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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero
sábado, 10 de janeiro de 2026
Tente outra vez
Tente outra vez
Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.
O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.
Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.
Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.
Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.
A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.
Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.
Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez!
Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história.
Fonte: https://www.cnbb.org.br/
Tente outra vez
Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.
O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.
Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.
Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.
Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.
A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.
Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.
Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez!
Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história.
Fonte: https://www.cnbb.org.br/
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Você sabia que São José também teve uma anunciação?
Valdemar
De Vaux - publicado em 01/01/26
A liturgia inclui o anúncio feito a José do nascimento de Jesus. Uma Anunciação paralela à da Virgem Maria que mostra como Deus coopera com o homem.
Anunciação é sinônimo da Virgem Maria. A Igreja usa este
termo, cunhado com este propósito, para se referir ao evento bíblico (cf. Lucas
1,26-38 ) em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que será a mãe do
Salvador, ao que a jovem de Nazaré responde com o famoso "fiat":
"Assim seja". Mas este relato, que só se encontra no terceiro
Evangelho, o de Lucas, encontra um paralelo em Mateus, que alguns chamam de
"Anunciação a José", nos versículos 18 a 26 de seu primeiro capítulo.
Esta passagem é lida na missa de 18 de dezembro de cada ano,
como preparação para a solenidade da Natividade do Senhor.
O Papa João Paulo II, em sua exortação apostólica Redemptoris Custos sobre o marido de Maria,
publicada em 1989, fala de uma estreita analogia (§3) entre os dois relatos
evangélicos:
"'O mensageiro divino introduz José no mistério da
maternidade de Maria'. Assim como a mãe de Jesus, um anjo se aproxima do justo
quando ele decide repudiar secretamente Maria porque ela está grávida. Esta é
uma forma de respeitar a lei, mas também a reputação de Maria.
'Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe
disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria como sua esposa,
porque o que nela é gerado vem do Espírito Santo. Ele dará à luz um filho, e
você o chamará de Jesus (que significa: O Senhor salva), porque ele salvará seu
povo de seus pecados'" (Mt
20-21).
A irrupção da graça
Assim como a Virgem Maria, José experimenta assim a irrupção
da graça em sua vida. Embora seu plano esteja completo, o homem de Nazaré
permite que Deus o perturbe. Por sua determinação de seguir a vontade do Pai,
ele deposita sua fé no cumprimento das promessas recebidas de seus ancestrais,
listadas anteriormente em uma genealogia bastante tediosa: "Ao despertar
José, ele fez o que o anjo do Senhor lhe havia ordenado" (v. 24).
João Paulo II pode então dizer que José "manifesta assim uma disposição de
vontade semelhante à de Maria a respeito do que Deus lhe pediu através de seu
mensageiro".
Mais amplamente, explica a biblista Agnès de Lamarzelle em um artigo
na Nouvelle Revue théologique, há em ambos os textos, o de Lucas e
o de Mateus, as diferentes características do "gênero literário das
anunciações" relativamente comum no universo bíblico: uma situação
bloqueada de uma perspectiva humana, uma intervenção divina - perturbadora na
maioria das vezes -, a revelação do plano divino, a objeção e o sinal humano, e
o cumprimento pela obediência do servo de Deus que recebe o anúncio.
Ao destacar José, o evangelista Mateus permite que o leitor
veja a vinda do Salvador de uma nova perspectiva, identifique-se com o justo e
entenda melhor como Deus age neste mundo. Não pela onipotência, exceto talvez
pelo poder do amor, mas pela cooperação da graça, que é a primeira, e da
vontade humana. Enquanto o próprio Jesus está prestes a nascer, um sinal
preeminente da presença do Pai em nossas vidas, como podemos participar cada
um, à nossa maneira, no desenvolvimento do plano de Deus para a humanidade?
EXEGESE: História e mistério
EXEGESE
Arquivo 30Dias nº 01 - 1998
História e mistério
Por Ignace de la Potterie
História e Mistério é o título do livro que acompanha a última edição da 30Giorni . Trata-se de uma coletânea das principais contribuições que publiquei nesta revista mensal desde 1992. Na introdução, mencionei que queria explicar o que é exegese cristã. Mas por que esse título aparentemente dialético , História e Mistério?
Um princípio hermenêutico de São Gregório Magno
Segundo Gregório, o exegeta cristão, ao ler a Bíblia,
ascende da história ao mistério, " ab historia in mysterium
surgit " ( Homilia sobre Ezequiel I, 6, 3). Gregório
explica: "Quanto mais cada santo progride na Sagrada Escritura, mais essa
mesma Sagrada Escritura progride nele [...], porque as palavras divinas crescem com
aquele que as lê" (I, 7, 8). Esse princípio de leitura das Escrituras foi
inspirado em Gregório por sua visão inicial do livro de Ezequiel, sobre o qual
ele estava comentando.
O profeta, em sua visão, viu uma "carruagem"
puxada por "quatro seres viventes". As rodas da carruagem giraram, e
Gregório reflete sobre estas palavras do texto: " Spiritus vitae
erat in rotis " ( Ezequiel 1:20). Eis o
comentário: o fato de o espírito estar nas rodas da carruagem é um símbolo da
Escritura na qual o Espírito está presente. O texto bíblico é como uma roda
giratória: sobe, depois desce, mas apenas para subir novamente. O texto,
portanto, cresce (sobe), "cresce com quem o lê".
E a razão, explica Gregório, é que a Sagrada Escritura,
"ao propor o texto, revela o mistério" (" dum narrat
textum prodit mysterium ") e, assim, consegue narrar o passado
"de modo a também predizer o futuro". Esta forma de ler as
Escrituras era muito difundida na tradição patrística e medieval, e foi
recentemente estudada com grande erudição por Pier Cesare Bori em L'interpretazione
infinita. Ancient Christian hermeneutics and its transformations (Bolonha,
Il Mulino, 1987).
Vejamos um caso concreto dessa exegese. Gregório comenta o
episódio bíblico dos dois filhos de Isaac, isto é, Esaú e Jacó ( Gênesis
1:10) . (27:3-8). Jacó era o segundo filho, mas havia comprado o direito de
primogenitura de seu irmão com um prato de lentilhas. Isaac estava cego, e sua
esposa arquitetou um truque para enganá-lo: vestiu Jacó com uma pele de cabra
para que o marido o confundisse com Esaú, que tinha mais pelos. Lembro-me de
que, em Lovaina, nosso professor, comentando essa passagem, disse: "Não é
uma mentira, mas um mistério", o que parecia significar que tal episódio
permanecia incompreensível para ele.
Na realidade, porém, era inquestionavelmente uma mentira, um
engano. Mas como São Gregório explica isso? Precisamente para este caso, ele
nos pede que "ascendamos da história ao mistério", recorrendo a uma
leitura alegórica da passagem, ao seu significado espiritual. A partir desse
episódio, diz Gregório, revela-se a importância do direito de primogenitura na
história da salvação. O velho Isaac não pode dar a bênção ao verdadeiro
primogênito, Esaú, que havia ido caçar e representa o povo judeu. A bênção é dada
a Jacó, o segundo filho, que aparece sob a forma de seu irmão mais velho: é,
portanto, ele quem recebe a bênção em seu lugar, mas Jacó representa os pagãos.
O significado é, portanto, que os pagãos devem participar
das bênçãos destinadas a Israel. Assim, entende-se que, com essas bênçãos
recebidas, Jacó receberá o nome de Israel ( Gênesis 35:10). Os
pagãos devem participar das bênçãos prometidas ao povo escolhido. O horizonte,
portanto, se expandiu imensamente.
A transição "da história para o mistério" não se
dá apenas para eventos históricos, como neste caso. Ela também se dá, e
repetidamente, para termos usados na
tradição cristã, mas que
vieram do paganismo. No suplemento da revista, demos um exemplo típico: o termo Theotokos ,
um título dado pelos cristãos a Maria no século II (por volta de 180), era
usado no mundo helenístico para a deusa da fertilidade, Cibele (a mãe dos
deuses).
O primeiro a aplicá-lo à mãe de Jesus foi Orígenes, causando
assim um verdadeiro escândalo entre os cristãos. Mas, posteriormente, os Padres
da Igreja o utilizaram regularmente, purificando-o de suas conotações pagãs.
Assim, no Terceiro Concílio Ecumênico (o de Éfeso, em 431), apesar da recusa de
Nestório, que não queria ouvir falar do termo Theotokos , o
significado desse título foi proclamado como dogma: Maria, a mãe de Jesus, é
verdadeiramente a Mãe de Deus.
História e mistério: ambos necessários para a fé
A importância da história no cristianismo é inegável. Lutero
já havia enfatizado isso claramente. Certa vez, perguntaram-lhe: " Quid
est interpretatio? ", "O que significa interpretar?"
(Era, naturalmente, a Bíblia.) Ele respondeu: "
«Qui non intelligit rem non potest ex verbis sensum
elicere », «Aquele que não compreende o evento é
incapaz, quando confrontado com o texto , de compreender o seu significado ».
Este princípio de Lutero teve grande ressonância na hermenêutica contemporânea
(cf. Hans Georg Gadamer, Paul Ricoeur). Deve-se notar que, no texto de Lutero,
propõe-se uma espécie de relação triangular entre o evento
histórico , o texto que o narra e o significado que
se busca. De fato, é preciso perguntar onde reside o significado :
no evento ou no texto ? Ou talvez em ambos?
Mas, então, qual é a relação entre o evento e o texto? Qual dos dois tem
prioridade?
Ao colocarmos toda a ênfase no texto, corremos o risco de
transformá-lo em uma mera criação literária, um “teologumenon”; se, em vez
disso, dermos toda a prioridade à história, ficamos expostos ao historicismo ou
ao fundamentalismo. O mérito de Lutero (a ser enfatizado hoje, seguindo
Bultmann) reside em ter insistido na importância da história para a
interpretação. No entanto, faltava-lhe um elemento essencial: ele não levou em
conta o fato de que entre o texto e nós (que buscamos o significado )
existe uma longa distância, a saber, a tradição que transmite e atualiza o
texto para chegarmos ao sentido. Lutero permaneceu fechado na sola
Scriptura ; aqui vemos, com o ensinamento católico, a importância da
tradição para a busca do significado.
A necessidade da história para a interpretação das
Escrituras também foi sublinhada pelo Padre Henri de Lubac, mas em conexão com
a obra do Espírito. Isso também é essencial para a passagem da história ao
mistério. Recordemos as principais obras de Henri de Lubac sobre este problema:
o livro sobre Orígenes intitulado precisamente História e Espírito ;
e o livro sobre Orígenes intitulado Umatika Historikôs .
Problemas de hoje
Segundo um artigo de Charles Kannengiesser citado no volume
(pp. 17-20), a exegese dos Padres (lembremos que começamos com Gregório Magno)
não seria mais praticável hoje porque estamos sujeitos aos ditames do
Iluminismo. Kant, de fato, havia indicado o princípio fundamental em A
Religião Dentro dos Limites da Razão : "Uma fé histórica fundada
simplesmente em fatos não pode estender sua influência além dos limites de
tempo e lugar aos quais a informação que permite um juízo de credibilidade pode
chegar" (Bari, Laterza, 1980, p. 110). A transição de um fato histórico
particular (necessariamente coincidente) para uma verdade necessária da razão
seria, portanto, ilegítima.
Para responder a este desafio do racionalismo, recordemos
alguns textos fundamentais de São João. Ele cita dois textos essenciais sobre a
verdade, um referente a Jesus: "Eu sou a verdade" ( Jo 14,6);
o outro referente ao Espírito: "O Espírito é a verdade" ( 1
Jo 5,6). Quem ousaria, na linha do kantismo, afirmar que estamos
lidando aqui com uma "verdade necessária da razão"?
Para Jesus, que foi sem dúvida um homem concreto da
história, sua vinda é mencionada como um evento: "A graça da verdade veio por
meio de Jesus Cristo" ( Jo 1,17). A verdade de Jesus foi,
portanto, um "evento", não uma verdade "puramente
fortuita", mas uma verdade que "permanece entre nós" ( 2
Jo 2); a verdade de Jesus foi, de fato, um evento histórico,
mas um evento revelatório : o homem Jesus revelou-se
como o Filho de Deus e, portanto, no Filho o Pai revelou-se (cf. Jo 14,9).
Mas a crise provocada pelo racionalismo parece agora ter
sido superada na filosofia contemporânea. É significativo (ver pp. 157-162 do
livro) que vários filósofos contemporâneos pareçam ter redescoberto a noção
joanina de verdade. Um deles, Bernard Ronze, publicou recentemente um
livro, L'essence du christianisme (Paris, 1996) (A Essência do
Cristianismo), que começa com esta frase decisiva: "A noção de evento aparece
como fundamental nos Evangelhos e nos escritos apostólicos" (p. 17).
Todos os leitores da 30Giorni sabem o quão
fundamental é a noção de "evento" no pensamento e nos escritos de
Monsenhor Luigi Giussani: devemos redescobrir "a maravilha do evento de
Cristo". Essa redescoberta do evento de Cristo, com a ajuda do Evangelho
de João, também nos ajudará a redescobrir a passagem "da história para o
mistério".
Hoje a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
Por Redação central
1 de jan de 2026 às 00:01
A solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Theotokos) é a
mais antiga que se conhece no Ocidente. Nas Catacumbas ou antiquíssimos
subterrâneos de Roma, onde se reuniam os primeiros cristãos para celebrar a
Santa Missa, encontram-se pinturas com esta inscrição.
Segundo um antigo testemunho escrito no século III, os
cristãos do Egito se dirigiam a Maria com a seguinte oração: “Sob seu amparo
nos acolhemos, Santa Mãe de Deus: não desprezeis a oração de seus filhos
necessitados; livra-nos de todo perigo, oh sempre Virgem gloriosa e bendita”
(Liturgia das Horas).
No século IV, o termo Theotokos era usado frequentemente no
Oriente e Ocidente porque já fazia parte do patrimônio da fé da Igreja.
Entretanto, no século V, o herege Nestório se atreveu a
dizer que Maria não era Mãe de Deus, afirmando: “Então Deus tem uma mãe? Pois
então não condenemos a mitologia grega, que atribui uma mãe aos deuses”.
Nestório havia caído em um engano devido a sua dificuldade
para admitir a unidade da pessoa de Cristo e sua interpretação errônea da
distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes Nele.
Os bispos, por sua parte, reunidos no Concílio de Éfeso (ano
431), afirmaram a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única
pessoa do Filho. Por sua vez, declararam: “A Virgem Maria sim é Mãe de Deus
porque seu Filho, Cristo, é Deus”.
Logo, acompanhados pelo povo e levando tochas acesas,
fizeram uma grande procissão cantando: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós
pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém”.
São João Paulo II, em novembro de 1996, refletiu sobre as
objeções expostas por Nestório para que se compreenda melhor o título “Maria,
Mãe de Deus”.
“A expressão Theotokos, que literalmente significa ‘aquela
que gerou Deus’, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com
efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A
resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a
geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina”,
disse o papa.
“O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e
é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente,
nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa
natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria”, acrescentou.
Do mesmo modo, afirmou que a maternidade da Maria “não se
refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao
encarnar-se, assumiu dela a natureza humana”. Além disso, “uma mãe não é Mãe
apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela
gera”, disse são João Paulo II.
Por fim, é importante recordar que Maria não é só Mãe de
Deus, mas também nossa porque assim quis Jesus Cristo na cruz, quando a confiou
a São João. Por isso, ao começar o novo ano, peçamos a Maria que nos ajude a
ser cada vez mais como seu Filho e iniciemos o ano saudando a Virgem Maria.
Saudação à Mãe de Deus
Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu santíssimo
e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside toda a plenitude
da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor! Salve,
ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes
derramadas, pela graça e iluminação
do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis
transformando-os de infiéis
em servos fiéis de Deus!
Leão XIV: inauguremos uma era de paz e amizade entre todos os povos
No Angelus da Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, o
Papa convida a começar o novo ano com um coração convertido, capaz de
transformar o mal em bem, o sofrimento em consolação e os conflitos em caminhos
de reconciliação. Na 59ª Jornada Mundial da Paz, Leão XIV exorta à oração pelas
nações feridas pela guerra e pelas famílias marcadas pela violência.
Thulio Fonseca – Vatican News
“Queridos irmãos e irmãs,
feliz ano novo!”
Após celebrar a Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus,
o Papa Leão XIV rezou o Angelus com os fiéis reunidos na Praça São Pedro, na
manhã desta quinta-feira (01/01). No primeiro Angelus do ano, que coincide com
a 59ª Jornada Mundial da Paz, o Pontífice dirigiu uma forte exortação à
humanidade para renovar o tempo presente, abrindo-o à esperança, à
reconciliação e à paz:
“À medida que o ritmo dos meses se repete, o Senhor
convida-nos a renovar o nosso tempo, inaugurando por fim uma era de paz e
amizade entre todos os povos. Sem este desejo de bem, não faria sentido virar
as páginas do calendário nem preencher as nossas agendas.”
O Jubileu e o “estilo” de Deus
Recordando o Jubileu que está prestes a se concluir, Leão
XIV destacou o legado espiritual deixado pelo Ano Santo, que ensinou a cultivar
a esperança concreta de um mundo novo. Um caminho que passa pela conversão do
coração e pela transformação interior:
“O Jubileu, que está prestes a terminar, ensinou-nos como
cultivar a esperança de um mundo novo: convertendo o coração a Deus, de modo a
transformar os erros em perdão, a dor em consolação, os propósitos de virtude
em boas obras.”
Esse dinamismo, explicou o Papa, revela o próprio modo de
agir de Deus na história, um “estilo” marcado pela misericórdia e pela
proximidade. É assim que Deus salva o mundo do esquecimento, oferecendo-lhe o
Redentor, Jesus Cristo, o Filho Unigênito que se faz nosso irmão e ilumina as
consciências de boa vontade, para que o futuro seja construído como uma casa
acolhedora para todos.
O coração de Cristo não é indiferente
Na contemplação do mistério do Natal, o Papa convidou os
fiéis a dirigir o olhar para Maria, a primeira a sentir bater o coração de
Cristo. No silêncio do seu ventre virginal, o Verbo da vida manifesta-se como
um pulsar de graça, revelando o amor de Deus pela humanidade. “Por isso, o
coração de Jesus bate por cada homem e cada mulher: por quem está preparado
para o acolher, como os pastores, e por quem não o deseja, como Herodes.” Um
coração que não permanece indiferente, mas pulsa pelos justos, para que perseverem
no bem, e pelos injustos, para que mudem de vida e encontrem a paz:
“O Salvador vem ao mundo
nascendo de uma mulher: paremos para adorar este acontecimento, que resplandece
em Maria Santíssima e se reflete em cada nascituro, revelando a imagem divina
impressa no nosso corpo.”
Um apelo à paz nas nações e nas famílias
Por fim, Leão XIV renovou o apelo à oração pela paz,
ampliando o horizonte do olhar cristão para as feridas do mundo e da vida
cotidiana:
“Neste Dia, rezemos todos juntos pela paz. Antes de tudo,
pela paz entre as nações ensanguentadas por conflitos e miséria, mas também
pela paz nos nossos lares, nas famílias feridas pela violência e pela dor.
Certos de que Cristo, nossa esperança, é o sol da justiça que jamais se põe,
peçamos com confiança a intercessão de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja.”
Rejeitar toda forma de violência
Após a oração mariana, o Papa saudou com afeto os cerca de
40 mil fiéis reunidos na Praça de São Pedro e recordou que, desde 1º de janeiro
de 1968, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Leão XIV destacou a mensagem que
proferiu ao ser eleito: “A paz esteja com todos vocês”, definindo-a como uma
paz desarmada e desarmante, dom de Deus e fruto de seu amor incondicional,
confiado à responsabilidade de cada pessoa. Convidou os cristãos a iniciarem o
novo ano construindo a paz, desarmando os corações e rejeitando toda forma de
violência, e manifestou apreço pelas inúmeras iniciativas de promoção da paz
realizadas em todo o mundo.
Na conclusão, ao recordar o oitavo centenário da morte de
São Francisco, o Santo Padre concedeu a todos a bênção bíblica: “O Senhor
te abençoe e te guarde; mostre a ti o seu rosto e tenha misericórdia de ti;
volte para ti o seu olhar e te dê a paz”, e pediu a intercessão da Santa Mãe de
Deus para que acompanhe o caminho do novo ano.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Normal, discreto e divino
Normal, discreto e divino
Alguns conterrâneos de Jesus não acreditaram em que o poder
de Deus pudesse manifestar-se em alguém “tão normal”. O Senhor quer continuar
nos encontrando na vida cotidiana através das práticas simples de piedade que
procuramos viver.
22/02/2021
Estamos em um sábado. Jesus está na sinagoga de Nazaré. Vêm
à sua mente, talvez, muitas recordações familiares da sua infância e juventude.
Quantas vezes terá ouvido lá a palavra de Deus! Os seus compatriotas, que o
conhecem há muito tempo, foram recebendo várias notícias sobre os milagres que
fez em cidades vizinhas. E isto tem um efeito estranho: a familiaridade com
Jesus converte-se num obstáculo para eles. “Donde lhe vem essa sabedoria e essa
força miraculosa? Não é ele o filho do carpinteiro? ” (Mt 13, 54-55),
perguntam-se. Surpreende-os o fato de que a salvação possa vir de alguém que
viram crescer dia a dia. Não acreditam que o Messias possa ter vivido entre
eles de modo tão discreto e despercebido.
Como os conterrâneos de Jesus
Os habitantes de Nazaré pensam conhecer bem a Jesus. Tem
certeza de que as coisas que se contam dele não podem ser verdade. “Não é Maria
sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem
todas entre nós? De onde lhe vem pois tudo isto? ” (Mt 13, 56). Em um povoado
onde não se faz imagens de Deus e onde nem sequer se pronuncia seu nome, um de
seus conterrâneos afirma que ele é o Messias... impossível. E mais, conhecem
sua origem, conhecem seus pais, conhecem sua casa: “Era uma família simples,
próxima de todos, integrada normalmente no povoado”[1].
Não entendem como alguém tão igual a eles possa fazer milagres. “A vida normal
de Jesus, o operário provinciano, não parece esconder qualquer mistério; a sua
proveniência revela-O como um igual a todos os outros”[2].
O filho de Deus trabalhava com José em sua oficina; “a maior parte de sua vida
foi consagrada a essa tarefa, numa existência simples que não despertava
nenhuma admiração”[3].
Por que a normalidade da vida de Jesus constituía um motivo para não acreditar
em sua divindade?
Embora possa aparecer algo alheio a nós, reservado a aqueles
que conviveram com Cristo, na verdade nós também suspeitamos muitas vezes da
normalidade. O que é especial, chamativo, extraordinário é que nos atrai; o que
quebra o ritmo encanta-nos. Costuma acontecer que nossa capacidade de
assombrar-nos adormece, que naturalmente acontecem muitas coisas, que nos
fechamos em certas rotinas, passando por alto os milagres que se dão atrás da
normalidade. Sem ir mais longe acostumamo-nos muitas vezes inclusive ao maior
de todos eles, à presença do Filho de Deus na Eucaristia. O mesmo, porém, pode
acontecer com nosso encontro pessoal com Cristo na oração, com essa serenata de
jaculatórias à Virgem que é a recitação do santo rosário ou com os momentos em
que queremos preencher nossa mente e nossos afetos com a doutrina cristã
através da leitura espiritual. Habituamo-nos talvez a ter tão à mão nosso
criador. O dispensador de todas as graças, o amor que satisfaz qualquer desejo,
está encerrado numa infinidade de sacrários espalhados por todo o globo. Deus
quis tornar presente toda sua onipotência nos espaços que a normalidade lhe
oferece. É dali que ele atua. Assim, muitas vezes sem brilho, surgem
inumeráveis milagres à nossa volta.
Nos bastidores do cotidiano
Essa normalidade de Deus pode desconcertar-nos porque a
contrapomos a uma espontaneidade que talvez julguemos elemento essencial de uma
relação. O que é normal pode parecer muito previsível porque nele falta
aparentemente a criatividade, o fator surpresa, a paixão do amor verdadeiro.
Achamos talvez falta de algo distintivo que faça de nossa relação com Deus uma
aventura inigualável, única e irrepetível, um testemunho espetacular que possa
inclusive mexer com outras pessoas. Podemos pensar que a normalidade uniformiza
e desperdiça a contribuição que cada um pode dar. É verdade que, diante do que
é sempre igual a reação compreensível é o habituar-se.
Sabemos, no entanto, que Deus convida-nos a encontrá-lo no
que é mais comum, nas coisas de cada dia. Assim é também o amor humano, que
cresce e se torna mais profundo não só se valendo de grandes momentos especiais
e sim nesses silêncios, cansaços e incompreensões dos dias compartilhados;
simplesmente estando juntos. “Há algo de santo, de divino,
escondido nas situações mais comuns”[4] que
gostaríamos de descobrir. Acontece que, embora nossa relação com Deus aconteça
no meio da normalidade, a processão se dá interiormente. Seu
amor apaixonado pode mover-se bem comodamente entre os bastidores da
normalidade, no hoje sem espetáculo, sem fogos de artifício mas como brasas
ardentes. A razão é que nós sabemos que estamos sendo olhados a cada momento, e
com um carinho novo. Não importa a Deus o quão normal seja minha vida: é minha
e isso lhe basta. Deus, de fato, oferece-nos a oportunidade de fazer de nossa
vida algo excepcionalmente singular e especial; ele só sabe contar de um em um.
Nunca faz comparações entre seus filhos. Chamou a cada um antes da criação do
mundo (cfr. Ef 1,4): não existe ninguém igual a mim e, por isso, sou inimitável
e absolutamente amável para Deus.
Os mimos parecem monótonos
Esse espaço de normalidade no qual o Senhor atua torna
possível que nossa vida esteja, como diz São Paulo, “escondida com Cristo em
Deus” (Col 3,3); cheia de dias iguais em que aparentemente não acontece nada e,
no entanto, está acontecendo o mais inaudito. “Nesta constância para continuar
em frente dia a dia, vejo a santidade da Igreja militante. Essa é muitas vezes
a santidade ‘da porta do lado’”[5].
Poderia parecer de fora, que a monotonia tomou conta de quem procura viver essa
santidade nas coisas normais. Para desmascarar essa visão superficial, no
entanto, São Josemaria comparava os pequenos e constantes costumes de piedade
dessa alma com os mimos que uma mãe tem com seu filho pequeno: “Plano de vida:
monotonia? Os mimos de uma mãe, monótonos? Não dizem sempre a mesma coisa os
que se amam?”[6].
Ao mesmo tempo, Deus está concentrado em nós e não deixa de pensar em nós nem
de amar-nos em nenhum instante; não importa quão normal seja nossa vida, e sim
que seja tão excepcional para ele.
São Bernardo de Claraval escrevia ao Papa Eugênio III,
grande amigo seu que foi beatificado depois, para animá-lo a não descuidar a
vida de oração constante e evitar assim ser absorvido pelas atividades de seu
novo ministério: “Afasta-te das ocupações pelo menos durante algum tempo.
Qualquer coisa menos permitir que elas te arrastem e te levem aonde não queres.
Queres saber aonde? À dureza do coração”[7].
Sem algumas práticas de piedade concretas, diárias, o coração corre o perigo de
fechar-se ao amor de Deus e tornar-se duro. Sem o seu carinho, até o mais santo
pode perder o rumo. Sem Ele ao nosso lado, ficamos logo sem forças.
Em maio de 1936, São Josemaria estava dando uma palestra e
propôs aos que escutavam que pedissem a “graça para cumprir o meu plano de vida
de tal modo que aproveite bem o tempo. Por que me deito e levanto fora de
horas?”[8].
E podemos perguntar: o que tem a ver o amor de Deus com a hora de ir descansar?
Essa é a maravilha da normalidade de Deus. Importa-lhe, e muito, nosso sono,
nossa saúde, nossos planos. E, sobretudo, não quer que fiquemos inquietos no
fim do dia para tentar fazer mais coisas do que já foi feito, porque quem atua
é sempre Deus.
Para garantir nossa liberdade
Ao começar seu pontificado, Bento XVI alertava contra um
perigo constante e que talvez estivesse presente naquela sinagoga de Nazaré que
mencionamos no começo: “O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído
pela impaciência dos homens”[9].
A normalidade parece-nos sempre excessivamente lenta, talvez pensemos que chega
tarde. Desejamos que as coisas boas e santas se realizem o quanto antes. Às
vezes é difícil entender porque o bem tarda tanto a chegar, porque o Messias
demora tanto tempo que inclusive “começa por estar nove meses no seio de sua
mãe, como todo homem, com uma naturalidade extrema”[10].
Na realidade, com essa forma de aparecer, talvez o que Deus
busque seja garantir a liberdade dos homens, estar seguro de que nós também
queremos estar com ele, ora rezando alguns minutos, interrompendo nossas
atividades para dedicar algumas palavras a Maria ou fazer qualquer outra coisa.
Se Deus se manifestasse de modo diferente, nossa resposta teria que ser
indiscutível. Por isso vemos que Jesus parece feliz passando despercebido nas
cenas do evangelho. Os magos, por exemplo, devem ter ficado surpreendidos ao
ver o rei dos judeus nos braços de uma mulher jovem, num lugar tão simples.
Deus não quer subjugar os homens. A personalidade de seu Filho é tão atraente
que Deus escolheu manifestar-se na normalidade para dar-nos um espaço de
liberdade. Quer filhos livres, não deslumbrados. Sabe que nada nos estimula
tanto como descobrir pessoalmente um tesouro escondido. Agradecer e desfrutar
dessa liberdade - com todas as suas luzes e suas sombras - ajuda-nos a
compartilhar sua paciência diante de tantas coisas que, à primeira vista, podem
parecer um obstáculo para a redenção e constituem, no entanto, o caminho normal
através do qual Deus se manifesta.
Por isso mesmo, seus mandamentos e suas normas são também um
dom e um convite. Pode-se resumir esta realidade recorrendo a dois dos maiores
pensadores da tradição cristã: “Continuando por esta linha, São Tomás de Aquino
pôde dizer: ‘A nova Lei é a graça do Espírito Santo’; não uma norma nova, mas a
interioridade nova dada pelo próprio Espírito de Deus. No fim, essa experiência
espiritual da verdadeira novidade no cristianismo foi resumida por Agostinho
nesta famosa fórmula: ‘Da quod iubes et iube quod vis – concedei o que mandais
e depois mandai o que quiserdes’”[11].
Entendem-se bem então alguns parágrafos inflamados do salmista que podem nos
servir para agradecer esta liberdade a Deus: “Com meus lábios proclamo todas as
normas de tua boca. No caminho de teus preceitos deleito-me mais do que em
todas as riquezas. Quero meditar teus mandatos e fixar o olhar em teus
caminhos” (Sl 119, 13-15).
Deus está na normalidade
Vivemos numa época de fenômenos de massa, de pessoas que tem
milhões de seguidores, fotos ou vídeos que se tornam virais em poucos minutos.
Diante deste panorama, continua vigente o que dissemos sobre a normalidade na
qual o Senhor atua? Não ignoramos que Deus é paciente e nos disse que a sua
ação é como a do levedo: não se pode distingui-lo da massa e, apesar de seja lá
o que for, chega a toda ela. Deus é o primeiro interessado em salvar o mundo,
muito mais do que nós. De fato, é ele que impulsiona, que inflama e que
sustenta. A nós, só cabe unir-nos a esse movimento de santidade: “Com a
maravilhosa normalidade do divino, a alma contemplativa transborda em afã
apostólico”[12].
O Papa Francisco convida-nos precisamente a deixar-nos
invadir pela vibração apaixonada da graça: “Quanto bem nos faz ter, como
Simeão, o Senhor ‘nos braços’ (Lc 2,28). Não só na cabeça e no coração, mas nas
mãos, em tudo que fazemos: na oração, no trabalho, nas refeições, ao telefone,
na escola, com os pobres, em toda parte. Ter o Senhor nas mãos é o antídoto
contra o misticismo isolado e o ativismo desenfreado, porque o encontro real
com Jesus endireita tanto o devoto sentimental como o frenético factótum. Viver
o encontro com Jesus é também o remédio para a paralisia da
normalidade, é abrir-se à cotidiana agitação da graça”[13].
Com Cristo queremos liberar-nos da paralisia de pensar que Deus não está na
normalidade.
“Maria santifica as coisas mais pequenas - fazia notar São
Josemaria - aquelas que muitos consideram erroneamente como intranscendentes e
sem valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas
queridas, as conversas e visitas por razões de parentescos ou de amizade.
Bendita normalidade, que pode estar repassada de tanto amor de Deus! ”[14].
Diego Zalbidea
[1] Francisco,
ex. ap. Amoris laetitia, n. 182.
[2] Bento
XVI, A infância de Jesus, Editorial Planeta, São Paulo, 2012.
[3] Francisco,
encíclica Laudato Si’, n. 98.
[4] São
Josemaria, Entrevistas, n. 114.
[5] Francisco,
ex. ap. Gaudete et exultate, n. 7.
[6] São
Josemaria, Roteiro de uma palestra, 22/08/1938. Citado em Pedro Rodríguez,
Edição Comentada de Caminho, Quadrante, São Paulo, 2014, p.
229.
[7] São
Bernardo de Claraval, Carta ao Papa Beato Eugênio III.
[8] São
Josemaria, Roteiro de uma palestra, 22/08/1938. Citado em Pedro Rodríguez,
Edição Comentada de Caminho, Quadrante, São Paulo, 2014, p.
230.
[9] Bento
XVI, Homilia, 24/04/2005.
[10] São
Josemaria, E Cristo que passa, n. 148.
[11] Bento
XVI, Jesus de Nazaré II, Planeta, São Paulo.
[12] São
Josemaria, É Cristo que passa, n. 120.
[13] Francisco,
Homilia, 2/02/2018.
[14] São
Josemaria, É Cristo que passa, n. 148.
Ano Novo: 5 motivos teológicos para não acreditar em superstições
Cibele
Battistini - publicado em 31/12/25
A fé católica, fundada na revelação divina e na razão
iluminada pela graça, sempre se posicionou de forma clara contra a superstição.
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CLIQUES
Embora práticas supersticiosas estejam culturalmente
difundidas — como acreditar em “azar”, amuletos, horóscopos ou sinais
místicos desvinculados de Deus — a Igreja ensina que tais
atitudes contradizem a fé verdadeira. A seguir, apresentamos cinco
motivos teologais que explicam por que um católico não deve aderir à
superstição.
1 - A SUPERSTIÇÃO VIOLA O PRIMEIRO MANDAMENTO
O Primeiro Mandamento — “Amar a Deus sobre todas as
coisas” — exige que toda confiança última esteja em Deus. A
superstição, ao atribuir poder sobrenatural a objetos, rituais ou sinais,
desloca essa confiança.
O Catecismo da Igreja Católica é
explícito:
“A superstição é um desvio do culto que prestamos ao
verdadeiro Deus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2111).
Quando alguém acredita que um objeto “traz sorte” ou que um
gesto evita o mal independentemente da vontade divina, passa a atribuir poder
salvífico a algo criado, o que se aproxima da idolatria.
2 - A SUPERSTIÇÃO CONTRADIZ A VIRTUDE TEOLOGAL DA FÉ
A fé teologal é a adesão livre e consciente à verdade
revelada por Deus. Superstições não se baseiam na Revelação, mas no medo, na
ignorância ou em tradições culturais sem fundamento teológico.
São Tomás de Aquino ensina que:
Assim, a superstição não é apenas um erro intelectual, mas
um desvio moral que enfraquece a fé autêntica.
3 - A SUPERSTIÇÃO NEGA A PROVIDÊNCIA DIVINA
A fé católica professa que Deus governa todas as coisas com
sabedoria e amor. Acreditar que acontecimentos dependem de “sorte”, “azar” ou
forças ocultas é negar, ainda que implicitamente, a ação da Providência.
A Sagrada Escritura afirma:
“Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a
Deus” (Rm 8,28).
Santo Agostinho criticava duramente a crença em presságios e
sinais supersticiosos, afirmando que eles afastam o cristão da confiança filial
em Deus.
4 - A SUPERSTIÇÃO INSTRUMENTALIZA O SAGRADO
No cristianismo, os sacramentos e sacramentais não são
“amuletos”. Seu efeito depende da graça de Deus e da disposição interior do
fiel, não de um automatismo mágico.
O Catecismo ensina:
“A atitude supersticiosa pode afetar até mesmo o culto que
prestamos ao verdadeiro Deus, quando se atribui uma importância quase mágica a
certas práticas” (CIC, n. 2111).
Usar objetos religiosos como proteção automática, sem fé,
conversão ou vida sacramental, transforma o sagrado em instrumento mágico —
algo incompatível com a teologia católica.
5 - A SUPERSTIÇÃO ESCRAVIZA O HOMEM AO MEDO, ENQUANTO A
FÉ LIBERTA
Cristo veio libertar o ser humano do medo da morte, do mal e
das forças ocultas. A superstição, ao contrário, alimenta ansiedade e
dependência.
Jesus ensina:
“Não tenhais medo” (Mt 14,27).
São João Paulo II reforça essa ideia ao afirmar que a fé
cristã é um encontro com Cristo vivo, não um sistema de ritos para controlar o
destino.
A superstição não é uma simples “crendice inofensiva”,
mas um desvio teológico que fere a fé, a razão e a liberdade do cristão. O
católico é chamado a viver uma fé madura, centrada em Deus, iluminada pela
razão e sustentada pela confiança na Providência.
Crer verdadeiramente é abandonar o medo e confiar plenamente
naquele que é o Senhor da história.
Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF










