VOCÊ ACREDITA EM VIDA APÓS O NASCIMENTO?
20/03/2026
Dom Itacir Brassiani
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)
No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o
capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte
de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria.
Este texto não fala propriamente sobre
a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a
amizade dele conosco.
Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos
para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus.
A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia
da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À
medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e
germina.
Sei que a ressurreição é vista como
algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o
sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe
nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade
liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos
pelo “moneyteísmo”.
A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo
uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida
estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e
Nilo. Nilo perguntou se
Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele
respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento.
Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma
preparação para o que seremos mais tarde…”
Em tom irônico, Nilo perguntou se o
irmão saberia dizer como seria a outra vida,
e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa
outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e
espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos
próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer
muitas outras pessoas…”
Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar
é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único
modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como
é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e
ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada
numa escuridão sem sentido e sem fim”.
Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como
será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o
rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita
em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através
dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la
cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo…”

Nenhum comentário:
Postar um comentário