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terça-feira, 10 de março de 2026

A compreensão da Revelação no Concílio Vaticano II

Cena do "Giudizio Universale" pintado por Michelangelo Buonarroti na Cappella Sistina | Vatican News.

"O caráter autenticamente humano das Sagradas Escrituras, já por si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua "filantropia" (Tt 3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem, Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à linguagem humana a sua veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar interagir com os que o procuram".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

No Concílio Vaticano II (1962–1965), especialmente na Constituição Dogmática Dei Verbum, a Revelação é compreendida não apenas como um conjunto de verdades transmitidas por Deus, mas sobretudo como a autocomunicação do próprio Deus na história para a salvação da humanidade. Deus revela-se progressivamente por meio de acontecimentos e palavras intimamente ligados, atingindo sua plenitude em Jesus Cristo, que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a Revelação. Essa Revelação é transmitida pela Tradição e pela Sagrada Escritura, inseparavelmente unidas e interpretadas autenticamente pelo Magistério da Igreja, tendo como finalidade conduzir os seres humanos à comunhão com Deus.

Dando sequência a sua série de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje "A compreensão da Revelação no Concílio Vaticano II":

"A Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II fala nestes termos da Revelação:

Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem de sua própria vida” (DV, 2).

Portanto, o ditado conciliar, e aquele bíblico sobre o qual o Magistério se funda, descrevem a Revelação de Deus com a categoria da palavra, mais ainda, do diálogo amigável. Querendo revelar-se, Deus falou aos homens e usou a linguagem humana da amizade com vistas a uma finalidade precisa que é uma comunhão de vida. Há uma linguagem da amizade e do amor da parte de Deus ao revelar-se. Fala a linguagem humana e não extra-humana, de forma que seja entendível e perceptível ao ser humano, recebedor da mensagem, receptor desse anúncio maravilhoso divino e extraordinário. Como diz\ a Dei Verbum, Cristo fala de homem para os homens.

Não sabemos se a definição do homem como animal que fala é a mais exata com relação às outras. Mas também é um ser que escuta com linguagem específica, bem diferente dos outros animais. A fala talvez seja a mais decisiva, a que compreende a todas. A palavra é o limiar de ingresso no mundo humano. Heidegger diz: “Segundo a tradição antiga, nós, precisamente nós, somos seres que estão em condições de falar e que, por isso, possuímos a linguagem. Nem a faculdade de falar é no homem apenas uma capacidade que se coloque ao lado de outras, no mesmo plano das outras. Pelo contrário, é a faculdade que faz do homem um homem. Este traço é o próprio perfil de seu ser. O homem não seria homem se não lhe fosse concedido falar, dizer...”[1]

Valério Mannucci, especialista em Sagrada Escritura no Pontifício Instituto Bíblico, aprofunda essa temática e diz que o relato do diálogo amigável e compreensível de Deus com o ser humano, na Escritura, é descrito com seus interlocutores escolhidos. Os hagiógrafos das sagradas letras fazem um relato da fala de Deus, da revelação e intervenção de Deus na história dos homens. Esse relato é redigido, escrito no papel, nos pergaminhos inteiramente por homens, não por anjos, ou, como alguém poderia imaginar, pelo próprio punho de Deus. O dedo e a mão de Deus está por detrás, mas não é Deus quem escreve, mas são seres humanos em seus contextos históricos e concretos, com seus fraquezas e condicionamentos pontuais. A única coisa que Jesus escreveu foi no chão, quando queriam apedrejar a mulher pega em adultério. Mesmo assim, o que Jesus escreveu não se sabe e o vento apagou.

“O antigo Israel confessava o seu estupor, porque tinha "ouvido a voz de Deus no meio do fogo e do alto do céu" (Dt 4,32-36). O estupor se torna vertigem para o novo Israel, chamado a experimentar a inaudita aproximação entre "a Palavra de Deus que era no princípio, estava junto de Deus, era Deus" (Jo 1,1) e "a Palavra de Deus que se fez carne" (Jo 1,14); entre "o que era no princípio", "a vida eterna que estava junto ao Pai", e "a Palavra da vida que ouvimos, que vimos com os nossos olhos, que contemplamos, que as nossas mãos tocaram" (1Jo 1,1-4)”[2].

Precisamente nisto manifestou-se "a admirável 'condescendência' de Deus e a sua inefável benignidade", conforme descreve o documento conciliar: "Com efeito, as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens" (DV, 13). O caráter autenticamente humano das Sagradas Escrituras, já por si só, revela o profundo segredo de Deus que é a sua "filantropia" (Tt 3,4). Deus ama os homens. Falando na sua linguagem, Deus se comunica com eles, se faz compreender e, ao mesmo tempo, restitui à linguagem humana a sua veridicidade. Mas ainda, se deixa tocar, se deixar interagir com os que o procuram. Deus fala de maneira amigável, compreensível. Torna o homem capaz de entender sua revelação porque sua comunicação é humana, é pedagógica, é cativante, é envolvente, na linguagem própria do ser humano, apesar de manifestações divinas e extraordinárias".

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
___________

[1] HEIDEGGER, M. In Cammino verso il linguaggio, Mursia, Milão,1973, p.189.
[2] MANNUCCI, Valério. Bíblia, Palavra de Deus. Curso de introdução à Sagrada Escritura, Paulinas, SP. 1986, p. 16.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF