APRENDENDO A RENASCER
16/03/2026
Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
A Quaresma pertence a uma ordem mais profunda das
experiências humanas, como lugar interior, uma região silenciosa onde o
espírito entra para reencontrar a verdade de si mesmo. O tempo, nesse caso,
funciona apenas como medida externa. O essencial acontece na dimensão
em que a alma aprende a caminhar.
Desde cedo, a literatura universal
percebeu essa espiritualidade. Os grandes escritores, atentos às
oscilações do caminho humano, reconheceram nela a
imagem da conversão. O impulso necessário para mudar de
direção.
A Quaresma é um desvio
necessário para sair da dispersão para o centro, da ilusão para a
lucidez, do barulho para o silêncio.
Por essa
experiência a humanidade reaprende a desejar o
que a eleva e, através da penitência, nessa lenta
recuperação da luz, alcançar a fidelidade com a sua
natureza.
Embora penosa, a quaresma não é
triste. É mais como a ordenação do coração
humano, que encontra nesse espaço espiritual a possibilidade de
recuperar o seu ritmo.
No mundo moderno, onde as certezas se fragmentam e as
vozes se multiplicam, T. S. Eliot descreveu a quaresma como um deserto da
consciência. O lugar onde se percebe o esforço de uma alma que
desaprende as falsas esperanças para reaprender a esperar. Permanecer em
silêncio, resistir à pressa, aceitar a aridez como trajeto é uma
lição espiritual permanente.
No lugar quaresmal a humanidade moderna reencontra
o sentido perdido entre tantas promessas vazias.
Dostoiévski, por sua vez, escreveu a noite dessa travessia.
Seus personagens carregam culpas profundas, sofrem quedas e experimentam o peso
da própria condição humana. Contudo, é justamente nesse sofrimento que nasce a
possibilidade de redenção. A Quaresma surge como purificação
existencial. O reconhecimento da própria fragilidade abre espaço para
o amor que salva e a dor se torna caminho.
Manzoni amplia esse horizonte para a história coletiva. Em
suas páginas, a humanidade inteira parece atravessar um tempo de provação.
Crises sociais, medo e incerteza revelam tanto a vulnerabilidade quanto a
capacidade de solidariedade. A Quaresma é, então, uma dimensão
comunitária. Não apenas indivíduos, mas povos inteiros precisam atravessar
desertos para amadurecer.
Se olharmos com atenção, perceberemos que todos esses
autores intuíram, como verdade submersa, que a Quaresma é o
espaço onde a pessoa permite-se ser transformada. Ela não se
reduz ao jejum exterior, nem às práticas visíveis. É, antes, um
movimento interior de desapego e reencontro. Algo precisa morrer para que algo
maior possa surgir.
Talvez por isso esse tempo seja, paradoxalmente, luminoso.
Há nele uma tristeza fecunda, uma sobriedade cheia de promessa. Como a terra
que se prepara em silêncio para a primavera, a alma quaresmal trabalha no
invisível. O mundo continua a girar, os dias continuam a passar, mas dentro do
coração algo está germinando.
É uma atitude diante da vida. É o caminho através
do qual aprendemos, repetidas vezes, a renascer.

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