Vida de Maria (17): Ressurreição e Ascensão do Senhor
Os evangelhos não incluem Nossa Senhora no grupo de mulheres
que no domingo foram lavar o corpo do Senhor. Sua ausência mostra a esperança
na vitória de Cristo.
18/04/2017
Ao amanhecer do terceiro dia, uma vez passado o sábado,
Maria Madalena, Maria a mãe de Tiago e Salomé puseram-se a caminho para o
sepulcro de Jesus. O amor as impulsionava a prestar os últimos serviços ao
corpo morto do Senhor, que não puderam fazer na tarde de sexta-feira. Enquanto
caminhavam, se perguntavam umas às outras: Quem vai remover para nós a
pedra da entrada do túmulo? (Mc 16, 3). Era, de fato, uma
espécie de roda de moinho que vários homens haviam colocado para fechar a
sepultura.
Chama a atenção que os evangelhos não mencionem a Santíssima
Virgem. Depois de ter anotado a sua presença ao pé da Cruz, a figura de Nossa
Senhora não volta a aparecer até depois da Ascenção, quando São Lucas, no
começo do livro dos Atos dos Apóstolos, assinala que Maria se encontrava no
Cenáculo de Jerusalém, com os Apóstolos, as outras mulheres que haviam seguido
Jesus desde a Galileia e vários de seus parentes (cfr. Atos 1,
12-14).
Este silêncio é muito eloquente. Maria, ao contrário de
todos os outros, acreditava firmemente na palavra de seu Filho, que havia
predito a sua ressurreição dos mortos ao terceiro dia. Por isso, desde a mais
remota antiguidade, os cristãos pensaram que deve ter passado em vigília a
noite do sábado para o domingo, esperando o momento em que Jesus iria cumprir
sua promessa. Podemos pensar que, com a ajuda de João – que não se separava
dela desde que a havia recebido por mãe ao pé da cruz -, dedicou as horas anteriores
a reunir os discípulos do Mestre, tratando de fortalecê-los na fé e na
esperança, especialmente os que tinham sido covardes naqueles momentos
dolorosos.
Enquanto despontava o novo dia – que logo começaria a
chamar-se dies dominica, dia do Senhor –, a Virgem se entregava
mais e mais à oração. A fé e a esperança da Igreja nascente estavam
concentradas nEla. E esse sentir comum que a primeira aparição do Senhor
ressuscitado foi para sua Mãe: não para que tivesse fé, mas como prêmio da sua
fidelidade e consolo em sua dor. Depois, com o passar das horas, a notícia
correu de boca em boca: primeiro entre os discípulos, a quem as mulheres que
foram ao sepulcro comunicaram; e depois a círculos cada vez mais amplos.
No entanto, em Jerusalém os ânimos estavam exaltados; a
crucificação de Cristo não havia acalmado o ódio dos príncipes dos sacerdotes e
dos anciãos. Sobre os Apóstolos pendia um sério perigo: o de serem acusados de
roubo e ocultação do cadáver. Talvez por esta razão, os anjos recordaram às
mulheres – para que comunicassem aos discípulos – o que o próprio Jesus lhes
havia dito antes da paixão: que fossem para a Galileia (cfr. Lc 24,
8).
Aquele primeiro domingo esteve cheio de idas e vindas ao
sepulcro vazio. Finalizou com a aparição de Jesus aos Apóstolos no Cenáculo, à
que se seguiria outra no mesmo lugar, uma semana depois (cfr. Jo 20,
19 ss). Logo deveriam empreender a viagem à Galileia, com Maria entre eles,
pelos caminhos percorridos outras vezes com Jesus em alegre companhia.
À espera das manifestações do Mestre, os Apóstolos voltaram
a seu trabalho de pesca (cfr. Jo 21, 1 ss) enquanto a Virgem,
provavelmente alojada na casa de Cafarnaum onde antes havia vivido, seguia
fortalecendo a todos na fé e no amor.
Pouco a pouco os ânimos hostis se aplacaram, os Apóstolos e
os discípulos viram fortalecida sua fé na ressurreição: de cada encontro com o
Senhor – os evangelhos nos relatam só alguns – saiam eufóricos, alegres,
otimistas, voltados para o futuro. Até que, num momento determinado, Jesus
reuniu os mais íntimos em Jerusalém para dar-lhes os últimos ensinamentos e
recomendações, porque a partida definitiva se aproximava.
Foi numa tarde, depois de tomar juntos a última refeição. No
cimo ou nas ladeiras do Monte das Oliveiras, com Jerusalém a seus pés, tiveram
a última reunião em família com o Mestre. Talvez os seus corações se
encolhessem um pouco, pensando que já não o veriam mais. Porém o próprio Senhor
adiantando-se, lhes assegurou que continuaria com eles de um novo modo
(cfr. Mt 28, 20).
Disse-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas
esperai a promessa do Pai (At 1, 4), e logo subiu aos Céus
para participar do senhorio de Deus em sua Humanidade Santíssima. São Lucas
conta a cena com detalhes: Então Jesus levou-os para fora da cidade,
até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. E enquanto os
abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu. Eles o adoraram. Em seguida
voltaram para Jerusalém, com grande alegria (Lc 24,
50-52). Tinham consigo a Mãe de Jesus, que era também Mãe de cada um deles. E,
rodeados em volta dEla, aguardaram a chegada do Espírito Santo prometido.
J. A. Loarte

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