"O caráter autenticamente humano das Sagradas
Escrituras, já por si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua
"filantropia" (Tt 3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem,
Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à
linguagem humana a sua veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar
interagir com os que o procuram".
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
No Concílio Vaticano II (1962–1965), especialmente na
Constituição Dogmática Dei Verbum, a Revelação é compreendida não
apenas como um conjunto de verdades transmitidas por Deus, mas sobretudo como a
autocomunicação do próprio Deus na história para a salvação da humanidade. Deus
revela-se progressivamente por meio de acontecimentos e palavras intimamente
ligados, atingindo sua plenitude em Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo mediador
e plenitude de toda a Revelação. Essa Revelação é transmitida pela Tradição e
pela Sagrada Escritura, inseparavelmente unidas e interpretadas autenticamente
pelo Magistério da Igreja, tendo como finalidade conduzir os seres humanos à
comunhão com Deus.
Dando sequência a sua série de reflexões sobre os documentos
do Concílio Vaticano II, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje
"A compreensão da Revelação no Concílio Vaticano II":
"A Constituição
Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II fala nestes
termos da Revelação:
“Em
virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos
homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br
3,38), para os convidar e admitir a participarem de sua própria vida” (DV, 2).”
Portanto,
o ditado conciliar, e aquele bíblico sobre o qual o Magistério se funda,
descrevem a Revelação de Deus com a categoria da palavra, mais
ainda, do diálogo amigável. Querendo revelar-se, Deus falou
aos homens e usou a linguagem humana da amizade com vistas a uma finalidade
precisa que é uma comunhão de vida. Há uma linguagem da amizade e do amor da
parte de Deus ao revelar-se. Fala a linguagem humana e não extra-humana, de
forma que seja entendível e perceptível ao ser humano, recebedor da mensagem,
receptor desse anúncio maravilhoso divino e extraordinário. Como diz\ a Dei
Verbum, Cristo fala de homem para os homens.
Não sabemos se a definição do homem como animal que fala é a
mais exata com relação às outras. Mas também é um ser que escuta com linguagem
específica, bem diferente dos outros animais. A fala talvez seja a mais
decisiva, a que compreende a todas. A palavra é o limiar de ingresso no mundo
humano. Heidegger diz: “Segundo a tradição antiga, nós, precisamente nós, somos
seres que estão em condições de falar e que, por isso, possuímos a linguagem.
Nem a faculdade de falar é no homem apenas uma capacidade que se coloque ao
lado de outras, no mesmo plano das outras. Pelo contrário, é a faculdade que
faz do homem um homem. Este traço é o próprio perfil de seu ser. O homem não
seria homem se não lhe fosse concedido falar, dizer...”[1]
Valério Mannucci, especialista em Sagrada Escritura no
Pontifício Instituto Bíblico, aprofunda essa temática e diz que o relato do
diálogo amigável e compreensível de Deus com o ser humano, na Escritura, é
descrito com seus interlocutores escolhidos. Os hagiógrafos das sagradas letras
fazem um relato da fala de Deus, da revelação e intervenção de Deus na história
dos homens. Esse relato é redigido, escrito no papel, nos pergaminhos
inteiramente por homens, não por anjos, ou, como alguém poderia imaginar, pelo
próprio punho de Deus. O dedo e a mão de Deus está por detrás, mas não é Deus
quem escreve, mas são seres humanos em seus contextos históricos e concretos,
com seus fraquezas e condicionamentos pontuais. A única coisa que Jesus
escreveu foi no chão, quando queriam apedrejar a mulher pega em adultério.
Mesmo assim, o que Jesus escreveu não se sabe e o vento apagou.
“O antigo Israel confessava o seu estupor, porque tinha
"ouvido a voz de Deus no meio do fogo e do alto do céu" (Dt 4,32-36).
O estupor se torna vertigem para o novo Israel, chamado a experimentar a
inaudita aproximação entre "a Palavra de Deus que era no princípio, estava
junto de Deus, era Deus" (Jo 1,1) e "a Palavra de Deus que se fez
carne" (Jo 1,14); entre "o que era no princípio", "a vida
eterna que estava junto ao Pai", e "a Palavra da vida que ouvimos,
que vimos com os nossos olhos, que contemplamos, que as nossas mãos
tocaram" (1Jo 1,1-4)”[2].
Precisamente
nisto manifestou-se "a admirável 'condescendência' de Deus e a sua
inefável benignidade", conforme descreve o documento conciliar: "Com
efeito, as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se
intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai,
tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens" (DV,
13). O caráter autenticamente humano das Sagradas Escrituras, já por
si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua "filantropia" (Tt
3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem, Deus se comunica com eles,
se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à linguagem humana a sua
veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar interagir com os que o
procuram. Deus fala de maneira amigável, compreensível. Torna o homem capaz de
entender sua revelação porque sua comunicação é humana, é pedagógica, é
cativante, é envolvente, na linguagem própria do ser humano, apesar de
manifestações divinas e extraordinárias".
*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro
de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em
Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
___________
[1] HEIDEGGER,
M. In Cammino verso il linguaggio, Mursia, Milão,1973, p.189.
[2] MANNUCCI,
Valério. Bíblia, Palavra de Deus. Curso de introdução à Sagrada Escritura,
Paulinas, SP. 1986, p. 16.

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