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segunda-feira, 16 de março de 2026

Aprendendo a renascer

Quaresma Tempo de: Silêncio (Amigo Católico/YouTube)

APRENDENDO A RENASCER 

16/03/2026

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

A Quaresma pertence a uma ordem mais profunda das experiências humanas, como lugar interior, uma região silenciosa onde o espírito entra para reencontrar a verdade de si mesmo. O tempo, nesse caso, funciona apenas como medida externa. O essencial acontece na dimensão em que a alma aprende a caminhar. 

Desde cedo, a literatura universal percebeu essa espiritualidade. Os grandes escritores, atentos às oscilações do caminho humano, reconheceram nela a imagem da conversão. O impulso necessário para mudar de direção. 

A Quaresma é um desvio necessário para sair da dispersão para o centro, da ilusão para a lucidez, do barulho para o silêncio. 

Por essa experiência a humanidade reaprende a desejar o que a eleva e, através da penitência, nessa lenta recuperação da luz, alcançar a fidelidade com a sua natureza. 

Embora penosa, a quaresma não é triste. É mais como a ordenação do coração humano, que encontra nesse espaço espiritual a possibilidade de recuperar o seu ritmo.  

No mundo moderno, onde as certezas se fragmentam e as vozes se multiplicam, T. S. Eliot descreveu a quaresma como um deserto da consciência. O lugar onde se percebe o esforço de uma alma que desaprende as falsas esperanças para reaprender a esperar. Permanecer em silêncio, resistir à pressa, aceitar a aridez como trajeto é uma lição espiritual permanente. 

No lugar quaresmal a humanidade moderna reencontra o sentido perdido entre tantas promessas vazias. 

Dostoiévski, por sua vez, escreveu a noite dessa travessia. Seus personagens carregam culpas profundas, sofrem quedas e experimentam o peso da própria condição humana. Contudo, é justamente nesse sofrimento que nasce a possibilidade de redenção. A Quaresma surge como purificação existencial. O reconhecimento da própria fragilidade abre espaço para o amor que salva e a dor se torna caminho. 

Manzoni amplia esse horizonte para a história coletiva. Em suas páginas, a humanidade inteira parece atravessar um tempo de provação. Crises sociais, medo e incerteza revelam tanto a vulnerabilidade quanto a capacidade de solidariedade. A Quaresma é, então, uma dimensão comunitária. Não apenas indivíduos, mas povos inteiros precisam atravessar desertos para amadurecer. 

Se olharmos com atenção, perceberemos que todos esses autores intuíram, como verdade submersa, que a Quaresma é o espaço onde a pessoa permite-se ser transformada. Ela não se reduz ao jejum exterior, nem às práticas visíveis. É, antes, um movimento interior de desapego e reencontro. Algo precisa morrer para que algo maior possa surgir. 

Talvez por isso esse tempo seja, paradoxalmente, luminoso. Há nele uma tristeza fecunda, uma sobriedade cheia de promessa. Como a terra que se prepara em silêncio para a primavera, a alma quaresmal trabalha no invisível. O mundo continua a girar, os dias continuam a passar, mas dentro do coração algo está germinando. 

É uma atitude diante da vida. É o caminho através do qual aprendemos, repetidas vezes, a renascer. 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF