ABAIXO A MERITOCRACIA!
12/03/2026
Dom Julio Endi Akamine
Arcebispo de Belém do Pará (PA)
Um empresário contratou novos empregados, que tiveram que
passar por um processo seletivo longo e exigente. Foram admitidos os melhores à
disposição no mercado. No contrato de trabalho, foi estabelecido o salário de
mercado. Depois de algumas semanas, aquele empresário resolveu dar chance a
outros desempregados, mas como os mais qualificados já estavam empregados,
resolveu diminuir um pouco as exigências para contratação. Após mais alguns
dias, vendo que havia ainda pessoas se candidatando a uma vaga de emprego na
empresa, resolveu contratar mais, mesmo sabendo que estes não tinham todos os
requisitos necessários para passar no processo seletivo.
Aquele empresário era excêntrico e, por ser muito
excêntrico, resolveu, ao fim daquele mês de contratações, admitir todos os que
batiam à porta da sua empresa em busca de emprego. Até mesmo os que não tinham
experiência anterior nem qualificação foram admitidos.
No final daquele mês, aquele patrão muito original mandou
pagar a todos o mesmo salário. Nem é preciso dizer que isso provocou a ira dos
que foram contratados no início do mês. Houve reclamação no sindicato, houve
protestos: “você nos igualou a esses últimos”. O empresário, porém, acabou com
os protestos de modo autoritário: “tenho o direito de fazer com o meu dinheiro
o que eu quero. Não fui injusto com os que foram contratados primeiro: cumpri o
contrato e paguei o salário acertado. Se decidi pagar o mesmo para os que só
trabalharam um dia neste mês, foi por pura liberalidade. Para mim esse negócio
de meritocracia nem sempre funciona”.
Acho que você já percebeu que essa estória é uma adaptação
de uma parábola de Jesus (cf. Mt 20,1-16). Se essa estória chocou
você, saiba que Jesus escandalizou também os seus ouvintes. Com efeito, a
parábola tem esse objetivo de nos surpreender com uma mentalidade nova, com uma
lógica que contradiz a nossa forma de julgar, com um mundo novo que arrebenta o
nosso velho mundo.
Os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os
primeiros. Com essa afirmação paradoxal, Jesus quer se opor à nossa
mentalidade errada de meritocracia!
Meritocracia funciona e deve funcionar no campo do trabalho
e em muitos outros âmbitos da vida terrena. Meritocracia, porém, não funciona
na nossa relação com Deus. Diante de Deus, ninguém pode invocar os seus
próprios méritos. Deus não é nosso devedor! Deus não está à nossa disposição!
Deus não pode ser domesticado!
A parábola dos trabalhadores da vinha destrói, na
figura autoritária do patrão, que não respeita a meritocracia, a nossa
pretensão de fazer de Deus nosso devedor. Nossa relação com Deus não é como a
de um plano de fidelidade: vamos acumulando pontos com Deus até termos o
suficiente para poder trocá-los por uma recompensa desejada.
Com um deus domesticado podemos fazer nossas contas e prever
os resultados. Com o Deus de Jesus Cristo não podemos fazer cálculos: Deus é
imprevisível e indisponível. Diante de Deus não devemos ter o comportamento dos
trabalhadores da primeira hora: eles se consideravam superiores porque
achavam que mereciam mais do que outros. Se isso funciona na vida de trabalho,
não funciona na vida de fé.
Os trabalhadores da primeira hora são como Jonas, que fica
irritado com Deus porque Ele é lento para a ira e misericordioso com os
inimigos (Jn 4,1-11); são como Paulo, antes da conversão, que se julgava
justo e cumpridor da lei (Gl 1,13-24); são como o filho mais velho que tem
raiva do pai e não se alegra com a conversão do irmão mais novo
(cf. Lc 15,25-32).
Devemos ser humildes como os trabalhadores da última hora,
que sabem que não merecem o salário integral, mas que se surpreendem com a
generosidade do dono da vinha. O que recebemos de Deus não é proporcional ao
que merecemos. Deus não segue a regra da meritocracia! Ainda bem!
Então não vale a pena ser trabalhador da primeira hora?
Claro que vale! O que não devemos ter é a mentalidade de trabalhador da
primeira hora.
Sejamos nós dedicados e generosos trabalhadores da primeira
hora com a humildade agradecida dos trabalhadores da última hora.

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