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sábado, 22 de agosto de 2020

O celibato sacerdotal

Apologética
Veritatis Splendor
  • Fonte: Lista “Tradição Católica”

Se há uma coisa que incomoda o demônio e seus asseclas é a virtude da castidade. E mais ainda quando se trata da castidade escolhida como profissão numa vida consagrada a Deus, como é o caso do celibato sacerdotal.

Por isso vez por outra volta à baila a discussão sobre o celibato, aliás objeto de ataque dos hereges de todos os séculos, que, juntamente com a doutrina tradicional, rejeitam quase sempre a disciplina do celibato, tradicional também.

Os ultramodernistas querem a sua abolição definitiva, em nome da “liberdade”(leia-se libertinagem). Outros apenas desejam algumas concessões ou relaxamento. Os padres apóstatas entram na discussão. Fazem-se pesquisas para saber a opinião popular, opinião de um modo geral repleta de sensualidade e materialismo, sem a menor autoridade moral para tratar do assunto.

Vamos, portanto, explicar a verdadeira doutrina sobre o celibato, doutrina essa que não depende do que “acham”, ou do que “dizem”, ou do que “querem”, mas que promana da Escritura e da Tradição multissecular da Igreja.

ANTIGO TESTAMENTO

Orígenes, comentando as diversas ordens de ornamentos sacerdotais judaicos (Êxodo 39 e Levítico 8), nota que os sacerdotes da Antiga Lei só eram obrigados a guardar continência durante o tempo em que estavam de serviço no Templo.

São Sirício, Papa (ano 385) referindo-se a alguns padres que se casaram, baseando-se no proceder do sacerdote judeu que se casava, diz:

  • “Diga-me agora, seja quem for que siga a libertinagem, porque avisava o Senhor aos que entregou a Arca da Aliança, dizendo: “Sede santos porque eu, o vosso Senhor e Deus, sou santo”. Por que queria vê-los afastados de suas casas no ano de seu turno de sacrifícios, senão para que não exercessem comércio carnal com suas mulheres?… Nós somos obrigados à castidade desde o dia de nossa ordenação, para sermos agradáveis a Deus nos sacrifícios cotidianos…”

Ora, se Deus mandava, no sacerdócio figurativo, que era o do Antigo Testamento, que o sacerdote guardasse continência enquanto estivesse de serviço no Templo, o Sacerdote do real Sacerdócio de Cristo deve guardá-lo sempre, porque este está sempre, todos os dias, de serviço, exercendo o seu divino ministério no Templo do Senhor, e em verdadeira, real, direta e imediata comunicação com Ele.

NOVO TESTAMENTO

Mas, na verdade, quem instituiu o celibato foi mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Se a lei do celibato eclesiástico, que encontramos em todo o mundo cristão durante o Império Romano no século IV, não se explica de nenhum modo senão pelo exemplo dos Apóstolos, a continência perfeita dos Apóstolos não se explica, por sua vez, sem os exemplos, em primeiro lugar do Precursor, São João Batista, do qual alguns Apóstolos haviam sido discípulos, e principalmente sem o exemplo e as palavras do próprio Jesus, exortando os seus discípulos ao celibato e a tudo deixar, mesmo suas esposas, pelo amor do Reino dos Céus.

Com efeito, Jesus Cristo deu o grande conselho evangélico da castidade perfeita, proclamando a virgindade por amor do Reino do Céu como estado de perfeição. Mas Ele avisou:

  • “Nem todos são capazes desta resolução, mas somente aqueles a quem isto foi dado”. Que resolução? Ficar virgens “por amor do Reino dos Céus” (S. Mateus 19,11-13)

São Paulo levou vida celibatária e recomendou-a, como Nosso Senhor:

  • “Eu quero que sejais como eu mesmo… Digo também aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom permanecerem assim, como também eu…” (1Coríntios 7,7-8).

A virgindade acrescenta ele, é preferível ao matrimônio por ser o estado mais alto. O cristão está assim mais disposto para servir a Deus, para ser santo “no corpo e no espírito”:

  • “O que está sem mulher está cuidadoso das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus. Mas o que está com mulher está cuidadoso das coisas que são do mundo, de como há de dar gosto à sua mulher, e anda dividido” (1Coríntios 7,32-33).

É evidente que isso não é para todos, mas, como disse Nosso Senhor, para aqueles a quem foi dado compreender.

NA TRADIÇÃO

Assim alicerçado e exaltado nas Sagradas Escrituras, o celibato voluntário começou a ser fielmente praticado por toda a parte na medida em que o Cristianismo ia se difundindo, conforme o testemunho dos Santos Padres e Escritores Eclesiásticos dos primeiros séculos.

Embora ainda não houvesse leis canônicas escritas, segundo tudo o que já foi visto, é dedução lógica concluir que os Apóstolos estabeleceram que não se recrutassem membros do clero superior (sacerdócio) senão dentre “os que puderem compreender” (qui potuerunt capere).

Dado que se trata de uma obrigação de tal modo contrária às paixões humanas, não era mister que essa disciplina, essa lei não escrita, proviesse dos próprios Apóstolos? Quem teria autoridade suficente para impô-la? Mesmo a simples vontade de impô-la teria fracassado.

Na verdade, quem seria levado a acreditar que, se os próprios Apóstolos tivessem dado o exemplo do casamento e o tivessem aconselhado aos primeiros bispos, presbíteros e diáconos da Igreja, se haveria ao menos cogitado no celibato ou na perfeita continência como uma exigência, como uma obrigação, como uma lei reconhecida por todos, no século IV?

Assim, o Concílio de Cartago, no ano 390, a propósito do celibato ou continência perfeita dos bispos, sacerdotes e diáconos e de “todos os que servem os Santos Mistérios”diz, pela boca de Genésio, Bispo de Cartago, presidente do Concílio: “Ut quod apostoli docuerunt et ipsa observavit antiquitas, nos quoque custodiamus” (a fim de que nós também guardemos o que os Apóstolos ensinaram e o que a própria antiguidade observou) (Mansi T. 3, col. 692).

E, antes ainda, o primeiro Concílio cujos cânones nos foram conservados, o Concílio de Elvira, entre 300 e 305, nos revela a lei do celibato existente para os bispos, sacerdotes e os diáconos. Diz assim o cânon 38 do Concílio de Elvira:

  • “Determinou-se unanimemente estabelecer a proibição de que os bispos, os sacerdotes e os diáconos, isto é, todos os clérigos constituídos no ministério, se abstenham de esposas, e não gerem filhos: e, aquele, quem for que seja, que o tenha feito seja declarado decaído da honra da clericatura”(Mansi, T. 3, col 11).

Os cânones deste concílio são de extema severidade. Diz, por exemplo o cânon 19:

  • “Os bispos, sacerdotes e diáconos constituídos no ministério, se for descoberto serem adúlteros, tanto por causa do escândalo como do crime de profanação, não devem ser recebidos na comunhão (perdoados da excomunhão), mesmo no fim de sua vida”.

O primeiro Papa, do qual algumas cartas decretais nos foram conservadas, São Sirício (384-399), nos revela igualmente essa lei existente, não escrita, do celibato. Falando a respeito do celibato assim se exprime:

  • “Não que sejam novos os preceitos impostos, mas desejamos que sejam observados os que foram desleixados em razão da covardia e do abandono de alguns preceitos que, entretanto, foram estabelecidos pela ordenação dos Apóstolos e dos Padres”. (PL – T. 13, col.1155).

O Concílio Ecumênico de Nicéia (325), no seu cânon 3, reza:

  • “O Santo Sínodo declara que não permite de maneira alguma nem ao bispo, nem aos sacerdote, nem ao diácono, nem absolutamente a qualquer membro do clero ter em sua casa uma mulher que lhe seja estranha, mas somente a mãe, ou uma irmã, ou uma tia. Porque em relação a essas pessoas e outras semelhantes não há nenhuma suspeita. Aquele que age diferentemente arrisca perder sua clericatura.”

São Jerônimo resume tudo o que foi dito, escrevendo “ad Pammachium”, no ano 392:

  • “Cristo é virgem, virgem é Maria; mostraram a cada um dos sexos a preeminência da virgindade. Os Apóstolos são ou virgens, ou após o casamento, continentes. Escolhem-se para bispos, sacerdotes e diáconos, quer virgens, quer viúvos, ou pessoas que em todo caso, depois do sacerdócio, observam para sempre a continência”.

E Santo Agostinho comentando o Concílio de Elvira, arremata:

  • “O que a Igreja Universal mantém e não foi instituído por Concílios, mas o que sempre se observou, crê-se ter sido transmitido, sem nenhum perigo de erro, pela autoridade apostólica.”

Fica, portanto, destruída a falsa tese, constantemente repetida, de que a Igreja teria inventado o celibato eclesiástico no século IV, no Concílio de Elvira. De modo algum! Ele teve origem nos Apóstolos que o receberam de Nosso Senhor Jesus Cristo.

TRADIÇÃO PERMANENTE, APESAR DAS FRAQUEZAS, DECADÊNCIA E PROTESTOS.

No século VIII e principalmente nos séculos X e XI, houve uma grande decadência do clero com relação ao celibato. Escândalos e concubinato por toda a parte, e boa parte disso favorecido pelo caso das investiduras, já que o poder secular tinha em suas mãos quase todas as nomeações de bispos e curas. Os benefícios eram oferecidos a quem mais oferecesse. A reação veio com São Gregório VII, que foi Papa entre 1073 e 1085. Ele fez tudo para restabelecer a disciplina do celibato eclesiástico. Tratou como nulos os casamentos dos clérigos maiores e os tratou com rigor. O Papa Calixto II, no Concílio de Latrão, 1123, declarou como oficialmente nulos tais casamentos.

O Concílio de Trento reforçou a nulidade destes casamentos e criou os seminários, escolas de meninos para serem uma perpétua “sementeira”(seminário) de ministros para o serviço de Deus. O Código de Direito Canônico de 1917 estabelece:

  • “Os clérigos constituídos nas ordens maiores não podem se casar validamente (c. 1972)”.
  • “Os clérigos constituídos nas ordens maiores não podem casar-se e são obrigados a guardar a castidade a tal ponto que aqueles que pequem em relação a isso são também culpados de sacrilégio”.
  • “Os clérigos menores podem casar-se, mas decaem de pleno direito do estado clerical”.

OBJEÇÕES E RESPOSTAS.

– Não diz São Paulo que os Bispos e Diáconos devem ser casados: “homens de uma só esposa” (1Timóteo 3,2.12; Tito 1,6)?

R. As aludidas palavras de São Paulo não querem dizer que os bispos e diáconos “devam” ser casados, pois ele é o primeiro que não o era; querem sim, dizer que não devem ser sagrados bispos nem ordenados diáconos que tiverem casado duas vezes. “Homens de uma só esposa”: São Paulo repete três vezes esta mesma expressão estereotipada. Ele a usa “mutatis mutandis”, quando fala das viúvas escolhidas para o serviço das Igrejas: “mulher de um só marido” (1Timóteo 5,9)! Trata-se evidentemente de viúvos que não foram casados senão uma só vez, “que tenham sido homens de uma só mulher”, e agora continentes. O que reforça essa explicação é que São Paulo fala cada vez mais dos filhos deles e nunca de suas mulheres, como não fala das mulheres de Tito e de Timóteo, seus discípulos, que eram bispos.

Além do mais, na Epístola a Tito, 1, 8, São Paulo exige que o bispo seja “continens” (em grego, “encratés”), usando o mesmo vocábulo que emprega quando fala dos celibatários e das viúvas em 1Coríntios 7,9.

Trata-se portanto de um viúvo de uma só mulher, vivendo, após a ordenação, em continência perfeita. Se na I Coríntios, cap. 7, São Paulo queria que todos os cristãos fossem continentes como ele próprio, a exigência da continência perfeita para os chefes da Cristandade, bispos, sacerdotes e diáconos, vem a ser algo perfeitamente normal.

– Mas São Pedro não era casado? (Mateus 8,14)?

R. O Evangelho não o diz. Diz só que ele tinha sogra, portanto que poderia estar casado.

São Jerônimo, em seu Tratado contra Joviniano (c. 8,26), julga, pelo contexto de São Mateus (8,15) que a mulher de São Pedro já era falecida quando Jesus lhe curou a sogra; do contrário o Evangelho teria feito menção a ela. No entanto, ele diz apenas que foi a sogra que serviu Jesus e os Apóstolos à mesa.

Além disso, foi São Pedro quem disse a Jesus: “Eis que abandonamos tudo e vos seguimos…”, ao que Jesus respondeu:

  • “Todo aquele que deixar a casa… ou a mulher… ou os campos por causa de meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mateus 19,27-29).

Quanto aos outros Apóstolos, além de a eles se aplicarem estas palavras acima, Nosso Senhor lhes deu a todos o conselho evangélico da continência perfeita (Mateus 19,12) e o Evangelho jamais menciona “suas mulheres”.

– Considerando a fraqueza humana, o celibato não seria impossível?

R. O Concílio de Trento responde que Deus não recusa este dom da castidade àqueles que o pedirem, como também não permite que sejamos tentados acima de nossas forças.

Além do mais, a celebração cotidiana do Sacrifício da Santa Missa e a recitação diária do Ofício Divino, a frequente meditação das verdades eternas, as consolações do apostolado, o contínuo contacto com os enfermos e moribundos… tudo isso auxilia amplamente o sacerdote na fidelidade aos seus votos. Cabe ainda ressaltar que ele não foi escolhido de súbito para o Sagrado Ministério. Só depois de longos anos de seminário, observado pelos superiores, só depois de superada a idade das paixões, ele sentiu-se maduro, com forças e vontade para as dominar no futuro como já as dominara até o presente. Quem não sabe o que quer e o que suporta aos 24 anos, não o saberá nunca e aquele que põe a mão no arado e olha pra trás não é apto para o Reino de Deus (Lucas 9,62).

RAZÃO DO CELIBATO

Vejamos o que nos diz o Papa Pio XII em sua Encíclica “Menti Nostrae”:

  • “É precisamente porque ele deve ser livre de todas as preocupações profanas e consagrar-se totalmente ao serviço de Deus, que a Igreja estabeleceu a lei do celibato, a fim de que seja sempre mais manifesto a todos que o Sacerdote é ministro de Deus e pai das almas”.
  • “Por esta obrigação do celibato, muito longe de perder inteiramente o privilégio da paternidade, o sacerdote o aumenta ao infinito, porque, embora não suscite posteridade nesta vida terrestre e passageira, engendra uma outra para a vida celeste e eterna”.

Outrossim, neste fim de século XX, neste mundo degradado e imoral, no qual a sensualidade e a devassidão dominam tudo, é mais do que oportuno mostrar o heroísmo do celibato eclesiástico em toda a sua pureza, para sevir de barreira e como exemplo, ao invés de tentar atenuá-lo e ofuscar-lhe o brilho.

 * * *

SENTIDO REAL DO CELIBATO SACERDOTAL
(Segundo Pe. Gregoire Celier, publicado na “Fideliter”, março/1985)

“Sacerdos alter Christus”(O sacerdote é um outro Cristo). Tal é o princípio fundamental que esclarece e explica o Sacerdócio Católico. O Sacerdócio de Cristo é único e definitivo, e o sacerdócio dos homens, o sacerdócio ministerial (etimologicamente, sacerdócio dos servidores) é uma participação real no sacerdócio soberano. Portanto, o próprio Cristo é o modelo, ao qual todo padre deve se conformar intimamente, para que seu sacerdócio participado detenha toda a sua verdade.

Ora, é digno de nota que Jesus Cristo, num mundo em que o celibato era quase desconhecido, senão maldito, durante toda a sua vida permaneceu no estado de virgindade.

Esta virgindade significa nEle a consagração total e sem reservas a seu Pai: todas as suas energias, todos os seus pensamentos, todas as suas ações pertenciam a Deus. É por esta consagração total, (que em Jesus chegou até à união hipostática, em que a natureza humana não se pertence mais a si mesma, mas pertence diretamente à pessoa do Verbo,) que Cristo foi constituído Mediador entre o Céu e a Terra, entre Deus e os homens, ou seja: sacerdote. Assim a virgindade significa e realiza a consagração, essência deste sacerdócio de Cristo: em outras palavras, a virgindade de Jesus decorre do seu Sacerdócio e lhe está intimamente ligada. O padre (homem), participante do sacerdócio de Cristo, participa portanto igualmente da sua consagração total a Deus e, em consequência, da sua virgindade. O celibato consagrado do padre é, portanto, uma união íntima e cheia de amor com a virgindade de Jesus, sinal de sua total consagração ao Pai. Tal é a primeira e mais fundamental razão do celibato dos padres.

Se Jesus permaneceu virgem como expressão de sua consagração ao Pai, Ele o fez igualmente enquanto se ofereceu sobre a cruz por sua Igreja, a fim de torná-la uma Esposa gloriosa, santa e imaculada (Ef.5,25-27). A virgindade consagrada do sacerdote humano manifesta, pois, e prolonga da mesma maneira o amor virginal de Cristo pela Igreja e a fecundidade sobrenatural deste amor.

Esta disponibilidade de amar a Igreja e as almas se manifesta pela vida de oração do padre, pela celebração dos sacramentos e particularmente do Santo Sacrifício da Missa, pela caridade para com todos, pela pregação contínua do Evangelho, uma imagem da vida de Jesus. Cada dia, o padre, unido a Cristo Redentor, gera as almas para a fé e para a graça, e torna presente no meio dos homens o amor de Cristo por sua Igreja, significado pela virgindade. Se examinarmos não só a missão de Cristo na terra, mas a plena realização desta missão no Céu, descobriremos uma terceira causa de Sua virgindade e, consequentemente da do padre. De fato, a Igreja da terra é o germe da Igreja do Céu e ao mesmo tempo o sinal desta vida bem-aventurada. O que será a beatitude celeste é já visível, mas velado e como que em enigma, na vida terrestre da Igreja. Ora, como disse Nosso Senhor, “na ressurreição, não se tomará nem mulher e nem marido, mas todos serão como anjos de Deus”(Mat. 22,30). A virgindade será, portanto, o estado definitivo da humanidade bem-aventurada. Convém que, desde esta terra, o sinal dessa virgindade brilhe no meio das tribulações e das solicitações da carne. O celibato consagrado do sacerdote é, assim, a imagem daquele de Cristo, uma antecipação da glória celeste, uma prefiguração da vida dos eleitos e um convite aos fiéis para caminharem para a vida eterna sem se deixarem sobrecarregar pelo peso do dia.

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CONCLUSÃO

  • “A Igreja é casta, ela produz a castidade, e não há bons costumes sem a castidade. É a castidade que faz as famílias, as raças reais, o gênio dos povos fortes e duradouros. Onde não existe essa virtude, não há senão lama num túmulo. Se há aqui homens que não sejam meus irmãos na fé, eu queria apenas apelar para suas consciências e lhes perguntaria: Vós sois castos? Como teríeis a Fé se não sois castos? A castidade é a irmã mais velha da verdade; sede castos um ano e eu respondo por vós diante de Deus. É porque possuímos esta virtude que somos fortes. E bem sabem o que fazem aqueles que atacam o celibato eclesiástico, esta auréola do sacerdócio cristão. As seitas heréticas aboliram-no entre elas; esse é o termômetro da heresia: a cada degrau do erro corresponde um degrau, senão de desprezo, ao menos de diminuição desta virtude celeste” (Pe. Lacordaire, conf. de Notre Dame, T. 1, Conf. 2).

UM PRONUNCIAMENTO DEFINITIVO DO PAPA BENTO XV

  • “Jamais esta Sé Apostólica atenuará ou limitará esta lei santíssima e muito salutar do celibato eclesiástico e muito menos a abolirá” (A.A S., t. 12, 1920, p. 585).
Veritatis Splendor

São Filipe Benício

São Filipe Benício (A12)
22 de agosto
País: Itália
São Filipe Benício

Filipe Benício nasceu no ano de 1233 em Florença, Itália, de nobre família. Com 13 anos foi estudar Medicina na Universidade de Paris, e com 19 mudou-se para a Universidade de Pádua, formando-se em 1253 com louvor em Filosofia e Medicina. Durante um ano, trabalhou como médico em Florença.

Ao mesmo tempo, tendo sólida formação religiosa e devoção a Maria Santíssima, frequentava a igreja do mosteiro da cidade, estudando as Sagradas Escrituras com os religiosos. E em 1254 decidiu-se pela vida religiosa, ingressando como irmão leigo na Ordem dos Servos de Maria (Servitas) do Convento de Monte Senário. Ainda irmão leigo, destacou-se pela retórica. Em 1258 ordenou-se sacerdote em Siena, assumindo inúmeras responsabilidades na direção e na ordem do convento. Em 1262, foi nomeado professor de noviços e vigário assistente do prior-geral.

Em 1267, foi eleito prior-geral da Ordem dos Servitas, por voto unânime. Logo ordenou a evangelização na região da Cítia no leste europeu (atualmente Ucrânia, na maior parte), enviando missionários. Pessoalmente viajou por grande parte da Itália advertindo os pecadores para a penitência, orientando os fiéis à obediência ao Papa, e intensificando a devoção à Nossa Senhora. Promoveu também a reforma do estatuto da Ordem, de modo a que se tornasse mendicante. Junto com Santa Juliana Falconeri fundou a Ordem Terceira dos Servitas para as mulheres.

No conclave papal de 1269 seu nome foi indicado, mas ele, por humildade, refugiou-se nas montanhas próximas de Viterbo, onde se realizava a eleição, até que Gregório X (hoje Beato) foi eleito.

Em 1274 participou do Segundo Concílio Ecumênico de Lyon, e em 1283 seguiu para a cidade de Forli, no norte da Itália, a pedido do Papa, para pacificar as disputas entre os guelfos, partido que o apoiava, e os guibelinos, partidários do imperador germânico. Ali foi agredido por um exaltado guibelino, perdoando-o com doçura, o que levou à sua conversão, entrada na vida religiosa e santificação: São Peregrino Laziosi.

 São Filipe Benício faleceu em 22 de agosto de 1285, na cidade de Todi, quando voltava para Roma. Foi o primeiro religioso canonizado da Ordem dos Servitas, que sob sua direção conciliatória e talentosa pregação expandiu-se rapidamente. É Padroeiro de Zamboanga do Norte, nas Filipinas.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

“Benício” significa “homem bom”, “abençoado”, “aquele que vai bem” ou “o que está sempre bem”. Para São Filipe Benício, cada uma destas acepções tem uma correspondência prática de vida: foi um homem bom, que buscou fazer da melhor maneira atividades corretas e de valor; foi abençoado com uma santa vocação e as graças necessárias para vivê-la; pela sua devoção e proximidade com Nossa Senhora, é aquele que vai bem no reto caminho, sem desvios ou tropeços; e elevado à glória celeste, está sempre, infinitamente bem. Vivendo na Ordem dos Servos de Maria, Ela é o foco e a fonte dos seus trabalhos, sem qualquer prejuízo ou confusão para a adoração exclusiva a Deus. A devoção a Maria é a melhor justamente porque Ela não faz outra coisa e não tem outra missão senão a de nos conduzir, mais rápida, segura e eficientemente ao Seu Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. E nada agrada mais a Jesus do que o nosso amor a Ela. São Filipe Benício formou-se com louvor na medicina das almas. Por isso propôs remédios universais que levam das chagas do pecado à cura na santidade: a devoção à Nossa Senhora, único caminho para Jesus, a sã obediência ao Papa, isto é, à Igreja regida pelo Espírito Santo, com a correta Tradição, Doutrina, Liturgia e Magistério, e prevenindo a todos nós, pecadores, da necessidade absoluta da penitência para ir para o Céu. Estes remédios, ele os ministrou por meio da sua brilhante pregação e exemplo de caridade. Tal receita, simples e completa, nos leva ao ideal de servitas do Senhor.

Oração:

Deus Todo Poderoso, Criador e Rei do Universo, que fostes o primeiro a, unicamente por infinito amor, querer servir às criaturas, concedei-nos por intercessão de São Filipe Benício exaltadamente agredir o pecado em nossas vidas, mas sempre perdoar com doçura os que pecarem, buscando a conversão deles e principalmente a nossa própria; e que, refugiados das tentações deste mundo na montanha das Vossas graças e bênçãos, fiquemos Convosco conciliados no Paraíso. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.

Fonte: https://www.a12.com/

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Guido Vidal França Schaffer, médico, surfista, seminarista e servo de Deus

Guido Schaffer: Um Surfista A Caminho dos Altares – Arquidiocese ...
Arquidiocese de Brasília

SÃO FRANCISCO CARIOCA

São Francisco carioca é o nome que era dado a Guido Vidal França Schaffer, médico do corpo e da alma, surfista e seminarista cuja vida, apesar de breve, é rica de ensinamentos. Guido era, em diversos aspectos, um típico jovem carioca da zona sul: saía com os amigos para jogar futebol, surfar, gostava de subir montanhas, trabalhava e frequentava a faculdade. De onde vem, então, o nome São Francisco carioca?

Vem da expressão do serviço aos pobres, pois Guido, impulsionado pelo testemunho da vida de São Francisco de Assis, ouviu o chamado de Deus para mergulhar em águas mais profundas, passando assim a enxergar em sua prancha de surf uma oportunidade de apostolado junto aos jovens surfistas e no cuidado dos pobres um convite a passar pelo mundo fazendo o bem.

Guido deixou-se guiar pela lógica do Evangelho e, por isso, ele demonstrava um profundo amor pelos doentes, os marginalizados e os mais necessitados, ensinando-nos que amar é acolher, é sofrer pelo outro, é ter compaixão, é fazer nossa a dor de quem está enfermo.

No exercício da medicina, Guido se dedicava a todos os enfermos que cruzavam os seus caminhos, mesmo aqueles que não tinham como pagar o tratamento. Ele era clínico geral na Santa Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro. Ali, ele se dedicou à Pastoral da Saúde. Mas, como o tempo de quem serve a Deus é sempre mais largo do que o tempo dos egoístas, Guido também trabalhou como voluntário na obra das irmãs missionárias da caridade no atendimento às pessoas em situação de rua.

Em suas consultas, ele era sempre atencioso e tratava os doentes com zelo, atenção e caridade. Desse modo, não se limitava a apenas falar das dores ou enfermidades dos pacientes, pois gostava de ouvi-los falar de suas famílias, das coisas do dia a dia e da vivência da fé, evidenciando assim que cuidava não só do corpo, mas, principalmente, da alma.

Por ter sido transformado pelo amor de nosso Redentor, Guido não esperava os doentes chegarem ao hospital, pois sabia que, para muitos deles, uma consulta médica era algo difícil de ser realizado e, por isso, o seu ambulatório eram as ruas, os viadutos e todos os lugares da cidade onde encontrasse uma pessoa necessitando de cuidados médicos.

Encontrar doentes sem assistência era para Guido um sinal de que Deus queria que ele fosse o bom samaritano que iria acolhê-los com misericórdia. Dessa maneira, o seu serviço como médico era voltado para o próprio Cristo, escondido sob o rosto dos pobres. Aos médicos que trabalhavam com ele, Guido gostava de afirmar: “É preciso abastecer o espírito através da oração para que a área da saúde seja renovada”.

Além do serviço da medicina, Guido sempre organizava com outros jovens de sua Paróquia algumas oportunidades para encontrar os pobres nas ruas do Rio de Janeiro. Eles levavam um lanche, remédios, roupas e calçados, sobretudo nos dias de frio, e uma certeza em seus corações: quem precisa de ajuda, quem tem fome, sede, frio e está enfermo não pode esperar. Nesse serviço social, a ajuda material era vital, mas Guido e os demais jovens levavam muito mais do que o pão, pois eles ofereciam acolhimento, escuta e, acima de tudo, o amor de Jesus Cristo.

Quando se encontrava com os pobres, os excluídos e os enfermos e prestava-lhes o auxílio necessário, de algum modo, Guido ouvia o Cristo lhe dizer: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!”. Por sua vez, sempre que julgava que estava fazendo muito pouco para o advento do Reino de Deus, em oração, Guido dizia ao Senhor: “Eu, ainda, não sei te amar como Francisco te amou!”

Por todo o cuidado, carinho e tratamento dedicados aos pobres e aos enfermos, Guido era considerado o São Francisco carioca, o jovem da zona sul que poderia ter permanecido na comodidade de sua casa e de seu bairro, mas, por amor a Deus, ele preferiu percorrer as periferias do Rio de Janeiro para se encontrar com os excluídos. Agindo assim, Guido conquistou a simpatia e o coração de outros jovens, de diversos médicos, dos pobres e dos enfermos que perceberam que as suas palavras e ações eram simples, mas, ao mesmo tempo, repletas de determinação e de sinais de caridade. Quando era questionado de onde nascia o seu amor pelos pobres, ele afirmava: “De um coração adorador que nasce o amor aos pobres!”

O jovem médico também era um surfista. O mar era uma das suas paixões. E foi no mar, no dia 1º de maio de 2009, com apenas 34 anos e faltando um ano para sua ordenação sacerdotal, que Guido morreu fazendo o que amava: o surfe. Ele foi vítima de um afogamento, enquanto surfava na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na Missa de corpo presente de Guido Schaffer, Dom Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, estendeu uma estola sobre o corpo de Guido e disse: “Tu não foste sacerdote aqui na terra, mas serás no céu!”.

O processo de beatificação de Guido Schaffer está em andamento e, em breve, Guido poderá ser elevado à honra dos altares.  Diante das necessidades dos pobres, Guido nos ensina a rezar: “Libertai-me, Senhor, do meu egoísmo e da minha indiferença pelo sofrimento do meu semelhante!”.

Guido, ensinai-nos a servir aos pobres com a certeza de que eles são o tesouro da Igreja! Guido, hoje, contemplando a sua vida, exemplo e testemunho, nós podemos afirmar: “Os que instruírem a muitos para a justiça, brilharão como as estrelas sempre e eternamente!”. (Dn 12,3).

Aloísio Parreiras

Arquidiocese de Brasília 

ORDENAÇÃO SACERDOTAL 2020

Na manhã ensolarada de sábado (15/8), às 10h, foi realizada a Cerimônia de Ordenação sacerdotal de 13 jovens que aceitaram o chamado para a servir ao Cristo, deixando de lado suas famílias e se doando para viver a vocação sacerdotal.

Com restrição de público e seguindo todos os protocolos de prevenção para conter o contágio da COVID-19, cerimônia realizada no Santuário do Menino Jesus em Brasilândia. A missa foi presidida pelo Administrador Apostólico da Arquidiocese de Brasília, Dom José Aparecido, concelebrada pelo bispo auxiliar Dom Marcony Ferreira e Monsenhor Geovanni, seminaristas, padres e alguns familiares dos ordenantes.  A animação ficou por conta da banda Maranata e da banda do Seminário Redemptoris Mater.

Aos que não puderam estar presentes, a missa foi transmitida ao vivo pelas redes sociais da Arquidiocese de Brasília, rádio Nova Aliança, TV e rádio Canção Nova Brasília.

Ao contrário das celebrações cotidianas, a cerimônia presbiteral consta com algumas etapas específicas descritas no“ Pontificale Romanum”, são elas: eleição do candidato; homilia;  Proposito do eleito; ladainha; imposição das mãos e prece de ordenação; unção das mãos e entrega do Cálice e da Patena.

Os ordenados  são ::

Seminário Nossa Senhora Aparecida:

Pe. André Marinho de Souza

Pe. Felipe Ferreira de Souza

Pe. Gustavo Santana Xavier Costa

Pe. Lucas Carvalho de Medeiros

Pe. Silas César dos Reis

Pe. Thaisson da Silva Santarém

 

Seminário Redemptoris Mater:

Pe. Daniel campos Sevillano

Pe.  Danny Miguel Cuenca Cajamarca

Pe. Jesus Enrique Sterling Achipi

Pe. Lucas da Silva Mariano Meneses

Pe. Paulo Henrique Ribeiro dos Santos

Pe. Pawel Sobczak

Pe. Rafael Enrique Macedo

Em sua homilia, Dom José Aparecido destaca o compromisso do presbítero com a igreja, com o povo e com o Cristo, a felicidade do padre “está no ato de servir, na sua amizade íntima com o Cristo, pois é através dessa intimidade com o Senhor que o sacerdote deixa de ser servo e passa a ser amigo, amigo de Cristo. Como amigos do Senhor, os sacerdotes se tornam capazes de partilhar a alegria da Palavra, a beleza da comunhão; sem a intimidade com o Cristo o sacerdote não será capaz de ser fiel no seu ‘servir’, a felicidade do padre não está longe da Cruz, não está na realização humana e sim está na bem-aventurança celeste. O ministério sacerdotal é eterno, pois o padre é indispensável para o plano da Salvação e ele está presente em todas as etapas da vida humana”

Ainda em sua homilia, Dom Aparecido deseja aos novos padres que “a Virgem Maria os acompanhe sempre”.

Nos agradecimentos, o sacerdote eleito, Rafael Enrique, agradeceu a todos que se uniram para o êxito da celebração (imprensa, padres, amigos, formadores, etc..).Em seguida, Pe. João Périos agradece as pastorais, aos organizadores, os padres e a Dom Marcony, Dom José Aparecido, aos reitores, o clero, a imprensa e a todos os presentes.

Dom José Aparecido encerrou com a oração para a eleição do novo arcebispo de Brasília e com a Benção Apostólica.

Link para ver a celebração: https://youtu.be/dP8s2ofEvw4

Texto: Alessandra Gomes

Fotos: Pascom Brasília 

Arquidiocese de Brasília

HAGIOGRAFIA: Santo Efrén, o Sírio

História de Santo Efrém - Santos e Ícones Católicos - Cruz Terra Santa
Cruz da Terra Santa

Santo Efrén, o Sírio

frém nasceu em 306 em Nisibina ou em seus arredores (Mesopotâmia), Depois de ter estudado junto ao bispo daquela cidade, Jacob (Jaime) se converteu no animador de uma escola de doutrina, poesia e canto. Refugiou-se em Edesa no ano 367, por causa da ocupação persa de Nisibina, e nela prosseguiu suas atividades de ensinamento, unidas a composição de muitos escritos exegéticos, catequéticos e hinos em siríaco. Sua exuberância poética era tão grande e tal o gosto dos sírios pela poesia, que muitas homilias estão compostas em versos. Recebeu o título de "Profeta dos Sírios" e "Cítara do Espírito Santo" e a tradição se alegrou em engrandecê-lo, ao estilo dos dois primeiros apotegmas, atribuindo-lhe a concessão milagrosa dos carismas da palavra, da sabedoria e também das lágrimas. A respeito dele foi escrito que era tão natural vê-lo chorar como respirar. Levou, desde muito jovem, juntamente com outros, vida comum na castidade, pobreza e penitência e retiro, compatível, não obstante, com o ensinamento e a pregação. Foi ordenado diácono, mas não sabemos exatamente quando. Muitos são os escritos sobre a sua vida, mas lamentavelmente, mistura-se muitos elementos lendários. Várias fontes revelam que se ocupou com grande generosidade a assistência aos enfermos, famintos, dando sepultura aos mortos numa época de grande miséria. Seja verdadeira ou não esta informação, é de grande significado, pois a Tradição queria transmitir dele um perfil completo, não só como grande escritor e compositor de hinos, como também, a imagem de um diácono entregue ao serviço dos mais necessitados.

 

Morreu no ano 373, sendo tão venerado que rapidamente seus hinos e outros escritos foram introduzidos nas celebrações litúrgicas. Seus escritos foram traduzidos para o grego e latim e, com adaptações, introduzidos em muitíssimas recopilações; sob o impulso do grande, ainda que ingênuo, entusiasmo e amor que se lhe professava, atribuíram-lhe falsamente muitas obras que não o pertenciam.

A grandeza de Santo Efrém chegou ao seu ponto mais elevado nos cantos de louvor à Mãe de Deus. Faltava ainda muito tempo para o Concílio de Éfeso e já o pensamento de Efrém sobre ela havia adquirido um grande desenvolvimento e aprofundamento. Nela contempla e celebra a extraordinária beleza e vê refulgir nela, mediante uma co-participação extremamente contínua e privilegiada, a conformidade com Cristo: o Senhor e sua Mãe são os únicos seres perfeitamente belos neste mundo contaminado; na Senhora, resplandece uma semelhança com Deus única e excepcional. Estes pensamentos são expressados de maneira repetida por Efrém, sobretudo nos Hinos para a Natividade.

O padre Efrém teve, quando criança, um sonho ou uma visão: saía uma videira de sua boca e crescia e enchia toda terra; e estava completamente cheia de ramos; e vieram todos os pássaros do céu e comeram do fruto da videira. Mas, quanto mais comiam, mais se multiplicavam os frutos.

Outra vez, um dos santos teve esta visão: um exército de anjos descia do céu por ordem de Deus e levava um rolo na mão, ou seja, um volume escrito de ambos os lados. E se perguntavam: "a quem devemos confiá-lo?" Uns diziam: "a este"; outros diziam: "a este outro"; finalmente, se decidiram e disseram: "verdadeiramente são santos e dignos, mas a ninguém pode ser confiado este livro senão a Efrém". Logo viu o ancião que entregavam o volume a Efrém; ... Ao amanhecer, quando se levantou, ouviu como um fonte que brotava da boca de Efrém, enquanto compunha, e soube assim que provinha do Espírito Santo o que saía de seus lábios.

Um dia, enquanto Efrém passeava pelo caminho, surgiu uma meretriz de emboscada para seduzi-lo ou, ao menos, para provocá-lo, posto que ninguém o havia visto jamais preso pela ira. Ele a disse: "segue-me". Quando chegaram a um lugar muito movimentado, disse-lhe: "faz o que queres aqui, neste lugar". Mas ela, vendo a multidão disse: "como podemos fazer diante desta grande multidão sem sentir vergonha?" E ele respondeu: "se nos envergonhamos diante das pessoas, tanto mais deveríamos nos envergonhar diante de Deus que escuta no segredo das trevas. E ela, cheia de vergonha, afastou-se sem ter realizado o que pretendia.


FONTE:

Vita e Detti dei Padri del Deserto, Cittá Nuova Editricci, Roma, 1990.


ECCLESIA 

Provas científicas: embrião se comunica com mãe desde primeiros instantes de vida

Aleteia
por Observatório de Bioética

O corpo materno se prepara para recebê-lo – coisa que não aconteceria se ele fosse um mero “aglomerado de células”.

Um tema crucial para a bioética é o “estatuto biológico do embrião humano”, ou seja, as provas de que o embrião humano é um ser biológico da nossa espécie e não um simples aglomerado informe de células, já que este fato é fundamental para a afirmação de que qualquer técnica que leve à sua destruição é bioeticamente inaceitável.

Um argumento em defesa desta tese é o “diálogo entre o embrião e sua mãe”, isto é, a comunicação biológica estabelecida entre o filho e a mãe desde a passagem do embrião pela trompa de Falópio até a sua implantação no útero materno.

O fato de o embrião humano estabelecer esse dialogo biológico com o endométrio uterino é uma prova sólida de que ele não é um mero “aglomerado celular”, mas um ser vivo da nossa espécie.

Diálogo materno fetal

E em que consiste esse diálogo?

Durante a sua passagem pela trompa de Falópio e a sua implantação no endométrio materno, o embrião produz e segrega uma série de compostos bioquímicos que agem sobre o endométrio para facilitar a implantação; é como se o embrião avisasse à sua mãe de que está chegando ao lugar de aninhamento em seu útero para que ela se prepare, adequando o entorno em que o filho vai se implantar.

Por sua vez, o endométrio materno produz e segrega outros compostos no fluido endometrial em que o embrião está imerso, os quais são fundamentais para a sua implantação.

Nesse diálogo materno fetal também ocorre outro fato biológico: a diminuição da atividade imunológica da mãe para facilitar a implantação do filho, o que igualmente destaca a natureza de ser vivo organizado do embrião.

O embrião é um ente biológico “estranho” à mãe, pois a metade do seu conteúdo genético procede do pai: portanto, ele poderia ser rejeitado pelo sistema imunológico materno. É justamente para evitar isto que a mãe reduz a sua atividade imunológica, facilitando assim a implantação do filho (imunidade materno-fetal).

Um artigo publicado em 2015 no periódico científico “Development” (142; 3210-3221, 2015 ) despertou grande atenção por comprovar que os elementos incluídos no fluido secretado pelo endométrio materno, que embebe o filho durante o seu processo de implantação, podem modificar a expressão gênica do filho.

Esta constatação tem importantes consequências biomédicas e bioéticas. Do ponto de vista biomédico, esta inter-relação genética poderia aumentar o risco de que o filho sofresse de algumas doenças, como diabetes de tipo 2, ou de condições biológicas capazes de aumentar riscos como o da obesidade.

Esta inter-relação entre mãe e filho poderia também ocorrer na fecundação in vitro quando se utilizam óvulos doados, ou seja, que não são da mãe, ou quando se recorre à chamada “mãe de aluguel”.

No primeiro cenário, poderia ser modificada a expressão gênica do filho pela influência das mensagens maternas; isto quer dizer que seria incorporada ao genoma do filho uma informação procedente do endométrio materno. Assim, de alguma forma e muito parcialmente, chegaria a constituir-se um embrião modificado geneticamente pela influência da mãe biológica.

No caso das mães de aluguel, elas também poderiam influenciar o genoma do filho, o que significa que poderiam estabelecer-se laços biológicos com o filho gestado, indo-se além dos laços que a própria gravidez propicia. Portanto, com a mãe modificando a expressão do genoma do filho, a sua relação se intensificaria substancialmente e este fato poderia criar mais problemas biológicos e sociológicos do que hoje se pensa a propósito dessas práticas.

Justo Aznar e Julio Tudelado Observatório de Bioética da Universidade Católica de Valência, Espanha.

Aleteia

 

Questões sobre o Batismo (Parte 3/12): Será a água a única matéria do Batismo?

Apologética
Veritatis Splendor
  • Autor: São Tomás de Aquino
  • Fonte: Suma Teológica, Parte III, Questão 66
  • Tradução: Dercio Antonio Paganini

Objeção 1 – Parece que a água não é propriamente a matéria do Batismo, pois no Batismo, de acordo com Dionísio (Ecl. Hier, V), e Damasceno (De Fide Orth. IV), existe um poder de iluminação. Mas essa iluminação é uma característica especial do fogo. Todavia, o Batismo pode ser conferido com fogo em vez de água e, além do mais, enquanto João Batista disse enquanto profetizava o Batismo de Cristo (Mt. 3-11): “Ele irá batizá-Lo no Espirito Santo e pelo fogo…”

Objeção 2 – Entretanto, a eliminação dos pecados pelo lavamento está contida no Batismo, mas muitas outras coisas além da água é utilizada no lavamento, tais como, vinho, óleo, sal etc. Assim sendo, o Batismo pode ser conferido também com essas substâncias, e consequentemente a água não é a única matéria do Batismo.

Objeção 3 – Sabe-se que os Sacramentos da Igreja apareceram ao lado de Cristo pendurado na cruz, como afirmado anteriormente (perg. 62, art. 5), mas não apenas a água apareceu, mas também o sangue, e assim pode-se pressupor que o Batismo pode também ser aplicado com sangue, e isto significa que assim teremos uma maior afirmação do efeito do Batismo pois está escrito (Ap 1-5): “(Quem) lavou-nos de nossos pecados pelo Seu sangue…”

Objeção 4 – Santo Augustinho (cf. Orações Principais, IV-3) e Bede (Exposit. In Lc. III-21) dizem: Cristo pelo “toque de Sua mais pura matéria dotou as águas com uma virtude regeneradora e limpadora… “, mas todas as águas não estão conectadas com as águas do Rio Jordão, o qual foi tocado pelo corpo de Cristo; consequentemente, parece que o Batismo não pode ser conferido com qualquer água, e portanto, por isto, a água não é a única substância do Batismo.

Objeção 5 – Se a água como tal fosse a única matéria do Batismo, não seria necessário fazer nada à água antes de utilizá-la para um Batismo; mas, em Batismos solenes, a água utilizada é exorcizada e abençoada. Assim sendo, temos a impressão que a água como tal, não é a única matéria do Batismo.

Ao contrário, nosso Senhor diz (João 3-5): “Se as pessoas não renascerem pela água e pelo Espírito Santo, elas não poderão entrar no reino de Deus”.

Eu respondo que: Por Divina instituição, a água é a única substância do Batismo, pelas seguintes razões:

Primeiro, pela razão da verdade natural do Batismo, que é uma regeneração à vida espiritual, e isto responde à natureza da água em um grau especial: uma vez que as sementes, das quais provêm todas as coisas vivas, como pessoas, plantas e animais, são umedecidas e semelhantes à água. Por esta razão, alguns filósofos sustentam que a água é o princípio de todas as coisas.

Segundo, com vistas aos efeitos do Batismo, ao qual corresponde as propriedades da água, pelo motivo de sua umidade, ela limpa, e então ela adequadamente causa a limpeza dos pecados. Pelo motivo de sua baixa temperatura, ela tempera o calor supérfluo, enquanto certamente mitiga a conseqüência da sede. Pelo motivo de sua transparência, ela é suscetível á luz, daí sua adaptabilidade ao Batismo como “Sacramento de Fé”.

Terceiro, em virtude de a água ser apropriada para o significado dos mistérios de Cristo, pelos quais nós somos justificados, como diz Crisóstomo (Hom. XXV em João) em João 3-5: ‘Se as pessoas não renascerem…” e “Quando nós mergulhamos nossas cabeças sob a água como uma espécie de túmulo, nosso velho corpo fica enterrado, e submerso, e oculto, e então ele levanta novamente e é renovado”.

Quarto, como a água é universal e abundante, sua matéria está disponível para nossa necessidade deste sacramento, pois pode ser encontrada em qualquer parte.

Réplica à Objeção 1: O fogo ilumina ativamente, mas quem é batizado não pode vir a ser um luminoso, mas é abrilhantado pela fé, que “chega pela audição” (Rm 10,17). Consequentemente a água é muito mais apropriada que o fogo para o Batismo.

Mas quando encontramos uma citação como “Ele o batizará no Espirito Santo e no fogo”, podemos entender o fogo, como diz Jerônimo (In Mat. II), querendo dizer o próprio Espírito Santo, O Qual aparece sobre os discípulos sob a forma de línguas de fogo (At 2-3). Ou também podemos entender o significado de tribulação, como diz Crisóstomo (Hom. III in Mt.): “devido às tribulações, os pecados são lavados”. Ou ainda, como diz Hilário (Super Mat. II) que “quando nós somos batizados no Espírito Santo” nós também ficamos “perfeitos pelo julgamento do fogo”.

Réplica à Objeção 2: Vinho e óleo não são comumente utilizados para lavar como a água, bem como não o fazem eficientemente; em vez disso, se objetos são lavados por eles, ficam com o cheiro característico, que não é o caso da água. Além disso, eles não são tão universais e abundantes como a água.

Réplica à Objeção 3: A água saiu do lado de Cristo para nos purificar e o sangue para nos redimir. Entretanto o sangue pertence ao sacramento da Eucaristia, enquanto a água pertence ao Batismo. Assim sendo, o Batismo recebe a virtude de sua força do poder do sangue de Cristo.

Réplica à Objeção 4: O poder de Cristo foi colocado em todas as águas, não porque elas estivessem interligadas, porém pela sua espécie, como diz Santo Agostinho em um sermão da Epifania (App. Serm. CXXXV): “A benção que se seguiu após o Batismo do Salvador, como um rio místico, aumentou o curso de todas as correntes e preencheu os canais de todas as primaveras”.

Réplica à Objeção 5: A benção da água não é essencial ao Batismo, mas faz parte de uma certa solenidade, por meio da qual a devoção do fiel é estimulada e a astúcia do demônio é obstruída com o impedimento provocado pelo efeito batismal.

Veritatis Splendor

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF