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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A atualidade da Evangelii Gaudium e o horizonte missionário do pontificado de Leão XIV

Evangelii Guadium: Luzes para a Catequese (Catequese Online)
22/01/2026
Dom João Gomes Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

A Evangelii Guadium permanece , mais de uma década após sua publicação, um texto decisivamente atual e profético. Longe de ser um documento circunstancial de um pontificado anterior, ela se afirma como chave hermenêutica para compreender o caminho missionário e sinodal que o Papa Leão XIV pretende assumir e aprofundar em seu ministério petrino. O primeiro consistório extraordinário do seu pontificado, realizado em 7 de janeiro de 2026, confirmou essa continuidade: o Santo Padre pediu aos cardeais que revisitassem a Evangelii Guadium como referência fundamental para discernir prioridades e orientações para a Igreja no tempo presente.

No discurso de abertura do consistório, o Papa Leão XIV retornou e enfatizou a grande intuição conciliar que compreende a Igreja inteiramente contida no mistério de Cristo, entendendo a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada do evento central da história da salvação. Evangelizar, recordou o Santo Padre, não é fazer proselitismo, mas permitir que seja o próprio Cristo quem atraia todos a si, por meio da caridade vivida e testemunhada. Nesse sentido, afirmou: "A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a 'força' que preside a este movimento de atração:essa força é a Charis, o Ágape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações.Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo; e, se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque, através desse 'canal',chega a seiva vital da caridade que brota do Coração do Salvador. É significativo que o Papa Francisco, tendo iniciado com a Evangelii  Guadium, 'sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual', tenha concluído com a Dilexit nos'sobre o amor humano e divino do Coração de Cristo'." Essa perspectiva, amadurecida no ministério recente e assumida por Bento XVI e Francisco, increve-se numa compreensão profundamente cristológica da missão da Igreja: é o amor de Cristo que a impele, e sustente e lhe confere credibilidade diante do mundo.

É nesse horizonte que se insere a intervenção do Cardeal Victor Manuel Fernández, Prefeito do Sicastério para a Doutrina da Fé, cuja reflexão ajuda a compreender por que a Evangelii Guadium continua sendo umtexto irrenunciável. Para ele, não se trata de uma opção pastoral superada ou substituível, mas de um modo de conceber toda a vida da Igreja a partir do anúncio. O subtítulo do documento _ "sobre o anúncio do Evengelho no mundo atual" - revela o seu núcleo: o querigma, isto é, a proclamação da beleza do amor salvador de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Esse retorno ao essencial possui grande relevância no contexto cultural contemporânneo, marcado por fragmentação , cansaço espiritual e perda de sentido. O Cardeal Fernández insiste que não basta repetir normas, doutrinas ou posições morais, ainda que necessárias; é preciso, antes de tudo, favorecer o encontro com Cristo ivo. Em sintonia com Bento XVI, ele recorda que não se começa a ser cristão por uma ideia ou um código ético, mas por uma experiência de encontro com uma pessoa que transforma a vida. Por isso, a Evangelii Guadium fala de "beleza": o Evangelho deve ser anunciado de modo capaz de Atrair, encantar e tocar o coração.

Da centralidade do querigma decorre uma exigência de reforma missionária e sinodal da Igreja. Ecclesia semper reformanda: a Igreja é chamada a rever práticas, estilos e estruturas, não por gosto de mudança, mas para que nada obscureça ou dificulte o anúncio fundamental. Tudo o que não serve diretamente a essa proclamação inicial deve ser posto em segundo plano; tudo o que favorece deve ser colocado em primeiro plano. Trata-se de uma reforma espiritual, pastoral e institucional, vivida em chave sidodal, isto é, no discernimento comunitário e na escuta do Espírito.

Por fim, a atualidade da Evangelii Guadium manifesta-se também na inseparável união entre anúncio, compromisso social e vida espiritual. O querigma não aliena da realidade, mas gera  paixão pelo povo, cuidado com os pobres e esperança ativa na transformação do mundo. Assim, ao assumir e aprofundar a proposta evangelizadora de Francisco, o Papa Bento XVI aponta para uma Igreja mais simples no essencial, mais bela no anúncio e mais audaz na missão. Uma Igreja que, atraída por Cristo, se torna sinal vivo do Evangelho para o homem e a mulher do nosso tempo.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Os mártires de Palomeras

Desenho de Kiko Argüello, retirado de seu livro Anotações (p. 245), que mostra a proximidade do local do martírio - via do trem - com a barraca onde viveu e viu nascer, junto com a Serva de Deus Carmém Hernández, o Caminho Neocatecumenal em 1964. (neocatechumenaleiter)

14/12/2025
CndMadrid

No dia 13 de dezembro do Ano Jubilar de 2025, dia de Santa Luzia, virgem e mártir, teve lugar na Catedral de Jaén a Cerimônia de Beatificação de 124  mártires, durante o transcurso da Eucaristia Solene que, para tal ocasião, foi presidida, em nome de Leão XIV, pelo Cardeal Dom Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, acompanhado pelo atual Bispo de Jaén, Dom Sebastián Chico Martinez, por outros bispos e pelo Cardeal Rouco. A Catedral estava repleta de fiéis, a maioria de familiares dos beatificados. Informaçóes pormenorizadas sobre o ato podem ser encontradas neste link:

Mons. Cassimiro Morcillo, Kiko Argüello e Carmen Hernández (neocatechumenaleiter)
Barracas em Palomeres Altas, Madri 1964 (neocatechumenaleiter)

O postulador recebeu do Cardeal Semeraro uma cópia da Carta Apostólica de Leão XIV, na qual o Papa sublinhou que os beatos foram:

"...testemunhas heroicas e constantes do Senhor Jesus, por cujo amor não temeram derramar o próprio sangue, sejam, de agora em diante, chamados Beatos e possam ser celebrados no dia seis de novembro de cada ano, nos lugares e nas formas estabelecidos pela lei. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".

Entre o grupo reconhecido há 109 sacerdotes, uma clarissa e 14 leigos. Todos eles foram assassinados entre 1936 e 1938 por se recusarem a renegar a sua fé. "Os sacerdotes foram assassinados única e exclusivamente por serem sacerdotes, e os leigos foram assassinados porque viam neles o refelxo da comunidade eclesial", explicou na Eucaristia de beatificação Andrés Nájera, vice-postulador da causa de beatificação.
Plano de Palomeras Altas, Desenho de Kiko Argüelli, matço de 2020 (neocatechumenaleiter)

Entre os leigos beatificados encontram-se Teresa Basulto Jiménez e Mariano Martin Portella, um casal - caso pouco frequente na Perseguição Religiosa Espanhola - que foi assassinado juntamente com o irmão de Teresa, Manuel Basulto, Bispo de Jeán, com o Vigário-Geral e Deão da Catedral, Dom Félix Pérez Portela, em Palomeras (Madri), ambos  beatificados pelo Papa Francisco em 2013. Todos eles foram assassinados em 12 de agosto de 1936, perto da barraca onde, em 1964, passou a viver Kiko Argüello, que, abandonando uma promissora carreira de pintor, deixou tudo e foi viver com os pobres nas barracas de Palomeras Altas. Ali surgiu, graças também a Carmen Hernández, o embrião de uma Iniciação Cristã que viria a ser o Caminho Neocatecumenal: reconhecido oficialmente pela Santa Sé em 2008 e atualmente presente em 138 nações.

Precisamente em Palomeras Altas teve lugar o maior fuzilamento público realizado durante a Guerra Civil Espanhola, no qual morreram pela fé um númeto ainda indeterminado de irmãos e o único bispo bispo assassinado em Madri, Dom Basulto, 254 detidos por motivos religiosos e amontoados na Catedral de Leán que viajavam no chamado Tren da Morte rumo à prisão de Alcalá de Henares, para, teoricamente, aliviar a superlotação daquela, quando foram obrigados a descer do trem à altura do então Apeadeiro Santa Catarina em frente às barracas de Palomeras, para serem assassinados diante de mais de duas mil pessoas que haviam reunido no local para presenciar os fatos, incitando os assassinos. Dom Basulto, que havia sido insultado e humilhado durante todo o transporte, pouco antes de morrer caiu de joelhos no chão, exclamando: - Perdoa, Senhor, os meus pecados  e perdoa também os meus assassinos. Pouco depois, sua irmã Teresa comentou: - Isto é uma infâmia, eu sou sou uma pobre mãe. Um dos assassinos lhe indicou: - Não te preocupes, a ti te matará uma mulher. Em seguida, aproximou-se uma mulher chamada Josefa Coso, "La Pecosa", que disparou à queima roupa contra Teresa, que morreu no ato. Continuam abertas causas de beatificação dos mártires naquela dia, no mesmo local.
Barraca de Kiko Argüello em Palomeras Altas, Madri 1964 (neocatechumenaleiter)

Foi o próprio Kiko quem relacionou os mártires com o nascimento do Caminho Meocatecumenal, expressando-o do seguinte modo:

"A Espanha deu os Cursilhos de Cristandade, o Opus Dei, o Caminho Neocatecumenal e tudo o que quiserdes. Sabeis por quê? Porque houve uma Guerra Civil Espanhola na qual mataram mais de 6.000 sacerdotes, testemunhas, mártires: não houve uma única apostasia. As raízes do Caminho Neocatecumenal estão banhadas no sangue de muitos mártires da Espanha".

Existe informação pormemorizada sobre estes novos 124 mártires declarados beatos no site dedicado da Diocese de Jaén:


Assim como sobre a sua relação com as origens do Caminho Neocatecumenal, em um artigo publicado em Religión Libertad:


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Caminho Neocatecumenal: Uma preciosa contribuição para a vida da Igreja

Foto: Tomasz Marynosk
O Papa Leão XIV se reúne com mil catequistas intinerantes do Caminho Neocatecumenal

Vocês reacenderam o fogo do Evangelho ali onde parecia estar se apagando (Papa Leão XIV)

19/01/2026
CncMadrid

Na manhã do dia 19 de janeiro de 2026, o Santo Padre Leão XIV, na Sala das Bênçãos, recebeu em audiência mais de mil catequistas itinerantes, responsáveis pelo Caminho Neocatecumenal em 138 nações dos cinco continentes.

Ao final de uma convivência celebrada no Centro "Servo de Yahvé", em Porto San Giorgio, sob a guia da equipe responsável mundial do Caminho, Kiko Argüello, Pe. Mario Perzi e Maria Ascensión Romero, os participantes reuniram-se em Roma para o primeiro encontro com o Santo Padre Leão XIV.

Durante a convivência, como acontece todos os anos desde o início do Caminho, foi partilhada  a experiência de evangelização que o Caminho Neotecumenal vem desenvolvendo em mais de 6.200 paróquias de 1.408 dioceses em todo o mundo, para promover a iniciação cristã, um instrumento de ajuda aos bispos e presbíteros dos diversos países na obra do anúncio do Evangelho no mundo atual.

Também estiveram presentes na convivência e na audiência com o Santo Padre os 115 reitores dos Seminários Missionários Diocesanos que o Caminho ajudou a abrir em outras dioceses, juntamente com centenas de formadores.

Na convivência, foi possível constatar, a partir das diversas experiências nos diferentes continentes, a difícil situação na qual a Igreja é hoje chamada a desenvolver a sua missão. Nesse contexto global, ficou claramente evidente que o Caminho Neocatecumenal é chamado a contribuir para a paz e a concórdia entre os homens, levando a esperança do anúncio cristão, do querigma, e formando comunidades cristãs capazes de oferecer a esta geração os sinais da fé: o amor e a unidade.

A chegada e a saída Papa foram acompanhadas por um grande e alegre aplauso, bem como por cantos de Kiko Argüello, entoados com estusiasmo por toda a assembleia.

Kiko ofereceu ao Santo Padre uma cópia do ícone do Bom Pastor, pintado por ele próprio em 1982, e, ao mesmo tempo, tendo em vista que o Papa tem programada uma visita à Espanha nos próximos meses, uma publicação sobre a Catedral de Madri, Nossa Senhora de Almudena, onde Kiko, em 2004, realizou a pintura da coroa mistérica e dos vitrais do ábside.

O Papa Leão XIV dirigiu-se aos presentes com as seguintes palavras:

Desejo expressar minha gratidão às famílias que, acolhendo o impulso interior do Espírito, deixam as seguranças da vida cotidiana e partem em mossão, inclusive para territórios distantes e difíceis, com o único desejo de anunciar o Evangelho e ser testemunhas do amor de Deus.

Dessa forma, as equipes itinerantes. compostas  por famílias, catequistas e sacerdotes, participam da missão evangelizadora de toda a Igreja e contribuem para "despertar" a fé dos não ciistãos que nunca ouviram falar de Jesus Cristo.

Viver a experiência do Caminho Neocatecumenal e levar adiante a missão exige também, de parte de vocês, uma vigilância interior e uma sábia capacidade crítica, para discernir alguns riscos que estão sempre à espreita na vida espiritual e eclesial.

Os carismas devem estar sempre a serviço do Reino de Deus e da única Igreja de Cristo, na qual nenhum dom de Deus é mais importante que os outros.

O bem que realizam é grande, mas o seu fim é permitir que as pessoas conheçam Cristo.

Sigam em frente com alegria e humildade, sem fechamentos, como construtores e testemunhas de comunhão.

Caríssimos, agradeço a vocês pelo empenho, pelo testeminho alegre e pelo serviço que realizam na Igreja e no mundo. Encorajo-os a prosseguir com entusisasmo e os abençoo, enquanto invoco sobre vocês a intercessão da Virgem Maria, para que os acompanhe e os guarde. Obrigado!
Audiência do Papa Leão XIV com intinerantes do Caminho Neocatecumenal, 19/01/2026 (Vatican News)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Papa ao Caminho Neocatecumenal: evangeçizar em comunhão com a Igreja

Encontro de Kiko Arqüello com o Papa Leão XIV (Vatican Media)
Durante encontro com cerca de mil membros do Caminho Neocatecumenal, o Papa Leão XIV agradeceu o serviço missionário da realidade eclesial presente nos cinco continentes, destacou o papel evangelizador das famílias e exortou à comunhão com toda a Igreja, alertando contra isolamentos, rigidez e moralismos na ação pastoral.

Thulio Fonseca

O Papa Leão XIV recebeu na manhã desta segunda-feira (19/01), os responsáveis do Caminho Neicatecumenal, realidade eclesial presente em todos os continentes. Estavam presentes i iniciador Kiko Argüello, membros da equipe internacional e diversas famílias em missão nos cinco continentes. Aos aproximadamente mil participantes, o Pontífice expressou gratidão pelo trabalho de evangelização e acompanhamento de pessoas e comunidades, ao mesmo tempo em que exortou a não se separar do "ewsto do corpo eclesial" e a evitar rigidez e moralismos na ação pastoral.
Papa Leãp XIV (Vatican Media)
Ao saudar os participantes, o Papa destacou o papel missionãrio das famílias e do Caminho Neocatecumenal na vida da Igreja, sublinhando o impulso evangelizador que anima essa experiência eclesial desde as suas origens: "anunciar o Evangelho ao mundo inteiro, para que todos possam conhecer Cristo."

Um carisma a serviço sa redescoberta do Batismo
Encontro do Papa Leão XIV com membros do Caminho (Vatican Media)
Leão XIV recordou que o Caminho Neocatecumenal nasceu e desenvoveu a partir do desejo de anunciar o Evangelho, especialmente àqueles que se agastaram da fé ou a vivem de forma enfraquecida. Segundi o pontífice, trata-se de uma contribuição preciosa para a vida sa Igreja, pois oferece um itinerário espiritual centrado na redescoberta do Batismo e da vocação cristã. O Papa sublinhou ainda que esse caminho ajuda os fiéis a reconhecerem o dom da graça recebida e o chamado a serem discípulos e testemunhas de Cristo no mundo.

"A todos, especialmente àqueles que se afastaram ou àqueles cuja fé se enfraqueceu, vocês oferecem a possibilidade de um itinerário espiritual por meio do qial redescobrir o significado do Batismo."

Unidade, comunhão e discernimento
Encontro do Papa Leão XIV com membros do Caminho (Vatican Media)
Ao mesmo, o Papa dez um forte apelo à vigilância espiritual e ao discernimeto, recordando que todo carismo é dado para o bem comum e deve estar a serviço da missão da Igreja, e advertiu contra o risco de isolamento, fechamento ou atitudes de superioridade dentro da Igreja:

"Exorto-os a viver a vossa espiritualidade sem jamais se separar do restante do corpo eclesial, como parte viva da pastoral ordinária  das paróquias e de suas diversas realidades, em plena comunhão com os irmãos e, em particular, com os presbíteros e os Bispos. Sigam em frente com alegria e humildade, sem fechamentos, como construtores e testemunas de comunhão."

Evabgelizar com liberdade e sem rigidez
Encontro do Papa Leão XIV com membros do Caminho (Vatican Media)
Por fim, o Pontífice recordou que a ação evangelizadora deve sempre refletir a liberdade do Espírito:

"O anúncio do Evangelho, a catequese e as diversas formas de ação pastoral devem ser sempre livres de formas de coaçãom rigidez e moralismos, para que não aconteça de provocarem sentimentos de culpa e temor em vez de libertação interior."

O Papa concluiu agradecendo pelo serviço prestado pelo Caminho Neocatecumenal na Igreja e no mundo, encorajando todos a prosseguirem com entusiasmo, sob a proteção da Virgem Maria,

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt.html 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero

Homem De Braços Para o Céu (Draemstime)

Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero
(13, 4)                              (Séc. III)

Purificados pela sua palavra, Deus fez
brilhar em nós a imagem do homem celestial

Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança (Gn 1, 26). o Filho de Deus é o autor desta imagem. E visto que tão grande é o pintor, a sua imagem pode ser obscurecida pela negligência, mas não apagada pela malícia. Permanece, sempre, a imagem de Deus em ti, mesmo se tentas sobrepor a ela a imagem terrena. Para cada tipo de culpa, como que juntando duferentes cores, pintas em ti essa imagem do homem terreno que Deus em ti não criou. Por isso, devemos implorar Àquele que diz, nas palavras do Profeta: Dissipei tuas transgressões como névoa, e os teus pecados como nuvem (Is 44, 22).
E, quando Deus tiver destruído em ti tosas essas cores mescladas pelos enganos do mal, então brilharás a imagem criada por Ele.
Vê, portanto, como as Escrituras Sagradas apresentam formas e figuras através das quais a alma aprende a conhecer ou a purificar a si mesma.
Queres ver outra forma desta imagem? Existem cartas que Deus escreve e cartas que nós escrevemos. Os pecados são as nossas cartas. Escuta, portanto, o que diz o Apóstolo: Apagou, em detrimento das ordens legais, o título da dívida que existia contra nós; e o suprimiu, prefando-o na cruz (Cl 2, 14).
Esta carta é o aval para os nossos pecados. Na realidade, cada um de nós é devedor quando erra e escreve cartas de seu pecado.
De fato, o juízo de Deus, do qual Daniel descreve a visão, fala de livros abertos, que, sem dúvida, contêm os pecados dos homens. Nós mesmos escrevemos esses pecados com as culpas que cometemos. Por isso, é claro que nossas cartas são escritas com o pecado, e aquelas de Deus, no entanto, com a justiça.
Portanto, o Apóstolo afirma: Vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne em vossos corações (2Cor 3, 3).
Tens, então, em ti as cartas de Deus, as cartas do Espírito Santo. Mas, se pecas, tu mesmo assinas o maniscrito do pecado. Nota, porém, que, assim que te aproximaste da cruz de Cristo e da graça do Batismo, o teu manuscrito foi afixado à cruz e cancelado na pia batismal.
Não escrevas novamente sobre o que foi apagado, ou repitas o que foi destruído, guarda apenas as cartas de Deus; que permaneça em ti somente a escritura do Espírito Santo

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tente outra vez

Tente outra vez (Facebook)

Tente outra vez 

Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)  

Recebi, há poucos dias, uma mensagem de um amigo. Era uma partilha simples, nascida do impacto provocado por um vídeo igualmente singelo: uma idosa pede que toque a música “Tente outra vez”, de Raul Seixas, convida o neto a escutá-la e, com ternura firme, o exorta a jamais desistir dos seus ideais. Nada de discursos elaborados. Apenas a sabedoria silenciosa de quem viveu, caiu, levantou-se e aprendeu a confiar.  

O vídeo, de fato, comove e desperta muitas lembranças. Mas percebi algo ainda mais profundo na reflexão que recebi: ela ia além do impacto imediato. Convertia sentimento em sentido, memória em esperança, saudade em fé. Confesso que fiquei profundamente tocado por essa partilha. Ela me acompanhou em silêncio e me provocou interiormente, como fazem as experiências verdadeiramente espirituais: não se impõem, mas permanecem; não gritam, mas insistem.  

Fui, então, ouvir “Tente outra vez”. Sempre apreciei a arte de Raul Seixas pela densidade existencial e pela coragem de pensar a vida sem superficialidade. Nessa canção, há algo que ultrapassa o tempo e o gênero musical: uma sabedoria que toca o coração humano em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, em sua força. Ao afirmar que “a canção não está perdida”, que “a água viva ainda está na fonte” e que “há dois pés para cruzar a ponte”, o autor fala diretamente à condição humana, tantas vezes ferida e cansada, mas nunca definitivamente derrotada.  

Essa canção soa, no limiar deste novo ano, como um sussurro de Deus que infunde esperança no meio do cansaço da alma. “Ela nos lembra que, quando tudo parece perdido, a última palavra nunca é o fracasso; que a fé é justamente isso: acreditar que ainda existe um caminho, mesmo quando os olhos já não conseguem enxergar. De fato, a fé não é a negação da dor, mas a confiança perseverante de que a vida continua aberta à graça”.  

Tente outra vez, de Raul Seixas, é um convite a recomeçar sempre com confiança. Assim é a vida nas mãos de Deus: às vezes o silêncio dói, às vezes a queda é real, mas o Senhor nos chama a levantar, afinar o coração e lutar novamente. Quem confia em Deus aprende que o impossível não é um muro, mas um apelo à perseverança.  

A reflexão toca precisamente esse ponto: tentar outra vez é um ato de fé; é dizer “eu confio”, mesmo sem compreender plenamente; é acreditar que Deus age naquele intervalo invisível entre a dor e a esperança. Por isso, vale a pena não desistir, porque Deus nunca desiste de nós.  

Aquela avó, que diz ao neto “tente outra vez!”, evoca experiências e recordações desses mestres da vida cujos conselhos, simples e cheios de sabedoria, despertam saudades, não uma saudade vaga ou indiferenciada, mas uma saudade que tem nome, rosto e lugar. Uma saudade que não paralisa, mas sustenta; que dói, mas também ensina. Nas palavras e nos gestos desses mestres, que marcaram profundamente a nossa história, ressoa algo de muito profundo, quase como um eco do próprio amor de Deus. Ali se revela algo essencial: a fé não nasce apenas de conceitos, mas de vínculos; não se aprende apenas nos livros, mas na escuta atenta daqueles que nos precederam no caminho da vida.  

Talvez seja assim que Deus nos educa: por meio da memória que aquece, da palavra que insiste, da canção que se recusa a terminar. Cada vez que a vida nos pedir coragem, que a fé em Deus e as vozes que nos ensinaram a amar se unam para repetir ao nosso coração: a canção não acabou… tente outra vez 

Santo Agostinho, mestre da interioridade, ajuda-nos a compreender esse dinamismo ao ensinar que a esperança gera duas atitudes fundamentais: a indignação diante do que fere a vida e a coragem para não se render ao desânimo. Perseverar, portanto, não é ingenuidade, mas maturidade espiritual; é um gesto profundamente humano e, ao mesmo tempo, autenticamente cristão. Porque, no fim, a fé não elimina as quedas, mas nos ensina a levantar, e cada recomeço, ainda que frágil, já é sinal de que Deus continua a escrever a nossa história. 

 


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Você sabia que São José também teve uma anunciação?

"Le Songe de saint Joseph" de Georges de La Tour. tableau réalisé, vers 1642. | Domaine public

Valdemar De Vaux - publicado em 01/01/26

A liturgia inclui o anúncio feito a José do nascimento de Jesus. Uma Anunciação paralela à da Virgem Maria que mostra como Deus coopera com o homem.

Anunciação é sinônimo da Virgem Maria. A Igreja usa este termo, cunhado com este propósito, para se referir ao evento bíblico (cf. Lucas 1,26-38 ) em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que será a mãe do Salvador, ao que a jovem de Nazaré responde com o famoso "fiat": "Assim seja". Mas este relato, que só se encontra no terceiro Evangelho, o de Lucas, encontra um paralelo em Mateus, que alguns chamam de "Anunciação a José", nos versículos 18 a 26 de seu primeiro capítulo.

Esta passagem é lida na missa de 18 de dezembro de cada ano, como preparação para a solenidade da Natividade do Senhor.

O Papa João Paulo II, em sua exortação apostólica Redemptoris Custos sobre o marido de Maria, publicada em 1989, fala de uma estreita analogia (§3) entre os dois relatos evangélicos:

"'O mensageiro divino introduz José no mistério da maternidade de Maria'. Assim como a mãe de Jesus, um anjo se aproxima do justo quando ele decide repudiar secretamente Maria porque ela está grávida. Esta é uma forma de respeitar a lei, mas também a reputação de Maria.

'Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria como sua esposa, porque o que nela é gerado vem do Espírito Santo. Ele dará à luz um filho, e você o chamará de Jesus (que significa: O Senhor salva), porque ele salvará seu povo de seus pecados'" (Mt 20-21).

A irrupção da graça

© Collection Dagli Orti/Aurimages

Assim como a Virgem Maria, José experimenta assim a irrupção da graça em sua vida. Embora seu plano esteja completo, o homem de Nazaré permite que Deus o perturbe. Por sua determinação de seguir a vontade do Pai, ele deposita sua fé no cumprimento das promessas recebidas de seus ancestrais, listadas anteriormente em uma genealogia bastante tediosa: "Ao despertar José, ele fez o que o anjo do Senhor lhe havia ordenado" (v. 24). João Paulo II pode então dizer que José "manifesta assim uma disposição de vontade semelhante à de Maria a respeito do que Deus lhe pediu através de seu mensageiro".

Mais amplamente, explica a biblista Agnès de Lamarzelle em um artigo na Nouvelle Revue théologique, há em ambos os textos, o de Lucas e o de Mateus, as diferentes características do "gênero literário das anunciações" relativamente comum no universo bíblico: uma situação bloqueada de uma perspectiva humana, uma intervenção divina - perturbadora na maioria das vezes -, a revelação do plano divino, a objeção e o sinal humano, e o cumprimento pela obediência do servo de Deus que recebe o anúncio.

Ao destacar José, o evangelista Mateus permite que o leitor veja a vinda do Salvador de uma nova perspectiva, identifique-se com o justo e entenda melhor como Deus age neste mundo. Não pela onipotência, exceto talvez pelo poder do amor, mas pela cooperação da graça, que é a primeira, e da vontade humana. Enquanto o próprio Jesus está prestes a nascer, um sinal preeminente da presença do Pai em nossas vidas, como podemos participar cada um, à nossa maneira, no desenvolvimento do plano de Deus para a humanidade?

Fonte: https://pt.aleteia.org/

EXEGESE: História e mistério

As Sagradas Escrituras (Comunida Oásis)

EXEGESE

Arquivo 30Dias nº  01 - 1998

História e mistério

Por Ignace de la Potterie

História e Mistério é o título do livro que acompanha a última edição da 30Giorni . Trata-se de uma coletânea das principais contribuições que publiquei nesta revista mensal desde 1992. Na introdução, mencionei que queria explicar o que é exegese cristã. Mas por que esse título aparentemente dialético , História e Mistério?

Um princípio hermenêutico de São Gregório Magno

Segundo Gregório, o exegeta cristão, ao ler a Bíblia, ascende da história ao mistério, " ab historia in mysterium surgit " ( Homilia sobre Ezequiel I, 6, 3). Gregório explica: "Quanto mais cada santo progride na Sagrada Escritura, mais essa mesma Sagrada Escritura progride nele [...], porque as palavras divinas crescem com aquele que as lê" (I, 7, 8). Esse princípio de leitura das Escrituras foi inspirado em Gregório por sua visão inicial do livro de Ezequiel, sobre o qual ele estava comentando.

O profeta, em sua visão, viu uma "carruagem" puxada por "quatro seres viventes". As rodas da carruagem giraram, e Gregório reflete sobre estas palavras do texto: " Spiritus vitae erat in rotis " ( Ezequiel 1:20). Eis o comentário: o fato de o espírito estar nas rodas da carruagem é um símbolo da Escritura na qual o Espírito está presente. O texto bíblico é como uma roda giratória: sobe, depois desce, mas apenas para subir novamente. O texto, portanto, cresce (sobe), "cresce com quem o lê".

E a razão, explica Gregório, é que a Sagrada Escritura, "ao propor o texto, revela o mistério" (" dum narrat textum prodit mysterium ") e, assim, consegue narrar o passado "de modo a também predizer o futuro". Esta forma de ler as Escrituras era muito difundida na tradição patrística e medieval, e foi recentemente estudada com grande erudição por Pier Cesare Bori em L'interpretazione infinita. Ancient Christian hermeneutics and its transformations (Bolonha, Il Mulino, 1987). 

Vejamos um caso concreto dessa exegese. Gregório comenta o episódio bíblico dos dois filhos de Isaac, isto é, Esaú e Jacó ( Gênesis 1:10) . (27:3-8). Jacó era o segundo filho, mas havia comprado o direito de primogenitura de seu irmão com um prato de lentilhas. Isaac estava cego, e sua esposa arquitetou um truque para enganá-lo: vestiu Jacó com uma pele de cabra para que o marido o confundisse com Esaú, que tinha mais pelos. Lembro-me de que, em Lovaina, nosso professor, comentando essa passagem, disse: "Não é uma mentira, mas um mistério", o que parecia significar que tal episódio permanecia incompreensível para ele.

Na realidade, porém, era inquestionavelmente uma mentira, um engano. Mas como São Gregório explica isso? Precisamente para este caso, ele nos pede que "ascendamos da história ao mistério", recorrendo a uma leitura alegórica da passagem, ao seu significado espiritual. A partir desse episódio, diz Gregório, revela-se a importância do direito de primogenitura na história da salvação. O velho Isaac não pode dar a bênção ao verdadeiro primogênito, Esaú, que havia ido caçar e representa o povo judeu. A bênção é dada a Jacó, o segundo filho, que aparece sob a forma de seu irmão mais velho: é, portanto, ele quem recebe a bênção em seu lugar, mas Jacó representa os pagãos.

O significado é, portanto, que os pagãos devem participar das bênçãos destinadas a Israel. Assim, entende-se que, com essas bênçãos recebidas, Jacó receberá o nome de Israel ( Gênesis 35:10). Os pagãos devem participar das bênçãos prometidas ao povo escolhido. O horizonte, portanto, se expandiu imensamente.

A transição "da história para o mistério" não se dá apenas para eventos históricos, como neste caso. Ela também se dá, e repetidamente, para termos usados ​​na tradição cristã, mas que vieram do paganismo. No suplemento da revista, demos um exemplo típico: o termo Theotokos , um título dado pelos cristãos a Maria no século II (por volta de 180), era usado no mundo helenístico para a deusa da fertilidade, Cibele (a mãe dos deuses).

O primeiro a aplicá-lo à mãe de Jesus foi Orígenes, causando assim um verdadeiro escândalo entre os cristãos. Mas, posteriormente, os Padres da Igreja o utilizaram regularmente, purificando-o de suas conotações pagãs. Assim, no Terceiro Concílio Ecumênico (o de Éfeso, em 431), apesar da recusa de Nestório, que não queria ouvir falar do termo Theotokos , o significado desse título foi proclamado como dogma: Maria, a mãe de Jesus, é verdadeiramente a Mãe de Deus. 

História e mistério: ambos necessários para a fé

A importância da história no cristianismo é inegável. Lutero já havia enfatizado isso claramente. Certa vez, perguntaram-lhe: " Quid est interpretatio? ", "O que significa interpretar?" (Era, naturalmente, a Bíblia.) Ele respondeu: "

«Qui non intelligit rem non potest ex verbis sensum elicere », «Aquele que não compreende o evento é incapaz, quando confrontado com o texto , de compreender o seu significado ». Este princípio de Lutero teve grande ressonância na hermenêutica contemporânea (cf. Hans Georg Gadamer, Paul Ricoeur). Deve-se notar que, no texto de Lutero, propõe-se uma espécie de relação triangular entre o evento histórico , o texto que o narra e o significado que se busca. De fato, é preciso perguntar onde reside o significado : no evento ou no texto ? Ou talvez em ambos? Mas, então, qual é a relação entre o evento e o texto? Qual dos dois tem prioridade?

Ao colocarmos toda a ênfase no texto, corremos o risco de transformá-lo em uma mera criação literária, um “teologumenon”; se, em vez disso, dermos toda a prioridade à história, ficamos expostos ao historicismo ou ao fundamentalismo. O mérito de Lutero (a ser enfatizado hoje, seguindo Bultmann) reside em ter insistido na importância da história para a interpretação. No entanto, faltava-lhe um elemento essencial: ele não levou em conta o fato de que entre o texto e nós (que buscamos o significado ) existe uma longa distância, a saber, a tradição que transmite e atualiza o texto para chegarmos ao sentido. Lutero permaneceu fechado na sola Scriptura ; aqui vemos, com o ensinamento católico, a importância da tradição para a busca do significado.

A necessidade da história para a interpretação das Escrituras também foi sublinhada pelo Padre Henri de Lubac, mas em conexão com a obra do Espírito. Isso também é essencial para a passagem da história ao mistério. Recordemos as principais obras de Henri de Lubac sobre este problema: o livro sobre Orígenes intitulado precisamente História e Espírito ; e o livro sobre Orígenes intitulado Umatika Historikôs . 

Problemas de hoje

Segundo um artigo de Charles Kannengiesser citado no volume (pp. 17-20), a exegese dos Padres (lembremos que começamos com Gregório Magno) não seria mais praticável hoje porque estamos sujeitos aos ditames do Iluminismo. Kant, de fato, havia indicado o princípio fundamental em A Religião Dentro dos Limites da Razão : "Uma fé histórica fundada simplesmente em fatos não pode estender sua influência além dos limites de tempo e lugar aos quais a informação que permite um juízo de credibilidade pode chegar" (Bari, Laterza, 1980, p. 110). A transição de um fato histórico particular (necessariamente coincidente) para uma verdade necessária da razão seria, portanto, ilegítima.

Para responder a este desafio do racionalismo, recordemos alguns textos fundamentais de São João. Ele cita dois textos essenciais sobre a verdade, um referente a Jesus: "Eu sou a verdade" ( Jo 14,6); o outro referente ao Espírito: "O Espírito é a verdade" ( 1 Jo 5,6). Quem ousaria, na linha do kantismo, afirmar que estamos lidando aqui com uma "verdade necessária da razão"?

Para Jesus, que foi sem dúvida um homem concreto da história, sua vinda é mencionada como um evento: "A graça da verdade veio por meio de Jesus Cristo" ( Jo 1,17). A verdade de Jesus foi, portanto, um "evento", não uma verdade "puramente fortuita", mas uma verdade que "permanece entre nós" ( 2 Jo 2); a verdade de Jesus foi, de fato, um evento histórico, mas um evento revelatório : o homem Jesus revelou-se como o Filho de Deus e, portanto, no Filho o Pai revelou-se (cf. Jo 14,9).

Mas a crise provocada pelo racionalismo parece agora ter sido superada na filosofia contemporânea. É significativo (ver pp. 157-162 do livro) que vários filósofos contemporâneos pareçam ter redescoberto a noção joanina de verdade. Um deles, Bernard Ronze, publicou recentemente um livro, L'essence du christianisme (Paris, 1996) (A Essência do Cristianismo), que começa com esta frase decisiva: "A noção de evento aparece como fundamental nos Evangelhos e nos escritos apostólicos" (p. 17).

Todos os leitores da 30Giorni sabem o quão fundamental é a noção de "evento" no pensamento e nos escritos de Monsenhor Luigi Giussani: devemos redescobrir "a maravilha do evento de Cristo". Essa redescoberta do evento de Cristo, com a ajuda do Evangelho de João, também nos ajudará a redescobrir a passagem "da história para o mistério".

Fonte: https://www.30giorni.it/

Hoje a Igreja celebra a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus | ACI Digital.

Por Redação central

1 de jan de 2026 às 00:01

A solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Theotokos) é a mais antiga que se conhece no Ocidente. Nas Catacumbas ou antiquíssimos subterrâneos de Roma, onde se reuniam os primeiros cristãos para celebrar a Santa Missa, encontram-se pinturas com esta inscrição.

Segundo um antigo testemunho escrito no século III, os cristãos do Egito se dirigiam a Maria com a seguinte oração: “Sob seu amparo nos acolhemos, Santa Mãe de Deus: não desprezeis a oração de seus filhos necessitados; livra-nos de todo perigo, oh sempre Virgem gloriosa e bendita” (Liturgia das Horas).

No século IV, o termo Theotokos era usado frequentemente no Oriente e Ocidente porque já fazia parte do patrimônio da fé da Igreja.

Entretanto, no século V, o herege Nestório se atreveu a dizer que Maria não era Mãe de Deus, afirmando: “Então Deus tem uma mãe? Pois então não condenemos a mitologia grega, que atribui uma mãe aos deuses”.

Nestório havia caído em um engano devido a sua dificuldade para admitir a unidade da pessoa de Cristo e sua interpretação errônea da distinção entre as duas naturezas – divina e humana – presentes Nele.

Os bispos, por sua parte, reunidos no Concílio de Éfeso (ano 431), afirmaram a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única pessoa do Filho. Por sua vez, declararam: “A Virgem Maria sim é Mãe de Deus porque seu Filho, Cristo, é Deus”.

Logo, acompanhados pelo povo e levando tochas acesas, fizeram uma grande procissão cantando: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém”.

São João Paulo II, em novembro de 1996, refletiu sobre as objeções expostas por Nestório para que se compreenda melhor o título “Maria, Mãe de Deus”.

“A expressão Theotokos, que literalmente significa ‘aquela que gerou Deus’, à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus. A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só a geração humana do Filho de Deus e não, ao contrário, à sua geração divina”, disse o papa.

“O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é-Lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria”, acrescentou.

Do mesmo modo, afirmou que a maternidade da Maria “não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda Pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana”. Além disso, “uma mãe não é Mãe apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera”, disse são João Paulo II.

Por fim, é importante recordar que Maria não é só Mãe de Deus, mas também nossa porque assim quis Jesus Cristo na cruz, quando a confiou a São João. Por isso, ao começar o novo ano, peçamos a Maria que nos ajude a ser cada vez mais como seu Filho e iniciemos o ano saudando a Virgem Maria.

Saudação à Mãe de Deus

Salve, ó Senhora santa, Rainha santíssima,
Mãe de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita igreja,
eleita pelo santíssimo Pai celestial,
que vos consagrou por seu santíssimo
e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!
Em vós residiu e reside toda a plenitude
da graça e todo o bem!
Salve, ó palácio do Senhor! Salve,
ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó morada do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó Mãe do Senhor,
e salve vós todas, ó santas virtudes
derramadas, pela graça e iluminação
do Espírito Santo,
nos corações dos fiéis
transformando-os de infiéis
em servos fiéis de Deus!

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF