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sexta-feira, 7 de junho de 2024

A tapeçaria do casamento: tempo e dedicação

A tapeçaria do casamento (Opus Dei)

A tapeçaria do casamento: tempo e dedicação

O casamento é uma corrida de longa distância que necessita de perseverança para conseguir que o outro chegue à sua plenitude como mulher ou como homem, ou seja, para fazê-lo feliz. Texto com alguns conselhos para consegui-lo.

Depois de tudo que fomos lendo ao longo destes artigos, chegamos à conclusão de que o amor conjugal tem que ser trabalhado dia a dia, desde que nos levantamos até nos deitarmos, com detalhes pequenos: um ‘te amo’ sincero, um beijo sem rotina, uma piscadela cúmplice, um preocupar-se por uma reunião de trabalho do outro ou da dor de cabeça que tinha quando saiu de casa, e tantas outras coisas "pequenas”, que podem perder de vista se pensarmos apenas em grandes façanhas. Aquelas, sem dúvida, são as oportunidades reais que fortalecem nosso amor e lhe dão sentido de perenidade: assim é como se tece o tapete do casamento.

Por isso, se pode dizer que o casamento é também um trabalho: primeiro, porque é chamada que dá plenitude à criação de Deus[1], vocação originária ao amor[2] que se demonstra na comunidade de vida e no apoio mútuo que os esposos se prestam[3]; como afirma São João Paulo II, a pessoa “torna-se imagem de Deus não tanto no momento da solidão quanto no momento da comunhão”[4]: quer dizer, não quando o homem conhece as criaturas, mas quando se conhece em relação de mútua semelhança. E, segundo, porque é uma tarefa que traz consigo um esforço constante para manter intacta a “unidade de dois” que eles formam, pois o casamento em si faz referência à ideia de crescimento ilimitado no exercício das virtudes.

O casamento é uma corrida de longa distância que precisa de perseverança para conseguir que o outro chegue à sua plenitude como mulher ou como homem ou, resumindo, para fazê-lo feliz. Aqui, como no que se segue, a graça e a fortaleza que o sacramento confere é chave no insistir e persistir da vida conjugal: um manter-se firme no que é um, na sua identidade própria como esposa ou esposo, e nos compromissos adquiridos.

Daí que a fidelidade é muito mais que “não sustentar uma relação com outra pessoa diversa do cônjuge”, esse é seu limite negativo. É, sobretudo, cuidar do meu coração como algo sagrado que só se deve entregar a ela/a ele, e fechar a porta para que não entrem outros casos de amor: esse café indispensável com meu companheiro/a de trabalho, esse problema que se conta a quem não corresponde, esse drink supérfluo depois de um jantar de trabalho, ou essa maneira de vestir no escritório que dá lugar à equívocos.... Trata-se outra vez de pequenos detalhes, pois nada se rompe de repente. A fidelidade – amor prolongado, amor liberal que se desdobra no tempo - necessita existencialmente renovar (tornar consciente e livremente novo) com assiduidade o momento da celebração nupcial.

Educar o coração dos casados também requer laboriosidade: a paixão passa, volta, torna a passar, tem intensidades, é um sobe e desce: coisa própria de sentimentos. No entanto, o amor é mais que um sentimento, é um ato da vontade, livre e responsável. Portanto, é evidente que o amor matrimonial não pode estar subordinado a um sentimento, e que em muitas ocasiões terá de navegar sem vento, remando contra a maré, e custará, e ‘doerá’... Quem disse que o amor é um caminho de rosas? Pois acertou, espinhos e flores, uma combinação para levar com otimismo e bom humor. Quando isso ocorrer é oportuno recordar aquela consideração de São Josemaria: “Tens uma pobre ideia do teu caminho quando, ao sentir-te frio, julgas tê-lo perdido: é a hora da provação. Por isso te tiraram as consolações sensíveis”[5].

O problema se apresenta quando não se vê como normal o fato de que na vida há uma variedade de tudo, e que as dificuldades formam parte da vida cotidiana; quando um, ou os dois, vivem em um mundo de fantasia, de permanente imaturidade pessoal transferida para a convivência conjugal, então um ou ambos se colocam fora da realidade, o que é motivo de grandes sofrimentos na família.

As crises fazem parte da trajetória do casamento, são um passo para a maturidade e a consolidação do amor. Os casais não chegam a completar suas bodas de prata ou de ouro porque estão 25 anos em estado de paixão perpétua ou simplesmente juntos deixando passar o tempo, mas porque de mãos dadas conseguem saltar as valas da vida, ainda que pareça que a sociedade nos diga que se você encontrar um muro é melhor mudar de caminho.

As crises têm motivos diversos e podem ocorrer inclusive em momentos inesperados: por uma mudança de trabalho que obriga a uma separação, ou por uma doença (física ou psíquica) que se prolonga, ou porque um se isola em seu mundo e não quer compartilhá-lo, ou porque os defeitos do outro cônjuge com o tempo se tornam intoleráveis, ou porque a educação dos filhos em algumas ocasiões se torna esgotante, ou porque não se tem filhos. Muitos dizem que o diagnóstico é a falta de comunicação: – Sim... e depois?

Pois vamos prevenir em lugar de curar:

  • Promover um espaço semanal de descanso e lazer para disfrutar com o próprio estilo: um jantar, uma excursão, um cinema ou teatro, uma exposição de arte, fazer esportes juntos...
  • Cuidar dos momentos para falar do projeto de família: dos pessoais e dos de cada filho e como se enfocam.
  • Ter um detalhe mútuo de carinho a cada dia. Sem recriminar quando não se recebe, mas seguir dando.
  • Respeitar o espaço de intimidade pessoal para Deus e o de cada um enriquece.
  • Ter uma lista de coisas boas do outro para lê-las quando não as vemos, e uma lista de situações que desculpem os outros (teria uma dor de cabeça, teria tido um dia difícil...), se em algum momento tudo se torne escuro.

Como se vê, essa tarefa maravilhosa do casamento requer dedicação e criatividade. No dia em que você se casa, o faz com o cônjuge; ainda sem filhos. Mas quase sem perceber, no final, se Deus quiser, você acaba vendo os filhos de seus filhos, se esse for o caminho deles, ou suas correspondências a uma vocação ao celibato.

Por isso é tão importante ter claro que é preciso cuidar do nós, para que quando chegar a etapa em que os filhos vão soltando as amarras, tenhamos um novo nós cheio de plenitude, que não dê lugar a chantagens emocionais com os filhos, que não sejamos carga, mas apoio para colaborar com eles quando necessitarem, sem nos metermos onde não nos chamam, sabendo estar na retaguarda. Temos dado gratuitamente, recebamos gratuitamente.

Como dizia, com sábias palavras, Santa Teresa de Calcutá:

“Ensinarás a voar,

Mas não voarão teu voo,

Ensinarás a viver,

Porém não viverão tua vida,

Ensinarás a sonhar,

Porém não sonharão teu sonho,

Porém em cada voo, em cada sonho, em cada vida

Estará a marca do caminho ensinado”.

E ao final dos dias, na velhice, outra vez sós como quando começamos, sozinhos mas contentes e esperançosos, estaremos apoiados em Deus como no primeiro dia: porque cuidamos desses detalhes pequenos que trançaram a tapeçaria do nosso casamento com luzes e sombras; porque, com perseverança, fomos fiéis em cada momento; porque ainda que às vezes não tenhamos sentido nada, continuamos amando-nos com plena liberdade, porque quisemos; porque, apesar dos pesares, continuaremos juntos até que um de nós se vá para o céu com o nome do outro na testa.

Rosamaría Aguilar Puiggros

________________

[1] Como o próprio trabalho: cfr. Gn 2,15.

[2] “[A mulher] é osso dos meus ossos e carne da minha carne! […]e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”: Gn 2,23.24.

[3] “Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada”: Gn 2,18.

[4] Audiência geral, 14 novembro 1979.

[5] São Josemaria, Caminho, 996.

 Fonte: https://opusdei.org/pt-br

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF