Sábado Santo, em que a Igreja medita e reflete Cristo morto, eis que chegamos à noite da Vigília Pascal, em que celebramos a vitória de Cristo sobre a morte, a morte foi vencida e a Igreja vibra e renova a sua fé, a sua esperança numa plenitude vivida de realização que Cristo já semeou, plantou na terra e que nos fins dos tempos se realizará plenamente. A Vigília Pascal conclui o tríduo”.

“É interessante observar que o sinal da Cruz se faz começando a Eucaristia na quinta-feira e repetimos com bênção final na celebração da Vigília Pascal e, através desse simbolismo litúrgico expressamos essa unidade dos três momentos celebrativos que caracterizam esse tríduo sacro”, ressalta dom Armando.

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

As reações do mundo após acesso negado à Basílica do Santo Sepulcro

Basílica do Santo Sepulcro (Vatican News)

Muitas condenações do mundo político e institucional pelo que ocorreu na manhã de domingo, 29 de março, com o cardeal Pizzaballa e o Pe. Ielpo, impedidos pela polícia israelense em Jerusalém de entrar na igreja. Um gesto – denunciam – que coloca em risco a liberdade religiosa e de culto. Indignação pela medida irracional: é a posição da Igreja italiana, que pede uma trégua para a Páscoa. Israel fala de medidas de segurança necessárias devido aos ataques do Irã.

Benedetta Capelli – Vatican News

A notícia da manhã deste domingo, 29 de março, sobre a impossibilidade do cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e do Custódio da Terra Santa, Pe. Francesco Ielpo, de entrarem na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, para celebrar a Missa do Domingo de Ramos causou alvoroço. Uma decisão implementada pela polícia israelense.

A condenação das instituições

Muitos líderes políticos se manifestaram para condenar o ocorrido. O Ministério das Relações Exteriores palestino, na rede social X, definiu o caso como “um crime que atinge tanto o mundo cristão quanto o islâmico” e que “exige uma intervenção internacional urgente”; “uma clara violação dos direitos fundamentais do povo palestino, em primeiro lugar, a liberdade de culto”, uma ofensa à sensibilidade de quem compartilha a sacralidade de Jerusalém e seu status religioso. Palavras de condenação à decisão da polícia israelense também vieram do presidente francês, Emmanuel Macron, no X. Na postagem, ele garantiu total apoio aos representantes cristãos e lembrou “o preocupante aumento das violações do status dos locais sagrados em Jerusalém”.

O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, falou nas redes sociais de “ingerência excessiva”, lembrou do limite de 50 pessoas dentro dos locais sagrados – medida do governo israelense para garantir a segurança – e que a delegação do cardeal Pizzaballa e do custódio Ielpo era composta por 4 pessoas, “bem abaixo desse limite”. “É difícil compreender ou justificar”, explicou o diplomata.   

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Bundestag, Armin Laschet, destacou nas redes sociais que “negar ao cardeal o acesso ao local mais sagrado do cristianismo é inaceitável”. “Trata-se”, acrescentou, “de pura intimidação, desprovida de qualquer sensibilidade ou compreensão”. “A recusa – pode-se ler no perfil X do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal – merece a mais firme condenação” e convida as autoridades israelenses “a garantir e a proteger a liberdade de religião e de culto”.

Grande repercussão na Itália

Na Itália, o que aconteceu teve grande repercussão. A primeira-ministra, Giorgia Meloni, expressou a solidariedade do governo italiano ao cardeal Pizzaballa e ao Pe. Ielpo. “O Santo Sepulcro de Jerusalém é um local sagrado para o cristianismo e, como tal, deve ser preservado e protegido para a celebração dos ritos sagrados. Impedir a entrada constitui uma ofensa não apenas aos fiéis, mas a todas as comunidades que reconhecem a liberdade religiosa”. Fazendo eco a ela, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, decidiu convocar o embaixador de Israel na Itália, Jonathan Peled. Nas redes sociais, ele expressou sua solidariedade aos religiosos e definiu como “inaceitável” a proibição de entrar na Basílica do Santo Sepulcro. Palavras de condenação também vieram dos líderes da oposição, que expressaram solidariedade ao Patriarca Pizzaballa e ao Custódio Ielpo.

A voz da Igreja italiana

Lamento pelo ocorrido e total solidariedade às comunidades cristãs da Terra Santa. Foi o que expressou também por telefone o cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), ao cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, em relação ao que aconteceu. “Em nome dos bispos italianos – afirma o cardeal –, manifesto minha indignação por ‘uma medida grave e irracional’, compartilhando o que foi declarado no comunicado conjunto do Patriarcado e da Custódia. Trata-se de um fato doloroso para os muitos cristãos que, vivendo nessas terras, representam um testemunho essencial de esperança para todos os povos em contextos de divisão e conflitos”.

O presidente da CEI garante suas orações pelos cristãos da Terra Santa e ressalta que “as autoridades locais e as organizações internacionais têm o dever inalienável de garantir a liberdade religiosa na Terra Santa, condição imprescindível para qualquer processo de paz autêntico”. O apelo é para que se abram espaços de diálogo e se chegue logo a soluções razoáveis.  “Ao Senhor da paz — conclui o cardeal Zuppi — confiamos os sofrimentos de todos aqueles que vivem o drama dos conflitos e das guerras. A todos os governantes pedimos um gesto de reconciliação e uma trégua para a próxima Páscoa”.

A reação de Israel

Após o comunicado conjunto do Patriarcado Latino de Jerusalém e da Custódia da Terra Santa, no qual se destacava a gravidade do ocorrido, considerando a decisão “uma medida claramente irracional e gravemente desproporcional”, o presidente israelense, Isaac Herzog, publicou um post no X expressando “profundo pesar pelo desagradável incidente”. Ele esclareceu ter ligado para o cardeal Pierbattista Pizzaballa, ressaltando que a decisão foi motivada por razões de segurança e pela ameaça de ataques com mísseis por parte do Irã. As palavras do presidente seguem as do gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com a promessa de elaborar um plano para permitir as celebrações na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, mas sempre no pleno respeito às medidas de segurança. Eles garantem que “não houve qualquer intenção maliciosa”, mas a proibição de acesso por parte da polícia israelense, reiterou o gabinete do primeiro-ministro no X, foi motivada “apenas pela preocupação com a segurança dele e de sua comitiva”.

FONTE: https://www.vaticannews.va/pt/

domingo, 29 de março de 2026

O que fazer com meu ramo após o Domingo de Ramos?

Antoine Mekary | ALETEIA

Reportagem local - publicado em 10/04/22 - atualizado em 27/03/26

Com os ramos em mãos, assumimos a missão de seguidores e participantes do projeto de Deus.

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Assim rezamos na oração de bênção dos Ramos: “Deus eterno e Todo Poderoso, “abençoai” estes ramos, para que, “seguindo” com alegria o Cristo, nosso Rei, cheguemos por ele à eterna Jerusalém”.

Nesse sentido, guiados por essa oração temos duas palavras que nos ajudam refletir a importância e o significado dos ramos.

A invocação feita é um pedido de bênção para os ramos que temos em mãos ou que estão adornando o local da celebração. No “abençoai” se manifesta o pedido da igreja terrestre e peregrina, que quer e deseja entrar na Jerusalém Celeste.

Dessa forma, com os ramos em mãos, assumimos a missão de “seguidores” e participantes do projeto de Deus. A oração segue nos dizendo que o seguir é alegre e festivo. É celebrar junto o Mistério de morte e ressurreição.

Ramos: o significado e a tradição

Os ramos de oliveira eram comuns daquela região de Jesus, mas nos relata o evangelista Lucas que: “(...) enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no caminho”. Hoje, os ramos de palmeiras são abençoados e, dessa forma, podem nos servir de remédio, proteção, mas, sobretudo, como memória do compromisso de seguidor de Cristo que assumo.

Está no costume da Igreja usar dos ramos abençoados neste dia para que, depois de secos, sejam queimados e usados na Quarta-Feira de Cinzas.

Muitos de nossos avós tinham também a tradição de queimá-los quando chegava o tempo de colheita, quando se aproximava uma tempestade ou ainda queimavam em torno de casa ou do local de trabalho para livrar de pestes e bichos peçonhentos.

Nesses gestos todos está a fé de que a bênção de Deus está presente nos ramos e é Ele o Senhor do tempo e da história.

Assim, como os filhos dos Hebreus com ramos de palmeira correram ao encontro de Jesus, somos também nós seus discípulos convidados a direcionar nossos passos e ações para Ele. E desse modo, sermos participantes do Mistério Pascal.

A Jerusalém Celeste é o céu prometido a todos aqueles que, com seus ramos, glorificam a Deus.

E, nos passos e ensinamentos de Jesus, aprenderemos que no mandamento maior está o Caminho e o maior desejo de Deus: "Amai-vos", pois é desse sentimento que emana tudo aquilo que nos faz participantes da Filiação Divina – Filhos de Deus.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

SÃO BENTO Indícios de amizade espiritual (Parte 1/2)

Incredulidade de Tomé, Mestre da Gruta Sagrada, século XIV, Igreja Superior, Subiaco |30Giorni.

SÃO BENTO

retirado do nº 05 – 2005, Revista 30Dias.

Indícios de amizade espiritual

Comunidade de espírito entre São Bento, o Padre Luigi Giussani e o Papa Bento XVI.

por Dom Giacomo Tantardini

Fui incumbido de escrever um artigo sobre São Bento, o Padre Giussani e o Cardeal Ratzinger, que, tendo sido eleito sucessor de Pedro, escolheu chamar-se Bento também por devoção àquele que – tendo escrito para si e para os seus amigos, considerando-se "pouco comprometidos / nobis negligentibus , uma pequena regra para iniciantes / minimam inchoationis regulam " (Regra, capítulo 73) – tornou-se, como Abraão, o pai de inúmeros descendentes.

Correspondência entre o cristianismo e a humanidade.

A centésima.

Gostaria de começar estas referências à "comunhão de espírito" ( Filipenses 2:1) entre São Bento, o Padre Giussani e o Papa Bento XVI, partindo da conferência do Cardeal Ratzinger em Subiaco, em 1º de abril de 2005, sobre "A Europa na Crise das Culturas". Isso também porque foi em Subiaco, num pequeno eremitério nas montanhas perto do Sacro Speco, que o Padre Giussani, durante os meses de verão do final da década de 1960, passou dias de exercícios espirituais com jovens que expressaram o desejo de se dedicarem a Deus no sacerdócio ou na vida consagrada.

Obviamente, não pretendo comentar essa última conferência que Ratzinger proferiu como cardeal, cuja clareza e simplicidade de exposição tornam fácil para qualquer pessoa ser impactada por sua verdade e beleza. Pretendo apenas abordar a condição humana que essas palavras testemunham. Uma alma, um coração que o apóstolo Paulo descreve numa das frases mais citadas pelo Padre Giussani. Giussani: "Examinem tudo; retenham o que é bom" ( 1 Tessalonicenses 5:21).

De fato, por um lado, com total franqueza, "o desenvolvimento da cultura iluminista" é julgado como "a contradição mais radical não só do cristianismo, mas de todas as tradições religiosas e morais da humanidade", a ponto de afirmar que "uma ideologia confusa de liberdade leva a um dogmatismo que se mostra cada vez mais hostil à liberdade" e que "uma filosofia que não expressa a razão completa do homem, mas apenas uma parte dela, por causa dessa mutilação da razão, não pode ser considerada racional de forma alguma". Por outro lado, à pergunta "se isso é uma simples rejeição do Iluminismo e da modernidade", Ratzinger responde:

"Absolutamente não". Não apenas porque "o cristianismo, desde o princípio, se compreendeu como a religião segundo a razão", identificando "seus precursores no Iluminismo filosófico" daquela época, mas também porque "foi e é mérito do Iluminismo ter reproposto esses valores originais do cristianismo e ter dado à razão voz própria. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja no Mundo Moderno, ressaltou mais uma vez essa profunda correspondência entre o cristianismo e o Iluminismo, buscando alcançar uma verdadeira reconciliação entre a Igreja e a modernidade, que é o grande patrimônio a ser preservado por ambos os lados."

A expressão "profunda correspondência entre o Cristianismo e o Iluminismo" é impressionante. Parece-me que precisamente esse reconhecimento surpreendente nos permite vislumbrar a "comunidade de espírito" entre Ratzinger e Giussani na concepção e vivência da experiência cristã. O que é, de fato, a experiência cristã senão a consciência da correspondência entre o evento de Jesus Cristo e as necessidades e evidências do coração humano?

O evento cristão, embora com sua autoapresentação gratuita evidencie as presunções, parcialidades e contradições dos empreendimentos humanos, satisfaz abundantemente todas as expectativas humanas. Há uma frase do Evangelho, talvez a mais repetida por Giussani, que indica essa dinâmica: "o centenário " . Foi comovente ouvir o Papa Bento XVI, ao concluir sua homilia na Missa de inauguração de seu ministério, repetir, dirigindo-se aos jovens, essa mesma frase, "o centenário", para descrever a própria natureza da experiência cristã e sua própria experiência pessoal. E mais uma vez o Papa [João Paulo II] quis dizer: não! Quem acolhe Cristo em sua vida não perde nada, absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grandiosa.

Não! Somente nessa amizade as portas da vida se abrem de par em par. Somente nessa amizade o grande potencial da condição humana se revela verdadeiramente. Somente nessa amizade experimentamos o que é belo e o que liberta. Por isso, hoje, com grande força e convicção, baseado na experiência de uma longa vida pessoal, gostaria de dizer a vocês, queridos jovens: não tenham medo de Cristo! Ele nada tira e tudo dá. Quem se entrega a Ele recebe cem vezes mais. Sim, abram, abram de par em par as portas para Cristo — e vocês encontrarão a verdadeira vida. Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Reflexão para o Domingo de Ramos (A)

Domingo de Ramos (Vatican News)

Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumentinho. Isso significa que entra na cidade que é sua para fazer com toda a Humanidade, uma missão de paz, ainda que essa paz tenha como preço sua própria vida.

Vatican News

O Senhor é aclamado como se faz a um general romano ou a um herói egípcio quando de sua chegada a sua cidade, à sua terra, após uma gloriosa vitória.

Apenas algumas diferenças: o Senhor ainda vai consumar sua luta e, enquanto os vencedores trazem consigo o espólio dos vencidos e os próprios vencidos como troféus,  será o Senhor o próprio espólio, o grande serviçal, o escravo de todos nós.

Esse gesto nos recorda um trecho da segunda leitura de hoje, da Carta de São Paulo aos Filipenses, que diz: “Não deveis fazer nada por egoísmo, ou para sentir-vos superiores aos outros, mas cada um de vós, com toda a humildade, considere os outros superiores a si mesmo, ninguém procure o próprio interesse, mas antes o dos outros.” O Senhor buscou apenas o nosso interesse, ou melhor, o interesse do Senhor é a nossa salvação.

Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumentinho. Isso significa que entra na cidade que é sua para fazer com toda a Humanidade, uma missão de paz, ainda que essa paz tenha como preço sua própria vida.

Cristo entra em Jerusalém para entregar-se como oferta ao Pai, em nome de cada um de nós. Ele se coloca em nosso lugar e sofre as consequências que nosso egoísmo, nossa falta de amor e de perdão ocasionaram. Ele é o verdadeiro cordeiro pascal, a verdadeira vítima. Seu corpo é o pão e seu sangue é o vinho. Somos redimidos, para sempre, por seu sangue derramado de fato, Jesus Cristo é o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo.

Outro ensinamento, agora colhido da leitura da Paixão, este ano, a de São Mateus, é sobre a retaliação e a paz . Jesus impede que Pedro continue sua ação de punir o soldado que o ofendera e diz a ele: “Guarde a espada na bainha!” e cura Malcolm. Somos filhos da paz! Nosso Rei é o Principe da Paz, o Pacificador.

Que este início da Semana Santa nos comprometa com o projeto de Jesus para nós. Sejamos irmãos, sejamos filhos do mesmo Pai de nosso Senhor.

Que a humildade e a paz sejam nossos tesouros, recebidos através do sacrifício redentor do Filho de Deus!

Nossa libertação do egoísmo e da ira, da raiva, custou o sangue inocente de Jesus.

Valorizemos, com gratidão e amor, o sacrifíco do Senhor por nós.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sábado, 28 de março de 2026

“Lectio divina ontem e hoje”

Shutterstock

Vanderlei de Lima - publicado em 08/03/20 - atualizado em 27/03/26

É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus.

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Eis o título de um importante livro publicado pelas Edições Subiaco, de Juiz de Fora, MG (4ª edição ampliada, 2017, 216 págs.), e que será apresentado neste artigo.

Reúne as maiores autoridades no assunto: Guigo II, o cartuxo, Enzo Bianchi, Giorgio Giurissato, Albert Vinnel e Irineu Resende Guimarães. Embora cada autor tenha o seu modo próprio de expor a Lectio, é Guigo II, o nono prior da Grande Cartuxa, do século XII, quem dá o tom ao livro. Afinal, sua Carta sobre a vida contemplativa ou Escada dos monges “é um clássico da espiritualidade monástica, enquanto retoma e sistematiza os ensinamentos da tradição monástica anterior sobre a lectio divina, e enquanto guiou gerações de monges nos caminhos da oração interior, como o testemunha o grande número de manuscritos que chegaram até nós” (p. 9).

Daí a importante questão: que é lectio divina e como se faz? – Respondemos que é a leitura orante da Palavra de Deus. Isso devido ao valor da Sagrada Escritura em si (cf. Dei Verbum, 21, p. 138-139). É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus (cf. p. 119, 191, 201 e 206). Faz-se por meio de quatro passos que, de acordo com Guigo II, formam “a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu” (p. 16). 

Vejamos cada degrau, segundo a exposição do cartuxo: “a leitura é o estudo assíduo da Escritura, feito com aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento de uma verdade oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura” (p. 16-17). E completa: “a leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa por cima de todo sentido. O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados” (p. 28).

As bases bíblicas para a prática da leitura orante da Escritura estão, segundo Enzo Bianchi, no capítulo 8 do livro de Neemias e em 2 Timóteo 3,14-16 (cf. p. 116). Note-se ainda que a Lectio se faz útil para posteriores preparações de homilias, à luz da chamada exegese canônica, ou seja, a da interpretação da Escritura pela própria Escritura, sem interpolações ideológicas estranhas (cf. p. 38, 40). É Bianchi mesmo quem afirma: “que a passagem [bíblica] se auto interpreta. A Escritura é a intérprete da Escritura. Este é o grande critério rabínico e patrístico para a lectio divina” (p. 123). Ainda: se os clérigos não praticam a Lectio divina, “serão na sua pregação, em seu magistério e em sua pastoral, homens superficiais, inseguros, às voltas com problemas, incapazes de dizer uma palavra que tenha ‘autoridade’, porém semelhante aos escribas (cf. Mt 7,28), enrubescendo muitas vezes com o Evangelho que eles anunciam (cf. 2Cor 3,12; 4,2; Rm 1,16)” (p. 45).

Certo é que para se fazer uma Lectio proveitosa deve-se ter: 1) as luzes do Espírito Santo. Sem Ele, assevera Irineu Resende Guimarães, “será apenas uma leitura de um texto qualquer. Só com a ajuda e a presença do Espírito Santo é que a nossa leitura será propriamente ‘divina’” (p. 209) e 2) o estudo capaz de levar o fiel a penetrar o sentido profundo do texto bíblico que é, sem dúvida, espiritual, mas foi escrito na linguagem humana de um contexto histórico determinado. Faz-se, pois, oportuno – de acordo com Albert Vinnel – entender, ainda que sucintamente, de História, Filologia, Patrologia etc. (cf. p. 181), sem, contudo, cair no intelectualismo (cf. p. 43). Prefira-se sempre a Bíblia de Jerusalém, por seus textos paralelos e notas explicativas (cf. p. 123).

Finalizando, importa dizer que, às vezes, Deus parece mostrar-Se ausente na meditação. Deve-se perseverar firme, pois tudo isso é para o bem espiritual do fiel (cf. Rm 8,28). Ele consola, mas também “afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza” (p. 25).

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Medite a espiritualidade da Semana Santa a partir das reflexões dos bispos do Brasil

As celebrações da Semana Santa (CNBB)

MEDITE A ESPIRITUALIDADE DA SEMANA SANTA A PARTIR DAS REFLEXÕES DOS BISPOS DO BRASIL

27/03/2026

Às portas do início da Semana Santa, alguns dos bispos que oferecem artigos ao Portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escreveram sobre a espiritualidade deste momento central para a fé cristã, ajudando o povo de Deus a mergulhar nos mistérios celebrados.

As celebrações da Semana Santa

O arcebispo da arquidiocese do Rio de Janeiro (RJ), cardeal Orani João Tempesta, introduz ao mistério celebrado no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, abrindo a Semana Maior e mais importante do calendário cristão.

“As celebrações desta semana são muito ricas e cheias de significado. Caso não seja possível participar de todas as celebrações devido ao trabalho ou aos estudos, meditemos os textos sagrados em casa e procuremos acompanhar as celebrações pela televisão, rádio ou internet. Hoje concluímos também a Campanha a Fraternidade com o nosso gesto concreto que é a Coleta da Solidariedade”.

O arcebispo motiva a intensificar a oração, participar das celebrações e viver profundamente o Tríduo Pascal. “Caminhemos com Cristo na cruz, para com Ele ressuscitarmos para uma vida nova”.

Leia o artigo de dom Orani na íntegra.

Força redentora

Em outro artigo, também inspirado pelo contexto da Semana Santa, dom Orani reflete sobre a força redentora que emana da entrega total de Jesus na cruz. Nesse ato de solidariedade extrema, segundo dom Orani, Ele assume nossas dores e transfigura o sofrimento em caminho de salvação. “Aqui, a força não é um exercício de poder dominador, mas de entrega sacrificial que gera vida nova”, escreveu.

“Do silêncio orante do Getsêmani à entrega total na cruz, passando pela dor, pela aparente derrota e pela esperança silenciosa do Sábado Santo, aprendemos que a verdadeira força nasce da confiança radical em Deus. O que celebramos nesses dias não pode permanecer apenas na memória, mas deve transformar a vida”.

Paradoxo fascinante e desconcertante

O bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller, escreveu sobre o “paradoxo fascinante e desconcertante” apresentado na liturgia do Domingo de Ramos: “aclamamos um Rei montado num jumentinho. Gritamos ‘Hosana!’ e, poucos dias depois, gritaremos ‘Crucifica-o!’. Agitamos ramos festivos e, em seguida, mergulhamos no silêncio sombrio do Calvário”.

Para dom Antonio Carlos, o Domingo de Ramos não é apenas a abertura da Semana Santa, mas “oespelho da nossa própria alma”, uma vez que “revela a fragilidade das nossas aclamações, a instabilidade da nossa fé, mas, sobretudo, a fidelidade absoluta de Jesus, Servo obediente que abraça o amor até o fim”.

Além de explicar sobre os elementos e cada texto bíblico oferecido pela liturgia, dom Antônio indica como viver bem a Semana Santa.

“É umtempo de graça único, oferecido pela Igreja como oportunidade de transformação interior. Mas só nos transforma se nos dispormos a vivê-la com presença, com coração aberto”.

Leia o artigo de dom Antonio Rossi Keller na íntegra. 

Celebrar todo o mistério pascal

Dom Rodolfo Weber, arcebispo de Passo Fundo (RS) também destaca a liturgia da Semana Santa, na qual serão lidos e refletidos “ricos e vastos textos bíblicos sobre os fundamentos teológicos e litúrgicos da vida cristã”. Ele orienta que “não podemos nos deter em um aspecto, mas celebrar o todo do mistério pascal”.

Ele reflete sobre o contexto da guerra no Oriente Médio e sobre a missão da Igreja de estar ao lado de Cristo crucificado e de todos os crucificados.

“O triunfo de Cristo não é aquele imperial, mas o humilde e sofrido da cruz. É o que liberta e salva. Jesus entra em Jerusalém não para ocupar a chefia de um exército e de um Estado, mas para oferecer-se como ‘rei manso e humilde'”.

Leia o artigo de dom Rodolfo na íntegra.

Participar com Cristo

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto Francisco Ferreria Paz, escreveu sobre o início da Semana Santa com o Domingo de Ramos, quando participamos de todo o trajeto de Jesus desde a sua entrada em Jerusalém até a sua vitória sobre a morte. Ele motiva à participação ativa nas celebrações.

“No coração do Ano Litúrgico não fiquemos no palco ou assistindo o mistério e o drama da nossa salvação como meros espectadores ou turistas espirituais mas mergulhemos de cheio não só nos ritos mas no itinerário espiritual das trevas para a luz, do ódio para o amor, do desespero e indiferença para a esperança, do medo para a confiança e entrega, configurando-nos com o Crucificado e identificando-nos com seus sentimentos, dores e angústias para vencer com Ele a morte”.

Leia o artigo de dom Roberto Paz na íntegra

Lugar para todos

Dom Itacir Brassiani, bispo de Santa Cruz do Sul, reflete a partir dos sonhos e utopias que a humanidade carrega e a missão de Jesus. Ele motiva reafirmar, no início da Semana Santa, o sonho de um mundo que tenha lugar para todos.

“Acompanhando Jesus de Nazaré em sua chegada à capital do seu país, reafirmamos nosso sonho de um mundo onde haja lugar e vida plena para todos, que não criminalize os profetas e os sonhadores, que dê primazia aos mais vulneráveis. Em Jesus, o sonho é vivido e testemunhado no dom de si mesmo, sem reservas. Por isso, vive e é imortal”.

Leia na íntegra o artigo de dom Itacir

Meditar a seriedade do amor

Dom Lindomar Rocha, bispo de São Luís de Montes Belos (GO), fez uma narração poética do mistério da encarnação de Jesus e da redenção trazida por Ele a partir do mote “A seriedade do amor”. Seu artigo pode auxiliar em meditações e reflexões durante a Semana maior.

“O Altíssimo entrou na história como caminhante. Seus pés tocaram a poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu até a morte. Sua vida abriu a manhã do terceiro dia. E, todo aquele que o ouve, cedo ou tarde, encontra dentro de si o vestígio dessa verdade”.

Leia e medite com o artigo de dom Lindomar

Por Luiz Lopes Jr

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Uma luz no fim do feed

Mundo digital  (Julien Eichinger - Fotolia)

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

Marcus Tullius[1] -  Comunicação da Cáritas América Latina e Caribe 

A decisão inédita de um júri de Los Angeles, no dia 25 de março, colocou Google e Meta no centro de um debate que extrapola o campo do Direito. Ao considerá-las responsáveis por contribuir para uma crise de saúde mental entre adolescentes e jovens, a partir do funcionamento de plataformas como YouTube e Instagram, o caso deve entrar, definitivamente, no debate público. O problema deixa de ser lido como fragilidade do usuário e passa a ser reconhecido como efeito de um sistema desenhado para capturar. Portanto, não é uma condenação do conteúdo que está circulando, mas da arquitetura da plataforma e a responsabilização de seus donos.

O caso em questão envolve uma jovem de 20 anos que afirmou ter se viciado nos aplicativos devido ao seu design atraente. Isso é resultado de uma lógica simples e profundamente eficaz. As plataformas existem para reter a atenção. E, uma vez retida, essa atenção precisa ser convertida em valor econômico. O tempo que se passa na tela não é apenas um indicador de uso — é a própria matéria-prima de um modelo de negócios.

Isso ajuda a compreender por que não se trata apenas de conteúdo produzido — que não é menos relevante —, mas de arquitetura. Rolagem infinita, notificações constantes, vídeos encadeados, recompensas intermitentes: tudo converge para prolongar a permanência nos aplicativos e dispositivos. Não porque o usuário decidiu livremente ficar, mas porque o ambiente foi desenhado para tornar a saída cada vez menos provável. Byung-Chul Han descreve em Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida (2022) que “o constante digitar e deslizar no smartphone é um gesto quase litúrgico que influencia massivamente a relação com o mundo” (p. 43) e que “o dedo que digita torna tudo consumível” (p. 45). A captura permanente da atenção não se dá contra a vontade, mas é previamente orientada para gerar esse comportamento automatizado em vista do lucro.

Esta talvez seja apenas a ponta mais emergente de um iceberg daquilo que Shoshana Zuboff define em A era do capitalismo de vigilância (2021), como “uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas”. Este capitalismo de vigilância, extremamente predatório, nos deixa inertes diante desta arquitetura global de modificação de comportamento. A autora, professora emérita de Harvard, nem menciona à época a inteligência artificial, o que hoje acentua ainda mais a dimensão do problema de mudanças comportamentais e vícios. A atenção é capturada, convertida em dado e processada como valor. E o vício não é apenas um acidente do percurso, mas peça chave para o seu funcionamento.

Você já parou para perceber a enxurrada de notificações que recebe ao longo do dia? Até aqui, na leitura deste texto, você foi roubado quantas vezes por alguma notificação ou para checar alguma rede social? Não por acaso estamos muito mais dispersos e com a capacidade de atenção reduzida. O tempo de exposição às telas e os seus mecanismos de retenção da atenção afetam a todos, mas têm um efeito ainda mais danoso quando seus usuários são crianças e adolescentes. Especialistas de diversas áreas têm alertado sobre este impacto das centenas, ou até milhares de notificações, sobre um cérebro ainda em formação e que é constantemente interrompido. 

A decisão do tribunal nos Estados Unidos acontece poucos dias depois da entrada em vigor do chamado ECA Digital, no Brasil. Ao colocar crianças e adolescentes no centro desse debate, reconhece-se que ambientes digitais exploram vulnerabilidades cognitivas e emocionais. E isso não pode mais ser tratado como efeito colateral ou como responsabilidade do usuário.

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

A condenação de Google e Meta quebra uma lógica que parecia intocável e acelera um debate poliédrico que já não pode ser adiado. Poliédrico, porque não se trata apenas de regular as plataformas considerando o que circula nelas, mas sobretudo o modo como são desenhadas, seus mecanismos de retenção, seus algoritmos e a própria economia da atenção que as sustenta; de investir seriamente em educação midiática, capaz de formar sujeitos críticos que compreendam como funcionam esses ambientes e não apenas aprendam a usá-los; e de fortalecer o acompanhamento de crianças e adolescentes, como presença atenta, diálogo constante e construção de critérios no interior das famílias e comunidades.

Tais apelos encontram ressonância na mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026. Ainda que situados no campo da inteligência artificial, os três pilares propostos — responsabilidade, cooperação e educação — oferecem uma proposta muito clara para e que precisam ser assumidas de forma mais ampla no conjunto do ambiente digital em que estamos inseridos.

Esta decisão importa tanto não porque resolva o problema, mas porque introduz um ponto de inflexão: aquilo que antes operava sem responsabilização começa, enfim, a ser nomeado — e cobrado. E, quando isso acontece, o debate já não pode mais ser evitado.

[1] Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025). 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sexta-feira, 27 de março de 2026

Na Semana Santa não se celebra nenhum santo

Santos da Igreja Católica | Crédito: Atlético Zvonimir - Shutterstock

Por Abel Camasca*

25 de mar de 2026

Durante a Semana Santa não se celebram festas dos santos e beatos da Igreja.

As celebrações litúrgicas na Igreja têm categorias. As Normas Universais sobre o ano litúrgico dividem-nas, segundo a sua importância, em solenidades, festas e memórias livres ou obrigatórias.

As solenidades celebram Jesus, Maria e José. Assim, Domingo de Ramos, Quinta-feira Santa, quando se comemora a Ceia do Senhor, Sexta-feira Santa da Paixão e Sábado Santo são solenidades e têm precedência sobre qualquer outra festa.

No caso dos demais dias, as Normas Universais dizem que “as férias (dias litúrgicos) da Semana Santa, de segunda a quinta inclusive, têm preferência sobre qualquer outra celebração”.

*Abel Camasca é comunicador social. Foi produtor do telejornal EWTN Noticias por muitos anos e do programa “Más que Noticias” na Radio Católica Mundial.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pasolini: uma vida livre significa amar sempre e experimentar a dor sem ser vencido por ela

Última meditação desta Quaresma do Padre Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia  (ANSA)

O Evangelho nos permite "embarcar num caminho de purificação e conversão que nos conduz à liberdade dos filhos de Deus". Assim, o pregador da Casa Pontifícia concluiu a quarta e última meditação da Quaresma, na presença do Papa. O frade capuchinho revê os momentos finais da vida e da morte de São Francisco, que "aprendeu a aceitar sua própria fragilidade", descobrindo que a maior liberdade é colocar-se a serviço da Igreja e do mundo com generosidade.

Vatican News

A redescoberta das últimas etapas do caminho terreno de São Francisco de Assis, que aprendeu "a aceitar sua própria fragilidade" e pequenez, e que nada, nem mesmo a rejeição, a doença ou a morte, pode nos separar do amor de Deus. Esta é a reflexão oferecida pelo pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, em sua quarta e última meditação quaresmal sobre o tema: "A liberdade dos filhos de Deus. A alegria perfeita e a morte como irmã", realizada na manhã desta sexta-feira, 27 de março, na Sala Paulo VI, na presença de Leão XIV.

O padre capuchinho recorda que, nesses quatro encontros, sobre o tema "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura", a escolha foi deixar-se guiar pela figura do Pobrezinho de Assis "no caminho da conversão ao Evangelho". O fruto mais maduro de sua experiência será, em última análise, "a liberdade dos filhos de Deus".

Francisco guiado por Deus na pobreza de sua vida

Ele enfatiza que Francisco se tornou santo porque aprendeu "a deixar-se guiar por Deus na concretude e pobreza de sua existência" e, portanto, como um alter Christus, a acolher o Espírito Santo com abertura. Já no fim de seus dias, recorda Tomás de Celano, ele tinha "se transformado em oração viva", isto é, "todo o seu modo de vida se tornou como uma oração contínua".

O caminho da alegria perfeita

Naqueles últimos anos, porém, continua o pregador, Francisco experimentou a "grande tentação" de uma profunda crise: a Ordem dos Frades Menores "tinha crescido e se transformado", e ele "sentia-se rejeitado, quase inútil, até mesmo considerado um 'idiota'". Ao frei Leão, que estava com ele em Santa Maria dos Anjos, o pobre homem contou a parábola da "verdadeira e perfeita alegria", pedindo-lhe que listasse coisas belas "que pudessem ser motivo de orgulho para ele e para a Igreja". Por fim, pediu-lhe que escrevesse que "em todas aquelas coisas não há alegria perfeita" e explicou que "a alegria autêntica se manifesta quando a rejeição, a humilhação e a incompreensão não conseguem nos roubar a paz". A verdadeira alegria, comenta o padre Pasolini, reside em como "reagimos em circunstâncias adversas, quando somos rejeitados e excluídos".

A felicidade não consiste em se proteger da realidade, mas em aprender a abraçá-la mesmo quando dói, sem se deixar dominar por ela. É aí que a vida cristã se torna concreta e aprendemos a valorizar uma alegria que não depende de como as coisas acontecem, mas de como escolhemos vivê-las.

A alegria perfeita, portanto, não é "a ausência de feridas", mas "a liberdade de não ser definido por elas. É uma liberdade que não apaga a dor, mas impede que ela tenha a última palavra."

Padre Roberto Pasolini durante sua quarta meditação da Quaresma   (@Vatican Media)

As Bem-aventuranças, uma promessa de vida plena

É Jesus, no Evangelho, quem mostra que “este modo de vida — livre mesmo diante do ódio e da perseguição — é a plenitude da vida nova em seu nome”. Ele o faz no início de seu ministério público, com as Bem-aventuranças, que não são uma lei, mas uma promessa, “não um programa de perfeição moral, mas a revelação de uma felicidade já atuante no âmago da realidade”.

As Bem-aventuranças não nos convidam a fugir da realidade nem a adiar a felicidade para um futuro distante. Elas nos convidam a mergulhar mais profundamente naquilo que vivemos, mesmo quando nos parece frágil e incompleto. Elas proclamam que o caminho para uma vida plena reside em nossa experiência concreta, dentro do que somos e no que vivenciamos.

O Papa Leão XIV ouve a meditação quaresmal do Padre Pasolini   (@Vatican Media)

Desejar a vida com a maior intensidade possível

Na conclusão, o padre Roberto sublinhou que “não podemos adaptar o Evangelho aos nossos medos, reduzi-lo a uma proposta reconfortante ou a um conjunto de práticas religiosas que conservam apenas a aparência de vida no espírito, mas esvaziam sua verdadeira força”, e completou:

“Oferecer um cristianismo fácil e barato, menos exigente, significa privar os homens e as mulheres do nosso tempo daquilo de que realmente precisam: um caminho capaz de conduzir nossos passos humanos ao horizonte da vida eterna. O Evangelho não nos convida a viver menos, nem a fugir do peso e do cansaço da realidade. Ele nos autoriza a desejar a vida com a maior intensidade possível, acolhendo com humildade a cruz e o pão de cada dia. O Evangelho não propõe atalhos, mas nos capacita para um caminho de purificação e conversão que conduz à liberdade dos filhos de Deus. E é nossa responsabilidade guardar esta verdade sem atenuá-la, indicando caminhos que abram as portas para a plena maturidade em Cristo.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF