A partir das reflexões de Bento XVI, exploramos como o
evento pascal inaugura uma nova dimensão do ser e exige de nós um olhar
profundo para reconhecer o divino
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News
A Páscoa é o evento central da fé cristã, mas frequentemente corre o risco de ser mal compreendida em uma visão simplória, como por exemplo, uma simples reanimação de um cadáver. Bento XVI, na obra “Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição”, convida-nos a olhar para este mistério não como um evento do passado, mas como uma “mutação decisiva” na história da humanidade. Baseados nesse livro, aprofundemo-nos nesse mistério.
O escândalo do testemunho feminino
Um dos pontos mais intrigantes das “novidades” da
ressurreição é a escolha de Maria Madalena como a primeira testemunha. Na
tradição jurídica judaica da época, o testemunho das mulheres não era aceito em
tribunais; era considerado irrelevante e pouco confiável.
Se a ressurreição fosse uma invenção dos discípulos para
convencer o mundo, eles jamais teriam escolhido uma mulher como porta-voz
inicial. No entanto, há uma coerência profunda aqui: as mulheres, que
permaneceram ao pé da cruz com João enquanto os outros apóstolos fugiam, foram
as mesmas que receberam o privilégio do encontro. A fidelidade no sofrimento
abriu as portas para a primazia no reconhecimento da Glória. Como os evangelhos
narram fatos reais, eles não deixaram de colocar o que era estranho à sociedade
da época.
A natureza do corpo ressuscitado
As narrativas evangélicas apresentam uma tensão fascinante
entre a corporeidade e a transcendência.
- A
corporeidade real: Jesus não é um fantasma. Ele caminha com os
discípulos de Emaús, convida Tomé a tocar Suas chagas e come peixe diante
dos Apóstolos. Isso afirma que a matéria é boa e que a nossa identidade
corporal é redimida, não descartada. Um exemplo dessa continuidade é que o
Ressuscitado carrega as marcas da crucificação.
- A
nova existência: Ao mesmo tempo, Jesus atravessa portas fechadas
e não é imediatamente reconhecido. Ele não está mais sujeito às leis da
física biológica (espaço e tempo) da mesma forma que nós.
Bento XVI enfatiza que Jesus entrou em um “novo gênero de
existência”. Ele é o mesmo, mas de uma forma totalmente diversa. Ele agora tem
um corpo glorioso, primícias do que teremos também. Esse é um “novo”, difícil
de explicar, mas certo em sua composição nas Escrituras.
As teofanias: reconhecer “a partir de dentro”
Para compreender como os discípulos viam o Ressuscitado,
podemos olhar para algumas Teofanias (manifestações de Deus) no Antigo
Testamento.
- Abraão
em Mambré: Vê três homens, mas dirige-se a eles como “Meu
Senhor”. Há um saber interior que vai além do olhar físico (Gn 18, 1-33).
- Josué
e o Chefe do Exército: A figura parece um homem comum até que sua
identidade divina é revelada pela sua autoridade. Josué vê um homem com
uma espada desembainhada na mão. “És tu um dos nossos, ou dos nossos
inimigos?”. “Não, mas sou chefe do exército do Senhor” (Js 5, 13-15).
- Gedeão
e Sansão: Para Gedeão (Jz 6, 11-24) e Sansão (Jz 13), o anjo do
Senhor lhes aparece com aspecto de homem, mas é reconhecido como tal
quando se esquiva.
Estas foram manifestações que reconheceram o caráter divino
de quem ali se apresentava. Mas também havia medo, pois na teologia do Antigo
Testamento, acreditava-se que ninguém poderia ver a face de Deus e sobreviver.
Com Cristo, foi possível ir mais adiante. Ao olhar para Ele, fazia-se mister
ver o Deus e homem, em uma única pessoa. Com Ele era possível ver o próprio
Deus frente à frente! Contudo, para isso, a visão externa não bastava. O
Ressuscitado exige um reconhecimento a partir de dentro. Só quem tem familiaridade
com Ele, quem “sabe quem Ele realmente é”, conseguia vê-Lo. Vejamos o Novo
Testamento: assim como os discípulos de Emaús só O reconheceram no “partir do
pão”, nós também somos chamados a um encontro que transcende os sentidos
físicos.
Proximidade e mistério
A Ressurreição nos deixa duas grandes certezas. Primeiro,
a proximidade: Deus não é um motor imóvel distante, mas Alguém que
quer ser nosso hóspede, que caminha conosco e partilha da nossa mesa. Deus quer
se fazer próximo de mim e de você. Segundo, a necessidade de conversão
do olhar: para ver o Ressuscitado, é preciso que o nosso coração esteja
iluminado por Ele, para conseguir reconhecer quem Ele é em sua totalidade.
A Ressurreição não é o final de uma história, mas a abertura
de um novo horizonte para o que significa ser humano: uma vida que, embora
toque a terra, já não pertence mais à morte. Cristo ressuscitou, e com Ele,
somos chamados a esse novo também.

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