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domingo, 2 de outubro de 2022

Santos Anjos da Guarda

Anjo da Guarda | ucdb
02 de outubro
Santos Anjos da Guarda

A devoção ao Anjo da Guarda

Origem

A devoção ao Anjo da Guarda está baseada nas Sagradas Escrituras, na Tradição, na Doutrina e no Catecismo da Igreja Católica. Não se trata, portanto, de superstição ou crendice, mas de doutrina segura, confirmada, inclusive, por Nosso senhor Jesus Cristo.

O Catecismo da Igreja e os Anjos da Guarda

O Catecismo da Igreja Católica ensina que nossa vida é acompanhada pela assistência e intercessão dos anjos. O parágrafo 336 confirma a existência do Anjo da Guarda quando diz: “Cada fiel tem ao seu lado um anjo como protetor e pastor para o guiar na vida. Desde este mundo, a vida cristã participa, pela , na sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus.”

A missão dos Anjos da Guarda

Sobre a presença dos anjos na vida de Jesus catecismo diz que eles: Protegem a infância de Jesus, servem a Jesus no deserto, reconfortam-no na agonia, embora tivesse podido ser salvo por eles da mão dos inimigos, como outrora fora Israel. São ainda os anjos que "evangelizam", anunciando a Boa Nova da Encarnação e da Ressurreição de Cristo. Estarão presentes no retorno de Cristo, que eles anunciam serviço do juízo que o próprio Cristo pronunciará”.

A natureza dos Anjos da Guarda

Sobre a natureza e missão dos anjos, o catecismo afirma: “Os anjos são criaturas espirituais que glorificam a Deus sem cessar e servem os Seus planos salvíficos em relação às outras criaturas. Os anjos prestam a sua cooperação a tudo quanto diz respeito ao nosso bem”. (Parágrafo 350)

A intercessão dos Anjos da Guarda

Além de nos guardar e nos proteger, nosso Anjo da Guarda intercede por nós diante de Deus, pedindo ao Pai pela nossa salvação. Sua missão maior junto a nós, muito mais que nos proteger de perigos, é nos levar para o céu, é nos levar ao encontro glorioso com Jesus Cristo, é a salvação de nossa alma. Por isso ele está sempre ao nosso lado, desde a nossa concepção até o momento em que prestaremos contas a Deus de nossa vida a Deus.

Nosso amigo mais íntimo

O Anjo da Guarda nos conhece mais que nós mesmos. Ele está ao nosso lado desde a nossa concepção, como foi dito. Por isso, ele sabe de coisas sobre nós que nem nós mesmo sabemos. Ele conhece nossas fraquezas. Por isso, se pedirmos ajuda a ele em oração fervorosa, ele vai nos ajudar.

Ajuda nas tentações

O anjo da guarda pode nos ajudar principalmente nos momentos de tentação, quando corremos o risco de ceder e perder o bem mais precioso ao qual fomos destinados desde sempre: a vida eterna com Deus. Nosso anjo da guarda tem como missão, também, e principalmente, nos livrar da morte eterna e guiar-nos para Deus.

Amizade com nosso Anjo da Guarda

Por isso, podemos e devemos desenvolver uma amizade profunda e íntima com nosso Anjo da Guarda. Precisamos aprender a compreender seus sinais e a ouvir seus apelos suaves, respeitosos. E isso é a essência da devoção aos Santos Anjos da Guarda: conhecer a missão que eles têm junto a nós e aprendermos a ouvir e a obedecer a suas inspirações. Porque o que eles querem é que a vontade de Deus se realiza em nossa vida.

Os Papas e o Anjo da Guarda

O Papa Pio XI tinha grande devoção a seu Anjo da Guarda. Varias vezes ao dia ele rezava a oração do Anjo da Guarda. Em uma carta de 1948, antes de ser Papa, ele escreveu a um parente: “Recito a oração ao Anjo da Guarda pelo menos cinco vezes por dia e muitas vezes converso espiritualmente com ele, sempre com calma e paz. Quando tenho que visitar alguma personalidade importante para tratar de assuntos da Santa Sé, peço ao meu Anjo para que entre em acordo com o anjo da pessoa que vou encontrar, para que influa nas suas disposições. É uma pequena devoção da qual o Santo Padre Pio XI me falou uma vez, e que eu considero muito frutuosa”.

O Papa João XXIII também cultivava uma grande devoção ao seu Anjo da Guarda. Em seu pontificado de apenas cinco anos, ele falou pelo menos quarenta vezes sobre o Anjo da Guarda, motivando os fiéis a cultivarem também esta devoção. Entre outras palavras, ele disse: “Uma coisa é certa: todos e cada um de nós estamos confiados aos cuidados de um Anjo. Disso deriva a viva devoção que todos devemos ter pelo nosso Anjo da Guarda. Devemos repetir com frequência e confiança a oração que nos foi ensinada em nossa infância”.

Oração ao Anjo da Guarda

“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador. Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e ilumina, amém!”

Fonte: https://cruzterrasanta.com.br/

Papa viaja a Bahrein em novembro, "terra de diálogo e convivência"

Em foto de arquivo, o Papa recebe o rei do Bahrein,
Hamad bin Isa Al Khalifa  (Vatican Media)

Segundo o Padre Fayad Charbel, sacerdote da Igreja do Sagrado Coração, em Manama, a viagem apostólica de Francisco marcada para início de novembro a Bahrein deve contribuir para mostrar a todos "uma terra de diálogo e convivência, em um mundo repleto de conflitos e guerras".

Vatican News

A visita que o Papa Francisco fará ao Reino do Bahrein, prevista para os dias 3 a 6 de novembro, confirma e fortalece a decisão da família real de Al Khalifa de credenciar o perfil do Reino como lugar de diálogo, acolhimento tolerante e convivência pacífica entre as várias identidades e comunidades de fé, em um mundo cada vez mais atormentado por conflitos sectários e "choques entre civilizações".

Este é o panorama em que a mídia nacional, como Al Ayyam Al Bahraini, insere o anúncio da próxima visita do Papa, que reúne, em torno desta interpretação, também as opiniões de famosos expoentes de comunidades cristãs locais.

Segundo o Padre Fayad Charbel, sacerdote da igreja do Sagrado Coração, em Manama, a visita papal ao Bahrein contribuirá para mostrar a todos que “o Bahrein é uma terra de diálogo e convivência, em um mundo repleto de conflitos e guerras".

Por sua vez, o Padre Saba Haidousian, pároco da comunidade ortodoxa grega local, destaca a importância da visita papal para o Reino e para todo o Oriente Médio, recordando que o rei Hamad bin Isa Al Khalifa, desde há muito tempo, pretende fazer do Bahrein um lugar de coexistência pacífica e livre entre as diferentes comunidades de fé.

O “Fórum de Diálogo Leste e Oeste para a Coexistência Humana”, que ocorre também por ocasião da visita do Papa Francisco, concentrará a atenção internacional sobre o Bahrein, permitindo todos os padrões de “coexistência entre as várias diversidades” da vida do Reino.

O encontro entre o Papa Francisco e o Rei Hamed – afirma Hani Aziz, pároco da Igreja Evangélica de Manama - será uma oportunidade para enviar "uma grande mensagem" para que o Oriente Médio se "livre das guerras", que atormentam inteiros povos e impedem um futuro de prosperidade para todos. Muitos outros comentários reafirmam a total liberdade com que os cristãos no Bahrein podem celebrar suas liturgias e administrar os Sacramentos.

O logotipo oficial da visita papal, segundo o site oficial “baharainpapalvisit.org”, apresenta as bandeiras do Reino do Bahrein e da Santa Sé como mãos levantadas juntas para o Criador, como um premente apelo à paz. O ramo de oliveira, ao centro, simboliza o fruto da paz, concedida por Deus Todo-Poderoso. No logotipo, segundo os organizadores, destaca-se um pormenor singular e eloquente: “as palavras Papa Francisco são pintadas de azul, indicando que a viagem papal está sob a proteção da Virgem Maria e padroeira da catedral, “Nossa Senhora da Arábia”, um dom do Reino do Bahrein à Igreja Católica no país”.

Fides

sábado, 1 de outubro de 2022

“Sou altamente sensível, e ter descoberto isso foi libertador!”

Revista Cidade Nova

“Sou altamente sensível, e ter descoberto isso foi libertador!”

COMPORTAMENTO Saiba como a trajetória de uma Pessoa Altamente Sensível (PAS) foi capaz de transformar os seus relacionamentos mais próximos e gerar uma pequena rede de apoio com o mesmo traço de personalidade.

por Gustavo Monteiro. em 15/09/2022

ANA LUIZA FREITAS tinha uma curiosidade antiga quanto a um livro que ela costumava ver na casa de sua melhor amiga de infância. O título sugestivo, Crianças altamente sensíveis, saltava-lhe aos olhos todas as vezes em que encontrava a amiga com o objeto nas mãos. “Ela vivia lendo esse livro, mas a gente não conversava muito sobre ele quando era adolescente. Eu lembro que ela começou, então, a mencionar certas coisas que tinha ali e, quando a gente cresceu e ela se mudou para os Estados Unidos, essa minha amiga me deu o livro de presente”, lembra Freitas, que tem hoje 27 anos. Foi assim o início da sua trajetória: Ana Luiza é uma Pessoa Altamente Sensível (PAS), e essa descoberta já se desdobrou em uma pequena rede de apoio a outras pessoas com o mesmo traço de personalidade.

“Quando a minha filha leu alguns trechos daquele livro para mim, eu fiquei muito surpresa! Fazia total sentido! Aquilo me fez entendê-la e, ao mesmo tempo, entender também tantas pessoas que eu acompanhava como pacientes”, conta a mãe, Maria do Socorro Freitas. Depois disso, ela, que também é psicóloga, passou a pesquisar mais sobre o assunto. A única publicação sobre PAS em língua portuguesa estava esgotada e os poucos livros disponíveis para a venda custavam uma fortuna em negócios de livros usados. A psicóloga chegou, inclusive, a tentar uma reimpressão, o que não teve efeitos imediatos. Mas os seus esforços não foram em vão: o resultado das pesquisas acabou difundindo-se nos locais onde trabalhou e com seus respectivos pacientes. De forma orgânica, a compreensão sobre a alta sensibilidade também se difundiu entre amigos e alguns membros do grupo “Psicologia e Comunhão”, do qual faz parte. 

“O mais interessante é perceber a alta sensibilidade como um modo de ser, que pode ser um pouco diferente, mas é um modo ser. Não é nem mais nem menos que os outros modos. A sensibilidade, às vezes, coloca a gente muito em cheque, porque as pessoas com essa característica precisam de vez em quando se retirar, estar sozinhas, ou têm um limite que é muito diferente do limite do resto da família. É uma questão com a qual  todo mundo precisa aprender a lidar, mas sem fazer disso um drama”, explica a psicóloga. "O caminho é encontrar um limite entre estar aberta ao próximo e se responsabilizar pelas próprias necessidades", completa Ana Luiza. 

MAS O QUE É, AFINAL, A ALTA SENSIBILIDADE?

Quando eu mostrei para a minha mãe algumas informações sobre as PAS e vi como ela recebeu tudo aquilo, entendi que a forma como ela agiu desde então foi a maneira dela de demonstrar o amor por mim. Compreender a minha sensibilidade foi o modo dela de me amar. Ela não fez aquilo por achar interessante! Compreender as pessoas altamente sensíveis é uma forma de amá-las”, explica Ana Luiza. “Com ela, eu fiz um percurso de aprender a estar com o outro em silêncio. E não de uma forma agressiva ou chateada, mas um silêncio que respeita o outro, por entender que naquele momento não cabe dizer nada. Para mim, por exemplo, foi um aprendizado fazer uma viagem inteira sem dizer coisa alguma. Entendi que essa é uma outra forma de estar presente”, completa a mãe. 

Maria do Socorro Freitas explica que, apesar de poder se manifestar de maneiras diferentes em cada pessoa, a alta sensibilidade, de modo geral, está relacionada a um processamento mais profundo dos estímulos externos e internos: "pode ser a luminosidade, a cor, a barulhos, a textura... A grande questão é entender o seu limite. Isso não é uma coisa fácil de se descobrir e depende de cada um ir entendendo com o tempo. É muito fácil ultrapassar esse limite e chegar a um esgotamento, ou até em um  Burnout". 

De acordo com a psicóloga, ser mais introvertido ou reservado não é, por si só, sinal de alta sensibilidade. “70% é introvertido, outros 30% não são. Não é um padrão. Está mais relacionado à sensibilidade aos estímulos e a uma capacidade de empatia muito grande. Diferentemente de um perfil psicótico, em que não existem limites entre o eu e o outro, a PAS é consciente de si mesmo, mas tem uma capacidade grande de colocar-se no lugar do outro e perceber aquilo de que ele mais precisa. A pessoa altamente sensível tem geralmente a necessidade de parar, de ter o próprio tempo. Eu diria, com sinceridade, que a alta sensibilidade pode ser um grande dom. Não é nem problema, nem defeito ou qualidade!”. 

Descobrir a própria alta sensibilidade pode ser libertador, como explica Ana Luiza Freitas: “O maior presente que uma PAS pode receber é descobrir ser altamente sensível, porque ela automaticamente percebe que não é doente ou tem algum problema. Isso é um grande alívio, é uma libertação! Porque você talvez tenha se sentido diferente toda a vida sem saber explicar, ou tenha sentido que a forma como você é não é a forma ideal porque você tem limites que os outros não têm. O que eu diria para uma pessoa que tem a suspeita de ser altamente sensível é isto: trata-se de uma característica que pode ser um dom para as outras pessoas. É um processo, mas é um processo muito proveitoso”. 

EM PROFUNDIDADE

Entenda mais sobre Pessoas Altamente Sensíveis no canal do Youtube “Ame sua sensibilidade” ou no perfil do Instagram:  @higlysensitiverefuge

Por Gustavo Monteiro, texto divulgado pela edição setembro 2022 da Revista Cidade Nova.

Fonte: https://www.cidadenova.org.br/

Da Autobiografia de Santa Teresa do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja

Sta. Teresinha do Menino Jesus | liturgiadashoras.online

Da Autobiografia de Santa Teresa do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja
(Manuscrits autobiographiques, Lisieux 1957, 227-229)            (Séc.XIX)

No coração da Igreja serei o amor

Meus imensos desejos me eram um autêntico martírio. Fui, então, às cartas de São Paulo a ver se encontrava uma resposta. Meus olhos caíram por acaso nos capítulos doze e treze da Primeira Carta aos Coríntios. No primeiro destes, li que todos não podem ser ao mesmo tempo apóstolos, profetas, doutores, e que a Igreja consta de vários membros; os olhos não podem ser mãos ao mesmo tempo. Resposta clara, sem dúvida,, mas não capaz de satisfazer meu desejo e dar-me a paz. 

Perseverei na leitura sem desanimar e encontrei esta frase sublime: Aspirai aos melhores carismas. E vos indico um caminho ainda mais excelente (1Cor 12,31). O Apóstolo esclarece que os melhores carismas nada são sem a caridade, e esta caridade é o caminho mais excelente que leva com segurança a Deus. Achara enfim o repouso. 

Ao considerar o Corpo místico da Igreja, não me encontrara em nenhum dos membros enumerados por São Paulo, mas, ao contrário, desejava ver-me em todos eles. A caridade deu-me o eixo de minha vocação. Compreendi que a Igreja tem um corpo formado de vários membros e neste corpo não pode faltar o membro necessário e o mais nobre: entendi que a Igreja tem um coração e este coração está inflamado de amor. Compreendi que os membros da Igreja são impelidos a agir por um único amor, de forma que, extinto este, os apóstolos não mais anunciariam o Evangelho, os mártires não mais derramariam o sangue. Percebi e reconheci que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e lugares, numa palavra, o amor é eterno. 

Então, delirante de alegria, exclamei: Ó Jesus, meu amor, encontrei afinal minha vocação: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará.

O que a Igreja Católica diz sobre o medo de ir para o inferno?

Paul shuang | Shutterstock
Por Francisco Vêneto

A pergunta virou assunto nas redes sociais após ser dirigida pela candidata Soraya ao candidato Padre Kelmon durante debate com os aspirantes à Presidência do Brasil.

O que a Igreja Católica diz sobre o medo de ir para o inferno?

Esta pergunta, repentinamente, virou assunto nas redes sociais do Brasil ao longo das últimas horas porque foi direcionada pela candidata Soraya Thronicke ao candidato Padre Kelmon durante debate com os aspirantes à Presidência da República na noite desta quinta-feira, 29 de setembro.

Debates eleitorais à parte, há dois elementos a ser abordados nesta questão do ponto de vista da doutrina católica: o que é o inferno e que tipo de medo ele pode inspirar.

O que é o inferno

A respeito do que seja o inferno, o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, nº 212, registra:

“[O inferno] consiste na condenação eterna daqueles que, por escolha livre, morrem em pecado mortal. A pena principal do inferno é a eterna separação de Deus, o único em quem o homem encontra a vida e a felicidade para que foi criado, e a que aspira. Cristo exprime esta realidade com as palavras: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno’ (Mateus 25,41)”.

Ou seja, o inferno é a eterna privação de Deus, livremente escolhida por aqueles que rejeitam a Deus com pleno discernimento dessa escolha e com plena liberdade em fazer essa escolha. Como Deus nos criou livres e respeita profundamente a nossa liberdade, Ele também aceita essa escolha de cada um. Portanto, não é Deus quem manda alguém para o inferno: é a própria pessoa quem escolhe o inferno, privando-se de Deus de modo definitivo e irrevogável.

O Antigo Testamento menciona o castigo eterno dos que rejeitam o Deus verdadeiro e, com plena consciência e liberdade, optam por adorar deuses falsos, como se lê em Isaías 66,24. Outras passagens bíblicas, como Judite 16,17, ou o Eclesiástico 7,17;21,9, também falam do castigo eterno. No Novo Testamento, o inferno é citado em parábolas como as do joio e do trigo (cf. Mateus 13,24-30.36-43), da rede de pesca (cf. Mateus 13,47-50), dos convidados à ceia (cf. Lucas 14,16-24), das dez virgens (cf. Mateus 25,1-12; Lucas 13,27-29) e do rico e Lázaro (cf. Lucas 16,19-31). Uma das passagens mais enfáticas sobre o inferno é a de Mateus 25,33-46, que trata do juízo final.

Particularmente significativo é o trecho de Marcos 3,28-29, que afirma que todo pecado é perdoado, menos o pecado contra o Espírito Santo – por consistir, precisamente, na rejeição obstinada à graça de Deus. É contra o Espírito Santo porque é Ele quem continuamente nos inspira e nos convida a converter-nos a Deus.

Vale recordar que Deus é infinitamente misericordioso, mas também infinitamente respeitoso da nossa liberdade. Santo Agostinho, a propósito, muito bem o resumiu nesta célebre frase: “Aquele que te criou sem ti não te salva sem ti” – ainda que seja graças a um lampejo de sincero arrependimento no instante final da vida (mas é mais prudente não esperar para abraçar a Deus só no último segundo).

Medo do inferno

Dito isso, que tipo de medo o inferno pode inspirar num católico?

A revista católica “Pergunte e Responderemos” tratou do assunto em sua edição número 3, de julho de 1957, na páginas 10 a 12. Você pode conferir um trecho acessando esta matéria.

O medo em questão não pode ser medo de Deus, obviamente, já que não é Deus quem condena alguém ao inferno: é a própria pessoa quem se condena ao inferno quando rejeita consciente e livremente a Deus de modo obstinado, privando-se da Sua presença definitivamente.

Logo, o medo sadio a ser levado em consideração é o medo do pecado, já que, ao pecar com plena consciência, pleno consentimento e em matéria grave, nós fazemos uma opção pessoal por nos privar de Deus.

Temer o inferno, portanto, é temer as consequências da nossa própria liberdade mal exercida mediante escolhas que nos apartam de Deus, que é o Puro e Sumo Bem.

Grandes estrelas do futebol em campo pela paz

Partida pela Paz - apresentação na Rádio Vaticano

Um jogo, promovido pela Scholas Occurentes, será realizado no dia 14 de novembro no Estádio Olimpico em Roma e contará com a participação de grandes estrelas do futebol. Uma iniciativa que olha para a paz, especialmente na Ucrânia, e recordará Diego Armando Maradona, o campeão argentino que morreu em 2020. Na da tarde desta quinta-feira, a apresentação na Rádio Vaticano.

Benedetta Capelli – Vatican News

Um pontapé contra a guerra, indiferença, violência para abraçar a paz, unidade, concórdia, valores que o esporte sempre procurou transmitir. Este é o espírito com o qual nos preparamos para viver a 3ª edição da Partida pela Paz, abençoada pelo Papa Francisco, que contará com o apoio das maiores estrelas do futebol mundial. Será realizada em 14 de novembro, no Estádio Olimpico em Roma, e o slogan será "Jogamos pela Paz". A alma da iniciativa é Scholas Occurentes, que há muito tempo trabalha com os jovens, ajudando-os a crescer em sua consciência, a crescer em um mundo mais à medida deles. Uma edição em sinal de paz, tão urgente sete meses após o conflito na Ucrânia, e na recordação de Diego Armando Maradona, um amigo de Scholas Occurentes.

Na tarde desta quinta-feira, a apresentação na Rádio Vaticano contou com a presença do capitão da Lazio Ciro Immobile, do jogador romano Marash Kumbulla e do ex-companheiro de time de Maradona, Ciro Ferrara. Muitos campeões participarão do evento, como Ronaldinho, Caniggia e Stoichkov. Muitos outros como Messi, Dybala, Buffon enviaram mensagens de apoio para a Partida da paz.

Partida pela Paz - apresentação na Rádio Vaticano

A vitória da paz

Também tomou a palavra o presidente da Lazio, Claudio Lotito, que lembrou como é importante reconhecer os apelos do Papa sobre a guerra, como é importante ser adversário e não inimigo no campo de jogo, e que iniciativas desse tipo ajudam a criar amizade e harmonia, as formas de combater o conflito. Nossa vitória é a vitória da paz'. Na mesma linha, Francesco Pastorella, dirigente do Roma, lembrou as iniciativas da equipe “Giallorossi” em favor do povo ucraniano e afegão.

Uma mensagem também aos jovens

"Creio que é importante dar uma mensagem, mais uma vez como fizemos no passado, forte e clara pela paz", disse Ciro Immobile ao Vatican News, "neste jogo fortemente desejado pelo Papa Francisco". Estou feliz em poder dar uma mão, eu como capitão da Lazio, mas também a Roma, estamos juntos para dar uma mão a pessoas em dificuldade". "A unidade é força e esta é uma mensagem clara que temos que dar aos jovens". Finalmente, um pensamento para Diego Armando Maradona, que também foi um ponto de referência para Immobile quando ele era criança. É um dever lembrá-lo, especialmente para nós napolitanos que o carregamos no coração e que vivemos e crescemos com seu mito". Na mesma linha, o jogador de futebol do Roma Marash Kumbulla lembrou que "aqui não há adversários ou equipes, mas apenas aqueles que trabalham pela paz".

Recordação de Maradona - Partida pela Paz - apresentação na Rádio Vaticano

A recordação de Maradona

Um napolitano também é Ciro Ferrara, convidado para a Partida da Paz - como ele lembrou - porque teve a honra de jogar com Diego Armando Maradona. Esta iniciativa", disse, "oferece uma mensagem importante neste momento dramático, por isso espero que o estádio esteja cheio e, acima de tudo, que seja a iniciativa seja apoiad". Lembrando o campeão argentino, ele oferece uma anedota. Há muitas coisas que me prendem a ele, posso me lembrar do primeiro dia em que o conheci. Foi no dia de sua apresentação no Estádio San Paolo. Naquela ocasião, ele me honrou porque tínhamos acabado de ganhar o “Scudetto allievi”, mas eu nunca teria imaginado que 20 dias depois eu estaria no campo de treinamento com ele. Sete anos maravilhosos começaram a partir daquele retiro. Ele foi um revolucionário em tantos sentidos".

Santa Teresinha do Menino Jesus: vítima do amor

Sta. Teresinha do Menino Jesus | Guadium Press
A santidade é para todos? Muitos pensam que não… Santa Teresinha é a prova de que ser santo está ao alcance de qualquer um.

Redação (01/10/2020 08:24, Gaudium PressEm setembro de 1897, morria, em Lisieux, uma das mais eminentes personagens da história da França. Era, ao mesmo tempo, guerreira, apóstolo, missionária, doutora e mártir.

O mais impressionante é que todas essas qualidades estavam reunidas na alma de uma frágil donzela de 24 anos, que passara toda a sua vida ou na casa de seu pai, ou no apagamento da clausura carmelita.

De dentro de uma vida simples, sem grandes obras exteriores, Santa Teresinha atingiu os mais altos páramos da santidade.

Infância

Nasceu em Alençon, no dia 2 de janeiro de 1873, última filha de um casal eximiamente católico.

A primeira infância de Teresa foi extremamente alegre. Era uma menina bastante extrovertida, afável e carinhosa. Contudo, esse período – diríamos, de primavera espiritual – foi logo interrompido…

Sua mãe, Célia Guérin, faleceu quando ela tinha apenas 4 anos e meio! Este fato representou um forte trauma para a criança. A partir dali, seu caráter mudaria consideravelmente, passando a ser tímido, um tanto acanhado e muito sensível. Ela mesma dizia que “chorava não só nas grandes ocasiões, mas também nas pequenas” … Muitas vezes, quando percebia ter causado sofrimento a alguém, caíam-lhe as lágrimas, e quando ela finalmente conseguia consolar-se da própria falta, “chorava por haver chorado”! Seu temperamento era frágil, ela o percebia… e sofria por isso.

Contudo, nenhuma dessas dificuldades diminuiu a meiguice e o bom coração que tinha a menina. Sobretudo, sua extrema generosidade fazia com que ela entregasse a Deus tudo o que Ele lhe pedia. Em certa ocasião, afirmou a respeito de si mesma: “desde os três anos, não neguei nada a Deus”. É de se perguntar: antes dos três anos, haveria alguma coisa que ela pudesse dar? Se houvesse, certamente a teria entregue…

Paulina, a “Mãezinha”

O chamado de Santa Teresinha para a vida religiosa carmelita foi extremamente precoce (desde os dois anos de idade!), contudo, teve ainda de passar por um longo trajeto até poder ingressar na “arca santa”. Ao longo dos anos que precederam seu ingresso no mosteiro, Deus foi pouco a pouco “podando” aquela pequena rosa, exigindo-lhe sucessivas renúncias.

Em novembro de 1877 – ano da morte de Célia –, mudou-se com a família para Lisieux, e ali começou mais diretamente sua formação religiosa.

Na ausência da mãe, quem assumiu o encargo de educar e cuidar da pequena Teresa foi Paulina, a segunda irmã mais velha que seria sua conselheira e confidente a partir de então. Na verdade, quem a havia escolhido por “petite Mère”, Mãezinha, fora a própria Teresa.

Entretanto, novamente a morte vem separá-la de sua protetora. Paulina abandonará este mundo, porém, desta vez sem sair dele. Ela foi a primeira das irmãs a se fazer carmelita.

Teresa alegrou-se enormemente com ingresso da irmã no Carmelo: sua impressão era de que esta havia entrado no Céu! Porém, seu coração arquiafetivo sofreu tanto com o afastamento que abalou sua saúde física! Somente no dia 13 de maio de 1883, os mal-estares a deixaram, de forma miraculosa.

Também miraculosa, aliás, foi a “cura” de sua fragilidade temperamental. Esta deu-se de maneira repentina, no Natal de 1886. Esta última graça, recordava a própria Santa, abriu o terceiro período de sua vida. O mais repleto de consolações e graças do Céu.

No Carmelo

Sta. Teresinha do Menino Jesus | Guadium Press

Recordemos que a vocação de Santa Teresinha despontou muito cedo. Pois bem, pouco antes dos quinze anos, ela pediu oficialmente para ingressar na clausura. Contudo, esta idade era considerada absolutamente precoce, algo inadmissível para os carmelitas.

A tal ponto a jovem encontrou resistência, que teve de viajar a Roma e recorrer diretamente ao próprio Papa – na época, Leão XIII – a fim de pedir a dispensa.

Quando Santa Teresinha chegou diante do pontífice, embora estando expressamente proibida de dirigir-lhe a palavra, ela não resistiu, e passou a insistir com todas as forças para conseguir a autorização desejada. Esta, porém, tardou ainda um pouco em chegar: somente em abril de 1888, deu-se sua entrada definitiva no Carmelo, onde adotaria o nome de Ir. Teresa do Menino Jesus e da Santa Face.

A comunidade carmelita de Lisieux não era das mais fervorosas… A priora, Maria de Gonzaga – suscetível, autoritária, inconstante – tratou-a com bastante severidade. É preciso dizer que isto acabou por ser proveitoso a Teresa, evitando que ela se tornasse a queridinha da comunidade.

Quanto ao resto de sua vida no Carmelo, o único adjetivo que pode qualificá-la é: exemplar. Cumpriu a Regra com inteira perfeição, o que, para um carmelita descalço, não é dizer pouco… o regime de vida restaurado pela grande Santa Teresa de Ávila era de uma radicalidade extrema!

Mas isso de nada valeria se não se traduzisse em um bom relacionamento com as demais, e neste ponto Santa Teresinha foi também um exemplo. Tratava a todas de maneira equilibrada, não dando largas excessivas a seu afeto. Mesmo suas duas irmãs carnais, que se fizeram carmelitas no mesmo convento, conviviam com ela em perfeita harmonia e caridade, mas não experimentavam um trato especial com relação às demais freiras.

Em 1893 foi nomeada mestra de noviças, função que exerceu até o fim da vida.

Vítima ao amor

A morte de Santa Teresinha só pode ser explicada de maneira sobrenatural.

No dia 9 de junho de 1895, sentiu-se inspirada a se consagrar como vítima. Contudo, ao contrário do comum dos que praticaram esse ato de entrega ao longo da História, não desejava ela consagrar-se para aplacar a justiça divina com relação aos pecadores. Teresinha queria ser vítima ao amor. Ela havia sido a Santa do amor; segundo suas próprias palavras, sua missão era ser, no coração da Igreja, o amor. Assim ela reuniu em si todas as vocações e carismas: amando.

Entretanto, é de se perguntar por que Santa Teresinha se ofereceu. Afinal, se não foi pelos pecadores – ao menos direta e exclusivamente – por quem seria?

É verdade que o Amor por excelência, o Amor pessoal em Deus, é o Espírito Santo, que santifica os membros da Igreja. Quiçá – poderíamos conjecturar – tenha ela se oferecido ao próprio Espírito Santo e, através d’Ele, a toda a Igreja.

Seja como for, seu oferecimento não tardou muito em ser aceito. No dia 14 de junho, enquanto fazia a Via Crucis no coro, recebeu uma graça mística intensíssima: sentiu sua alma ferida, abrasada e submergida totalmente no amor. Parecia que ali a Providência havia atendido seu pedido. Por fim, no dia 3 de abril do ano seguinte, surgem os primeiros sinais da tuberculose…

“Levanta-te, amada minha, e vem!” (Ct 2,10)

Santa Teresinha sofreu calada o quanto pôde. Os pulmões e os intestinos estavam afetados. Febre altíssima, sede, chagas na pele.

A priora, de início, pensou não ser nada de grave… e os tratamentos – precários naquele tempo – foram ainda mais sumários do que o habitual para tais casos.

A 30 de setembro, a jovem sofredora pronunciou suas últimas palavras: “Oh… vos amo! Meu Deus… vos amo!”. Teve um êxtase, e faleceu. O amor havia dado o último golpe…

Um exemplo para a humanidade

Sta. Teresinha do Menino Jesus | Guadium Press

O papel, a força e o alcance da atuação de Santa Teresinha após sua morte têm uma dimensão completamente desproporcional com sua vida. Provam-no sua canonização, realizada após um curtíssimo espaço de tempo, em 1925, com superabundância de milagres. Atesta-o também a gigantesca propagação de sua autobiografia, a “História de uma Alma”, publicada em incontáveis idiomas.

É verdade que sua “pequena via” e a escola da “infância espiritual” – doutrinas que incentivam uma completa entrega nas mãos de Deus enquanto bondosíssimo Pai, sempre disposto a dar o melhor para seus filhos – são tão antigas quanto o Evangelho: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. (Mc 10,15)

Entretanto, Santa Teresinha parece ter sido escolhida por Deus para reavivar estas verdades nas almas.

Não é verdade que aquela menina cheia de fragilidades, dificuldades temperamentais, incompreensões no relacionamento com este ou aquele, parece alguém normal? Uma pessoa de carne e osso, como qualquer outra?

Pois bem, Santa Teresinha mostrou para os séculos futuros que a santidade não é algo impossível. Trata-se apenas de aceitar tudo o que Deus nos envia, com total generosidade e retidão.

Para ser santo não é preciso ser grande, é preciso amar muito, pois “para o amor, nada é impossível”.


BIBLIOGRAFIA

ECHEVERRÍA, Lamberto (coord.); LLORCA, Bernardino (coord.); BETES, José Luis (coord.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2006, v. 10.

Santa Teresinha do Menino Jesus. OEuvres Complètes. França: Desclée De Brouwer, 1992.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

“Concede o que ordenas”

Heresia | Biblioteca do Pensador
Por Revista 30Dias - 09/2009

“Concede o que ordenas”

Essa invocação desencadeou a reação duríssima de Pelágio, quando este a ouviu em Roma durante a leitura do livro X das Confissões, em que Agostinho repete várias vezes: “Da quod iubes et iube quod vis”. Uma oração que encarrega a Deus por algo que, segundo Pelágio, é tarefa do homem. Entrevista com Nello Cipriani, professor ordinário do Instituto Patrístico “Augustinianum”

Entrevista com Nello Cipriani de Lorenzo Cappelletti

Como sempre, encontramos padre Cipriani trabalhando. Afinal, para aquilo que é chamado “trabalho intelectual”, às vezes enfaticamente, deve valer o mesmo que vale para o trabalho manual dos operários e dos artesãos: uma bancada a que um homem se aplique com assiduidade diária. O último fruto da bancada de trabalho de padre Cipriani é um livro que acaba de sair pela Città Nuova: Molti e uno solo in Cristo. La spiritualità di Agostino. A obra nos dá ensejo para uma breve conversa com ele sobre a oração em Santo Agostinho, a começar pela frase do bispo de Hipona com que o papa Bento XVI encerrou a homilia dirigida a seus ex-alunos em agosto passado (cf. 30Dias, nº 8, 2009): Da quod iubes et iube quod vis (Concede o que ordenas e depois ordenas o que queres).

NELLO CIPRIANI: Você sabia que essa frase desencadeou uma reação duríssima de Pelágio, quando ele a ouviu pela primeira vez num círculo de Roma em que estavam lendo as Confissões de Agostinho? Era mais ou menos o ano de 405, e ali se encontravam Pelágio, um bispo amigo de Agostinho e outras pessoas. Estavam lendo o livro X das Confissões, em que Agostinho (como ele mesmo lembra no De dono perseverantiae 20, 53) repete várias vezes: Da quod iubes et iube quod vis. Diante dessa invocação, Pelágio se levantou, furioso, porque a considerava uma ofensa a Deus. De fato, a oração encarregava a Deus por algo que, segundo Pelágio, é tarefa do homem: Deus ordena, e o homem deve executar. Da quod iubes? Não, afirma Pelágio, não é Deus quem deve conceder, pois, se assim fosse, a culpa, no caso de o homem não fazer o que Deus ordena, recairia sobre o próprio Deus. Nessa circunstância, fica bem clara toda a distância que separa Pelágio de Agostinho. São duas concepções opostas da vida cristã. Enquanto Agostinho deriva todas as boas obras do dom do Espírito Santo, oferta do próprio Deus, ponto de partida da oração e de uma vida nova, para Pelágio é o homem que, instruído por Cristo mediante o ensinamento, o exemplo e a graça, entendida apenas como iluminação da inteligência, decide por si mesmo se fará o bem ou o mal. Não há nenhuma outra ajuda por parte de Deus. Para Agostinho, repito, é o Espírito Santo quem que nos faz gemer (como diz São Paulo, no capítulo VIII da Carta aos Romanos), quem nos inspira o desejo santo, quem nos inspira sentimentos de afeição filial por Deus, com os quais nos dirigimos a Ele como Pai; é o Espírito Santo, enfim, quem nos inspira a oração. Para Pelágio, essa outra inspiração, essa afeição interior movida pelo Espírito Santo, não existe.

No fim das contas, poderíamos dizer que é em torno da oração que se dá todo o conflito entre Agostinho e Pelágio. Na concepção pelagiana, a oração se transforma em algo supérfluo, ou pelo menos não absolutamente necessário.
CIPRIANI: É isso mesmo. Toda a insistência de Agostinho na necessidade da oração deriva de sua concepção da vida cristã, cujo centro é o Espírito Santo que habita em quem crê. Falam demais no cristocentrismo agostiniano, mas quase nunca do Espírito Santo em Agostinho, a ponto de alguns chegarem a negar esse aspecto. Na realidade, o Espírito Santo também está no centro. A doutrina da graça está estreitamente ligada à fé de que o Espírito Santo nos foi concedido para sermos renovados e nos tornarmos filhos de Deus, para transformar o coração de pedra do homem num coração de carne, para tornar o homem um filho capaz de amar o Pai, e capaz de amar a tudo o que é bom e justo segundo a Sua vontade. Pelágio desconsidera por completo toda essa ação interior do Espírito Santo. Podemos constatar como Pelágio não dava importância alguma à oração pela leitura de um texto seguramente de sua autoria, a Carta a Demetríade, uma jovem da nobreza romana que se consagrara a Deus. Pelágio escreveu essa carta como texto de formação espiritual. Nela, só menciona o Espírito Santo e a oração uma vez. E não se refere à oração como súplica, pedido de que Deus ajude a jovem a manter-se fiel a sua consagração, mas tão somente à oração entendida como meditação sobre a Lei. A ideia de que devamos pedir ajuda a Deus para realizar o bem é totalmente estranha a Pelágio. Ele o diz explicitamente na Carta a Demetríade: você, sendo de nobre família, tem muitas riquezas, muitas honras, mas esses bens, embora lhe pertençam, não são realmente seus, pois você os herdou; já a virtude é um bem somente seu, porque só você pode alcançá-la, está apenas em suas mãos. Assim, exorta-a sem fazer nenhuma referência à súplica, à invocação de ajuda de Deus, salientando que tudo depende dela. Já Agostinho exorta sempre seus cristãos a rezar.

Há algumas semanas, a oração do dia da santa missa dominical nos fazia dizer: “Ó Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer”. A liturgia acolheu fortemente o que Agostinho sublinha.
CIPRIANI: Sem dúvida, a liturgia reflete muito bem esse ensinamento de Agostinho sobre a graça e a necessidade da oração. De qualquer forma, é preciso observar que tudo o que Santo Agostinho diz sobre a oração é o que aprendeu da Escritura e do Pai-nosso, em primeiro lugar. Em outras palavras, a oração não está ligada apenas ao Espírito Santo, mas também ao Evangelho. Só podemos pedir algo corretamente quando nos conformamos à oração que Jesus nos ensinou. É importante sublinhar também o quanto, para Agostinho, que tanto se apoia no Espírito Santo, é igualmente imprescindível o ensinamento de Jesus Cristo. Prova disso é que salienta fortemente a segunda parte do Pai-nosso, logo depois de “perdoai-nos as nossas ofensas”, ou seja, o “assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido”. E insiste, contra Pelágio, também no “e não nos deixeis cair em tentação”, justamente porque o encontra na oração que o Senhor nos ensinou e que é para nós a regra em que devemos inspirar nossa oração. Pelágio, que não pede a Deus que não o deixe cair em tentação porque considera que tudo é tarefa do homem, põe-se contra o ensinamento do Senhor. No início do livro II do De peccatorum meritis, Agostinho escreve que não consegue “expressar com palavras o quanto é danoso, o quanto é perigoso e contrário à nossa salvação (uma vez que esta está em Cristo), o quanto é oposto à própria religião que abraçamos e à piedade com que honramos a Deus não rezar ao Senhor para obter o benefício de não sermos vencidos pela tentação, e considerar vã a invocação ‘não nos deixeis cair em tentação’, contida na oração do 1259595992683">CIPRIANI: Além do Pai-nosso, é dos salmos que Agostinho extrai as razões para o Da quod iubes et iube quod vis. Os salmos todos nada mais são que uma invocação da ajuda de Deus para que realizemos o que Ele ordena. Pouco mais adiante, no mesmo De peccatorum meritis (II, 5, 5), depois de ter dito que Deus oferece sua ajuda não apenas a quem está voltado para ele, mas também aos que não estão, para que se voltem para ele, dá como motivo do Da quod iubes justamente as palavras dos salmos: “Logo, quando nos ordena: ‘Convertei-vos a mim e eu me converterei a vós’, e nós lhe dizemos: ‘Converte-nos, ó Deus, nossa salvação’ [Sl 84, 5], e ‘Converte-nos, ó Deus dos exércitos’ [Sl 79, 8], que mais lhe dizemos, senão ‘Concede o que ordenas’? Quando ordena: ‘Aprendei, ó insensatos do povo’, e nós lhe dizemos: ‘Faz-me sábio e aprenderei a tua Lei’ [Sl 118, 73], que outra coisa lhe dizemos, senão ‘Concede o que ordenas’?”, e assim por diante. Santo Agostinho escreveu as próprias Confissões inspirando-se nos salmos. As Confissões não são apenas uma confissão dos pecados, mas louvor e agradecimento a Deus, e muitas vezes invocação, como quando repete Da quod iubes et iube quod vis. Essa frase, citada pelo Papa, é a expressão mais significativa da concepção cristã.

Quando você menciona os salmos, me faz lembrar de que grande parte da Regra de São Bento é apenas a indicação detalhada dos salmos que devem rezados nas diversas horas do dia, e me faz pensar também que a oração de São Francisco – como estudos muito recentes confirmaram – era toda inspirada nos salmos. Em outras palavras, o que eu quero dizer é que a tradição da santidade cristã também assumiu sempre essa inspiração fundamental.
CIPRIANI: O autêntico espírito da liturgia, que esses santos assimilaram, baseia-se totalmente nos salmos. As próprias Confissões de Agostinho começam com dois versículos dos salmos: “‘Grande é o Senhor, e muito digno de louvores’ [Sl 47, 1 e 144, 3], ‘é grande e onipotente o nosso Deus, seu saber não tem medida nem limites’ [Sl 146, 5]”. Até o estilo das Confissões se inspira no dos salmos; quase todas as linhas trazem palavras e expressões suas. Agostinho, que aprendeu com os salmos que Deus age no mundo para a salvação dos homens, retoma sua história, como o salmista, para descobrir essa presença de Deus em ação para a nossa salvação. E, tendo descoberto essa ação de Deus em favor do homem, louva-o e lhe agradece. É por isso que as Confissões são realmente um livro originalíssimo. Não são uma autobiografia. Agostinho afirma que as escreveu para louvar ao Deus justo, tanto pelos bens que lhe deu quanto pelos males que lhe permitiu evitar, e para envolver os leitores no louvor a Deus. Essa é a finalidade das Confissões, que sublinham a ideia que eu mencionava no início, de que toda a vida de quem crê é movida e animada pelo Espírito de Deus e, portanto, tudo o que o homem faz de bom é dom de Deus. Primeiro deve pedir ajuda a Deus, para poder fazer o bem, e depois deve louvá-lo e agradecer-lhe. As orações de súplica e de agradecimento são complementares, não podem existir uma sem a outra: as Confissões são ambas as coisas. Gostaria de acrescentar uma coisa.

Por favor.
CIPRIANI: Agostinho está sempre buscando e não para de rogar, mas não apenas a Deus... No sentido de que pede ajuda também aos leitores. Isso é uma coisa interessante na teologia de Agostinho. Nenhum teólogo moderno faz isso. Leia qualquer livro, de qualquer teólogo. Quando é que algum autor pede que rezem por ele e que lhe façam críticas? Agostinho é um homem realmente fascinante, não apenas por ter plena consciência de sua inteligência, mas por ter consciência também de seus limites, e, por isso, viver num diálogo constante com Deus e com os irmãos, esperando a ajuda de todos para fazer algum progresso. É um pensador que não está fechado em si mesmo, nem é cheio de orgulho por sua inteligência. Ele está sempre rezando, pedindo a Deus a luz; mas não a pede apenas a Deus, pede-a também a seus leitores.

Fonte: http://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF