O bispo Erik Varden faz sua quinta reflexão nos Exercícios
Espirituais no Vaticano para o Papa Leão XIV, os cardeais residentes em Roma e
os chefes dos Dicastérios, concentrando-se no tema: "O esplendor da
verdade". Publicamos um resumo de sua reflexão.
Dom Erik Varden, OCSO*
Bernardo quer nos manter em alerta. Afirma: “Eu vos advirto:
ninguém vive sobre a terra sem tentações; se por acaso alguém estiver livre
delas, certamente deve esperar outra.” Devemos cultivar o justo equilíbrio
entre a confiança na ajuda de Deus e a desconfiança em relação à nossa
fragilidade, temendo as tentações e aceitando sua inevitabilidade, lembrando
que Deus nos submete a elas porque são úteis.
Úteis em que sentido?
Resistindo às flechas lançadas pelo Pai da Mentira, nosso
compromisso com a verdade se fortalecerá, assim como nossa confiança nela.
Afastados da falsidade que nos enfraquece, seremos capazes de nos converter
para confirmar nossos irmãos.
Bernardo vê a ambição como negação da verdade. A ambição é
uma forma não muito sutil de avidez. Ao descrever esse vício, Bernardo, sempre
eloquente, supera a si mesmo. A ambição, diz ele, é “um mal sutil, um veneno
secreto, uma peste oculta, artífice de fraudes; mãe da hipocrisia, genitora da
inveja, origem dos vícios; é a centelha que acende os crimes, faz enferrujar as
virtudes, apodrecer a santidade, cegar os corações. Transforma os remédios em
doenças. Da medicina gera fraquezas.” A ambição, diz ele, nasce de uma
“alienação da mente”. É uma loucura que se manifesta quando se esquece a
verdade. O fato de a ambição ser uma forma de desequilíbrio mental a torna
ridícula em qualquer de suas manifestações, mas sobretudo quando se evidencia
em pessoas dedicadas, por vocação, ao serviço dos outros. Não é por acaso que a
figura do sacerdote ambicioso infesta a literatura e o cinema como um motivo
cômico, embora não muito divertido — desde os párocos servis de Jane Austen até
o ácido sacerdote cortesão no notável filme Ridículo, de Patrice
Leconte.
“O que é a verdade?”
As pessoas fazem essa pergunta com sinceridade e, muitas
vezes, com boa vontade, apesar da confusão, do medo e da pressa em que vivem.
Não podemos deixá-las sem resposta. Não podemos desperdiçar energias em
tentações banais, feitas de medo, vanglória e ambição. Nossos melhores recursos
devem servir para sustentar a Verdade substancial e essencial, que liberta de
qualquer acúmulo, mais ou menos cintilante, mais ou menos maligno.
Na complexidade do mundo de hoje, é imperativo articular o
mundo à luz de Cristo. Cristo, que é a Verdade, não apenas nos protege. Ele nos
renova, impaciente por revelar-se por meio de nós a uma criação cada vez mais
consciente de ser escrava da futilidade.
Às vezes somos tentados a pensar que devemos acompanhar as
modas do mundo. É, eu diria, um procedimento duvidoso. A Igreja é um corpo que
se move lentamente: correria o risco de se adornar fora de época e de se
expressar com o jargão de ontem. Se, ao contrário, falar bem a sua própria
linguagem — a da Bíblia e da liturgia, a de seus pais e de suas mães, a de seus
poetas e santos, que continuam a nascer — permanecerá capaz de enunciar
verdades perenes de modo novo. Será original e fresca, e poderá hoje, como no
passado, orientar a cultura.
É um trabalho que possui uma dimensão intelectual crucial.
Possui também uma dimensão existencial. Como disse o cardeal Schuster pouco
antes de morrer: “Parece que as pessoas já não se deixam convencer por nossa
pregação, mas, diante da santidade, ainda acreditam, ainda se ajoelham e ainda
rezam.”
O chamado universal à santidade, isto é, o chamado a
encarnar a verdade, foi talvez a nota mais forte do Concílio Vaticano II.
Ressoou esplendidamente como um gongo em todas as suas deliberações. A
pretensão cristã à verdade torna-se convincente quando seu esplendor se
manifesta de forma pessoal, por meio de um amor disposto ao sacrifício de si na
santidade, purificado das tentações do compromisso.
* Tradução não oficial da síntese publicada neste
endereço: coramfratribus.com/life-illumined/splendour-of-truth/

Nenhum comentário:
Postar um comentário