TEMPO DE PÁSCOA
retirado do nº 03 – 2006, Revista 30Dias
Três Meditações sobre o Sábado Santo por Joseph Ratzinger
A Angústia da Ausência. Meditações sobre o Sábado Santo
Por Cardeal Joseph Ratzinger
TERCEIRA MEDITAÇÃO
No Breviário Romano, a liturgia do Tríduo Pascal é estruturada com especial cuidado; em sua oração, a Igreja deseja, por assim dizer, transportar-nos para a realidade da Paixão do Senhor e, além das palavras, para o centro espiritual do que aconteceu. Se alguém tentasse caracterizar a liturgia orante do Sábado Santo em poucas palavras, teria que falar, sobretudo, do efeito de profunda paz que dela emana. Cristo penetrou o oculto ( Verborgenheit ), mas, ao mesmo tempo, bem no coração da escuridão impenetrável, penetrou a segurança ( Geborgenheit ); na verdade, tornou-se a segurança suprema.
As palavras ousadas do salmista tornaram-se verdadeiras: "E ainda que eu queira esconder-me no inferno, lá estás também". E quanto mais se lê esta liturgia, mais se percebe nela os primeiros raios da Páscoa brilhando, como a aurora da manhã. Se a Sexta-feira Santa nos apresenta a figura desfigurada do Transpassado, a liturgia do Sábado Santo evoca a imagem da cruz, cara à Igreja antiga: a cruz rodeada por raios de luz, sinal tanto da morte quanto da ressurreição.
O Sábado Santo,
portanto, nos reconduz a um aspecto da piedade cristã que talvez tenha se
perdido ao longo do tempo. Quando olhamos para a cruz em oração, muitas vezes
vemos nela apenas um sinal da paixão histórica do Senhor no Gólgota. A origem
da devoção à cruz, porém, é outra: os cristãos oravam voltados para o leste
para expressar sua esperança de que Cristo, o verdadeiro sol, se ergueria sobre
a história, e assim expressar sua fé no retorno do Senhor. A cruz estava
inicialmente intimamente ligada a essa orientação .
Na oração, ela é representada, por assim dizer, como um estandarte que o rei erguerá em sua vinda; na imagem da cruz, a vanguarda da procissão já chegou entre os que oram. Para o cristianismo primitivo, a cruz é, portanto, acima de tudo, um sinal de esperança. Implica não tanto uma referência ao Senhor do passado, mas ao Senhor que está para vir. Certamente, era impossível escapar da necessidade intrínseca de que, com o passar do tempo, nosso olhar se voltasse também para o evento ocorrido: contra qualquer fuga para o espiritual, contra qualquer incompreensão da encarnação de Deus, era necessário defender a generosidade inimaginável do amor de Deus, que, por amor à miserável criatura humana, se fez homem — e que homem! Era necessário defender a santa loucura do amor de Deus, que escolheu não proferir uma palavra de poder, mas trilhar o caminho da impotência para humilhar nosso sonho de poder e conquistá-lo por dentro.
Mas não nos esquecemos, por demais, da ligação entre a cruz e a esperança, da unidade entre o Oriente e a direção da cruz, entre o passado e o futuro que existe no cristianismo? O espírito de esperança que respira nas orações do Sábado Santo deve permear, mais uma vez, todo o nosso ser cristão. O cristianismo não é apenas uma religião do passado, mas, não menos importante, do futuro; sua fé é, ao mesmo tempo, esperança, pois Cristo não é apenas aquele que morreu e ressuscitou, mas também aquele que há de vir.
Ó Senhor, iluminai nossas almas com este mistério da esperança para que
possamos reconhecer a luz que brilha da vossa cruz. Concedei-nos, como
cristãos, que prossigamos rumo ao futuro, rumo ao dia da vossa vinda.
Amém.
ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo, na escuridão da morte, Vós lançastes luz; no abismo da mais profunda solidão, a poderosa proteção do Vosso amor agora habita para sempre; em meio ao Vosso ocultamento, podemos agora cantar o Aleluia dos salvos. Concedei-nos a humilde simplicidade da fé, que não se deixa enganar quando nos chamais nas horas de escuridão, de abandono, quando tudo parece problemático; concedei-nos, neste tempo em que uma batalha mortal se trava ao Vós, luz suficiente para não Vos perdermos; luz suficiente para que possamos dá-la àqueles que dela necessitam ainda mais.
Que o mistério da Vossa
alegria pascal brilhe como a aurora em nossos dias; concedei-nos ser
verdadeiramente homens da Páscoa em meio ao Santo Sábado da história.
Concedei-nos que, através dos dias claros e escuros deste tempo, possamos
sempre nos encontrar caminhando com alegria rumo à Vossa futura
glória. Amém.


Nenhum comentário:
Postar um comentário