CEGUEIRA E MEDO
02/02/2026
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
No seu “Ensaio sobre a cegueira” (livro 1995; filme 2008),
Saramago usa a cegueira física de seus personagens fictícios para falar sobre a
cegueira mental de pessoas reais. Em estilo de realismo psicológico, o autor
apresenta um diagnóstico da sociedade ocidental contemporânea, por
meio de personagens, conflitos, desejos e pensamentos, com a clara
intenção de retratar a condição humana.
Saramago se serve da categoria de “cegueira branca”
como representação de todos nós, mergulhados na banheira das
vaidades. “Cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que
nasceu”, esclarece Saramago (pág. 39). Com um refinado deboche
literário, o autor escreve: “Seria horrível, um mundo todo de
cegos, não quero nem imaginar” (pág. 60). E esclarece a concepção de
vida daqueles que sofrem de “cegueira branca”: “Para estes, a cegueira não era
viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa”
(pág. 94).
Já no fim de sua obra, o escritor português, vencedor
do Nobel de literatura, constata: “Costuma-se até dizer que não há
cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa
que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras” (pág. 306). E assim ele vai
concluindo seu ensaio: “Penso que não cegamos, penso que estamos
cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” (pág.
310).
Depois de tantas luzes da Modernidade e com
todo o desenvolvimento tecnológico nesta Pós-modernidade,
aprofundamos a nossa cegueira. Vivemos a cultura da cegueira, que
banaliza a realidade. A morte dos fracos se torna banal. O descarte dos
marginalizados se torna banal. O menosprezo por pessoas pretas se torna banal.
A discriminação de pessoas de orientação sexual diferente se torna banal.
Banaliza-se o ódio ao outro que pensa diferente de mim. Contra esses grupos banalizados,
declara-se a perseguição, conspira-se a sua eliminação e
deflagra-se o medo. “O inferno são os outros”, já preconizava
Sartre.
“A Vila” (Night Shymalan, 2004) é um filme metafórico
da condição humana, tendo o medo como
motivação. A Comunidade vive em uma vila,
no meio de uma floresta, com o intuito de
preservar a inocência das pessoas. Há limites rigidamente estabelecidos entre a
vila e
a floresta para manter o acordo entre o Conselho de Anciãos e os supostos monstros denominados “Criaturas que nós não mencionamos”. Ivy
é uma linda jovem educadora. A sua condição de cegueira lhe proporciona um
diferencial: a sua altíssima sensibilidade. Com suas próprias palavras, ela
esclarece ao seu amado Lucius o seu modo de visão: “Eu vejo o mundo, mas
não como você o vê”.
Ivy se prontifica a vencer o medo, atravessar a
floresta e buscar socorro para salvar Lucius, quando em risco de morte. O
Conselho de Anciãos a libera para enfrentar o seu desafio, com um profundo
diálogo. “Só podemos ter esperança, o que há de belo nesse lugar. Não podemos
fugir do sofrimento. Ivy está indo em direção da esperança”. Ao que o colega
assegura: “Ela é a mais capaz do qualquer um de nós. Ela é guiada pelo amor. É
o amor que move o mundo. O amor é capaz de tudo”.
É o amor que nos salva das densas trevas de
nossa cegueira e nos ilumina para uma vida nova. É esse amor
capaz de salvar o mundo da “cegueira branca”, nesta cultura de pós-verdade. O
Apóstolo Paulo nos assegura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no
Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça,
verdade” (Ef 5,8-9). Entre os filhos da luz não há lugar para
cegueiras, nem inverdades ou pós-verdades… A experiência da Luz nos leva à
Verdade, que é uma pessoa!
Sim, fomos iluminados pela Luz que vem do alto.
Vençamos a cegueira, vençamos as trevas do medo, vençamos a cultura do
ódio, para vislumbrarmos a Luz da esperança, que nos coloca diante da
Verdade, que é o Amor encarnado. Assim iluminados, sejamos agentes de luz e
esperança para tantas pessoas que agora, mais do que nunca, anseiam por luz e
esperança. Como Yvy, deixemo-nos guiar pelo amor que supera
o ódio e o medo… e salva o mundo. O amor gera perdão e superação de nossas
polarizações, para caminharmos em direção à Verdade que nos liberta e nos
descortina o horizonte de libertação.

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