HISTÓRIA DO PECADO
04/03/2026
Dom Julio Akamine
Arcebispo de Belém do Pará (PA)
O relato bíblico do pecado original e suas consequências (Gn 3,9-24)
tem a forma de um relato passado, mas o seu conteúdo descreve os acontecimentos
de todos os tempos. A história horizontal é a forma, mas o conteúdo constitui a
história vertical. Meditando o relato das origens constatamos uma descrição
profunda da atualidade.
Depois de terem comido do fruto proibido, Adão e Eva se
esconderam de Deus (3,8). Questionados, o homem e a mulher apresentam desculpas
esfarrapadas e jogam a culpa em outro. O homem acusa a mulher e Deus: “A
mulher que puseste a meu lado, ela me deu do fruto da árvore, e eu comi”
(3,12). A mulher, por sua vez, responde: “A serpente me enganou, e eu comi”
(3,12). Ela fala a verdade: a serpente a enganou. Ao mesmo tempo, porém,
reconhece que o ato foi consciente, livre e por isso responsável: “eu comi”.
O homem culpa a mulher e Deus. A mulher põe a culpa na serpente. Sempre é o
outro o culpado, mesmo que a responsabilidade pessoal seja evidente. Esse
comportamento reflete bem o que nós também fazemos quando somos surpreendidos
no pecado: arranjamos desculpas e jogamos a culpa nos outros e em Deus!
Uma vez que se trata de ato responsável, a punição se
realiza não como uma sanção extrínseca, mas como consequência do próprio ato.
Sempre imaginamos o castigo de Deus como uma sanção externa e nos revoltamos
com uma punição que nos parece injusta. Se, porém, formos menos cegos, teremos
que reconhecer que o castigo, na realidade, é a consequência das nossas
escolhas: se eu abuso da saúde na juventude, certamente me condenarei a uma
velhice precoce e infeliz; se não administro com responsabilidade meu dinheiro,
terei como resultado minha falência financeira; se não estudo para a prova, não
poderei superá-la.
Quais são as consequências do pecado, segundo o relato do
Gênesis? A consequência mais grave é a ruptura: ruptura entre o homem e a
terra, entre a mulher e o homem, entre o ser humano e Deus.
A terra que foi criada para ser produtiva e fecunda, porém,
produzirá para o homem espinhos e cardos. O trabalho do homem será marcado pelo
esforço com pouco resultado: “No suor do teu rosto comerás o pão”
(3,19). O homem, que foi tirado do pó da terra e se reconhece ligado à terra,
experimentará essa ligação não como uma pertença harmoniosa e feliz, mas como
antecipação da morte: “porque tu és pó, e ao pó hás de voltar” (3,19).
Deus toma o cuidado de não amaldiçoar o homem: a terra é amaldiçoada por causa
do homem (3,17). Na verdade, não é Deus que amaldiçoa diretamente, mas a terra
se torna amaldiçoada por causa do homem.
A ruptura se estende à mulher em duas formas. Primeiramente
em relação ao que lhe é próprio: “Multiplicarei os sofrimentos de tua
gravidez. Entre dores darás à luz os filhos” (3,16). Ela perdeu a harmonia
com aquilo que é próprio de sua natureza feminina: a capacidade de gerar
filhos.
Além disso ocorre a ruptura entre mulher e homem: “a teu
marido irá o teu desejo, e ele te dominará” (3,16). É próprio da dinâmica
erótica que sejamos atraídos pelo sexo oposto. Essa atração deveria nos
abrir ao encontro pessoal e à comunhão de vida; o pecado, porém, perverte a
atração erótica em dominação, violência e medo do sexo oposto.
Mesmo que o homem e a mulher tenham pecado e, por isso,
punidos, Deus não os abandona. Sinal da providência e do amor de Deus consiste
no fato de Deus ter feito para Adão e Eva túnicas de pele e os ter vestido
(3,21). É um gesto pequeno de grande delicadeza.
O maior gesto de amor por parte de Deus, porém, está na
promessa: “Porei inimizade entre ti (a serpente) e a mulher, entre a tua
descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”
(3,15). Já desde o início, Deus decretou a reparação da ruína provocada pelo
pecado. Assim no próprio relato do pecado está presente o sinal da misericórdia
divina. É o que a tradição chamou de protoevangelho.

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