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segunda-feira, 8 de maio de 2023

“Antiquum ministerium”: um novo ministério para um antigo serviço

Mosaicos do Batistério de "San Giovanni in Fonte", Nápoles

"É possível reconhecer, dentro da grande tradição carismática do Novo Testamento, a presença concreta de batizados que exerceram o ministério de transmitir, de forma mais orgânica, permanente e associada com as várias circunstâncias da vida, o ensinamento dos apóstolos e dos evangelistas. A Igreja quis reconhecer este serviço como expressão concreta do carisma pessoal, que tanto favoreceu o exercício da sua missão evangelizadora." (Carta Apostólica ANTIQUUM MINISTERIUM)

por Stefano Lodigiani

Pela primeira vez na história da Igreja, o ministério laical do catequista foi reconhecido e instituído com a Carta Apostólica Antiquum ministerium de 10 de maio de 2021. Uma novidade com perfume de antiguidade, como fica claro também pelas primeiras palavras em latim da própria Carta, "Antiquum ministerium", que segundo a tradição dão o título a todo o documento. O Papa Francisco recorda que “ministério antigo é o de Catequista na Igreja. Os teólogos pensam, comumente, que se encontram os primeiros exemplos já nos escritos do Novo Testamento.” (AM n.1).

Os estudiosos concordam em afirmar que nos primórdios do cristianismo não se encontravam os termos "catecismo, catequista" como são hoje entendidos, mas sem dúvida foram redigidas apresentações da mensagem cristã e seus conteúdos fundamentais (o credo, os sacramentos, a vida moral), que remetem aos catecismos dos nossos tempos. Quando o caminho catecumenal para os adultos que pretendem tornar-se cristãos e receber os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia) começa a tomar forma e a estruturar-se, também começa a delinear-se uma forma de catequese que recorda o seu sentido atual.

O caminho catecumenal que se desenvolveu no século II está intrinsecamente ligado aos escritos dos Padres da Igreja, que podem ser considerados “catequistas de autoridade”. Entre os documentos mais conhecidos da época encontramos a Didaquê ou Doutrina dos Doze Apóstolos, de autor desconhecido, cujo texto só foi encontrado em 1800, embora tenha sido amplamente citado nos escritos dos primeiros séculos. Aqui lemos a exposição dos "Dois Caminhos, o Caminho da Morte e o Caminho da Vida", seguida da apresentação dos ritos do Batismo e da Celebração Eucarística, então uma parte sobre a estrutura da Igreja antiga, por fim a conclusão de natureza escatológica.

Outro documento desse período é "O pastor de Hermas" do gênero apocalíptico, composto por cinco Visões, doze Mandamentos e dez Similitudes (ou Parábolas). A São Justino, filósofo e mártir, devemos o Diálogo com Trifão, as Apologias e, sobretudo, a mais antiga descrição do rito eucarístico, na Carta ao Imperador Antonino Pio. Não podemos esquecer depois Santo Irineu de Lyon, cujas obras foram influenciadas por Policarpo de Esmirna, discípulo direto de São João Evangelista.

No século III o catecumenato atingiu o seu máximo desenvolvimento, com um itinerário sistemático articulado ao longo de vários anos, como atestam, entre outros, Tertuliano, Cipriano, Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes e as "Escolas" catequéticas da época. Com o Edito de Milão de fevereiro de 313, o imperador Constantino, o Grande, garantiu a liberdade de religião e culto.

O século IV constitui aquela que os historiadores definem como "a época de ouro da catequese patrística" e, ao mesmo tempo, o início do declínio do instituto catecumenal. Despontam neste período as 18 catequeses de Cirilo de Jerusalém, as 8 catequeses batismais de São João Crisóstomo, as 16 homilias catequéticas de Teodoro de Mopsuestia, o De Mysteriis e o De Sacramentis de Santo Ambrósio, o De catechizandis rudibus de S. Agostinho, contendo indicações para estruturar o ensino catequético, exemplos práticos de catequese, indicações metodológicas sobre a relação a estabelecer com o aprendiz, traços sobre a fisionomia do catequista. São João Paulo II o definiu "Um pequeno tratado sobre a alegria de catequizar" (Catechesi tradendae, 621).

Os textos deste período da história da Igreja, entre os quais mencionamos apenas alguns, são ainda hoje objeto de estudo e fonte de inspiração para a liturgia e para a catequese, dada a sua riqueza doutrinal. O Rito de Iniciação Cristã de Adultos, publicado em 6 de janeiro de 1972, no número 2 das Premissas, sublinha a referência ao catecumenato dos primeiros séculos e seu valor missionário: "O Rito compreende de fato não só a celebração dos Sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia, mas também todos os ritos do catecumenato que, já experimentado pelo antiquíssimo uso da Igreja e agora adaptado à ação missionária que se desenvolve nas diversas regiões, foi tão solicitado de todas as partes, que o Concílio Vaticano II decretou que deve ser restabelecido, revisto e adaptado às tradições locais” (cf. Ad Gentes 14).

A partir do século VI, o catecumenato declinou progressivamente. Já não há mais uma catequese sistemática como previa o itinerário catecumenal, mas esta é deixada aos párocos e aos pais, enquanto cresce a difusão do batismo das crianças, aliás já presente nas comunidades das origens. Entre os períodos e eventos que podem ser citados, sem alguma pretensão de ser completa, a recordar o século XVI, que com a invenção da imprensa e o crescimento da população alfabetizada também viu nascer o "livro de catecismo", texto que apresenta as verdades fundamentais da fé na forma de perguntas e respostas. O "Catecismo do Concílio de Trento", promulgado oficialmente pelo Concílio realizado naquela cidade de 1545 a 1563, era um manual para a instrução dos leigos pelos sacerdotes, no clima da resposta à Reforma Protestante. Também nesta época aparecem os primeiros textos de aprofundamento destinados aos catequistas (entre os autores está São Roberto Belarmino).

Na segunda metade do século XVIII, difundem-se os catecismos pelas dioceses. O nascimento e a difusão do "movimento catequético" foram consequência do Concílio Vaticano I (1870). Sob o pontificado do Papa Leão XIII (1878-1902) os catequistas começam a se organizar, são promovidos cursos de formação, congressos, revistas e publicações para eles. São Pio X publica a Encíclica Acerbo nimis (1905), sobre a ignorância religiosa e a importância do ensino do catecismo e dos catecismos (Compêndio da Doutrina Cristã em 1902 e Catecismo da Doutrina Cristã em 1912). Na Europa, especialmente na França e na Itália, difunde-se o empenho de um grande número de catequistas leigos. Na primeira metade do século, os Centros Catequéticos promovidos e dirigidos por diversos institutos religiosos se multiplicaram, tornando-se centros de estudo, formação, elaboração de textos e subsídios.

*Agência Fides

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

domingo, 7 de maio de 2023

A vida é um caminho pascal

Renata Sedmakova | Shutterstock | #image_title

Por Don Emanuele Bargellini 

A Páscoa é ponto de chegada de um longo caminho de preparação e de espera, e início de um itinerário no seguimento de Cristo que durará a vida inteira, de conversão em conversão a Ele. “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Esta vida na carne vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a se mesmo por mim” (Gl 2, 19-20).

Ó Deus, por vosso filho unigênito vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova. (Oração do dia de Páscoa)

A vida do batizado em Cristo é um processo de morte e ressurreição que tem no próprio ressuscitado e na celebração memorial do evento pascal seu início e nascente, no inesgotável dinamismo de uma existência sempre nova, à medida em que se abre à ação do Espírito. 

O itinerário da pessoa em caminho evoca um movimento espiritual para frente que se realiza somente enquanto somos impulsionados pelo Espírito Santo: Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus (Rm 8,14-17), isto é, passaram da escravidão à liberdade de filhos/as; do agir por obrigação e medo ao agir por amor.

Todos os aspectos da vida de quem se deixa guiar pelo Espírito, constituem a vida espiritual: trabalho, descanso, atividade profissional, vida familiar, atividade econômica e política, dores e alegrias, etc., se vivenciados sob a ação e os critérios do Espírito e do Evangelho. Assim, todas as nossas atividades formam a nossa vida espiritual, não apenas a oração, a liturgia, etc…

Tu que seguis ao Cristo e és seu imitador, se permaneceres na palavra de Deus, se meditares na sua lei dia e noite, se te exercitares nos seus mandamentos, então estarás sempre no santuário e dele não sairás jamais. Pois deves buscar o santuário não num lugar, mas nas ações, na vida e nos costumes. Se estes são segundo Deus e correspondem a seu preceito, mesmo quando tu estiveres em casa, mesmo nas ruas da cidade, mesmo se te encontres no teatro, se permaneceres servindo ao Verbo de Deus, não tenha dúvida: tu estás habitando no santuário (Orígenes, Hom. 12,4; sobre o Levítico; SC 287, pg 182).

Papa Francisco nos oferece uma atualização ampla e orgânica da vida espiritual, que abrange todos os aspectos da existência do cristão e constitui uma vocação à santidade comum a todo filho e filha de Deus, na encíclica “Gaudete et exultate” – Sobre o chamado à santidade no mundo atual – (Cf nn. 14-18; Cittá del Vaticano e Paulus 2018.)

Esta unidade interior e harmônica da existência promovida pelo Espírito, às vezes é mais um “início e uma potencialidade” que uma experiência plena. Ela continua sendo objeto de esperança a ser procurada com paciente perseverança. Ela é um caminho com etapas e passagens sucessivas, que precisa de repetidas “páscoas”, aceitando morrer com Cristo a tudo o que nos impede de progredir no conformar-se a Ele, morrer ao “homem velho”, para crescer na livre obediência ao seu Espírito (cf Rm 8,18-25: com a criação sofremos os gemidos do parto….na perseverança). 

A experiência espiritual é experiência de vida que se identifica progressivamente com a vida de Jesus

Pelo batismo nos foi doada a sua mesma vida de filho, de liberdade e de amor. Usando a linguagem simbólica de Paulo, nós fomos “enxertados” em Cristo, que é a “oliveira santa”, recebendo sua mesma seiva vital, (cf Rm 11, 17 -24); fomos “transplantados” nele, como órgãos vivos do seu próprio corpo (cf I Cor 12, 12-13). Ser cristãos não é simplesmente seguir os ensinamentos de Jesus, sua doutrina, mas partilhar, por graça, da sua própria vida divina, viver uma constante relação vital com ele! A experiência da Páscoa de Jesus com o batismo funda uma “ética da relação” pessoal com Ele, não simplesmente uma “ética dos deveres”. Os comportamentos nascem da relação pessoal. 

Certo, é um inicio, uma potencialidade, uma “semente divina”. Temos toda a responsabilidade para que o nosso solo ofereça condições favoráveis para o crescimento da semente. O divino semeador é generoso para com todos, mas a sorte da semente depende muito das condições que o terreno apresenta (cf Mt 13, 18-23). O mistério do pecado está presente em nós, junto com o mistério da graça, do perdão e da conversão. 

Deixar transformar o “homem velho” no “homem novo”, a “carne” em “Espírito” é um processo longo e complexo. Paulo fala abertamente de um “conflito interior” que nos acompanha, às vezes em maneira dramática. Os pais do monaquismo falam de uma “luta espiritual” que solicita sempre “o soldado de Cristo”. (cf Ef 6, 10-17) a vigiar para reconhecer as insídias do inimigo e procurar no Senhor a força e o abrigo (cf Vida de São Romualdo c. 7;16;17; 61). Saber reconhecer as modalidades insidiosas com que o inimigo nos prepara os laços das tentações, faz parte importante do processo de discernimento (cf Papa Francisco, Homilia do dia 11/4/14: a táctica do inimigo se desenvolve por etapas e sucessivas tentativas: suave no início – contagiosa com os outros – auto- justificativa).

Um caminho que conhece provações e crises e exige discernimento espiritual 

Mortos ao pecado com Cristo e renascidos à vida no Espírito, estamos já com um pé nos céus (cf Ef 2, 6), capacitados a viver na terra como “ressuscitados em Cristo” (Cf Cl 3, 1-3). Este caminho conhece ainda, como seu elemento constitutivo e inevitável, limites e passagens através de provas e crises. Vivemos o dom do reino de Deus na dinâmica da história, pessoal e comunitária. 

Limites, provas e crises, não impedem o caminho. Na misteriosa pedagogia de Deus têm uma função positiva: descobrimos nossa fragilidade. “Quando sou fraco, então sou forte!” (2 Cor 12,10). E nos abrem à ação gratuita de Deus: Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos seu filho como vitima de expiação pelos nossos pecados (I Jo. 4, 10). 

Tomamos consciência que o primeiro protagonista e garante da nossa vida espiritual, não somos nós, mas o Senhor. A experiência do limite e do pecado, na perspectiva cristã, não gera sentido de culpa, que oprime, mas a humildade que confia na misericórdia e abre ao perdão do Pai “que não se cansa jamais de perdoar” (Papa Francisco).

Identificar os espinhos que podem sufocar a semente divina em nós, ou as pedras que a podem deixar secar, e adotar as providências para limpar o terreno do coração é prioridade absoluta na vida espiritual. Esta cura cuidadosa do terreno do coração coincide com o processo de discernimento espiritual. Trata-se de olhar e examinar cuidadosamente as atitudes profundas e os pensamentos que ocupam e preocupam nosso coração: eles determinam nossa maneira de ver a vida e as coisas e de fazer nossas escolhas concretas de cada dia, embora as vezes nem percebamos. 

Precisamos da sabedoria do Espírito que é:

a graça de poder ver cada coisa com os olhos de Deus. É simplesmente isso: é ver o mundo, ver as situações, as conjunturas, os problemas, tudo, com os olhos de Deus. Isto deriva da intimidade com Deus, da relação íntima que nós temos com Deus, da relação de filhos com o Pai. E o Espírito Santo, quando nós temos esta relação, nos dá o dom da sabedoria. Quando estamos em comunhão com o Senhor, é como se o Espírito Santo transfigurasse o nosso coração (Papa Francisco, Homilia do dia 9/04/2014)

O “discernimento no Espírito” constitui o eixo central no caminho espiritual. Por isso os padres da igreja, e sobre tudo os pais da vida monástica, deram tanta importância a ele. Cassiano (um monge muito importante do século V, uma verdadeira ponte da espiritualidade entre o Oriente e o Ocidente), destaca com vigor que o monge, ao procurar unificar a sua vida em Cristo, precisa exercitar com muita atenção o discernimento espiritual, a discrição. Ele oferece muitas sugestões teóricas e práticas, dedicando ao assunto a primeira das suas chamadas Conferencias, uma espécie de entrevistas com os monges que viviam no deserto no Egito.

Para Cassiano, o fim e a meta da vida do monge são a sua progressiva identificação com o reino de Deus, a vida no Espírito. Mas a condição para chegar a esta meta é a pureza do coração, que coincide com a caridade, com o amor. Para sustentar este processo de purificação do coração e libertar a caridade em todas as suas potencialidades, é de ajuda a ascese do corpo e a simplificação da mente que são condições para colocar o Senhor ao centro da própria vida. Discernir é seguir o que vem do Espírito e deixar cair o que vem do espírito do maligno e do “homem velho”, como diz Paulo.   

Para exercitar com sabedoria o justo discernimento, é importante viver em comunhão com a igreja, que é comunidade de fé, onde cada um recebe ajuda e luz e as partilha. Outro elemento de grande importância destacado pelos pais monásticos é a humilde abertura do coração ao pai espiritual, para um conveniente acompanhamento pessoal, a fim de ser ajudado a discernir o que favorece o crescimento da semente divina e o que a impede, bem como para curar nossas feridas

Encontrar um pai espiritual é uma graça, pois a paternidade espiritual é um dom do Espírito, não um titulo institucional, e ninguém pode autonomear-se pai espiritual. Hoje, é ainda mais difícil pela situação de transição radical que estamos vivendo na igreja e na sociedade. Os pais do monaquismo sempre estiveram conscientes disso, e não paravam de sugerir para rezar para encontrar esta graça. Mas é necessário discernimento, também na escolha da pessoa a quem abrir-se e entregar-se. 

Cassiano põe na boca do experiente abade Moisés esta cortante afirmação: 

Não devemos seguir os passos ou acolher a doutrina e os conselhos de todos os anciãos, só porque têm a cabeça branca e a vida longeva, mas, apenas daqueles que soubermos que, em sua juventude, levaram uma vida digna de estima e reconhecimento e se formaram na tradição dos antigos e não em suas próprias ideias orgulhosas (Conferência 2; n.13; Vol. 1, pg. 65; Editora Subiaco, Juiz de Fora)

Este assunto é tão determinante no caminho espiritual que Cassiano dedicará a ele a inteira Conferencia 2, que tem o titulo “Da discrição”. 

Na tradição monástica a atenção às experiências e ao ensinamento dos pais do monaquismo se torna fundamental, não para atar as pessoas à repetição do passado, como pretende um certo tradicionalismo superficial, mas para facilitar o discernimento sobre os passos que cada geração e cada pessoa é chamada a fazer, para progredir com o movimento da história, guiada pelo Senhor.

Na época atual, o psicólogo parece ter ocupado, muitas vezes em maneira totalizante, o lugar da pessoa que, não simplesmente por conhecer os dinamismos da psique humana, mas por viver uma vida iluminada pelo Espírito, pode ajudar quem procura trilhar o mesmo caminho. Valorizar o aporte das ciências humanas e psicológicas é uma preciosa oportunidade que, por sua vez, precisa ser integrada com o discernimento que tem presente a misteriosa ação do Espírito na pessoa e nas comunidades. 

Um caminho que nos conduz à inefável experiência da “divinização”

Se o caminho espiritual é marcado por provações e tentações, sua meta é exaltante, e vai além de toda expectativa humana. É fruto de pura graça: é a “divinização” da pessoa humana, como exprimem os pais do monaquismo do Oriente, a partilha sempre mais profunda da própria vida de Deus! Uma ousadia que o próprio Senhor fundamentou com sua “condescendência” e seu “rebaixamento”. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundancia (Jo 10,10)

Oh surpreendente intercambio! Deus se fez homem a fim de que o homem se torne Deus (Antífona de Natal).

O contato profundo e continuativo com o Senhor, na própria interioridade, é exigência fundamental para alimentar a vida espiritual e, ao mesmo tempo, constitui seu fruto mais amável. A primeira modalidade para sustentar este contato é a escuta/leitura da sua Palavra, feita com espírito de fé e oração. Uma leitura orante, que não empenha somente o intelecto, mas sobretudo o coração, a raiz da nossa vida: uma relação de pessoa a pessoa. Este contato pessoal, feito pelo impulso do Espírito, nos faz descobrir o sentido vital e atual da Palavra para nós, para mim, hoje. Quando e na medida que isto acontece, muda a vida. É o verdadeiro “acontecimento” da Palavra, e seu cumprimento.

O diálogo vital em nossa interioridade precisa de um clima de recolhimento e de concentração para libertar nosso espaço interior, um espaço tranquilo e silencioso: silêncio de palavras e ruídos exteriores, e sobretudo silêncio em relação as tantas preocupações, distrações, desejos, ansiedades. Precisamos exercer na interioridade da mente e do coração o jejum e a sobriedade.

É conveniente escolher algum tempo favorável, dentro do ritmo do próprio dia, para criar e cultivar este silêncio e diálogo interior, e procurar ser fiel. A organização da Liturgia das Horas, que valoriza o ritmo do tempo natural e das atividades humanas, é um símbolo desta atenção ao diálogo interior, inserido no ritmo da vida cotidiana. Com o tempo, esta autodisciplina ajuda a desenvolver o sentido da presença do Senhor, que orienta a vida, e acaba tornando-se quase sua respiração natural!

Ao final das contas, não é este o desejo mais profundo do nosso coração e a promessa do Senhor? 

Santo Agostinho interpreta muito bem este anseio profundo do coração e a admirável resposta do Senhor: 

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que tu estavas dentro de mim, e eu me mantinha do lado de fora e, deformado como era, lançava-me sobre estas coisas belas que tu criaste. Chamaste-me, gritaste e venceste a minha surdez. Fulguraste teu esplendor e puseste em fuga minha cegueira; exalaste teu perfume, aspirei-o, e agora anseio por ti, degustei-te, e agora tenho fome e sede. Tocaste-me, e agora ardo de desejo por tua paz (Confissões, liv. X, c. 27).

Fonte: https://pt.aleteia.org/

O que é a Doutrina Social da Igreja?

Doutrina Social da Igreja | Opus Dei

O que é a Doutrina Social da Igreja? Quais são seus princípios?

No caminho da salvação de cada pessoa, a Igreja se preocupa por toda a família humana e suas necessidades, também no âmbito material e social. Por isso, desenvolve uma bússola, uma doutrina social que forme as consciências e ajude a viver de acordo com o Evangelho e com a própria natureza humana.

10/05/2022

“Com a sua doutrina social, a Igreja não persegue fins de estruturação e organização da sociedade, mas de cobrança, orientação e formação das consciências” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 81).

“A Igreja (...) tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (Caritas in veritate, n. 9).

1. O que é a doutrina social da Igreja? (DSI)

A doutrina social é o anúncio de fé que o Magistério faz diante das realidades sociais. Recolhida num compêndio, esta defesa se traduz em indicações, conselhos e exortações com que a Igreja anima os cristãos a serem cidadãos responsáveis.

“De fato, não há unanimidade sobre a realidade que se designa como DSI. João Paulo II – na definição mais precisa já dada pelo Magistério – diz que é 'a formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial' (Sollicitudo Rei Socialis, 41)”[1].

O único objetivo da Igreja é “ajudar o homem no caminho da salvação”. (cf Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 69). Esta é a sua única missão e a razão pela qual a Igreja tem o direito e o dever de desenvolver uma doutrina social que forme a consciência dos homens e os ajude a viver segundo o Evangelho e a própria natureza humana. Um cristão coerente dirige todos os aspectos da sua vida para Deus, vivendo de acordo com o seu plano salvífico. A Igreja acompanha os cristãos nesta tarefa.

Isso inclui dimensões da vida e da cultura humana, como a economia e o trabalho, por meio da comunicação e da política, a questões como a comunidade internacional e as relações entre culturas e povos.

A caridade é uma “força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para e renovar profundamente desde o interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos. Nesta perspectiva, a caridade se torna caridade social e política: a caridade social nos leva a amar o bem comum e a buscar efetivamente o bem de todas as pessoas, consideradas não só individualmente, mas também na dimensão social que as une” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 207).

2. Onde a Doutrina Social da Igreja está explicada?

A DSI nasce com a Rerum Novarum de Leão XIII, papa que se preocupava muito com a ‘questão operária’, isto é, a situação de muitos trabalhadores pobres, do campo, que miraram para as cidades e viviam de forma miserável A partir desse momento, os ensinamentos sociais, que existiam no cristianismo desde o princípio, são organizados de maneira sistemática. As cartas sociais dos pontífices terão a Rerum Novarum como referência. Entre as muitas encíclicas sociais, destacam, as de São João Paulo II: Laborem Exercens (90 anos da Rerum Novarum), Sollicitudo Rei Socialis e Centesimus Annus (100 anos da Rerum Novarum). Recentemente, o Papa Francisco se dirigiu aos cristãos com duas encíclicas de tema social: Laudato si' (2015) e Fratelli Tutti (2020).

Com o objetivo de facilitar uma busca temática dos conteúdos, nos últimos anos se escreveu um Compêndio da Doutrina Social da Igreja que pode servir como referência.

3. A doutrina social da Igreja é uma espécie de política ou ideologia?

Não. Não tem competência em questões técnicas, nem propõe sistemas de organização social, que não pertencem à sua missão: esta se limita ao âmbito moral e evangélico. Além disso, essa função não é realizada com base em um poder coercitivo (próprio do Estado), nem se servindo do “braço secular” (isto é, usando instituições civis que atuem de acordo com as suas indicações, exercendo deste modo sua influência na sociedade); exerce-a por meio de um poder de convicção, que respeita a laicidade da vida pública. Consequentemente, o ensinamento social do Magistério não é obstáculo para a autonomia das realidades terrenas. Ao contrário, as interpreta para examinar sua adequação ao espírito evangélico e orientar a conduta cristã.

“É justo que [a Igreja] possa, sempre e em toda parte, pregar a fé com liberdade verdadeira; ensinar a sua doutrina social; exercer livremente a sua missão entre os homens; e ainda emitir juízo moral, também sobre as realidades que dizem respeito à ordem política, quando o exijam os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, empregando todos os recursos, e somente estes, que estão de acordo com o Evangelho e com o bem de todos, conforme a diversidade dos tempos e das situações” (Gaudium et Spes, 76).

“Na ordem da moralidade, a Igreja tem uma missão distinta da missão das autoridades políticas. A Igreja se preocupa com aspectos temporais do bem comum em razão de sua ordenação ao Sumo Bem, nosso fim último. Procura inspirar as atitudes justas na relação com os bens terrenos e nas relações socioeconômicas” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2420).

Meditar com São Josemaria

“Isto traz como consequência uma visão mais profunda da Igreja, como comunidade formada por todos os fiéis, sendo todos nós solidários de uma mesma missão, que cada um deve realizar de acordo com as suas circunstâncias pessoais. Os leigos, graças aos impulsos do Espírito Santo, são cada vez mais conscientes de serem Igreja, de terem uma missão específica, sublime e necessária, já que foi querida por Deus. E sabem que essa missão depende da sua própria condição de cristãos; não necessariamente de um mandato da Hierarquia, embora seja evidente que devem levá-la a cabo em união com a Hierarquia eclesiástica e segundo os ensinamentos do Magistério” (Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, 59).

“Jamais perguntei a nenhum dos que se aproximaram de mim o que pensava em matéria de política: não me interessa! Com essa norma da minha conduta, manifesto-vos uma realidade que está metida no âmago do Opus Dei, a que com a graça e a misericórdia divinas me dediquei completamente, para servir a Igreja Santa. Esse tema não me interessa, porque vós, cristãos, gozais da mais plena liberdade, com a consequente responsabilidade pessoal, para intervir como mais vos aprouver em questões de índole política, social, cultural..., sem outros limites que os estabelecidos pelo Magistério da Igreja” (Amigos de Deus, 11).

“Nunca falo de política. Não encaro a tarefa dos cristãos na terra como se tivesse por fim fazer brotar uma corrente político-religiosa - seria uma loucura -, nem mesmo com o bom propósito de infundir o espírito de Cristo em todas as atividades dos homens. O que é preciso situar em Deus é o coração de cada um, seja ele quem for. Procuremos falar a cada cristão, para que lá onde estiver - nas circunstâncias que não dependem apenas da sua posição na Igreja ou na vida civil, mas também do resultado das mutáveis situações históricas -, saiba dar testemunho da fé que professa, com o exemplo e com a palavra” (É Cristo que passa, 183).

4. Por que a Igreja manifesta a sua opinião sobre questões sociais?

A salvação realizada por Cristo e, consequentemente, a missão da Igreja, atinge o homem em toda a sua integridade, inclusive na esfera social. De fato, o cristianismo não pode se restringir a meras devoções, mas é uma forma de viver em sociedade.

Bento XVI afirma que a doutrina social da Igreja responde à dinâmica da caridade recebida e oferecida e resume sua função como “proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade” (Caritas in veritate, n. 5).

O Papa Francisco explica a razão pela qual a Igreja expressa sua opinião sobre assuntos que afetam a comunidade mundial (Discurso do Santo Padre ao corpo diplomático, 7 de janeiro de 2019), dizendo que a missão espiritual que Jesus Cristo dirigiu a São Pedro e seus sucessores leva o Pontífice e a Santa Sé a “a preocupar-se com toda a família humana e suas necessidades, mesmo de ordem material e social” e esclarece que “a Santa Sé não procura interferir na vida dos Estados”, mas observa os problemas “que dizem respeito à humanidade, com o propósito sincero e humilde de se colocar ao serviço do bem de todo o ser humano” e “trabalhar para promover a construção de sociedades pacíficas e reconciliadas”. Por isso, a Igreja não pode ficar de fora das realidades humanas e intervém em sua doutrina para iluminar diversos aspectos da sociedade.

A partir da sua experiência de contato com pessoas e povos, e da sua doutrina de fé sustentada por uma profunda reflexão, a Igreja é uma grande interlocutora para defender e dar voz aos mais fracos, às nações pobres e ao planeta ameaçado pela crise ecológica.

5. Princípios da doutrina social da Igreja

Essa preocupação da Igreja se concretiza em valores que servem de base para a atuação social. Todos eles têm base evangélica e estão de acordo com a natureza humana, que a Igreja assume e defende, procurando levá-la à plenitude, por meio da Redenção operada por Cristo. Esses valores são:

1. A dignidade da pessoa humana: a vida humana é sagrada e a sua dignidade inviolável, independentemente da idade, do estado de saúde, da riqueza ou da condição social. Toda pessoa tem direito à vida desde a concepção até a morte natural. Além disso, uma vida digna implica a paz, muitas vezes ameaçada pela guerra e pela violência.

2. Família e comunidade: o homem é um ser social e tem o direito de crescer em comunidade. O casamento e a família são a base da sociedade (já no início do cristianismo a família era considerada “igreja doméstica”, termo que foi recuperado pelo Concílio Vaticano II e difundido por São João Paulo II). Todas as pessoas têm direito de participar na sociedade.

3. Direitos e deveres: todas as pessoas têm direitos a reclamar e deveres a cumprir, tanto em nível individual, como familiar e social. Em particular, dos trabalhadores: a economia está ao serviço das pessoas e não o contrário. Os trabalhadores têm direito a um trabalho digno, seguro e bem remunerado.

4. Opção preferencial pelos pobres e vulneráveis: Jesus nos ensinou que os mais vulneráveis ​​de uma sociedade têm um lugar privilegiado em seu Reino. É um dever de justiça ajudar a todos na luta contra a pobreza e as situações de risco, algo que o Papa Francisco enfatizou desde o início de seu pontificado.

5. Bem Comum: é “o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et Spes, 26).

6. Solidariedade: a Igreja promove a paz e a justiça acima das diferenças de raça, nação, religião etc. Há uma só família humana que todos nós somos responsáveis ​​por cuidar.

7. Subsidiariedade: a autoridade pública deve deixar “ao cuidado de associações inferiores aqueles negócios de menor importância, que a absorveriam demasiado; poderá então desempenhar mais livre, enérgica e eficazmente o que só a ela compete, porque só ela o pode fazer” (Quadragesimo anno, 80).

8. Cuidado com a criação: Deus colocou o homem à frente das realidades terrenas para dominá-las e cuidá-las. Através do respeito pelas outras criaturas, o homem manifesta o respeito devido ao Criador. A crise ambiental tem dimensões morais.

Meditar com São Josemaria

“A Igreja é, por conseguinte, inseparavelmente humana e divina. É sociedade divina pela sua origem, sobrenatural pelo seu fim e pelos meios que se ordenam proximamente a esse fim; mas, na medida em que se compõe de homens, é uma comunidade humana. Vive e atua no mundo, mas o seu fim e a sua força não estão na terra, mas no Céu” (Amar a Igreja, 22).

“Este, e não outro, é o fim da Igreja: a salvação das almas, uma a uma” (Amar a Igreja, 23).

“Querer atingir a santidade — apesar dos erros e das misérias pessoais, que hão de durar enquanto vivermos — significa esforçar-se, com a graça de Deus, por viver a caridade, plenitude da lei e vínculo da perfeição. A caridade não é algo abstrato; significa entrega real e total ao serviço de Deus e de todos os homens: desse Deus que nos fala no silêncio da oração e no rumor do mundo; desses homens cuja existência se entrecruza com a nossa.

Vivendo a caridade — o Amor —, vivem-se todas as virtudes humanas e sobrenaturais do cristão, que formam uma unidade e que não se podem reduzir a enumerações exaustivas. A caridade exige que se viva a justiça, a solidariedade, a responsabilidade familiar, a alegria, a castidade, a amizade...” (Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, 62).

“Na terra, há apenas uma raça: a raça dos filhos de Deus. Todos devemos falar a mesma língua: a que nosso Pai que está nos Céus nos ensina, a língua dos diálogos de Jesus com seu Pai, a língua que se fala com o coração e com a cabeça, aquela que estamos usando agora na nossa oração. É a língua das almas contemplativas, dos homens que são espirituais por se terem apercebido da sua filiação divina; uma língua que se manifesta em mil moções da vontade, em luzes vivas do entendimento, em afetos do coração, em decisões de retidão de vida, de bem-fazer, de alegria, de paz” (É Cristo que passa, 13).

“A Universidade não deve formar homens que consumam egoisticamente as vantagens alcançadas através de seus estudos; deve prepará-los para uma tarefa de generosa ajuda ao próximo, de fraternidade cristã.
Muitas vezes, esta solidariedade esgota-se em manifestações orais ou escritas, quando não em algazarras estéreis ou prejudiciais. A solidariedade, meço-a eu por obras de serviço: conheço milhares de casos de estudantes de muitos países, que renunciaram ao seu pequeno mundo privado, dando-se aos outros mediante um trabalho profissional que procuram fazer com perfeição humana, em obras de ensino, de assistência, sociais etc., com espírito sempre jovem e cheio de alegria” (Entrevistas com São Josemaria, 75).

“É hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras. O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade” (É Cristo que passa, 47).

“Um homem e uma sociedade que não reajam perante as tribulações ou as injustiças, e não se esforcem por aliviá-las, não são nem homem nem sociedade à medida do amor do Coração de Cristo. Os cristãos - conservando sempre a mais ampla liberdade à hora de estudar e de aplicar as diversas soluções, e, portanto, com um lógico pluralismo - devem identificar-se no mesmo empenho em servir a humanidade. De outro modo, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus: será um disfarce, um logro perante Deus e perante os homens” (É Cristo que passa, 167).

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Mitos litúrgicos (11/16)

Basílica de Santo Agostinho em Roma | Presbíteros

Mitos litúrgicos

Mito 21: “O canto gregoriano é algo ultrapassado”

Não é.

O Concílio Vaticano II afirma (Sacrossanctum Concilium, n.116) : “”A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana, o canto gregoriano; portanto, na ação litúrgica, ocupa o primeiro lugar entre seus similares. Os outros gêneros de música sacra, especialmente a polifonia, não são absolutamente excluídos da celebração dos ofícios divinos, desde que se harmonizem com o espírito da ação litúrgica…”

A Instrução Geral do Missal Romano (n. 41) afirma: “Em igualdade de circunstâncias, dê-se a primazia ao canto gregoriano, como canto próprio da Liturgia romana.”

Também o Santo Padre Bento XVI incentiva o canto gregoriano na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (n.62), como foi dito acima.É importante lembrar: mesmo em relação a canto popular, a referência é canto gregoriano. O saudoso Papa João Paulo II (Quirógrafo sobre a Música Sacra, n. 12) diz:

“No que diz respeito às composições musicais litúrgicas, faço minha a «regra geral» que são Pio X formulava com estes termos: ‘Uma composição para a Igreja é tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor, da melodia gregoriana, e tanto menos é digna do templo, quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo». Não se trata, evidentemente, de copiar o canto gregoriano, mas muito mais de considerar que as novas composições sejam absorvidas pelo mesmo espírito que suscitou e, pouco a pouco, modelou aquele canto.”

Mito 22: “Atualmente o padre tem que rezar de frente para os fiéis”

Não tem.

Foi publicada em 1993, no seu boletim Notitiae, uma nota da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos reafirma a licitude tanto da celebração “Versus Populum” (com o sacerdote voltado para o povo) quanto da “Versus Deum” (com o sacerdote e povo voltados para Deus, isto é, na mesma direção)

Assim, mesmo na forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI, é perfeitamente possível que se celebre a Santa Missa com o sacerdote e os fiéis voltados na mesma direção.

O Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI dedicou à este tema um capítulo inteiro do seu livro “Espírito da Liturgia – Uma introdução”, publicado em 1999; é o capítulo III da parte II, denominado “O altar e a orientação da oração na Liturgia”.

Neste texto, o Santo Padre incentiva a celebração em “Versus Deum”, exaltando o profundo significado litúrgico que tem o sacerdote e os fiéis voltados para a mesma direção, isto é, para Deus. Ele diz: “. “O sacerdote olhando para o povo dá à comunidade o aspecto de um círculo fechado em si mesmo. Já não é – por sua mesma disposição – uma comunidade aberta para frente e para cima, senão fechada em si mesma. (… ) O importante não é o diálogo olhando para o sacerdote, mas a adoração comum, sair ao encontro do Senhor que vem. A essência do acontecimento não é um círculo fechado, mas a saída de todos ao encontro do Senhor que se expressa na orientação comum.”

Mito 23: “O Sacrário no centro é anti-litúrgico”

Não é.

O Santo Padre Bento XVI (Sacramentum Caritatis, n. 69) afirma que, se o Sacrário é colocado na nave principal da Igreja, “é preferível colocar o sacrário no presbitério, em lugar suficientemente elevado, no centro do fecho absidal ou então noutro ponto onde fique de igual modo bem visível.”

O Sacrário no centro tem, no espírito tradicional da Sagrada Liturgia, o significado de dar a Jesus Eucarístico o destaque no lugar central.

Mito 24: “Não se deve ter imagens dos santos nas igrejas”

Deve-se ter, sim.

Diz a Instrução Geral do Missal Romano (n.318): “De acordo com a antiquíssima tradição da Igreja, expõem-se à veneração dos fiéis, nos edifícios sagrados, imagens do Senhor, da bem-aventurada Virgem Maria e dos Santos, as quais devem estar dispostas de tal modo no lugar sagrado, que os fiéis sejam levados aos mistérios da fé que aí se celebram.”

O que é ponderado, porém, na mesma referência: “Tenha-se, por isso, o cuidado de não aumentar exageradamente o seu número e que a sua disposição se faça na ordem devida, de tal modo que não distraiam os fiéis da celebração. Normalmente, não haja na mesma igreja mais do que uma imagem do mesmo Santo. Em geral, no ornamento e disposição da igreja, no que se refere às imagens, procure atender-se à piedade de toda a comunidade e à beleza e dignidade das imagens.”

 Fonte: https://presbiteros.org.br/

Ordem de Malta elege primeiro grão-mestre plebeu

Fra’ John Dunlap, 81º grão-mestre da Ordem de Malta / Ordem de Malta

Por Ary Waldir Ramos Díaz

Roma, 05 Mai. 23 / 03:03 pm (ACI).- A Ordem Soberana e Militar de Malta escolheu fra’ John T. Dunlap, um advogado canadense de 66 anos, como grão-mestre. É o primeiro chefe na história da Ordem sem ascendência nobre.

Fra’ Dunlap é também o primeiro Grão-Mestre a ocupar o cargo por um período de dez anos, e não por toda a vida.

As duas novidades se devem à intervenção do papa Francisco na ordem em 2017.

A nova Constituição da Ordem de Malta, promulgada pelo papa Francisco em setembro de 2022, pôs fim a seis anos de reformas marcadas por numerosos contratempos.

O papa decidiu reforçar o estatuto religioso da Ordem e abolir os requisitos de nobreza para ser eleito aos cargos mais altos.

No Capítulo Geral Extraordinário do primeiro mês do ano, foram eleitos “por unanimidade” os novos altos cargos do Conselho Soberano para o período 2023-2029.

Nos últimos tempos, a Ordem teve um relacionamento tenso com o papa Francisco.

Em 15 de junho do ano passado, o papa Francisco nomeou fra’ Dunlap como lugar-tenente do grão-mestre da Ordem de Malta, em substituição de fra’ Marco Luzzago, que morreu neste período.

O novo lugar-tenente teve a tarefa de colaborar com o cardeal Tomasi na preparação do Capítulo Geral Extraordinário.

Dunlop é o primeiro cavaleiro professo do continente americano a liderar a ordem religiosa leiga da Igreja Católica.

Fra’ Dunlap comunicou sua eleição ao papa Francisco por meio de uma carta escrita de próprio punho.

Na quarta-feira (3), prestou juramento perante o cardeal Silvano Maria Tomasi C.S., delegado especial do papa, na Igreja de Santa Maria no Aventino, em Roma. A Ordem, através de um comunicado, divulgou os detalhes da eleição.

O novo grão-mestre prometeu obedecer às Constituições da Ordem com dedicação e unidade em sua missão: Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum (dar testemunho da fé, servir aos pobres).

Dunlap esteve a serviço da Ordem de Malta como presidente da Comissão para a proteção de nomes e emblemas e como representante na Aliança das Ordens de São João.

Suas responsabilidades incluem liderar a Ordem, composta tanto por frades como por cavaleiros e damas leigos, e presidir a Malteser International, organização humanitária dos Cavaleiros de Malta que aplica milhões de dólares em projetos de caridade em todo o mundo.

A Ordem de Malta é uma entidade soberana que mantém relações diplomáticas com mais de 100 Estados.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Papa: amar Jesus é a bússola para alcançar o Céu

Papa Francisco - Regina Caeli (Vatican News)

Num domingo ensolarado em Roma, o Papa rezou o Regina Caeli, comentando as palavras de Jesus aos discípulos: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". O céu é nossa meta e o caminho é Jesus, disse Francisco aos fiéis presentes na Praça São Pedro.

https://youtu.be/LByyfPlsgWM

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

Aonde ir e como chegar? Estas duas perguntas guiaram a reflexão do Papa neste V Domingo de Páscoa, diante de milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro para a oração do Regina Caeli.

Destino: a casa do Pai

Francisco se inspirou no trecho de João proposto pela Liturgia do dia, que traz o último discurso de Jesus antes de sua morte. O coração dos discípulos está abalado, mas o Senhor dirige a eles palavras de conforto, convidando-os a não terem medo: «Vou preparar um lugar para vós […], a fim de que onde eu estiver estejais também vós».

Com efeito, Jesus não os está abandonando, mas parte para preparar um lugar para eles e guiá-los rumo àquela meta. Assim, explicou o Pontífice, o Senhor indica hoje a todos nós o maravilhoso lugar aonde ir e, ao mesmo tempo, nos diz como ir, nos mostra o caminho a percorrer. 

“Na casa do Pai – diz aos seus amigos e cada um de nós – há espaço para você, você é bem-vindo, será acolhido para sempre pelo calor de um abraço, e eu estou no Céu para preparar-lhe um lugar!”

"Irmãos e irmãs, esta Palavra é fonte de consolação e esperança", comentou o Papa. Jesus não se separou de nós, mas nos abriu o caminho, antecipando o nosso destino final: o encontro com Deus Pai, em cujo coração há lugar para cada um de nós.

Então, quando sentimos o cansaço, a desorientação e até mesmo o fracasso, lembremo-nos para aonde vai a nossa vida. Não devemos perder de vista a meta, mesmo se hoje corremos o risco de não lembrar, de esquecer as perguntas finais, aquelas importantes: aonde vamos? Rumo aonde caminhamos? Por qual motivo vale a pena viver? Sem estas perguntas, sufocamos a vida somente no presente, pensamos que devemos desfrutá-la o quanto possível e acabamos por viver o dia, sem um propósito, sem uma meta.

“A nossa pátria, ao invés, está no céu, não nos esqueçamos da grandeza e da beleza da meta!”

A bússola: Jesus

Para a segunda pergunta - como chegar - a resposta vem do próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Jesus é o caminho a seguir para viver na verdade e ter a vida em abundância, acrescentou o Pontífice. Ele é o caminho e, portanto, a fé Nele não é um “conjunto de ideias” a acreditar, mas um caminho a percorrer, uma viagem a realizar, um caminho com Ele. É seguir Jesus, porque Ele é o caminho que conduz à felicidade que não conhece ocaso. É imitá-lo, recomendou o Papa, especialmente com gestos de proximidade e misericórdia para com os outros.

“Eis a bússola para alcançar o Céu: amar Jesus, o caminho, tornando-se sinais do seu amor na terra.”

Francisco concluiu convidando os fiéis a não se deixarem devastar pelo presente: "Olhemos para o alto, para o Céu, lembremo-nos da meta, pensemos que somos chamados para a eternidade, para o encontro com Deus. E, do Céu, renovemos hoje a escolha de Jesus, a escolha de amá-lo e de caminhar atrás Dele. Que a Virgem Maria, que seguindo Jesus chegou à meta, ampare a nossa esperança".

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF