Jerusalém: na intimidade do Cenáculo
Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a
sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que
estavam no mundo, amou-os até o fim.
(Jo 13, 1). Estas palavras solenes de São João, que são familiares aos nossos ouvidos,
introduzem-nos na intimidade do Cenáculo.
26/02/2018
Alguns acréscimos são evidentes, como a construção feita em
1920, na parede central, para a oração islâmica, que tapa uma das três janelas,
ou um baldaquino da época turca sobre a escada que conduz ao nível inferior.
Este dossel apoia-se numa pequena coluna cujo capitel é cristão, pois está
adornada com o motivo eucarístico do pelicano que alimenta as suas crias. A
parede da esquerda conserva partes que remontam à era bizantina; através de uma
escada e de uma porta, sobe-se à pequena sala onde se recorda a vinda do
Espírito Santo. No lado oposto à entrada, há uma saída para outro terraço, que
por sua vez comunica com o telhado e dá para o claustro do convento franciscano
do século XIV.
Atualmente não é possível o culto no Cenáculo. Somente São
João Paulo II teve o privilégio de celebrar a Santa Missa nesta sala, em 23 de
Março de 2000. Quando Bento XVI foi à Terra Santa em Maio de 2009, rezou ali
o Regina Coeli com os Bispos do país. Devido à existência do
sarcófago em honra de Davi, que se venerava como o túmulo do rei bíblico,
muitos judeus vão ao piso inferior para rezar diante desse monumento.
A presença cristã no monte Sião sobrevive na basílica da
Dormição de Nossa Senhora – que inclui uma abadia beneditina – e o convento de
São Francisco. A primeira foi construída em 1910 em terrenos que Guilherme II,
imperador da Alemanha conseguiu. A cúpula do santuário, com um capitel muito
esbelto, é visível de vários pontos da cidade. No convento franciscano, fundado
em 1936, encontra-se o “Cenacolino” ou igreja do Cenáculo, o lugar de culto
mais próximo da sala da última Ceia.
Nesta capela, Dom Álvaro celebrou a Santa Missa pela última vez em sua vida, na manhã de 22 de março de 1994. Dom Javier Echevarría recordava depois alguns detalhes desse dia, no qual o primeiro sucessor de São Josemaria esteve intensamente recolhido em oração: “Fiquei impressionado pela unção com a qual ele revestiu: estava concentrado, comovido. Ele beijou o peitoral muito profundamente antes de colocar a casula. Depois, pegou o solidéu, também com autêntica unção, para colocá-lo antes de sair”[8].
Alguns poucos fiéis da Obra participaram da Missa, mas Dom Javier ressaltou que
“Dom Álvaro celebrou lá pensando em todos”. E continuava: “Ele estava muito
consciente da instituição da Eucaristia e do sacerdócio, víamos que celebrava
com muita devoção. Percebia-se o cansaço, mas talvez também a emoção de estar
naquele lugar santo. Posso assegurar que ele viveu esses momentos com
verdadeira intensidade, com verdadeira loucura de amor. Também pensou na
reunião dos Apóstolos com Nossa Senhora no Cenáculo, e que daí, partiu Pedro
para pregar ao povo, depois da vinda do Espírito Santo”[9].
O que distingue esta noite de todas as outras noites?
Reparai agora no Mestre reunido com os seus discípulos,
na intimidade do Cenáculo. Aproxima-se o momento da sua Paixão, e o Coração de
Cristo, rodeado daqueles a quem ama, estala em labaredas inefáveis[10].
Ardentemente tinha desejado que chegasse esta Páscoa[11],
a mais importante das festas anuais de Israel, na qual se revive a libertação
da escravidão no Egito. Estava unida a outra celebração, a dos Ázimos,
lembrando os pães sem fermento que o povo levou na sua fuga precipitada do país
do Nilo. Ainda que a cerimônia principal daquelas festas fosse uma ceia
familiar, esta possuía um forte caráter religioso: “era a comemoração do
passado, mas, ao mesmo tempo, também memória profética, quer dizer, anúncio da
libertação futura”[12].
Durante essa celebração, o momento relevante era o relato da
Páscoa ou hagadá pascal. Começava com uma pergunta do filho
mais novo ao pai:
- O que distingue esta noite de todas as noites?
A resposta era uma oportunidade para narrar detalhadamente a
saída do Egito. O chefe da família tomava a palavra na primeira pessoa, para
simbolizar que não só se recordavam aqueles fatos, mas que se faziam presentes
no ritual. Ao terminar, entoava-se um grande cântico de louvor, composto pelos
salmos 113 e 114, e bebia-se uma taça de vinho, chamada hagadá.
Depois, abençoava-se a mesa, começando pelo pão ázimo. A pessoa que presidia
comia-o e dava um pedaço a cada um com a carne do cordeiro.
Uma vez comida a ceia, retiravam-se os pratos e todos
lavavam as mãos para continuar a sobremesa. A conclusão solene começava
servindo-se o cálice da bênção, taça que continha vinho misturado com água.
Antes de bebê-lo, quem presidia, de pé, recitava uma longa ação de graças.
Ao celebrar a Última Ceia com os Apóstolos no contexto do
antigo banquete pascal, o Senhor transformou-o e deu-lhe o seu sentido
definitivo: “Com efeito, a passagem de Jesus a seu Pai por sua Morte e sua
Ressurreição, a Páscoa nova, é antecipada na ceia e celebrada na Eucaristia que
realiza a Páscoa judaica e antecipa a Páscoa final da Igreja na glória do
Reino”[13]. Quando
o Senhor instituiu a Sagrada Eucaristia, na Última Ceia, era de noite(...).
Caía a noite sobre o mundo, porque os velhos ritos, os antigos sinais da
misericórdia infinita de Deus para com a humanidade se iam realizar plenamente,
abrindo caminho a um verdadeiro amanhecer: a nova Páscoa. A Eucaristia foi
instituída durante a noite, preparando de antemão a manhã da Ressurreição[14].
Na intimidade do Cenáculo, Jesus fez algo de surpreendente,
totalmente inédito: tomando o pão, deu graças, partiu-o e deu-o
dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim[15].
As suas palavras exprimem a profunda novidade desta ceia em
relação às celebrações pascais anteriores. Quando deu o pão ázimo aos
discípulos, não lhes entregou pão, mas sim uma realidade diferente: isto
é o meu Corpo. “No pão repartido, o Senhor distribui-Se a Si próprio (…).
Dando graças e abençoando, Jesus transforma o pão: já não dá pão terreno, mas a
comunhão consigo mesmo”[16].
E ao mesmo tempo que instituiu a Eucaristia, deu aos Apóstolos o poder de a
perpetuar, pelo sacerdócio.
Também com o cálice Jesus fez algo de singular
relevância: fez o mesmo com o cálice, dizendo: Este cálice é a nova
aliança no meu sangue, que é derramado por vós[17].
Diante deste mistério, São João Paulo II dizia: “O que mais
Jesus podia fazer por nós? Verdadeiramente, na Eucaristia mostra-nos um amor
que vai ‘ao extremo’ (Jo 13, 1), um amor que não conhece medida. Este aspecto
da caridade universal do Sacramento eucarístico fundamenta-se nas mesmas
palavras do Salvador. Ao instituí-lo, não se limitou a dizer ‘Este é o meu
corpo’, ‘este cálice é a Nova Aliança no meu sangue’, mas sim que acrescentou
‘entregue por vós… derramado por vós’ (Lc 22, 19-20). Não afirmou somente que o
que lhes dava a comer e a beber era o seu corpo e o seu sangue, mas
manifestou-lhes o seu valor sacrificial, fazendo presente de modo sacramental o
seu sacrifício, que cumpriria depois na cruz algumas horas mais tarde, para a
salvação de todos”[18].
Bento XVI, dirigindo-se aos Bispos da Terra Santa no próprio
lugar da Última Ceia, ensinava: “No Cenáculo, o mistério de graça e de
salvação, do qual somos destinatários e inclusive arautos e ministros, só pode
ser manifestado em termos de amor”[19]:
o de Deus, que nos amou primeiro e ficou realmente presente na Eucaristia, e o
da nossa resposta, que nos leva a entregar-nos generosamente ao Senhor e aos
outros.
Não entendo como se pode viver cristãmente sem sentir a
necessidade de uma amizade constante com Jesus na Palavra e no Pão, na oração e
na Eucaristia. E entendo perfeitamente que, ao longo dos séculos, as sucessivas
gerações de fiéis tenham ido concretizando essa piedade eucarística: umas
vezes, com práticas multitudinárias, professando publicamente a sua fé; outras,
com gestos silenciosos e calados, na sagrada paz do templo ou na intimidade do
coração.
Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que tem que
ser o centro do nosso dia. Se vivemos bem a Missa, como não havemos de
continuar depois o resto da jornada com o pensamento no Senhor, com o desejo
irreprimível de não nos afastarmos da sua presença, para trabalhar como Ele
trabalhava e amar como Ele amava? Aprendemos então a agradecer ao Senhor mais
outra delicadeza: que não tenha querido limitar a sua presença ao instante do
Sacrifício do Altar, mas tenha decidido permanecer na Hóstia Santa que se reserva
no Tabernáculo, no Sacrário.
Devo dizer que, para mim, o Sacrário foi sempre Betânia,
o lugar tranquilo e aprazível onde está Cristo, onde lhe podemos contar as
nossas preocupações, nossos sofrimentos, nossos anseios e nossas alegrias, com
a mesma simplicidade e naturalidade com que lhe falavam aqueles seus amigos
Marta, Maria e Lázaro. Por isso, ao percorrer as ruas de uma cidade ou de uma
aldeia, alegra-me descobrir, mesmo de longe, a silhueta de uma igreja: é um
novo Sacrário, uma nova ocasião de deixar que a alma se escape para estar em
desejo junto do Senhor Sacramentado[20].
Notas
[8] Javier
Echevarría, Palavras publicadas em Crónica, 1994, p. 391 (AGP,
biblioteca, P01).
[9] Ibid.,
pp. 391-392.
[10] Amigos
de Deus, 222
[11] Cf. Lc 22,
15.
[12] Bento
XVI, Exort.apost Sacramentum caritatis, 10
[13] Catecismo
da Igreja Católica, 1340.
[14] É
Cristo que passa, 155.
[15] Lc
22, 19.
[16] Bento
XVI Homilia
da Missa da Ceia do Senhor, 9-IV-2009.
[17] Lc
22, 20
[18] São
João Paulo II, Litt. Enc. Ecclesia
de Eucharistia, 17-IV-2003, 11-12.
[19] Bento
XVI, Recitação
da Regina Coeli com os Ordinários da Terra Santa.
[20] É
Cristo que passa, 154



Nenhum comentário:
Postar um comentário