Translate

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

10 Leituras para conhecer melhor a Sagrada Escritura

Foto/Crédito: Opus Dei.

Ao instituir o Domingo da Palavra de Deus, o Papa Francisco nos lembrou da centralidade da Bíblia na fé, na liturgia e na missão, convidando-nos a uma escuta mais atenta e amorosa da Palavra.

20/01/2026

Todos precisamos crescer no conhecimento e a compreensão da palavra de Deus, para que os ensinamentos bíblicos alimentem nossa vida espiritual. Para avançar nesse caminho, são de grande ajuda as leituras de livros que nos orientem, apresentem o contexto histórico em que os diversos livros foram escritos, introduzam noções de teologia bíblica e nos ajudem a meditar podem ser de grande ajuda.

A seguir, oferecemos uma breve seleção de leituras disponíveis em português.


Textos do site sobre a Sagrada Escritura


Bíblia de Navarra (Novo Testamento)
São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei pediu à Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra uma nova tradução da Bíblia para o espanhol a partir das línguas originais, com abundantes introduções e notas. Em 2004 o trabalho foi publicado em cinco volumes pela EUNSA, com o título Sagrada Bíblia. Contém introduções a cada livro, comentários a todas as passagens, índice de assuntos, apêndices, anexos, mapas, índices, etc. Em resumo, um estudo exaustivo e completo. Nos comentários, cita numerosos autores de renome, santos, padres, doutores, papas, concílios e documentos do Magistério da Igreja.

Verbum Domini (Exortação Apostólica “A Palavra do Senhor”)
Bento XVI

Os temas principais são: a centralidade da Palavra de Deus, a Sagrada Escritura como alimento espiritual, a relação entre Escritura e Tradição, o papel da Igreja na interpretação da Escritura, a importância da liturgia, o impulso missionário da Palavra e o estudo e a meditação da Escritura.

Dei Verbum
Concílio Vaticano II
“A Constituição dogmática Dei Verbum (...) abre-se com uma frase profundamente significativa: ‘O sagrado Concilio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus...’. São palavras com as quais o Concílio indica um aspecto qualificante da Igreja: ela é uma comunidade que escuta e anuncia a Palavra de Deus. A Igreja não vive de si mesma mas do Evangelho e dele tira sempre de novo a orientação para o seu caminho”, Papa Bento XVI.

Jesus de Nazaré
Joseph Ratzinger
Os três volumes desta obra de Bento XVI dispensam apresentações. Conforme o autor explica, ela pode ser descrita como uma “vida de Jesus”...

A Bíblia explicada
John Bergsma
Pequeno, original, atraente e instrutivo, este volume propõe um passeio pela Bíblia usando um vocabulário simples e acessível.

O Banquete do Cordeiro
Scott Hahn
João Paulo II chamou a Missa de “o céu na terra”, explicando que “a liturgia que celebramos na terra é uma misteriosa participação na liturgia

Consumindo a palavra
Scott Han
O autor parte de uma observação histórica surpreendente: muito antes de designar os últimos livros da Bíblia, a expressão “Novo Testamento” referia-se originalmente ao sacramento eucarístico. Essa constatação ilumina a maneira como os primeiros cristãos entendiam a relação entre a Palavra de Deus e a celebração litúrgica.

A Arte de Recomeçar
Fabio Rosini
Com o relato bíblico do início do mundo criado, e apoiando-se em todos os momentos na vida de Cristo tal como é contada nos Evangelhos, Fabio Rosini percorre diferentes etapas

História sagrada do povo de Deus
Daniel-Rops
De forma acessível a qualquer leitor com conhecimentos básicos de História Sagrada, descreve a história, os costumes, as leis, os dados arqueológicos e inúmeros pequenos detalhes que ajudam a contextualizar os relatos do Antigo Testamento.

Jesus Cristo Segundo os Evangelhos
Louis-Claude Fillion
Esta obra de L. C. Fillion é considerada uma das melhores biografias de Jesus Cristo. Oferece uma visão apaixonada, atraente e serena da figura do Senhor, descrita com rigor científico e exposta a partir da fé de um grande exegeta.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Papa aos sacerdotes: “Não é tempo de retraimento, mas de presença fiel e disponibilidade generosa”

Assembleia sacerdotal em Madrid (Vatican Media)

A mensagem de Leão XIV enviada à Assembleia Presbiteral da arquidiocese de Madri convida o clero ao discernimento, à comunhão fraterna e a um ministério centrado em Cristo diante dos desafios culturais do tempo presente.

Thulio Fonseca - Vatican News 

“Queridos filhos, alegra-me poder dirigir-lhes esta carta por ocasião de sua Assembleia Presbiteral e fazê-lo a partir de um sincero desejo de fraternidade e unidade”. Com estas palavras de tom paterno, o Papa Leão XIV se dirigiu, nesta segunda-feira, 9 de fevereiro, por meio de uma mensagem, aos sacerdotes da arquidiocese de Madri, reunidos no CONVIVIUM, a assembleia presbiteral convocada pelo arcebispo da capital espanhola, o cardeal José Cobo.

A peculiaridade deste momento reside no fato de estarmos falando de uma arquidiocese com mais ou menos 2.600 presbíteros vivendo no seu território. Dentre eles, foram convocados os ...

O encontro reúne representantes da diversidade do clero madrilenho — cerca de 1.585 presbíteros com encargos pastorais, entre os aproximadamente 2.600 sacerdotes que vivem no território arquidiocesano — e se apresenta como uma oportunidade de comunhão e discernimento sobre “que tipo de sacerdote Madri precisa hoje”.

No texto, o Papa expressa gratidão pela dedicação cotidiana dos presbíteros e reconhece as dificuldades do ministério. “Sei que muitas vezes este ministério se desenvolve em meio ao cansaço, a situações complexas e a uma entrega silenciosa da qual só Deus é testemunha”, escreve, desejando que suas palavras cheguem como “um gesto de proximidade e de ânimo”.

Discernir o tempo presente

O Pontífice convida os sacerdotes a uma leitura profunda da realidade atual, marcada por processos de secularização e polarização cultural. “A fé corre o risco de ser instrumentalizada, banalizada ou relegada ao âmbito do irrelevante”, adverte, recordando também a perda de referências comuns que durante séculos favoreceram a transmissão da mensagem cristã. Apesar disso, Leão XIV identifica sinais de esperança, sobretudo entre os jovens. “No coração de muitas pessoas abre-se hoje uma nova inquietação”, observa, afirmando que a absolutização do bem-estar, uma liberdade desvinculada da verdade e o progresso material não conseguiram responder ao desejo profundo do ser humano.

Nesse contexto, o Papa sublinha que o tempo atual não é de fechamento nem de desalento. “Para o sacerdote, não é tempo de retraimento nem de resignação, mas de presença fiel e de disponibilidade generosa”, escreve, lembrando que “a iniciativa é sempre do Senhor, que já está agindo e nos precede com a sua graça”.

Sacerdotes configurados com Cristo

Indicando o perfil de sacerdote de que a Igreja necessita hoje, o Papa afirma que não se trata de multiplicar tarefas ou buscar resultados imediatos. “Não homens definidos pela pressão dos resultados, mas homens configurados com Cristo”, capazes de sustentar o ministério a partir de uma relação viva com Ele, nutrida pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo dom de si:

"Não se trata de inventar novos modelos nem de redefinir a identidade que recebemos, mas de voltar a propor, com renovada intensidade, o sacerdócio em seu núcleo mais autêntico — ser alter Christus —, deixando que seja Ele quem configure a nossa vida, unifique o nosso coração e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da entrega fiel à Igreja e do serviço concreto às pessoas que nos foram confiadas."

Uma Igreja que é casa

Servindo-se da imagem da catedral, o Papa recorda que a Igreja é chamada a ser casa para seus sacerdotes e espaço de comunhão. Leão XIV também sublinha que "o sacerdote não vive para se exibir, mas tampouco para se esconder. Sua vida é chamada a ser visível, coerente e reconhecível, ainda que nem sempre seja compreendida". Toda a vida do padre é chamada a remeter a Deus e a acompanhar o passo em direção ao Mistério, sem usurpar o seu lugar:

“Filhos meus, ninguém deveria sentir-se exposto ou sozinho no exercício do ministério: resisti juntos ao individualismo que empobrece o coração e enfraquece a missão!”

Ao final da mensagem, Leão XIV retoma as palavras de São João de Ávila como síntese do caminho sacerdotal: “Sejam totalmente d’Ele”. E conclui com um apelo direto: “Sejam santos!”, confiando os sacerdotes à intercessão de Santa Maria da Almudena e concedendo a Bênção Apostólica a todos os que lhes foram confiados pastoralmente.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Controle parental: quanto tempo de tela na adolescência?

fast-stock I Shutterstock

Mathilde de Robien - publicado em 06/02/26

Em um momento em que médicos e autoridades públicas se preocupam com a invasão dos smartphones no cotidiano dos jovens, a Dra. Anne-Lise Ducanda recomenda limitar a uma hora por dia o tempo de tela para um adolescente de 15 anos e insiste: "adicionar tempo deve ser algo excepcional".

"Mãe, você pode me dar mais tempo?" Uma pergunta que pareceria totalmente incongruente há alguns anos, mas que se impõe hoje no dia a dia de muitos pais preocupados em controlar o uso do telefone dos filhos na adolescência. Para os não iniciados, ela significa: "Pode me liberar mais tempo para eu usar meu celular?". De fato, os softwares de controle parental permitem monitorar o uso do smartphone da criança, limitando a duração diária do tempo de tela e o acesso a certos sites e aplicativos. Em teoria, um consenso ideal. Na prática, uma atividade que exige ajustes regulares... ou não!

Em muitas famílias, os pedidos de tempo extra dependem do contexto (período escolar ou férias, saídas à noite, responsabilidade em um acampamento escoteiro...) e das intenções da criança. As filhas de Jessica têm direito a uma hora por dia durante a semana e três horas por dia nos fins de semana e feriados. "Usamos o Family Link, nossas filhas ouvem muita música pelo celular, elas não têm redes sociais, eu monitoro o tempo gasto em cada aplicativo e o telefone delas fica bloqueado das 21h30 às 7h", explica a mãe. "Às vezes pedem tempo extra para ouvir música ou ligar para uma amiga. Eu aceito ou recuso, dependendo do comportamento no dia, se estamos em família, se os deveres foram feitos..."

Os tempos de tela na adolescência

De acordo com o relatório da Anses (Agência Nacional de Segurança Sanitária da França) publicado em 13 de janeiro, fruto de cinco anos de trabalho de um comitê de especialistas, na França, um em cada dois adolescentes passa entre duas e cinco horas por dia em um smartphone, a maior parte do tempo conectado a redes sociais. O uso é considerado excessivo pela agência, que aponta diversos efeitos nocivos à saúde: alteração do sono, desvalorização de si mesmo, comportamentos de risco e ciberviolência.

Para a Dra. Anne-Lise Ducanda, médica do desenvolvimento infantil e cofundadora do CoSE (Coletivo sobre a Superexposição às Telas), as limitações de tempo e conteúdo são indispensáveis. O coletivo recomenda durações máximas para cada faixa etária:

  • Até 3 anos: nada de telas.
  • Até 6 anos: o mínimo possível.
  • 6 a 10 anos: 1 hora por dia nos fins de semana.
  • 10 a 14 anos: 2 horas por dia nos fins de semana.

"Se a criança puder se conectar todos os dias, ela pedirá sua 'dose' todos os dias", explica a médica. "Limitar as telas aos fins de semana permite que a criança se reconecte com a vida real, com os outros e com sua família."

"O controle parental é indispensável porque a criança não consegue se autorregular."

Quanto aos mais velhos, o coletivo recomenda não dar um smartphone antes dos 15 anos e, após essa idade, instalar controle parental e limitações rígidas. "O cérebro só amadurece aos 25 anos, assim como a capacidade de autorregulação. Portanto, a criança precisa dos pais!", destaca a Dra. Ducanda à Aleteia. "Não se pode deixar o tempo ilimitado dizendo 'você só tem direito a duas horas', é impossível! A criança não consegue se proteger sozinha."

Aguentar firme

Essa vigilância necessária por parte dos pais não é tarefa fácil. "Um adolescente vai, inevitavelmente, pedir para adicionar tempo", previne a Dra. Ducanda. "Ele vai tentar burlar o controle parental, mas os pais precisam resistir, no interesse do próprio filho."

Muitos pais relatam dificuldades. "Aos 16 anos, nossa filha tinha 2 horas por dia e recolhíamos o celular às 21h30", conta Louise, mãe de cinco filhos. "Mas tínhamos muita dificuldade em resistir aos pedidos de tempo extra que ela justificava com argumentos convincentes, até que ela acabou hackeando os sistemas de controle."

Élise viveu uma experiência semelhante: "Nosso filho de 14 anos tem uma hora de tela por dia e não tem redes sociais. Fiquei surpresa que ele nunca pedia mais tempo, até descobrir que, apesar do limite, ele conseguia acessar mais tempo". Nesses casos, o diálogo é necessário para explicar o motivo das limitações e restaurar a confiança.

A regra de ouro

Então, quanto tempo para quem tem mais de 15 anos? Para Anne-Lise Ducanda, "o ideal é não ultrapassar uma hora por dia", já que estudos mostram efeitos prejudiciais a partir de uma hora de consumo diário (fora o uso para fins escolares). "É importante explicar que é para o bem dele e manter a palavra! Quando o filho pedir mais tempo, a resposta é não. Adicionar tempo deve ser algo excepcional."

Além do tempo, a médica reforça a "regra dos quatro nãos", elaborada pela psicóloga Sabine Duflo:

  1. Não de manhã (para preservar a atenção).
  2. Não durante as refeições (para preservar a interação).
  3. Não antes de dormir (para preservar a qualidade do sono).
  4. Não dentro do quarto.
Fonte: https://pt.aleteia.org/

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Chiclayo, no Peru: o programa do Dia Mundial do Doente de 2026

XXXIV Dia Mundial do Doente (Vatican Media)

A diocese peruana acolherá, de 9 a 11 de fevereiro, os eventos eclesiais do XXXIV Dia Mundial do Doente, liderados pelo enviado especial do Papa, o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Estão previstas visitas a três hospitais, um encontro na Universidade Católica, um seminário sobre cuidados paliativos na América Latina e a missa de 11 de fevereiro no Santuário de Nuestra Señora de la Paz.

Vatican News

O programa do XXXIV Dia Mundial do Doente, intitulado “A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”, que será celebrada solenemente na diocese de Chiclayo, no Peru, de 9 a 11 de fevereiro, está repleto de eventos. Para a ocasião, o Papa Leão XIV nomeou como enviado especial o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Participarão do evento o núncio apostólico no Peru, o arcebispo Paolo Rocco Gualtieri, além de bispos e delegados da Pastoral da Saúde das 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, uma delegação do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e representantes das 46 jurisdições eclesiásticas do Peru.

Visita a três hospitais e encontro na Universidade Católica

No dia 9 de fevereiro, a delegação do Vaticano liderada pelo cardeal Czerny visitará três hospitais: o Serviço de Medicina Interna do Hospital Las Mercedes, a Unidade de Cuidados Paliativos e Emergência do Hospital Almanzor Asenjo e os pacientes de Medicina Interna e Emergência do Hospital Belén. Posteriormente, o prefeito participará de um encontro na Universidade Católica Santo Toribio (USAT) com os bispos e delegados da Pastoral da Saúde das Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe presentes.

Seminário sobre cuidados paliativos e espiritualidade

No dia 10 de fevereiro será realizado um seminário acadêmico-teológico-pastoral intitulado: “A compaixão do samaritano, avanços nos cuidados paliativos na América Latina e espiritualidade do atendimento integral ao paciente”. O simpósio de estudo e reflexão, que será realizado no teatro do Colégio Santo Toribio de Mogrovejo, contará com a participação do Dr. Luis Solari de la Fuente, da Dra. Luz María Loo Palomino de Li, do padre Alejandro Álvarez Gallegos, teólogo-pastoral da América Latina, entre outros.

A missa de 11 de fevereiro

No dia 11 de fevereiro será celebrada uma missa no Santuário de Nuestra Señora de la Paz às 9h (hora local), presidida pelo cardeal Michael Czerny e concelebrada pelo núncio apostólico no Peru, dom Paolo Rocco Gualtieri; pelo bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán; pelo secretário-geral do Celam, Monsenhor Lizardo Estrada, e pelos bispos e delegados da Conferência Episcopal do Peru e dos países convidados. Participarão da missa também representantes de instituições de saúde e congregações religiosas, juntamente com pessoas que enfrentam situações delicadas de saúde, que poderão receber o Sacramento da Unção dos Enfermos. 

O bispo de Chiclayo: gestos concretos de proximidade

O bispo de Chiclayo, dom Edinson Farfán Córdova, afirmou que “o amor precisa de gestos concretos de proximidade, com os quais se assume o sofrimento alheio, sobretudo o das pessoas que vivem em condições de doença e, muitas vezes, em um contexto de fragilidade devido à pobreza, ao isolamento e à solidão” e convidou todos a se unirem ao evento eclesial com orações.  

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Moinhos de vento

Dom Quixote (Canção Nona)

MOINHOS DE VENTO 

26/01/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

“Dom Quixote de la Mancha”, obra de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), foi o clássico que consagrou a língua do Reino de Castela, chamada de castelhano, e, tendo sido oficializada, mais tarde, na Espanha, passou a ser denominada espanhol. O título e ortografia originais da obra eram “El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha”, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. 

Tal clássico da literatura mundial narra as aventuras e desventuras de um homem de meia-idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, Dom Quixote passa a lutar para provar seu amor por Dulcineia, sua musa imaginária. O destemido cavaleiro é sempre acompanhado por seu fiel escudeiro, Sancho Pança. 

“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”. Essa é uma das frases mais citadas, colocadas na boca de Dom Quixote. Conhecedores da obra afirmam que a frase nela não consta. Foram verificadas as edições brasileiras da Nova Fronteira (2017) e da Penguin-Companhia (2012), bem como a edição espanhola da Real Academia, publicada digitalmente em junho de 2015, e nada foi encontrado sobre tal frase atribuída ao nobre cavaleiro. 

Seja como for, a frase acima explicita o espírito de Dom Quixote. Montado em seu cavalo, Rocinante, vai à procura de um mundo novo. É uma metáfora do ser humano na aurora da Modernidade. Cervantes se serve da loucura ou alucinação, como lugar literário, para trazer à luz aspectos de uma nova fase histórico-cultural, como tão bem fez seu contemporâneo Shakespeare, especialmente em Hamlet. 

Uma das cenas mais conhecidas e emblemáticas dessa importante obra é narrada no Capítulo VIII (Parte I), intitulado “Do bom sucesso que teve o valoroso D. Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação”. Seguiremos aqui a edição da Nova Cultural (2002), com tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. 

Os dois desbravadores do mundo cruel se deparam com trinta ou quarenta moinhos de vento. Neles, Dom Quixote enxerga “desaforados gigantes”, contra quem decide travar batalha. Para o “Cavaleiro da triste figura”, trata-se de “boa guerra”, pois “bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra”. Em vão, Sancho tenta dissuadir seu amo e trazê-lo à realidade. “Bem se vê — respondeu D. Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em feroz e desigual batalha”. 

À distância, Sancho assiste incrédulo à investida corajosa de Dom Quixote, montado em seu Rocinante, indo em direção aos moinhos de vento, armado com sua lança. Cego por sua obstinação, não ouvia as vãs tentativas de seu fiel escudeiro e bradava aos imaginários inimigos: “Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe”. Com um pouco de vento que surge, as velas dos moinhos começam a mover-se e Dom Quixote está certo que seus oponentes não o haveriam de intimidar. Chamou novamente à memória sua musa inspiradora, a doce Dulcineia, e arremeteu-se a todo galope em direção ao primeiro moinho que se encontrava à sua frente, convencido de que se tratava de um inimigo gigante. 

Cervantes narra a cena fatídica: “dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo afora”. Podendo prever o desastre, Sancho correu a acudir o seu amo. Mesmo com o infortúnio acometido, Dom Quixote ainda não se convenceu de que tinha sido iludido por um transe e estava certo de que “as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças”. Sua justificativa foi que seu sábio inimigo havia transformado os gigantes em moinhos, para lhe “falsear a glória de os vencer”. 

A loucura não era privilégio da aurora da Modernidade. Novos moinhos de vento hoje são transformados em inimigos imaginários. Pior ainda: o solitário cavaleiro torna-se a triste figura de uma parte da humanidade, iludida por falsos inimigos. Os “Sanchos Panças” atuais continuam a advertir que se trata apenas de moinhos de vento, “e que só o podia desconhecer quem dentro na cabeça tivesse outros”. São muitos os que se investem contra esses moinhos de vento, com suas armas em riste, julgando estar prestando um bem à sociedade. Devaneio, alucinação, loucura… O desastre está anunciado, e suas consequências são imprevisíveis. 

Dom Quixote passa a ser, agora, metáfora do ser humano em tempos de Pós-modernidade, de forma mais intensa e nociva, à procura de inimigos imaginários, condição para manter-se em batalha, numa visão maniqueísta da realidade. Montam-se cenários de luta entre o bem e o mal… Para firmar ideologias de poder, criam-se inimigos a serem combatidos. Aumenta o número de alucinados, diminui o contingente de lúcidos. Que futuro vai se desenhando aos nossos olhos? 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Por que seu celular não costuma aparecer nos seus sonhos?

Você já sonhou com o seu celular? Se a resposta for negativa, saiba que você não está sozinho. Mas por que isso acontece? — Foto: unsplash- kelli_mcclintock

Seria o impacto emocional dos celulares talvez pequeno demais para garantir presença no nosso inconsciente? Entenda a questão.

Por Victor Bianchin

04/02/2026 10h01  Atualizado há 2 dias

Para muita gente, o celular se tornou como uma extensão do corpo. Uma pesquisa do ano passado feita entre cidadãos dos EUA observou que eles checam o celular 186 vezes por dia — ou cerca de uma vez a cada cinco minutos enquanto estão acordados. 46% se consideram viciados. A realidade no Brasil, onde literalmente existe mais celular do que gente, não é muito diferente. Um levantamento de 2023 estimou que brasileiros passam 56% do seu dia em frente às telas do celular e computador. Considerando isso, fica uma pergunta: por que os celulares não costumam aparecer nos nossos sonhos?

O site Sleep and Dream Database é um banco de dados que reúne relatos de sonhos vindos de fontes diversas: submetidos por voluntários, colhidos de pesquisas científicas, retirados de registros históricos e outros. Hoje, apenas 0,99% dos quase 4,5 milhões de sonhos registrados no site registram a aparição da palavra “phone” (telefone, em inglês) ou de suas variações.

Kelly Bulkeley, psicólogo, pesquisador de sonhos e criador do site, escreveu um artigo em 2016 sobre a presença de tecnologia nos sonhos. À época, ele apontou que, entre as mulheres, os celulares apareciam em 3,55% dos sonhos pesquisados, o que é pouco, mas é mais do que itens como filmes (3,18%), vídeos (1,26%) e televisão (0,26%). Para os homens, os números são 2,69% para celulares, 2,47% para filmes, 1,27% para vídeos e 0,36% para televisão.

Ele não tinha uma explicação definitiva para o porquê desse baixo índice de aparições, mas estabeleceu um paralelo com a aparição de meios de transporte nos sonhos, que são bem mais frequentes.

“Parece que as tecnologias de transporte tiveram um impacto maior nos sonhos das pessoas do que as tecnologias de comunicação e entretenimento”, diz ele. “Me pergunto se as tecnologias de transporte têm um impacto mais visceral na vida das pessoas. Telefones, filmes, vídeos e computadores podem ser fascinantes e envolventes, mas não afetam diretamente o corpo de uma pessoa com a mesma intensidade sensorial que sentimos durante uma viagem de carro”, argumenta o pesquisador.

Brigitte Holzinger, psicoterapeuta e diretora do Instituto de Pesquisa da Consciência e dos Sonhos em Viena (Áustria) afirma que os celulares não têm esse impacto porque são apenas uma plataforma, e não o vetor emocional em si. “Tudo o que o nosso smartphone desperta em nós é indireto”, diz Holzinger, neste artigo. O que desperta emoções verdadeiras é interagir diretamente com as pessoas.

Por exemplo, se você estiver rolando o Instagram e ver seu ex-parceiro m uma foto com o parceiro atual, pode ser tomado por uma sensação de tristeza, mas o impacto será muito menor do que se você os visse pessoalmente em algum restaurante ou no supermercado. As experiências da vida real, portanto, tendem a dominar nossos sonhos.

Outras explicações

A Dra. Sham Singh, psiquiatra da rede Winit e especialista em saúde mental, tem uma explicação parecida e mais recente. Questionada sobre o assunto em 2025, ela afirmou que a nossa relação com a tecnologia é muito diferente da que temos com outros aspectos da vida cotidiana.

“O telefone é um dispositivo operado em nível consciente, mas não possui nenhuma carga emocional ou simbólica mais profunda, portanto, não aparece em nossos sonhos. Além disso, a tecnologia se desenvolve tão rapidamente que nosso subconsciente não tem tempo de incorporar esses dispositivos à linguagem simbólica característica dos sonhos”, explicou.

Ou seja: nossos celulares simplesmente não possuem um peso emocional ou psicológico suficiente para que estejam presentes em nossos sonhos. "Os sonhos muitas vezes refletem nossas emoções, medos e desejos, portanto objetos que não evocam sentimentos fortes podem ter menos probabilidade de aparecer neles", afirmou Singh.

Por fim, há uma terceira explicação vinda da jornalista científica Alice Robb, autora do livro Why We Dream: The Transformative Power of Our Nightly Journey (Por que sonhamos: o poder transformador de nossa jornada noturna). Em entrevista ao site The Cut, ela teorizou que essa pouca prevalência dos celulares nos sonhos pode ter a ver com a “hipótese de simulação de ameaça”.

“[Essa teoria] basicamente sugere que o motivo pelo qual sonhamos é que os sonhos nos permitem lidar com nossas ansiedades e nossos medos em um ambiente de menor risco, para que possamos praticar para eventos estressantes”, diz Robb.

Dentro dessa explicação, os sonhos são um mecanismo de defesa desenvolvido ao longo da evolução humana. Por isso, tendemos a sonhar mais com coisas que seriam motivo de preocupação para nossos ancestrais, mas não para nós.

“As pessoas tendem a não sonhar tanto com a leitura e a escrita, que são desenvolvimentos mais recentes na história da humanidade, e sim com coisas relacionadas à sobrevivência, como lutar, mesmo que isso não tenha nada a ver com quem você é na vida real”, diz Robb.

De qualquer forma, sonhos são um assunto muito complexo para que seja possível cravar uma explicação que sirva para todo mundo. De fato, basta procurar nas redes sociais para achar um monte de gente que diz que sonha, sim, com seus celulares.

O neurofisiologista William Dement, padrinho da medicina do sono, tem uma frase famosa que diz: “O sonho permite que cada um de nós seja insano, em silêncio e com segurança, todas as noites da vida”. Talvez o celular não seja um elemento importante nessa nossa versão insana.

Fonte: https://revistagalileu.globo.com/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A vida em abundância: Carta do Papa Leão XIV sobre o valor do esporte

Jogos olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026 (Vatican Media)

No texto, publicado nesta sexta-feira (6/02) por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o Pontífice destaca o esporte como caminho de formação humana, fraternidade e paz, e alerta para os riscos da lógica do lucro e do desempenho a qualquer custo.

Thulio Fonseca - Vatican News

"Por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que terão lugar em Milão e Cortina d’Ampezzo de 6 a 22 de fevereiro próximo, e da XIV edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno, que se realizarão, nas mesmas localidades, de 6 a 15 de março, desejo dirigir uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos. A prática esportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática esportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano."

Assim o Papa Leão XIV introduz a sua Carta com o título A vida em abundância, sobre o valor do esporte, publicada nesta sexta-feira, 6 de fevereiro. Dividida por temas ligados ao mundo esportivo, desde sua história até os desafios atuais, o Santo Padre propõe uma reflexão que une dimensão humana, educativa e espiritual da prática esportiva.

LEIA AQUI A CARTA DO PAPA NA ÍNTEGRA

Esporte, formação humana e cultura do encontro

Na Carta, o Papa percorre a história do esporte e recorda seu valor formativo ao longo do tempo, destacando a tradição cristã que sempre reconheceu a unidade entre corpo, mente e espírito. Inspirado nas imagens bíblicas utilizadas por São Paulo e na reflexão de pensadores como Santo Tomás de Aquino, Leão XIV sublinha que a atividade esportiva favorece a disciplina, a moderação e o desenvolvimento integral da pessoa, tornando-se um caminho privilegiado de educação humana.

O Pontífice destaca ainda que o esporte é um espaço de encontro e de relação, capaz de promover a fraternidade, o respeito às regras e a superação do individualismo. Quando vivido de forma autêntica, ensina a lidar com a vitória sem arrogância e com a derrota sem desespero, contribuindo para a construção de comunidades baseadas na cooperação, na solidariedade e na cultura da paz.

Desafios atuais e riscos da prática esportiva

Leão XIV chama atenção também para os perigos que ameaçam os valores do esporte, sobretudo quando ele é submetido à lógica do lucro, do sucesso a qualquer custo e da exploração econômica. Nessas situações, o atleta corre o risco de ser reduzido a mercadoria e a competição perde seu caráter educativo, abrindo espaço para práticas como o doping, a corrupção e outras formas de manipulação.

Além disso, o Papa alerta para outras distorções contemporâneas, como a instrumentalização política das competições, o culto excessivo da imagem e do desempenho e o impacto de tecnologias que podem desumanizar a experiência esportiva. Diante desses desafios, o Pontífice reafirma a necessidade de preservar o esporte como instrumento de inclusão, diálogo entre culturas e promoção da paz, especialmente entre os jovens e os mais vulneráveis.

Papa Leão XIV e o tenista italiano Jannik Sinner   (@Vatican Media)

As palavras finais de Leão XIV

"Pensar e implementar a prática esportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva. O esporte pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de diferentes origens sociais, culturais e físicas. A alegria de estar juntos, que nasce do jogo partilhado, do treino comum e do apoio mútuo, é uma das expressões mais simples e profundas da humanidade reconciliada.

Neste horizonte, os esportistas constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência cotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez, oferece aos esportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.

Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o esporte de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o esporte pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos."

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Cegueira e medo

Cego é quem tem medo de ousar (Correio Braziliense)

CEGUEIRA E MEDO

02/02/2026

Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

No seu “Ensaio sobre a cegueira” (livro 1995; filme 2008), Saramago usa a cegueira física de seus personagens fictícios para falar sobre a cegueira mental de pessoas reais. Em estilo de realismo psicológico, o autor apresenta um diagnóstico da sociedade ocidental contemporânea, por meio de personagens, conflitos, desejos e pensamentos, com a clara intenção de retratar a condição humana. 

Saramago se serve da categoria de “cegueira branca” como representação de todos nós, mergulhados na banheira das vaidades. “Cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu”, esclarece Saramago (pág. 39). Com um refinado deboche literário, o autor escreve: “Seria horrível, um mundo todo de cegos, não quero nem imaginar” (pág. 60). E esclarece a concepção de vida daqueles que sofrem de “cegueira branca”: “Para estes, a cegueira não era viver banalmente rodeado de trevas, mas no interior de uma glória luminosa” (pág. 94). 

Já no fim de sua obra, o escritor português, vencedor do Nobel de literatura, constata: “Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras” (pág. 306). E assim ele vai concluindo seu ensaio: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” (pág. 310). 

Depois de tantas luzes da Modernidade e com todo o desenvolvimento tecnológico nesta Pós-modernidade, aprofundamos a nossa cegueira. Vivemos a cultura da cegueira, que banaliza a realidade. A morte dos fracos se torna banal. O descarte dos marginalizados se torna banal. O menosprezo por pessoas pretas se torna banal. A discriminação de pessoas de orientação sexual diferente se torna banal. Banaliza-se o ódio ao outro que pensa diferente de mim. Contra esses grupos banalizados, declara-se a perseguição, conspira-se a sua eliminação e deflagra-se o medo. “O inferno são os outros”, já preconizava Sartre. 

“A Vila” (Night Shymalan, 2004) é um filme metafórico da condição humana, tendo o medo como motivação. A Comunidade vive em uma vila, no meio de uma floresta, com o intuito de preservar a inocência das pessoas. Há limites rigidamente estabelecidos entre a vila e a floresta para manter o acordo entre o Conselho de Anciãos e os supostos monstros denominados “Criaturas que nós não mencionamos”.  Ivy é uma linda jovem educadora. A sua condição de cegueira lhe proporciona um diferencial: a sua altíssima sensibilidade. Com suas próprias palavras, ela esclarece ao seu amado Lucius o seu modo de visão: “Eu vejo o mundo, mas não como você o vê”. 

Ivy se prontifica a vencer o medo, atravessar a floresta e buscar socorro para salvar Lucius, quando em risco de morte. O Conselho de Anciãos a libera para enfrentar o seu desafio, com um profundo diálogo. “Só podemos ter esperança, o que há de belo nesse lugar. Não podemos fugir do sofrimento. Ivy está indo em direção da esperança”. Ao que o colega assegura: “Ela é a mais capaz do qualquer um de nós. Ela é guiada pelo amor. É o amor que move o mundo. O amor é capaz de tudo”. 

É o amor que nos salva das densas trevas de nossa cegueira e nos ilumina para uma vida nova. É esse amor capaz de salvar o mundo da “cegueira branca”, nesta cultura de pós-verdade. O Apóstolo Paulo nos assegura: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade” (Ef 5,8-9). Entre os filhos da luz não há lugar para cegueiras, nem inverdades ou pós-verdades… A experiência da Luz nos leva à Verdade, que é uma pessoa! 

Sim, fomos iluminados pela Luz que vem do alto. Vençamos a cegueira, vençamos as trevas do medo, vençamos a cultura do ódio, para vislumbrarmos a Luz da esperança, que nos coloca diante da Verdade, que é o Amor encarnado. Assim iluminados, sejamos agentes de luz e esperança para tantas pessoas que agora, mais do que nunca, anseiam por luz e esperança. Como Yvy, deixemo-nos guiar pelo amor que supera o ódio e o medo… e salva o mundo. O amor gera perdão e superação de nossas polarizações, para caminharmos em direção à Verdade que nos liberta e nos descortina o horizonte de libertação. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Os desafios de viver os mistérios de Jesus Cristo no mundo digital

Cultura digital | Vatican Media.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas.

Dom Oriolo - Bispo da Igreja Particular de Leopoldina, MG

Tive a oportunidade de exercer o ministério sacerdotal em três paróquias cujas igrejas matrizes, ainda que não barrocas, eram antigas e se destacavam por seus traços arquitetônicos e belezas artísticas. Primeiramente, o Santuário de São Francisco de Paula, em Ouro Fino (MG), como vigário paroquial; depois, a Basílica do Carmo, em Borda da Mata (MG), como pároco e reitor e, finalmente, a Catedral Metropolitana de Pouso Alegre (MG), como pároco e cura. Nessas igrejas, com suas belezas artísticas peculiares, reunidas nos altares, sacrários, pinturas, revestimentos, adornos e mobiliário, tornou-se comum, sobretudo a partir da década de 1990, encontrar fiéis com suas máquinas fotográficas, preocupados em registrar os momentos e os ambientes, produzindo fotos e mais fotos.

A popularização dos equipamentos para o registro de imagens contribuiu para o crescimento dessa prática nos templos, frutos da dedicação e da piedade das comunidades, que unem as gerações na busca do transcendente e da própria santidade. Assim, muitos fiéis se tornaram verdadeiros paparazzi, armados de máquinas digitais, flashes e outros acessórios, à espreita de momentos únicos de beleza divina, presentes nas formas e liturgias ambientadas nas igrejas.

O papa Bento XVI, em diversos contextos, analisou a relação intrínseca entre teologia e beleza e ensina: “Uma beleza não aberta a Deus reclui o homem nele próprio e é capaz de levá-lo ao desespero ou a um espiritualismo sem estreita relação com Deus […] Os que creem devem mostrar a beleza de sua fé em autênticas cerimônias, sobretudo, em sua liturgia”. Ora, a experiência de Deus passará sempre pelo exercício da contemplação. Por isso mesmo, são edificados belos templos para o culto a Deus e a Igreja busca nortear a sua liturgia pelo critério de “nobre simplicidade”.

Vivemos uma realidade complexa, envolvida numa teia de tecnologias que nos absorve em ritmo acelerado e, muitas vezes, sufoca, modificando nossa cultura, as relações humanas e mesmo os hábitos banais do dia a dia. Evidentemente, a tecnologia oferece oportunidades, avanços e perspectivas. No entanto, somos todos desafiados cotidianamente, em maior ou menor grau, por um mundo congestionado por imagens; flagrados e monitorados a todo o momento, com o auxílio da tecnologia digital. Os cidadãos do Reino Unido são os que mais passam por essa experiência, pois se tornaram os mais vigiados do mundo pelas câmeras de circuito fechado de televisão, segundo reportagem publicada pela revista britânica The New Statesman.

Se por um lado, ao menos em tese, verifica-se a descoberta do valor de armazenar imagens, vídeos e colecionar registros em grande escala, graças à proliferação dos instrumentais tecnológicos, nem sempre essa realidade coincide com um o maior interesse humanístico, cultural e histórico. A sociedade digital é, sobretudo, uma sociedade do descartável, do instantâneo. Fotografar é moda, mas apreciar o “belo”, como que numa vivência transcendental, não se interliga, necessariamente, a essa prática.

Percebo, sem preconceitos, que a dinâmica da câmera instantânea e do telegrama, raízes que batizam o Instagram invadiu os eventos de evangelização e as celebrações do Mistério Pascal, os sacramentos. Em nossas celebrações, de festas de padroeiros a ordenações, o fiel deixou de ser assembleia para se tornar plateia de um espetáculo digital. Na corrida pelo Reels perfeito ou pelo Story mais engajador, os mistérios são fragmentados em 15 segundos.

modus vivendi da sociedade digital, pressionado pela concorrência estética com o Instagram, impõe uma ditadura da imagem onde o sacramento vira cenário e o rito vira conteúdo. Esse processo de instagranização da fé faz com que, ao buscar o ângulo ideal para o Feed ou a transmissão ao vivo nas Lives, o fiel se ocupa com o periférico e ignora o essencial. O limite de 7.500 perfis que a rede permite seguir parece pequeno perto da multidão de distrações que afastam o olhar do altar. Perde-se a vivência do invisível na tentativa vã de capturar o digital: o espírito da liturgia não aceita filtros e a graça de um sacramento não cabe no Direct.

A fixação pelas imagens preocupa, ainda, por alimentar o sentimento de autoglorificação, de uma permanente necessidade que se pode resumir expressão popular: “Olha eu!”. Desse modo, as mãos, destinadas a louvar a Deus, estão sempre sobrecarregadas com a parafernália de última geração. Os olhos já não contemplam, ocupados em encontrar enfoques e ângulos. A atenção, essencial para uma participação efetiva, vai para o espaço! Não interagimos com o belo nem nos envolvemos com a ação ritual. Em última instância, não nos comprometemos com a vivência do sagrado nem dedicamos atenção às relações com o outro, que é irmão.

Gradativamente, torna-se banal a incidência desse modismo em nossas comunidades. A instagranização das celebrações eucarísticas corre o risco de nos tornar paparazzi das celebrações eucarísticas, suplantando a nossa identidade eclesial que é a de sermos membros de uma comunidade de fé. Quando participamos nos momentos celebrativos em nossas igrejas, é uma tentação sacarmos logo o celular, máquina fotográfica ou smartphone para capturar momentos que julgamos importantes, esquecendo que o esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico são sinais da beleza da entrega de Cristo por nós, realizada sacramentalmente, e do imenso e incessante amor de Deus por nós manifestado em  Nosso Senhor Jesus Cristo, que se atualiza em dimensão kairótica, e não cronológica.

Sob esse aspecto, a realidade digital nos afasta mais do que nos une. Ao fotografarmos em nossas celebrações eucarísticas, nos distraímos, além de prejudicar a concentração de outras pessoas. Na maioria das vezes, querendo valorizar e registrar imagens, acabamos deixando em segundo plano o mistério de Jesus Cristo. O tempo despendido em registrar um momento faz com que deixemos de lado a expressão genuína da beleza divina, a presentificação sacramental de Cristo e a atualização do Mistério Pascal.

Vale esclarecer que nesse caso, quando nos referimos a mistério, não estamos falando de algo secreto, escondido, de significado ou causa oculta, algo que não se pode explicar. Mistério, aqui, significa o desígnio (projeto, plano) eterno e misericordioso de Deus, agora revelado, realizado em Jesus Cristo, comunicado a todos os povos (cf. Rm 16, 25; Ef 3, 9; Col 1, 26-27; 1Tm 3, 16) e simbolizado por meio dos ritos litúrgicos. É algo que vai se revelando aos poucos. Transcende a materialidade e a nossa capacidade racional, pois é entendido e acolhido na fé.

Os sacramentos são momentos privilegiados do encontro entre Deus e o ser humano. Pelos sacramentos, participamos do mistério de Cristo, como corpo do Senhor ressuscitado. São sinais eficazes da graça, pois o próprio Cristo os instituiu, os confiou à Igreja e age em cada um deles (cf. CIC, 1131).

A celebração dos sacramentos abrange todas as etapas da existência humana, do nascimento à morte, sendo indispensável para alimentar a vida cristã. Nos sacramentos, o próprio Cristo Jesus nos comunica a sua plena comunhão com o Pai. Toda vida cristã desenvolve em torno dos sacramentos, especialmente o da Eucaristia.

Penso que uma alternativa pastoral para o desafio de se lidar com as tecnologias, considerando que é imprescindível para a Igreja manter-se também conectada com a realidade digital, seria o investimento específico na constituição das nossas Pastorais da Comunicação (Pascom). A partir de um processo educativo, os fiéis poderão compreender que os agentes da Pascom cumprirão, de forma consciente e oportuna, a missão de registrar e compartilhar nossas celebrações, os momentos fortes de vivência da fé, pautados nas orientações litúrgicas e na hierarquia de prioridades, no contexto de cada celebração.

Finalmente, para que nossas celebrações eucarísticas possam ser exclusivamente o lugar do “mistério de Deus”, manifestado pelos sacramentos, temos que investir para configurar, cada vez mais, as nossas igrejas em autênticos espaços de acolhimento, onde cada fiel tenha condições, em todos os momentos importantes da vida, de se encontrar com Jesus e ser discípulo missionário. Assim, vamos vivenciar, registrar e eternizar o Mistério Pascal do Senhor, e deixar as imagens, áudios e vídeos para os outros momentos das nossas vidas.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

O amor e a loucura andam juntas

Fábula do Amor e da Loucura (YouTube)

O AMOR E A LOUCURA ANDAM JUNTAS

15/10/2021

Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas (RS)

 Início a minha reflexão com uma estória: “A Loucura resolveu convidar os amigos para tomar um café em sua casa. Todos os convidados foram. Após o café, a Loucura propôs: – Vamos brincar de esconde-esconde? -Esconde-esconde? O que é isso? – perguntou a Curiosidade. – Esconde-esconde é uma brincadeira. Eu conto até cem e vocês se escondem. Ao terminar de contar, eu vou procurar, e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar. Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça. – 1,2,3…- a Loucura começou a contar. A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer. A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore. A Alegria correu para o meio do jardim. Já a Tristeza começou a chorar, pois não encontrava um local apropriado para se esconder. A Inveja acompanhou o Triunfo e se escondeu perto dele debaixo de uma pedra. A Loucura continuava a contar e os seus amigos iam se escondendo. O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove. – CEM! – gritou a Loucura. – Vou começar a procurar… A primeira a aparecer foi a Curiosidade, já que não aguentava mais querendo saber quem seria o próximo a contar. Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder. E assim foram aparecendo a Alegria, a Tristeza, a Timidez… Quando estavam todos reunidos, a Curiosidade perguntou: – Onde está o Amor? Ninguém o tinha visto. A Loucura começou a procurá-lo. Procurou em cima damontanha, nos rios, debaixo das pedras e nada do Amoraparecer. Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou um pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito. Era o Amor, gritando por ter furado o olho com um espinho. A Loucura não sabia o que fazer. Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amore até prometeu segui-lo para sempre. O Amor aceitouas desculpas. Hoje, o Amor é cego e a Loucura o acompanha sempre”. 

A última frase dessa estória é uma conclusão e contém uma afirmação:  Conclui que o amor é “cego” e afirma que a “loucura” acompanha o amor. Mas deixa tudo em aberto, para que nós nos perguntemos: Por que o amor é “cego”? por que a “loucura” acompanha o amor? Ensaio aqui uma resposta às duas questões sob o prisma da boa nova cristã. 

Por que o amor é “cego”? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão “não enxerga” (quem não enxerga é “cego) as limitações do amado. Enxerga tão somente o amado a ser amado. Ama gratuitamente. Chega a amar o amado por causa de suas limitações e não por seus acertos. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “cego” como ele ensinou. Amou não levando em conta as “limitações” do ser humano. Como Deus “nascido numa gruta de animais” assumiu a natureza humana limitada, viveu 30 anos escondido numa família, pregou a boa nova aos “pequenos e simples”, pediu que fosse “dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, sujeitou-se a não ter “onde reclinar a cabeça”, abraçou a cruz e a morte de cruz… tudo isso, amando gratuitamente – como “cego”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que cenário de gratuidade – “cegueira” – do amor! Eis um amor “cego” e por isso salvador. 

Por que a “loucura” acompanha o amor? Jesus de Nazaré ensinou que o amor cristão não caminha apenas segundo as razões, segundo os desejos, segundo as regras, segundo os interesses, segundo os direitos, segundo as compensações (não caminhar segundo as razões… é “loucura”). O amor cristão caminha colocando tudo em função do amado; coloca o “sábado para o homem e não o homem para o sábado”. Ama desinteressadamente. Chega amar o amado por causa de suas feridas e não por causa de suas belas e razoáveis aparências. Pois, Jesus de Nazaré viveu o amor “desinteressado” como ele ensinou. Amou não levando em conta apenas as “razões” do ser humano. Como Mestre da “vida plena para a qual veio” escolheu “pescadores e publicanos” para discípulos e apóstolos, conviveu com pecadores discriminados, curou leprosos marginalizados, acolheu prostitutas desprezadas, identificou o Reino de Deus com as crianças “pequenas e simples” (e não com não-crianças “grandes e complicadas”), corrigiu a religião “hipócrita e vazia”, deixou-se condenar pelo poder mundano e falso, caminhou para o calvário sob o peso da cruz dos malvados, morreu como “grão de trigo” inocente, deixou o sepulcro como ressuscitado… tudo isso, amando desinteressadamente – como “louco”, por causa dos pecados da humanidade e em vista da sua redenção. Que espetáculo de desinteresse – “loucura” – do amor! Eis um amor “louco” e por isso salvador. 

Em Jesus de Nazaré “o Amor cegado pelo espinho e a Loucura seguidora do Amor” tornou-se real! Que em nós cristãos também o Amor e a Loucura andem juntas! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF