PRÁTICA SOCIAL
09/02/2026
Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)
A Igreja nasce com uma missão especial: o serviço do Reino
de Deus, anunciado e inaugurado por Jesus Cristo. Por isso, ela persiste na
prática dos valores evangélicos, na busca de ser “luz do mundo” e “sal da
terra” (Mt 5,12.14). Já nos seus primórdios, a Igreja se preocupava
com os necessitados, organizando-se como comunidade de partilha e
solidariedade (cf. At 2,42-47; 4,32-35). Para o melhor atendimento
dos empobrecidos, especialmente as viúvas, foi instituído o ministério do diaconato
(cf. At 6,1-7). Sabendo das dificuldades dos cristãos de Jerusalém, Paulo
promoveu uma grande campanha nas diversas Igrejas para socorrer os
cristãos em penúria (cf. Rm 15,26-28; Gl 2,10; 2 Cor
8-9).
O cuidado com os empobrecidos e com os doentes é atestado
por vários Padres da Igreja. Sabemos que São Basílio construiu um grande abrigo
para acolher os pobres. Tão grande que era, foi considerado uma nova cidade
junto a Cesareia da Capadócia, recebendo o nome de “Basilíada”. Muitos outros
bispos mantinham, em suas Igrejas, abrigos para acolher os andarilhos e
empobrecidos em geral. Tantos outros Padres denunciavam o poder opressor
que explorava a classe baixa. É importante notar que esses valorosos
Padres da Igreja não somente denunciavam a opulência dos ricos, que não
tinham abertura para a partilha, mas realizavam
ações concretas e emergenciais para não deixar os pobres
desamparados. Assim é que surgem os hospitais e abrigos para crianças e
idosos desamparados.
No período medieval, houve grandes esforços da Igreja
na acolhida dos empobrecidos, mas o sinal marcante de radicalidade no
serviço aos empobrecidos nos foi dado por São Francisco de Assis, que
acolhia empobrecidos, mendigos e leprosos para cuidar deles com imenso
amor. O santo de Assis foi um verdadeiro sinal dos tempos para apontar que o
cuidado com a pobreza é missão da Igreja. Tanto os franciscanos quanto
outras variadas ordens e congregações religiosas que foram surgindo se
dedicaram ao serviço dos empobrecidos, dos desamparados, de crianças, idosos,
viúvos e enfermos. A mão misericordiosa do Senhor era estendida aos
marginalizados por meio de pessoas consagradas. Quanto bem esses consagrados
fizeram e fazem para os excluídos da sociedade.
As transformações do mundo moderno, especialmente após a
Revolução Burguesa na França e a Revolução Industrial na Inglaterra, levaram a
Igreja a assumir outros tipos de ação concreta de caridade. A pura assistência
aos desvalidos já não era suficiente. Havia que apoiar os sindicatos, as
associações de classe e os trabalhadores em geral para fazer cumprir seus
direitos, numa sociedade materialista e capitalista, que tinha como meta o
lucro fácil. Foi nesse contexto que Leão XIII ergueu sua voz profética por meio
da encíclica Rerum Novarum (1891), anunciando um quadro
de coisas novas que exigiam posturas novas da Igreja, a serviço dos direitos
dos trabalhadores. Essa encíclica foi um divisor de águas na prática
evangélica.
O trabalho de assistência social da Igreja é abrangente. Há
um número sem fim de creches, abrigos para idosos, para adolescentes e jovens,
escolas profissionalizantes, oferecimento de sopas e refeições, acolhida aos
empobrecidos e abandonados, entrega de cestas básicas, enxovais para crianças,
farmácias e hospitais populares, remédios caseiros, alimentação alternativa,
cuidado com gestantes e crianças, assistência e apoio a pessoas privadas de
liberdade e a suas famílias, campanhas de agasalho, de roupas em geral e de
alimentação, as celebrações da partilha ou o Domingo da Caridade. Como Igreja,
fazemos muito pelos pobres, mas é necessário que nossa ação cresça, pois cresce
o número dos empobrecidos. Deve-se sempre ter cuidado para não alimentar a
situação estrutural de miséria que aí está, mas propor saídas para a superação
da miséria e da fome.
A Igreja se preocupa com a transformação social. O trabalho
das pastorais sociais vem trazendo bons resultados: apoio aos movimentos
sociais, aos sindicatos, à luta pela moradia, pela reforma agrária etc. As
Campanhas da Fraternidade, com conteúdo social, vêm despertando os cristãos
para a necessidade de concentrar esforços na busca de uma nova sociedade. As
semanas sociais, os projetos de lei de iniciativa popular, os fóruns
sobre reforma agrária, reforma urbana etc., refletindo temas que envolvem os
desafios que enfrentamos, são grandes meios de conscientização. É preciso
assumir mais atividades políticas, como a participação em Conselhos
Municipais e outros tipos de engajamento que promovam políticas
públicas, para garantir maior respeito à dignidade do ser humano. Os
projetos de pastoral contemplam temas que comprometem a ação social dos
cristãos. Percebemos que nosso compromisso de engajamento nessa área ainda é
insuficiente.
Precisamos assumir mais as grandes opções pastorais de nossa
Igreja, especialmente a opção pelos pobres. Cada vez mais nos conscientizamos
de que não podemos ser uma Igreja voltada somente para a instituição. O Papa
Francisco nos falou de uma Igreja em saída para as periferias. É preciso abrir
nosso campo de atuação para sermos testemunhas de Jesus Cristo no meio do
mundo. Ser Igreja supõe muito mais do que realizar liturgias bonitas. Essas
liturgias serão mais belas se expressarem nossa vivência do Evangelho, no
seguimento de Jesus Cristo, que viveu pobre, evangelizou os pobres e morreu
completamente despojado, até mesmo de suas vestes.
O Papa Leão XIV dedicou sua primeira Exortação Apostólica
“Sobre o Amor para com os Pobres”. Ele faz um resgate da Tradição da Igreja,
desde o Evangelho até os dias atuais, sobre a opção pelos pobres: “O cuidado
com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol que, a
partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os
tempos. Portanto, devemos sentir a urgência de convidar todos a entrar neste
rio de luz e vida que provém do reconhecimento de Cristo no rosto dos
necessitados e sofredores. O amor pelos pobres é um elemento essencial da
história de Deus conosco e irrompe do próprio coração da Igreja como um apelo
contínuo ao coração dos cristãos, tanto das suas comunidades como de cada um
individualmente. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja sente como sua própria
‘carne’ a vida dos pobres, que são parte privilegiada do povo a caminho. Por
isso, o amor aos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é garantia
evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus” (Dilexi Te,
103).

Nenhum comentário:
Postar um comentário