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domingo, 31 de maio de 2020

Papa: o segredo da unidade na Igreja, o segredo do Espírito, é o dom.

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“Peçamos o Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amen”.


Cidade do Vaticano

“O que é que nos une, em que se baseia a nossa unidade?”. Na homilia da Missa na Solenidade de Pentecostes, celebrada no Altar da Cátedra da Basílica de São Pedro, com a presença de 50 fiéis, o Papa Francisco falou sobre a unidade como dom do Espírito Santo.
E começou, partindo da Igreja nascente: «Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo – escreve Paulo aos Coríntios –; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; e há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos».

 Diversos, unidos pelo Espírito Santo
Diversidade – o mesmo, diversos – um só”. O Apóstolo – observa o Papa - insiste em juntar duas palavras que parecem opostas. Quer-nos dizer que este um só que junta os diversos é o Espírito Santo. E a Igreja nasceu assim: diversos, unidos pelo Espírito Santo”.

O Papa recordou que entre os apóstolos havia “pessoas simples, habituadas a viver do trabalho das suas mãos, como os pescadores”, mas também Mateus, “certamente dotado de instrução pois fora cobrador de impostos”.  Ou seja, há “origens e contextos sociais diversos, nomes hebraicos e nomes gregos, temperamentos pacatos e outros ardorosos, ideias e sensibilidades diferentes. Todos eram diferentes”.

A união vem com a unção
“Jesus  - enfatizou Francisco - não os mudara, nem os uniformizara, tornando-os modelos em série. Não! Deixara as suas diversidades; e agora une-os, ungindo-os com o Espírito Santo. A união vem com a unção.”

Em Pentecostes, “os Apóstolos compreendem a força unificadora do Espírito”, pois constatam, que apesar de todos falarem línguas diversas, “formam um só povo: o povo de Deus, plasmado pelo Espírito, que tece a unidade com as nossas diferenças, que dá harmonia porque é harmonia”.
Voltando para a Igreja hoje, o Papa pergunta: «O que é que nos une, em que se baseia a nossa unidade?»,  pois também entre nós “existem diversidades, por exemplo de opinião, preferência, sensibilidade”. Mas a tentação, “é defender sempre de espada desembainhada as nossas ideias, considerando-as boas para todos e pactuando apenas com quem pensa como nós. E esta é uma má tentação que divide”.

Nosso princípio de unidade é o Espírito Santo
Mas esta – ressalta o Papa – “é uma fé à nossa imagem”, em que aquilo que nos une “são as próprias coisas em que acreditamos e os próprios comportamentos que adotamos”. Mas “o nosso princípio de unidade é o Espírito Santo. E a primeira coisa que Ele nos lembra é que somos filhos amados de Deus. Todos iguais nisso, e todos diferentes”:

“O Espírito vem a nós, com todas as nossas diversidades e misérias, para nos dizer que temos um só e mesmo Senhor, Jesus, e um só e mesmo Pai; por isso, somos irmãos e irmãs. Partamos daqui! Olhemos a Igreja como faz o Espírito, não como faz o mundo. O mundo vê-nos de direita e de esquerda, com esta ideologia, com aquela outra; o Espírito vê-nos do Pai e de Jesus. O mundo vê conservadores e progressistas; o Espírito vê filhos de Deus. O olhar do mundo vê estruturas, que se devem tornar mais eficientes; o olhar espiritual vê irmãos e irmãs implorando misericórdia. O Espírito ama-nos e conhece o lugar de cada um no todo: para Ele não somos papelinhos coloridos levados pelo vento, mas ladrilhos insubstituíveis do seu mosaico”

O perigo da "Igreja ninho"
Voltando ao dia de Pentecostes, o Papa observa que a primeira obra da Igreja é “o anúncio”:
Vemos, porém, que os Apóstolos não preparam uma estratégia; quando estavam fechado ali, no Cenáculo, não faziam uma estratégia, não preparavam um plano pastoral. Teriam podido dividir as pessoas por grupos segundo os vários povos, falar primeiro aos de perto e depois aos que eram de longe, tudo organizado. Teriam podido também temporizar um pouco no anúncio e, entretanto, aprofundar os ensinamentos de Jesus, para evitar riscos... Mas não! O Espírito não quer que a recordação do Mestre seja cultivada em grupos fechados, em cenáculos onde tendemos a «fazer o ninho». E esta é uma séria doença que pode ocorrer na Igreja: a Igreja não comunidade, não família, não mãe, mas ninho. O Espírito abre, relança, impele para além do que já foi dito e feito, Ele impele para mais além dos recintos duma fé tímida e cautelosa”.

O segredo da unidade é o dom
Diferentemente do mundo que precisa de uma “estrutura compacta e uma estratégia calculada”, na Igreja – disse o Santo Padre - é o Espírito que assegura ao arauto a unidade”. Assim, os Apóstolos partem “sem preparação, lançam-se, saem. Anima-os um único desejo: dar o que receberam.”
E isso, leva-nos a compreender que “o segredo da unidade, o segredo do Espírito. O segredo da unidade na Igreja, o segredo do Espírito, é o dom. Porque Ele é dom, vive doando-Se e, assim, nos mantém unidos, fazendo-nos participantes do mesmo dom”:

É importante acreditar que Deus é dom, que não se comporta tomando, mas dando. E por que é importante? Porque o nosso modo de ser crentes depende de como entendermos Deus. Se tivermos em mente um Deus que toma e que Se impõe, desejaremos também nós tomar e impor-nos: ocupar espaços, reivindicar importância, procurar poder."

“Mas, se tivermos no coração que Deus é dom, muda tudo. Se nos dermos conta de que aquilo que somos é dom d’Ele, dom gratuito e imerecido, então também nós quereremos fazer da vida um dom. E amando humildemente, servindo gratuitamente e com alegria, ofereceremos ao mundo a verdadeira imagem de Deus.”

Os três inimigos do dom
O Espírito, memória viva da Igreja, lembra-nos que nascemos de um dom e crescemos doando-nos; não poupando-nos, mas dando-nos.

O Papa então nos convida a olhar no íntimo de nós mesmos e nos perguntar o que é que impede de nos darmos, indicando três inimigos do dom, “sempre deitados à porta do coração: o narcisismo, a vitimização e o pessimismo”.

O narcisimo
“O narcisismo leva a idolatrar-me a mim mesmo, a comprazer-me apenas com o lucro próprio. O narcisista pensa: «A vida é boa, se eu ganho com ela». E assim chega a dizer: «Por que deveria eu doar-me aos outros?» Nesta pandemia, faz um mal imenso o narcisismo, o debruçar-se apenas sobre as próprias carências, insensível às dos outros, o não admitir as próprias fragilidades e erros.

A vitimização
Mas o segundo inimigo, a vitimização, também é perigoso. A vítima lamenta-se todos os dias do seu próximo: «Ninguém me compreende, ninguém me ajuda, ninguém me quer bem, estão todos contra mim!» E o seu coração fecha-se, enquanto se interroga: «Por que não se doam a mim os outros?» Quantas vezes ouvimos estas lamentações! No drama que vivemos, como é má a vitimização! Como é mau pensar que ninguém nos compreende e sente aquilo que sentimos nós. Isso é a vitimização!

O pessimismo
Por fim, temos o pessimismo. Neste caso, a ladainha diária é: «Nada vai bem, a sociedade, a política, a Igreja...» O pessimista insurge-se contra o mundo, mas fica inerte e pensa: «Assim para que serve doar-se? É inútil». Agora, no grande esforço de recomeçar, como é prejudicial o pessimismo, ver tudo negro, repetir que nada voltará a ser como antes!”

Com este tipo de pensamento – observou Francisco - o que seguramente não volta é a esperança: "Nestes três - o ídolo narcisista do espelho, o deus-espelho; o deus-lamentação: "eu me sinto pessoa nas lamentações"; e o deus-negatividade: "tudo é escuro" - , “encontramo-nos na carestia da esperança e precisamos apreciar o dom da vida, o dom que é cada um de nós. Por isso, necessitamos do Espírito Santo, dom de Deus que nos cura do narcisismo, da vitimização e do pessimismo, nos cura do espelho, das lamentações e do escuro.”

Construtores de unidade
O Pontífice concluiu sua homilia com a oração:
“Irmãos e irmãs, rezemos: Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amen”.

Vatican News

UM NOVO PENTECOSTES

No dia de Pentecostes, cinquenta dias após a ressurreição de Cristo, nosso Redentor realizou tudo aquilo que tinha prometido aos Seus Apóstolos, ou seja, que eles receberiam o batismo no Espírito Santo e seriam revestidos do poder do Alto para que pudessem anunciar o Evangelho a todas as nações.

Naquele domingo de Pentecostes, os Apóstolos estavam reunidos no Cenáculo juntos com a Virgem Santa Maria, quando, “de repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde eles se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava. Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. Quando ouviram o barulho, juntou-se a multidão, e todos ficaram confusos, pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua”. (At 2, 2-6).
Animados pelo fogo impetuoso de Pentecostes, e renovados pela força do Espírito Santo, os Apóstolos saíram do Cenáculo e começaram a falar de Cristo, morto e ressuscitado, aos fiéis vindos a Jerusalém de todas as partes, e cada um os ouvia falar na sua própria língua, evidenciando que onde o Espírito de Deus se faz presente ali há unidade, sintonia, comunhão e entendimento.
Pentecostes nos revela que, quando somos dóceis à ação do Espírito Santo, nós passamos a ser homens novos, semeadores de esperança, instrumentos da paz e da misericórdia e testemunhas credíveis de nosso Senhor Jesus Cristo. O dia de Pentecostes foi o dia do nascimento da Igreja, o Corpo Místico de Cristo, que é composto por seres humanos de diversas raças e culturas, congregados no amor e na fé da Santíssima Trindade, para ser o sinal visível do Cristo invisível em nosso meio e instrumento da unidade de todo o gênero humano.
Em Pentecostes, nós percebemos que “o Espírito Santo soprará, através de nós, em muitos corações que pareciam apagados, e do seu rescaldo de vida cristã sairão chamas que se propagarão em ambientes que de outro modo teriam permanecidos frios e distantes de Deus”. (São Josemaría Escrivá, Forja n º 9). Pentecostes é o testemunho visível de que a fé não pode ser aprisionada ou reduzida às paredes de nossos templos, pois o Espírito Santo gera dinamicidade, movimento, renovação e impulso missionário.
Desse modo, todos os batizados têm o dever, o direito e a alegria de dizer que o Pentecostes continua na vida da Igreja, ou seja, há uma perenidade do Pentecostes que se renova em todos os séculos e em todas as gerações, pois, por meio do Batismo e do Crisma, nós sentimos a força do Espírito Santo, somos revestidos por esta graça e começamos a realizar, sem medo ou desânimo, as missões do nosso Batismo. Por conseguinte, de algum modo, podemos afirmar que, nas celebrações do Batismo e da Confirmação, há um prolongamento, uma continuação do Cenáculo de Jerusalém, pois estamos reunidos para renovar o mistério deste grande dia mediante a ação de Deus nas almas.
Quando lemos e meditamos as Sagradas Escrituras, iluminados pela luz do Espírito Santo, adquirimos a consciência de que o dia de Pentecostes se iniciou na mesma tarde do Domingo da Ressurreição de Cristo, o dia em que Jesus, como uma singular pontualidade, concedeu o Espírito Santo à Igreja como dom divino e como fonte incessante de santificação. Naquele dia, Cristo, vivo e ressuscitado, apareceu aos Apóstolos, que estavam fechados, no Cenáculo, com medo das perseguições dos judeus, e, depois de os ter saudado com o dom da paz, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhe serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. (Jo 20, 22-23). Essa foi a abertura, o primeiro e grandioso passo do evento de Pentecostes que Deus realizou na Igreja nascente de Jerusalém.
A grande e prodigiosa efusão do Espírito Santo é narrada por São Lucas nos Atos dos Apóstolos, onde ele deixa claro que o Paráclito sopra onde quer, penetra em toda a parte, com universal e soberana liberdade, consagrando-nos na Verdade. O Espírito Santo é o Timoneiro da barca da Igreja e de nossas vidas e, por isso, quando estamos parados, acomodados e confortáveis no terreno das missões, Ele nos questiona: “Vós recebestes o Espírito Santo quando abraçastes a fé?”. (At 19, 2). Ele nos ajuda a perceber que, no itinerário da santidade, precisamos percorrer as periferias para salvar as almas. Nesse percurso, podemos encontrar pessoas que nos digam: “Nem sequer ouvimos dizer que existe o Espírito Santo!”. (At 19, 2). Pela correspondência à graça divina, nós sabemos que Ele existe, pois sentimos a Sua presença em nós e na Igreja e, por isso, quando somos dóceis às Suas inspirações, um novo caminho abre-se diante de nós, revelando uma nova messe que pode ser transformada, cultivada, para que, em um breve futuro, ocorra uma nova floração de santidade.
O Espírito Santo nos faz perceber que ficar parado não é uma atitude que combina com o dinamismo da fé. Dessa maneira, Ele nos impulsiona a sair, a ir ao encontro das necessidades dos nossos irmãos, deixando claro que consegue melhores resultados e novas conversões quem se faz próximo, quem acompanha, orienta e acolhe. O Espírito Santo, mediante os dons e os talentos que Ele nos concede, nos dá a certeza de que Deus quer nos utilizar como instrumentos para despertar em nossos coetâneos o desejo de se aproximarem do Seu amor e da Sua misericórdia. Mas, para que isso ocorra, não podemos atrapalhar a ação do Divino Espírito, não podemos impor limites à ação da graça. Temos, sim, que ser dóceis, humildes e determinados. Agindo assim, gastaremos as solas dos nossos sapatos e, se for preciso, criaremos calos nas cordas vocais por meio do anúncio da alegria do Evangelho, testemunhando o entusiasmo da esperança.
Quando estamos abertos à ação renovadora do Espírito Santo, Ele nos recorda os ensinamentos do Cristo que nos diz: “Vim trazer fogo à terra, e que quero senão que arda?”. (Lc 12, 49). Ardendo de amor no Espírito, subimos a temperatura da santidade, incrementamos nossa pertença a Deus e à Igreja e passamos a ser uma centelha de luz, um sinal de amor, um fermento vivificador na massa, o sal que dá sabor, temperando o comum do dia a dia com a suave e transformadora presença de Deus que é sempre novo, moderno, atualizado, dinâmico e contemporâneo.
O Espírito Santo, que mora em nossas almas, faz de nós membros da Igreja, discípulos missionários de Jesus, testemunhas da esperança, construtores e colaboradores de um novo Pentecostes, a fim de que possamos renovar as nossas comunidades, famílias e vidas. É justamente em comunidade, unidos ao nosso próximo, que somos alcançados pelas chamas de amor do Paráclito e, por isso, bradamos: “Não se nos abrasava o coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32).
Em comunidade, aumentamos a vibração da santidade, da fé e do amor, mantemos aquecida a chama da misericórdia e, com humildade e fortaleza, somamos esforços na edificação do Reino de Deus. Em comunidade, estamos unidos à Virgem Santa Maria. Invoquemos, hoje, amanhã e sempre, com confiança, a sua intercessão maternal, a fim de que sejamos dóceis às inspirações do Espírito Santo para colaborarmos na renovação da Igreja, testemunhando sempre mais os milagres de Pentecostes em nossa História.
“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor!”. Fortalecei-nos, ó Espírito Santo, com os Vossos sete dons, os carismas e os talentos, a fim de que possamos propagar no mundo, e nos ambientes em que vivemos, o incêndio purificador da santidade. Vinde, Espírito Santo, ensinai-nos a cantar a glória de Deus e as Vossas grandezas e a viver numa contínua ação de graças! “Enviai, Senhor, o Vosso Espírito e renovareis a face da terra!”. Vinde, Espírito Santo, vinde!
Aloísio Parreiras
ARQUIDIOCESE DE BRASÍLIA

Da Providência Divina (5/10)

Comunidadefanuel
DA  PROVIDÊNCIA DIVINA
São Tomás de Aquino
(cf. Suma Teológica)
ARTIGO 5º – SE OS ATOS HUMANOS SÃO REGIDOS PELA PROVIDÊNCIA
Respondo dizendo que, assim como já foi dito anteriormente, tanto mais nobremente algo é colocado sob a ordem da providência quanto mais próximo estiver do primeiro princípio.
Ora, entre todas as criaturas, são as substâncias espirituais as que mais se aproximam do primeiro princípio, de onde que são ditas terem sido assinaladas pela sua imagem; e por isso obtiveram da divina providência que não apenas sejam provistas, mas também que provejam, sendo esta a causa pelas quais as substâncias espirituais podem eleger os seus atos, e não as demais criaturas, que são somente provistas, sem serem providentes.
Importa, porém, que a divina providência, na medida em que diz respeito à ordenação ao fim, seja feita segundo a regra do fim. O primeiro providente, porém, é ele próprio como o fim da providência; possui, portanto, a regra da providência a si unida, de onde que é impossível que por parte dele próprio possa ocorrer algum defeito nas coisas provistas pelo mesmo. Neles, deste modo, não pode haver defeito a não ser por parte dos provistos.
Mas as criaturas, às quais a providência foi comunicada, não são fins de sua providência, mas se ordenam a outro fim, a saber, Deus. São ordenadas, portanto, na medida em que tomam da regra divina a retidão de sua providência. Origina-se daqui que, em sua providência, possa ocorrer defeito não somente por parte dos provistos, mas também por parte dos providentes.
Segundo, todavia, que alguma criatura esteja mais unida à regra do primeiro providente, segundo isto a ordenação da sua providência terá uma retidão mais firme. Como, portanto, tais criaturas podem apresentar defeitos em seus atos, e elas próprias são causas de seus atos, surge daqui que seus defeitos tenham razão de culpa, o que não era o caso dos defeitos das outras criaturas.
Porque, porém, tais criaturas espirituais são incorruptíveis em seus indivíduos, também os seus indivíduos são provistos por causa de si mesmos, e por isso os defeitos que neles ocorrem ordenam-se à pena ou ao prêmio na medida em que lhes compete, e não somente na medida em que são ordenados a outros. E entre estas criaturas está o homem, porque pela sua forma, isto é, a alma, é uma criatura espiritual, da qual vem a raiz dos atos humanos, e pela qual o corpo do homem possui ordenação à imortalidade.
E por isto os atos humanos caem debaixo da divina providência de modo que eles próprios são provisores de seus atos, e seus defeitos possuem uma ordenação para com si próprios e não somente para com os outros, assim como o pecado do homem possui uma ordenação dada por Deus para o bem do homem para que este, ressurgindo após o pecado, se torne mais humilde, ou pelo menos para o bem que se realiza nele pela justiça divina, na medida em que é punido pelo pecado. Mas os defeitos que ocorrem nas outras criaturas possuem uma ordenação somente para com outros, assim como a corrupção deste fogo se ordena à geração daquele ar.
E por isto, para designar este modo especial de providência, pela qual Deus governa os atos humanos, está escrito no livro da Sabedoria: “Dispõe de nós com reverência” (Sabedoria 12, 18).
Veritatis Splendor

Fundamento Bíblico da Teologia Católica: Mariologia (Parte 6/6)

Ecclesia
Tradução: Carlos Martins Nabeto


VI. DEPOIS DA COROAÇÃO: OUTRAS PRERROGATIVAS
Em suma:
1. Cooperadora com seu Filho na obra de Redenção.
2. Distribuidora das graças.
3. Tesoureira universal.
4. Comediadora.
5. Mãe de todos os cristãos.
6. Seu imenso amor pelos homens.
1. A VIRGEM MARIA COOPEROU VERDADEIRAMENTE E REALMENTE COM SEUS FILHO NA OBRA DE REDENÇÃO DO GÊNERO HUMANO
A obra de redenção compreende dois aspectos:
a) A doação do Redentor.
b) A realização da obra salvadora.
a) A Virgem cooperou na doação do Redentor:
1º) Deus Pai é a causa principal da doação do Redentor ao mundo:
“Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu único Filho, para que todo o que creia nele não pereça” (João 3,16).
2º) Porém, o Redentor foi enviado por meio de Maria:
“Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher” (Gálatas 4,4).
b) A Virgem Maria colaborou na realização da obra redentora:
“Disse Maria: ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra'” (Lucas 1,38).
Esclarecimento: A Virgem colaborou totalmente na obra de Jesus Cristo, visto que sua realização dependia do seu consentimento: “Faça-se”.
“E vivia sujeito a eles (…) Jesus progredia em sabedoria, em estatura e na graça diante de Deus e dos homens” (Lucas 2,51-52).
Esclarecimento: Jesus se preparava para sua obra redentora sob a tutela e responsabilidade de seus pais; estes, assim, lhe prestavam uma autêntica colaboração.
2. DEUS DETERMINOU SEU PLANO DE ASSOCIAR INTIMAMENTE MARIA À OBRA SALVÍFICA DE CRISTO NA AQUISIÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DAS GRAÇAS
Indícios muito claros são os seguintes:
a) A Anunciação:
“O anjo lhe disse: ‘Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus; irás conceber no seio e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus'” (Lucas 1,30-31).
b) O Milagre das Bodas:
“Três dias depois foi celebrada uma boda em Caná da Galiléia e estava ali a Mãe de Jesus. Jesus e seus discípulos também foram convidados à boda. E como faltasse vinho, sua Mãe disse a Jesus: ‘Não têm vinho’. Jesus lhe respondeu: ‘O que tenho eu contigo, mulher? Ainda não chegou a minha hora’. Sua Mãe disse aos serventes: ‘Fazei o que Ele vos disser'” (João 2,1-5).
c) A presença de Maria no Calvário:
“Junto à cruz de Jesus estavam sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena” (João 19,25).
d) A proclamação, por Cristo, de sua maternidade espiritual:
“Jesus, vendo sua Mãe e junto a ela o discípulo a quem amava, disse para sua Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir, disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’. E a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa” (João 19,26-27).
3. A VIRGEM MARIA FOI CONSTITUÍDA POR DEUS TESOUREIRA UNIVERSAL DE TODAS AS GRAÇAS
Não consta claramente na Sagrada Escritura; porém, a Igreja atribui-lhe os seguintes versículos:
“Eu sou a Mãe do amor formoso, do temor” (Eclesiástico 24,24).
Esclarecimento: Maria, depositária do amor divino e do temor, para distribuí-los aos seus filhos.
“Em mim, toda graça da vida e da verdade” (Eclesiástico 24,25).
Esclarecimento: Para que sirva de luz aos homens que caminham neste mundo.
“Em mim, toda esperança de vida e de virtude” (Eclesiástico 24,25).
Esclarecimento: Porque na terra esperamos a vida da graça e no céu a vida da glória, adquirimos as virtudes por Maria.
4. A VIRGEM MARIA É MEDIADORA DE TODAS AS GRAÇAS AOS HOMENS
“Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênese 3,15).
Esclarecimentos: “Hostilidade entre ti e a mulher”, isto é, entre Satanás e Maria. “Hostilidade entre tua linhagem e a linhagem dela”, isto é, entre os pecadores e Cristo e seus seguidores. Portanto, Cristo e Maria unidos em sua luta contra Satanás. Porém, a cooperação de Maria com Cristo é incompleta apenas com sua maternidade física e sua cooperação próxima à obra redentora pela qual ocorre a aquisição das graças se não houver a intervenção real de Maria na concessão das mesmas.
“Naqueles dias, Maria se levantou e foi prontamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá; entrou na casa de Zacarias e saudou a Isabel. E enquanto Isabel ouvia a saudação de Maria, saltou alegremente o menino em seu seio, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lucas 1,39-41).
Esclarecimento: Antes de ter saído do seio virginal de Maria, Cristo concedeu a graça da santificação a João Batista, significada pela exultação e salto alegre no ventre de Santa Isabel.
“Foi celebrada uma boda em Caná da Galiléia e estava ali a Mãe de Jesus. Jesus e seus discípulos também foram convidados à boda. E como faltasse vinho, sua Mãe disse a Jesus: ‘Não têm vinho’. Jesus lhe respondeu: ‘O que tenho eu contigo, mulher? Ainda não chegou a minha hora’. Sua Mãe disse aos serventes: ‘Fazei o que Ele vos disser'” (João 2,1-5).
Esclarecimento: O primeiro milagre de Jesus, ao começar sua vida pública, foi aquela conversão admirável da água em vinho, que se realizou a pedido de Maria.
A ação de distribuir os dons pertence a Cristo por direito próprio e exclusivo, visto que os adquiriu com sua Morte, e ele é potestativamente o Mediador entre Deus e os homens (São Pio X).
“Se alguém peca, temos um advogado perante o Pai: Jesus Cristo, o justo” (1João 2,1).
Maria coopera com Cristo na distribuição das graças.
5. A VIRGEM MARIA É REALMENTE E VERDADEIRAMENTE MÃE DE TODOS OS CRISTÃOS
“Jesus, vendo sua Mãe e junto a ela o discípulo a quem amava, disse para sua Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir, disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’. E a partir daquela hora, o discípulo a acolheu em sua casa” (João 19,26-27).
Esclarecimento: Cristo designou com o nome de “discípulo” todos os cristãos; isto é mais congruente com a universalidade de todas e cada uma das ações redentoras de Cristo.
“E deu à luz ao seu filho primogênito” (Lucas 2,7).
Esclarecimento: Se Cristo foi seu filho primogênito, é porque os outros são seus filhos segundogênitos. Porém, como a Virgem não teve filhos carnais, é necessários que sejam espirituais.
6. O AMOR DA VIRGEM MARIA PARA COM OS HOMENS É IMENSO, POR SUA CARIDADE PARA COM DEUS E PORQUE CRISTO OS ENCOMENDOU NA PESSOA DE JOÃO
a) Por sua caridade para com Deus:
“E recebemos dele este mandamento: ‘Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1João 4,21).
“O que vos mando é que ameis uns aos outros” (João 15,17).
“Eis o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (João 15,12).
Esclarecimento: Deduz-se claramente que a Virgem Maria cumpriu este Mandamento com toda a perfeição.
b) Porque Cristo os encomendou na pessoa de João:
“Jesus, vendo sua Mãe e junto a ela o discípulo a quem amava, disse para sua Mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. A seguir, disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe'” (João 19,26-27).

Esclarecimento: As últimas palavras que Cristo disse a Maria têm um valou e uma aplicação perene para todos e para cada um de seus filhos: os cristãos representados em João.
Veritatis Splendor

A humanidade de S. Paulo VI (3/4)

Montini era um papa humano simples, na vida cotidiana e no encontro com a multidão, na solidão cotidiana, em contatos frequentes com colaboradores e nos momentos das escolhas mais exigentes.

Do arcebispo Romeo Panciroli

Paulo VI ama o mundo em que Jesus Cristo o chamou para governar a Igreja. Ele foi o primeiro papa que trouxe a Igreja para o meio do mundo, em todo o mundo, definindo-se e assinando a si mesmo como "Viator Christi".

Com um programa preciso e direcionado, alcançou cidades e nações distantes de sua sede para animar aniversários significativos com sua presença. Em todos os lugares ele era portador de calor humano e comunhão eclesial. Se todo bispo, todo pároco e todo cristão fizessem, proporcionalmente, o que ele realizou como animação e renovação, a Igreja estaria muito à frente hoje em seu caminho.
Paulo VI era um homem de considerável coragem que pareceria imprudente se não derivasse de sua fé inabalável e daquele Espírito de Deus com o qual estava cheio: «De todas as experiências que a vida humana pode ter, a mais bela, a mais rica das promessas e consolado, é precisamente o de possuir o Espírito de Deus ».

Coragem para avançar na missão pastoral, com a qual ele foi investido, e no trabalho de renovação conciliar. Sua posição em defesa da vida com a encíclica Humanae vitae foi corajosa, e sua declaração conciliar, Dignitatis humanae , sobre liberdade religiosa, muito comentada nos últimos dias no colóquio internacional promovido pelo Instituto Paulo VI , também é corajosa . finalmente, a profissão de fé, o Credo do Povo de Deus , ousado e comovente , proclamava com vigor na Praça de São Pedro, no final do Ano da Fé.

E sua carta às Brigadas Vermelhas e as palavras proferidas no funeral de seu amigo Aldo Moro ainda estão profundamente gravadas em nossos corações: «E quem pode ouvir nossa queixa se ainda não é você, ó Deus da vida e da morte? Você não ouviu nosso apelo ... pela segurança dele ".

O discurso proferido na reunião do Conselho Ecumênico de Igrejas de Genebra também foi cheio de humildade e orgulho: «Nosso nome é Pedro. Pedro é um pescador de homens, Pedro é um pastor ... E o nome que escolhemos, o de Paulo, indica bastante a orientação que queríamos dar ao nosso ministério apostólico ».

Forte e corajoso o início de sua homilia em Manila, em 29 de novembro de 1970, em um grande parque nos arredores da capital, diante de uma imensa multidão composta principalmente de jovens agricultores e pescadores; com tanta força e convicção, ele se expressou assim: «Eu, Paulo, sucessor de São Pedro, encarregado da missão pastoral de toda a Igreja, nunca teria vindo de Roma a este país extremamente distante, se não estivesse firmemente convencido de duas coisas fundamentais : o primeiro de Cristo, o segundo da sua salvação. Convencido de Cristo; sim, sinto a necessidade de anunciá-lo, não posso silenciá-lo, ai de mim se não proclamar o evangelho. É por isso que sou enviado por ele, pelo próprio Cristo. Sou apóstolo, sou testemunha ».

E por ter sido "enviado", teve a coragem de dizer vários não, para alguns dos quais teve que ser rejeitado por grandes porções da opinião pública, mas cujo significado positivo pode ser julgado adequadamente pela história. Não à contracepção indiscriminada, não ao divórcio e ao aborto, não à violação dos direitos humanos, não às guerras, não ao casamento dos padres (na Igreja Latina), não ao sacerdócio das mulheres, não às pressões disruptivas dentro da Igreja.

Durante sua viagem à Índia, ele foi informado de que o Parlamento italiano havia aprovado a lei sobre a possibilidade de divórcio; em seu retorno, com delicadeza mas firmeza, ele imediatamente e publicamente estigmatizou o evento «que por muitas razões ", disse ele literalmente", pelo amor que especialmente trazemos ao povo italiano, consideramos infelizes ".

Ele era um homem de paciência inesgotável e sabia muito bem que o verdadeiro pastor, antes de separar até o último de seus irmãos da comunhão, deveria procurar todos os outros meios possíveis. Paciência em ataques duradouros a sua pessoa, paciência em esclarecer dúvidas, oferecer motivos de reflexão, criar idéias para o diálogo, especialmente nos casos em que suas intervenções foram interpretadas em uma chave política.

Por sua paciência "demais", que muitas vezes era previdente, ele fora chamado de "Hamlet", incerto. No entanto, ele próprio queria esclarecer: «Costumo ler que sou indeciso, inquieto, medroso, incerto entre influências conflitantes. Talvez eu seja lento, mas sei o que quero. Afinal, é meu direito refletir "; e em outra ocasião: «Questões importantes também são questões complexas. A honestidade quer que eles não sejam tratados às pressas. Temos que respeitar a complexidade ».

Talvez poucos papas se encontrassem em situações históricas tão complicadas, quando as mudanças sociais e religiosas assumiram ritmos giratórios. Ele herdara um Concílio em andamento, um estado de turbulência em toda a Igreja. Paulo VI, admiravelmente preparado por Providence, teve a tarefa de reorganizar e reformar, reconciliar a busca de idéias audaciosas, acompanhar os fanáticos e os alérgicos.

Na caridade, ele teve que presidir à inserção na vida da Igreja das tensões opostas dos impulsos à frente e das forças de frenagem; a confirmação é evidente se você olhar para o trabalho dele como um todo, ao longo dos quinze anos de seu pontificado. Uma consistência e linearidade indiscutíveis são evidentes em suas decisões pesadas e pesadas, muitas vezes inovadoras.

Revista 30 Dias

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF