Vanderlei
de Lima - publicado em 08/03/20 - atualizado em
27/03/26
É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus.
Eis o título de um importante livro publicado pelas Edições
Subiaco, de Juiz de Fora, MG (4ª edição ampliada, 2017, 216 págs.), e que será
apresentado neste artigo.
Reúne as maiores autoridades no assunto: Guigo II, o
cartuxo, Enzo Bianchi, Giorgio Giurissato, Albert Vinnel e Irineu Resende
Guimarães. Embora cada autor tenha o seu modo próprio de expor a Lectio,
é Guigo II, o nono prior da Grande Cartuxa, do século XII, quem dá o tom ao
livro. Afinal, sua Carta sobre a vida contemplativa ou Escada
dos monges “é um clássico da espiritualidade monástica, enquanto
retoma e sistematiza os ensinamentos da tradição monástica anterior sobre
a lectio divina, e enquanto guiou gerações de monges nos caminhos
da oração interior, como o testemunha o grande número de manuscritos que
chegaram até nós” (p. 9).
Daí a importante questão: que é lectio divina e
como se faz? – Respondemos que é a leitura orante da Palavra de Deus. Isso
devido ao valor da Sagrada Escritura em si (cf. Dei Verbum, 21, p.
138-139). É uma leitura da Sagrada Escritura à luz de Deus (cf. p. 119, 191,
201 e 206). Faz-se por meio de quatro passos que, de acordo com Guigo II,
formam “a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu” (p. 16).
Vejamos cada degrau, segundo a exposição do cartuxo:
“a leitura é o estudo assíduo da Escritura, feito com
aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da
mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento de uma verdade
oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus,
para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma
certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as
alegrias da eterna doçura” (p. 16-17). E completa: “a leitura é feita segundo
um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais
interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa por cima de todo
sentido. O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o
terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados” (p. 28).
As bases bíblicas para a prática da leitura orante da
Escritura estão, segundo Enzo Bianchi, no capítulo 8 do livro de Neemias e em 2
Timóteo 3,14-16 (cf. p. 116). Note-se ainda que a Lectio se
faz útil para posteriores preparações de homilias, à luz da chamada exegese
canônica, ou seja, a da interpretação da Escritura pela própria Escritura, sem
interpolações ideológicas estranhas (cf. p. 38, 40). É Bianchi mesmo quem
afirma: “que a passagem [bíblica] se auto interpreta. A Escritura é a
intérprete da Escritura. Este é o grande critério rabínico e patrístico para
a lectio divina” (p. 123). Ainda: se os clérigos não praticam
a Lectio divina, “serão na sua pregação, em seu magistério e em sua
pastoral, homens superficiais, inseguros, às voltas com problemas, incapazes de
dizer uma palavra que tenha ‘autoridade’, porém semelhante aos escribas (cf. Mt
7,28), enrubescendo muitas vezes com o Evangelho que eles anunciam (cf. 2Cor
3,12; 4,2; Rm 1,16)” (p. 45).
Certo é que para se fazer uma Lectio proveitosa
deve-se ter: 1) as luzes do Espírito Santo. Sem Ele, assevera Irineu Resende
Guimarães, “será apenas uma leitura de um texto qualquer. Só com a ajuda e a
presença do Espírito Santo é que a nossa leitura será propriamente ‘divina’”
(p. 209) e 2) o estudo capaz de levar o fiel a penetrar o sentido profundo do
texto bíblico que é, sem dúvida, espiritual, mas foi escrito na linguagem
humana de um contexto histórico determinado. Faz-se, pois, oportuno – de acordo
com Albert Vinnel – entender, ainda que sucintamente, de História, Filologia,
Patrologia etc. (cf. p. 181), sem, contudo, cair no intelectualismo (cf. p.
43). Prefira-se sempre a Bíblia de Jerusalém, por seus textos paralelos e notas
explicativas (cf. p. 123).
Finalizando, importa dizer que, às vezes, Deus parece
mostrar-Se ausente na meditação. Deve-se perseverar firme, pois tudo isso é
para o bem espiritual do fiel (cf. Rm 8,28). Ele consola, mas também “afasta-se
por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando
que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e
atribuas a consolação não à graça, mas à natureza” (p. 25).

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