TEMPO DE PÁSCOA
retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias
Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger
A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo
Por Cardeal Joseph Ratzinger
SEGUNDA MEDITAÇÃO
O ocultamento de Deus neste mundo constitui o verdadeiro mistério do Sábado Santo, um mistério já insinuado nas enigmáticas palavras de que Jesus "desceu ao inferno". Ao mesmo tempo, a experiência do nosso tempo nos ofereceu uma abordagem completamente nova ao Sábado Santo, pois o ocultamento de Deus no mundo que lhe pertence e que deveria proclamar o seu nome com mil línguas, a experiência da impotência de Deus que, no entanto, é onipotente — esta é a experiência e a miséria do nosso tempo. Mas mesmo que o Sábado Santo tenha se aproximado tão profundamente de nós, mesmo que compreendamos o Deus do Sábado Santo mais do que a poderosa manifestação de Deus em meio a trovões e relâmpagos mencionada no Antigo Testamento, permanece a questão do que realmente significa quando se diz misteriosamente que Jesus "desceu ao inferno".
Sejamos claros: ninguém é capaz de explicá-lo verdadeiramente. Tampouco fica mais claro dizer que aqui inferno é uma tradução inadequada da palavra hebraica sheol. que se refere simplesmente a todo o reino dos mortos, e, portanto, a fórmula originalmente significava apenas que Jesus desceu às profundezas da morte, morreu de verdade e compartilhou do abismo do nosso destino mortal. De fato, surge então a questão: o que é realmente a morte e o que de fato acontece quando alguém desce às profundezas da morte? Devemos aqui considerar o fato de que a morte não é mais a mesma depois que Cristo a suportou, depois que a aceitou e a penetrou, assim como a vida, o ser humano, não é mais a mesma depois que, em Cristo, a natureza humana pôde entrar em contato, e de fato entrou, com o próprio ser de Deus.
Anteriormente, a morte era meramente morte, separação da terra dos vivos e, embora em uma profundidade diferente, algo como o "inferno", o lado noturno da existência, escuridão impenetrável. Mas agora a morte também é vida, e quando cruzamos a gélida solidão do limiar da morte, encontramos continuamente aquele que é a vida, que quis tornar-se companheiro de nossa solidão derradeira e que, na solidão mortal de sua angústia no Jardim das Oliveiras e em seu grito na cruz, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", tornou-se participante de nossa solidão. Se uma criança se aventurasse sozinha pela noite escura em uma floresta, teria medo mesmo que lhe provássemos cem vezes que não havia perigo. Ela não tem medo de algo específico, algo que possa ser nomeado, mas na escuridão experimenta insegurança, orfandade, a natureza sinistra da própria existência. Somente uma voz humana poderia consolá-la; somente a mão de um ente querido poderia dissipar a angústia como um pesadelo.
Há uma angústia — a verdadeira, aninhada nas profundezas de nossa solidão — que não pode ser vencida pela razão, mas apenas pela presença de alguém que nos ama. Essa angústia, na verdade, não tem objeto ao qual possamos dar um nome, mas é apenas a expressão terrível de nossa solidão suprema. Quem não sentiu a sensação aterradora desse estado de abandono? Quem não sentiria o milagre sagrado e consolador que uma palavra de afeto proporciona nesses momentos? Mas onde há tamanha solidão que não pode mais ser alcançada pela palavra transformadora do amor, então falamos do inferno. E sabemos que não são poucos os que, em nossa época aparentemente otimista, acreditam que todo encontro permanece superficial, que ninguém tem acesso às profundezas últimas e verdadeiras do outro e que, portanto, no âmago de toda existência reside o desespero, o próprio inferno. Jean-Paul Sartre expressou isso poeticamente em uma de suas peças, expondo simultaneamente o cerne de sua doutrina da humanidade.
Uma coisa é certa: existe uma noite em cujo abandono escuro nenhuma palavra de consolo penetra, uma porta que devemos atravessar em absoluta solidão: a porta da morte. Toda a angústia deste mundo é, em última análise, a angústia causada por essa solidão. Por essa razão, no Antigo Testamento, o termo para o reino dos mortos era idêntico ao do inferno. Sheol . A morte, na verdade, é a solidão absoluta. Mas aquela solidão que não pode mais ser iluminada pelo amor, que é tão profunda que o amor não consegue mais alcançá-la, é o inferno.
"Desceu ao inferno": esta confissão do Sábado Santo significa que Cristo ultrapassou os portões da solidão, que desceu às profundezas inalcançáveis e intransponíveis da nossa condição de solidão. Significa, porém, que mesmo na noite final, na qual nenhuma palavra penetra, na qual somos todos como crianças expulsas, chorando, há uma voz que nos chama, uma mão que nos toma e nos guia. A solidão intransponível do homem foi vencida no momento em que ele se viu nela. O inferno foi conquistado no momento em que o amor também entrou na região da morte e a terra de ninguém da solidão foi habitada por ele. Em suas profundezas, o homem não vive de pão, mas na autenticidade do seu ser, vive pelo fato de ser amado e de ter permissão para amar. A partir do momento em que a presença do amor se faz presente no espaço da morte, a vida penetra a morte: para os vossos fiéis, ó Senhor, a vida não é tirada, mas transformada — reza a Igreja na liturgia fúnebre.
Ninguém pode, em última análise, medir o significado destas palavras:
"desceu ao inferno". Mas se nos for concedido aproximar-nos da hora
da nossa solidão final, poderemos vislumbrar algo da grande clareza deste
mistério obscuro. Na certeza de que, nessa hora de extrema solidão, não
estaremos sós, já podemos vislumbrar algo do que está por vir. E em meio ao
nosso protesto contra as trevas da morte de Deus, começamos a ser gratos pela
luz que nos chega dessas mesmas trevas.

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