Translate

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Igreja dá início ao Tríduo Pascal: a culminância de todo o ano litúrgico

Imagem ilustrativa | Pixabay (Domínio público)

Por Redação central*

2 de abr de 2026 às 02:00

Dentro da Semana Santa, um período se torna especial para os católicos nos dias em que recordam a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. É o chamado Tríduo Pascal. Conheça a seguir o significado desses dias tão importantes para os cristãos.

A palavra tríduo na prática devocional católica sugere a ideia de preparação. Às vezes nos preparamos para a festa de um santo com três dias de oração em sua honra, ou pedimos uma graça especial mediante um tríduo de preces de intercessão.

O Tríduo Pascal se considerava como três dias de preparação para a festa de Páscoa; compreendia a Quinta-feira, a Sexta-feira e o Sábado da Semana Santa. Era um tríduo da Paixão.

No novo calendário e nas normas litúrgicas para a Semana Santa, o enfoque é diferente. O Tríduo se apresenta não como um tempo de preparação, mas sim como uma só coisa com a Páscoa. É um tríduo da Paixão e Ressurreição, que abrange a totalidade do mistério pascal. Assim se expressa no calendário:

Cristo redimiu o gênero humano e deu perfeita glória a Deus principalmente através de seu mistério pascal: morrendo destruiu a morte e ressuscitando restaurou a vida. O Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição de Cristo é, portanto, a culminância de todo o ano litúrgico.

O Tríduo começa com a missa vespertina da Ceia do Senhor, alcança seu cume na Vigília Pascal e se fecha com as vésperas do Domingo de Páscoa.

Esta unificação da celebração pascal é mais acorde com o espírito do Novo Testamento e com a tradição cristã primitiva. O mesmo Cristo, quando aludia a sua Paixão e Morte, nunca as dissociava de sua Ressurreição. No evangelho da quarta-feira da segunda semana da quaresma (Mt 20,17-28) fala delas em conjunto: “O condenarão à morte e o entregarão aos gentis para que d'Ele façam escarnio, o açoitem e o crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará”.

É significativo que os padres da Igreja, tanto santo Ambrósio como santo Agostinho, concebam o Tríduo Pascal como um todo que inclui o sofrimento do Jesus e também sua glorificação. O bispo de Milão, em um dos seus escritos, refere-se aos três Santos dias (triduum illud sacrum) como os três dias nos quais sofreu, esteve no túmulo e ressuscitou, os três dias aos que se referiu quando disse: “Destruam este templo e em três dias o reedificarei”. Santo Agostinho, em uma de suas cartas, refere-se a eles como “os três sacratíssimos dias da crucificação, sepultura e ressurreição de Cristo”.

Esses três dias, que começam com a missa vespertina da Quinta-feira Santa e concluem com a oração de vésperas do Domingo de Páscoa, formam uma unidade e, como tal, devem ser considerados. Logo, a Páscoa cristã consiste essencialmente em uma celebração de três dias, que compreende as partes sombrias e as facetas brilhantes do mistério salvífico de Cristo. As diferentes fases do mistério pascal se estendem ao longo dos três dias como em um tríptico: cada um dos três quadros ilustra uma parte da cena; juntos formam um todo. Cada quadro é em si completo, mas deve ser visto em relação com os outros dois.

Interessa saber que tanto a Sexta-feira como no Sábado Santo, oficialmente, não fazem parte da Quaresma. Segundo o novo calendário, a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinza e conclui na Quinta-feira Santa, excluindo a missa da Ceia do Senhor.

*A Agência Católica de Informação - ACI Digital, faz parte das agências de notícias do Grupo ACI, um dos maiores geradores de conteúdo noticioso católico em cinco idiomas e que, desde junho de 2014, pertence à família EWTN Global Catholic Network, a maior rede de televisão católica do mundo, fundada em 1981 por Madre Angélica em Irondale, Alabama (EUA), e que atinge mais de 85 milhões de lares em 110 países e 16 territórios.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Jerusalém: na intimidade do Cenáculo (Parte 1/2)

Jerusalém no ano 70 e Cidade Antiga na atualidade. Gráfico: J. Gil | Opus Dei.

Jerusalém: na intimidade do Cenáculo

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. (Jo 13, 1). Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos, introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.

26/02/2018

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim[1]. Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos, introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.

Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?[2], tinham perguntado os discípulos. Ide à cidade. Um homem carregando uma bilha de água virá ao vosso encontro. Segui-o e dizei ao dono da casa em que ele entrar: “O Mestre manda perguntar: Onde está a sala em que posso comer a ceia pascal com os meus discípulos?” Ele, então, vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada. Lá fareis os preparativos para nós![3].

Conhecemos os fatos que aconteceram durante Última Ceia do Senhor com os Seus discípulos: a instituição da Eucaristia e dos Apóstolos como sacerdotes da Nova Aliança; a discussão entre eles sobre quem se considerava o maior; o anúncio da traição de Judas, do abandono dos discípulos e das negações de Pedro: o anúncio do Mandamento Novo e o lava-pés; o discurso de despedida e a oração sacerdotal de Jesus…

O Cenáculo já seria digno de veneração só pelo que aconteceu dentro das suas paredes naquela noite, mas foi também ali que Jesus ressuscitado apareceu em duas ocasiões aos Apóstolos, que tinham se escondido dentro com as portas fechadas com medo dos judeus[4]. Na segunda vez, Tomé retificou a sua incredulidade com um ato de fé na divindade de Jesus: Meu Senhor e meu Deus![5]. Os Atos dos Apóstolos transmitiram-nos também que a Igreja, nas suas origens, se reunia no Cenáculo, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele[6]. No dia de Pentecostes, receberam o Espírito Santo, que os estimulou a partirem para pregar a Boa Nova.

Os evangelistas não nos fornecem dados que permitam identificar este lugar, mas a Tradição situa-o no extremo sudoeste de Jerusalém, sobre uma colina que começou a chamar-se Sião somente na época cristã. Originalmente, este nome aplicava-se à fortaleza jebuseia que Davi conquistou; depois, ao monte do Templo, onde se guardava a Arca da Aliança; e mais tarde, nos salmos e nos livros proféticos da Bíblia, a toda a cidade e seus habitantes. Depois do desterro da Babilônia, o termo adquiriu um significado escatológico e messiânico, para indicar a origem da nossa salvação. Com base neste sentido espiritual, quando o Templo foi destruído no ano 70, a primeira comunidade cristã aplicou-o ao monte onde se encontrava o Cenáculo, pela sua relação com o nascimento da Igreja.

Recebemos o testemunho desta tradição através de Santo Epifânio de Salamina, que viveu em finais do século IV, foi monge na Palestina e bispo em Chipre. Relata que o imperador Adriano, quando foi ao Oriente no ano de 138, “encontrou Jerusalém completamente arrasada e o Templo de Deus destruído e profanado, com exceção de uns poucos edifícios e da pequena igreja dos cristãos, que se encontrava no lugar do Cenáculo, para onde os discípulos foram depois de regressar do monte das Oliveiras, após a subida aos céus do Salvador. Estava construída na zona de Sião que sobreviveu à cidade, com alguns edifícios perto de Sião e sete sinagogas, que perduraram no monte como cabanas; parece que só uma destas se conservou até à época do bispo Máximo e do imperador Constantino”[7].

Jerusalém | Opus Dei.

Este testemunho coincide com outros do século IV: o que foi transmitido por Eusébio de Cesareia, com um elenco de vinte e nove bispos com sede em Sião desde a era apostólica até ao seu tempo; o peregrino anônimo de Bordeaux, que viu ainda a última das sete sinagogas; São Cirilo de Jerusalém, que se refere à igreja superior em que se recordava a vinda do Espírito Santo; e a peregrina Egéria, que descreve uma liturgia celebrada ali em memória das aparições do Senhor ressuscitado.

Por diversas fontes históricas, litúrgicas e arqueológicas, sabemos que durante a segunda metade do século IV a pequena igreja foi substituída por uma grande basílica, chamada Santa Sião, e considerada a mãe de todas as igrejas. Além do Cenáculo, incluía o lugar da Dormição da Virgem, que a tradição situava numa casa próxima; também conservava a coluna da flagelação e as relíquias de Santo Estevão, e no dia 26 de Dezembro comemorava-se ali o rei Davi e São Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém. Conhece-se pouco do traçado deste templo, que foi incendiado pelos persas no século VII, restaurado posteriormente e de novo destruído pelos árabes.

Quando os cruzados chegaram à Terra Santa, no século XII, reconstruíram a basílica e deram-lhe o nome de Santa Maria do Monte Sião. Na nave sul da igreja estava o Cenáculo, que continuava a ter dois andares, cada um dividido em duas capelas: no superior, as dedicadas à instituição da Eucaristia e à vinda do Espírito Santo; no inferior, a do lava-pés e a das aparições de Jesus ressuscitado. Nesse andar colocou-se o sarcófago – monumento funerário no qual não está o cadáver da pessoa a quem é dedicado – em honra de Davi. Reconquistada a Cidade Santa por Saladino em 1187, a basílica não sofreu danos, e inclusive eram permitidas as peregrinações e o culto. Contudo, esta situação não durou muito: em 1244, a igreja foi definitivamente destruída e só se salvou o Cenáculo, cujos restos chegaram até nós.

A sala gótica atual data do século XIV e deve-se à restauração realizada pelos franciscanos, os seus legítimos donos desde 1342. Os freis haviam tomado conta do santuário sete anos antes e edificado um convento junto do lado sul. Na mesma data, por bula papal, ficou constituída a Custódia da Terra Santa e foi-lhes cedida a propriedade do Santo Sepulcro e do Cenáculo pelos reis de Nápoles, que por sua vez a tinham adquirido ao sultão do Egito. Não sem dificuldades, os franciscanos viveram em Sião durante mais de dois séculos, até que foram expulsos pela autoridade turca em 1551. Já antes, em 1524, lhes tinha sido usurpado o Cenáculo, que foi convertido em mesquita com o argumento de que ali se encontraria enterrado o rei Davi, considerado profeta pelos muçulmanos. Assim permaneceu até 1948, quando passou para as mãos do estado de Israel, que o administra desde então.

O acesso ao Cenáculo é através de um edifício anexo, subindo uma escadaria interior e atravessando um terraço a céu aberto. Trata-se de uma sala de uns 15 metros de comprimento e 10 de largura, praticamente sem adornos nem mobiliário. Várias pilastras nas paredes e duas colunas no centro, com capitéis antigos reutilizados, sustentam um teto em abóbada. Nos fechos da abóbada ficaram restos de relevos com figuras de animais; entre os quais é visível um cordeiro.

Notas

[1] Jo 13, 1

[2] Mc 14,12.

[3] Mc 14, 13-15.

[4] Cf. Jo 20, 19-29.

[5] Jo 20, 28.

[6] At 1, 13-14

[7] Santo Epifânio de Salamina, De mensuris et ponderibus, 14.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Qual o sentido do sinal da cruz?

Iermolovich Daria | Shutterstock

Paulo Teixeira - publicado em 23/05/25

O sinal que identifica os cristãos é feito como sinal de bênção sobre os fiéis e se torna um gesto de fé.

Apoie a Aleteia

No início da Missa ou do terço, as pessoas iniciam com o sinal da cruz. Ao final das cerimônias também a bênção é invocada traçando o sinal da cruz sobre os fiéis. Um gesto importante para as celebrações da fé e também para o cotidiano. Muitas pessoas fazem o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja ou em momentos específicos do dia repetem o sinal com o qual foram marcadas no dia do batismo.

Este gesto inclui duas realidades de nossa doutrina, segundo o professor Padre Antônio Bogaz: “Quando recitamos o gesto da cruz, recordamos o mistério da nossa salvação. Tecendo sobre o rosto o sinal da cruz, fazemos anamnesis deste grande acontecimento que marca a história da salvação”.

Nesse sentido, mais que demarcar o início do ritual, o sinal da cruz é parte da oração.  “Não podem ser gestos imperceptíveis, maltraçados e sem elegância. Este gesto deve recordar o traço entrecortado da cruz, com suas duas hastes, para reviver espiritualmente a paixão e morte do Senhor”, recorda o sacerdote.

Trindade

Também as pessoas divinas recordadas enquanto se traça o sinal da cruz fazem uma referência profunda ao mistério da trindade: “Nas pontas das hastes da cruz, aclamamos o nome de Deus, que é Pai, que é Filho e Espírito Santo, revelando que os três participam e são solidários na entrega do Filho Jesus Cristo, na cruz. A Trindade está presente por inteiro no evento do Calvário”, destaca Padre Bogaz.

Mais além

Na dimensão mística, o sinal da cruz tem o valor de consagração ou santificação, suplicando a proteção divina, bem como se entregando ao Senhor. “Por esta motivação, fazemos sempre este sinal diante das igrejas, no início de nossas atividades e em momentos cruciais da vida. Quem já não observou um goleiro traçando o sinal da cruz na hora do pênalti, ou o artista antes de sua performance? Este sinal significa súplica e entrega a Deus”, explica Padre Bogaz.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Lava-pés: o mandamento chocante em que Deus se abaixa para nos servir

Jesus lava ospés dos Apóstolos (Aleteia)

Aleteia Brasil - publicado em 13/04/17

O que significa este gesto de Jesus, tão inesperado e espantoso que Pedro nem queria aceitá-lo.
Apoie a Aleteia

O rito do Lava-Pés, na Quinta-Feira Santa, contém um duplo significado, à luz do Evangelho de João:

– uma imitação do gesto realizado por Cristo ao lavar os pés dos Apóstolos no Cenáculo;

– a expressão do doar-se a si mesmo, exemplificada com aquele ato.

Não por acaso, o gesto é chamado de “mandatum” (“mandamento”) na antífona recitada na cerimônia: “Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem, sicut dilexi vos, dicit Dominus” (“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei, diz o Senhor“; João 13,34).

De fato, o mandamento do amor fraternal compromete todos os discípulos de Jesus, sem qualquer distinção ou exceção. Em instruções litúrgicas do século VII já lemos a indicação de que o Pontífice e todos os membros do clero devem realizar o rito do lava-pés, o que também pode ser conferido, com variações em diferentes dioceses e abadias, no Pontifical Romano do século XII, no Pontifical da Cúria Romana do século XIII e no Missal Romano do Papa São Pio V, de 1570, que diz:

“Post denudationem altarium (…) conveniunt clerici ad faciendum mandatum. Maior abluit pedes minoribus: tergit et osculatur”

(“Após o desnudamento do altar, os clérigos procedem ao cumprimento do ‘mandatum’. O maior lava os pés dos menores, os enxuga e os beija”).

O “mandatum“, em sua essência, não é reservado ao clero: o seu sentido é o de colocarmos em prática o serviço humilde a todos os nossos irmãos, conforme o exemplo de Jesus a todos os seus discípulos.

Precisamente por isso, o rito do lava-pés, ao longo da história da Igreja, não foi necessariamente reservado a doze clérigos ou a doze homens. No “De Mandato seu lotione pedum” (“Sobre o ‘mandatum’ ou lava-pés“), que consta no Caeremoniale Episcoporum de 1600, é mencionada a tradição de que o bispo deve lavar, enxugar e beijar os pés de “treze” pessoas pobres, após tê-las vestido e alimentado e ter-lhes ofertado esmola em caridade. O ato poderia igualmente ser conduzido com religiosos, de acordo com os costumes locais ou a determinação do bispo, mas não de modo obrigatório.

As mudanças mais recentes no rito estabelecem que quaisquer indivíduos podem ser escolhidos dentre o povo de Deus, já que a significação do rito não se limita a uma imitação exterior do gesto de Jesus; trata-se de expressar o sentido profundo do ato realizado por Ele: doar-se “até o fim” pela salvação da humanidade, ato que assume importância universal.

amor de Cristo, abrangendo toda a humanidade, faz de todas as pessoas irmãos e irmãs pela força do Seu exemplo. O “mandatum” deixado por Ele nos convida a transcender o ato físico de lavar os pés do outro para vivenciar o pleno sentido desse gesto: servir, com amor palpável, ao próximo.

Os 3 verbos do lava-pés, segundo o Papa Francisco

Papa Francisco no Lava-pés (Alentia)

Na audiência geral que antecedeu a Semana Santa de 2016, o Papa Francisco abordou o significado do lava-pés, esse ato de Jesus na Última Ceia que foi “tão inesperado e chocante” a ponto de que “Pedro nem queria aceitá-lo”.

Quando se abaixou até os pés dos discípulos e os lavou, Jesus quis deixar claro que se fez servo e que nós também devemos ser servos uns dos outros: “Também vós deveis lavar os pés uns dos outros”, afirma Ele, explicitamente, em Jo 13,12-14.

SERVIR

Ser “servos” uns dos outros nada tem a ver com “servilismo” ou “escravidão”: trata-se do “mandamento novo” do amor real ao próximo através do “serviço concreto”, e não apenas “de palavra”. O amor é um “serviço humilde”, concretizado “no silêncio”: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita”, pede Ele, em Mt 6,3.

PERDOAR

O lava-pés representa o chamado de Jesus a “confessarmos os nossos pecados e a rezarmos uns pelos outros, para saber-nos perdoar de coração”. O papa Francisco evocou neste sentido um texto de Santo Agostinho: “Não desdenhe o cristão fazer aquilo que Cristo fez. Porque quando o corpo se inclina até o pé do irmão, acende-se no coração o sentimento de humildade, ou, já se existisse, é alimentado (…) Perdoemo-nos os nossos erros e rezemos uns pelo perdão dos pecados dos outros. Assim, de algum modo, lavaremos nossos pés mutuamente”.

AJUDAR

O papa recordou as pessoas que vivem a vida inteira “no serviço dos outros” e, como exemplo, contou que recebeu uma carta de uma pessoa agradecida por este ano da misericórdia: a pessoa em questão “me pediu rezar por ela, para que ela esteja mais perto de nosso Senhor. A vida dessa pessoa era cuidar da mãe e do irmão; a mãe está de cama, idosa, lúcida, mas sem poder se mexer; e o irmão é deficiente, numa cadeira de rodas”. Francisco resumiu duas vezes este caso declarando: “Isto é amor!”.

Conclusão

O Papa Francisco encerrou a audiência com uma frase que sintetiza toda a mensagem:

Queridos irmãos e irmãs: ser misericordiosos como o Pai significa seguir Jesus no caminho do serviço”.

Fonte: https://pt.aleteia.org/

O Papa: a Lumen Gentium explica positivamente a natureza e a missão dos leigos

O Papa Leão XIV durante a Audiência Geral na Praça São Pedro (Vatican Media)

Na Audiência Geral desta quarta-feira, Leão XIV falou sobre o quarto capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium relativo aos leigos. "Perante qualquer diferença de ministério ou estado de vida, o Concílio afirma a igualdade de todos os batizados", frisou o Papa.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Constituição Conciliar Lumen Gentium na Audiência Geral, desta quarta-feira (1º/04), realizada na Praça São Pedro que contou com a participação de quinze mil pessoas.

Hoje, o Pontífice abordou o quarto capítulo, "que trata dos leigos". A seguir, recordou as palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: «A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados».

De acordo com o Papa, essa seção da Constituição Dogmática Lumen Gentium relativa aos leigos "procura explicar positivamente a natureza e a missão dos leigos, depois de séculos em que foram definidos simplesmente como aqueles que não faziam parte do clero ou das pessoas consagradas".

Igualdade de todos os batizados

"Perante qualquer diferença de ministério ou estado de vida, o Concílio afirma a igualdade de todos os batizados", disse Leão XIV, acrescentando:

“A própria descrição dos leigos que o Concílio nos oferece diz: «Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo».”

O povo santo de Deus não é uma massa informe

"O povo santo de Deus, portanto, nunca é uma massa informe, mas o corpo de Cristo ou, como dizia Santo Agostinho, o Christus totusé a comunidade organicamente estruturada, em virtude da relação fecunda entre as duas formas de participação no sacerdócio de Cristo: o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial", disse ainda o Papa.

“Em virtude do Batismo, os fiéis leigos participam no mesmo sacerdócio de Cristo. De fato, «O supremo e eterno sacerdote Cristo Jesus, querendo também por meio dos leigos continuar o Seu testemunho e serviço, vivifica-o pelo Seu Espírito e sem cessar os incita a toda a obra boa e perfeita».”

A seguir, Leão XIV citou a Exortação Apostólica Christifideles laici de São João Paulo II. Nela o Pontífice polonês sublinhou "que «o Concílio, com o seu riquíssimo patrimônio doutrinal, espiritual e pastoral, dedicou páginas maravilhosas à natureza, dignidade, espiritualidade, missão e responsabilidade dos fiéis leigos. E os Padres conciliares, feitos eco do chamamento de Cristo, convidaram todos os fiéis leigos, homens e mulheres, a trabalhar na Sua vinha»".

O vasto campo do apostolado laico estende-se ao mundo

"Desta forma, o meu venerável Predecessor relançou o apostolado dos leigos, ao qual o Concílio tinha dedicado um documento específico, que abordaremos mais adiante", disse o Papa Leão.

“O vasto campo do apostolado laico não se limita à Igreja, mas estende-se ao mundo. A Igreja, de fato, está presente onde quer que os seus filhos professem e testemunhem o Evangelho: no trabalho, na sociedade civil e em todas as relações humanas, onde eles, com as suas escolhas, demonstram a beleza da vida cristã, que antecipa aqui e agora a justiça e a paz que serão plenas no Reino de Deus.”

Uma Igreja encarnada na história, sempre aberta à missão

"É preciso que o mundo «seja penetrado pelo espírito de Cristo e, na justiça, na caridade e na paz, atinja mais eficazmente o seu fim». E isso só é possível com o contribuição, o serviço e o testemunho dos leigos", sublinhou o Papa.

“É o convite para sermos aquela Igreja “em saída” de que nos falou o Papa Francisco: uma Igreja encarnada na história, sempre aberta à missão, na qual todos somos chamados a ser discípulos-missionários, apóstolos do Evangelho, testemunhas do Reino de Deus, portadores da alegria de Cristo que encontramos!”

"Irmãos e irmãs, que a Páscoa que nos preparamos para celebrar renove em nós a graça de sermos, como Maria Madalena, como Pedro e João, testemunhas do Ressuscitado", concluiu Leão XIV.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

Paixão de Jesus

Paixão de Cristo (Universo Paulino)

PAIXÃO DE JESUS 

30/03/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

O grande compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), dentre inumeráveis e belíssimas composições, deixou-nos uma solene interpretação da Paixão de Jesus Cristo segundo João, intitulada simplesmente Johannespassion. O grande músico compôs sua obra à base dos capítulos 18 e 19 do IV Evangelho, extraídos da tradução luterana, introduzindo textos poéticos, em forma de comentários, de Barthold Heinrich Brockes, contidos no hinário luterano. A estreia da obra se deu em grande estilo na igreja de São Nicolau, em Leipzig, na Sexta-feira Santa, 07 de Abril de 1724. 

Além da orquestra, coro e vozes principais, tenor, baixo, soprano e contralto, Bach acrescentou um grande coral para interpretar a participação do povo na trágica narrativa da Paixão de Jesus Cristo. Este exuberante conjunto musical manifesta a grandiosidade do ato cantado em estilo barroco. A musicalidade daí emanada transporta o ouvinte a uma profunda reflexão e espiritualidade. Os textos poéticos, intercalados nas perícopes do IV Evangelho, ajudam nesta reflexão e fazem resplandecer a beleza da narrativa joanina. Apresentaremos, a seguir, três destes textos de Brockes. 

O primeiro deles precede a perícope de Jo 18,1-14. Trata-se de um intróito a toda a narrativa que se segue. Em grande estilo, o coro brada: “Senhor, nosso Redentor, a cuja glória em toda a terra é senhora, mostra-nos, através da tua paixão, que tu, verdadeiro Filho de Deus, por todos os tempos, até na maior humilhação, foste glorificado”. Trata-se de um “aperitivo” ao que se vai ouvir e assistir a seguir: o drama da Paixão, desde o Jardim do Getsêmani, até o Jardim do Gólgota. 

Bem mais à frente, após a apresentação da ária número 30 “Tudo está consumado!”, entra a narrativa do tenor a anunciar “e inclinando a cabeça, entregou o Espírito”. Daí tem início a segunda referência que desejamos apresentar, comentando a morte de Jesus. Dirigindo-se ao crucificado, o baixo lhe interroga, em magnífico monólogo: “Meu amado Salvador, deixa que te pergunte: agora que foste crucificado e disseste ‘Tudo está consumado!’, sou eu livre da morte? Posso, pelo teu sofrimento e morte, herdar o reino dos céus? Todo o mundo foi salvo? Certo, tu não podes responder-me por causa de tuas dores, mas inclina a cabeça e diga em silêncio: ‘Sim’”. E o coro entoa, em grande estilo, com arranjos variados: Consumatum est

Por fim, a última referência que aqui trago é do gran finale da apresentação. Após a recitação do último texto joanino, 19,38-42, o coro entoa uma espécie de réquiem, embalando o descanso do Senhor. Daí entra o coral, que assume a voz de todo o povo, aclamando em oração: “Ah, Senhor, deixa que os teus doces anjos, no último instante da vida, portem ao seio de Abraão o meu espírito; que o corpo, na sua câmara, bem docemente, sem pena e tormento, repouse até o dia novíssimo. Então, acorda-me da morte, que os meus olhos possam contemplar-te na plena glória, ó Filho de Deus, meu Salvador e trono de graça! Senhor Jesus Cristo, ouve-me: eu desejo louvar-te eternamente!” 

A obra retrata a teologia própria que emana de um tempo e uma espiritualidade específicos: o barroco. Mesmo não sendo uma teologia atual, à luz do Concílio Vaticano II, a beleza poética dos comentários de Brockes, alinhavados ao texto joanino, e à riqueza da música de Bach nos fazem vislumbrar a beleza da arte inspirada no cristianismo, que, por sua parte, manifesta a beleza da salvação da humanidade. Dostoievski tinha razão: é a beleza que salva o mundo. Não se trata de uma beleza que segue padrões de visibilidade. Trata-se de uma beleza que une estética com a ética, corpo desfigurado que remete à oblação incondicional à humanidade. 

A Palavra de Deus, unida à arte, nos apresenta esta beleza singular: Deus que passa pela experiência da paixão e morte para gerar vida e vida em abundância (Jo 10,10). Vida que se extingue para gerar vida nova. É o grão de trigo semeado na terra. Se morre, produzirá muito fruto (cf. Jo 12,24). É essa experiência de morte e vida de um Deus apaixonado pela humanidade que celebramos nos dias da Semana Maior de nossa fé cristã, a Semana Santa. Preparemo-nos para nos deparar com a beleza, não somente de nossas liturgias e religiosidade popular, mas da vida doada para a salvação do mundo! 

Não basta ficar somente na admiração da celebração. É preciso unir a fé com a vida. É preciso trazer a celebração para o nosso cotidiano e observar que a Paixão de Jesus continua na Paixão do mundo. É preciso constatar que Jesus continua a ser incompreendido, injuriado e humilhado hoje. Quem procura seguir Jesus nos seus ensinamentos, como seus verdadeiros discípulos-missionários, segue na direção da cruz, acaba bebendo o mesmo cálice de sua paixão e morte (cf. 20,20-28). Os fiéis seguidores do Senhor não conseguem encontrá-lo hoje, nos irmãos e irmãs que sofrem, e ficar indiferentes. Mesmo perseguidos e exterminados, eles poderão ouvir do Rei-Pastor que separa as ovelhas dos cabritos: 

“Vinde, benditos de meu Pai. Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo, pois eu estava com fome, e me destes de comer; estava com sede, e me destes de beber; eu era forasteiro, e me recebestes em casa; estava nu, e me vestistes; doente, e cuidastes de mim; na prisão, e viestes até mim. (…) Em verdade, vos digo: todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,34b-36.40b). 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

terça-feira, 31 de março de 2026

Leão XIV convida a rezar pelos sacerdotes em crise

Papa Leão XIV em oração (Arquidiocese de Braga - PT)

A intenção de oração do Papa para o mês de abril enfatiza o acompanhamento humano e espiritual dos presbíteros que atravessam momentos de dificuldades..

Vatican News

Foi divulgada, nesta terça-feira (31/03), a mensagem de vídeo com a intenção de oração do Papa Leão XIV para o mês de abril, em que o Pontífice convida a rezar pelos sacerdotes em crise.

Através da Rede Mundial de Oração do Papa - com a campanha “Reza com o Papa” – o Santo Padre convida os cristãos e as pessoas de boa vontade a um breve tempo de oração, para reconhecer e aprofundar que por trás de cada ministério há uma vida que também necessita de cuidado, proximidade e escuta.

“Senhor Jesus, Bom Pastor e companheiro de caminhada, hoje colocamos nas tuas mãos todos os sacerdotes, especialmente os que atravessam momentos de crise, quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração e o cansaço parece mais forte do que a esperança.”

O Papa pede ao Senhor "que conhece as suas lutas e feridas", para que renove nos sacerdotes em crise "a certeza do seu amor incondicional".

Leão XIV afirma que os presbíteros "não são funcionários nem heróis solitários, mas filhos amados, discípulos humildes e estimados, e pastores amparados pela oração de seu povo".

Além disso, o Pontífice destaca a importância de redescobrir a dimensão comunitária do ministério sacerdotal.

“Pai bom, ensina-nos, como comunidade, a cuidar dos nossos presbíteros: a escutá-los sem julgar, a agradecer sem exigir perfeição, a partilhar com eles a missão batismal de anunciar o Reino com gestos e palavras, e a acompanhá-los com proximidade e oração sincera. Que saibamos amparar aqueles que tantas vezes nos amparam.”

O Papa reconhece que o cuidado dos sacerdotes é uma responsabilidade partilhada entre todo o Povo de Deus.

Em sua oração, o Papa pede ao Espírito Santo para reacender "nos nossos sacerdotes a alegria do Evangelho" e que eles possam contar com amizades saudáveis, "redes de apoio fraterno, sentido de humor quando as coisas não acontecem como esperavam, e com a graça de redescobrir sempre a beleza de sua vocação". Que eles não percam a confiança em Deusnem a alegria de servir à "Igreja com um coração humilde e generoso".

Sustentar fraternalmente aos que sustentam

O diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, pe. Cristóbal Fones, destaca que esta intenção de oração é algo particularmente importante: “O Papa nos recorda que temos que sustentar fraternalmente aos que nos sustentam. Eu mesmo sinto isto em minha experiência, convivendo com tantos companheiros e amigos sacerdotes que atravessam momentos difíceis. É fundamental recordar a importância do acompanhamento humano, da amizade sincera e, sobretudo, da força da oração que sustenta. Os sacerdotes precisam saber que não estão sozinhos”.

À luz do recente magistério da Igreja — desde o Concílio Vaticano II até os ensinamentos dos últimos pontífices — se evidencia que o sacerdote é um homem frágil que necessita de misericórdia, proximidade e compreensão. Por isso, a insistência para que não enfrentem sozinhos os momentos de desânimo, mas se deixem acompanhar e sustentar pela comunidade. A fraternidade sacerdotal, a vida partilhada e a oração do Povo de Deus são como fontes essenciais de graça, capaz de renovar sua vocação e sustentá-los em sua missão de cada dia.

“O Senhor não busca sacerdotes perfeitos”

Uma Igreja sinodal é também uma Igreja que cuida e sustenta a vocação dos sacerdotes, ajudando os presbíteros a serem pastores, irmãos e pessoas melhores. O Papa Francisco, em “O Vídeo do Papa” de julho de 2018, mostrou preocupação por seus irmãos sacerdotes, e disse: “O cansaço dos sacerdotes… Sabem quantas vezes penso nisso?”

Em 27 de junho de 2025, por ocasião do Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, o Papa Leão XIV dirigiu-se aos presbíteros com estas palavras: “Não tenham medo de sua fragilidade: o Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar como Ele mesmo nos amou”. Um dia antes, em 26 de junho de 2025, Leão XIV interpelou os participantes do encontro internacional “Sacerdotes felizes - «Eu vos chamo amigos», promovido pelo Dicastério para o Clero durante o Jubileu dos Sacerdotes, dizendo: “No coração do Ano Santo, queremos testemunhar juntos que é possível ser sacerdotes felizes, porque Cristo nos chamou, Cristo fez de nós seus amigos: é uma graça que queremos acolher com gratidão e responsabilidade”.

Como Rede Mundial de Oração do Papa queremos destacar que esta intenção não é somente um convite a rezar, mais também a agir: promover espaços de escuta, fomentar comunidades acolhedoras, evitar críticas destrutivas, e fortalecer vínculos como comunidade.

Sobre a Rede Mundial de Oração do Papa

A Rede Mundial de Oração do Papa é uma Obra Pontifícia confiada à Companhia de Jesus. Está presente em mais de 90 países e reúne uma comunidade espiritual de mais de 22 milhões de pessoas que procuram viver cada dia com disponibilidade para colaborar na missão de Cristo. No centro desta missão estão as intenções mensais de oração do Papa, que convidam a centrar-se nos desafios da humanidade e na missão da Igreja.

Foi fundada em 1844 como Apostolado da Oração. Em dezembro de 2020, o Papa Francisco instituiu esta Obra Pontifícia como Fundação Vaticana e aprovou os seus estatutos definitivos em julho de 2024.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Padre Luís Modino, um missionário espanhol na Amazônia

Padre Miguel Modino (Aleteia)

Paulo Teixeira - publicado em 24/02/26

O pensamento e a trajetória do Padre Luís Miguel Modino, missionário espanhol que, após 19 anos no Brasil (especialmente na Amazônia), retorna à sua diocese de origem na Espanha.

Apoie a Aleteia

Após quase duas décadas de uma entrega profunda ao solo brasileiro, o Padre Luís Miguel Modino prepara-se para um novo capítulo. Missionário fidei donum, Modino tornou-se uma voz respeitada na Igreja e entre os povos da Amazônia. Para ele, o ato de comunicar não é um apêndice da evangelização, mas a própria essência da missão. Em um mundo saturado de ruídos, ele defende uma comunicação que nasce da escuta e do "cheiro das ovelhas", transformando o jornalista em um porta-voz de realidades muitas vezes silenciadas pela grande mídia.

A missão de escutar

Para Modino, a comunicação eclesial eficaz começa muito antes da primeira linha escrita ou do primeiro clique na câmera. “Ela nasce no silêncio e na convivência”, disse em entrevista ao Vatican News. Durante seus anos na Amazônia, acompanhando comunidades indígenas e ribeirinhas, ele aprendeu que o verdadeiro comunicador deve primeiro ser um aprendiz da realidade local. Esta é a primeira etapa de qualquer missão que se pretenda autêntica: a capacidade de se deixar afetar pela vida do outro.

Em suas reflexões sobre o período em que serviu na Diocese de São Gabriel da Cachoeira e na Arquidiocese de Manaus, o sacerdote é enfático: "Somente ouvindo, somos capazes de valorizar e descobrir as riquezas que ali existem, o esplendor da Amazônia que nos chama a comunicá-la". Para ele, o comunicador missionário tem o dever de superar preconceitos e oferecer ao mundo uma "nova história" da região, que vá além das tragédias e foque na resistência e na beleza dos povos originários.

Missão digital

Com o avanço das tecnologias e a consolidação das redes sociais, Modino não se esquivou do desafio de habitar o ambiente virtual. Para ele, a internet não é apenas uma ferramenta, mas um "continente" que precisa ser evangelizado com a mesma dedicação que uma paróquia física. "A missão digital precisa ser purificada, mas nunca abandonada. Não percamos a oportunidade de oferecer a Boa Nova às centenas de milhões de pessoas que hoje habitam o continente digital", afirma o sacerdote. Para ele, o missionário digital é um novo carisma necessário para acompanhar aqueles que estão distantes das estruturas paroquiais tradicionais.

Missão e pontes

Ao se despedir do Brasil em dezembro de 2025, Padre Luís Miguel Modino deixa um legado de pontes construídas. Sua atuação na REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e no CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) exemplifica como a comunicação pode unir as dores das periferias ao coração do Vaticano. A missão de comunicar, portanto, é um serviço à unidade e à denúncia profética.

O retorno à Espanha não significa o fim de sua tarefa, mas uma mudança de geografia. A bagagem que leva do Brasil, carregada de nomes, rostos e lutas, continuará a alimentar sua vocação. "Onde quer que haja ódio, os missionários levam o amor; onde há desespero, eles levam a esperança", recorda Modino, citando a premissa que guiou seus 19 anos em terras brasileiras.

Padre Miguel Modino

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Magistério da Igreja e interpretação das Escrituras - Parte II

Papa Leão XIV celebra Missa por ocasião do XXX Dia Mundial da Vida Consagrada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, 2 de fevereiro de 2026. ANSA / Vatican Media)  (ANSA)

Na publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II escreveu que “guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico Vaticano II (...) tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o o amor de Cristo que excede toda a ciência".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

"Em sua catequese intitulada “Um único depósito sagrado”, Leão XIV recordava que na Constituição Dogmática Dei Verbum ressoa o texto paulino que diz: «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja», interpretado pelo «magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo». “Depósito” – explicou - é um termo que, na sua matriz original, é de natureza jurídica e impõe ao depositário o dever de conservar o conteúdo, que neste caso é a fé, e de o transmitir intacto”. E “ainda hoje o “depósito” da Palavra de Deus está nas mãos da Igreja e todos nós, nos vários ministérios eclesiais, devemos continuar a conservá-lo na sua integridade, como estrela polar para o nosso caminho na complexidade da história e da existência”.

Dando sequência a sua reflexão precedente. Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje a segunda parte de “Magistério da Igreja como intérprete fiel da Palavra”:

"O Magistério desempenha ao dar, “todos os dias até ao fim do mundo”, a correta interpretação ativa ou subjetiva/formal do conteúdo dogmático-moral da Tradição, tendo garantido ontem a veracidade do conteúdo passivo ou objetivo/material. Na publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica, São João Paulo II escrevia assim: “Guardar o Depósito da Fé é missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Ecumênico Vaticano II, inaugurado há trinta anos pelo meu predecessor João XXIII, de feliz memória, tinha como intenção e como finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja, e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurarem e acolherem o amor de Cristo que excede toda a ciência (cf. Ef 3,19)”.

Datada em 11 de outubro de 1992, trigésimo aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, décimo quarto ano do meu pontificado. HÁ uma “CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA DO SUMO PONTÍFICE JOÃO PAULO II FIDEI DEPOSITUM PARA A PUBLICAÇÃO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, REDIGIDO DEPOIS DO CONCÍLIO VATICANO II”

Este mesmo Catecismo: “Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo aos Apóstolos: ‘Quem vos escuta escuta-me a Mim’ (Lc 10,16), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que os seus pastores lhes dão, sob diferentes formas”. Sim, é preciso – sob pena de se criarem cismas ou “magistérios” paralelos – dar, sob o grau de assentimento que os pronunciamentos do Papa e dos Bispos o exijam, adesão aos seus ensinamentos e orientações; do contrário, podem recusar a voz do Pastor para seguir a um ladrão ou mercenário que, evidentemente, não é Pastor (cf. Jo 10,11-16). Afinal, quem diz: “Não siga o Magistério da Igreja”, de modo indireto ou até inconsciente, afirma: “Sigam a mim e às minhas doutrinas”. Eis o grave perigo!"

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

segunda-feira, 30 de março de 2026

SÃO BENTO: Indícios de amizade espiritual (Parte 2/2)

Vestindo Bento com o monge Romano e seu retiro para oração na gruta, Magister Conxolus, Histórias de São Bento, Igreja Inferior, Subiaco | 30Giorni.

SÃO BENTO

retirado do nº 05 – 2005, Revista 30Dias.

Indícios de amizade espiritual

Comunidade de espírito entre São Bento, o Padre Luigi Giussani e o Papa Bento XVI.

por Dom Giacomo Tantardini

O começo permanente e o confront com o espírito da utopia
Estas palavras evangélicas ("Quem me segue tem a vida eterna e cem vezes mais aqui na terra" cf. Mc 10,29-30) recordam o que o próprio Cardeal Ratzinger, em 1993, ao apresentar Um Evento da Vida Que É uma História , livro publicado pelo Il Sabato que reúne entrevistas e conversas com o Padre Giussani, definiu como "o confronto com o espírito da utopia". E não se tratava tanto de um confronto "decisivo", como o é, com as utopias mundanas, mas sim da "nossa tentação" (palavras de Giussani de outubro de 1976), isto é, a tentação que nós, cristãos, temos, "imediatamente após a intuição correta" do fato cristão, de "nos entregarmos, mais ou menos, ao privilégio concedido a um projeto".

O cem vezes mais não é o resultado de um projeto, de um programa. “Meu verdadeiro programa de governo não é fazer a minha vontade, não é seguir as minhas próprias ideias, mas escutar, com toda a Igreja, a palavra e a vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele, para que Ele mesmo guie a Igreja nesta hora da nossa história”, disse novamente Bento XVI em sua homilia na Missa de inauguração do seu ministério. A plenitude da vida terrena, como a vida eterna, tem um começo, uma fonte “permanente” (cada palavra da primeira aparição de Bento XVI na Praça de São Pedro, que se enchia de romanos que se apressavam para ver o novo Papa, permanece na memória: “Confiando em Sua ajuda permanente”). O começo “permanente” é Jesus Cristo, o Senhor ressuscitado.

“A Igreja está viva porque Cristo está vivo, porque Ele verdadeiramente ressuscitou” (domingo, 24 de abril). E no domingo, 1º de maio, quando, dirigindo-se às Igrejas Orientais que celebravam a Páscoa, ele repetiu com veemência: “ Christós anesti!” Sim, Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou!'', o aplauso imediato que se elevou da praça repleta de fiéis em direção àquela janela foi belíssimo.

Aqui, a comunhão de mente e coração entre São Bento, Bento XVI, Padre Giussani e os menos fiéis é luminosa e total.

'O Padre Giussani sempre manteve o olhar de sua vida e seu coração fixos em Cristo' (Cardeal Ratzinger, na Catedral de Milão, no funeral de Giussani). 'Precisamos de homens que mantenham o olhar fixo em Deus, aprendendo com ele a verdadeira humanidade' (em Subiaco). E, novamente em Subiaco, o Cardeal Ratzinger concluiu a conferência citando a belíssima frase que São Bento repete duas vezes na Regra: 'Nada se preceda a Cristo, que pode nos conduzir a todos à vida eterna'. Aqui, capítulo 72: ' Christ omnino nihil praeponant '. No capítulo 4: « Nihil amori Christi praeponere / nada se preceda ao amor de Cristo».

Quando, a partir deste permanente prae-ponereAo priorizar as coisas, corre-se o risco de dar prioridade a um projeto, a um programa, e isso "produz um trabalho árduo e exaustivo, pesado e amargo" (Giussani, novamente em outubro de 1976). São Bento fala de "um zelo amargo que afasta a pessoa de Deus e leva ao inferno", novamente no capítulo 72, citado pelo Cardeal Ratzinger em Subiaco. E no capítulo 4, ele escreve: " Zelum non habere ", que no Evangelho poderíamos traduzir como "não te preocupes" (cf. Mt 6,25-34).
Esse amor de Cristo que sempre vem em primeiro lugar (é o Seu amor: "... eles consideram que o bem que há neles não pode vir deles, mas de Deus e, portanto, engrandecem o Senhor que opera neles", Prólogo da Regra), esse olhar fixo n'Ele gera "um bom zelo que afasta a pessoa dos vícios e leva a Deus e à vida eterna" (novamente do capítulo 72, citado pelo Cardeal Ratzinger em Subiaco). "E estar presente não significa não se expressar: a presença também é expressividade. A utopia tem como modo de expressão a fala, o planejamento e a busca ansiosa por ferramentas e formas organizacionais. A presença tem como modo de expressão gestos de verdadeira humanidade, isto é, de caridade" (Giussani, outubro de 1976).

Quão surpreendente, mesmo do ponto de vista humano, e quão católico, mesmo do ponto de vista teológico, que todo bom gesto, toda boa obra sempre surja e floresça de algo que parece nada, como uma atração ( A Atração de Jesus , título de um livro de Giussani, Rizzoli), de algo que parece nada, como um olhar ( Olhando para Cristo , título de um livro de Ratzinger, Jaca Book). Assim, somos tomados pela mão e "conduzidos pelo Evangelho / per ducatum Evangelii " (Prólogo da Regra). Assim, ao "ver Cristo verdadeiramente", compreende-se que "encontrar Cristo significa seguir Cristo" (Cardeal Ratzinger no funeral de Giussani). Assim, compreende-se por que São Bento inclui "não preferir nada ao amor de Cristo" entre "os instrumentos das boas obras" (título do capítulo 4: Quae sunt instrumenta bonorum operum ).

Mesmo a mais excelente obra, a liturgia, sem prejuízo da validade dos sacramentos, seria reduzida, nas palavras do Cardeal Ratzinger, a uma "celebração de si mesmo", a um "teatro", se não fosse um "pensar n'Ele", um ser "voltado para o Senhor". Tornar-se-ia um formalismo pesado, pesado porque foi construído por nós. Perderia aquela transparência de beleza que (Ratzinger recordou num dos seus mais belos discursos, no Congresso Eucarístico de Bolonha em 1997, aludindo a uma antiga lenda sobre as origens do cristianismo na Rússia) encheu de admiração os embaixadores do Príncipe Vladimir de Kiev quando assistiram à sagrada liturgia na Basílica de Santa Sofia em Constantinopla. "O que os impressionou foi o próprio mistério que, precisamente por transcender a discussão, fez resplandecer o poder da verdade diante da razão." A misericórdia de Cristo e a não trivialização do mal

Entre os instrumentos para as boas obras, São Bento coloca "nunca desesperar da misericórdia de Deus / e nunca desesperar da misericórdia de Deus " (capítulo 4). Isso é consolo para aqueles que, como o próprio Bento se considerava (" nobis male viventibus ", capítulo 73), são pobres pecadores. Toda a Regra, precisamente por ser um simples e humilde deixar-se guiar pelo Evangelho (" per ducatum Evangelii "), é um exemplo maravilhoso de como "a misericórdia de Cristo não pressupõe a banalização do mal" (Ratzinger), de como "o fio da moralidade não só surge da misericórdia, mas também é atestado e preservado nela" (Giussani).

Abadia da Gruta Sagrada, Subiaco | 30Giorni.

Tendo como imagem ideal do cristão aquele que "repete sempre o que disse aquele publicano do Evangelho" (capítulo 7), a Regra é a proposta clara, breve e concreta, primeiramente dos mandamentos de Deus, que Bento XVI enumera com insuperável realismo no início do capítulo 4, e depois dos preceitos que indicam o que se deve fazer e o que se deve evitar nas diversas circunstâncias da vida. Precisamente porque "a primeira coisa a fazer é orar com súplica constante ( istantissima oratione ) Àquele que completa toda boa obra que se inicia" (Prólogo); precisamente porque "o instrumento mais eficaz a usar", por exemplo, em relação a um irmão pecador, é "a oração para que o Senhor, que tudo pode ( qui omnia potest ), opere a salvação" (capítulo 28), os mandamentos e preceitos são propostos sem eliminar ou esvaziar nada. “Não há nada mais realista do que afirmar fielmente os princípios retos. E o tempo trará a mudança. E a mudança que ocorrer será suficiente para testemunhar o milagre de Deus em nós. E essa fidelidade em repetir os princípios retos, qualquer um que a tenha experimentado um pouco, sabe o quanto é mortificação” (Giussani). A alternativa ao moralismo que condena (os outros) reside em repetir o que é bom e o que é mau, juntamente com a pergunta d'Aquele que tudo pode. 

Essa repetição, esse perguntar “sempre, sem cansar” ( Lc 18,1) é a coisa mais simples e humilde que podemos fazer, e “é própria daqueles que não têm nada mais precioso do que Cristo” (capítulo 5 da Regra). Por isso, gostaria de concluir estas notas agradecendo à pessoa que, dois meses antes de ser eleito Papa, concordou em escrever a introdução de um pequeno livro de orações que também contém o que e quantas coisas são necessárias para fazer uma boa confissão. "Por isso, fico muito feliz que a 30Giorni esteja publicando uma nova edição deste pequeno livro que contém as orações fundamentais dos cristãos, desenvolvidas ao longo dos séculos. Elas nos acompanham em todos os momentos de nossas vidas e nos ajudam a celebrar a liturgia da Igreja por meio da oração. Espero que este pequeno livro se torne um companheiro de viagem para muitos cristãos. Roma, 18 de fevereiro de 2005. Cardeal Joseph Ratzinger. Obrigado."

Fonte: https://www.30giorni.it/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF