Jerusalém: na intimidade do Cenáculo
Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. (Jo 13, 1). Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos, introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.
26/02/2018
Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado
a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até o fim[1].
Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos,
introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.
Onde queres que façamos os preparativos para comeres a
Páscoa?[2], tinham
perguntado os discípulos. Ide à cidade. Um homem carregando uma bilha
de água virá ao vosso encontro. Segui-o e dizei ao dono da casa em que ele
entrar: “O Mestre manda perguntar: Onde está a sala em que posso comer a ceia
pascal com os meus discípulos?” Ele, então, vos mostrará, no andar de cima, uma
grande sala, arrumada. Lá fareis os preparativos para nós![3].
Conhecemos os fatos que aconteceram durante Última Ceia do
Senhor com os Seus discípulos: a instituição da Eucaristia e dos Apóstolos como
sacerdotes da Nova Aliança; a discussão entre eles sobre quem se considerava o
maior; o anúncio da traição de Judas, do abandono dos discípulos e das negações
de Pedro: o anúncio do Mandamento Novo e o lava-pés; o discurso de despedida e
a oração sacerdotal de Jesus…
O Cenáculo já seria digno de veneração só pelo que aconteceu
dentro das suas paredes naquela noite, mas foi também ali que Jesus
ressuscitado apareceu em duas ocasiões aos Apóstolos, que tinham se escondido
dentro com as portas fechadas com medo dos judeus[4].
Na segunda vez, Tomé retificou a sua incredulidade com um ato de fé na
divindade de Jesus: Meu Senhor e meu Deus![5].
Os Atos dos Apóstolos transmitiram-nos também que a Igreja, nas suas origens,
se reunia no Cenáculo, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e
João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu,
Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente
na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os
irmãos dele[6].
No dia de Pentecostes, receberam o Espírito Santo, que os estimulou a partirem
para pregar a Boa Nova.
Os evangelistas não nos fornecem dados que permitam
identificar este lugar, mas a Tradição situa-o no extremo sudoeste de
Jerusalém, sobre uma colina que começou a chamar-se Sião somente na época
cristã. Originalmente, este nome aplicava-se à fortaleza jebuseia que Davi
conquistou; depois, ao monte do Templo, onde se guardava a Arca da Aliança; e
mais tarde, nos salmos e nos livros proféticos da Bíblia, a toda a cidade e
seus habitantes. Depois do desterro da Babilônia, o termo adquiriu um
significado escatológico e messiânico, para indicar a origem da nossa salvação.
Com base neste sentido espiritual, quando o Templo foi destruído no ano 70, a
primeira comunidade cristã aplicou-o ao monte onde se encontrava o Cenáculo,
pela sua relação com o nascimento da Igreja.
Recebemos o testemunho desta tradição através de Santo
Epifânio de Salamina, que viveu em finais do século IV, foi monge na Palestina
e bispo em Chipre. Relata que o imperador Adriano, quando foi ao Oriente no ano
de 138, “encontrou Jerusalém completamente arrasada e o Templo de Deus
destruído e profanado, com exceção de uns poucos edifícios e da pequena igreja
dos cristãos, que se encontrava no lugar do Cenáculo, para onde os discípulos
foram depois de regressar do monte das Oliveiras, após a subida aos céus do
Salvador. Estava construída na zona de Sião que sobreviveu à cidade, com alguns
edifícios perto de Sião e sete sinagogas, que perduraram no monte como cabanas;
parece que só uma destas se conservou até à época do bispo Máximo e do
imperador Constantino”[7].
Este testemunho coincide com outros do século IV: o que foi
transmitido por Eusébio de Cesareia, com um elenco de vinte e nove bispos com
sede em Sião desde a era apostólica até ao seu tempo; o peregrino anônimo de
Bordeaux, que viu ainda a última das sete sinagogas; São Cirilo de Jerusalém,
que se refere à igreja superior em que se recordava a vinda do Espírito Santo;
e a peregrina Egéria, que descreve uma liturgia celebrada ali em memória das
aparições do Senhor ressuscitado.
Por diversas fontes históricas, litúrgicas e arqueológicas,
sabemos que durante a segunda metade do século IV a pequena igreja foi
substituída por uma grande basílica, chamada Santa Sião, e considerada a mãe de
todas as igrejas. Além do Cenáculo, incluía o lugar da Dormição da
Virgem, que a tradição situava numa casa próxima; também conservava a
coluna da flagelação e as relíquias de Santo Estevão, e no dia 26 de Dezembro
comemorava-se ali o rei Davi e São Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém.
Conhece-se pouco do traçado deste templo, que foi incendiado pelos persas no
século VII, restaurado posteriormente e de novo destruído pelos árabes.
Quando os cruzados chegaram à Terra Santa, no século XII,
reconstruíram a basílica e deram-lhe o nome de Santa Maria do Monte Sião. Na
nave sul da igreja estava o Cenáculo, que continuava a ter dois andares, cada
um dividido em duas capelas: no superior, as dedicadas à instituição da
Eucaristia e à vinda do Espírito Santo; no inferior, a do lava-pés e a das
aparições de Jesus ressuscitado. Nesse andar colocou-se o sarcófago – monumento
funerário no qual não está o cadáver da pessoa a quem é dedicado – em honra de
Davi. Reconquistada a Cidade Santa por Saladino em 1187, a basílica não sofreu
danos, e inclusive eram permitidas as peregrinações e o culto. Contudo, esta
situação não durou muito: em 1244, a igreja foi definitivamente destruída e só
se salvou o Cenáculo, cujos restos chegaram até nós.
A sala gótica atual data do século XIV e deve-se à
restauração realizada pelos franciscanos, os seus legítimos donos desde 1342.
Os freis haviam tomado conta do santuário sete anos antes e edificado um
convento junto do lado sul. Na mesma data, por bula papal, ficou constituída a
Custódia da Terra Santa e foi-lhes cedida a propriedade do Santo Sepulcro e do
Cenáculo pelos reis de Nápoles, que por sua vez a tinham adquirido ao sultão do
Egito. Não sem dificuldades, os franciscanos viveram em Sião durante mais de
dois séculos, até que foram expulsos pela autoridade turca em 1551. Já antes,
em 1524, lhes tinha sido usurpado o Cenáculo, que foi convertido em mesquita
com o argumento de que ali se encontraria enterrado o rei Davi, considerado
profeta pelos muçulmanos. Assim permaneceu até 1948, quando passou para as mãos
do estado de Israel, que o administra desde então.
O acesso ao Cenáculo é através de um edifício anexo, subindo
uma escadaria interior e atravessando um terraço a céu aberto. Trata-se de uma
sala de uns 15 metros de comprimento e 10 de largura, praticamente sem adornos
nem mobiliário. Várias pilastras nas paredes e duas colunas no centro, com
capitéis antigos reutilizados, sustentam um teto em abóbada. Nos fechos da
abóbada ficaram restos de relevos com figuras de animais; entre os quais é
visível um cordeiro.
Notas
[1] Jo
13, 1
[2] Mc
14,12.
[3] Mc
14, 13-15.
[4] Cf.
Jo 20, 19-29.
[5] Jo
20, 28.
[6] At
1, 13-14
[7] Santo
Epifânio de Salamina, De mensuris et ponderibus, 14.


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