sábado, 24 de janeiro de 2026
Os mártires de Palomeras
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Caminho Neocatecumenal: Uma preciosa contribuição para a vida da Igreja
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Papa ao Caminho Neocatecumenal: evangeçizar em comunhão com a Igreja
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero
sábado, 10 de janeiro de 2026
Tente outra vez
Tente outra vez
Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.
O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.
Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.
Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.
Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.
A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.
Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.
Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez!
Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história.
Fonte: https://www.cnbb.org.br/
Tente outra vez
Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.
O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.
Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.
Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.
Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.
A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.
Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.
Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez!
Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história.
Fonte: https://www.cnbb.org.br/
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Você sabia que São José também teve uma anunciação?
Valdemar
De Vaux - publicado em 01/01/26
A liturgia inclui o anúncio feito a José do nascimento de Jesus. Uma Anunciação paralela à da Virgem Maria que mostra como Deus coopera com o homem.
Anunciação é sinônimo da Virgem Maria. A Igreja usa este
termo, cunhado com este propósito, para se referir ao evento bíblico (cf. Lucas
1,26-38 ) em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que será a mãe do
Salvador, ao que a jovem de Nazaré responde com o famoso "fiat":
"Assim seja". Mas este relato, que só se encontra no terceiro
Evangelho, o de Lucas, encontra um paralelo em Mateus, que alguns chamam de
"Anunciação a José", nos versículos 18 a 26 de seu primeiro capítulo.
Esta passagem é lida na missa de 18 de dezembro de cada ano,
como preparação para a solenidade da Natividade do Senhor.
O Papa João Paulo II, em sua exortação apostólica Redemptoris Custos sobre o marido de Maria,
publicada em 1989, fala de uma estreita analogia (§3) entre os dois relatos
evangélicos:
"'O mensageiro divino introduz José no mistério da
maternidade de Maria'. Assim como a mãe de Jesus, um anjo se aproxima do justo
quando ele decide repudiar secretamente Maria porque ela está grávida. Esta é
uma forma de respeitar a lei, mas também a reputação de Maria.
'Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe
disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria como sua esposa,
porque o que nela é gerado vem do Espírito Santo. Ele dará à luz um filho, e
você o chamará de Jesus (que significa: O Senhor salva), porque ele salvará seu
povo de seus pecados'" (Mt
20-21).
A irrupção da graça
Assim como a Virgem Maria, José experimenta assim a irrupção
da graça em sua vida. Embora seu plano esteja completo, o homem de Nazaré
permite que Deus o perturbe. Por sua determinação de seguir a vontade do Pai,
ele deposita sua fé no cumprimento das promessas recebidas de seus ancestrais,
listadas anteriormente em uma genealogia bastante tediosa: "Ao despertar
José, ele fez o que o anjo do Senhor lhe havia ordenado" (v. 24).
João Paulo II pode então dizer que José "manifesta assim uma disposição de
vontade semelhante à de Maria a respeito do que Deus lhe pediu através de seu
mensageiro".
Mais amplamente, explica a biblista Agnès de Lamarzelle em um artigo
na Nouvelle Revue théologique, há em ambos os textos, o de Lucas e
o de Mateus, as diferentes características do "gênero literário das
anunciações" relativamente comum no universo bíblico: uma situação
bloqueada de uma perspectiva humana, uma intervenção divina - perturbadora na
maioria das vezes -, a revelação do plano divino, a objeção e o sinal humano, e
o cumprimento pela obediência do servo de Deus que recebe o anúncio.
Ao destacar José, o evangelista Mateus permite que o leitor
veja a vinda do Salvador de uma nova perspectiva, identifique-se com o justo e
entenda melhor como Deus age neste mundo. Não pela onipotência, exceto talvez
pelo poder do amor, mas pela cooperação da graça, que é a primeira, e da
vontade humana. Enquanto o próprio Jesus está prestes a nascer, um sinal
preeminente da presença do Pai em nossas vidas, como podemos participar cada
um, à nossa maneira, no desenvolvimento do plano de Deus para a humanidade?
EXEGESE: História e mistério
EXEGESE
Arquivo 30Dias nº 01 - 1998
História e mistério
Por Ignace de la Potterie
História e Mistério é o título do livro que acompanha a última edição da 30Giorni . Trata-se de uma coletânea das principais contribuições que publiquei nesta revista mensal desde 1992. Na introdução, mencionei que queria explicar o que é exegese cristã. Mas por que esse título aparentemente dialético , História e Mistério?
Um princípio hermenêutico de São Gregório Magno
Segundo Gregório, o exegeta cristão, ao ler a Bíblia,
ascende da história ao mistério, " ab historia in mysterium
surgit " ( Homilia sobre Ezequiel I, 6, 3). Gregório
explica: "Quanto mais cada santo progride na Sagrada Escritura, mais essa
mesma Sagrada Escritura progride nele [...], porque as palavras divinas crescem com
aquele que as lê" (I, 7, 8). Esse princípio de leitura das Escrituras foi
inspirado em Gregório por sua visão inicial do livro de Ezequiel, sobre o qual
ele estava comentando.
O profeta, em sua visão, viu uma "carruagem"
puxada por "quatro seres viventes". As rodas da carruagem giraram, e
Gregório reflete sobre estas palavras do texto: " Spiritus vitae
erat in rotis " ( Ezequiel 1:20). Eis o
comentário: o fato de o espírito estar nas rodas da carruagem é um símbolo da
Escritura na qual o Espírito está presente. O texto bíblico é como uma roda
giratória: sobe, depois desce, mas apenas para subir novamente. O texto,
portanto, cresce (sobe), "cresce com quem o lê".
E a razão, explica Gregório, é que a Sagrada Escritura,
"ao propor o texto, revela o mistério" (" dum narrat
textum prodit mysterium ") e, assim, consegue narrar o passado
"de modo a também predizer o futuro". Esta forma de ler as
Escrituras era muito difundida na tradição patrística e medieval, e foi
recentemente estudada com grande erudição por Pier Cesare Bori em L'interpretazione
infinita. Ancient Christian hermeneutics and its transformations (Bolonha,
Il Mulino, 1987).
Vejamos um caso concreto dessa exegese. Gregório comenta o
episódio bíblico dos dois filhos de Isaac, isto é, Esaú e Jacó ( Gênesis
1:10) . (27:3-8). Jacó era o segundo filho, mas havia comprado o direito de
primogenitura de seu irmão com um prato de lentilhas. Isaac estava cego, e sua
esposa arquitetou um truque para enganá-lo: vestiu Jacó com uma pele de cabra
para que o marido o confundisse com Esaú, que tinha mais pelos. Lembro-me de
que, em Lovaina, nosso professor, comentando essa passagem, disse: "Não é
uma mentira, mas um mistério", o que parecia significar que tal episódio
permanecia incompreensível para ele.
Na realidade, porém, era inquestionavelmente uma mentira, um
engano. Mas como São Gregório explica isso? Precisamente para este caso, ele
nos pede que "ascendamos da história ao mistério", recorrendo a uma
leitura alegórica da passagem, ao seu significado espiritual. A partir desse
episódio, diz Gregório, revela-se a importância do direito de primogenitura na
história da salvação. O velho Isaac não pode dar a bênção ao verdadeiro
primogênito, Esaú, que havia ido caçar e representa o povo judeu. A bênção é dada
a Jacó, o segundo filho, que aparece sob a forma de seu irmão mais velho: é,
portanto, ele quem recebe a bênção em seu lugar, mas Jacó representa os pagãos.
O significado é, portanto, que os pagãos devem participar
das bênçãos destinadas a Israel. Assim, entende-se que, com essas bênçãos
recebidas, Jacó receberá o nome de Israel ( Gênesis 35:10). Os
pagãos devem participar das bênçãos prometidas ao povo escolhido. O horizonte,
portanto, se expandiu imensamente.
A transição "da história para o mistério" não se
dá apenas para eventos históricos, como neste caso. Ela também se dá, e
repetidamente, para termos usados na
tradição cristã, mas que
vieram do paganismo. No suplemento da revista, demos um exemplo típico: o termo Theotokos ,
um título dado pelos cristãos a Maria no século II (por volta de 180), era
usado no mundo helenístico para a deusa da fertilidade, Cibele (a mãe dos
deuses).
O primeiro a aplicá-lo à mãe de Jesus foi Orígenes, causando
assim um verdadeiro escândalo entre os cristãos. Mas, posteriormente, os Padres
da Igreja o utilizaram regularmente, purificando-o de suas conotações pagãs.
Assim, no Terceiro Concílio Ecumênico (o de Éfeso, em 431), apesar da recusa de
Nestório, que não queria ouvir falar do termo Theotokos , o
significado desse título foi proclamado como dogma: Maria, a mãe de Jesus, é
verdadeiramente a Mãe de Deus.
História e mistério: ambos necessários para a fé
A importância da história no cristianismo é inegável. Lutero
já havia enfatizado isso claramente. Certa vez, perguntaram-lhe: " Quid
est interpretatio? ", "O que significa interpretar?"
(Era, naturalmente, a Bíblia.) Ele respondeu: "
«Qui non intelligit rem non potest ex verbis sensum
elicere », «Aquele que não compreende o evento é
incapaz, quando confrontado com o texto , de compreender o seu significado ».
Este princípio de Lutero teve grande ressonância na hermenêutica contemporânea
(cf. Hans Georg Gadamer, Paul Ricoeur). Deve-se notar que, no texto de Lutero,
propõe-se uma espécie de relação triangular entre o evento
histórico , o texto que o narra e o significado que
se busca. De fato, é preciso perguntar onde reside o significado :
no evento ou no texto ? Ou talvez em ambos?
Mas, então, qual é a relação entre o evento e o texto? Qual dos dois tem
prioridade?
Ao colocarmos toda a ênfase no texto, corremos o risco de
transformá-lo em uma mera criação literária, um “teologumenon”; se, em vez
disso, dermos toda a prioridade à história, ficamos expostos ao historicismo ou
ao fundamentalismo. O mérito de Lutero (a ser enfatizado hoje, seguindo
Bultmann) reside em ter insistido na importância da história para a
interpretação. No entanto, faltava-lhe um elemento essencial: ele não levou em
conta o fato de que entre o texto e nós (que buscamos o significado )
existe uma longa distância, a saber, a tradição que transmite e atualiza o
texto para chegarmos ao sentido. Lutero permaneceu fechado na sola
Scriptura ; aqui vemos, com o ensinamento católico, a importância da
tradição para a busca do significado.
A necessidade da história para a interpretação das
Escrituras também foi sublinhada pelo Padre Henri de Lubac, mas em conexão com
a obra do Espírito. Isso também é essencial para a passagem da história ao
mistério. Recordemos as principais obras de Henri de Lubac sobre este problema:
o livro sobre Orígenes intitulado precisamente História e Espírito ;
e o livro sobre Orígenes intitulado Umatika Historikôs .
Problemas de hoje
Segundo um artigo de Charles Kannengiesser citado no volume
(pp. 17-20), a exegese dos Padres (lembremos que começamos com Gregório Magno)
não seria mais praticável hoje porque estamos sujeitos aos ditames do
Iluminismo. Kant, de fato, havia indicado o princípio fundamental em A
Religião Dentro dos Limites da Razão : "Uma fé histórica fundada
simplesmente em fatos não pode estender sua influência além dos limites de
tempo e lugar aos quais a informação que permite um juízo de credibilidade pode
chegar" (Bari, Laterza, 1980, p. 110). A transição de um fato histórico
particular (necessariamente coincidente) para uma verdade necessária da razão
seria, portanto, ilegítima.
Para responder a este desafio do racionalismo, recordemos
alguns textos fundamentais de São João. Ele cita dois textos essenciais sobre a
verdade, um referente a Jesus: "Eu sou a verdade" ( Jo 14,6);
o outro referente ao Espírito: "O Espírito é a verdade" ( 1
Jo 5,6). Quem ousaria, na linha do kantismo, afirmar que estamos
lidando aqui com uma "verdade necessária da razão"?
Para Jesus, que foi sem dúvida um homem concreto da
história, sua vinda é mencionada como um evento: "A graça da verdade veio por
meio de Jesus Cristo" ( Jo 1,17). A verdade de Jesus foi,
portanto, um "evento", não uma verdade "puramente
fortuita", mas uma verdade que "permanece entre nós" ( 2
Jo 2); a verdade de Jesus foi, de fato, um evento histórico,
mas um evento revelatório : o homem Jesus revelou-se
como o Filho de Deus e, portanto, no Filho o Pai revelou-se (cf. Jo 14,9).
Mas a crise provocada pelo racionalismo parece agora ter
sido superada na filosofia contemporânea. É significativo (ver pp. 157-162 do
livro) que vários filósofos contemporâneos pareçam ter redescoberto a noção
joanina de verdade. Um deles, Bernard Ronze, publicou recentemente um
livro, L'essence du christianisme (Paris, 1996) (A Essência do
Cristianismo), que começa com esta frase decisiva: "A noção de evento aparece
como fundamental nos Evangelhos e nos escritos apostólicos" (p. 17).
Todos os leitores da 30Giorni sabem o quão
fundamental é a noção de "evento" no pensamento e nos escritos de
Monsenhor Luigi Giussani: devemos redescobrir "a maravilha do evento de
Cristo". Essa redescoberta do evento de Cristo, com a ajuda do Evangelho
de João, também nos ajudará a redescobrir a passagem "da história para o
mistério".
Hoje a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus
Por Redação central
1 de jan de 2026 às 00:01
A solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Theotokos) é a
mais antiga que se conhece no Ocidente. Nas Catacumbas ou antiquíssimos
subterrâneos de Roma, onde se reuniam os primeiros cristãos para celebrar a
Santa Missa, encontram-se pinturas com esta inscrição.
Segundo um antigo testemunho escrito no século III, os
cristãos do Egito se dirigiam a Maria com a seguinte oração: “Sob seu amparo
nos acolhemos, Santa Mãe de Deus: não desprezeis a oração de seus filhos
necessitados; livra-nos de todo perigo, oh sempre Virgem gloriosa e bendita”
(Liturgia das Horas).
No século IV, o termo Theotokos era usado frequentemente no
Oriente e Ocidente porque já fazia parte do patrimônio da fé da Igreja.
Entretanto, no século V, o herege Nestório se atreveu a
dizer que Maria não era Mãe de Deus, afirmando: “Então Deus tem uma mãe? Pois
então não condenemos a mitologia grega, que atribui uma mãe aos deuses”.
Nestório havia caído em um engano devido a sua dificuldade
para admitir a unidade da pessoa de Cristo e sua interpretação errônea da
distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes Nele.
Os bispos, por sua parte, reunidos no Concílio de Éfeso (ano
431), afirmaram a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única
pessoa do Filho. Por sua vez, declararam: “A Virgem Maria sim é Mãe de Deus
porque seu Filho, Cristo, é Deus”.
Logo, acompanhados pelo povo e levando tochas acesas,
fizeram uma grande procissão cantando: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós
pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém”.
São João Paulo II, em novembro de 1996, refletiu sobre as
objeções expostas por Nestório para que se compreenda melhor o título “Maria,
Mãe de Deus”.
“A expressão Theotokos, que literalmente significa ‘aquela
que gerou Deus’, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com
efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A
resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a
geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina”,
disse o papa.
“O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e
é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente,
nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa
natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria”, acrescentou.
Do mesmo modo, afirmou que a maternidade da Maria “não se
refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao
encarnar-se, assumiu dela a natureza humana”. Além disso, “uma mãe não é Mãe
apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela
gera”, disse são João Paulo II.
Por fim, é importante recordar que Maria não é só Mãe de
Deus, mas também nossa porque assim quis Jesus Cristo na cruz, quando a confiou
a São João. Por isso, ao começar o novo ano, peçamos a Maria que nos ajude a
ser cada vez mais como seu Filho e iniciemos o ano saudando a Virgem Maria.
Saudação à Mãe de Deus
Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu santíssimo
e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside toda a plenitude
da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor! Salve,
ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes
derramadas, pela graça e iluminação
do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis
transformando-os de infiéis
em servos fiéis de Deus!
Leão XIV: inauguremos uma era de paz e amizade entre todos os povos
No Angelus da Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, o
Papa convida a começar o novo ano com um coração convertido, capaz de
transformar o mal em bem, o sofrimento em consolação e os conflitos em caminhos
de reconciliação. Na 59ª Jornada Mundial da Paz, Leão XIV exorta à oração pelas
nações feridas pela guerra e pelas famílias marcadas pela violência.
Thulio Fonseca – Vatican News
“Queridos irmãos e irmãs,
feliz ano novo!”
Após celebrar a Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus,
o Papa Leão XIV rezou o Angelus com os fiéis reunidos na Praça São Pedro, na
manhã desta quinta-feira (01/01). No primeiro Angelus do ano, que coincide com
a 59ª Jornada Mundial da Paz, o Pontífice dirigiu uma forte exortação à
humanidade para renovar o tempo presente, abrindo-o à esperança, à
reconciliação e à paz:
“À medida que o ritmo dos meses se repete, o Senhor
convida-nos a renovar o nosso tempo, inaugurando por fim uma era de paz e
amizade entre todos os povos. Sem este desejo de bem, não faria sentido virar
as páginas do calendário nem preencher as nossas agendas.”
O Jubileu e o “estilo” de Deus
Recordando o Jubileu que está prestes a se concluir, Leão
XIV destacou o legado espiritual deixado pelo Ano Santo, que ensinou a cultivar
a esperança concreta de um mundo novo. Um caminho que passa pela conversão do
coração e pela transformação interior:
“O Jubileu, que está prestes a terminar, ensinou-nos como
cultivar a esperança de um mundo novo: convertendo o coração a Deus, de modo a
transformar os erros em perdão, a dor em consolação, os propósitos de virtude
em boas obras.”
Esse dinamismo, explicou o Papa, revela o próprio modo de
agir de Deus na história, um “estilo” marcado pela misericórdia e pela
proximidade. É assim que Deus salva o mundo do esquecimento, oferecendo-lhe o
Redentor, Jesus Cristo, o Filho Unigênito que se faz nosso irmão e ilumina as
consciências de boa vontade, para que o futuro seja construído como uma casa
acolhedora para todos.
O coração de Cristo não é indiferente
Na contemplação do mistério do Natal, o Papa convidou os
fiéis a dirigir o olhar para Maria, a primeira a sentir bater o coração de
Cristo. No silêncio do seu ventre virginal, o Verbo da vida manifesta-se como
um pulsar de graça, revelando o amor de Deus pela humanidade. “Por isso, o
coração de Jesus bate por cada homem e cada mulher: por quem está preparado
para o acolher, como os pastores, e por quem não o deseja, como Herodes.” Um
coração que não permanece indiferente, mas pulsa pelos justos, para que perseverem
no bem, e pelos injustos, para que mudem de vida e encontrem a paz:
“O Salvador vem ao mundo
nascendo de uma mulher: paremos para adorar este acontecimento, que resplandece
em Maria Santíssima e se reflete em cada nascituro, revelando a imagem divina
impressa no nosso corpo.”
Um apelo à paz nas nações e nas famílias
Por fim, Leão XIV renovou o apelo à oração pela paz,
ampliando o horizonte do olhar cristão para as feridas do mundo e da vida
cotidiana:
“Neste Dia, rezemos todos juntos pela paz. Antes de tudo,
pela paz entre as nações ensanguentadas por conflitos e miséria, mas também
pela paz nos nossos lares, nas famílias feridas pela violência e pela dor.
Certos de que Cristo, nossa esperança, é o sol da justiça que jamais se põe,
peçamos com confiança a intercessão de Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja.”
Rejeitar toda forma de violência
Após a oração mariana, o Papa saudou com afeto os cerca de
40 mil fiéis reunidos na Praça de São Pedro e recordou que, desde 1º de janeiro
de 1968, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Leão XIV destacou a mensagem que
proferiu ao ser eleito: “A paz esteja com todos vocês”, definindo-a como uma
paz desarmada e desarmante, dom de Deus e fruto de seu amor incondicional,
confiado à responsabilidade de cada pessoa. Convidou os cristãos a iniciarem o
novo ano construindo a paz, desarmando os corações e rejeitando toda forma de
violência, e manifestou apreço pelas inúmeras iniciativas de promoção da paz
realizadas em todo o mundo.
Na conclusão, ao recordar o oitavo centenário da morte de
São Francisco, o Santo Padre concedeu a todos a bênção bíblica: “O Senhor
te abençoe e te guarde; mostre a ti o seu rosto e tenha misericórdia de ti;
volte para ti o seu olhar e te dê a paz”, e pediu a intercessão da Santa Mãe de
Deus para que acompanhe o caminho do novo ano.
Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF




















