O bispo Erik Varden faz sua nona reflexão nos Exercícios
Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e
os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "São Bernardo
realista". Publicamos um resumo de sua reflexão.
Vatican News
A identidade do movimento cisterciense é forjada na
interface entre o ideal e o concreto, o poético e o pragmático. Seus
protagonistas são postos à prova e purificados pelas tensões que daí decorrem.
Falei dos elevados ideais de Bernardo, da sua inclinação
para elaborar mentalmente uma linha de conduta, seguida depois de forma um
pouco drástica. Era natural para ele mirar alto. Uma característica
intransigente nunca o abandonou, mas suavizou-se com o tempo. É deste processo
que devemos agora falar: transformou o idealista num realista.
O psicanalista Jacques Lacan disse que "o real" é
aquilo com que nos colidimos. A amplitude dos esforços de Bernardo na
Realpolitik fez com que ele se colidisse com frequência. Mas ele se tornou um
realista, não apenas no sentido de aceitar as coisas como são, mas também
porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas
é um grito que implora misericórdia.
Quanto mais aprendia a reconhecer esse grito nos corações
humanos angustiados, nas lágrimas amargas, nos conflitos mundanos, nas
campanhas insanas contra a decência e a verdade — e até mesmo no sussurro das
árvores da floresta — mais Bernardo se tornava consciente da resposta gloriosa
e misericordiosa de Deus. Ele a ouvia no santo nome de Jesus, que se tornou
indizivelmente querido a ele. Em Jesus, Deus revela seu plano de salvação,
derramando-o sobre a humanidade como um óleo perfumado, curativo e purificador.
“Todo alimento para a alma”, disse Bernardo aos seus monges,
“é árido, se não estiver impregnado deste óleo; é insípido, se não for
temperado com este sal. Se você escreve, para mim não tem sabor, se eu não ler
Jesus. Se você discute ou discursa, para mim não tem sabor, se não ressoar
Jesus. Jesus, mel na boca, melodia no ouvido, júbilo no coração.”
Bernardo aprendeu as maravilhas que a misericórdia de Deus
pode realizar em Jesus. Isso deu à sua devoção uma profundidade afetiva. O
termo affectus é fundamental para ele. Tem um amplo espectro de significados,
mostrando que a graça nos move como seres encarnados, permitindo que nossos
sentidos percebam Deus. Mas Bernardo considerava Jesus, a encarnação da
verdade, nada menos que um princípio hermenêutico. Ele interpretava situações,
pessoas e relações rigorosamente à luz de Jesus. Essa perspectiva lhe renderá
admiradores convictos muito além do rebanho católico, de Martinho Lutero ao
fundador do movimento metodista, John Wesley.
Somente quando iluminada de forma sobrenatural, nossa
natureza revelará sua forma perfeita, sua forma bem torneada; somente então
ficará evidente o deleite de que a vida terrena é capaz; somente então a glória
escondida dentro de nós e ao nosso redor brilhará com intensos lampejos,
ensinando-nos o que nós, e os outros, podemos nos tornar, fornecendo um
paradigma para um mundo renovado.
Tal é o realismo ao qual Bernardo chegou em sua maturidade!
Isso lhe permitiu tornar-se não apenas um grande reformador, um orador sem
igual e um líder da Igreja: o conhecimento da realidade absoluta do amor de
Cristo e de seu poder de transformar tudo fez de Bernardo um doutor e um santo.
É por isso que o amamos e o honramos.
"Ele era", nos diz a Primeira Vida, "livre em
si mesmo". Isso é o que a vida lhe ensinou. Um homem ou uma mulher
verdadeiramente livre é uma realidade verdadeiramente gloriosa.
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