Paulo
Teixeira - publicado em 15/01/26
Somente em 2024, foram registrados 1.450 feminicídios no
país, um aumento de 12% em relação ao ano anterior, e
o <strong>maior número já registrado desde a criação da lei Maria da
Penha </strong>que endurece as penas para quem comete esse crime
brutal.
Padre Rodolfo, assessor da Comissão Episcopal Vida e Família
da CNBB,
provoca uma reflexão interna nas comunidades religiosas. O segundo nível
da justiça é moral e teológico. O sacerdote argumenta que o
feminicídio é um escândalo que fere o plano de Deus. Para ele, a Igreja não
pode ser conivente com discursos que justifiquem a submissão ou a posse da
mulher pelo homem, pois tais deformações educativas são o berço da violência.
O padre é direto ao apontar a responsabilidade da formação
cristã nesse processo. "O feminicídio não surge 'do nada', mas é
fruto de uma longa cadeia de omissões, conivências e deformações
educativas", destaca o sacerdote. Ele reforça que a verdadeira justiça divina
exige que o Evangelho seja usado para libertar e não para oprimir,
transformando a cultura do descarte em uma cultura do cuidado e da igualdade
fundamental.
Uma missão para o novo ano
Ao iniciar 2026, o desafio é transformar os protestos e as
reflexões em ações concretas. A união entre a pressão popular e o despertar da
consciência religiosa aponta para um caminho de esperança. A justiça que
as mulheres buscam passa pela educação das novas gerações, pelo acolhimento nas
paróquias e pela fiscalização rigorosa das leis.
O Padre Rodolfo considera que reconhecer os erros do passado
é o que permitirá à sociedade avançar. "Esses erros, entre outros,
são, em grande parte, fruto de ignorância, medo, insegurança e de uma cultura
patriarcal que ainda não foi suficientemente convertida pelo Evangelho",
afirma. O compromisso de 2026, portanto, é fazer com que a justiça deixe
de ser uma palavra em cartazes ou sermões para se tornar a garantia real de que
nenhuma mulher a mais terá sua vida interrompida pelo ódio.
Educar a consciência
Superar este cenário exige mais do que leis; exige uma
transformação na base da formação humana. O Padre Rodolfo destaca o papel
crucial da família e da Igreja na criação de uma nova consciência que rejeite a
violência masculina. Educar filhos e filhas para a não-violência é um
imperativo cristão que começa no lar e se estende às catequeses e comunidades.
Ação pastoral
Por fim, a Igreja é convocada a um desafio prático:
o acolhimento e a proteção. A Pastoral Familiar e outras instâncias eclesiais
precisam de estar equipadas para identificar vulnerabilidades e oferecer
suporte real às vítimas. Não se pode falar de "Reino de Deus"
ignorando a "covardia" e a "degradação" — termos usados
pelo Papa Francisco e reforçados pelo Padre Rodolfo — que o feminicídio
representa.
O Padre Rodolfo conclui que o compromisso da fé exige que
todos se tornem parte de uma "grande onda contra a violência
masculina". "Somente assim poderemos, progressivamente,
deixar de contar feminicídios e começar a contar histórias de libertação e de
reconciliação, sinais do Reino que já está em meio a nós", afirma. O
escândalo da morte de mulheres deve, portanto, despertar uma fé que não se cala
e que trabalha incansavelmente pela justiça e pela dignidade humana.

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