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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Jerusalém: na intimidade do Cenáculo (Parte 1/2)

Jerusalém no ano 70 e Cidade Antiga na atualidade. Gráfico: J. Gil | Opus Dei.

Jerusalém: na intimidade do Cenáculo

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. (Jo 13, 1). Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos, introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.

26/02/2018

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim[1]. Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos, introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.

Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?[2], tinham perguntado os discípulos. Ide à cidade. Um homem carregando uma bilha de água virá ao vosso encontro. Segui-o e dizei ao dono da casa em que ele entrar: “O Mestre manda perguntar: Onde está a sala em que posso comer a ceia pascal com os meus discípulos?” Ele, então, vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada. Lá fareis os preparativos para nós![3].

Conhecemos os fatos que aconteceram durante Última Ceia do Senhor com os Seus discípulos: a instituição da Eucaristia e dos Apóstolos como sacerdotes da Nova Aliança; a discussão entre eles sobre quem se considerava o maior; o anúncio da traição de Judas, do abandono dos discípulos e das negações de Pedro: o anúncio do Mandamento Novo e o lava-pés; o discurso de despedida e a oração sacerdotal de Jesus…

O Cenáculo já seria digno de veneração só pelo que aconteceu dentro das suas paredes naquela noite, mas foi também ali que Jesus ressuscitado apareceu em duas ocasiões aos Apóstolos, que tinham se escondido dentro com as portas fechadas com medo dos judeus[4]. Na segunda vez, Tomé retificou a sua incredulidade com um ato de fé na divindade de Jesus: Meu Senhor e meu Deus![5]. Os Atos dos Apóstolos transmitiram-nos também que a Igreja, nas suas origens, se reunia no Cenáculo, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele[6]. No dia de Pentecostes, receberam o Espírito Santo, que os estimulou a partirem para pregar a Boa Nova.

Os evangelistas não nos fornecem dados que permitam identificar este lugar, mas a Tradição situa-o no extremo sudoeste de Jerusalém, sobre uma colina que começou a chamar-se Sião somente na época cristã. Originalmente, este nome aplicava-se à fortaleza jebuseia que Davi conquistou; depois, ao monte do Templo, onde se guardava a Arca da Aliança; e mais tarde, nos salmos e nos livros proféticos da Bíblia, a toda a cidade e seus habitantes. Depois do desterro da Babilônia, o termo adquiriu um significado escatológico e messiânico, para indicar a origem da nossa salvação. Com base neste sentido espiritual, quando o Templo foi destruído no ano 70, a primeira comunidade cristã aplicou-o ao monte onde se encontrava o Cenáculo, pela sua relação com o nascimento da Igreja.

Recebemos o testemunho desta tradição através de Santo Epifânio de Salamina, que viveu em finais do século IV, foi monge na Palestina e bispo em Chipre. Relata que o imperador Adriano, quando foi ao Oriente no ano de 138, “encontrou Jerusalém completamente arrasada e o Templo de Deus destruído e profanado, com exceção de uns poucos edifícios e da pequena igreja dos cristãos, que se encontrava no lugar do Cenáculo, para onde os discípulos foram depois de regressar do monte das Oliveiras, após a subida aos céus do Salvador. Estava construída na zona de Sião que sobreviveu à cidade, com alguns edifícios perto de Sião e sete sinagogas, que perduraram no monte como cabanas; parece que só uma destas se conservou até à época do bispo Máximo e do imperador Constantino”[7].

Jerusalém | Opus Dei.

Este testemunho coincide com outros do século IV: o que foi transmitido por Eusébio de Cesareia, com um elenco de vinte e nove bispos com sede em Sião desde a era apostólica até ao seu tempo; o peregrino anônimo de Bordeaux, que viu ainda a última das sete sinagogas; São Cirilo de Jerusalém, que se refere à igreja superior em que se recordava a vinda do Espírito Santo; e a peregrina Egéria, que descreve uma liturgia celebrada ali em memória das aparições do Senhor ressuscitado.

Por diversas fontes históricas, litúrgicas e arqueológicas, sabemos que durante a segunda metade do século IV a pequena igreja foi substituída por uma grande basílica, chamada Santa Sião, e considerada a mãe de todas as igrejas. Além do Cenáculo, incluía o lugar da Dormição da Virgem, que a tradição situava numa casa próxima; também conservava a coluna da flagelação e as relíquias de Santo Estevão, e no dia 26 de Dezembro comemorava-se ali o rei Davi e São Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém. Conhece-se pouco do traçado deste templo, que foi incendiado pelos persas no século VII, restaurado posteriormente e de novo destruído pelos árabes.

Quando os cruzados chegaram à Terra Santa, no século XII, reconstruíram a basílica e deram-lhe o nome de Santa Maria do Monte Sião. Na nave sul da igreja estava o Cenáculo, que continuava a ter dois andares, cada um dividido em duas capelas: no superior, as dedicadas à instituição da Eucaristia e à vinda do Espírito Santo; no inferior, a do lava-pés e a das aparições de Jesus ressuscitado. Nesse andar colocou-se o sarcófago – monumento funerário no qual não está o cadáver da pessoa a quem é dedicado – em honra de Davi. Reconquistada a Cidade Santa por Saladino em 1187, a basílica não sofreu danos, e inclusive eram permitidas as peregrinações e o culto. Contudo, esta situação não durou muito: em 1244, a igreja foi definitivamente destruída e só se salvou o Cenáculo, cujos restos chegaram até nós.

A sala gótica atual data do século XIV e deve-se à restauração realizada pelos franciscanos, os seus legítimos donos desde 1342. Os freis haviam tomado conta do santuário sete anos antes e edificado um convento junto do lado sul. Na mesma data, por bula papal, ficou constituída a Custódia da Terra Santa e foi-lhes cedida a propriedade do Santo Sepulcro e do Cenáculo pelos reis de Nápoles, que por sua vez a tinham adquirido ao sultão do Egito. Não sem dificuldades, os franciscanos viveram em Sião durante mais de dois séculos, até que foram expulsos pela autoridade turca em 1551. Já antes, em 1524, lhes tinha sido usurpado o Cenáculo, que foi convertido em mesquita com o argumento de que ali se encontraria enterrado o rei Davi, considerado profeta pelos muçulmanos. Assim permaneceu até 1948, quando passou para as mãos do estado de Israel, que o administra desde então.

O acesso ao Cenáculo é através de um edifício anexo, subindo uma escadaria interior e atravessando um terraço a céu aberto. Trata-se de uma sala de uns 15 metros de comprimento e 10 de largura, praticamente sem adornos nem mobiliário. Várias pilastras nas paredes e duas colunas no centro, com capitéis antigos reutilizados, sustentam um teto em abóbada. Nos fechos da abóbada ficaram restos de relevos com figuras de animais; entre os quais é visível um cordeiro.

Notas

[1] Jo 13, 1

[2] Mc 14,12.

[3] Mc 14, 13-15.

[4] Cf. Jo 20, 19-29.

[5] Jo 20, 28.

[6] At 1, 13-14

[7] Santo Epifânio de Salamina, De mensuris et ponderibus, 14.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF