Translate

quinta-feira, 26 de março de 2026

A Páscoa do Senhor em São João por Santo Agostinho

A Páscoa do Senhor (CNBB Norte 2)

A PÁSCOA DO SENHOR EM SÃO JOÃO POR SANTO AGOSTINHO

26/03/20261

por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá

A Igreja celebra a Páscoa do Senhor como o ponto central da vida de Jesus em vista da salvação humana. É o mistério do amor, da doação do Senhor por nós e pela humanidade. Para voltar ao Pai era necessário que o Filho do Homem, Filho de Deus passasse pela paixão, morte e ressurreição. Jesus tinha consciência desta passagem fundamental sem a qual não teria a redenção humana. Nos próximos dias celebraremos os mistérios que proporcionaram vida em abundância, pois teremos presentes o amor de Deus a nós e a toda a humanidade; “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único” (Jo 3,16). A seguir nós teremos a visão de Páscoa em Santo Agostinho, a partir do evangelista São João, o discípulo amado do Senhor.

A Páscoa tem significado de passagem

Santo Agostinho teve presente o capitulo 13 de São João onde se diz que “Jesus antes da festa da Páscoa, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cfr. Jo 13, 1). Para ele entra aqui os significados de Páscoa, que se de um lado vem do grego páschein, padecer[1], de outro lado a Páscoa tem o significado na sua verdadeira língua, a hebraica, a qual diz respeito à passagem, uma vez que o povo de Deus celebrou a Páscoa no momento em que as pessoas fugiam do Egito ao passar pelo Mar Vermelho (cf. Ex 14,29). O tempo completou-se onde Jesus seria conduzido como ovelha ao matadouro, para o único sacrifício e perfeito (cf. Is 53,7). Qual seria a passagem que Jesus iria realizar? A passagem dele foi deste mundo ao Pai[2], de modo que Ele passou pelo sofrimento, pela cruz para chegar à glória da ressurreição. A Páscoa possui o significado da passagem do Senhor deste mundo para a vida divina.

Ele teve um amor grande, até o fim

O amor do Senhor não teve limites para com os seus e para o gênero humano, indo até o fim. O Bispo de Hipona afirmou que o fim do qual o evangelista afirmou, trata-se daquele que leva à plenitude, não de um fim que aniquila, perece, mas do fim de um amor sem limites[3]. É um amor segundo as palavras evangélicas que podem ser tomadas também num sentido humano, segundo o qual se diz que Jesus amou os seus até o fim pois os amou até a morte[4]. É evidente que o amor de Jesus não se esgota pela morte; Ele sempre nos amou e nos ama até o fim para significar um amor que não mediu palavras e ações[5].

O Pai pusera tudo nas mãos  de Jesus

O Evangelista São João afirmou que o Pai pusera tudo nas mãos de seu Filho, Jesus, que o diabo pusera no coração de Judas o propósito de entregá-lo, que Ele viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela e começou a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (cf. Jo 13,2-5)[6]. Jesus não fez este gesto maravilhoso no fim, mas durante a ceia, pois Ele tornou a sentar-se à mesa, significando a necessidade do serviço como doação de si mesmo, para o próximo e para Deus.

O projeto de entregar Jesus

São João afirmou que Judas queria entregar Jesus às autoridades tendo presente o diabo que pusera isso no coração dele para entregar Jesus[7]. Segundo Santo Agostinho esta ação de pôr era uma sugestão espiritual, não do ouvido, era pelo pensamento, não era do corpo, mas era do espírito. Santo Agostinho levantou a pergunta como é possível que as diabólicas sugestões se introduzam e se misturem com os pensamentos humanos? A resposta vem quando o consentimento que presta a mente humana a cada uma das sugestões por mérito humano o fará se tiver sido abandonada pelo auxílio divino, ou por obra da graça. Já tinha sido posto no coração de Judas, por ação diabólica, que o discípulo entregasse o Mestre que ele não aprendera tratar-se de Deus. Na verdade Judas foi ao banquete como espião do Pastor, segundo o bispo de Hipona, como quem espreita o Salvador, e vende o Redentor. Viera nesta condição, e pensava que fosse ignorado, pois não pode enganar Aquele a quem pretendia enganar. No entanto Jesus percebeu o pensamento e a ação de Judas que iam se realizar contra o Senhor[8].

O gesto humilde do Senhor

Como foi dito, Jesus levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela. Colocou em seguida água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com quem estava cingido (cf. Jo 13, 5). O evangelista quis enaltecer seja a humildade de Jesus servidor das pessoas e da humanidade, como também enaltecer a sua excelsitude[9]. Tendo presente que o Pai pôs tudo em suas mãos, Ele não lavou as mãos dos discípulos, mas sim os seus pés. Ele exerceu o serviço de quem era escravo[10], demonstrando o amor pelo serviço essencial que aconteça na vida da comunidade.

A atitude de Jesus foi aquela de uma grande humildade, no sentido de que Deus era, é o Encarnado, assumindo todas as coisas referentes à humanidade na maior simplicidade da vida. Ele lavou também os pés de Judas, aquele que deveria trair a Jesus, demonstrando um grande grau de humildade, cujas mãos Ele antevia já comprometidas com o crime[11].

Jesus estava próximo de sua paixão, morte e ressurreição. Com o gesto do lava-pés ensinou aos seus discípulos e a todos nós, a importância do serviço, da vivência da humildade, fazendo perecer para sempre a vaidade, o orgulho das pessoas, de suas autoridades, para enaltecer a caridade e o amor entre as pessoas, com Deus[12]. A Páscoa é passagem do mistério da encarnação, paixão, morte, ao mistério da glória da ressurreição e a sua entrada à direita do Pai.

Notas:

[1] Cfr. Homilia 55,1. O amor até o fim.  In: Santo Agostinho. Comentários a São João II. Evangelho – Homilias 50-124. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 73.

[2] Cfr. Idem, pg. 74.

[3] Cfr. Ibidem, n. 2, pg. 75.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem, pgs. 75-76.

[6] Cfr. Ibidem, n. 03, pg. 76.

[7] Cfr. Ibidem, n. 04, pg. 76.

[8] Cfr Ibidem, pg. 77.

[9] Cfr. Ibidem, n. 6. Pg. 78.

[10] Cfr. Ibidem.

[11] Cfr. Ibidem.

[12] Cfr. Ibidem, n. 7, pg. 79.

Fonte: https://cnbbn2.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF