Valdemar
De Vaux - publicado em 01/01/26
A liturgia inclui o anúncio feito a José do nascimento de Jesus. Uma Anunciação paralela à da Virgem Maria que mostra como Deus coopera com o homem.
Anunciação é sinônimo da Virgem Maria. A Igreja usa este
termo, cunhado com este propósito, para se referir ao evento bíblico (cf. Lucas
1,26-38 ) em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que será a mãe do
Salvador, ao que a jovem de Nazaré responde com o famoso "fiat":
"Assim seja". Mas este relato, que só se encontra no terceiro
Evangelho, o de Lucas, encontra um paralelo em Mateus, que alguns chamam de
"Anunciação a José", nos versículos 18 a 26 de seu primeiro capítulo.
Esta passagem é lida na missa de 18 de dezembro de cada ano,
como preparação para a solenidade da Natividade do Senhor.
O Papa João Paulo II, em sua exortação apostólica Redemptoris Custos sobre o marido de Maria,
publicada em 1989, fala de uma estreita analogia (§3) entre os dois relatos
evangélicos:
"'O mensageiro divino introduz José no mistério da
maternidade de Maria'. Assim como a mãe de Jesus, um anjo se aproxima do justo
quando ele decide repudiar secretamente Maria porque ela está grávida. Esta é
uma forma de respeitar a lei, mas também a reputação de Maria.
'Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe
disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria como sua esposa,
porque o que nela é gerado vem do Espírito Santo. Ele dará à luz um filho, e
você o chamará de Jesus (que significa: O Senhor salva), porque ele salvará seu
povo de seus pecados'" (Mt
20-21).
A irrupção da graça
Assim como a Virgem Maria, José experimenta assim a irrupção
da graça em sua vida. Embora seu plano esteja completo, o homem de Nazaré
permite que Deus o perturbe. Por sua determinação de seguir a vontade do Pai,
ele deposita sua fé no cumprimento das promessas recebidas de seus ancestrais,
listadas anteriormente em uma genealogia bastante tediosa: "Ao despertar
José, ele fez o que o anjo do Senhor lhe havia ordenado" (v. 24).
João Paulo II pode então dizer que José "manifesta assim uma disposição de
vontade semelhante à de Maria a respeito do que Deus lhe pediu através de seu
mensageiro".
Mais amplamente, explica a biblista Agnès de Lamarzelle em um artigo
na Nouvelle Revue théologique, há em ambos os textos, o de Lucas e
o de Mateus, as diferentes características do "gênero literário das
anunciações" relativamente comum no universo bíblico: uma situação
bloqueada de uma perspectiva humana, uma intervenção divina - perturbadora na
maioria das vezes -, a revelação do plano divino, a objeção e o sinal humano, e
o cumprimento pela obediência do servo de Deus que recebe o anúncio.
Ao destacar José, o evangelista Mateus permite que o leitor
veja a vinda do Salvador de uma nova perspectiva, identifique-se com o justo e
entenda melhor como Deus age neste mundo. Não pela onipotência, exceto talvez
pelo poder do amor, mas pela cooperação da graça, que é a primeira, e da
vontade humana. Enquanto o próprio Jesus está prestes a nascer, um sinal
preeminente da presença do Pai em nossas vidas, como podemos participar cada
um, à nossa maneira, no desenvolvimento do plano de Deus para a humanidade?


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