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domingo, 26 de julho de 2020

ESPIRITUALIDADE: João, o Solitário.

Ecclesia

«ACERCA DA ORAÇÃO»

João, o Solitário
(Trad. a partir do inglês por Patrícia Calvário)
1. Não imagines, irmão, que a oração consiste apenas em palavras ou que pode ser aprendida por meio de palavras. Não, na verdade, deves compreender que a plenitude da oração espiritual não se atinge como resultado de uma aprendizagem ou através da repetição de palavras. Pois não é a um homem que estás a orar, perante quem podes repetir um discurso bem elaborado: é a Ele, que é Espírito, a quem diriges os movimentos da tua oração. Portanto, deves orar também em espírito, uma vez que Ele é Espírito.
2. Aquele que ora em plenitude a Deus não precisa de um lugar especial. Nosso Senhor diz: “Há de vir a hora em que não adorareis o Pai nesta montanha nem em Jerusalém”; e mais uma vez, para mostrar que não se requer lugar algum em especial para orar, ensinou também que aqueles que adoram o Pai o devem fazer “em espírito e verdade”; e continua instruindo-nos referindo porque devemos orar segundo disse, “Pois Deus é Espírito”, e deve ser venerado espiritualmente, no espírito. Paulo também nos ensina acerca de como devemos empregar esta salmodia e oração espiritual: “O que, portanto, devo fazer?”, pergunta, “Orarei em espírito e orarei na minha mente; cantarei no espírito e cantarei na minha mente”. É no espírito e na mente, portanto, que Paulo recomenda que oremos e cantemos a Deus; sobre a língua nada nos diz. E não o faz porque esta oração espiritual é mais interior do que a língua, mais profundamente interior do que qualquer coisa que assome aos lábios, mais interior do que quaisquer palavras ou canto vocal. Quando alguém ora desta forma está imerso num nível mais profundo do que todo o discurso e permanece no plano onde se podem encontrar seres espirituais e anjos; como estes, essa pessoa profere “santo” sem quaisquer palavras. Mas se esta forma de oração cessa e recomeça a oração do canto vocal, então encontra-se fora da região dos anjos e torna-se novamente um homem comum.
3. Quem canta usando a língua e o corpo e persevera nesta adoração noite e dia, pertence à categoria dos “justos”. Mas aquele que foi considerado digno de penetrar mais fundo, cantando na mente e no espírito, esse é um “ser espiritual”.
A categoria do “ser espiritual” é mais elevada que a do “justo”, mas só é possível tornar-se “ser espiritual” depois de ser “justo”. Até alguém ter venerado por um considerável número de vezes desta forma exterior, jejuando, usando a voz para salmodiar, com longos períodos em genuflexão, vigílias constantes, recitação de salmos, trabalhos árduos, súplicas, abstinência, escassez de comida, e outras coisas deste tipo, mergulhando a sua alma continuamente na recordação de Deus, cheia de temor e tremor ao seu nome, humilde perante todos os homens, considerando toda a gente melhor que ele, mesmo quando vê as ações do homem: quando vê alguém perverso, ou adúltero, ou alguém ganancioso, ou bêbedo, ainda assim age com humildade perante eles e no mais oculto dos seus íntimos pensamentos verdadeiramente considera-os melhores que ele, não aparentemente, mas vendo alguém no meio de todas estas coisas más, aproxima-se e age com humildade perante ele, suplicando-lhe “ora por mim, pois sou um pecador perante Deus, sou culpado de muitas coisas, por nenhuma delas paguei o preço”. Somente quando alguém atinge isto – e outras coisas mais grandiosas que estas que mencionei – poderá cantar a Deus a mesma salmodia que os seres espirituais usam para O adorar.
4. Pois Deus é silêncio e no silêncio é ele cantado através desta salmodia, a única digna Dele. Não falo do silêncio da língua, pois se se mantém meramente a língua em silêncio, sem saber como cantar na mente e em espírito, significa apenas que se está desocupado e se enche de maus pensamentos: mantém apenas um silêncio exterior e não sabe como cantar interiormente, a língua do seu “homem interior” ainda não aprendeu a movimentar-se nem sequer para balbuciar. Deves observar o bebê espiritual que está dentro de ti da mesma forma que o fazes com uma criança comum ou um bebê: tal como a língua na boca de um bebê está imóvel porque não sabe ainda como falar ou os movimentos certos para falar, o mesmo acontece com a língua interior da mente; estará alheia a todo o discurso e pensamento: estará apenas ali no seu sítio, pronta a aprender os primeiros balbucios dos enunciados espirituais.
5. Assim, há o silêncio da língua, há o silêncio de todo o corpo, há o silêncio da alma, há o silêncio da mente e há o silêncio do espírito. O silêncio da língua é a abstenção de todo o discurso maldoso; o silêncio de todo o corpo dá-se quando todos os seus sentidos estão desocupados; existe silêncio da alma quando desprovida de maus pensamentos irrompendo nela; o silêncio da mente é a ausência de reflexão sobre ensinamentos prejudiciais; o silêncio do espírito existe quando a mente se abstém até mesmo de inspirações causadas por criaturas espirituais e todos os seus movimentos são inspirados apenas por Deus, no assombro tremendo do silêncio que envolve o Ser.
6. Estes são os graus e medidas que podem ser encontradas no discurso e no silêncio. Mas se ainda não os alcançaste e te encontras muito longe deles, permanece onde estás e canta a Deus usando a voz e a língua em amor e temor. Canta com esmero, trabalha tenazmente até alcançares o amor. Permanece no temor de Deus, como é de seu direito, e deste modo serás considerado digno de O amar com um amor natural – Ele que se deu a nós na nossa renovação [batismo].
7. E quando recitares as palavras da oração que te escrevi, tem cuidado para não as repetires apenas, mas deixa que o teu ser se transforme nessas palavras. Pois não há qualquer proveito na recitação a não ser que a palavra de fato se incorpore em ti e se torne ação, e assim serás visto pelo mundo como homem de Deus – a quem é devida a glória, a honra e a exaltação, pelos séculos dos séculos. Amém!
ECCLESIA BRASIL

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF