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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

PAIS DA IGREJA: Sobre a Vida de Moisés (Parte 9/20)

São GREGÓRIO DE NISSA

(Aprox. 330-395)

Sobre a Vida de Moisés

Tradução segundo a Patrologia Grega de Migne
com base na versão de D. Lucas F. Mateo

História de Moisés

Capítulo 19

Penso que seja conveniente apressar a marcha do discurso, pois com as poucas coisas que já consideramos facilitamos aos amantes do esforço a reflexão sobre as etapas restantes. Estas etapas podem significar as virtudes; quem avança ordenadamente seguindo a coluna de nuvem, acampa e descansa nelas. Passando por alto as etapas intermediárias, recordarei em meu discurso o prodígio da rocha, cuja natureza dura e sólida se converteu em bebida para os que tinham sede, dissolvendo-se sua dureza na brandura da água (Ex 17, 6 e Sal 77, 15 e 1Co 10, 4). Não há nenhuma dificuldade em adaptar a continuação do relato à consideração espiritual. Aquele que abandonou na água o egípcio morto, e foi adoçado com o lenho, e gozou das fontes apostólicas repousando à sombra das palmeiras, esse também já se fez capaz de receber a Deus. Pois a pedra, como diz o Apóstolo, é Cristo, seca e resistente para os que não crêem; porem se alguém aproxima o bastão da fé, se converte em bebida para os sedentos e flui dentro de quem a recebe. Pois diz: Eu e meu Pai viremos e faremos nele morada (Jo 14, 23). Tampouco devemos deixar de considerar isto: depois de atravessar o mar e ter sido adoçada a água para os caminhantes da virtude; depois daquele delicioso acampamento junto às fontes e às palmeiras, e depois de beber da pedra se ter esgotado totalmente as provisões trazidas do Egito, caiu do alto sobre eles um alimento simples e ao mesmo tempo variado. De fato, seu aspecto era simples, porem sua qualidade era variada, acomodando-se convenientemente a cada um segundo a natureza de seu desejo (Ex 16, 2-16). Que aprendemos com isto? Aprendemos com que purificação convém que cada um se limpe da vida egípcia e estrangeira até o ponto de esvaziar totalmente o odre da própria alma de todo o alimento impuro preparado pelos egípcios, e receber assim, com alma limpa, em um só, o alimento que vem do alto: um alimento que não se fez brotar para nós de uma semente mediante seu cultivo, senão que é um pão preparado, sem semente e sem cultivo, que, descendo do céu, aparece sobre a terra. Pelo simbolismo da narração sabes perfeitamente qual é este alimento verdadeiro. O pão que desce do céu (Jo 6, 51 e 6, 31) não é uma coisa sem corpo. Pois como poderia uma coisa incorpórea converter-se em alimento para o corpo? O que não é incorpóreo, evidentemente, é corpóreo. Pois bem, o corpo deste pão não foi produzido pela terra, nem pela semente, mas a terra, permanecendo tal qual é, se encontra cheia deste divino alimento que recebem os que têm fome, havendo conhecido previamente o mistério da Virgem através deste prodígio. Este pão, não produzido pelo cultivo da terra, é também a palavra que, graças à diversidade de suas qualidades, adapta sua força às capacidades dos que comem (Sb 15, 21).

Capítulo 20

Na verdade, não só tem sabor de pão, como se converte também em leite e em carne e em legumes e em tudo aquilo que se adapte e seja apetecível para quem o recebe, como ensina o divino apóstolo Paulo, que preparou aos seus uma mesa assim, convertendo a palavra em comida sólida e de carne para os mais perfeitos, em legumes para os mais frágeis, e em leite para as crianças (Rm 14, 2 e 1Co 3, 2 e Hb 5, 12). As maravilhas que nos mostra a história em torno daquele alimento são ensinamentos para a vida virtuosa. Pois diz que a todos se oferecia uma participação igual no alimento, e que a diferença de forças em quem o recolhia não implicava em excesso ou em falta do necessário. Isto, a meu ver, é um conselho oferecido a todos: que quem procura as coisas materiais necessárias para viver não ultrapasse os limites da necessidade, mas que saiba bem que, para todos, a medida natural do alimento é a satisfação da necessidade diária. Ainda que se preparem muito mais coisas que o necessário, o estômago não tem uma natureza capaz de ultrapassar suas próprias medidas, nem de se dilatar conforme a abundância do preparado, mas que, como diz a história, nem o que colhia mais tinha de sobra, não tinha, de fato, onde guardar a sobra, nem o que colhia pouco estava desprovido, pois a necessidade se reduzia acomodando-se ao encontrado. Enquanto para os que guardavam o supérfluo, o excesso se convertia em viveiro de vermes. Com isto a Escritura indica de algum modo aos avarentos que todo o supérfluo amontoado pela paixão da avareza, no dia seguinte, isto é, na vida futura, se converterá em vermes para quem o reuniu. Ao ouvir isto, sabes perfeitamente que com este verme se designa o verme que não tem fim, gerado pela avareza. O fato de que o guardado só se conserve livre da corrupção no sábado introduz um conselho: que existe um tempo em que convém utilizar o trabalho de possuir aquelas coisas que, entesouradas, não se corrompem; elas nos serão proveitosas quando, havendo concluído esta vida de preparação, depois da morte, nos encontremos no descanso. Não é por acaso que o dia anterior ao sábado é chamado - e é realmente - parasceve, dia de preparação para o sábado.

Capítulo 21

Este dia é esta vida na qual nos preparamos as coisas da vida futura. Nela, nenhum dos trabalhos que realizamos agora é factível: nem a agricultura, nem o comércio, nem a milícia, nem nenhum outro trabalho no qual agora nos afanamos, senão que vivendo em um total repouso destes trabalhos, recolheremos os frutos das sementes que tivermos semeado durante esta vida. Frutos incorruptíveis, se eram boas as sementes desta vida; corruptíveis e funestos, se assim no-las houver produzido a lavoura da vida. O que semeia para o espírito - diz - do espírito recolherá vida eterna; o que semeia para a carne, da carne recolherá corrupção (Ga 6, 8). Por esta razão, a Lei chama parasceve com propriedade e só considera como tal a preparação para melhor, desde que o que ela entesoura é incorrupção; seu oposto não é parasceve e nem recebe este nome. Com efeito, ninguém chamaria com propriedade preparação à privação do bem, senão falta de preparação. Por esta razão, a história prescreve aos homens só a preparação endereçada ao melhor, dando a entender com seu silêncio aos discretos, em que consiste o contrário. Da mesma forma que nos alistamentos militares, o chefe da expedição entrega primeiro as provisões e depois dá o sinal de guerra, assim também os soldados da virtude, depois de haverem recebido a provisão mística, marcham para a guerra contra os estrangeiros, dirigindo a batalha Josué, sucessor de Moisés. Vês com que coerência prossegue a narração? Enquanto o homem está muito debilitado, maltratado pela perversa tirania, não afasta por si mesmo o inimigo. Tampouco pode. Outro é que se faz companheiro de combate dos fracos, o que fere o inimigo com sucessivos golpes. Porem, uma vez que tenha sido libertado da escravidão dos opressores, e tenha sido adoçado com o lenho, e tenha descansado da fadiga no acampamento das palmeiras, e tenha reconhecido o mistério da pedra, e tenha participado do alimento do céu, então não afasta o inimigo pelas mãos de outro, mas como quem abandonou o tempo da infância e alcançou a altura da juventude, ele mesmo luta corpo a corpo contra os adversários, sem ter já como general Moisés, o servo de Deus, mas o próprio Deus do qual é servo Moisés (Dt 34, 5 e Ex 14, 31). Com efeito, a Lei, dada como sombra e figura dos bens que estavam por vir (Hb 8, 5), é inadequada para as verdadeiras batalhas. Aquele que é a plenitude da Lei e sucessor de Moisés, que foi prenunciado na igualdade de nome de quem então mandava, esse dirige agora a batalha. O povo, quando vê levantadas as mãos do Legislador, avantaja-se sobre o inimigo no combate; se as vê caídas, cede (Ex 8, 5). Ter Moisés as mãos elevadas significa a contemplação da Lei através do sentido espiritual; o deixá-las cair para a terra, a pobre exegese presa ao solo, e a observação da Lei segundo a letra. O sacerdote sustenta as mãos de Moisés que se tornaram pesadas, ajudado neste trabalho por um membro da família. Nem mesmo isto é alheio à coerência das coisas que estamos contemplando. De fato, o sacerdote verdadeiro, graças à palavra de Deus que está unida a ele, conduz novamente para o alto as energias da Lei, caídas à terra pelo peso da interpretação judia, e apóia na pedra - como em um fundamento -, a Lei que cai, de forma que esta, como sugere a figura formada pelas mãos estendidas, mostra a quem as vê qual é seu sentido. Efetivamente, para aqueles que sabem ver, o mistério da cruz aparece constantemente na Lei. Por esta razão diz o Evangelho em algum lugar que não passará um jota ou um til da lei (Mt 5, 18), significando com isto o traço horizontal e o acento perpendicular com que se desenha a figura da cruz. Essa mesma cruz, mostrada então em Moisés - que é figura da Lei -, se erguia como bandeira e causa de vitória para os que a olhavam.

ECCLESIA Brasil

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF