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domingo, 1 de março de 2026

Exercícios Espirituais da Quaresma, 8ª meditação: os anjos de Deus

Exercícios Espirituais no Vaticano   (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua oitava reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Os anjos de Deus". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Dom Erik Varden, OCSO* 

Durante os quarenta dias em que Cristo permaneceu no deserto, Satanás aproximou-se dele e citou-lhe o Salmo 90, em particular dois versículos sobre os anjos. “O diabo — lemos em São Mateus — levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo” e o desafiou a provar que era o Filho de Deus, lançando-se para baixo, “Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito,e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'”.

Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pináculo. Sua chamada, porém, será: “Salta para os meus braços”, e não: “Lança-te para baixo”.

As intervenções angélicas nem sempre são tranquilizadoras. Os anjos não estão ali para satisfazer nossos caprichos. Numa oração popular atribuída a Reginaldo de Canterbury, contemporâneo de Bernardo, pedimos ao nosso anjo da guarda que nos “rege, nos guarde, nos governe e nos ilumine”. São verbos fortes: um anjo é antes de tudo um guardião da santidade.

A vida monástica foi logo compreendida e apresentada como angélica por sua finalidade de louvor, mas também porque o monge é chamado a ser inflamado pelo amor de Deus e a tornar-se seu emissário para os outros.

O único “canto de louvor” de Cristo, de que fala a Sacrosanctum Concilium em uma belíssima passagem, ressoa das extremidades da terra até os cumes do céu por meio de uma cadeia pulsante de mediação. Os anjos são parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Prefácio dentro do cânon da Missa.

Nos sermões sobre o Qui habitat, Bernardo sublinha o papel dos anjos como mediadores da providência de Deus. A mediação nem sempre é necessária: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de graça umas para as outras.

Bernardo nos exorta a olhar o que faz um anjo e a fazer o mesmo: “Desce e mostra misericórdia ao teu próximo; e de novo, elevando com o mesmo anjo os teus desejos, esforça-te por subir com toda a cupiditas da tua alma à suma e eterna verdade”. Raramente, hoje em dia, se faz referência a Cupido no mesmo contexto da “suma e eterna verdade”. A escolha lexical de Bernardo é provocadora: ela nos diz que todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, são atraídos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele.

O último e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontecerá na hora da nossa morte, quando nos conduzirão através do véu deste mundo para a eternidade. Então manifestarão suas características: “Não podem ser vencidos nem seduzidos, e muito menos podem nos seduzir”. Toda ficção cairá nessa hora: a retórica desaparecerá, apenas a verdade permanecerá, em plena consonância com a misericórdia.

Bernardo pregou com precisão sobre esses temas em 1139. Setecentos e vinte e seis anos depois, um homem de temperamento diverso, mas de inteligência semelhante, tornaria explícitas suas intuições numa poesia primorosa sobre a morte.

John Henry Newman refletia muito sobre os anjos. Concebia o ministério sacerdotal como angélico. O sacerdote está em casa neste mundo, não tem medo de entrar nos bosques escuros à procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mantém os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A iluminação é sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedagógica.

Newman, hoje Doutor da Igreja, também nos pede que redescubramos o professor como iluminador angélico. É um desafio profético e belo, se pensarmos em quanto a chamada “instrução” está hoje confiada aos meios digitais, inclusive artificiais, enquanto jovens adultos, adolescentes e crianças desejam encontrar mestres dignos de confiança, capazes de transmitir não apenas habilidades, mas sabedoria.

Um encontro angélico é pessoal. Não pode ser substituído por um download ou por um chatbot.

* Tradução não oficial da síntese publicada neste endereço: coramfratribus.com/life-illumined/gods-angels/

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

TEMPO DE PÁSCOA: A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo (Parte 1/3)

Nestas páginas, miniaturas retiradas do livro dos evangelhos do início do século XIII, preservado na abadia beneditina de Groß Sankt Martin, em Colônia: o depósito | 30Giorni.

TEMPO DE PÁSCOA

retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias

Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger

A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo

Por Cardeal Joseph Ratzinger

PRIMEIRA MEDITAÇÃO

Em nosso tempo, ouvimos falar cada vez mais insistentemente da morte de Deus. Pela primeira vez, em Jean Paul, ela surge apenas como um pesadelo: Jesus morto anuncia aos mortos, do alto do mundo, que em sua jornada para o além não encontrou nada, nem o céu, nem um Deus misericordioso, mas apenas o nada infinito, o silêncio do vazio profundo.

Ainda é um sonho horrível que é deixado de lado, gemendo ao despertar, como um sonho, mesmo que jamais se possa apagar a angústia sofrida, que sempre esteve à espreita, escura, nas profundezas da alma. Um século depois, em Nietzsche, ela se manifesta como uma seriedade mortal num grito estridente de terror: "Deus está morto! Deus permanece morto! E nós o matamos!" Cinquenta anos depois, falamos disso com distanciamento acadêmico e nos preparamos para uma "teologia depois da morte de Deus", olhamos ao redor para ver como podemos prosseguir e encorajamos os homens a se prepararem para tomar o lugar de Deus.

O terrível mistério do Sábado Santo, seu abismo de silêncio, adquiriu, assim, uma realidade esmagadora em nosso tempo. Pois este é o Sábado Santo: o dia do ocultamento de Deus, o dia daquele paradoxo inaudito que expressamos no Credo com as palavras "desceu ao inferno", desceu ao mistério da morte. Na Sexta-feira Santa, ainda podíamos contemplar o transpassado. O Sábado Santo está vazio, a pesada pedra do novo túmulo cobre o falecido, tudo acabou, a fé parece ser definitivamente desmascarada como fanatismo. Nenhum Deus salvou este Jesus que se fez passar por seu Filho. Podemos ficar tranquilos: os prudentes que antes hesitavam um pouco em seus corações sobre se talvez pudesse ser diferente, provaram estar certos. Sábado Santo: o dia do sepultamento de Deus; não é este o nosso dia, de uma forma impressionante? Não estará o nosso século a começar a ser um grande Sábado Santo, um dia da ausência de Deus, em que até os discípulos sentem um vazio gélido no coração que se alarga cada vez mais, e por isso se preparam, cheios de vergonha e angústia, para regressar a casa e partir, sombrios e destruídos no seu desespero, rumo a Emaús, completamente alheios ao facto de aquele que pensavam estar morto estar entre eles? Deus está morto, e nós matámo-lo: compreendemos verdadeiramente que esta frase é retirada quase literalmente da tradição cristã, e que muitas vezes, na nossa Via Sacra,

Repetimos algo semelhante sem perceber a tremenda gravidade do que estávamos dizendo? Matamos-o, aprisionando-o na casca obsoleta de pensamentos habituais, exilando-o numa forma de piedade desprovida de realidade e perdida no mero turbilhão de clichês ou tesouros arqueológicos; matamo-lo através da ambiguidade de nossas vidas, que também lançou um véu de trevas sobre ele: pois o que poderia tornar Deus mais problemático neste mundo do que a natureza problemática da fé e do amor de seus fiéis?

A escuridão divina deste dia, deste século que se torna cada vez mais um Sábado Santo, fala à nossa consciência. Nós também estamos lidando com ela. Mas, apesar de tudo, ela contém algo consolador. A morte de Deus em Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, uma expressão de sua radical solidariedade conosco. O mistério mais obscuro da fé é, ao mesmo tempo, o sinal mais claro de uma esperança ilimitada. E mais uma coisa: somente através do fracasso da Sexta-feira Santa, somente através do silêncio mortal do Sábado Santo, os discípulos puderam ser levados a compreender quem Jesus realmente era e o que sua mensagem realmente significava. Deus teve que morrer por eles para que pudesse verdadeiramente viver neles. A imagem que haviam formado de Deus, na qual tentaram forçá-lo a existir, teve que ser destruída para que, através dos escombros da casa arruinada, pudessem ver o céu, o próprio Deus, que permanece sempre infinitamente maior. Precisamos do silêncio de Deus para experimentar novamente o abismo de sua grandeza e o abismo de nosso nada que se abriria se ele não estivesse presente.

Há uma cena no Evangelho que antecipa de forma impressionante o silêncio do Sábado Santo e, assim, surge mais uma vez como um retrato do nosso momento histórico. Cristo dorme num barco que, fustigado por uma tempestade, está prestes a afundar. O profeta Elias já havia zombado dos sacerdotes de Baal, que em vão clamavam ao seu deus para que lançasse fogo sobre o sacrifício, incitando-os a gritar ainda mais alto, caso o seu deus estivesse dormindo. Mas Deus não dorme de verdade? A zombaria do profeta não afeta, em última análise, também os crentes no Deus de Israel que viajam com ele num barco que afunda? Deus dorme enquanto as suas coisas estão prestes a afundar — não é esta a experiência das nossas vidas? 

A Igreja, a fé, não se assemelha a um pequeno barco prestes a afundar, lutando em vão contra as ondas e o vento, enquanto Deus está ausente? Os discípulos clamam em extremo desespero e sacodem o Senhor para que o acorde, mas ele parece admirado e repreende a sua falta de fé. Mas será diferente para nós? Quando a tempestade passar, perceberemos quão tola era a nossa pequena fé. E, no entanto, ó Senhor, não podemos deixar de te abalar, Deus que estás silencioso e adormecido, e clamar a ti: Desperta, não vês que estamos afundando?

Desperta, não permitas que a escuridão do Sábado Santo dure para sempre, permite que um raio da Páscoa ilumine também os nossos dias, acompanha-nos enquanto caminhamos desesperadamente para Emaús, para que os nossos corações sejam inflamados pela tua presença. Tu que guiaste secretamente os caminhos de Israel para finalmente ser um homem entre os homens, não nos abandones na escuridão, não permitas que a tua palavra se perca no grande desperdício de palavras destes tempos. Senhor, dá-nos o teu auxílio, pois sem ti afundaremos.
Amém.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Leão XIV: o dom do Filho Salvador, a resposta do Pai ao desespero do ateísmo

Angelus, 01/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

"A Transfiguração antecipa a luz da Páscoa, "evento de morte e de ressurreição, de trevas e de nova luz que Cristo irradia sobre todos os corpos flagelados pela violência, sobre os corpos crucificados pela dor, sobre os corpos abandonados na miséria", disse Leão XIV no Angelus.

https://youtu.be/ioX99l_UxWs

Vatican News

A Transfiguração antecipa a Páscoa, mostrando que a glória de Cristo transforma a dor, o mal e as chagas da história em promessa de salvação e ressurreição. E na Quaresma, somos convidados ao silêncio, à conversão e à fé, pedindo a Maria que nos guie na contemplação do verdadeiro rosto de Deus.

Em síntese, foi o que disse Leão XIV ao dirigir-se aos milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro para o Angelus neste II Domingo da Quaresma.

O Evangelho da liturgia do dia (cf. Mt 17, 1-9), começou explicando o Papa, "compõe para todos nós uma imagem cheia de luz, narrando a Transfiguração do Senhor". E para representá-la, "o evangelista mergulha o seu pincel na memória dos Apóstolos, pintando Cristo entre Moisés e Elias".

"O Verbo feito homem - afirmou o Santo Padre - está entre a Lei e a Profecia: ele é a Sabedoria viva, que leva a cumprimento toda a palavra divina. Tudo o que Deus ordenou e inspirou aos homens encontra em Jesus a sua manifestação plena e definitiva". E "como no dia do batismo no Jordão, também hoje ouvimos a voz do Pai, que proclama no monte: «Este é o meu Filho muito amado», enquanto o Espírito Santo envolve Jesus numa «nuvem luminosa»:

Com esta expressão, verdadeiramente singular, o Evangelho descreve o estilo da revelação de Deus. Quando se manifesta, o Senhor revela a sua excelência aos nossos olhos: diante de Jesus, cujo rosto resplandece «como o sol» e cujas vestes se tornam «brancas como a luz», os discípulos admiram o esplendor humano de Deus. Pedro, Tiago e João contemplam uma glória humilde, que não se exibe como um espetáculo para as multidões, mas como uma solene confidência.

A Transfiguração - completou Leão XIV - antecipa a luz da Páscoa, "evento de morte e de ressurreição, de trevas e de nova luz que Cristo irradia sobre todos os corpos flagelados pela violência, sobre os corpos crucificados pela dor, sobre os corpos abandonados na miséria":

Com efeito, enquanto o mal reduz a nossa carne a uma mercadoria de troca ou a uma massa anônima, precisamente esta mesma carne resplandece da glória de Deus. O Redentor transfigura assim as chagas da história, iluminando a nossa mente e o nosso coração: a sua revelação é uma surpresa de salvação!

Diante disso, o Papa pergunta: "Deixamo-nos fascinar por ela? O verdadeiro rosto de Deus encontra em nós um olhar de admiração e amor?":

Ao desespero do ateísmo, o Pai responde com o dom do Filho Salvador; o Espírito Santo resgata-nos da solidão agnóstica, oferecendo uma comunhão eterna de vida e graça; diante da nossa fé fraca, está o anúncio da ressurreição futura: eis o que os discípulos viram no esplendor de Cristo, mas para compreendê-lo é preciso tempo. Tempo de silêncio para ouvir a Palavra, tempo de conversão para apreciar a companhia do Senhor.

"Enquanto experimentamos tudo isto durante a Quaresma - disse ao concluir - peçamos a Maria, Mestra de oração e Estrela da manhã, que guarde os nossos passos na fé".

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Exercícios Espirituais da Quaresma, 7ª meditação: glória

Exercícios Espirituais no Vaticano   (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua sétima reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Glória". Publicamos um resumo de sua reflexão.

Dom Erik Varden, OCSO* 

Quando Jesus explicou o que significava permanecer com ele e entrar no Reino que anunciava, “muitos de seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele”. Não estavam dispostos a aceitar seus ensinamentos sobre o realismo sacramental, sobre a indissolubilidade do matrimônio, sobre a necessidade da Cruz. Quando Cristo foi crucificado no Calvário, o 'synodos' que havia caminhado com ele apenas seis dias antes já não existia mais. Restaram somente dois seguidores: sua Mãe e João, o Discípulo Amado.

João fornece um relato preciso da kénosis de Jesus, que se desenvolve em dois níveis: o do amor divino, espremido no lagar da Cruz; e o da traição da lealdade humana, quando até mesmo aqueles que haviam prometido fidelidade usque ad mortem haviam fugido, recolhendo-se em casa para lamber suas feridas em segredo.

E, no entanto, João insiste que é precisamente essa cena de abandono que manifesta a glória de Cristo.

A glorificação, diz Bernardo, acontece quando, terminado o nosso caminho terreno, finalmente contemplarmos aquilo que nesta vida esperamos firmemente, depositando nossa confiança no nome de Jesus. “Spes in nomine, res in facie est”. Não há modo de traduzir o sentido dessa fórmula concisa e belíssima senão por meio de uma paráfrase um pouco solene: “Nossa esperança está no nome do Senhor; a realidade esperada está em vê-lo face a face”.

Uma certa “glória oculta” é, de todo modo, perceptível já agora. Agostinho gostava de dizer que aqui e agora trazemos a imagem da glória em uma “forma obscura”, uma forma que é encarnada e sujeita às vicissitudes da existência concreta. Uma vez atravessada esta vida, a forma se revelará explícita e “luminosa”.

Eventuais deformidades causadas por um mau uso da liberdade serão então reformadas, para que a forma emerja em sua beleza originalmente concebida: como “forma formosa”. Agostinho, tão profundamente humano e ao mesmo tempo penetrante, sublinha que a glória da imagem não pode ser perdida; ela está impressa em nosso ser. Pode, porém, ser soterrada sob camadas de obscuridade que se acumulam e precisam ser removidas.

A Igreja recorda às mulheres e aos homens a glória secreta que vive neles. A Igreja nos revela que a mediocridade e o desespero do presente — não por último, o meu próprio desespero por meus fracassos persistentes — não precisam ser definitivos; que o plano de Deus para nós é infinitamente maravilhoso; e que Deus, por meio do Corpo Místico de Cristo, nos dará a graça e a força de que necessitamos para alcançá-lo, se apenas lhe pedirmos.

A Igreja manifesta esplendores de “glória oculta” em seus santos. Os santos são a prova de que a doença e a degradação podem ser meios que a Providência utiliza para realizar um desígnio glorioso, conferindo força aos fracos e, ainda não satisfeita com isso, tornando-os santos resplandecentes.

A Igreja comunica a “glória oculta” em seus sacramentos. Todo sacerdote, todo católico conhece a luz que pode irromper no confessionário, durante uma unção, uma ordenação ou um matrimônio. A mais esplêndida — e, em certos aspectos, a mais velada — é a glória da santa Eucaristia.

Que sacerdote não poderia dizer, depois de celebrar os santos mistérios, aquilo que uma grande musicista declarou certa vez sobre a experiência de ser instrumento de uma luminosa comunicação de beleza, cura e verdade: “a morte não seria realmente uma tragédia, porque o melhor daquilo que está no centro da vida humana foi visto e vivido”, com o coração consumido por uma gloriosa maravilha?

* Tradução não oficial da síntese publicada neste endereço: coramfratribus.com/life-illumined/glory-2/

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

A Quaresma e os benefícios espirituais do contato com a natureza

Shutterstock I Freeman Studio

Philip Kosloski - publicado em 02/03/20 - atualizado em 27/02/26

Jesus nos convida a passar mais tempo no “deserto” durante a Quaresma, pois isso ajuda a curar nossa alma.

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Todos os anos, durante a Quaresma, tentamos imitar o tempo de jejum e oração de Jesus, fazendo vários sacrifícios, negando a nós mesmos os nossos alimentos e entretenimento favoritos. No entanto, alguma vez imitamos o tempo que Jesus passou no "deserto"?

O Evangelho de Mateus diz: "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio" (Mateus 4, 1).

Isso pode parecer um detalhe menor, mas essa ação de Jesus ao sair da cidade e entrar no “deserto” está se tornando cada vez mais relevante (e necessário). Os americanos em particular estão gastando mais tempo dentro de casa, mal vendo a luz do dia. Segundo a Agência de Proteção Ambiental (EPA), os americanos passam em média 93% de sua vida dentro de casa.

Nosso estilo de vida moderno criou uma ruptura com a natureza e agora estamos mais familiarizados com edifícios do que com árvores.

Uma das razões pelas quais devemos considerar passar mais tempo fora e em contato com a natureza são os muitos benefícios que isso pode trazer à nossa saúde física e espiritual. De acordo com uma pesquisa, passar mais tempo junto à natureza não apenas diminui a depressão e o estresse, como também melhora nosso comportamento em relação aos outros.

Outro estudo constatou que "os pacientes com vista para as árvores toleravam melhor a dor, pareciam ter menos efeitos negativos e passavam menos tempo em um hospital". Já foi demonstrado que "o contato com a natureza afeta positivamente a pressão arterial, o colesterol e a perspectiva da vida".

Além dos efeitos positivos que pode ter em nossos corpos, a caminhada ao ar livre também beneficia nossas almas. Em um estudo focado em crianças que passam de 5 a 10 horas por semana ao ar livre, as crianças “acreditavam que um poder superior havia criado o mundo natural ao seu redor. Eles também relataram sentir-se impressionadas e humilhadas pelo poder da natureza, ao mesmo tempo em que se sentem felizes e com um sentimento de pertencer ao mundo. ”

O Papa Francisco aponta em sua encíclica Laudato si ', que Jesus olhou ternamente para a natureza e sua beleza levou a muitas conexões espirituais:

"O Senhor pôde convidar outras pessoas a estarem atentas à beleza que existe no mundo, porque ele próprio estava em constante contato com a natureza, prestando-lhe uma atenção cheia de carinho e admiração. Ao percorrer a terra, muitas vezes parava para contemplar a beleza semeada por seu Pai e convidava seus discípulos a perceber uma mensagem divina nas coisas: 'Levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a ceifa' (Jo 4,35)".

São Francisco de Assis é um grande exemplo de santo que permitiu que a beleza da natureza penetrasse em sua alma, elevando-a a Deus. Além disso, São Francisco, fiel às Escrituras, convida-nos a ver a natureza como um livro magnífico no qual Deus nos fala e nos dá um vislumbre de sua infinita beleza e bondade. Por esse motivo, pediu que parte do jardim do seu convento sempre permanecesse intocada, para que flores e ervas silvestres pudessem crescer ali, e quem as visse pudesse elevar a mente a Deus, o Criador de tanta beleza.

Portanto, nesta Quaresma, ao considerar um “sacrifício”, tente passar mais tempo junto à natureza, permitindo que a beleza da criação cure sua alma e louvando a Deus pelas maravilhas de sua obra.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Sentir não é consentir: como identificar e vencer a tentação

Fomes Peccati: desde a criação de tudo, a humanidade possui uma inclinação ao mal e deve buscar combatê-la (Arte: Phillip Pereira | @phillippereira_ ).  

Da ¨madeira seca¨ da concupiscência à vitória de Cristo no deserto: entenda como a vigilância e a fuga podem transformar seu combate espiritual.

Pe. Rodrigo Rios – Vatican News

Ao refletir sobre a vida espiritual, constato que muitas pessoas confundem provação com tentação, imaginando, por vezes, que a primeira é não somente permitida por Deus, mas até querida por Ele. Para trazer clareza e oferecer vias para o combate espiritual, convém esclarecer alguns pontos fundamentais.

Na Bíblia, a palavra grega peirasmos possui um sentido ambivalente: pode significar tanto provação quanto tentação. A provação serve para edificar a fé; é o crisol onde o cristão, diante das dificuldades, se santifica e amadurece. Já a tentação tem um objetivo oposto: a queda. Neste artigo, vamos nos ater mais a esta.

A tentação pode brotar de duas fontes: da nossa própria concupiscência ou da ação do inimigo.

- A concupiscência (Fomes Peccati): Refere-se às nossas debilidades inerentes. Os antigos chamavam isso de fomes peccati, o combustível do pecado. Mesmo sendo batizados e, por isso, santificados pelo Espírito Santo, continua em nosso coração uma disposição ao mal. É como uma lareira: o batismo apaga o incêndio do pecado original, mas as brasas e a madeira seca continuam lá. Qualquer faísca externa pode reacender o fogo, pois o combustível permanece. Como bem descreveu São Paulo: "(...) não faço o bem que quero, mas o mal que não quero" (Rm 7, 19).

- A ação do Inimigo: Desde o Gênesis, percebemos o Maligno tentando induzir o ser humano ao erro. Ele não apresenta a tentação de forma terrível; prefere o que é suave e belo, a ponto de a pessoa simplesmente querer algo vivamente, pois foi persuadida de que aquilo realmente era bom. Contudo, cuidado: não devemos "demonizar" tudo. Muitas tentações são consequências de uma vida na carne desordenada, e não uma ação direta do demônio.

A tentação funciona como uma sedução. Costumo usar uma metáfora com meus dirigidos: imagine que você entrou em uma antessala que dá para um salão principal proibido. Na antessala, você já sente o perfume e seus olhos são atraídos pelo que está lá dentro. Você ainda não entrou no pecado, mas sua vontade começa a ser inclinada a atravessar a porta. Como vencer? Vejamos: há algo mais eficaz que a oração; ao seguir por este caminho, ter-se-á uma resposta mais breve de superação. E o que seria? A fuga.

Muitos tentam se pôr em oração no exato momento em que o desejo ferve, querendo "discutir" com a tentação para vencê-la. Frequentemente, fracassam! Se você percebe que está na antessala, corra de lá! A fuga é a primeira iniciativa de quem é prudente.

Segundo Evágrio Pôntico, conhecido Padre do Deserto do séc. IV: "Não está em nosso poder que os pensamentos nos perturbem ou não; mas está em nosso poder que eles se demorem ou não". Ou, como dizia um antigo confessor meu, Mons. João Leite: "O pecado não está em sentir, mas em consentir". A tentação é uma ebulição de sentimentos que tenta desestruturar a alma, mas o avanço para a ação concreta pode ser interrompido se não dermos hospedagem ao pensamento.

Nosso maior modelo é Jesus. No deserto, com visto em Mt 4, 1-11, Ele foi por três vezes tentado. Diante do que lhe foi oferecido, a quaresma de Jesus teve um fim grandioso: Ele venceu. Outras vezes o Diabo o tentou, mas Ele sempre o manteve em seu lugar.

Que possamos, ao identificar a origem de nossas lutas, nos munir das armas da vigilância e da ascese. Identificar o inimigo e conhecer nossa própria 'madeira seca' já são passos fundamentais para a vitória. Unindo a fuga à oração, teremos a firme esperança de vencer as ciladas do mal e perseverar no caminho da santidade. 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Bispos do continente americano: “Nenhum migrante é estrangeiro”

Os representantes dos bispos do continente americano 

Concluiu-se em Tampa, Flórida, o encontro bienal dos Bispos do continente americano com um apelo para encontrar respostas conjuntas para os desafios que enfrentam: um apelo para reconhecer os que deixam suas casas para encontrar maior segurança, como "o próprio rosto de Cristo a caminho".

Vatican News

"Nenhum migrante é estrangeiro para a Igreja": eis a firme convicção dos presidentes e representantes das Conferências Episcopais Americanas, que se reuniram em Tampa, Flórida (EUA) até a última quinta-feira, 19, com o objetivo de fortalecer a comunhão eclesial e encontrar respostas conjuntas para os desafios que o continente enfrenta. Em uma declaração conjunta, os Bispos afirmam: "Em cada pessoa, que deixa sua pátria em busca de segurança, oportunidade ou dignidade, reconhecemos um irmão, uma irmã no próprio rosto de Cristo a caminho".

O encontro bienal contou com a presença dos presidentes da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), da Conferência dos Bispos Católicos do Canadá (CCCB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), em continuidade a uma tradição de diálogo episcopal, iniciada em 1959, e agora em vista da sinodalidade.

O Cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, presidente da CNBB e do CELAM, recordou o valor eclesial deste evento compartilhado: "Nós, do CELAM, junto com os presidentes das Conferências dos Bispos Católicos dos Estados Unidos e do Canadá, reunimo-nos aqui para nos conhecermos melhor, rezarmos juntos e refletirmos sobre as questões que dizem respeito à realidade de nossas Igrejas".

Imigração e sinodalidade

Entre os temas da pauta, abordados durante o encontro, estava o da imigração, que os Bispos consideram "crucial para todos nós", além da sinodalidade: "um caminho iniciado pelo Papa Francisco, no qual devemos progredir, ao longo do tempo e nas realidades eclesiais locais". Depois, outro tema, a “polarização”, algo que nos divide, mas somos chamados a construir comunhão e unidade".

Dom Pierre Goudreault, bispo de Sainte-Anne-de-la-Pocatière, presidente do episcopado do Canadá, abordou, em seu discurso, a natureza sinodal do encontro continental, explicando: “Este evento oferece um tempo precioso para nós, bispos". Ele abordou ainda outros temas: como a “imigração e seus desafios” e a “polarização e o processo de implementação da sinodalidade em nossas Igrejas locais".

Por sua vez, Dom Paul Stagg Coakley, arcebispo de Oklahoma City e presidente do episcopado norte-americano, avaliou o encontro como uma experiência inédita do seu ministério: "Trata-se de um bom momento para conhecer os irmãos Bispos, provenientes de todos os cantos das Américas. Por isso, sou grato pela oportunidade de nos unirmos, aprendermos uns com os outros, ouvirmos uns aos outros e nos ajudarmos mutuamente".

Em suas declarações conjuntas, os Bispos expressaram o desejo de responder, de forma mais abrangente, ao sofrimento do Povo de Deus, sobretudo, diante da estigmatização dos migrantes, do agravamento da pobreza, das tensões políticas e da insegurança social. Como resultado final do encontro, os Bispos das Américas manifestaram sua determinação de fortalecer a cooperação pastoral sinodal em todo o continente; reafirmaram que "a mobilidade humana não pode ser reduzida a uma questão meramente política ou econômica, pois se trata de uma realidade profundamente humana, que desafia a nossa consciência cristã e a responsabilidade ética das nações".

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

“Moro onde não mora ninguém…”

Casinha simples do interior (Facewbook)

“MORO ONDE NÃO MORA NINGUÉM…”

27/02/2026

Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

Em 1975, Agepê lançou um álbum com este título. Na faixa em destaque, o compositor e intérprete canta, com lirismo e nostalgia, o lugar onde mora e se sente bem. O bem-estar que uma moradia simples e humilde proporciona também é cantado por Chico Buarque, num poema de Vinicius de Morais que ele musicou em 1970: Gente Humilde. 

Assim canta Agepê: “Moro onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro que eu me sinto bem! Não tem bloco na rua, não tem carnaval, mas não saio de lá. Uma casinha branca no alto da serra; um coqueiro ao lado, um cachorro magro amarrado. É lá que eu vivo sem guerra, é lá que eu me sinto bem”. 

Não é preciso transcrever outras canções como Tristeza do Jeca, Cidadão, Casinha Branca e Saudosa Maloca para demonstrar como a questão da moradia digna está vivamente presente no cancioneiro brasileiro, como drama ou como utopia. Por isso, não deve estranhar que a Igreja católica hoje traga a questão da moradia para dentro dos templos. 

Não podemos fechar os olhos para a grave questão da moradia no Brasil: 26 milhões de famílias vivem em moradias inadequadas; 6 milhões de famílias necessitam de uma moradia hoje; 330 mil pessoas vivem em situação de rua; 9 milhões de pessoas moram em áreas de risco; 16 milhões de pessoas vivem em favelas (que são “não-cidades”). Eles sim são obrigados a morar onde ninguém deveria morar… 

Voltando a atenção a Santa Cruz do Sul, segundo o último censo, apenas 61% das famílias vivem em moradias próprias e quitadas; recentemente, mais de 800 famílias disputaram 250 casas de um programa habitacional; mais de 30 mil pessoas têm uma renda de até meio salário mínimo. Com essa renda, como poderão adquirir uma casa ou pagar aluguel? 

Estamos habituados a tratar a moradia como uma mercadoria entre outras. Quem pode, compra. Mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos insere a moradia entre os direitos humanos (cf. art. 25). E a Constituição Federal a insere entre os direitos sociais dos cidadãos brasileiros (cf. art. 6º). E cabe ao Estado assegurar o acesso a esse direito! 

Os discípulos e discípulas de Jesus não podemos passar ao largo do drama da moradia, que fere grande parte dos nossos irmãos e irmãs. Jesus nos adverte sobre isso numa parábola (cf. Lucas 10,25-37): o serviço ao culto, a busca do bem-estar individual e a obsessão pela segurança não são álibis para ignorar a dor que fere os irmãos e irmãs. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Exercícios Espirituais da Quaresma, 6ª meditação: mil cairão

Exercícios Espirituais no Vaticano   (@Vatican Media)

O bispo Erik Varden faz sua sexta reflexão nos Exercícios Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "Mil cairão". Publicamos um resumo de sua reflexão.

As quedas podem nos tornar humildes quando estamos inchados de orgulho. Podem revelar o poder salvífico de Deus. Podem tornar-se marcos de um caminho pessoal de salvação, a serem lembrados com gratidão.

Entretanto, não podemos ser ingênuos. Nem todas as quedas terminam em júbilo. Há quedas que cheiram a inferno e arrastam o culpado por um rastro de destruição e ruína. Esse rastro é frequentemente amplo e longo, e acaba por atingir muitos inocentes. Precisaremos de coragem para nos aproximar, com Bernardo, do versículo do Salmo 90 que começa: “Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita”.

Nada prejudicou de modo mais trágico a Igreja, nada comprometeu mais o nosso testemunho do que a corrupção que cresceu dentro da própria casa. A crise mais terrível da Igreja não foi provocada pela oposição do mundo, mas pela corrupção eclesiástica. As feridas infligidas exigirão tempo para cicatrizar. Pedem justiça e lágrimas.

Diante da corrupção, sobretudo quando se trata de abusos, somos tentados a buscar uma raiz doente. Esperamos encontrar sinais de alerta precoces que foram ignorados: algum erro de discernimento, um padrão inicial de desvio. Às vezes esses indícios existem, e temos razão em nos censurar por não tê-los reconhecido a tempo. Mas nem sempre os encontramos.

Podemos reconhecer o bem grande e jubiloso que frequentemente se manifestava nos primórdios de comunidades hoje associadas ao escândalo. Não podemos presumir que tenha havido desde o início uma hipocrisia estrutural, e que os fundadores tenham se apresentado cinicamente como sepulcros caiados. Às vezes encontramos sinais de verdadeira inspiração, até mesmo vestígios de santidade. Como explicar a coexistência de desenvolvimentos bons e de desenvolvimentos deformados?

Uma mentalidade secular, em geral, se rende: diante de uma calamidade, designa monstros e vítimas.

Felizmente, a Igreja possui — quando se lembra de usá-los — instrumentos mais refinados e mais eficazes.

Onde os homens se empenham em esforços nobres, recorda-nos Bernardo, os ataques do inimigo serão ferozes. Ele observa: “os membros espirituais da própria Igreja são atacados com muito mais aspereza do que os carnais”. Pensa que é precisamente isso que o Salmo Qui habitat quer dizer com sua linguagem de “esquerda” e “direita”: a esquerda representa nossa natureza carnal, a direita nossa natureza espiritual. As vítimas são mais numerosas à direita porque é ali que, no campo de batalha espiritual, são empregadas as armas mais letais.

Mesmo levando a sério o reino demoníaco, Bernardo não atribui todas as doenças espirituais a seres malignos com chifres e forquilhas. Ele considera homens e mulheres responsáveis pelo uso que fazem de sua liberdade soberana. Seu ponto é que a natureza humana é una. Se começamos a descer às profundezas de nossa natureza espiritual, outras profundezas também se desvelam. Teremos de enfrentar a fome existencial, a vulnerabilidade, o desejo de conforto: experiências que podem assumir a forma de um assalto.

O progresso na vida espiritual exige uma configuração do nosso eu físico e afetivo em sintonia com a maturação contemplativa; caso contrário, há o risco de que a exposição espiritual busque válvulas de escape físicas ou afetivas, e que tais escapes sejam racionalizados como se fossem, de algum modo, eles próprios “espirituais”, de uma ordem superior aos delitos dos mortais comuns.

A integridade de um mestre espiritual se manifestará em sua conversa e em seu ensinamento, mas não apenas nisso; será evidenciada também em seus hábitos online, em seu comportamento à mesa e no bar, em sua liberdade em relação à adulação dos outros.

A vida espiritual não é um acréscimo ao resto da existência. Ela é sua alma. Devemos guardar-nos de todo dualismo, lembrando sempre que o Verbo se fez carne para que nossa carne fosse impregnada do Logos. É necessário vigiar tanto a esquerda quanto a direita e prestar atenção — insiste Bernardo nesse ponto — para não confundir uma com a outra. Devemos aprender a estar igualmente à vontade em nossa natureza carnal e espiritual, para que Cristo, nosso Mestre, possa reinar pacificamente em ambas.

* Tradução não oficial da síntese publicada neste endereço: coramfratribus.com/life-illumined/the-fall-of-thousands/

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

[FOTOS] São Francisco: o corpo exposto pela primeira vez em Assis, 800 anos após a morte

Photo courtesy of the Sala Stampa San Francesco Assisi

Cibele Battistini - publicado em 25/02/26

Oito séculos depois de sua morte, os restos mortais de São Francisco de Assis são expostos ao público pela primeira vez na cidade de Assis.

Até 22 de março, as relíquias do santo permanecem visíveis na igreja da Basílica de São Francisco de Assis, na região da Úmbria. A iniciativa integra as celebrações do Jubileu franciscano, que marca os 800 anos de sua morte, ocorrida em 1226.

No Testamento ditado ao final da vida, Francisco assinou como “piccolino” — pequenino. A pequena estatura, expressão concreta de sua humildade, pode agora ser vista com os próprios olhos. O esqueleto, de 1,39 metro, foi retirado da urna de bronze que o guarda desde o século XIX e colocado em uma caixa de plexiglass, recomposto conforme a última inspeção realizada em 1978.

Já no primeiro dia de exposição pública, em 21 de fevereiro, cerca de 18 mil pessoas passaram pela basílica. Desde as primeiras horas da manhã, quando os acessos foram abertos aos visitantes que haviam reservado horário previamente, percebia-se um clima de recolhimento. Um grande pavilhão branco montado na praça inferior organizava o fluxo: na inauguração, aproximadamente 1.500 pessoas por hora atravessaram o percurso preparado para a visita.

Antes de entrar na Basílica Inferior, os peregrinos percorrem um trajeto que alterna informação histórica e espiritualidade. Painéis no claustro interno narram a recuperação do corpo de São Francisco, desaparecido misteriosamente por 590 anos até ser reencontrado, em 1818, dentro de um sarcófago de travertino, após 52 noites de escavações. Há também espaço para oração e confissão, assistida pelos frades. Apesar da multidão, o silêncio e a concentração predominam, como se a figura do santo — talvez o mais humano do catolicismo — conduzisse a todos a um mesmo ritmo.

Participação mundial

Dentro da basílica, os visitantes avançam lentamente, cercados pelos afrescos históricos. Telões e painéis explicativos apresentam a inspiração do evento: a parábola do grão que morre para dar fruto. Ainda assim, muitos se detêm pouco diante dos relatos históricos e científicos. Não foram produzidos novos estudos sobre os restos mortais; a atual exposição foi precedida apenas por uma inspeção técnica, e a última análise detalhada data da década de 1970. Perde-se, assim, a oportunidade de aprofundar também a dimensão humana daquele que consumiu o próprio corpo ao longo de 44 anos de vida — marcado não apenas pelos estigmas, mas por uma conversão nascida do encontro com um leproso.

A expressiva participação popular — com cerca de 400 mil visitantes já inscritos — demonstra que a influência de São Francisco ultrapassa os limites do catolicismo. O historiador François Sabatier escreveu que o Cântico das Criaturasconstitui uma das expressões mais completas do sentimento religioso moderno. Já o historiador Lynn White, em artigo publicado na revista Science em 1967, definiu Francisco como pioneiro do pensamento ecológico.

Sua visão cósmica da natureza — composta por elementos interligados — faz dele uma referência também para ambientalistas contemporâneos.

A cultura popular chegou a retratá-lo como “irmão do universo”, em uma homenagem da Marvel Comics. O compromisso com a defesa dos animais, simbolizado no lendário encontro com o lobo de Gubbio, foi recordado recentemente pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si', publicada em 2015, que apresenta o conceito de ecologia integral — a defesa do planeta como dimensão essencial da justiça.

Diante da crise dos ecossistemas, sua mensagem, nascida há oitocentos anos, soa mais atual do que nunca.

Abrir a galeria de fotos, abaixo:

https://pt.aleteia.org/slideshow/exposicao-assis-800-anos-da-morte/

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF