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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os desafios de viver os mistérios de Jesus Cristo no mundo digital

Cultura digital | Vatican Media.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas.

Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina, MG

Tive a oportunidade de exercer o ministério sacerdotal em três paróquias cujas igrejas matrizes, ainda que não barrocas, eram antigas e se destacavam por seus traços arquitetônicos e belezas artísticas. Primeiramente, o Santuário de São Francisco de Paula, em Ouro Fino (MG), como vigário paroquial; depois, a Basílica do Carmo, em Borda da Mata (MG), como pároco e reitor e, finalmente, a Catedral Metropolitana de Pouso Alegre (MG), como pároco e cura. Nessas igrejas, com suas belezas artísticas peculiares, reunidas nos altares, sacrários, pinturas, revestimentos, adornos e mobiliário, tornou-se comum, sobretudo a partir da década de 1990, encontrar fiéis com suas máquinas fotográficas, preocupados em registrar os momentos e os ambientes, produzindo fotos e mais fotos.

A popularização dos equipamentos para o registro de imagens contribuiu para o crescimento dessa prática nos templos, frutos da dedicação e da piedade das comunidades, que unem as gerações na busca do transcendente e da própria santidade. Assim, muitos fiéis se tornaram verdadeiros paparazzi, armados de máquinas digitais, flashes e outros acessórios, à espreita de momentos únicos de beleza divina, presentes nas formas e liturgias ambientadas nas igrejas.

O papa Bento XVI, em diversos contextos, analisou a relação intrínseca entre teologia e beleza e ensina: “Uma beleza não aberta a Deus reclui o homem nele próprio e é capaz de levá-lo ao desespero ou a um espiritualismo sem estreita relação com Deus […] Os que creem devem mostrar a beleza de sua fé em autênticas cerimônias, sobretudo, em sua liturgia”. Ora, a experiência de Deus passará sempre pelo exercício da contemplação. Por isso mesmo, são edificados belos templos para o culto a Deus e a Igreja busca nortear a sua liturgia pelo critério de “nobre simplicidade”.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas. No entanto, somos todos desafiados cotidianamente, em maior ou menor grau, por um mundo congestionado por imagens; flagrados e monitorados a todo o momento, com o auxílio da tecnologia digital. Os cidadãos do Reino Unido são os que mais passam por essa experiência, pois se tornaram os mais vigiados do mundo pelas câmeras de circuito fechado de televisão, segundo reportagem publicada pela revista britânica The New Statesman.

Se por um lado, ao menos em tese, verifica-se a descoberta do valor de armazenar imagens, vídeos e colecionar registros em grande escala, graças à proliferação dos instrumentais tecnológicos, nem sempre essa realidade coincide com um o maior interesse humanístico, cultural e histórico. A sociedade digital é, sobretudo, uma sociedade do descartável, do instantâneo. Fotografar é moda, mas apreciar o “belo”, como que numa vivência transcendental, não se interliga, necessariamente, a essa prática.

Percebo, sem preconceitos, que a dinâmica da câmera instantânea e do telegrama, raízes que batizam o Instagram invadiu os eventos de evangelização e as celebrações do Mistério Pascal, os sacramentos. Em nossas celebrações, de festas de padroeiros a ordenações, o fiel deixou de ser assembleia para se tornar plateia de um espetáculo digital. Na corrida pelo Reels perfeito ou pelo Story mais engajador, os mistérios são fragmentados em 15 segundos.

modus vivendi da sociedade digital, pressionado pela concorrência estética com o Instagram, impõe uma ditadura da imagem onde o sacramento vira cenário e o rito vira conteúdo. Esse processo de instagranização da fé faz com que, ao buscar o ângulo ideal para o Feed ou a transmissão ao vivo nas Lives, o fiel se ocupa com o periférico e ignora o essencial. O limite de 7.500 perfis que a rede permite seguir parece pequeno perto da multidão de distrações que afastam o olhar do altar. Perde-se a vivência do invisível na tentativa vã de capturar o digital: o espírito da liturgia não aceita filtros e a graça de um sacramento não cabe no Direct.

A fixação pelas imagens preocupa, ainda, por alimentar o sentimento de autoglorificação, de uma permanente necessidade que se pode resumir expressão popular: “Olha eu!”. Desse modo, as mãos, destinadas a louvar a Deus, estão sempre sobrecarregadas com a parafernália de última geração. Os olhos já não contemplam, ocupados em encontrar enfoques e ângulos. A atenção, essencial para uma participação efetiva, vai para o espaço! Não interagimos com o belo nem nos envolvemos com a ação ritual. Em última instância, não nos comprometemos com a vivência do sagrado nem dedicamos atenção às relações com o outro, que é irmão.

Gradativamente, torna-se banal a incidência desse modismo em nossas comunidades. A instagranização das celebrações eucarísticas corre o risco de nos tornar paparazzi das celebrações eucarísticas, suplantando a nossa identidade eclesial que é a de sermos membros de uma comunidade de fé. Quando participamos nos momentos celebrativos em nossas igrejas, é uma tentação sacarmos logo o celular, máquina fotográfica ou smartphone para capturar momentos que julgamos importantes, esquecendo que o esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico são sinais da beleza da entrega de Cristo por nós, realizada sacramentalmente, e do imenso e incessante amor de Deus por nós manifestado em  Nosso Senhor Jesus Cristo, que se atualiza em dimensão kairótica, e não cronológica.

Sob esse aspecto, a realidade digital nos afasta mais do que nos une. Ao fotografarmos em nossas celebrações eucarísticas, nos distraímos, além de prejudicar a concentração de outras pessoas. Na maioria das vezes, querendo valorizar e registrar imagens, acabamos deixando em segundo plano o mistério de Jesus Cristo. O tempo despendido em registrar um momento faz com que deixemos de lado a expressão genuína da beleza divina, a presentificação sacramental de Cristo e a atualização do Mistério Pascal.

Vale esclarecer que nesse caso, quando nos referimos a mistério, não estamos falando de algo secreto, escondido, de significado ou causa oculta, algo que não se pode explicar. Mistério, aqui, significa o desígnio (projeto, plano) eterno e misericordioso de Deus, agora revelado, realizado em Jesus Cristo, comunicado a todos os povos (cf. Rm 16, 25; Ef 3, 9; Col 1, 26-27; 1Tm 3, 16) e simbolizado por meio dos ritos litúrgicos. É algo que vai se revelando aos poucos. Transcende a materialidade e a nossa capacidade racional, pois é entendido e acolhido na fé.

Os sacramentos são momentos privilegiados do encontro entre Deus e o ser humano. Pelos sacramentos, participamos do mistério de Cristo, como corpo do Senhor ressuscitado. São sinais eficazes da graça, pois o próprio Cristo os instituiu, os confiou à Igreja e age em cada um deles (cf. CIC, 1131).

A celebração dos sacramentos abrange todas as etapas da existência humana, do nascimento à morte, sendo indispensável para alimentar a vida cristã. Nos sacramentos, o próprio Cristo Jesus nos comunica a sua plena comunhão com o Pai. Toda vida cristã desenvolve em torno dos sacramentos, especialmente o da Eucaristia.

Penso que uma alternativa pastoral para o desafio de se lidar com as tecnologias, considerando que é imprescindível para a Igreja manter-se também conectada com a realidade digital, seria o investimento específico na constituição das nossas Pastorais da Comunicação (Pascom). A partir de um processo educativo, os fiéis poderão compreender que os agentes da Pascom cumprirão, de forma consciente e oportuna, a missão de registrar e compartilhar nossas celebrações, os momentos fortes de vivência da fé, pautados nas orientações litúrgicas e na hierarquia de prioridades, no contexto de cada celebração.

Finalmente, para que nossas celebrações eucarísticas possam ser exclusivamente o lugar do “mistério de Deus”, manifestado pelos sacramentos, temos que investir para configurar, cada vez mais, as nossas igrejas em autênticos espaços de acolhimento, onde cada fiel tenha condições, em todos os momentos importantes da vida, de se encontrar com Jesus e ser discípulo missionário. Assim, vamos vivenciar, registrar e eternizar o Mistério Pascal do Senhor, e deixar as imagens, áudios e vídeos para os outros momentos das nossas vidas.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

O amor e a loucura andam juntas

Fábula do Amor e da Loucura (YouTube)

O AMOR E A LOUCURA ANDAM JUNTAS

15/10/2021

Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas (RS)

 Início a minha reflexão com uma estória: “A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa. Todos os convidados foram. Após o café, a Loucura propôs: – Vamos brincar de esconde-esconde? -Esconde-esconde? O que é isso? – perguntou a Curiosidade. – Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar. Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça. – 1,2,3…- a Loucura começou a contar. A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra. A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo. O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove. – CEM! – gritou a Loucura. – Vou começar a procurar… A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez… Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: – Onde está o Amor? Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima damontanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amoraparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amore até prometeu segui-lo para sempre. O Amor aceitouas desculpas. Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre”. 

A última frase dessa estória é uma conclusão e contém uma afirmação:  Conclui que o amor é “cego” e afirma que a “loucura” acompanha o amor. Mas deixa tudo em aberto, para que nós nos perguntemos: Por que o amor é “cego”? por que a “loucura” acompanha o amor? Ensaio aqui uma resposta às duas questões sob o prisma da boa nova cristã. 

Por que o amor é “cego”? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão “não enxerga” (quem não enxerga é “cego) as limitações do amado. Enxerga tão somente o amado a ser amado. Ama gratuitamente. Chega a amar o amado por causa de suas limitações e não por seus acertos. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “cego” como ele ensinou. Amou não levando em conta as “limitações” do ser humano. Como Deus “nascido numa gruta de animais” assumiu a natureza humana limitada, viveu 30 anos escondido numa família, pregou a boa nova aos “pequenos e simples”, pediu que fosse “dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, sujeitou-se a não ter “onde reclinar a cabeça”, abraçou a cruz e a morte de cruz… tudo isso, amando gratuitamente – como “cego”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que cenário de gratuidade – “cegueira” – do amor! Eis um amor “cego” e por isso salvador. 

Por que a “loucura” acompanha o amor? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão não caminha apenas segundo as razões, segundo os desejos, segundo as regras, segundo os interesses, segundo os direitos, segundo as compensações (não caminhar segundo as razões… é “loucura”). O amor cristão caminha colocando tudo em função do amado; coloca o “sábado para o homem e não o homem para o sábado”. Ama desinteressadamente. Chega amar o amado por causa de suas feridas e não por causa de suas belas e razoáveis aparências. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “desinteressado” como ele ensinou. Amou não levando em conta apenas as “razões” do ser humano. Como Mestre da “vida plena para a qual veio” escolheu “pescadores e publicanos” para discípulos e apóstolos, conviveu com pecadores discriminados, curou leprosos marginalizados, acolheu prostitutas desprezadas, identificou o Reino de Deus com as crianças “pequenas e simples” (e não com não-crianças “grandes e complicadas”), corrigiu a religião “hipócrita e vazia”, deixou-se condenar pelo poder mundano e falso, caminhou para o calvário sob o peso da cruz dos malvados, morreu como “grão de trigo” inocente, deixou o sepulcro como ressuscitado… tudo isso, amando desinteressadamente – como “louco”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que espetáculo de desinteresse – “loucura” – do amor! Eis um amor “louco” e por isso salvador. 

Em Jesus de Nazaré “o Amor cegado pelo espinho e a Loucura seguidora do Amor” tornou-se real! Que em nós cristãos também o Amor e a Loucura andem juntas! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF