"Há uma distinção, mas não uma separação entre o
Magistério e a Tradição, ou seja, a Igreja é como uma Mestra (Magistério) que
possui e transmite a Escritura (Bíblia) e a Tradição (Depositum Fidei). O
Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta
interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da
Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou
objetivo/material".
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
Na catequese da Audiência
Geral de 28 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV propôs uma rica reflexão
intitulada “Um único depósito sagrado. A relação entre a Escritura e a
Tradição: “Elas estão tão ligadas e unidas entre si que não podem
existir independentemente e, juntas, segundo o modo que lhes é próprio, sob a
ação de um único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das
alma”.
Nesta mesma linha, Pe. Gerson Schmidt* nos
propõe hoje o tema ‘Magistério da Igreja: autêntico intérprete da
Escritura”:
"Para o protestantismo, a única fonte da Revelação é a
Sagrada Escritura. Há, a partir de Lutero, um princípio Sola
Scriptura que é o primeiro dos 5 Solas da Reforma
Protestante e significa somente (Sola) a Escritura (Scriptura).
Os evangélicos e protestantes não reconhecem a rica Tradição oral e do
Magistério, magistério este que garante a interpretação correta das Escrituras.
Para aprofundar essa questão, nos servimos de um artigo
publicado pelo Arcebispo do rio de Janeiro, cardeal Dom Orani João Tempesta,
datado de 15 de setembro de 2020. Dom Orani diz que o Magistério da Igreja como
norma da fé, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica, à luz da Dei
Verbum e Lumen
Gentium fala que “o encargo de interpretar
autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado
unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de
Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo
de Roma. Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao
seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato
divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda
religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo
quanto propõe à fé como divinamente revelado. Os fiéis, lembrados da palavra de
Cristo aos Apóstolos: ‘Quem vos escuta escuta-me a Mim’ (Lc 10,16), recebem com
docilidade os ensinamentos e as diretrizes que os seus pastores lhes dão, sob
diferentes formas” (n. 85-87).
“O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus,
escrita ou contida na Tradição, foi confiado ao Magistério vivo da Igreja”.
Sim, o Senhor Jesus, ao voltar para o Pai, não poderia, por lógica, deixar sua
Palavra – que é uma só, mas a nós transmitida por dois canais: a Tradição ou a
mensagem não escrita (cf. Jo 21,25; cf. ainda: Jo 20,30; 1Ts2,15; 2Tm 1,12-14;
2,2) e a Escritura – jogada ao vento de interpretações arbitrárias (Guardar o
sábado ou o domingo? Batizar crianças ou adultos? Ter episcopado ou não? etc.),
por isso fundou a Igreja e a entregou a Pedro e aos seus sucessores. A eles
prometeu assistência até o fim dos tempos (cf. Mt 16,16-18; Lc 22,31-32; Jo
21,15-17; 14,26; 16,13-15; cf. Mt 18,18). Essa missão é exercida pelo
Magistério da Igreja – de modo especial – ao tratar de Fé e Moral. Dom Orani
ainda aponta que cada apóstolo não transmite a “sua” mensagem, em “seu” próprio
nome, mas comunica o que viu e ouviu de Nosso Senhor (cf. Lc 24,47-48; At 1,8;
2,32; 3,15; 5,32; 1Cor 15,3).
A Igreja definiu infalivelmente no Concílio de Trento (IV
sessão de 6 de abril de 1546; DB, 783) e no Concílio Vaticano I (DS, 1787): 1°)
à Assistência de Deus, pois sem a ajuda do Espírito de Verdade a pureza do
ensino oral não poderia ser preservada; 2°) ao Magistério, que embora não seja
a Tradição, é o órgão pelo qual ela é transmitida; o sentido pleno da Tradição
só pode ser obtido sob a condição de manter juntos seus dois aspectos, o
passivo (objeto transmitido) e o ativo (sujeito transmissor), dos quais o
segundo é tão importante, que uma “tradição” do primeiro século, mas não
atestada pelo Magistério da Igreja, não constituiria uma ‘verdadeira’ Tradição
divino-apostólica; no máximo teria o valor de documentação histórica.
Há uma distinção, mas não uma separação entre o Magistério e
a Tradição, ou seja, a Igreja é como uma Mestra (Magistério) que possui e
transmite a Escritura (Bíblia) e a Tradição (Depositum Fidei). O
Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta
interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da
Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou
objetivo/material.
Na publicação do Novo catecismo da Igreja Católica, São João
Paulo II escrevia assim: “Guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor
confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico
Vaticano II, inaugurado há trinta anos pelo meu predecessor João XXIII, de
feliz memória, tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão
apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do
Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o amor de Cristo que
excede toda a ciência (cf. Ef 3,19)”.
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro
de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em
Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

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