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sábado, 28 de março de 2026

“Lectio divina ontem e hoje”

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Vanderlei de Lima - publicado em 08/03/20 - atualizado em 27/03/26

É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus.

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Eis o título de um importante livro publicado pelas Edições Subiaco, de Juiz de Fora, MG (4ª edição ampliada, 2017, 216 págs.), e que será apresentado neste artigo.

Reúne as maiores autoridades no assunto: Guigo II, o cartuxo, Enzo Bianchi, Giorgio Giurissato, Albert Vinnel e Irineu Resende Guimarães. Embora cada autor tenha o seu modo próprio de expor a Lectio, é Guigo II, o nono prior da Grande Cartuxa, do século XII, quem dá o tom ao livro. Afinal, sua Carta sobre a vida contemplativa ou Escada dos monges “é um clássico da espiritualidade monástica, enquanto retoma e sistematiza os ensinamentos da tradição monástica anterior sobre a lectio divina, e enquanto guiou gerações de monges nos caminhos da oração interior, como o testemunha o grande número de manuscritos que chegaram até nós” (p. 9).

Daí a importante questão: que é lectio divina e como se faz? – Respondemos que é a leitura orante da Palavra de Deus. Isso devido ao valor da Sagrada Escritura em si (cf. Dei Verbum, 21, p. 138-139). É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus (cf. p. 119, 191, 201 e 206). Faz-se por meio de quatro passos que, de acordo com Guigo II, formam “a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu” (p. 16). 

Vejamos cada degrau, segundo a exposição do cartuxo: “a leitura é o estudo assíduo da Escritura, feito com aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento de uma verdade oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura” (p. 16-17). E completa: “a leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa por cima de todo sentido. O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados” (p. 28).

As bases bíblicas para a prática da leitura orante da Escritura estão, segundo Enzo Bianchi, no capítulo 8 do livro de Neemias e em 2 Timóteo 3,14-16 (cf. p. 116). Note-se ainda que a Lectio se faz útil para posteriores preparações de homilias, à luz da chamada exegese canônica, ou seja, a da interpretação da Escritura pela própria Escritura, sem interpolações ideológicas estranhas (cf. p. 38, 40). É Bianchi mesmo quem afirma: “que a passagem [bíblica] se auto interpreta. A Escritura é a intérprete da Escritura. Este é o grande critério rabínico e patrístico para a lectio divina” (p. 123). Ainda: se os clérigos não praticam a Lectio divina, “serão na sua pregação, em seu magistério e em sua pastoral, homens superficiais, inseguros, às voltas com problemas, incapazes de dizer uma palavra que tenha ‘autoridade’, porém semelhante aos escribas (cf. Mt 7,28), enrubescendo muitas vezes com o Evangelho que eles anunciam (cf. 2Cor 3,12; 4,2; Rm 1,16)” (p. 45).

Certo é que para se fazer uma Lectio proveitosa deve-se ter: 1) as luzes do Espírito Santo. Sem Ele, assevera Irineu Resende Guimarães, “será apenas uma leitura de um texto qualquer. Só com a ajuda e a presença do Espírito Santo é que a nossa leitura será propriamente ‘divina’” (p. 209) e 2) o estudo capaz de levar o fiel a penetrar o sentido profundo do texto bíblico que é, sem dúvida, espiritual, mas foi escrito na linguagem humana de um contexto histórico determinado. Faz-se, pois, oportuno – de acordo com Albert Vinnel – entender, ainda que sucintamente, de História, Filologia, Patrologia etc. (cf. p. 181), sem, contudo, cair no intelectualismo (cf. p. 43). Prefira-se sempre a Bíblia de Jerusalém, por seus textos paralelos e notas explicativas (cf. p. 123).

Finalizando, importa dizer que, às vezes, Deus parece mostrar-Se ausente na meditação. Deve-se perseverar firme, pois tudo isso é para o bem espiritual do fiel (cf. Rm 8,28). Ele consola, mas também “afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza” (p. 25).

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Medite a espiritualidade da Semana Santa a partir das reflexões dos bispos do Brasil

As celebrações da Semana Santa (CNBB)

MEDITE A ESPIRITUALIDADE DA SEMANA SANTA A PARTIR DAS REFLEXÕES DOS BISPOS DO BRASIL

27/03/2026

Às portas do início da Semana Santa, alguns dos bispos que oferecem artigos ao Portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escreveram sobre a espiritualidade deste momento central para a fé cristã, ajudando o povo de Deus a mergulhar nos mistérios celebrados.

As celebrações da Semana Santa

O arcebispo da arquidiocese do Rio de Janeiro (RJ), cardeal Orani João Tempesta, introduz ao mistério celebrado no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, abrindo a Semana Maior e mais importante do calendário cristão.

“As celebrações desta semana são muito ricas e cheias de significado. Caso não seja possível participar de todas as celebrações devido ao trabalho ou aos estudos, meditemos os textos sagrados em casa e procuremos acompanhar as celebrações pela televisão, rádio ou internet. Hoje concluímos também a Campanha a Fraternidade com o nosso gesto concreto que é a Coleta da Solidariedade”.

O arcebispo motiva a intensificar a oração, participar das celebrações e viver profundamente o Tríduo Pascal. “Caminhemos com Cristo na cruz, para com Ele ressuscitarmos para uma vida nova”.

Leia o artigo de dom Orani na íntegra.

Força redentora

Em outro artigo, também inspirado pelo contexto da Semana Santa, dom Orani reflete sobre a força redentora que emana da entrega total de Jesus na cruz. Nesse ato de solidariedade extrema, segundo dom Orani, Ele assume nossas dores e transfigura o sofrimento em caminho de salvação. “Aqui, a força não é um exercício de poder dominador, mas de entrega sacrificial que gera vida nova”, escreveu.

“Do silêncio orante do Getsêmani à entrega total na cruz, passando pela dor, pela aparente derrota e pela esperança silenciosa do Sábado Santo, aprendemos que a verdadeira força nasce da confiança radical em Deus. O que celebramos nesses dias não pode permanecer apenas na memória, mas deve transformar a vida”.

Paradoxo fascinante e desconcertante

O bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller, escreveu sobre o “paradoxo fascinante e desconcertante” apresentado na liturgia do Domingo de Ramos: “aclamamos um Rei montado num jumentinho. Gritamos ‘Hosana!’ e, poucos dias depois, gritaremos ‘Crucifica-o!’. Agitamos ramos festivos e, em seguida, mergulhamos no silêncio sombrio do Calvário”.

Para dom Antonio Carlos, o Domingo de Ramos não é apenas a abertura da Semana Santa, mas “oespelho da nossa própria alma”, uma vez que “revela a fragilidade das nossas aclamações, a instabilidade da nossa fé, mas, sobretudo, a fidelidade absoluta de Jesus, Servo obediente que abraça o amor até o fim”.

Além de explicar sobre os elementos e cada texto bíblico oferecido pela liturgia, dom Antônio indica como viver bem a Semana Santa.

“É umtempo de graça único, oferecido pela Igreja como oportunidade de transformação interior. Mas só nos transforma se nos dispormos a vivê-la com presença, com coração aberto”.

Leia o artigo de dom Antonio Rossi Keller na íntegra. 

Celebrar todo o mistério pascal

Dom Rodolfo Weber, arcebispo de Passo Fundo (RS) também destaca a liturgia da Semana Santa, na qual serão lidos e refletidos “ricos e vastos textos bíblicos sobre os fundamentos teológicos e litúrgicos da vida cristã”. Ele orienta que “não podemos nos deter em um aspecto, mas celebrar o todo do mistério pascal”.

Ele reflete sobre o contexto da guerra no Oriente Médio e sobre a missão da Igreja de estar ao lado de Cristo crucificado e de todos os crucificados.

“O triunfo de Cristo não é aquele imperial, mas o humilde e sofrido da cruz. É o que liberta e salva. Jesus entra em Jerusalém não para ocupar a chefia de um exército e de um Estado, mas para oferecer-se como ‘rei manso e humilde'”.

Leia o artigo de dom Rodolfo na íntegra.

Participar com Cristo

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto Francisco Ferreria Paz, escreveu sobre o início da Semana Santa com o Domingo de Ramos, quando participamos de todo o trajeto de Jesus desde a sua entrada em Jerusalém até a sua vitória sobre a morte. Ele motiva à participação ativa nas celebrações.

“No coração do Ano Litúrgico não fiquemos no palco ou assistindo o mistério e o drama da nossa salvação como meros espectadores ou turistas espirituais mas mergulhemos de cheio não só nos ritos mas no itinerário espiritual das trevas para a luz, do ódio para o amor, do desespero e indiferença para a esperança, do medo para a confiança e entrega, configurando-nos com o Crucificado e identificando-nos com seus sentimentos, dores e angústias para vencer com Ele a morte”.

Leia o artigo de dom Roberto Paz na íntegra

Lugar para todos

Dom Itacir Brassiani, bispo de Santa Cruz do Sul, reflete a partir dos sonhos e utopias que a humanidade carrega e a missão de Jesus. Ele motiva reafirmar, no início da Semana Santa, o sonho de um mundo que tenha lugar para todos.

“Acompanhando Jesus de Nazaré em sua chegada à capital do seu país, reafirmamos nosso sonho de um mundo onde haja lugar e vida plena para todos, que não criminalize os profetas e os sonhadores, que dê primazia aos mais vulneráveis. Em Jesus, o sonho é vivido e testemunhado no dom de si mesmo, sem reservas. Por isso, vive e é imortal”.

Leia na íntegra o artigo de dom Itacir

Meditar a seriedade do amor

Dom Lindomar Rocha, bispo de São Luís de Montes Belos (GO), fez uma narração poética do mistério da encarnação de Jesus e da redenção trazida por Ele a partir do mote “A seriedade do amor”. Seu artigo pode auxiliar em meditações e reflexões durante a Semana maior.

“O Altíssimo entrou na história como caminhante. Seus pés tocaram a poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu até a morte. Sua vida abriu a manhã do terceiro dia. E, todo aquele que o ouve, cedo ou tarde, encontra dentro de si o vestígio dessa verdade”.

Leia e medite com o artigo de dom Lindomar

Por Luiz Lopes Jr

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Uma luz no fim do feed

Mundo digital  (Julien Eichinger - Fotolia)

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

Marcus Tullius[1] -  Comunicação da Cáritas América Latina e Caribe 

A decisão inédita de um júri de Los Angeles, no dia 25 de março, colocou Google e Meta no centro de um debate que extrapola o campo do Direito. Ao considerá-las responsáveis por contribuir para uma crise de saúde mental entre adolescentes e jovens, a partir do funcionamento de plataformas como YouTube e Instagram, o caso deve entrar, definitivamente, no debate público. O problema deixa de ser lido como fragilidade do usuário e passa a ser reconhecido como efeito de um sistema desenhado para capturar. Portanto, não é uma condenação do conteúdo que está circulando, mas da arquitetura da plataforma e a responsabilização de seus donos.

O caso em questão envolve uma jovem de 20 anos que afirmou ter se viciado nos aplicativos devido ao seu design atraente. Isso é resultado de uma lógica simples e profundamente eficaz. As plataformas existem para reter a atenção. E, uma vez retida, essa atenção precisa ser convertida em valor econômico. O tempo que se passa na tela não é apenas um indicador de uso — é a própria matéria-prima de um modelo de negócios.

Isso ajuda a compreender por que não se trata apenas de conteúdo produzido — que não é menos relevante —, mas de arquitetura. Rolagem infinita, notificações constantes, vídeos encadeados, recompensas intermitentes: tudo converge para prolongar a permanência nos aplicativos e dispositivos. Não porque o usuário decidiu livremente ficar, mas porque o ambiente foi desenhado para tornar a saída cada vez menos provável. Byung-Chul Han descreve em Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida (2022) que “o constante digitar e deslizar no smartphone é um gesto quase litúrgico que influencia massivamente a relação com o mundo” (p. 43) e que “o dedo que digita torna tudo consumível” (p. 45). A captura permanente da atenção não se dá contra a vontade, mas é previamente orientada para gerar esse comportamento automatizado em vista do lucro.

Esta talvez seja apenas a ponta mais emergente de um iceberg daquilo que Shoshana Zuboff define em A era do capitalismo de vigilância (2021), como “uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais dissimuladas de extração, previsão e vendas”. Este capitalismo de vigilância, extremamente predatório, nos deixa inertes diante desta arquitetura global de modificação de comportamento. A autora, professora emérita de Harvard, nem menciona à época a inteligência artificial, o que hoje acentua ainda mais a dimensão do problema de mudanças comportamentais e vícios. A atenção é capturada, convertida em dado e processada como valor. E o vício não é apenas um acidente do percurso, mas peça chave para o seu funcionamento.

Você já parou para perceber a enxurrada de notificações que recebe ao longo do dia? Até aqui, na leitura deste texto, você foi roubado quantas vezes por alguma notificação ou para checar alguma rede social? Não por acaso estamos muito mais dispersos e com a capacidade de atenção reduzida. O tempo de exposição às telas e os seus mecanismos de retenção da atenção afetam a todos, mas têm um efeito ainda mais danoso quando seus usuários são crianças e adolescentes. Especialistas de diversas áreas têm alertado sobre este impacto das centenas, ou até milhares de notificações, sobre um cérebro ainda em formação e que é constantemente interrompido. 

A decisão do tribunal nos Estados Unidos acontece poucos dias depois da entrada em vigor do chamado ECA Digital, no Brasil. Ao colocar crianças e adolescentes no centro desse debate, reconhece-se que ambientes digitais exploram vulnerabilidades cognitivas e emocionais. E isso não pode mais ser tratado como efeito colateral ou como responsabilidade do usuário.

Uma luz no fim do feed talvez não seja ainda a solução de todos os problemas, mas o resultado e a aceitação deste argumento por parte de um tribunal poderão influenciar milhares de casos semelhantes que estão tramitando contra as empresas de tecnologia, movidos por pais e outros atores.

A condenação de Google e Meta quebra uma lógica que parecia intocável e acelera um debate poliédrico que já não pode ser adiado. Poliédrico, porque não se trata apenas de regular as plataformas considerando o que circula nelas, mas sobretudo o modo como são desenhadas, seus mecanismos de retenção, seus algoritmos e a própria economia da atenção que as sustenta; de investir seriamente em educação midiática, capaz de formar sujeitos críticos que compreendam como funcionam esses ambientes e não apenas aprendam a usá-los; e de fortalecer o acompanhamento de crianças e adolescentes, como presença atenta, diálogo constante e construção de critérios no interior das famílias e comunidades.

Tais apelos encontram ressonância na mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026. Ainda que situados no campo da inteligência artificial, os três pilares propostos — responsabilidade, cooperação e educação — oferecem uma proposta muito clara para e que precisam ser assumidas de forma mais ampla no conjunto do ambiente digital em que estamos inseridos.

Esta decisão importa tanto não porque resolva o problema, mas porque introduz um ponto de inflexão: aquilo que antes operava sem responsabilização começa, enfim, a ser nomeado — e cobrado. E, quando isso acontece, o debate já não pode mais ser evitado.

[1] Mestre em Comunicação, coordenador de comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e pesquisador de comunicação e religião. Atuou como coordenador da Pascom Brasil entre 2018 e 2024. Apresenta o programa Igreja Sinodal em emissoras de inspiração católica. Vencedor do Prêmio Papa Francisco dos Prêmios de Comunicação da CNBB (2025). 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

sexta-feira, 27 de março de 2026

Na Semana Santa não se celebra nenhum santo

Santos da Igreja Católica | Crédito: Atlético Zvonimir - Shutterstock

Por Abel Camasca*

25 de mar de 2026

Durante a Semana Santa não se celebram festas dos santos e beatos da Igreja.

As celebrações litúrgicas na Igreja têm categorias. As Normas Universais sobre o ano litúrgico dividem-nas, segundo a sua importância, em solenidades, festas e memórias livres ou obrigatórias.

As solenidades celebram Jesus, Maria e José. Assim, Domingo de Ramos, Quinta-feira Santa, quando se comemora a Ceia do Senhor, Sexta-feira Santa da Paixão e Sábado Santo são solenidades e têm precedência sobre qualquer outra festa.

No caso dos demais dias, as Normas Universais dizem que “as férias (dias litúrgicos) da Semana Santa, de segunda a quinta inclusive, têm preferência sobre qualquer outra celebração”.

*Abel Camasca é comunicador social. Foi produtor do telejornal EWTN Noticias por muitos anos e do programa “Más que Noticias” na Radio Católica Mundial.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pasolini: uma vida livre significa amar sempre e experimentar a dor sem ser vencido por ela

Última meditação desta Quaresma do Padre Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia  (ANSA)

O Evangelho nos permite "embarcar num caminho de purificação e conversão que nos conduz à liberdade dos filhos de Deus". Assim, o pregador da Casa Pontifícia concluiu a quarta e última meditação da Quaresma, na presença do Papa. O frade capuchinho revê os momentos finais da vida e da morte de São Francisco, que "aprendeu a aceitar sua própria fragilidade", descobrindo que a maior liberdade é colocar-se a serviço da Igreja e do mundo com generosidade.

Vatican News

A redescoberta das últimas etapas do caminho terreno de São Francisco de Assis, que aprendeu "a aceitar sua própria fragilidade" e pequenez, e que nada, nem mesmo a rejeição, a doença ou a morte, pode nos separar do amor de Deus. Esta é a reflexão oferecida pelo pregador da Casa Pontifícia, padre Roberto Pasolini, em sua quarta e última meditação quaresmal sobre o tema: "A liberdade dos filhos de Deus. A alegria perfeita e a morte como irmã", realizada na manhã desta sexta-feira, 27 de março, na Sala Paulo VI, na presença de Leão XIV.

O padre capuchinho recorda que, nesses quatro encontros, sobre o tema "Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura", a escolha foi deixar-se guiar pela figura do Pobrezinho de Assis "no caminho da conversão ao Evangelho". O fruto mais maduro de sua experiência será, em última análise, "a liberdade dos filhos de Deus".

Francisco guiado por Deus na pobreza de sua vida

Ele enfatiza que Francisco se tornou santo porque aprendeu "a deixar-se guiar por Deus na concretude e pobreza de sua existência" e, portanto, como um alter Christus, a acolher o Espírito Santo com abertura. Já no fim de seus dias, recorda Tomás de Celano, ele tinha "se transformado em oração viva", isto é, "todo o seu modo de vida se tornou como uma oração contínua".

O caminho da alegria perfeita

Naqueles últimos anos, porém, continua o pregador, Francisco experimentou a "grande tentação" de uma profunda crise: a Ordem dos Frades Menores "tinha crescido e se transformado", e ele "sentia-se rejeitado, quase inútil, até mesmo considerado um 'idiota'". Ao frei Leão, que estava com ele em Santa Maria dos Anjos, o pobre homem contou a parábola da "verdadeira e perfeita alegria", pedindo-lhe que listasse coisas belas "que pudessem ser motivo de orgulho para ele e para a Igreja". Por fim, pediu-lhe que escrevesse que "em todas aquelas coisas não há alegria perfeita" e explicou que "a alegria autêntica se manifesta quando a rejeição, a humilhação e a incompreensão não conseguem nos roubar a paz". A verdadeira alegria, comenta o padre Pasolini, reside em como "reagimos em circunstâncias adversas, quando somos rejeitados e excluídos".

A felicidade não consiste em se proteger da realidade, mas em aprender a abraçá-la mesmo quando dói, sem se deixar dominar por ela. É aí que a vida cristã se torna concreta e aprendemos a valorizar uma alegria que não depende de como as coisas acontecem, mas de como escolhemos vivê-las.

A alegria perfeita, portanto, não é "a ausência de feridas", mas "a liberdade de não ser definido por elas. É uma liberdade que não apaga a dor, mas impede que ela tenha a última palavra."

Padre Roberto Pasolini durante sua quarta meditação da Quaresma   (@Vatican Media)

As Bem-aventuranças, uma promessa de vida plena

É Jesus, no Evangelho, quem mostra que “este modo de vida — livre mesmo diante do ódio e da perseguição — é a plenitude da vida nova em seu nome”. Ele o faz no início de seu ministério público, com as Bem-aventuranças, que não são uma lei, mas uma promessa, “não um programa de perfeição moral, mas a revelação de uma felicidade já atuante no âmago da realidade”.

As Bem-aventuranças não nos convidam a fugir da realidade nem a adiar a felicidade para um futuro distante. Elas nos convidam a mergulhar mais profundamente naquilo que vivemos, mesmo quando nos parece frágil e incompleto. Elas proclamam que o caminho para uma vida plena reside em nossa experiência concreta, dentro do que somos e no que vivenciamos.

O Papa Leão XIV ouve a meditação quaresmal do Padre Pasolini   (@Vatican Media)

Desejar a vida com a maior intensidade possível

Na conclusão, o padre Roberto sublinhou que “não podemos adaptar o Evangelho aos nossos medos, reduzi-lo a uma proposta reconfortante ou a um conjunto de práticas religiosas que conservam apenas a aparência de vida no espírito, mas esvaziam sua verdadeira força”, e completou:

“Oferecer um cristianismo fácil e barato, menos exigente, significa privar os homens e as mulheres do nosso tempo daquilo de que realmente precisam: um caminho capaz de conduzir nossos passos humanos ao horizonte da vida eterna. O Evangelho não nos convida a viver menos, nem a fugir do peso e do cansaço da realidade. Ele nos autoriza a desejar a vida com a maior intensidade possível, acolhendo com humildade a cruz e o pão de cada dia. O Evangelho não propõe atalhos, mas nos capacita para um caminho de purificação e conversão que conduz à liberdade dos filhos de Deus. E é nossa responsabilidade guardar esta verdade sem atenuá-la, indicando caminhos que abram as portas para a plena maturidade em Cristo.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

quinta-feira, 26 de março de 2026

A Páscoa do Senhor em São João por Santo Agostinho

A Páscoa do Senhor (CNBB Norte 2)

A PÁSCOA DO SENHOR EM SÃO JOÃO POR SANTO AGOSTINHO

26/03/20261

por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá

A Igreja celebra a Páscoa do Senhor como o ponto central da vida de Jesus em vista da salvação humana. É o mistério do amor, da doação do Senhor por nós e pela humanidade. Para voltar ao Pai era necessário que o Filho do Homem, Filho de Deus passasse pela paixão, morte e ressurreição. Jesus tinha consciência desta passagem fundamental sem a qual não teria a redenção humana. Nos próximos dias celebraremos os mistérios que proporcionaram vida em abundância, pois teremos presentes o amor de Deus a nós e a toda a humanidade; “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). A seguir nós teremos a visão de Páscoa em Santo Agostinho, a partir do evangelista São João, o discípulo amado do Senhor.

A Páscoa tem significado de passagem

Santo Agostinho teve presente o capitulo 13 de São João onde se diz que “Jesus antes da festa da Páscoa, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cfr. Jo 13, 1). Para ele entra aqui os significados de Páscoa, que se de um lado vem do grego páschein, padecer[1], de outro lado a Páscoa tem o significado na sua verdadeira língua, a hebraica, a qual diz respeito à passagem, uma vez que o povo de Deus celebrou a Páscoa no momento em que as pessoas fugiam do Egito ao passar pelo Mar Vermelho (cf. Ex 14,29). O tempo completou-se onde Jesus seria conduzido como ovelha ao matadouro, para o único sacrifício e perfeito (cf. Is 53,7). Qual seria a passagem que Jesus iria realizar? A passagem dele foi deste mundo ao Pai[2], de modo que Ele passou pelo sofrimento, pela cruz para chegar à glória da ressurreição. A Páscoa possui o significado da passagem do Senhor deste mundo para a vida divina.

Ele teve um amor grande, até o fim

O amor do Senhor não teve limites para com os seus e para o gênero humano, indo até o fim. O Bispo de Hipona afirmou que o fim do qual o evangelista afirmou, trata-se daquele que leva à plenitude, não de um fim que aniquila, perece, mas do fim de um amor sem limites[3]. É um amor segundo as palavras evangélicas que podem ser tomadas também num sentido humano, segundo o qual se diz que Jesus amou os seus até o fim pois os amou até a morte[4]. É evidente que o amor de Jesus não se esgota pela morte; Ele sempre nos amou e nos ama até o fim para significar um amor que não mediu palavras e ações[5].

O Pai pusera tudo nas mãos  de Jesus

O Evangelista São João afirmou que o Pai pusera tudo nas mãos de seu Filho, Jesus, que o diabo pusera no coração de Judas o propósito de entregá-lo, que Ele viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela e começou a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (cf. Jo 13,2-5)[6]. Jesus não fez este gesto maravilhoso no fim, mas durante a ceia, pois Ele tornou a sentar-se à mesa, significando a necessidade do serviço como doação de si mesmo, para o próximo e para Deus.

O projeto de entregar Jesus

São João afirmou que Judas queria entregar Jesus às autoridades tendo presente o diabo que pusera isso no coração dele para entregar Jesus[7]. Segundo Santo Agostinho esta ação de pôr era uma sugestão espiritual, não do ouvido, era pelo pensamento, não era do corpo, mas era do espírito. Santo Agostinho levantou a pergunta como é possível que as diabólicas sugestões se introduzam e se misturem com os pensamentos humanos? A resposta vem quando o consentimento que presta a mente humana a cada uma das sugestões por mérito humano o fará se tiver sido abandonada pelo auxílio divino, ou por obra da graça. Já tinha sido posto no coração de Judas, por ação diabólica, que o discípulo entregasse o Mestre que ele não aprendera tratar-se de Deus. Na verdade Judas foi ao banquete como espião do Pastor, segundo o bispo de Hipona, como quem espreita o Salvador, e vende o Redentor. Viera nesta condição, e pensava que fosse ignorado, pois não pode enganar Aquele a quem pretendia enganar. No entanto Jesus percebeu o pensamento e a ação de Judas que iam se realizar contra o Senhor[8].

O gesto humilde do Senhor

Como foi dito, Jesus levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela. Colocou em seguida água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com quem estava cingido (cf. Jo 13, 5). O evangelista quis enaltecer seja a humildade de Jesus servidor das pessoas e da humanidade, como também enaltecer a sua excelsitude[9]. Tendo presente que o Pai pôs tudo em suas mãos, Ele não lavou as mãos dos discípulos, mas sim os seus pés. Ele exerceu o serviço de quem era escravo[10], demonstrando o amor pelo serviço essencial que aconteça na vida da comunidade.

A atitude de Jesus foi aquela de uma grande humildade, no sentido de que Deus era, é o Encarnado, assumindo todas as coisas referentes à humanidade na maior simplicidade da vida. Ele lavou também os pés de Judas, aquele que deveria trair a Jesus, demonstrando um grande grau de humildade, cujas mãos Ele antevia já comprometidas com o crime[11].

Jesus estava próximo de sua paixão, morte e ressurreição. Com o gesto do lava-pés ensinou aos seus discípulos e a todos nós, a importância do serviço, da vivência da humildade, fazendo perecer para sempre a vaidade, o orgulho das pessoas, de suas autoridades, para enaltecer a caridade e o amor entre as pessoas, com Deus[12]. A Páscoa é passagem do mistério da encarnação, paixão, morte, ao mistério da glória da ressurreição e a sua entrada à direita do Pai.

Notas:

[1] Cfr. Homilia 55,1. O amor até o fim.  In: Santo Agostinho. Comentários a São João II. Evangelho – Homilias 50-124. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 73.

[2] Cfr. Idem, pg. 74.

[3] Cfr. Ibidem, n. 2, pg. 75.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem, pgs. 75-76.

[6] Cfr. Ibidem, n. 03, pg. 76.

[7] Cfr. Ibidem, n. 04, pg. 76.

[8] Cfr Ibidem, pg. 77.

[9] Cfr. Ibidem, n. 6. Pg. 78.

[10] Cfr. Ibidem.

[11] Cfr. Ibidem.

[12] Cfr. Ibidem, n. 7, pg. 79.

Fonte: https://cnbbn2.com.br/

quarta-feira, 25 de março de 2026

ANUNCIAÇÃO: O “sim” que mudou a história da humanidade

mage of our Lady of Fátima at the Fátima Sanctuary, final destination of the Tagus Route (© Centro Nacional de Cultura)

Prof. Felipe Aquino - publicado em 23/12/15 - atualizado em 25/03/26

O "sim" de Maria dito ao arcanjo Gabriel foi determinante para dar início à história da nossa salvação.

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Santo Agostinho disse que: “Adão, sendo homem, quis tornar-se Deus e perdeu-se. Cristo, sendo Deus, quis fazer-se homem para a salvação do homem. Por seu orgulho, o homem caiu tão baixo que só podia ser levantado pelo abaixar-se de Deus”.

O pecado original nos fez perder a filiação divina; a humanidade foi expulsa do paraíso; e só poderia se reconciliar com Deus se houvesse a salvação por meio de Deus mesmo.

Mas, para que o Filho de Deus pudesse se tornar também homem, e nosso Salvador, sem deixar de ser Deus, era preciso que fosse concebido por uma mulher. Desde a queda de Adão e Eva Deus já tinha prometido que a salvação da humanidade viria por meio de uma Mulher, já que o demônio seduziu a primeira mulher para injetar seu veneno na sua descendência. Deus disse à Serpente maligna: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15). Esta Mulher prometida no Protoevangelho era Maria.

Este projeto de Deus para a nossa salvação se realizou como São Paulo explicou: “Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a sua adoção. A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gal 4,4). Por meio da Virgem Maria veio o Salvador, que nos reconciliou com Deus por Sua morte e ressurreição. Nele nos tornamos novamente filhos de Deus por adoção, pelo Batismo, e Deus enviou o Espirito Santo aos nossos corações.

O que a Anunciação nos ensina?

Deus anunciou muitas vezes pela boca dos seus profetas como isso aconteceria. O Salvador viria da tribo de Davi, filho de Jessé: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes ”(Is 11,1). “O próprio Senhor vos dará um sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e o chamará Deus Conosco” (Is 7, 14). “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma Luz… um Menino nos nasceu, um filho nos foi dado, a soberania repousa sobre os seus ombros, e ele se chama: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz” (Is 9,1-7). Quando Ele vier e estabelecer Seu Reino entre nós, haverá paz e bem estar:

“Então o lobo será hospede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno os conduzirá; a vaca e o urso se fraternizarão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da serpente. Não se fará mal nem dano em todo o meu Santo Monte.” (Is 11, 1-9). Virá Aquele que “ilumina todo homem que vem a este mundo” (João 1, 9).

Ele será o Messias, o esperado pelas nações, “o mais belo dos filhos dos homens”. Sem a sua luz o homem vive nas trevas; “permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”, como disse São João Paulo II; sem Ele ninguém sabe quem é, e não sabe para onde vai.

Para que tudo acontecesse, Deus tinha que escolher uma mulher...

E Deus escolheu a melhor Mulher. A tradição judaica diz que todas as mulheres judias acalentavam o sonho de ser a Mãe do Messias, menos a pequena Maria, escondida na pequenina e desprezada Nazaré. Mas Deus precisava da mulher mais humilde para esta missão, porque a primeira mulher foi soberba, pecou porque “quis ser como Deus”.

Santo Irineu de Lião (†200) disse que pela obediência de Maria foi desatado o nó da desobediência de Eva. E Jesus pela radical humilhação anulou a soberba de Adão.

A Igreja nos ensina que: “Deus enviou Seu Filho” (Gl 4,4), mas, para “formar-lhe um corpo” quis a livre cooperação de uma criatura. Por isso, desde toda a eternidade, Deus escolheu, para ser a Mãe de Seu Filho, uma filha de Israel, uma jovem judia de Nazaré na Galileia, “uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26-27): “Quis o Pai das misericórdias que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, uma mulher também contribuísse para a vida”. (Cat. n. 488; LG, 56).

O SIM de Maria dito ao Arcanjo Gabriel foi determinante para dar início à História da Salvação. “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38). Não colocou qualquer obstáculo e nem a menor exigência ao plano e à vontade de Deus. Então Nela o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Foi inaugurada a História da nossa salvação. Deus se fez homem no sei da Virgem preparada por Deus, concebida sem pecado original, virgem como Eva, mas Imaculada. Deus a escolheu por ser a mais humilde de todas as mulheres. Ela canta em seu Magnificat: “Ele olhou para a humildade de Sua serva”.

O Espírito Santo foi enviado para santificar o seio da Virgem Maria e fecundá-la divinamente, ele que é “o Senhor que da a Vida”, fazendo com que ela concebesse o Filho Eterno do Pai em uma humanidade proveniente da sua. Quando ela foi servir a Sua prima Santa Isabel, logo foi saudada por Isabel, cheia do Espírito Santo, como “a Mãe do meu Senhor”.

Todos os santos nos falam da SIM de Maria

Santo Agostinho exclama: “És Maria, a beleza e o esplendor da terra, és para sempre o protótipo da santa Igreja. Por uma mulher, a morte, por outra mulher a vida: por ti, Mãe de Deus. Eva foi a causadora do pecado; Maria, causadora do merecimento. Aquela feriu, esta curou.

Maria é mais bem-aventurada recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo. Maria permaneceu Virgem concebendo seu Filho, Virgem ao dá-lo a luz, Virgem ao carregá-lo, Virgem ao alimentá-lo do seu seio, Virgem sempre. Jesus tomou carne da carne de Maria. Na Eucaristia Maria perpetua e estende a sua Divina Maternidade”.

O SIM de Maria fez dela a Mãe do Senhor, a Mãe da Igreja e a Mãe de cada irmão de Jesus resgatado pelo Seu Sangue. Diz ainda Santo Agostinho: “Maria é chamada nossa Mãe porque cooperou com sua caridade para que, nós, fiéis, nascêssemos para a vida da graça, como membros da nossa cabeça, Jesus Cristo”. São Tomás de Aquino disse que: “Maria pronunciou o seu “fiat” (faça-se) em representação de toda a natureza humana”. “Por ser Mãe de Deus, Maria, tem uma dignidade quase infinita”. Em nome de cada um de nós Nossa Senhora disse Sim a Deus, e a salvação chegou até nós. Por isso Deus fez dela a medianeira de todas as graças.

São Francisco de Sales, o grande doutor inspirador de Dom Bosco disse que: “As crianças, vendo o lobo, correm logo para os braços do pai ou da mãe, pois ali se sentem seguras. Assim devemos fazer: recorrer imediatamente a Jesus e a Maria”.

“Recorre a Maria! Sem a menor dúvida eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe. Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria”, disse o doutor São Bernardo. Ele garante que “Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus. Deus depositou em Maria a plenitude de todo o bem”. Por isso, o grande doutor dizia:

“O servo de Maria não pode perecer. Se se levantam os ventos das tentações, se cais nos escolhos dos grandes sofrimentos, olha para a Estrela, chama por Maria! Se as iras, ou a avareza, ou os prazeres carnais se abaterem sobre a tua barca, olha para Maria. Se, perturbado pelas barbaridades dos teus crimes, se amedrontado pelo horror do julgamento, começas a ser sorvido em abismos de tristeza e desespero, olha para a Estrela, chama por Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração. Maria é a onipotência suplicante”.

(Felipe Aquino)

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Papa: na Igreja, a hierarquia existe em função do serviço, não do poder

Audiência Geral, 25/03/2026 - Papa Leão XIV (Vatican News)

A partir do ensinamento da Lumen Gentium, no seu capítulo III, Leão XIV dedicou sua reflexão à dimensão hierárquica do novo Povo de Deus, que tem seu fundamento nos Apóstolos, colunas vivas escolhidas por Jesus.

Thulio Fonseca - Vatican News

O céu ensolarado na Praça São Pedro acolheu milhares de fiéis e peregrinos que vieram ao Vaticano para a Audiência Geral com o Papa Leão XIV, nesta quarta-feira, 25 de março. Em sua catequese, o Santo Padre deu continuidade ao ciclo de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, aprofundando o capítulo III da Constituição dogmática Lumen Gentium, dedicado à estrutura hierárquica da Igreja.

Ao iniciar sua reflexão, o Pontífice recordou que a Igreja encontra seu fundamento nos Apóstolos, escolhidos por Cristo como sustentação viva do seu Corpo, e sublinhou que essa dimensão hierárquica "opera ao serviço da unidade, da missão e da santificação de todos os seus membros”.

Fundamento apostólico da Igreja

Leão XIV também explicou que a estrutura hierárquica da Igreja está intimamente ligada à continuidade da missão confiada por Cristo aos Apóstolos. Por meio da sucessão apostólica, esse ensinamento é preservado e transmitido ao longo da história, garantindo a fidelidade ao Evangelho. Nesse sentido, destacou que a própria Lumen Gentium apresenta essa realidade como constitutiva da Igreja, e não como elemento secundário ou posterior:

“A estrutura hierárquica não é uma construção humana, funcional à organização interna da Igreja como corpo social, mas uma instituição divina destinada a perpetuar a missão dada por Cristo aos Apóstolos até ao fim dos tempos.”

Serviço ao Povo de Deus

O Papa também aprofundou a relação entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial, recordando que ambos participam, de modos distintos, do único sacerdócio de Cristo e se ordenam mutuamente na vida da Igreja. Assim, a hierarquia existe em função do serviço, e não do poder. Dentro dessa missão, os ministros ordenados — bispos, presbíteros e diáconos — recebem a responsabilidade de guiar, santificar e ensinar o povo de Deus, sempre em vista da salvação de todos:

“Os bispos, em primeiro lugar, e através deles os sacerdotes e os diáconos, receberam deveres que os conduzem ao serviço de todos os que pertencem ao Povo de Deus.”

Uma hierarquia que nasce da caridade

Retomando o ensinamento conciliar, o Santo Padre enfatizou que a autoridade na Igreja deve ser compreendida à luz da caridade de Cristo, configurando-se como verdadeira “diaconia”, isto é, serviço. Trata-se de uma missão que brota do amor e se orienta para a edificação da comunidade e a transmissão fiel da fé:

“Com o adjetivo ‘hierárquica’, portanto, o Concílio deseja indicar a origem sagrada do ministério apostólico na ação de Jesus, o Bom Pastor, bem como as suas relações internas.”

Ao concluir a catequese, Leão XIV convidou os fiéis a rezarem “para que o Senhor envie à Sua Igreja ministros ardentes de caridade evangélica, dedicados ao bem de todos os batizados, e missionários corajosos em todas as partes do mundo”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

terça-feira, 24 de março de 2026

DOCUMENTO: A força de Deus é a alegria do seu povo

O apóstolo João com a cabeça apoiada no braço de Jesus, Tilman Riemenschneider, detalhe do altar da Última Ceia, Sankt-Jacob, Rothenburg ob der Tauber (Alemanha) | 30Giorni.

DOCUMENTO

retirado do nº 06 – 2003, Revista 30Dias.

Rimini, Sábado Santo, 19 de abril de 2003

A força de Deus é a alegria do seu povo

Anotações do discurso de encerramento de Luigi Giussani no Tríduo Pascal da Juventude Estudantil.

Por Luigi Giussani

Agradeço -lhe, Padre Giorgio, por me conceder a palavra neste momento tão importante na vida de todos estes nossos amigos, jovens amigos, e pela resposta que os nossos corações, os corações de cada um de nós, se sentem compelidos a buscar, a oferecer num grande reavivamento da fraternidade universal.

Talvez aprendamos também, na nossa amizade, a dedicar tempo e profundidade à nossa relação com a Bíblia, o livro que o Senhor escolheu para ilustrar e iluminar o que a Bíblia anima e esclarece.

No início do livro, em que a Bíblia fala do profeta Abraão, que percebeu a imensidão do drama religioso deste povo consagrado pela grandeza de Deus, perceberemos — à medida que caminhamos página por página, uma página após a outra, caminhando de palavra em palavra, de pensamento em pensamento — tudo o que o Senhor quis dizer à humanidade, àqueles que o buscam, àqueles que escutam a sua voz, ao drama da humanidade.

A questão é muito simples: Deus responde às necessidades humanas demonstrando como a experiência humana é motivada, expandida, fortalecida e enriquecida, quanto mais se segue a palavra de Deus. Permiti-me convidá-los a compartilhar uma frase, um pensamento com o qual Deus faz o homem expressar, faz o homem relatar, tudo o que lhe interessa (a busca humana tem como "interesse" aquilo pelo qual vale a pena viver, caso contrário a existência humana seria sem sentido, e especialmente inútil falar de Deus): "O homem busca a felicidade", diz a Bíblia.

"O homem busca a felicidade", a realização de uma seriedade intensa e feliz. Qual é o método pelo qual Deus "busca" o homem, isto é, cria seres na história, introduzindo-os ao sentido de tudo? A partir do momento em que o Senhor nos toma pelos ombros e nos impulsiona para a frente, a partir desse momento não há mais nada que possa substituir o dom de Deus na vida.

Talvez fosse bom que vocês se dedicassem, e envolvessem seus sacerdotes ou outras pessoas maduras, mais adultas, para esclarecer as palavras e frases ditas e usadas por Deus. Por exemplo, você criará muita propaganda (como um grande clamor) ao tentar inventar respostas para suas necessidades, e descobrirá, em vez disso, que as respostas só podem ser encontradas se você apoiar sua cabeça nos ombros de Cristo.

A força humana está inteiramente concentrada na busca por satisfação, por felicidade. Ora, Deus não apenas existe nesses sentimentos, mas neles reside a Sua resposta, a Sua presença, aquela Presença pela qual se diz: "Assim seja!"

A força do Senhor é a nossa alegria. A fórmula com a qual os antigos profetas hebreus concentravam a atenção de todos os seus seguidores e conhecidos é, assim, restabelecida numa unidade de evidência, com a mesma força e clareza com que Dom Giorgio ainda hoje falava do nosso seguimento a Cristo: seguir a Cristo! Porque seguir a Cristo é possível e, inevitavelmente, necessário.

"A força de Deus é a alegria do seu povo." "A força de Deus é a força do seu povo." Estas são palavras que toda a nossa vida é chamada a compreender, a abraçar e a levar consigo onde quer que estejamos. Ajudemo-nos uns aos outros a levar juntos, ajudemo-nos uns aos outros a deixar que esta força de Deus, que é alegria para a humanidade, opere em conjunto: a força do Senhor é a alegria do seu povo.

Fonte: https://www.30giorni.it/index_l1.htm

Suplemento mensal do L'Osservatore Romano: quando a crise leva a Deus

Ingrid Bergman no filme "Europa '51'", com Giulietta Masina atrás  | Vatican News.

Na edição de julho do suplemento mensal do jornal vaticano "L’Osservatore Romano", intitulado “Donne Chiesa Mondo”, as histórias de mulheres entre cinema, fé e renascimento espiritual.

Tiziana M. Di Blasio*

Se o cinema, por sua natureza arte da visão, necessita, formalmente, de uma linguagem não verbal e, tematicamente, de uma dramaturgia que explora as fenomenologias da crise, tanto mais o cinema de autor as propõe com poéticas originais, entre pesquisa e mistério, na pluralidade dos gêneros: do drama à comédia, do musical à fantasia e na altura de intérpretes como Ingrid Bergman, Audrey Hepburn, Jennifer Jones, Sophia Loren, Anna Karina, Silvana Mangano, Vanessa Redgrave, Julie Andrews, Susan Sarandon e Meryl Streep.

E se o olhar sobre a crise incluiu também a esfera espiritual, isso se deve a teóricos que investigaram a presença/ausência de Deus e a autores que, de forma direta ou indireta, se não provocativa, irreverente quando não blasfema, elaboraram itinerários interiores de correspondência ou discrasia entre fé e heresia, vocação e rebelião, vida ativa e vida contemplativa. Da ascética classicidade de Robert Bresson em Les Anges du péché (1943) à provocação surreal de Luis Buñuel em Viridiana (1961), do conflito político-religioso de Jacques Rivette de la Suzanne Simonin a Religieuse de Diderot (1966) ao panfleto grotesco de Ken Russel em The Devils (1971), da ironia boccaccesca de Decameron (1971) de Pier Paolo Pasolini, retomada pelos irmãos Taviani em Maraviglioso Boccaccio (2015), até as sugestões do olhar feminino de Márta Mészáros, Margarethe von Trotta, Liliana Cavani, Anne Fontaine, Margaret Betts e Maura Delpero.

Nessa casuística variada, um bom ponto de partida para a reflexão pode ser a leitura da crise proposta em Europa '51, de Roberto Rossellini (1952), inspirada em Simone Weil, Herbert Marcuse e em um fato noticioso.

A protagonista, Irene (Ingrid Bergman), uma mulher da alta burguesia, está perturbada, na vacuidade de sua existência, pela morte de seu filho, que se suicidou por carência afetiva. Diante de um vazio insuperável, ela se questiona, em um caminho de ascetismo, sobre o sentido último de sua dor e, ao fazer isso, cai no “pecado mortal” do não conformismo, não se adaptando à insinceridade programática das instituições totais. Nem os familiares, nem o primo marxista, nem o padre, nem o juiz, nem o psiquiatra, expoentes da ordem estabelecida, conseguirão compreender a elaboração da dor de Irene, sua distopia e as consequentes escolhas radicais, suportando a nudez de que fala Weil em seus Cadernos. Internada em uma clínica psiquiátrica, ela será considerada santa por aqueles que amou de forma desinteressada e não convencional.

Com surpreendente atualidade, Rossellini, antecipando as temáticas das periferias e dos últimos, encena o cuidado de Irene com os deserdados que vivem à margem e a dura vida dos operários na fábrica. Com um “documentário sobre o rosto”, o autor narra um doloroso itinerário existencial no final do qual emergem a loucura e a marginalização, mas também a esperança e a força moral em um processo de purificação através do sofrimento. A enunciação rosselliniana, dessa forma, revela que cada gesto de amor é uma experiência do divino e uma busca do Absoluto.

A evocação claustral, induzida pela sequência final da grade, confirma o que Irene havia declarado ao juiz que a pressionava sobre o sentido de suas reais intenções: «... quero compartilhar a alegria de quem é feliz, a dor de todos aqueles que sofrem, a angústia de quem se desespera. Prefiro me perder com os outros do que me salvar sozinha. Somente quem é completamente livre pode se confundir com todos, somente quem não está ligado a nada está ligado a todos os seres humanos”.

Na sequência final em aberto, a protagonista, através do olhar “para a câmera”, interpela diretamente o espectador. Das imagens, purificadas com exceção do rosto, filtra-se, no espaço deixado vazio pelos corpos, a ideia do transcendente.

O recurso à representação do rosto entendido não como objeto parcial, mas como abstração de qualquer coordenada espaço-temporal é retomado pela estilização pessoal de Alain Cavalier em Thérèse (1986), interpretado por Catherine Mouchet. Com sua releitura da figura histórica de Santa Teresa do Menino Jesus, entramos no coração do claustrum, onde a essencialidade do rosto funciona também aqui como chave hermenêutica, um vis-à-vis com Thérèse, em uma narrativa sem hiato entre leveza e profundidade, vida e morte. O resultado desse processo, que apela a um marcado virtuosismo iconográfico, não é um retrato apologético/hagiográfico, mas o de uma adolescente com um objetivo preciso e definitivo: tornar-se santa.

A novidade consiste em um itinerário de ascetismo estilístico análogo ao espiritual da protagonista e, em coerência com essa escolha, o claustrum funciona como espaço/tempo para uma reflexão sobre a vocação, deixando falar mais os vazios do que os cheios, mais a rarefação do que a condensação, mais os silêncios do que os sons.

A dramaturgia do lugar fechado também cativa um autor como Michelangelo Antonioni, aparentemente distante de temas espirituais, mas extremamente sensível ao vazio existencial e à ausência de sentido.

É o próprio diretor que revela seu fascínio depois de ler o diário da freira de clausura Catherine Thomas, intitulado My Beloved. The Story of a Carmelite Nun (Meu Amado. A história de uma freira carmelita). Embora confesse seu desinteresse pelo ascetismo, mas consciente de que a razão não é capaz de explicar a clausura, Antonioni afirma: « Que resposta podem dar essas freiras se escolheram por disciplina não dar resposta? A dificuldade de compreender a vida delas não depende nem do rigor da Regra nem da maneira como a aplicam. Depende de nós, que não buscamos uma pausa para refletir sobre o mistério da experiência delas» e cita Santa Teresa de Ávila: «Sofrer ou morrer, eis quais devem ser os nossos desejos».

Das três primeiras páginas do diário, o diretor extrai, no final dos anos 70, o tema Sofrer ou morrer, que o leva a visitar 14 mosteiros de clausura e a estabelecer relações epistolares com algumas freiras. A uma delas, Antonioni faz uma pergunta indiscreta: “e se eu me apaixonasse por você?”, à qual segue uma resposta fulminante: “seria como acender uma vela em uma sala cheia de luz”. O longa-metragem não será realizado, mas o tema e o diálogo serão retomados em Além das nuvens (1995), destilando-os no episódio intitulado Este corpo de lama, onde uma garota (Irène Jacob) aceita fazer um trecho da estrada, na cidade das cem fontes, Aix-en-Provence, onde a água das fontes e da chuva evoca a regeneração, com um desconhecido (Vincent Pérez) que se informa sobre sua vida, fascinado por sua misteriosa serenidade. A câmera segue esses seguimentos desde a igreja até a porta de casa quando, ao pedido de poder vê-la novamente, a garota responde rapidamente: “amanhã entro no convento”.

A partir da consciência de uma vocação correspondida, com Sangue do meu sangue, de Marco Bellocchio (2015), evolução de um curta-metragem anterior, La monaca (2010), aborda-se, ainda que tangencialmente, o tema oposto das monacaciones forçadas no século XVII, ligado ao instituto do mayorasco, que previa a herança exclusiva do primogênito, violando a liberdade de escolha individual, e ao instituto do fedecommesso. Fenômeno difundido, embora o Concílio de Trento, no Decretum de regularibus et monialibus (1563), declarasse anátema contra quem violasse a livre vontade, mesmo através da coação de natureza psicológica.

Existe uma vasta literatura sobre o drama na história do gênero, inclusive com adaptações cinematográficas que narraram a vida do claustro, para algumas mulheres um lugar de autoafirmação, para outras uma morada forçada, dando origem também a um subgênero particular, o nunsploitation, que insistiu, muitas vezes com complacência mórbida, na sexualidade, na tortura e nas possessões.

De caráter bem diferente e ambientado em épocas diferentes, o filme de Bellocchio narra a história de uma freira “forçada”, Benedetta (Lidiya Liberman), que seduz o confessor Fabrizio (Pier Giorgio Bellocchio), levando-o ao suicídio. O irmão gêmeo Federico, um homem de armas, tenta, sem sucesso, convencê-la a confessar que é uma bruxa e, no entanto, a mulher será emparedada em uma minúscula cela com uma fresta.

Filmado em Bobbio, na província de Piacenza, na prisão construída em uma ala da abadia de San Colombano, como uma história de espaços interconectados textual e metalinguisticamente, o filme recorre a uma série de elementos que representam a mentalidade de uma época impregnada de práticas mágicas e ascéticas-disciplinares.

Ele começa, de fato, com uma porta fechada, elemento que conecta figurativamente, entre ocultações e revelações, épocas diferentes como o “cosmo do entreaberto”, segundo a concepção de Gaston Bachelard, que fecha/abre topografias interiores.

A metáfora da dualidade interno/externo, luz/sombra encontra seu ápice, finalmente, na alvenaria/desalvenaria da cela, na força imaginativa de uma libertação, não apenas material, no voltar à luz. Vemos, de fato, o levantar-se de Benedetta, na nudez de um corpo incorrupto após uma purificação/descarnação angustiante, como uma espécie de anástasis, ressurreição daquele eterno feminino, memória e alma do tempo.

*Historiadora, ex-professora do curso de “Teoria e História do Cinema” da Pontifícia Universidade Gregoriana

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF