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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

As muitas faces da graça divina

Grâce divine | Shutterstock

Mónica Muñoz - publicado em 24/11/25

“A minha graça te basta”, escreveu São Paulo em sua segunda carta aos Coríntios. A graça divina, fonte de vida e sustento para os cristãos, manifesta-se de muitas formas. Da graça santificante recebida no batismo às graças discretas da vida diária, Deus nunca deixa de agir na vida dos fiéis.

Deus conhece as suas criaturas. Ele as preenche com a sua graça, fazendo-as participar da sua vida divina. Graça designa a benevolência absolutamente incondicional que Deus, desde toda a eternidade, demonstra à humanidade, chamando-nos a participar de sua própria vida. Essa é a intimidade com o Senhor concedida pelo batismo e renovada pelos sacramentos. É pela graça que Deus nos salva. Além da graça santificante recebida pelos cristãos no batismo, o Senhor concede outras formas de graça que auxiliam os fiéis em momentos específicos de suas vidas.

Graça santificante

O homem nasce marcado pelo pecado original, e a única maneira de ser libertado dele é o batismo, por meio do qual Deus o lava e o preenche com a sua graça santificante, como afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A graça é participação na vida de Deus. Ela nos introduz na intimidade da vida trinitária: pelo batismo, o cristão participa da graça de Cristo, Cabeça do seu Corpo. Como ‘filho adotivo’, ele agora pode chamar Deus de ‘Pai’, em união com o Filho unigênito. Ele recebe a vida do Espírito, que o preenche de caridade e forma a Igreja (Catecismo da Igreja Católica, 1997).”

Cristo já realizou tudo. É por isso que essa graça é chamada de dom gratuito. “A graça de Cristo é o dom gratuito que Deus nos dá de sua vida, infundida pelo Espírito Santo em nossa alma para curá-la do pecado e santificá-la: é a graça santificante ou divinizante, recebida no batismo. Ela é em nós a fonte da obra de santificação (cf. Jo 4, 14; 7, 38-39). “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo.” (2 Cor 5,17-18).” Essa graça pode ser perdida? Sim, através do pecado mortal, por isso, a única maneira de recuperá-la é através do sacramento da confissão. Idealmente, a vida cristã floresce na ausência do pecado mortal e na graça habitual, essa disposição permanente de viver e agir de acordo com a vocação divina.

Graças sacramentais

Outra forma de graça é aquela que Deus concede nos sacramentos; por isso são chamadas de graças sacramentais. “A graça inclui também os dons que o Espírito Santo nos concede para nos associar à sua obra, para nos capacitar a colaborar na salvação dos outros e no crescimento do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Estas são as graças sacramentais, dons próprios dos diferentes sacramentos.”(Catecismo da Igreja Católica, 2003).

Assim, aqueles que se casam e aqueles que recebem o sacramento da Ordem obtêm graças que os ajudam a perseverar em seu estado de vida. Mas há também graças específicas para aqueles que recebem a Unção dos Enfermos ou que se confessam, pelas quais Deus os fortalece e os ajuda a continuar sua vida perto Dele, a observar os mandamentos e a se esforçar no caminho da santificação.

Carismas: graças especiais

Existem também graças especiais, também chamadas carismas, segundo o termo grego usado por São Paulo, que significa favor, dom gratuito, benefício (cf.LG12) “Seja qual for a sua natureza, por vezes extraordinária, como o dom dos milagres ou das línguas, os carismas estão ordenados à graça santificante e têm por fim o bem comum da Igreja. Estão ao serviço da caridade, que edifica a Igreja (cf.1 Cor12)” (CEC 2003).

Esses dons são por vezes espetaculares, mas não nos esqueçamos de que não se destinam ao benefício do destinatário, e muito menos a serem exibidos ou aproveitados, mas sim a servir a comunidade. E entre essas graças particulares, o Catecismo menciona as “graças de Estado que acompanham o exercício das responsabilidades da vida e dos ministérios cristãos dentro da Igreja” (CEC 2004) Por exemplo, São Paulo era conhecido por seu carisma ao ensinar.

Fonte: https://pt.aleteia.org/2025/11/24/as-muitas-faces-da-graca-divina/

Leão XIV na Turquia, onde a Igreja retorna às origens e aprende a ser fermento

A Igreja de Santo Antônio de Pádua, em Istambul, decorada com bandeiras turcas e do Vaticano (Vatican Media)

Dom Massimiliano Palinuro, vigário apostólico de Istambul, descreve a comunidade de sua circunscrição eclesiástica, onde vivem aproximadamente 40.000 católicos, parte dos 60.000 presentes na nação euroasiática. Uma pequena minoria em um contexto predominantemente muçulmano, no mesmo lugar onde Angelo Giuseppe Roncalli foi vigário de 1934 a 1944. "Despojados de poder e visibilidade, somos uma família de filhos de Deus."

Por Massimiliano Palinuro*

Na saudação que o Patriarca Armênio me dirigiu na celebração que marcou o início do meu ministério episcopal em Istambul, ele disse: "Nossas comunidades cristãs na Turquia (Türkiye) são pequenas, mas também um diamante é pequeno. As coisas mais preciosas são sempre pequenas." Esta é a Igreja que o Papa Leão XIII visitará em sua primeira Viagem Apostólica, uma Igreja pequena, mas preciosa, fecunda como uma minúscula semente capaz de gerar nova vida.

Bispo Massimiliano Palinuro, vigário apostólico de Istambul e administrador apostólico de Constantinopla

https://youtu.be/xLVU_Di3eH8

Uma Igreja tão pequena quanto um grão de sal

A Turquia desempenha um papel significativo na complexidade do nosso mundo atual. Ponte entre o Oriente e o Ocidente, encruzilhada de povos e religiões, mosaico de culturas e tradições, esta terra foi justamente chamada de "Terra Santa do Novo Testamento". É esta a pátria do Apóstolo Paulo, e aqui pelo menos seis apóstolos pregaram o Evangelho. Aproximadamente um quarto do Novo Testamento foi inspirado aqui, e foi aqui, em Antioquia, que os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos pela primeira vez. Aqui estão os túmulos dos Apóstolos João e Filipe, e a casa de Maria em Éfeso. Aqui foram realizados os oito primeiros concílios, e por meio dos ensinamentos dos grandes Padres da Igreja, a teologia cristã encontrou sua correta formulação.

E, no entanto, após dois milênios, a Igreja aqui permanece apenas uma pequena e frágil minoria, como um punhado de fermento, como um grão de sal.

Dois terços dos aproximadamente 60.000 católicos da Turquia vivem no território do Vicariato Apostólico de Istambul. O vicariato abrange a parte europeia do país e a parte asiática até Ancara. A presença da Igreja Católica Latina é muito antiga e esteve ligada, durante muito tempo, à presença de comunidades estrangeiras que aqui chegaram para o comércio.

O reino latino, fundado após a quarta cruzada (1209), levou à criação do Patriarcado Latino de Constantinopla, que sobreviveu como sé titular até tempos recentes.

A supressão definitiva do Patriarcado, desejada por São Paulo VI, marcou mais um passo significativo rumo à plena unidade com a Igreja Ortodoxa.

A comunidade católica, de fato, durante os últimos dois séculos, foi liderada por um vigário patriarcal, que mais tarde se tornou vigário apostólico.

Pessoas caminham em frente à Mesquita Azul em Istambul, Turquia, em 25 de novembro de 2025.   (ANSA)

Cristãos: 0,6% da população

O último século assistiu a um declínio drástico no número de cristãos. Em 1915, 35% da população do país ainda era cristã, enquanto hoje são apenas 0,6%.

Atualmente, a comunidade católica latina do vicariato é composta por pouco mais de 10.000 fiéis locais e aproximadamente 30.000 fiéis estrangeiros, refugiados ou migrantes. Além dos latinos, há também cerca de 8.000 católicos armênios, caldeus e siríacos, divididos em três ordinariatos que estendem sua jurisdição por toda a Turquia. Outros 10.000 fiéis latinos vivem entre a Arquidiocese de Esmirna e o Vicariato da Anatólia.

Uma comunidade enraizada em suas origens

A pequena comunidade católica, com seus quatro ritos, juntamente com as comunidades cristãs não católicas ainda menores, vive em um contexto predominantemente muçulmano. Aqui, em um contexto minoritário, a Igreja retorna às suas origens, aprendendo a ser sal e fermento. Despojada de poder e visibilidade, a comunidade dos discípulos de Jesus relembra sua identidade original, a de uma Igreja que é "a família dos filhos de Deus". Nossas comunidades, de fato, muitas vezes se assemelham a pequenas igrejas domésticas, como nos primórdios do cristianismo, onde cada pessoa é importante e ninguém se sente alienado.

Em nossas assembleias, se reúnem fiéis provenientes de dezenas de nações diferentes, e somos obrigados a falar línguas diferentes para que o milagre de Pentecostes se renove e cada pessoa possa ouvir a Palavra salvadora ressoar em sua própria língua. Povos diferentes, com culturas e tradições litúrgicas diferentes, se unem para formar o único povo de Deus, a única família dos filhos de Deus. Obviamente, nem tudo é idílico. Em um contexto eclesial tão diverso, momentos de tensão não faltam. No entanto, o fato de todos nos encontrarmos em uma situação minoritária e frágil em um contexto desafiador quase nos "obriga" a caminhar juntos e a nos apoiarmos uns aos outros.

Por essa mesma razão, aqui em Istambul, e em toda a Turquia em geral, o caminho ecumênico está progredindo mais rapidamente do que em outros lugares. Precisamente aqui, onde por razões puramente humanas começou a grande ruptura entre o Oriente Ortodoxo e o Ocidente Católico, também podemos vislumbrar os primeiros sinais de reconciliação.

Antes de ser Papa, São João XVIII foi núncio apostólico na Turquia. Quadro está na Catedral de Istambul.   (AFP or licensors)

O futuro Papa Roncalli esteve à frente do Vicariato por dez anos

Em Istambul, esse caminho de reconciliação começou com Angelo Giuseppe Roncalli, o futuro Papa João XXIII, que liderou o Vicariato de Istambul por dez anos, de 1934 a 1944. Logo depois, outro "profeta do ecumenismo" surgiu no lado ortodoxo, o Patriarca Atenágoras. Após ele, esse caminho continuou com seus sucessores Demétrio e Bartolomeu.

Nos últimos tempos, novos caminhos também têm se aberto para a proclamação e o testemunho do Evangelho. Aqui, por necessidade, a cruz não é empunhada, mas carregada com fé. Aqui, o Evangelho é sussurrado de coração para coração, e a Palavra de Deus é testemunhada pela coerência da vida. Sim, apesar de tudo, aqui também, o Evangelho, em sua pureza, fascina e atrai. Aqui, como em qualquer outro lugar da Terra, aqueles que buscam a verdade a encontram em Jesus. Aqui, o serviço caritativo da Igreja, especialmente dirigido aos numerosos refugiados e migrantes, não pode fazer distinções e deve evitar qualquer ostentação. E o testemunho da caridade incondicional torna-se, involuntariamente, uma preparação para o Evangelho.

Um visitante observa uma reprodução do Concillium Nicaeum (o primeiro concílio de Niceia) do pintor italiano Cesare Nebbia, exposta no museu da Basílica Bizantina dos Santos Padres, em Iznik, em 31 de outubro de 2025.   (AFP or licensors)

Um diálogo fraterno, marcado pelo respeito

Mesmo em nosso diálogo fraterno com os muçulmanos, experimentamos a obra da Graça e vemos sinais de esperança, especialmente no que diz respeito ao diálogo como caminho de crescimento no respeito recíproco.

A visita do Papa Leão XIV foi recebida com particular respeito e apoiada pelas autoridades civis, que também viabilizaram um parque arqueológico em Niceia, atual Iznik, para celebrar o local do Primeiro Concílio. O presidente Recep Tayyip Erdoğan também garantiu que a Santa Missa que encerraria a visita fosse realizada em um local capaz de acomodar um grande número de fiéis, além de assegurar a cobertura das consideráveis ​​despesas.

Os cristãos são, em geral, respeitados e protegidos, e a Constituição turca garante a liberdade religiosa.

A visita de Leão XIV também se insere nesse contexto de respeito e apreço. Portanto, que esta visita seja um incentivo para perseverarmos no seguimento do Senhor Jesus e para olharmos para o futuro com confiança.

Esta fotografia aérea mostra os restos da Basílica Bizantina dos Santos Padres, que afundou na margem do Lago Iznik, em Iznik, em 31 de outubro de 2025. (Photo by Ozan KOSE / AFP)   (AFP or licensors)

*Vigário Apostólico de Istambul

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

ARQUEOLOGIA CRISTÃ: Testemunhos do início da Idade Média

A Basílica de Santa Susana, em Roma, foi construída no local de um antigo titulus cristão primitivo; sua aparência atual data do final do século XVI | 30Giorni.

ARQUEOLOGIA CRISTÃ

Arquivo 30Dias nº 03 - 2003

Testemunhos do início da Idade Média

A Basílica de Santa Susana, em Roma, abriga um afresco raríssimo do início da Idade Média, descoberto há dez anos em um sarcófago. Essa descoberta incomum está sendo estudada novamente.

Por Lorenzo Bianchi

Ecce Agnus Dei, ecce qui tolis peccata mundi ": com esta frase, São João Batista, da esquerda, aponta para o Cordeiro apocalíptico colocado sobre o pergaminho com os sete selos no centro do afresco em forma de arco ogival, que se encontra na sacristia da Basílica de Santa Susana, em Roma. Da direita, seguindo o esquema iconográfico habitual, São João Evangelista faz o gesto de falar, acompanhado pelo versículo " In principio erat Berbum et Berbum erat aput Deum et Deus ", o primeiro de seu Evangelho, escrito em uma caligrafia que remonta aos primeiros séculos da Idade Média.

Nada na aparência da basílica atual aparentemente evoca uma era tão distante; O edifício que vemos hoje data do final do século XVI, renovado pelo Cardeal Girolamo Rusticucci para o Jubileu de 1600 (o interior data de 1595, a fachada na Via XX Settembre, projetada por Carlo Maderno, de 1603). E quase ninguém sabe que aqui, realocado perto do local onde foi descoberto, pode-se ver um dos raros afrescos da Roma medieval primitiva, do qual restam a imagem descrita acima e outros fragmentos, representando a Madona com o Menino entre duas santas (Ágata e talvez Susana), e os rostos de outros cinco santos.

Quase ninguém, exceto alguns estudiosos, porque após a descoberta inesperada, ocorrida há mais de uma década durante escavações arqueológicas realizadas entre 1990 e 1992 sob a direção científica de Margherita Cecchelli, e após a restauração de algumas das pinturas, somente agora começamos finalmente a organizar sistematicamente a documentação resultante das escavações e a preparar sua publicação completa.

Estas escavações arqueológicas visavam investigar a história deste local, pouco conhecido, que nos remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Aqui, de fato, ainda dentro das primeiras muralhas da cidade, segundo fontes antigas, existia uma das mais antigas tituli ( paróquias) de Roma, datando talvez do século IV, ou mesmo do final do século III; depois dela, pelo menos duas fases principais de construção antiga precederam as renovações para o Jubileu de 1600: a do Papa São Leão III (795-816), que reconstruiu a basílica com três naves, e a anterior, à qual pertence o afresco, datada de diversas maneiras pelos estudiosos: no final do século VIII, durante o pontificado de Adriano I (772-795), ou no final do século VII, durante o pontificado de São Sérgio I (687-701).

Mas a extraordinária importância do afresco, que ainda aguarda estudo em relação ao seu contexto altamente específico, é sublinhada sobretudo pela sua localização singular no momento da descoberta.

Foi encontrado cuidadosamente colocado, em grandes fragmentos, dentro de um sarcófago que já continha um esqueleto (datado entre os séculos VI e VII) e, dada a sua posição em relação aos túmulos circundantes, parecia pertencer a uma figura de alguma importância. A razão para esta deposição invulgar das pinturas ainda nos escapa, mas vai claramente muito além da simples preservação: essas imagens devem ter tido um significado especial, se foram preservadas como relíquias, talvez ligadas a algum episódio particular dos eventos iconoclastas e à defesa da tradição e da liberdade da Igreja de Roma.

Contudo, neste momento, muitos detalhes cruciais permanecem obscuros: desde a proveniência original exata do afresco, que deve ter sido nas proximidades, até às suas dimensões reais e, portanto, à estrutura que decorava, embora a forma e a superfície lisa do gesso de suporte sugiram que provavelmente pertencia a um cibório. Por fim, ainda não sabemos se havia alguma ligação específica com a figura desconhecida enterrada, ou se a conexão foi mera coincidência.

A Basílica de Santa Susana é hoje a igreja nacional dos Estados Unidos da América em Roma, oficiada pelos Padres da Congregação Missionária de São Paulo, que ali residem desde 1922. Contudo, desde 1587 (com o intervalo entre a sua expropriação após o fim do poder temporal do papado e a sua subsequente restituição pelo Estado italiano), pertence às freiras cistercienses que residem no mosteiro de clausura adjacente.

Da sacristia, onde se conservam parte dos frescos, a área de escavação também é visível através de um piso de lajes de vidro, estendendo-se por baixo da sacristia dos Padres americanos e continuando por baixo da basílica. A abadessa do mosteiro, Madre Roberta, e o capelão, Padre Domenico Pacchierini, são responsáveis ​​pela particular solicitude com que facilitaram as investigações arqueológicas. Alessandra Milella, professora assistente de Arqueologia Cristã na Universidade de Roma La Sapienza, participou da investigação desde o início. Ela ilustra e discute abaixo as descobertas iniciais mais significativas.

Fonte: https://www.30giorni.it/

EDITORIAL: A força da pequenez

Viagem Apostólica à Turquia - Encontro de Oração na Catedral do Espírito Santo.  (@Vatican Media)

Nas palavras de Leão XIV aos cristãos turcos, uma indicação para toda a Igreja.

Andrea Tornielli

Ao encontrar-se com o “pequeno rebanho” dos católicos turcos na catedral de Santo Espírito, em Istambul, Leão XIV proferiu palavras que não só retratam a realidade da presença cristã nesta terra, mas também contêm uma indicação preciosa para todos.

O Papa convidou a adotar um olhar evangélico sobre esta Igreja de passado glorioso, hoje numericamente pequena. Convidou a olhar “com os olhos de Deus” para descobrir e redescobrir “que Ele escolheu o caminho da pequenez para descer entre nós”. A humildade da pequena casa de Nazaré, onde uma jovem disse o seu sim, permitindo que Deus se fizesse Homem, a manjedoura de Belém com o Todo-Poderoso que se tornou um recém-nascido completamente dependente dos cuidados de um pai e de uma mãe, a vida pública do Nazareno passada a pregar de aldeia em aldeia numa província nos confins do império, fora do radar da grande história. O Reino de Deus, lembrou Leão, “não se impõe atraindo a atenção”. E nessa lógica, na lógica da pequenez, está a verdadeira força da Igreja. O Sucessor de Pedro lembrou aos cristãos da Turquia que a Igreja se afasta do Evangelho e da lógica de Deus quando pensa que sua força está em seus recursos e estruturas ou quando faz com que os frutos de sua missão consistam no consenso numérico, no poder econômico, na capacidade de ser influente na sociedade. “Em uma comunidade cristã onde os fiéis, os sacerdotes, os bispos não seguem este caminho da pequenez, falta futuro... porque Deus brota no pequeno, sempre no pequeno”, disse o Papa Francisco em uma homilia em Santa Marta citada hoje por seu sucessor.

É a inversão total de toda a lógica humana, que também pode penetrar na Igreja, quando se impõem lógicas empresariais, quando a missão é reduzida a estratégias de marketing, quando quem anuncia o Evangelho se coloca em primeiro plano como protagonista, em vez de desaparecer para fazer brilhar a luz de Cristo. Em uma época em que parecem valer apenas os cliques e o número de seguidores, também a Igreja pode ser tentada a lamentar uma cristandade do passado, com seus anexos e conexões de poder, estruturas, influência e relevância social, colateralismo político.

Em vez disso, como nos ensina o Evangelho e nos repete hoje o Bispo de Roma, é preciso olhar o mundo com os olhos de Deus, com o olhar dos pequenos, dos humildes, dos que não têm poder. É essa revolução copernicana de Deus, que derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes, o caminho da missão, mas também o caminho para construir a verdadeira paz: na Igreja, na sociedade, nas relações internacionais.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Uma onda de conversões na cidade mais secular do Ocidente

Shutterstock

Aleteia Polônia - publicado em 27/11/25

Em Nova York, há um aumento acentuado no número de adultos que querem ingressar na Igreja Católica através da Iniciação Católica de Adultos (OCIA). Essa tendência, confirmada tanto na Arquidiocese de Nova York quanto na Diocese do Brooklyn, é surpreendente devido à secularização da cidade, que é considerada uma das mais seculares dos Estados Unidos.

Isso significa que estamos lidando com uma tendência que afeta sociedades mais secularizadas. Anteriormente, escrevemos tanto sobre a França, que está passando por uma espécie de pequeno boom religioso, mas também sobre a Austrália. Claro, não podemos falar sobre conversões em uma escala de massa, mas as porcentagens rompem o teto. Então agora vamos olhar para Nova York.

Aumento duplo

Na paróquia de St. Patryck's, o número de catecúmenos em Greenwich Village triplicou em comparação com o ano anterior, atingindo cerca de 130 pessoas. Dinâmicas semelhantes são visíveis na paróquia de St. Wincenty Ferreri no Upper East Side, onde o número de participantes dobrou para cerca de 90, e na Basílica da Antiga Catedral de St. Patryck's, esse número também aumentou para cerca de 100. As paróquias lutam com limitações espaciais, o que causa considerações sobre o aumento do número de Missas Sagradas. A diocese do Brooklyn também viu um grande aumento - em 2024, 538 adultos foram aceitos na Igreja, quase o dobro do que em 2023.

Uma parte significativa desse crescimento é composta por jovens profissionais que buscam estabilidade em um ambiente cultural turbulento. Entre as razões para a conversão, eles mencionam crises de vida, insatisfação com certos contextos ideológicos, bem como a necessidade de uma estrutura moral clara e apoio espiritual. Muitos recém-convertidos enfatizam que o sucesso material não lhes dá respostas duradouras para questões existenciais.

Motivações que merecem atenção

Os candidatos ao batismo muitas vezes apontam para o impacto dos eventos políticos e sociais contemporâneos nos Estados Unidos e o cansaço da polarização da sociedade e do caos da mídia. Experiências espirituais como leitura espiritual, participação em grupos paroquiais e contato com comunidades vivas também são importantes. O elemento comum é o desejo de uma vida ordenada, maior certeza existencial e combinação harmoniosa de fé com trabalho e vida familiar.

Esse fenômeno, apesar da falta de pesquisa completa sobre as causas, parece ser estável e tem uma dimensão mais ampla do que apenas campanhas de evangelização locais. Para a Igreja de Nova York, este é um desafio pastoral - é necessário acompanhar efetivamente os novos fiéis em sua formação e integrá-los a comunidades paroquiais vivas e bem organizadas.

A aventura de Deus

Este crescente movimento de conversão em um ambiente tão secularizado como Nova York mostra o desejo de muitas pessoas, especialmente jovens adultos, de encontrar a estabilidade espiritual e o significado da vida que parece estar emergindo no mundo de hoje. Vamos esperar, no entanto, que não seja apenas sobre os aspectos mundanos da religião, mas também sobre a fé sobrenatural que pode ser encontrada na Igreja. Sem dúvida, as paróquias locais devem adaptar suas estruturas para atender às necessidades dos novos fiéis e responder à sua busca espiritual. Podemos dizer que há um momento de uma bela aventura na Igreja de Nova York.

Fonte: https://pt.aleteia.org/2025/11/27/uma-onda-de-conversoes-na-cidade-mais-secular-do-ocidente/

NOVÍSSIMOS: Retornando às últimas coisas

Almas condenadas sendo lançadas no inferno, detalhe do Juízo Final, Michelangelo, Capela Sistina, Vaticano | 30Giorni

REDESCOBERTAS

Arquivo 30Dias nº 04 - 2002

Retornando às últimas coisas

Uma conferência no Vaticano e dois livros relançam um tema esquecido na pregação da Igreja: as realidades últimas e definitivas — morte, juízo, inferno e céu.

Por Gianni Cardinale

Após um período de negligência, as Últimas Coisas voltam a ser discutidas, um termo latino tradicionalmente usado para designar as quatro realidades últimas e definitivas: morte, juízo, inferno e céu. No Sínodo dos Bispos do último outono, o Arcebispo de Sydney, George Pell, abordou a necessidade de reintroduzir esses temas na catequese e na pregação, temas que foram esquecidos no panorama eclesial das últimas décadas, mas que são essenciais para a fé cristã. "Poderíamos dizer", denunciou ele, "que o limbo desapareceu, que o purgatório caiu no esquecimento, que o inferno não é mais mencionado por ninguém, exceto talvez por terroristas e culpados de crimes hediondos, enquanto o céu é o direito humano final e universal, ou talvez apenas um mito consolador."

Parece que o apelo do prelado australiano não passou despercebido. Talvez seja uma coincidência, mas nos últimos meses houve várias iniciativas que sinalizam um renovado interesse pelas Últimas Coisas. Destacamos brevemente três delas. 

Videoconferência sobre Escatologia

No dia 29 de novembro, um mês após o término do Sínodo, realizou-se no Vaticano a terceira videoconferência organizada pela Congregação para o Clero, como parte de uma iniciativa voltada para a formação contínua de sacerdotes em todo o mundo. O tema da iniciativa, organizada pelo Cardeal Darío Castrillón Hoyos, foi "Escatologia do Concílio Vaticano II aos nossos dias". A videoconferência contou com a presença de uma dúzia de teólogos, indicados por bispos locais, conectados em todo o mundo. Não faltaram surpresas. Dois palestrantes criticaram a hipótese de Hans Urs von Balthasar, o teólogo suíço que faleceu em 1988, poucos dias antes de receber o chapéu cardinalício, segundo a qual o inferno existe, mas pode estar vazio.

O Padre Jean Galot, emérito da Universidade Gregoriana, fez isso implicitamente, afirmando que tal hipótese "priva de toda a eficácia as advertências de Jesus, repetidamente formuladas no Evangelho". Monsenhor Michael Hull, de Nova York, foi mais explícito em seu discurso sobre "Erros na Escatologia Contemporânea", que se concentrou principalmente na hipótese de Baltasar, a qual ele contestou por ser equivalente a "negar o livre-arbítrio humano". Aqueles que desejarem ler os discursos citados aqui, bem como outros, como o do teólogo da Casa Pontifícia, Padre George Cottier, sobre o purgatório, podem encontrá-los online no site da Congregação para o Clero (www.clerus.org). 

Catecismo sobre as Últimas Coisas

Também no ano passado, foi publicado o livro As Últimas Coisas: Uma Introdução à Escatologia.

Publicado pela Ares Editions (Milão, 200 páginas, €12,39) e assinado por dois sacerdotes do Opus Dei: Justo Luis Sánchez de Alva e Jorge Molinero. Esta é uma obra tradicional que apresenta a doutrina católica sobre as Últimas Coisas de maneira catequética. Não é por acaso que o texto mais citado é o Catecismo da Igreja Católica de 1995. Há inúmeras citações do Vaticano II (especialmente da Lumen Gentium ), referências oportunas ao Credo do Povo de Deus pronunciado por Paulo VI em 30 de junho de 1968, bem como diversas referências aos Concílios mais antigos e documentos papais dos séculos passados. O texto está dividido em três partes: escatologia universal (com capítulos sobre o Juízo Final e a ressurreição dos mortos); escatologia individual (com capítulos sobre a teologia da morte, do céu e do inferno); escatologia intermediária, ou seja, a condição da alma entre a morte e a ressurreição (e, neste contexto, discute-se a doutrina do purgatório).

Não faltam notas interessantes e curiosas. Por exemplo, recorda-se que a crença na reencarnação, hoje difundida até entre os católicos devido à influência das religiões orientais, era uma característica dos hereges cátaros do século XIII, que não acreditavam no purgatório e defendiam que a purificação das almas necessitadas ocorria em vidas sucessivas, sempre na Terra. O volume reconta então rapidamente a história de João XXII, o papa que, durante o seu pontificado, proferiu homilias que beiravam a ortodoxia — afirmando que, antes do fim do mundo, as almas dos santos não veem Deus face a face e os condenados não vão para o inferno — e que mais tarde se arrependeu no final da vida (este momento de "confusão" doutrinal foi resolvido com a constituição Benedictus Deus, promulgada em 1336 pelo seu sucessor, Bento XII).

Teólogos e filósofos sobre a vida após a morte:

Recentemente, a Edizioni San Paolo lançou o livreto Aldilà & dintorni. Dez Diálogos sobre as “Últimas Coisas” (Milão, 108 páginas, €8,26). O autor é o jornalista Roberto Righetto, editor das páginas culturais do jornal Avvenire, do CEI . O volume apresenta dez entrevistas sobre o tema das Últimas Coisas com teólogos como Giacomo Canobbio, Giovanni Ancona, Gianni Colzani e Luigi Sartori; filósofos como Sergio Givone (cuja afirmação “não me tirem o purgatório” é peremptória), Umberto Regina e Vittorio Possenti; e acadêmicos como Maurizio Maggi, Moreno Fiori e Eugenio Corsini.

Essas discussões são precedidas por uma introdução detalhada ao tema, na qual Righetto relata, entre outras coisas, as hipóteses teológicas originais apresentadas pelo Cardeal Giacomo Biffi sobre o que acontece após a morte: "Quando os olhos se fecham, os olhos se abrem e se vê se está perto ou longe de Cristo. Este é o juízo: e é um juízo imediato." A respeito do Juízo Final, o Cardeal Biffi cita novamente o livro: "Poderia ser um falso problema, no sentido de que, se é verdade que além do tempo não há tempo, não é muito importante distinguir o juízo particular e o Juízo Final como se fossem temporalmente separados. Isto é, ambos se constituem no único instante que é o da eternidade."

No apêndice do livro, Righetto relata apropriadamente as três catequeses sobre escatologia proferidas pelo Papa João Paulo II durante as três audiências gerais de quarta-feira, em 21 de julho, 28 de julho e 4 de agosto de 1999. Uma curiosidade. Na segunda dessas palestras, o Papa Wojtyla proferiu uma frase que alguns interpretaram como eco da hipótese de Balthasar sobre um inferno vazio: "A danação continua sendo uma possibilidade real, mas não podemos saber, sem uma revelação divina especial, se (ênfase nossa, ed. ) e quais seres humanos estão de fato envolvidos".

CAIXA DE DISCUSSÃO : O limbo acabou no limbo

O renovado interesse pelas Últimas Coisas ilustrado nestas páginas não diz respeito ao limbo, o lugar à margem ( limbus ) do paraíso onde, segundo uma hipótese teológica, as crianças que morrem antes de serem batizadas são acolhidas. Essa hipótese, criada para conciliar, por um lado, a necessidade do batismo para a salvação e, por outro, a misericórdia divina para com as crianças que morrem sem terem cometido qualquer pecado pessoal, desapareceu do debate teológico atual. Mas não completamente. Pelo menos nos Estados Unidos, de fato, o limbo ainda é um tema de interesse hoje em dia. A revista conservadora Laywitness (março/abril de 2002), um boletim da organização Católicos Unidos pela Fé, publicou uma reportagem de quatro páginas sobre o conceito de limbo, afirmando que "continua sendo uma opinião teológica respeitável que pode ser acolhida pelos fiéis".

O semanário jesuíta americano America (18 de março) discorda, declarando-o inapropriado. Outro semanário, Our Sunday Visitor (31 de março), lembra que a ideia de limbo nunca fez parte do ensinamento oficial da Igreja, nem mesmo do Catecismo da Igreja Católica. Ele menciona isso quando, no n.º 1261, afirma: "Quanto às crianças que morrem sem o Batismo, a Igreja não pode deixar de as confiar à misericórdia de Deus, como faz no seu rito fúnebre. De facto, a grande misericórdia de Deus [...] e a ternura de Jesus para com as crianças [...] permitem-nos esperar que haja um caminho de salvação para as crianças que morrem sem o Batismo. Por isso, é ainda mais premente o convite da Igreja para não impedir que as crianças cheguem a Cristo através do dom do santo Batismo."

Fonte: https://www.30giorni.it/

Os passos dos Papas na Turquia, terra dos Concílios onde cresce o diálogo pela unidade

Viagem apostólica de Paulo VI à Turquia em 1967 | Vatican News.

A primeira Viagem Apostólica do Papa Leão XIV, inicialmente à Turquia, de 27 a 30 de novembro, e depois ao Líbano, de 30 de novembro a 2 de dezembro, segue os passos dos seus predecessores. Paulo VI se dirigiu a esse país em 1967, João Paulo II em 1979, Bento XVI em 2006 e Francisco em 2014.

Amedeo Lomonaco – Cidade do Vaticano 

A visita à Turquia é uma viagem às fontes da fé, entre as raízes do cristianismo. Papa Leão XIV é o quinto Pontífice a ir para esse país. A primeira Viagem Apostólica do seu Pontificado, que compreende também o Líbano, inicia-se, de fato, na Turquia, de 27 a 30 de novembro, por ocasião do 1.700º aniversário do primeiro Concílio de Niceia que, 17 séculos depois, ainda permanece atual. 

O objetivo é o de promover a fraternidade e o diálogo entre o Oriente e Ocidente. O Pontífice realiza o desejo do Papa Francisco de celebrar o aniversário do histórico evento eclesial convocado pelo imperador romano Constantino em 325 d.C. 

Na Bula da proclamação do Jubileu, Spes non confundit, Francisco enfatiza que o Concílio de Niceia é “um marco na história da Igreja”, e representa também um convite “a todas as Igrejas e comunidades eclesiais a prosseguir no caminho até a unidade visível”. 

Em Niceia, foi definido o Credo, a profissão de fé cristã. Essa oração marca também um dos momentos centrais da Viagem Apostólica de Leão XIV: o encontro ecumênico nas proximidades das escavações arqueológicas da Basílica de São Neófito, na cidade de İznik, a antiga Niceia, a cerca de 100 quilômetros de Istambul. 

A Viagem Apostólica de Paulo VI em 1967

O primeiro a realizar uma Viagem Apostólica à Turquia foi o Papa Paulo VI. A visita histórica, em 25 e 26 de julho de 1967, tem lugar em uma terra que é uma ponte entre a Europa e a Ásia.

No período que precede a chegada do Papa Montini, a expectativa é palpável. Em Istambul, a antiga Constantinopla e grande metrópole do Oriente, onde foram escritas páginas ilustres da história do cristianismo, a comunidade local se prepara para o encontro com o bispo de Roma.

Apesar do impacto do terremoto que atingiu o país em 22 de julho daquele ano, as igrejas ficam repletas de fiéis. São dias em que os católicos e outros cristãos, que se encontraram na localidade de férias, retornam a Istambul, Éfeso e Smirne. Querem estar presentes, escreve o “L’Osservatore Romano”, na crônica que precede a chegada do Papa Montini na Turquia para o grande acontecimento. 

Um momento da jornada apostólica em 1967 | Vatican News.

 O abraço com o Patriarca Atenágoras

Uma das primeiras fotos após aterrissagem no aeroporto de Yeşilköy – renomeado em 1980, em homenagem ao primeiro presidente turco Mustafa Kemal Atatürk – é o abraço fraterno entre o Pontífice e o Patriarca ecumênico Atenágoras. Eles já haviam se encontrado, pela primeira vez, em Jerusalém, em 1964. 

São imagens indeléveis acompanhadas pelas palavras contidas na carta do Papa Montini, dirigidas ao “amadíssimo irmão” Atenágoras. Paulo VI, no documento, exprime “o ardente desejo de ver ser realizada a oração do Senhor. “Que eles sejam um como nós o somos”. “Esse desejo anima uma vontade resoluta de fazer tudo para aproximar o dia em que será restaurada a plena comunhão entre a Igreja do Ocidente e a Igreja do Oriente”, escreve o Papa Montini. 

Na cerimônia de boas-vindas, Paulo VI, dirigindo-se ao então chefe de Estado Cevdet Sunay, ressalta ainda que a visita à Turquia pretende ser também “um testemunho da amizade e da estima que a Igreja Católica nutre pelo povo turco”. 

Compreender a profunda unidade

Um dos acontecimentos centrais tem como pano de fundo a Igreja patriarcal ortodoxa de São Jorge no Fanar. Ali, Paulo VI foi recebido pelo Patriarca Atenágoras. As suas palavras são uma exortação válida também hoje.

“À luz do nosso amor por Cristo e no nosso amor fraterno um pelo outro, estamos descobrindo cada vez mais a identidade profunda da nossa fé, enquanto os pontos sobre os quais ainda estamos em desacordo não devem nos impedir de compreender essa profunda unidade."

O Patriarca Atenágoras recorda ainda que o objetivo é “de unir o que está dividido, com mútuas ações eclesiásticas, em todo o lugar que seja possível, afirmando os pontos comuns de fé e de governo". 

A acolhida de Bento XV

Também no dia 25 de julho tem lugar outro evento muito aguardado. O cenário é a Catedral Católica do Espírito Santo, em Istambul. No pátio da igreja se vê uma estátua dedicada a um Papa e, sob o monumento, pode-se ler a escrita: “Ao grande Pontífice da hora trágica mundial, Bento XV, benfeitor dos povos sem distinções de nacionalidade e de religião, em sinal de reconhecimento, o Oriente (1914–1919)”.

O discurso do Papa Montini, dirigido a bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis se abre exatamente com esse destaque. “Não nos sentimos estrangeiros nesta Igreja, onde sentimos que seguimos os passos dos nossos predecessores. Não foi porventura Bento XV a nos acolher há pouco na entrada? Bento XV, cuja estátua se ergue para recordar às gerações sucessivas o grande coração deste magnânimo Pontífice, que sofreu profundamente a dor da primeira guerra mundial”, afirmou Paulo VI. 

Peregrinação no alvorecer do Ano da Fé 

Outro momento significativo da Viagem Apostólica de 1967 foi a Missa celebrada em 26 de julho, na Igreja de Santo Antônio, em Istambul. Na homilia, Paulo VI recorda a figura de outro Pontífice. Trata-se do Papa João XXIII, nomeado mais de 20 anos antes da eleição à Cátedra de Pedro como delegado apostólico na Turquia e na Grécia.

Os anos 1930 marcam um período em que a Igreja está presente de muitas formas na jovem república Turca, nascida em 1923. A missão do então dom Angelo Giuseppe Roncalli, na Turquia, é marcada pelo ministério aos católicos e pelo diálogo com os mundos ortodoxo e muçulmano. Paulo VI, na Igreja de Santo Antônio, recorda disso com estas palavras: esta Igreja “era a predileta do Papa João XXIII, quando aqui cumpria o serviço da Sé Apostólica, na qualidade de delegado apostólico”. “A sua memória - acrescentou na ocasião - é, também aqui, inapagável”. 

Paulo VI enfatiza, além disso, que a Viagem Apostólica à Turquia se realiza em 1967, “no alvorecer do Ano da Fé, na veneração de lugares que, com toda razão, devem ser considerados privilegiados, pelos monumentos de fé que preservam e pelo significado que revestem”. 

Uma viagem no coração do Papa

Depois da Missa na Igreja de Santo Antônio, o dia de 26 de julho prossegue com a despedida de Istambul e os encontros com os fiéis de Éfeso e de Esmirna, locais da Ásia Menor, onde estão gravadas “as grandes memórias cristãs”, como ressalta Paulo VI. Na cerimônia de despedida da Turquia, Papa Montini recorda alguns momentos da Viagem Apostólica e, em seguida, pronuncia estas palavras: “Levamos tudo isso no coração”.

Chega o momento de retomar o caminho de volta e, enquanto isso, em Roma, uma multidão imponente o espera sobre os terraços e pátios do Aeroporto de Fiumicino. Todos querem saudar o Papa.  

A Viagem Apostólica de João Paulo II em 1979

Seguindo os passos de Paulo VI, João Paulo II viaja para a Turquia em 1979. “Dirijo-me para esta Nação para continuar, com um renovado compromisso, o esforço em direção à unidade de todos os cristãos, com base em um dos objetivos proeminentes do Concílio Vaticano II”, afirma o Pontífice polonês na partida.

Papa Wojtyla começa a sua peregrinação ecumênica em Ancara. “É uma grande alegria para mim, sucessor de Pedro, dirigir-me hoje a vós, com as mesmas palavras que São Pedro dirigia 19 séculos atrás aos cristãos que se encontravam, então, como hoje, em pequena minoria nessas terras”, diz à comunidade católica daquela cidade. 

Os encontros com o Patriarca de Constantinopla Dimitrios e com o Patriarca armênio Shnorhk Kalustian precedem o abraço à comunidade armênio-católica de Istambul. A essa porção do povo de Deus indica uma missão especial: “Sois chamados, mais do que os outros, a serem os arquitetos da unidade”.  

Na terra dos Concílios

Os pontos essenciais da fé encontraram a formulação dogmática nos Concílios ecumênicos realizados em Istambul, ou nas cidades vizinhas, entre elas Niceia e Éfeso. É o que recorda Papa João Paulo II na homilia na Catedral do Espírito Santo. “Como não lembrar com emoção os padres da Igreja do Oriente, Pastores e Doutores, nascidos nesta região” e o seu “incomparável apostolado”, afirma o Pontífice.

No dia seguinte, 30 de novembro de 1979, João Paulo II se encontra, primeiramente, com a comunidade polonesa. Trata-se de uma colônia pouco numerosa. “Vós sois herdeiros daqueles poloneses que, mais de cem anos atrás, deram início a esse oásis polonês no Bósforo”, recordou o papa naquela ocasião. 

Giovanni Paolo II in Turchia nel 1979 | Vatican News.

Sob os olhos de Maria

Um dos últimos momentos da peregrinação apostólica de João Paulo II na Turquia é a Missa em Éfeso. Na homilia, o Pontífice confia à Mãe de Deus os destinos da Igreja. E recorda o caminho para a plena unidade de todos os cristãos. “Sob o seu olhar materno, estamos prontos a reconhecer as nossas culpas recíprocas, os nossos egoísmos e as nossas lentidões: Ela gerou um Filho único, nós infelizmente apresentamos-lho dividido”. “Confiamos a Maria a nossa resolução sincera de não aquietarmos enquanto não se chegar ao termo do caminho".

Apostolicidade e unidade

A viagem para a Turquia foi marcada por duas “notas” peculiares, recorda João Paulo II ao concluir a peregrinação, depois da aterrissagem no aeroporto de Fiumicino

Com o coração ainda invadido por intensas emoções e trazendo na alma imagens inesquecíveis de lugares tornados queridos por venerandas tradições, piso novamente o solo da Itália. Estou agradecido ao Senhor pela assistência que me concedeu também nesta peregrinação, realizada segundo duas peculiares "notas" da Igreja, a da apostolicidade e a da unidade.

A viagem de João Paulo II testemunha mais uma vez “a firme vontade” de um sucessor de Pedro “de seguir em frente na estrada que conduz à plena unidade de todos os cristãos”. 

Um momento da jornada apostólica de 1979 | Vatican News.

A Viagem Apostólica de Bento XVI em 2006

Em 2006, desloca-se para a Turquia Bento XVI que, no início de sua Viagem Apostólica, deseja, primeiramente, evocar a recordação das “memoráveis visitas” de Paulo VI e João Paulo II. “De igual modo, não posso deixar de mencionar também o Papa Bento XV, artífice infatigável da paz durante o primeiro conflito mundial, e do Beato João XXIII, o papa "amigo dos Turcos", que foi Delegado Apostólico na Turquia e Administrador Apostólico do Vicariato latino em Istambul", acrescenta, encontrando-se com o Corpo Diplomático em Ancara. 

Paz entre os povos

Em 29 de novembro de 2006, Bento XVI preside a Celebração Eucarística no Santuário mariano nacional de Meryem Ana Eví, em Éfeso, e invoca a paz para a Terra Santa e para o mundo inteiro. 

Daqui de Éfeso, cidade abençoada pela presença de Maria Santíssima sabemos que Ela é amada e venerada inclusive pelos muçulmanos elevemos ao Senhor uma especial oração pela paz entre os povos. Desta parte da Península anatólica, ponte natural entre continentes, invocamos a paz e a reconciliação sobretudo para aqueles que habitam na Terra que chamamos "santa", e que é assim considerada tanto pelos cristãos, como pelos judeus e pelos muçulmanos: é a terra de Abraão, de Isaac e de Jacob, destinada a acolher um povo que se tornasse uma bênção para todos os povos (cf. Gn 12, 1-3).

Bento XVI na Turquia em 2006 | Vatican News.

O encontro com o Patriarca Bartolomeu I

O dia 30 de novembro de 2006 é o dia da festa de Santo André Apóstolo e do encontro entre o Papa Bento XVI e o Patriarca ecumênico Bartolomeu I. “Demos graças ao Autor de todo o bem, que nos permite ainda uma vez, na oração e no intercâmbio, expressar a nossa alegria de sentirmo-nos irmãos e de renovar o nosso compromisso em vista da plena comunhão", lê-se na Declaração comum. Palavras que se entrelaçam com o abraço do Papa Paulo VI ao Patriarca de Atenágoras. Sucessivamente, na Igreja Patriarcal de São Jorge no Fanar, Bento XVI enfatiza que “as divisões existentes entre os cristãos são um escândalo para o mundo e um obstáculo para a proclamação do Evangelho”. 

Avançar no caminho em direção à unidade

A visita de oração ao patriarcado armênio apostólico e o encontro com o Patriarca Mesrob II precedem o momento de conclusão da viagem apostólica de Bento XVI à Turquia: a celebração eucarística na Catedral do Espírito Santo em Istambul.

Há vinte e seis anos, nesta mesma catedral, o meu predecessor o Servo de Deus João Paulo II desejava que o alvorecer do novo milénio pudesse "surgir sobre uma Igreja que reencontrou a sua plena unidade, para testemunhar melhor, entre as exacerbadas tensões do mundo, o amor transcendente de Deus, manifestado no Filho Jesus Cristo"

Esse desejo, enfatiza Bento XVI, ainda não se realizou. “Mas o desejo do Papa é sempre o mesmo e estimula-nos, a todos nós discípulos de Cristo que progredimos com lentidão e com as nossas pobrezas pelo caminho que conduz à unidade”. 

A Viagem Apostólica de Francisco em 2014

A Turquia é um cruzamento de encontro e diálogo. O Papa Francisco, durante a Viagem Apostólica à Turquia em 2014, louva o compromisso do País com os refugiados e destaca a vocação daquela nação de ponte entre os continentes e os povos.

“A Turquia, pela sua história, em virtude da sua posição geográfica e devido à importância de que se reveste na região, tem uma grande responsabilidade: as suas decisões e o seu exemplo possuem uma valência especial e podem ser de significativa ajuda no sentido de favorecer um encontro de civilização”, destacou o Papa durante o encontro com as autoridades. 

O Pontífice argentino comenta, sem seguida, que “a liberdade religiosa e a liberdade de expressão, eficazmente garantidas a todos, estimularão o florescimento da amizade, tornando-se um sinal eloquente de paz.”. 

Um momento da viagem apostólica de Francisco à Turquia em 2014 | Vatican News.

O Espírito Santo e a unidade da Igreja

Em 29 de novembro, a chegada de Papa Francisco a Istambul – com as visitas à mesquita Sultan Ahmet (a célebre Mesquista Blu), em Santa Sofia, e a saudação da comunidade católica no pequeno jardim da delegação apostólica – abre a parte ecumênica da viagem apostólica. Uma das imagens mais significativas é a de Francisco, com pés descalços e as mãos juntas, que pausa por longos instantes em adoração silenciosa ao lado do grande mufti na Mesquista. A  cena, então, muda para a Catedral Católica do Espírito Santo para a Missa. Na homilia, Francisco recorda o “princípio harmonizador” para cumprir a unidade entre os crentes. 

O Espírito Santo faz a unidade da Igreja: unidade na fé, unidade na caridade, unidade na coesão interior. A Igreja e as Igrejas são chamadas a deixarem-se guiar pelo Espírito Santo, colocando-se numa atitude de abertura, docilidade e obediência. É Ele que faz a harmonia na Igreja. Vem-me à mente uma afirmação muito bela de São Basílio Magno: «Ipse harmonia est – Ele próprio é a harmonia».

O dia 29 de novembro de 2014 conclui-se com a oração ecumênica na Igreja patriarcal de São Jorge. O Papa pede um favor ao Patriarca Bartolomeu I: “de abençoar a mim e à Igreja de Roma”. O 30 de novembro é o dia da assinatura da declaração conjunta. Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I exprimem  a sincera e firme intenção de intensificar os esforços “para a promoção da plena unidade entre todos os cristãos e, sobretudo, entre católicos e ortodoxos”. A última fotografia da viagem de Francisco à Turquia é o abraço com os jovens refugiados. Eles provêm da Turquia, da Síria, do Iraque e de vários países do Oriente Médio e da África. A difícil situação deles, enfatiza o Pontífice argentino, “é a triste consequência de conflitos exasperados e da guerra”. 

Os passos dos Papas e a Turquia

A Turquia está no coração dos Pontífices. Paulo VI viajou para esse país pouco mais de quatro anos depois da eleição ao trono de Pedro. João Paulo II visitou a Turquia um ano depois de ter sido eleito Pontífice. Também para Bento XVI e Francisco, a viagem apostólica à Turquia não foi distante da data de suas eleições. Olhando para a história, parece que os Papas, depois da eleição, querem logo abraçar e beijar essa terra. 

Agora, o povo turco aguarda Leão XIV. A primeira viagem apostólica de seu Pontificado começa nesta região do mundo, onde páginas indeléveis do cristianismo iluminam caminhos já traçados e ainda a completar. Os de Leão XIV são novos passos para acrescentar no espírito do Concílio de Niceia. Passos para cumprir com o irmão Bartolomeu I nos passos de Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI, Francisco e também Bento XV e João XXIII.  

Os Papas abraçam a Turquia, terra ligada, de maneira indissolúvel, às origens e à história da Igreja. Os passos dos Pontífices se adicionam aos do apóstolo do povo, São Paulo, que era um judeu de Tarso, na atual Turquia.

Leão XIV, nesta terra dos Concílios, que teve um papel primário nos alvores do cristianismo, renova a missão de Pedro, na reta final do Ano Santo da esperança, rumo à Luz de Natal. 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A Igreja Católica se torna a segunda religião que celebra o maior número de casamentos no Reino Unido

Apenas 23.004 Casais Optaram Por Se Casar Na Igreja Da Inglaterra Ou Na Igreja Do País De Gales (Anglicanos) No Ano Passado (ZENIT)

A Igreja Católica se torna a segunda religião que celebra o maior número de casamentos no Reino Unido

Os casamentos religiosos representaram apenas 32.473 cerimônias, e as igrejas anglicanas sediaram aproximadamente 70% delas.

25 DE NOVEMBRO DE 2025, 21H03, ELIZABETH OWENS

(ZENIT News / Londres, 25 de novembro de 2025) – O som dos sinos de casamento, um elemento essencial e tradicional da vida paroquial inglesa, está se tornando cada vez mais raro. Novos dados do Escritório Nacional de Estatísticas revelam que 2023 marcou um recorde negativo para casamentos religiosos na Inglaterra e no País de Gales, dando continuidade a uma tendência de queda que já existia antes da pandemia, mas que agora atingiu um ponto de inflexão inegável.

Segundo dados divulgados em 18 de novembro, apenas 23.004 casais optaram por se casar na Igreja da Inglaterra ou na Igreja do País de Gales (anglicanos) no ano passado. O país não registrava números tão baixos desde a década de 1830, com exceção do ano atípico de 2020, quando os lockdowns tornaram as igrejas praticamente inacessíveis. Embora a vida tenha voltado ao normal, o interesse por cerimônias religiosas não se recuperou.

Os casamentos civis dominam o cenário matrimonial atual. Dos 216.901 casamentos heterossexuais registrados em 2023 — uma queda significativa em relação aos 239.097 celebrados no ano anterior — mais de 184.000 ocorreram em cartórios ou locais seculares. Os casamentos religiosos representaram apenas 32.473 cerimônias, sendo que as igrejas anglicanas foram responsáveis ​​por aproximadamente 70% delas.

O ranking da participação religiosa também apresenta um panorama revelador. Depois da Comunhão Anglicana, a Igreja Católica Romana foi a mais ativa, celebrando 3.303 casamentos. Outras denominações cristãs contribuíram com mais 3.629 cerimônias, enquanto comunidades religiosas não cristãs celebraram 2.537 casamentos. Apesar da diversidade do cenário religioso do país, os números gerais revelam um claro declínio nos ritos matrimoniais religiosos.

Os casais do mesmo sexo, que formalizaram 7.501 casamentos no ano passado, realizaram apenas 96 cerimônias religiosas. Nem a Igreja da Inglaterra nem a Igreja do País de Gales (Anglicana) permitem atualmente tais uniões, embora as congregações Metodistas Unidas e Reformadas o façam, uma adaptação que atraiu alguns casais que buscam tanto o sacramento quanto o reconhecimento legal.

Por trás das estatísticas, esconde-se uma história mais profunda de mudança cultural. Os casamentos na igreja, antes enraizados na tradição local e nas expectativas familiares, agora enfrentam a concorrência de espaços personalizados, eventos em destinos turísticos e uma mentalidade cada vez mais secular. Mas o clero não está disposto a ceder. Em entrevista ao Daily Telegraph, o bispo anglicano de Manchester, David Walker, pediu aos casais que não presumam que as portas da igreja estejam fechadas para eles. Sua mensagem foi direta: os casais não precisam ser frequentadores assíduos da igreja, nem mesmo batizados, para se casarem em uma paróquia anglicana. Nem devem hesitar se já tiverem filhos.

Essas garantias refletem a silenciosa urgência sentida por muitos membros do clero diante do declínio da frequência à igreja, não apenas em casamentos, mas em todo o espectro dos sacramentos. Os casamentos, no entanto, carregam um peso simbólico: são momentos em que pessoas que se afastaram da prática religiosa por muito tempo se reconectam, ainda que brevemente, com a vida espiritual e comunitária de sua paróquia local.

Os números historicamente baixos sugerem que esse contato ocasional está diminuindo. Para alguns, isso indica uma perda de tradição; para outros, simplesmente uma evolução da preferência social. Contudo, dentro da Igreja da Inglaterra, permanece uma esperança, por mais modesta que seja, de que, ao demonstrar hospitalidade e flexibilizar preconceitos, o antigo costume de casar-se diante do altar possa encontrar uma relevância renovada em uma sociedade em rápida transformação.

Fonte: https://es.zenit.org/2025/11/25/la-iglesia-catolica-se-convierte-en-la-segunda-religion-que-mas-matrimonios-celebra-en-reno-unido/

De coração a coração: Evangelizar numa época de mudanças (2) (Parte 2/2)

Combate, proximidade e missão (Opus Dei)

De coração a coração: Evangelizar numa época de mudanças (2)

Esta é a missão que o Senhor nos confia: levar aos outros o contato com alguém vivo, deixar entrever, em nossa vida concreta, que Cristo é real, que ele pode realmente estar presente em nossa história, em nossas relações e em nossas fraquezas.

21/11/2025

De coração a coração

São Josemaria considerava a amizade o caminho principal da vida do apóstolo e percebia a força das relações interpessoais. O apostolado de “amizade e confidência”[12] implica querer o bem do outro, querer o bem que é o outro, construir relações autênticas e falar com o coração. “Quando te falo de ‘apostolado de amizade’, refiro-me à amizade ‘pessoal’, sacrificada, sincera; de tu a tu, de coração a coração”[13].

Em 2019, o Padre escreveu uma carta mais extensa para lembrar que a amizade não é apenas uma parte do apostolado de um cristão comum, mas está no núcleo de sua missão. A amizade não é algo que se pratica, mas algo que se é: sou amigo, sou uma mão aberta, um rosto que busca o encontro em tudo. “Quando uma amizade é assim, leal e sincera, ela não pode ser instrumentalizada: simplesmente um amigo deseja transmitir ao outro o bem que experimenta em sua vida. Normalmente faremos isso sem perceber, por meio do exemplo, da alegria e de um desejo de servir que se expressam em mil pequenos gestos. No entanto, ‘o valor do testemunho não significa que se deve manter em silêncio a palavra. Por que é que não havemos de falar de Jesus, contar aos outros que Ele nos dá a força de viver, que é bom conversar com Ele, que nos faz bem meditar as suas palavras?’ A amizade desemboca assim, naturalmente, na confidência pessoal, cheia de delicadeza e respeito à liberdade”[14].

Este estilo apostólico não faz barulho; costuma passar despercebido nos jornais, nos congressos e nos planos pastorais. Sua discrição não nasce de uma tendência ao secretismo, mas de uma realidade mais profunda: o fato inevitável de que uma parte essencial da verdadeira história se forja na vida diária. Uma grande escritora do século XIX intuiu isso: “o bem crescente do mundo depende em parte de atos não históricos; e que as coisas não estão tão ruins para você e eu como deveriam estar, é em parte devido ao número que viveu fielmente uma vida oculta, e descansou em tumbas não visitadas”[15].

Este estilo apostólico, do qual a Igreja necessita cada vez mais, transforma o mundo de dentro para fora. Ele vai devagar, é verdade, mas chega mais fundo. Ele toca o coração. E o coração tocado pela graça pode se desorientar, pode se desviar, mas fica marcado profundamente. É assim que os verdadeiros cristãos normalmente fazem: transmitem de coração a coração. Cor ad cor loquitur, o coração fala ao coração, como dizia o lema cardinalício de São John Henry Newman. Assim nasceu a Igreja, com poucos homens e mulheres transformados pelo encontro com Jesus. Assim renasce tantas vezes hoje também, por meio de conversas simples entre amigos, palavras sinceras e gestos autênticos, que indicam uma Presença viva.

Este lento, mas poderoso fluir da vida de uma pessoa para a outra deve adaptar seu curso a cada circunstância. Como em cada época ao longo da história, temos a apaixonante tarefa de procurar o modo de “transmitir, de acordo com os tempos – adaptando-se à linguagem dos homens, compreendendo sua mentalidade – a mensagem cristã a todas as almas”[16]. Quase sempre se tratará de uma transmissão pessoal, sem a necessidade de grandes ações ou manifestações. “Acredita em mim: o apostolado, a catequese, de ordinário, tem de ser capilar: um a um. Cada homem de fé com seu companheiro mais próximo. Aos que somos filhos de Deus, importam-nos todas as almas, porque nos importa cada alma”[17].

Os primeiros cristãos “não tinham, em virtude de sua vocação sobrenatural, programas sociais nem humanos a realizar; estavam, porém, penetrados por um espírito, por uma concepção da vida e do mundo, que não podia deixar de ter consequências na sociedade em que viviam”[18]. No fundo, esta é a missão que o Senhor nos confia: ser testemunhas, não apenas mestres. Mais do que transmitir uma série de ensinamentos e princípios morais, devemos proporcionar aos outros o contato com alguém vivo. Deixar entrever, em nossa vida concreta, que Cristo é real. Que Ele pode realmente estar presente em nossa história, em nossas relações e em nossas fraquezas. É esse contato com Cristo vivo, com Cristo ressuscitado que levará uns e outros a perguntar, como na manhã de Pentecostes: “O que devemos fazer” (At 2, 37), o que devo que mudar em minha vida? Onde posso conhecer mais sobre Deus? Como posso conhecê-lo melhor? Então será o momento de falar, de ensinar, de orientar.

São John Henry Newman, recém declarado doutor da Igreja por Leão XIV, dirigia-se assim ao Senhor: “Fica comigo, e começarei a resplandecer como Tu, a brilhar tanto, que possa ser luz para os outros. A luz, Jesus, virá toda de Ti, nada dela será minha; serás Tu quem resplandecerá sobre os outros através de mim. Brilhando sobre os que me rodeiam, permite-me louvar-te como te agrada. Permite-me pregar-te sem pregar, não com palavras, mas por meio do meu exemplo, da força de atração, da influência harmônica de tudo o que eu fizer da inefável plenitude do amor que existe por Ti em meu coração”[19].

É chamativo que quem escreveu e pregou tanto sobre a fé rezasse dessa forma. Assim, fica claro que não se trata de ficar em silêncio: Deus quer que estejamos preparados para dar a razão de nossa esperança (cfr. 1 Pd 3, 15); nossas palavras e nossas obras só serão eficazes se nosso coração estiver cheio do fogo de Cristo (cfr. Lc 24, 32). Quem for apóstolo deste modo talvez não veja os frutos imediatamente, ou não os veja de forma espetacular. Mas Santa Maria e São João ao pé da cruz tampouco os viram, nem São Paulo no cárcere, assim como muitos cristãos ao longo da história. E, no entanto, transformaram o mundo. Porque a Igreja não renasce por meio de movimentos de massa, mas pela ação silenciosa e paciente do fermento, pela transmissão da vida que temos dentro de nós. Essa é a grande responsabilidade que Deus coloca em nossas mãos. A Igreja, e esta parte da Igreja que é a Obra, somos cada um de nós. Por isso, São Josemaria perguntava aos primeiros: “Se eu morrer, você continuará com a Obra?”[20].


[12] São Josemaria costumava referir-se assim ao apostolado neste contexto de amizade que proporciona a abertura mútua do coração. Cfr. L. Flamarique, Amizade, em Diccionario de San Josemaria Escrivá de Balaguer, Monte Carmelo, Burgos 2013.

[13] São Josemaria, Sulco, n. 191

[14] F. Ocáriz, Carta pastoral, 1/11/2019, n. 18. Cfr. Francisco, Christus vivit, n. 176.

[15] Eliot, George. Middlemarch: Um Estudo da Vida Provinciana (p. 705). Edição do Kindle.

[16] São Josemaria, Carta 6, n. 30.

[17] São Josemaria, Sulco, n. 943

[18] São Josemaria, Carta 29, n. 22.

[19] São John Henry Newman, Meditations and Devotions, Longmans Green & Co, Nova York – Londres 1907, p. 365.

[20] S. Bernal, Salvador Bernal, Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, p. 414.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br/article/de-coracao-a-coracao-evangelizar-numa-epoca-de-mudancas-ii/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF