Seria o impacto emocional dos celulares talvez pequeno
demais para garantir presença no nosso inconsciente? Entenda a questão.
Por Victor Bianchin
04/02/2026 10h01 Atualizado há 2 dias
Para muita gente, o celular se tornou como uma extensão do
corpo. Uma pesquisa do ano passado feita entre cidadãos
dos EUA observou que eles checam o celular 186 vezes por dia — ou cerca de uma
vez a cada cinco minutos enquanto estão acordados. 46% se consideram viciados.
A realidade no Brasil, onde literalmente existe mais celular do que gente, não
é muito diferente. Um levantamento de 2023 estimou que brasileiros
passam 56% do seu dia em frente às telas do celular e computador. Considerando
isso, fica uma pergunta: por que os celulares não costumam aparecer nos nossos
sonhos?
O site Sleep and Dream Database é um banco
de dados que reúne relatos de sonhos vindos de fontes diversas: submetidos por
voluntários, colhidos de pesquisas científicas, retirados de registros
históricos e outros. Hoje, apenas 0,99% dos quase 4,5 milhões de sonhos
registrados no site registram a aparição da palavra “phone” (telefone, em
inglês) ou de suas variações.
Kelly Bulkeley, psicólogo, pesquisador de sonhos e criador
do site, escreveu um artigo em 2016 sobre a presença de
tecnologia nos sonhos. À época, ele apontou que, entre as mulheres, os
celulares apareciam em 3,55% dos sonhos pesquisados, o que é pouco, mas é mais
do que itens como filmes (3,18%), vídeos (1,26%) e televisão (0,26%). Para os homens,
os números são 2,69% para celulares, 2,47% para filmes, 1,27% para vídeos e
0,36% para televisão.
Ele não tinha uma explicação definitiva para o porquê desse
baixo índice de aparições, mas estabeleceu um paralelo com a aparição de meios
de transporte nos sonhos, que são bem mais frequentes.
“Parece que as tecnologias de transporte tiveram um impacto
maior nos sonhos das pessoas do que as tecnologias de comunicação e
entretenimento”, diz ele. “Me pergunto se as tecnologias de transporte têm um
impacto mais visceral na vida das pessoas. Telefones, filmes, vídeos e
computadores podem ser fascinantes e envolventes, mas não afetam diretamente o
corpo de uma pessoa com a mesma intensidade sensorial que sentimos durante uma
viagem de carro”, argumenta o pesquisador.
Brigitte Holzinger, psicoterapeuta e diretora do Instituto
de Pesquisa da Consciência e dos Sonhos em Viena (Áustria) afirma que os
celulares não têm esse impacto porque são apenas uma plataforma, e não o vetor
emocional em si. “Tudo o que o nosso smartphone desperta em nós é
indireto”, diz Holzinger, neste artigo. O que desperta emoções
verdadeiras é interagir diretamente com as pessoas.
Por exemplo, se você estiver rolando o Instagram e ver seu
ex-parceiro m uma foto com o parceiro atual, pode ser tomado por uma sensação
de tristeza, mas o impacto será muito menor do que se você os visse
pessoalmente em algum restaurante ou no supermercado. As experiências da vida
real, portanto, tendem a dominar nossos sonhos.
Outras explicações
A Dra. Sham Singh, psiquiatra da rede Winit e especialista
em saúde mental, tem uma explicação parecida e mais recente. Questionada sobre o assunto em 2025, ela afirmou que
a nossa relação com a tecnologia é muito diferente da que temos com outros
aspectos da vida cotidiana.
“O telefone é um dispositivo operado em nível consciente,
mas não possui nenhuma carga emocional ou simbólica mais profunda, portanto,
não aparece em nossos sonhos. Além disso, a tecnologia se desenvolve tão
rapidamente que nosso subconsciente não tem tempo de incorporar esses
dispositivos à linguagem simbólica característica dos sonhos”, explicou.
Ou seja: nossos celulares simplesmente não possuem um peso
emocional ou psicológico suficiente para que estejam presentes em nossos
sonhos. "Os sonhos muitas vezes refletem nossas emoções, medos e desejos,
portanto objetos que não evocam sentimentos fortes podem ter menos
probabilidade de aparecer neles", afirmou Singh.
Por fim, há uma terceira explicação vinda da jornalista
científica Alice Robb, autora do livro Why We Dream: The Transformative
Power of Our Nightly Journey (Por que sonhamos: o poder transformador
de nossa jornada noturna). Em entrevista ao site The Cut, ela teorizou
que essa pouca prevalência dos celulares nos sonhos pode ter a ver com a
“hipótese de simulação de ameaça”.
“[Essa teoria] basicamente sugere que o motivo pelo qual
sonhamos é que os sonhos nos permitem lidar com nossas ansiedades e nossos
medos em um ambiente de menor risco, para que possamos praticar para eventos
estressantes”, diz Robb.
Dentro dessa explicação, os sonhos são um mecanismo de
defesa desenvolvido ao longo da evolução humana. Por isso, tendemos a sonhar
mais com coisas que seriam motivo de preocupação para nossos ancestrais, mas
não para nós.
“As pessoas tendem a não sonhar tanto com a leitura e a
escrita, que são desenvolvimentos mais recentes na história da humanidade, e
sim com coisas relacionadas à sobrevivência, como lutar, mesmo que isso não
tenha nada a ver com quem você é na vida real”, diz Robb.
De qualquer forma, sonhos são um assunto muito complexo para
que seja possível cravar uma explicação que sirva para todo mundo. De fato,
basta procurar nas redes sociais para achar um monte de gente que diz que
sonha, sim, com seus celulares.
O neurofisiologista William Dement, padrinho da medicina do
sono, tem uma frase famosa que diz: “O sonho permite que cada um de nós seja
insano, em silêncio e com segurança, todas as noites da vida”. Talvez o celular
não seja um elemento importante nessa nossa versão insana.

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