No texto, publicado nesta sexta-feira (6/02) por ocasião dos
Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o Pontífice destaca o esporte como
caminho de formação humana, fraternidade e paz, e alerta para os riscos da
lógica do lucro e do desempenho a qualquer custo.
Thulio Fonseca - Vatican News
"Por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos
Olímpicos de Inverno, que terão lugar em Milão e Cortina d’Ampezzo de 6 a 22 de
fevereiro próximo, e da XIV edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno, que se
realizarão, nas mesmas localidades, de 6 a 15 de março, desejo dirigir uma
saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao
mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a
todos. A prática esportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional,
de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos,
embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo
das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática esportiva é uma
atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a
ponto de constituir uma expressão universal do ser humano."
Assim o Papa Leão XIV introduz a sua Carta com o
título A vida em abundância, sobre o valor do esporte, publicada
nesta sexta-feira, 6 de fevereiro. Dividida por temas ligados ao mundo
esportivo, desde sua história até os desafios atuais, o Santo Padre propõe uma
reflexão que une dimensão humana, educativa e espiritual da prática esportiva.
LEIA
AQUI A CARTA DO PAPA NA ÍNTEGRA
Esporte, formação humana e cultura do encontro
Na Carta, o Papa percorre a história do esporte e recorda
seu valor formativo ao longo do tempo, destacando a tradição cristã que sempre
reconheceu a unidade entre corpo, mente e espírito. Inspirado nas imagens
bíblicas utilizadas por São Paulo e na reflexão de pensadores como Santo Tomás
de Aquino, Leão XIV sublinha que a atividade esportiva favorece a disciplina, a
moderação e o desenvolvimento integral da pessoa, tornando-se um caminho
privilegiado de educação humana.
O Pontífice destaca ainda que o esporte é um espaço de
encontro e de relação, capaz de promover a fraternidade, o respeito às regras e
a superação do individualismo. Quando vivido de forma autêntica, ensina a lidar
com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desespero, contribuindo para a
construção de comunidades baseadas na cooperação, na solidariedade e na cultura
da paz.
Desafios atuais e riscos da prática esportiva
Leão XIV chama atenção também para os perigos que ameaçam os
valores do esporte, sobretudo quando ele é submetido à lógica do lucro, do
sucesso a qualquer custo e da exploração econômica. Nessas situações, o atleta
corre o risco de ser reduzido a mercadoria e a competição perde seu caráter
educativo, abrindo espaço para práticas como o doping, a corrupção e outras
formas de manipulação.
Além disso, o Papa alerta para outras distorções
contemporâneas, como a instrumentalização política das competições, o culto
excessivo da imagem e do desempenho e o impacto de tecnologias que podem
desumanizar a experiência esportiva. Diante desses desafios, o Pontífice
reafirma a necessidade de preservar o esporte como instrumento de inclusão,
diálogo entre culturas e promoção da paz, especialmente entre os jovens e os
mais vulneráveis.
As palavras finais de Leão XIV
"Pensar e implementar a prática esportiva como um
instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva. O esporte
pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de
diferentes origens sociais, culturais e físicas. A alegria de estar juntos, que
nasce do jogo partilhado, do treino comum e do apoio mútuo, é uma das
expressões mais simples e profundas da humanidade reconciliada.
Neste horizonte, os esportistas constituem um modelo que
deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência cotidiana fala de ascese
e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre
disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas
qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez,
oferece aos esportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado.
Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade.
Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso
sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.
Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa
bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma
acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra
corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância
convida a libertar o esporte de lógicas redutoras que o transformam em mero
espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma
presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o esporte
pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a
abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito
e da alegria de caminhar juntos."
































