O AMOR E A LOUCURA ANDAM JUNTAS
15/10/2021
Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas (RS)
Início a
minha reflexão com uma estória: “A Loucura resolveu convidar os amigos
para tomar um café em sua casa. Todos os convidados foram. Após o café, a
Loucura propôs: – Vamos brincar de esconde-esconde? -Esconde-esconde? O que é
isso? – perguntou a Curiosidade. – Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto
até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o
primeiro a ser encontrado será o próximo a contar. Todos aceitaram, menos o
Medo e a Preguiça. – 1,2,3…- a Loucura começou a contar. A Pressa escondeu-se
primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na
copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza
começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A
Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra. A
Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo. O Desespero
ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove. – CEM! –
gritou a Loucura. – Vou começar a procurar… A primeira a aparecer foi a
Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a
contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem
saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo
a Alegria, a Tristeza, a Timidez… Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade
perguntou: – Onde está o Amor? Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a
procurá-lo. Procurou em cima da montanha,
nos rios, debaixo das pedras e nada do Amor aparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura
viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando
de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um
espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão
do Amor e até prometeu segui-lo para sempre. O Amor aceitou as desculpas. Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre”.
A última frase dessa estória é uma conclusão e
contém uma afirmação: Conclui que o amor
é “cego” e afirma que a “loucura” acompanha o
amor. Mas deixa tudo em aberto, para que nós nos perguntemos: Por que
o amor é “cego”? por que a “loucura” acompanha o
amor? Ensaio aqui uma resposta às duas questões sob
o prisma da boa nova cristã.
Por que o amor é “cego”? Jesus de Nazaré ensinou que o
amor cristão “não enxerga” (quem não enxerga é “cego) as
limitações do amado. Enxerga tão somente o amado a ser amado. Ama
gratuitamente. Chega a amar o amado por causa de suas limitações e não por seus
acertos. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “cego” como
ele ensinou. Amou não levando em conta
as “limitações” do ser humano. Como Deus “nascido numa gruta de
animais” assumiu a natureza humana limitada, viveu 30 anos
escondido numa família, pregou a boa nova aos “pequenos e simples”,
pediu que fosse “dado a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus”, sujeitou-se a não ter “onde reclinar a cabeça”, abraçou a cruz
e a morte de cruz… tudo isso, amando gratuitamente – como “cego”, por
causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que
cenário de gratuidade – “cegueira” – do amor! Eis um
amor “cego” e por isso salvador.
Por que a “loucura” acompanha o amor? Jesus
de Nazaré ensinou que o amor cristão não caminha apenas segundo as
razões, segundo os desejos, segundo as regras, segundo os interesses,
segundo os direitos, segundo as compensações (não caminhar segundo as
razões… é “loucura”). O amor cristão caminha colocando tudo em função
do amado; coloca o “sábado para o homem e não o homem para o sábado”.
Ama desinteressadamente. Chega amar o amado por causa de suas feridas e
não por causa de suas belas e razoáveis aparências. Pois, Jesus
de Nazaré viveu o amor “desinteressado” como ele ensinou. Amou não
levando em conta apenas as “razões” do ser humano. Como
Mestre da “vida plena para a qual veio” escolheu “pescadores e
publicanos” para discípulos e apóstolos, conviveu com pecadores discriminados,
curou leprosos marginalizados,
acolheu prostitutas desprezadas, identificou o Reino de Deus com
as crianças “pequenas e simples” (e não com não-crianças “grandes
e complicadas”), corrigiu a religião “hipócrita e
vazia”, deixou-se condenar pelo poder mundano e
falso, caminhou para o calvário sob o peso da cruz dos
malvados, morreu como “grão de trigo” inocente, deixou o sepulcro
como ressuscitado… tudo isso, amando desinteressadamente – como “louco”,
por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que
espetáculo de desinteresse – “loucura” – do amor! Eis um amor “louco”
e por isso salvador.
Em Jesus de Nazaré “o Amor cegado pelo espinho e a
Loucura seguidora do Amor” tornou-se real! Que em nós cristãos também o Amor e
a Loucura andem juntas!

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