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domingo, 10 de março de 2024

AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE II)

Novíssimos (apologistasdafecatolica)

AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE II)

Da Benedictus Deus (Bento XII) a Exsurge Domine (Leão X)

4) Constituição Benedictus Deus de Bento XII (29/01/1336)


A Constituição Benedictus Deus de Bento XII é um dos documentos mais importantes do Magistério sobre escatologia; deram-lhe ensejo alguns sermões pronunciados por João XXII, seu predecessor que, a título pessoal e como doutor privado, havia pregado na Festa de Todos os Santos e no terceiro domingo do Advento de 1331 que os eleitos não gozavam da visão de Deus senão depois da ressurreição final. Em 05/01/1332 acrescentou que também os réprobos só padecem completamente o suplício eterno depois do Juízo universal; não que ele negasse que tanto o céu como o inferno começassem, respectivamente, para justos e pecadores, logo após a morte, mas se afastava da doutrina tradicional e sufragava esta novidade invocando o testemunho de alguns santos, particularmente São Bernardo de Claraval⁹. Houve grande clamor e João XXII, depois de ponderar as objeções contrárias, alimentou a intenção de definir a questão no sentido tradicional, mas não teve tempo para isso, porque a morte o colheu quando já havia submetido suas opiniões privadas ao Juízo da Igreja. Coube a Bento XII, dois anos depois da morte do seu predecessor, desfazer a confusão¹⁰.

A Constituição Benedictus Deus é um documento ex cathedra, a julgar pelas fórmulas definitórias que emprega: o objetivo primeiro é definir o estado das almas logo após a morte, mas indiretamente examina também em que consiste a bem-aventurança eterna, que é essencialmente a visão imediata de Deus. Além disso, insiste na eternidade, que é uma duração infinita”. O Concílio de Florença e os últimos documentos do Magistério se inspiram nesta constituição”¹¹.

Do estado depois da morte

“Com a presente constituição, que permanecerá sempre em vigor, definimos com Autoridade Apostólica que: segundo a ordenação geral de Deus, as almas de todos os santos, que morreram antes da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, como também as dos santos Apóstolos, mártires, confessores, virgens e dos outros fiéis mortos depois de terem recebido o santo Batismo de Cristo, nos quais nada havia a purificar quando morreram, ou as [almas] dos que venham a morrer [quando decedent etiam in futurum]¹² sem nada terem que purificar; ou, então, no caso em que tiveram ou tenham algo que purificar, desde que estejam purificadas depois da morte; e as almas das crianças renascidas pelo mesmo Batismo de Cristo, e as [almas] das que hão de ser batizadas, desde que o sejam e vierem a morrer antes do uso da razão: [todas estas almas], imediatamente depois de sua morte e da purificação de que falamos para aqueles que tiverem necessidade dela, ainda antes da reassunção de seus corpos e do Juízo universal, depois da Ascensão do Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, ao céu – estiveram, estão e estarão no céu, admitidos na companhia dos santos anjos, no Reino dos céus e no Paraíso celeste, com Cristo.”

“E depois da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo viram e veem a Essência Divina com visão intuitiva e face a face, sem mediação de criatura como objeto de visão [nulla mediante creatura in ratione obiecti visi se habente], mas a Essência Divina se lhes manifesta de modo imediato, sem véus [nude], clara e abertamente; e por esta visão gozam da Essência Divina, e por esta visão e fruição são verdadeiramente bem-aventuradas as almas dos que partiram deste mundo e receberam a vida e o descanso eterno; e as dos que morrerem depois verão também a Essência Divina e Dela gozarão antes do Juízo universal.”

“Esta visão da Essência Divina e sua fruição tornam desnecessários [evacuant] nestas almas os atos de Fé e de Esperança, enquanto a Fé e a Esperança são virtudes propriamente teologais [prout fides et spes propriae theologicae sunt virtutes]; além disso, depois que nestas almas começou ou vier a começar esta visão intuitiva e face a face [talis intuitiva ac facialis visio] e sua fruição, esta visão e fruição continuarão a existir ininterruptamente e sem nenhum esvaziamento [evacuatione] da visão e fruição, e continuará até o Juízo final, e daí para toda a eternidade [et ex tunc usque in sempiternum].”

“Definimos ainda que, segundo a ordenação geral de Deus, as almas dos que morrem em estado de pecado mortal atual descem ao inferno logo depois da morte [animae decedentium in actuali peccato mortali mox post mortem suam ad inferna descendunt], onde são atormentadas com suplicios infernais [ubi poenis infernalibus cruciantur]; e que, não obstante, no dia do Juízo, todos os homens comparecerão com seus corpos “diante do tribunal de Cristo” para prestar contas dos próprios atos, “a fim de que cada um receba a retribuição das obras feitas, para o bem ou para o mal, enquanto estava no corpo” (2 Cor 5, 10).”

5) Carta Super quibusdam de Clemente VI (29/09/1351)

Entre os 74 quesitos propostos por Clemente VI ao mekhitar (consolador) da Armênia, para avaliar a ortodoxia de sua fé, dois são sobre o purgatório e a visão beatífica.

[TEXTO: C. BARONIUS, Annales Ecclesiastici, ano 1351, 3, 15].

“Perguntamos se creste e crês que existe o purgatório, ao qual descem as almas dos que morrem em estado de graça, mas que ainda não repararam [satisfecerunt] seus pecados com uma penitência completa.”

“Igualmente perguntamos se creste e crês que [estas almas] são atormentadas temporariamente com fogo; e que, uma vez purificadas, ainda antes do dia do Juízo chegam à verdadeira e eterna bem-aventurança, que consiste na visão face a face e no amor [dilectione] de Deus.”

6) Concílio de Florença (XVII ecumênico) Bula Laetentur coeli de Eugênio IV (sess. VI-06/07/1439)

O II Concílio de Lyon e o de Florença foram obrigados a voltar a atenção para alguns pontos de atrito entre gregos e latinos a respeito da escatologia. O de Florença não fez senão reproduzir o texto do de Lyon, quase ao pé da letra, servindo-se também da Constituição Benedictus Deus e evitando, portanto, as palavras “fogo” e “purgatório”. Não deixa de acrescentar, porém, a referência à visão de Deus Uno e Trino e à perfeição da visão, proporcionada ao mérito”.

Da mesma forma [definimos que] “aqueles que estão verdadeiramente arrependidos, se vierem a morrer em estado de graça [in Dei caritate] antes de terem praticado atos de reparação [satisfecerint] com frutos dignos de penitência (cf. Mt 3,8; Lc 3,8) pelo que cometeram ou omitiram, depois da morte suas almas são purificadas com as penas do purgatório (…), e os sufrágios dos fiéis vivos lhes são proveitosos para alívio destas penas: ou seja, o Sacrifício da Missa [missarum (…) sacrificia], as orações, as esmolas e outras práticas de piedade que os fiéis costumam oferecer pelos outros fiéis, segundo as instituições da Igreja”.

Mas “as almas daqueles que, depois de terem recebido o (…) Batismo, não incorreram em nenhuma mancha de pecado, como também aqueles que, depois de terem contraído a mancha do pecado, se purificaram (…), seja enquanto viviam no corpo, seja depois de tê-lo deixado, como já foi dito: [estas almas] são imediatamente recebidas no céu” e contemplam claramente o próprio Deus, tal como Ele é [sicuti est], Uno e Trino; uns, no entanto, de modo mais perfeito que outros, segundo os méritos.”
“As almas, porém, dos que morrem em pecado mortal atual, ou apenas com o pecado original, precipitam-se imediatamente no inferno para serem punidas, mas com penas desiguais”.

7) Bula Exsurge Domine de Leão X (15/06/1520)

Num primeiro momento Lutero não achava dificuldade em aceitar o purgatório, mas negava que sua existência pudesse ser provada pela Sagrada Escritura; foi esta a tese do heresiarca na disputa de Leipzig (1519). Na realidade, ele contestava a canonicidade dos dois livros dos Macabeus, onde está a passagem clássica sobre o sufrágio pelos mortos (2 Mc 12, 41-46). Mais tarde, porém (1530), negou tudo, segundo a lógica do seu sistema: admitida a justificação só pela fé, a que é atribuída a justiça de Cristo, não pode haver lugar para um estado intermediário entre a condenação e a salvação eterna. O homem em si mesmo continua sempre pecador e merecedor da condenação eterna; se a sua fé lhe garante a justiça de Cristo, que é infinita, então esta justificação se torna perfeita e nada mais lhe pode retardar a salvação. Por isso, para Lutero, a intervenção da Igreja com as indulgências e a intercessão dos santos tornam-se supérfluas. Os reformadores ortodoxos seguem fielmente esta teoria até os nossos dias. Esta a razão por que o Concílio de Trento incluiu a doutrina sobre o purgatório no decreto sobre a justificação.

A Bula Exsurge Domine condena quatro proposições luteranas sobre o purgatório: como dissemos, naquele tempo o herege discordava da Fé católica, mas ainda não chegava a negá-la explicitamente.

[Proposições condenadas]

“37. Não se pode provar o purgatório com nenhum texto canônico da Sagrada Escritura.”

“38. As almas no purgatório não estão seguras de sua salvação, pelo menos nem todas: e não está provado, nem pela razão, nem pelas Escrituras, que elas estejam fora do estado de poder merecer ou aumentar a Caridade.”

“39. As almas no purgatório pecam continuamente, enquanto buscarem o descanso e tiverem horror das penas.”

“40. As almas saídas do purgatório pelos sufrágios dos vivos gozam de menor bem-aventurança [minus beantur] do que se tivessem feito a reparação por si mesmas [si per se satisfecissent].”

Fonte: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/

O Papa no Angelus: não devemos julgar os outros, mas ajudá-los

Angelus 10/03/2024 com Papa Francisco (Vatican Media)

Aquele que conhece Jesus carrega a luz da salvação de Deus, não o machado de seus próprios julgamentos. Portanto, o conhecimento e a compreensão que temos dos outros não são para julgá-los, mas para ajudá-los: disse o Papa no Angelus, ao meio-dia deste IV Domingo da Quaresma em preparação para a Páscoa do Senhor

https://youtu.be/jvtI1DeeM5w

Raimundo de Lima - Vatican News

O olhar do Senhor sobre nós não é um farol ofuscante que nos ofusca e nos coloca em dificuldade, mas o brilho suave de uma lâmpada amiga, que nos ajuda a ver o bem em nós e a perceber o mal, para que possamos nos converter e ser curados com o apoio de sua graça. Foi o que disse o Papa no Angelus, ao meio-dia deste domingo, 10 de março, IV Domingo da Quaresma em preparação para a Páscoa do Senhor.

Jesus não veio para condenar, mas para salvar o mundo

Na alocução que precedeu a oração mariana diante de milhares de fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro para rezar com o Pontífice, Francisco deteve-se sobre a página do Evangelho do dia (Jo 3,14-21), que nos apresenta a figura de Nicodemos, um fariseu, "um dos chefes dos Judeus". Ele viu os sinais que Jesus realizou, reconheceu n’Ele um mestre enviado por Deus e foi encontrá-lo à noite, para não ser visto.

O Senhor o recebeu, dialogou com ele e lhe revelou que não tinha vindo para condenar, mas para salvar o mundo, ressaltou Francisco, convidando a refletir sobre isso: Jesus não veio para condenar, mas para salvar o mundo.

Com frequência, no Evangelho, vemos Cristo revelar as intenções das pessoas que encontra, às vezes desmascarando suas atitudes falsas, como no caso dos fariseus, observou o Santo Padre, ou fazendo-as refletir sobre a desordem de suas vidas, como no caso da Samaritana.

Jesus não quer que nenhum de nós se perca

Diante d’Ele não há segredos: Ele lê os corações. Essa capacidade pode ser inquietadora porque, se mal utilizada, prejudica as pessoas, expondo-as a julgamentos impiedosos. Pois ninguém é perfeito, todos somos pecadores, todos erramos, e se o Senhor usasse o conhecimento de nossas fraquezas para nos condenar, ninguém poderia ser salvo.

Mas não é assim, continuou o Papa. Pois Ele não a usa para apontar o dedo para nós, mas para abraçar nossas vidas, para nos libertar do pecado e nos salvar. Jesus não está interessado em nos colocar em julgamento e nos submeter a sentenças; Ele não quer que nenhum de nós se perca. Jesus não veio para condenar, mas para salvar o mundo. 

Que o Senhor nos dê um olhar de misericórdia

Antes de concluir, o Santo Padre solicitou-nos a pedir ao Senhor que nos dê um olhar de misericórdia, para não julgar os outros, mas ajudá-los, que olhemos para os outros como Ele olha para todos nós.

Pensemos em nós, que tantas vezes condenamos os outros; tantas vezes gostamos de fazer fofoca, de procurar fazer fofoca contra os outros. Peçamos ao Senhor que nos dê esse olhar de misericórdia, que olhe para os outros como Ele olha para todos nós. Que Maria nos ajude a desejar o bem uns dos outros.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Os 40 Mártires de Sebaste

Os 40 Mártires de Sebaste (A12)
10 de março
Os 40 Mártires de Sebaste

imperador romano Licínio, mesmo depois do Edito de Milão de 313, que conferia liberdade religiosa aos cristãos, voltou a persegui-los. Decretou a morte daqueles que não renegassem a Fé e jurassem aos deuses romanos. Relatos de São Basílio e São Gregório de Nissa contam desse período o martírio de 40 soldados romanos cristãos, pertencentes à famosa Legião XII, “a fulminante”, servindo em Sebaste, Capadócia (atual Turquia, então capital da província da Armênia Menor); na mesma época e local ocorreu o martírio de São Brás.

Os 40 decidiram assinar uma carta coletiva, atualmente uma relíquia discriminando seus nomes, na qual afirmavam permanecer fiéis a Cristo e que não incensariam aos ídolos. A carta foi entregue ao governador de Sebaste, o general Agricola, que ordenou ao comandante da legião, Lísias, que os prendesse e torturasse, o que foi feito com correntes e ganchos de ferro. Em seguida, foram encaminhados a um lago. Era inverno, e foram obrigados a ficarem nus durante a noite, na água gelada, para morrerem de frio. Um deles declarou: “Ao tirarmos as roupas, nos despojamos do homem velho (…)”.

Na margem, foi colocado um abrigo com água aquecida, para quem quisesse apostatar e escapar da sentença. Um dos soldados o fez, mas, imediatamente morreu. Conta-se que em seguida um dos guardas, proclamando a Cristo como verdadeiro Deus, despiu-se e entrou no lago para se juntar aos mártires, tornando a completar o número de 40.

Pela manhã, os corpos foram recolhidos e colocados num transporte para serem queimados. Descobriram então que havia ainda um soldado vivo, o mais jovem deles. Os guardas decidiram tentar que abjurasse a fé e não o levaram para o transporte, mas a mãe do rapaz, ali presente, o exortou a perseverar. Colocou-o ela mesmo junto aos corpos dos companheiros, dizendo: “Vai, meu filho, terminar essa feliz viagem junto com teus camaradas. E não te apresentes por último a Deus”. E os acompanhou, com alegria no rosto, até a fogueira.

No dizer de São Basílio, estes soldados entraram no Céu como uma tropa que marcha. A lembrança do seu martírio, por volta do ano 320, coincide com a Quaresma, para encorajar os católicos no caminho da Fé.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

A frieza deliberada da maldade contrasta com o calor dos corações ardentes de Fé. O exemplo destes soldados, que de fato combateram o bom combate (cf. 2Tm 4,7), é ainda enriquecido pelo gesto maior de amor de uma mãe que preferiu a morte física do filho a sabê-lo no inferno. É preciso resistir às legiões de erros, pressões e enganos que as tentações apresentam para nos congelar a alma, confiando na ajuda de Deus e apoiando-nos uns aos outros com a oração e a caridade.

Oração:

Senhor, Deus dos Exércitos, concedei-nos pelos méritos, exemplo e intercessão dos santos 40 mártires de Sebaste que sejamos leais combatentes no Vosso amor, unidos, soldados uns aos outros pela mesma Fé, para vitoriosamente queimar tudo aquilo que, na carne, possa nos consumir o espírito. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria, Nossa e Vossa Mãe, que não hesitou em imolar o Seu Filho natural para a salvação dos Seus filhos adotados, acompanhando-O e apoiando-O até o fim. Amém.

Fonte: https://www.a12.com/

sábado, 9 de março de 2024

AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE I)

A Parusia (apologistasdafecatolica)
AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE I)
De I Constantinopla a II Lyon

II. A RETRIBUIÇÃO
Ressurreição não significa retribuição. Os documentos do Magistério, segundo o ensinamento da Bíblia (cf. Jo 5, 28-29), falam de ressurreição universal; todos os homens, todos os mortos, todos incluindo, portanto, os bem aventurados e os condenados. Quanto ao momento da ressurreição, refere-se o Magistério ao dia da vinda do Senhor, ao último dia, ao dia do Juízo, à consumação do mundo. Independentemente, porém, das questões particulares, os documentos oficiais ensinam que a retribuição é imediata, logo após a morte: que é a fronteira definitiva que separa os que se salvam dos que se condenam, encerrando a situação terrena de peregrinação. A primeira consequência, conceitualmente separável, mas relacionada com a anterior, é que esta justiça, seja a recompensa do prêmio da visão beatífica, seja o castigo no inferno, é eterna, e tanto os santos, quanto os réprobos, no mesmo instante da morte, vão para o lugar que merecem. Os que, porém, morrendo na graça de Deus, não estiverem de todo puros, deverão passar por uma estado de purificação, antes de chegarem à bem-aventurança eterna (o purgatório). A questão do limbo das crianças não batizadas não é diretamente tratada pelo Magistério da Igreja¹.

1. Sínodo de Constantinopla (543)

Entre as ideias origenistas condenadas no sínodo, sobressai-se aquela sobre a escatologia, que passou à história como “apocatástase” ou restauração. Esta teoria foi formulada por Orígenes com relação ao seu princípio de preexistência das almas, condenado nesta mesma assembleia. Segundo a teoria origenista, o inferno é uma pena medicinal² cuja duração é proporcional à culpa: arrependido e purificado, o condenado participará da restauração total de todas as coisas em Deus. Orígenes interpreta, neste sentido, algumas passagens da Sagrada Escritura que parecem se referir a uma restauração final (cf. Mt 19, 28; At 3, 21; Rm 8, 19-22; 1 Cor 15, 25-28. 54 55; 2 Pd 3, 13; Ap 21, 1.5); e quanto às passagens evangélicas que falam da eternidade do inferno, ele as considera medidas pedagógicas para afastar o homem do mal, razão porque não convém pregar esta natureza medicinal às pessoas simples, porque não serviria para afastá-las do pecado³. Este modo de pensar foi visto com simpatia por Dídimo de Alexandria, por São Gregório de Nissa e durante certo tempo também por São Jerônimo.

Mas Orígenes vai mais longe: depois da apocatástase, as almas continuariam a ser livres e também no céu poderiam esfriar no fervor e ser punidas com uma nova encarnação⁴. Esta concepção do inferno teve e tem ainda hoje seus adeptos entre os protestantes⁵.
Se alguém disser ou pensar que o castigo dos demônios ou dos homens ímpios é temporário e que um dia terá fim, ou que chegará a dar-se a “apocatástase” dos demônios e dos homens ímpios seja anátema nos dirá, por fim, a ata conciliar.

2) Carta Sub catholicae professione de Inocêncio IV (06/03/1254)

Já no símbolo de Santo Epifânio fala-se da “vida eterna”; no chamado Fides Damasi, diz-se que a vida eterna será prêmio pelas boas obras e suplício eterno pelos pecados. O símbolo Quicumque afirma como verdade de Fé católica que “os que agiram bem irão para a vida eterna; os que agiram mal, para o fogo eterno”. O XI Concílio de Toledo reafirma a eternidade da glória e o IV Concílio de Latrão define solenemente que tanto a bem aventurança, quanto a pena, jamais terão fim. Todavia no século XIII surgiu uma disputa entre os bispos gregos de Chipre e o bispo latino de Nicósia sobre a escatologia intermediária⁶, o que deu motivo à Santa Sé para uma explicitação.

Os gregos sempre celebraram os sufrágios pelos defuntos, mas o modo de se exprimir dos latinos lhes parecia contaminado de origenismo, como se o purgatório fosse um inferno temporário; por isso, negavam o fogo e o próprio nome de purgatório, porque evocaria uma ideia de espaço. Não contestavam, porém, a existência de um estado provisório para as almas que morressem com pecados leves, do qual Deus as liberta pela intercessão da Igreja: mas não se convenciam de uma purificação como efeito da pena.

Inocêncio IV, nesta carta ao seu legado junto aos gregos, Cardeal Eudes de Châteauroux, bispo de Frascati, dá maior precisão ao dogma católico. Trata-se, portanto, de uma intervenção particular para os cipriotas, mas aí há pontos que penetram a Fé católica, tanto assim que anos depois foram solenemente definidos no II Concílio de Lyon: a existência do purgatório, o castigo dos pecadores depois da morte, a recompensa imediata dos justos⁷.

Em suma, porque a Verdade afirma no Evangelho que se alguém blasfemou contra o Espírito Santo não lhe será perdoado nem neste mundo, nem no outro (cf. Mt 12, 32), isto nos dá a entender que certos pecados são perdoados neste mundo presente, outros, no mundo futuro; e o Apóstolo diz que “o fogo provará a qualidade da obra de cada um” (I Cor 3,13); e “aquele, cuja obra arder, sofrerá dano, mas será salvo, embora como quem passa pelo fogo” (I Cor 3, 15); e os próprios gregos, segundo se diz, creem e sustentam, com toda a verdade e certeza, que as almas dos que morrem depois de terem recebido a Penitência embora sem a terem cumprido -, ou a daqueles que morrem sem pecado mortal, mas com pecados veniais e imperfeições, são purificadas depois da morte e podem ser ajudadas pelos sufrágios da Igreja; e já que eles [os gregos] dizem que o lugar desta purificação [locum purgationis] não lhes fora indicado por seus mestres [doctoribus] com nome certo e próprio: Nós, que, em conformidade com as tradições e a autoridade dos Padres da Igreja [sanctorum patrum], o chamamos purgatório, queremos que daqui por diante seja chamado por eles com este nome. De fato, com aquele fogo passageiro são purgados os pecados, não os mortais ou capitais, que antes não tenham sido perdoados pela Penitência, mas os pequenos e veniais, que, ainda depois da morte, pesam sobre eles [gravant], se não foram perdoados durante a vida.

Se alguém, porém, morrer em pecado mortal, sem a Penitência, será sem nenhuma dúvida eternamente atormentado pelo fogo do inferno eterno [aeternae gehennae ardoribus perpetuo cruciatur].
Entretanto, as almas das criancinhas que morrem depois do Batismo e as dos adultos que morrem em estado de graça [in caritate] e não estão retidas, nem pelo pecado, nem por satisfação alguma que tenham de cumprir por ele, vão imediatamente para a Pátria eterna [ad patriam protinus transvolant sempiternam].

3) II Concílio de Lyon (XIV ecumênico) – Profissão de Fé de Miguel Paleólogo (sess. IV 6.7.1274)

As controvérsias entre os gregos e os latinos sobre a escatologia intermediária ocuparam todo o séc. XIII. O II Concílio de Lyon que, dentre outras preocupações, se empenhou na união com os gregos, não podia ignorar este pomo de discórdia, e na profissão de Fé que o Imperador Miguel Paleólogo enviou ao Concílio, e que foi lida na quarta sessão, todos reconheceram a verdade da Igreja Universal, que mais tarde seria sancionada no Concílio de Florença. Tanto em Lyon como em Florença evita-se mencionar a palavra “fogo” e muito menos é usado o termo “purgatório”: fala-se só genericamente de penas purificatórias.

Do purgatório

“Se aqueles que estão verdadeiramente arrependidos morrerem em estado de graça [in caritate] antes de terem feito atos de reparação [satisfecerint] com frutos dignos de Penitência (cf. Mt 3,8; Lc 3,8) pelo que fizeram ou deixaram de fazer, suas almas, depois da morte, são purificadas com penas do purgatório ou purificantes [poenis purgatoriis seu catharteriis], como no-lo explicou nosso irmão João⁸; e para alívio destas penas lhes aproveitam os sufrágios dos fiéis vivos, isto é, o Sacrificio da Missa, as orações, as esmolas e as outras práticas de piedade que os fiéis costumam fazer por seus irmãos na Fé, segundo as instituições da Igreja”.

Da bem-aventurança

“Mas as almas daqueles que, depois de terem recebido o santo Batismo, não incorreram em nenhuma mancha de pecado, como também aqueles que, depois de terem contraído a mancha do pecado, se purificaram, seja enquanto viviam no corpo, seja depois de tê-lo deixado, como se disse antes, [estas almas] são recebidas imediatamente no céu.”

Da condenação

“As almas, porém, dos que morrem em pecado mortal ou só com o original descem imediatamente ao inferno para serem punidas, embora com penas desiguais.”

Do juízo final

“A mesma Santa Igreja Romana crê firmemente e firmemente assegura que, no entanto, no dia do Juízo, todos os homens comparecerão perante o tribunal de Cristo com seus corpos, para prestar contas de seus próprios atos (cf. Rm 14,10.12).”

1. É de Fé católica que só o pecado original já basta para criar uma separação escatológica de Deus e, neste sentido, trazer um estado de condenação. A questão de fato, ou seja, a existência de um estado após a morte em que se achem almas só com o pecado original, tradicionalmente denominado “limbo”, continua como uma doutrina teológica [cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Summa theologiae. Suppl., q.69, a. 4-6; idem, De malo, q. L. BILLOT, diversos artigos em Etudes, 1920-1922; INOCÊNCIO III, Carta Maiores Ecclesiae.

2. ORÍGENES, De principiis 2,10,6: PG 11, 238.

3. Contra Celsum 5, 15: PG 11, 1204.

4. Schleiermacher muito contribuiu para a difusão desta idéia. Segundo A. HARNACK, Dogmengeschichte, Tubingen, 4ª ed., 1909,3,661, todos os reformadores aderiram de coração à apocatástase, e também em nossos dias muitos teólogos modernos bizantinos e greco-russos a veem com simpatia. Cf. M. JUGIE, Theologia dogmatica orientalium dissidentium IV, Paris, 1931, 137-151. Outra forma de negação da eternidade das penas do inferno, tanto na Antiguidade, como na Idade Média, era a de sustentar o aniquilamento dos condenados, teoria já defendida pelos gnósticos no séc. II: cf. SANTO IRINEU, Adversus haereses 1,7,1: PG 7, 514. Foram depois imitados pelos socinianos medievais. Paralelamente, houve quem evoluísse com a teoria, chegando a afirmar que a alma humana não é imortal por natureza, mas Deus a torna imortal só para os eleitos (ARNÓBIO, O VELHO, Adversus nationes 2.14.

5. Bibliografia: B. ALTANER, Patrologia, Edições Paulinas, São Paulo, 1972, 213; J. DANIELOU, Origène, Paris, 1948, 207-217.

6. M. RONCAGLIA, Georges Bardanes métropolite de Corfou et Barthélemy de l’Ordre Franciscain, Roma, 1953, com documentação dos colóquios entre gregos e latinos.

7. Trata-se de Frei João Parastron ou Barastron, O.F.M., nascido em Constantinopla e apóstolo da união, que acompanhou até Lyon os legados gregos e assistiu à sessão IV do concílio. O Papa reconhece que ele se empenhou diu et utiliter pela união. Morreu em Constantinopla em 1275.

8. SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Sermo in festo Omnium Sanctorum: PL 185, 472. Cf. SANTO AGOSTINHO, Enarratio in psalmum 43: PL 36, 485; Id., De Trinitate 1, 13: PL. 42, 843-844. Não seria difícil encontrar em outros textos patrísticos passagens no mesmo sentido.

Fonte: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/

Caridade não é um negócio

Fazer caridade não é só doar (Facebook)
Revista 30Dias - 06/1998

Caridade não é um negócio

Guerino Di Tora, sacerdote romano, chefe da Caritas na cidade do Papa, não gosta de estar sob os holofotes dos meios de comunicação de massa. Mas aqui ele concorda em falar sobre as suas preocupações e os seus planos para ajudar os mais pobres. E para o futuro esperamos uma Caritas o menos centralizada possível.

Entrevista com Guerino Di Tora por Davide Malacaria

«A minha nova paróquia serão os pobres de Roma». Monsenhor Guerino Di Tora assim o declarou quando foi chamado para dirigir a Caritas de Roma, em 21 de novembro de 1997, após 26 anos de sacerdócio, dos quais 23 passados ​​na paróquia de São Policarpo. Di Tora é romano, natural do popular bairro de Prenestino, e lembra como era uma vez “cada bairro era uma família e a solidariedade era o ar que respirávamos”. 


Pobreza em Roma. Qual iniciativa da Caritas você acha que é mais importante completar? 
GUERINO DI TORA: No novo ano, durante a missão municipal, faremos o monitoramento da pobreza, um trabalho essencial, visto que a pobreza é uma realidade em constante evolução. Quem poderia imaginar, até há poucos anos, que o fenómeno dos sem-abrigo se enraizaria no mundo jovem? E que a patologia do esgotamento nervoso passou de uma doença “intelectual” a uma praga generalizada mesmo entre as pessoas simples? E mais uma vez, que não foi o único desempregado que compareceu aos nossos centros de escuta, mas toda a família? Mas este trabalho de monitorização também é importante para melhor orientar as intervenções existentes. Por exemplo, vimos como as casas familiares para pacientes com SIDA são uma experiência lucrativa, porque os pacientes recuperam a confiança em si próprios. Mas agora são insuficientes, porque os doentes vivem mais e muitas pessoas em lista de espera, confiantes - infelizmente - numa rápida rotatividade, não conseguem aceder ao serviço. 

Com o que você mais se preocupa para o futuro da Caritas? 
DI TORA: Criar uma estrutura menos centralizada possível, conseguir estar presente em todas as paróquias e prefeituras de Roma. Além disso, procurem a máxima colaboração com todos os católicos que atuam socialmente. Uma colaboração que deve estender-se também às estruturas não católicas. Porque a atenção aos outros não tem cor. É uma sensibilidade humana que, ainda mais, um batizado sente em virtude do dom da graça de Deus. 

Lembro-me de um filme de Troisi, Os caminhos do Senhor estão consumados , no qual um paralítico é assistido por seu irmão. A certa altura o paciente se recupera e o irmão se desespera, dizendo “o que eu faço agora?”. Não existe o risco de que às vezes trabalhar arduamente pelo menos provável surja como cobertura para um vazio? 
DI TORA: É um perigo real. Nos nossos cursos de formação de operadores estamos particularmente atentos a este problema. Mas às vezes as situações podem favorecer o contrário, ou seja, reencontrar o sentido de equilíbrio: penso, por exemplo, em quem ajuda quem sofre de SIDA, tarefa que nos obriga a colocar-nos questões existenciais.

Roma acolhe o túmulo de São Lourenço, o diácono mártir tão querido pelo povo romano especialmente pelo seu amor aos pobres...
DI TORA: A atenção aos últimos é uma característica da Igreja de Roma, que continua ao longo da história. Quero recordar como Santo Inácio, já no século II, escreveu que Roma tem o primado da caridade. San Lorenzo foi uma grande testemunha disso, como San Filippo Neri e muitos outros. Mas é também a cidade do Papa. Por isso, além de cuidar dos pobres de Roma, a Caritas desta cidade deve ter um alcance universal. Temos também a tarefa de agir como uma consciência crítica quando a atenção aos pobres falha. E isso também acontece com as instituições civis, locais e nacionais, com as quais nos relacionamos e trabalhamos.

Nesta fase de transição política, o Estado-Providência está a ser reestruturado em Itália...
DI TORA: Nesta reestruturação devemos permanecer muito vigilantes, porque poderíamos facilmente perder o que ganhamos ao longo dos anos com as políticas sociais. Recordo-me do discurso do Cardeal Martini em Milão, no passado dia 8 de Dezembro, no qual denunciou que a atenção aos mais fracos já não tem referências de direita ou de esquerda. Nas escolhas políticas, tendemos agora a olhar mais para a economia do que para a solidariedade. À medida que o trabalho diminui, os pobres ficam mais pobres e os ricos mais ricos.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Quem foi São Tomás de Aquino, intelectual da Idade Média que influenciou a filosofia ocidental (2)

Tomás de Aquino (retratado ao centro neste afresco de Andrea di Bonaiuto) foi um divisor de águas do pensamento humano, segundo especialistas

Quem foi São Tomás de Aquino, intelectual da Idade Média que influenciou a filosofia ocidental.

Autor, Edison Veiga

Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

7 março 2024

Vida

Nascido em uma pequena cidade na província do Lácio — na época, Reino da Sicília, hoje Itália —, Tomás de Aquino era filho de um cavaleiro militar. Seus pais, o incentivaram a estudar e acabaram mandando-o para o equivalente a uma universidade da época, em Nápoles.

Foi lá que, ao que tudo indica, ele tomou contato pela primeira vez com a obra de Aristóteles. Durante esse período, acabou tendo contato com um pregador dominicano que o recrutou, aos 19 anos, para a chamada Ordem dos Pregadores — também conhecida como Ordem de São Domingos.

Seus pais foram contra o ingresso na confraria religiosa e tentaram impedi-lo. Quando os dominicanos determinaram que Tomás fosse para Roma e, de lá, para Paris, familiares dele armaram uma emboscada e o capturaram, levando-o de volta ao castelo de seus pais. Ele teria ficado detido por cerca de um ano e, conta-se, até mesmo uma prostituta chegou a ser contratada para demovê-lo da ideia da vida religiosa.

Percebendo que nada iria resolver a questão, sua mãe colaborou para que ele fugisse e retornasse aos dominicanos. Tomás de Aquino foi para Nápoles, depois para Roma e, em seguida, acabou enviado para estudar na Universidade de Paris.

Quando concluiu sua formação, em 1259, retornou a Nápoles e iniciou sua carreira como pregador dominicano. Circulou por várias regiões da península itálica e foi nesse período que escreveu sua obra principal, a ‘Suma Teológica’.

Nove anos depois, foi enviado novamente para Paris, agora como regente mestre dos religiosos que ali estudavam. Ele ficaria lá até 1272, quando obteve dos dominicanos a autorização para fundar um centro de estudos onde quisesse — escolheu Nápoles.

Professor na PUC-SP e na Faculdade São Bento, o teólogo, filósofo e jornalista Domingos Zamagna destaca à BBC News Brasil a erudição de Aquino, um onívoro cultural que buscava os saberes mais variados possíveis.

“A teologia é um esforço de conhecer Deus, e só podemos conhecê-lo, além do que ele próprio revelou, ou pela via negativa, ‘o que ele não é’, ou pela via analógica, ‘ele é semelhante a…’ Como o ser humano é ‘a imagem e semelhança de Deus’, só conheceremos Deus se soubermos profundamente o que é o ser humano”, reflete ele.

“Não deveria nos causar espanto que Tomás tenha se lançado no estudo da biologia, da política, da ética, da psicologia, da antropologia, da economia, da estética, etc., para mergulhar no que é a essência do ser humano”, acredita Zamagna.

“Para isso, estudou Aristóteles, que entendeu o ser humano dentro de uma relação unitária, contra o dualismo de Platão. Daí quis conhecer a causa última da realidade, a causa das causas, que é Deus. Daí desenvolveu o estudo propriamente teológico.”

“Ele viveu como grande intelectual, mas sempre foi visto com certa desconfiança por uma ortodoxia que não via com bons olhos a entrada do pensamento aristotélico para subsidiar os dogmas da Igreja Católica”, pontua o teólogo Moraes.

“A filosofia dele podia ser muito arriscada, porque de repente podia [ser interpretada como se viesse a] não concordar com a ideia de que Deus criou o mundo, com a ideia da imortalidade da alma... Tudo muito perigoso. Era preciso saber selecionar e, nesse sentido, o Tomás de Aquino foi mestre”.

Aquino buscou uma explicação racional para a fé. “Ele partiu da revelação, acreditava na revelação de Deus, mas dizia que o conhecimento era revelado através da fé. Como teólogo, ele usou de todo o conhecimento filosófico extraído da tradição aristotélica para fundamentar sua fé”, detalha Moraes. “Podemos dizer que, em Tomás de Aquino, a razão está à serviço da fé.”

Em 1274, foi convocado pelo papa Gregório 10º (1210-1276) para participar do Concílio de Lyon. A caminho de Roma, montado em um burro, bateu a cabeça em um galho de uma árvore tomada e ficou seriamente ferido. Tentou seguir viagem mas não conseguiu. Acabou sendo abrigado em uma abadia que havia nas proximidades.

Depois de alguns dias, não resistiu. Morreu em 7 de março de 1274, há exatos 750 anos.

Santo

Tomás de Aquino seria canonizado em 1323, pelo papa João 22 (1249-1334).

O filósofo Andrey Ivanov, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), comenta à BBC News Brasil que 2024 está no meio de três anos especiais para aqueles que admiram Tomás de Aquino. No ano passado, 2023, foram lembrados os 700 anos que ele passou a ser considerado santo. Neste, celebram-se os 750 anos de sua morte. Em 2025 serão recordados os 800 anos de seu nascimento.

“Em vida e logo após a sua morte, as doutrinas de Tomás não suscitaram um consenso unânime e foram duramente atacadas, sobretudo por teólogos e em particular pelos franciscanos”, comenta Ivanov.

A canonização de Tomás de Aquino também não foi uma unanimidade na cúpula católica da época. Havia um ingrediente político. João 22 tinha sido auxiliado por dominicanos no seu processo de escolha para o trono papal e, portanto, devia gratidão a esse grupo. “Uma forma de reconhecer isso era escolher um membro da ordem para ser canonizado”, conta Moraes. O nome de Aquino foi o segundo que lhe foi apresentado.

“E ele era um admirador, tinha obras suas na biblioteca e fazia uso das mesmas. Até hoje no Vaticano há textos [de Tomás de Aquino] com anotações desse papa, o que Mostar que ele tinha apreço enorme pela obra”, comenta o teólogo.

Boccato ressalta que, “apesar de ser reconhecido como grande filósofo e teólogo, e o foi”, Tomás de Aquino se notabilizou também “como um pregador, um verdadeiro contemplativo da Palavra de Deus de onde ele extraiu o sentido para sua vida”.

“Então, o fato de ele ter sido santo dá-se pelo seu esforço de, pela fé, esperança e caridade, viver de modo perfeito as virtudes teologais, mas também ser um irmão, frade, que colocou a caridade como centro de sua vida”, acrescenta ele.

Para Ivanov, “pode-se dizer que a sua santidade é a santidade da inteligência”. “Ele se santificou na sua obra de filósofo e teólogo. A sua busca da verdade natural e supranatural se identificou com sua busca de Deus”, analisa o professor.

“Ele se tornou santo, reconhecido pela Igreja, pelo fato de viver da e para a caridade e manifestá-la na relação com o próximo e traduzi-la em reflexão refinadíssima”, avalia Boccato. Para o professor, São Tomás “era um homem de profunda oração, vida comunitária, pregação e sensibilidade humana”.

“Não tenho dúvidas que a sua santidade se configura nesta articulada relação entre vida contemplativa, reflexão filosófico-teológica e apostolado, diálogo produtivo com muçulmanos e árabes”, salienta. “Tornou-se santo porque buscou viver e aplicar o evangelho no seu cotidiano e ao longo de sua vida na convivência com os confrades e no fértil apostolado.

Legado

Séculos depois, seu legado permanece. “O que acho muito bonito em São Tomás é aquilo que, a meu ver, fez o tomismo se enraizar na Igreja e se manter vivo até hoje: é essa ideia de uma cooperação entre a filosofia e a teologia, uma espécie de harmonia, a gente pode dizer, entre fé e ciência”, comenta Maerki.

“A justificativa para isso é que, para Tomás de Aquino, a razão, que é o princípio básico da filosofia, seria um estatuto criado por Deus. Então mesmo a razão que norteia o pensamento filosófico possui sua raiz com Deus. E a fé é uma espécie de revelação do próprio Deus”, explica o pesquisador. “Nesse sentido, a fé e a razão não podem se contradizer já que, segundo Tomás de Aquino, a fonte é a mesma, é o ser divino, o próprio Deus.”

Zamagna argumenta que “todos os que desejam uma prática religiosa baseada na fé mas sem abdicar das exigências racionais há de se beneficiar com o conhecimento da produção intelectual de São Tomás”.

“Não há filósofo que, mais cedo ou mais tarde, deixe de se questionar sobre a origem e o fim da vida. Só não o fará quem for preguiçoso ou pouco exigente”, diz.

“No meio de tantas buscas e respostas, o pensamento de São Tomás permanece válido e atualíssimo, corresponde a uma ajuda para responder a um dos maiores anseios do ser humano. Ser ateu é bastante fácil. Difícil é projetar-se na pesquisa para encontrar uma resposta racional às alegrias e esperanças da comunidade humana.”

Em 1879 o papa Leão 13 (1810-1903) publicou a encíclica ‘Pai Eterno’, na qual promoveu um renascimento do tomismo como sistema teológico e filosófico. “[O documento] propunha uma junção entre filosofia e teologia, entre razão e fé, como aquela que já havia sido realizada por mestres medievais, em particular por Tomás. De modo que Tomás merecia ser ensinado nos institutos e universidades da Igreja”, relata Ivanov.

“A encíclica surtiu efeitos positivos para impulsionar os estudos de filosofia medieval e novos projetos de edição das obras dos grandes mestres da escolástica, a partir naturalmente das obras de Tomás”, completa.

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese

O desafio da busca de sentido não obstante as controvérsias do Niilismo

O Niilismo (Almanaque SOS)

O DESAFIO DA BUSCA DE SENTIDO NÃO OBSTANTE AS CONTROVÉRSIAS DO NIILISMO

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

A questão do sentido da vida, na perspectiva da controvérsia niilista, torna-se extremamente problemática. Aparentemente, o niilista nega radicalmente o problema do sentido da vida. Entretanto, quando examinamos suas teses, apenas aparentemente ele elimina a questão do sentido. Na verdade, tudo que o niilista pretende é resolver a questão de forma inteiramente autônoma, sem nenhuma referência a valores transcendentes, ao absoluto, ou, em uma palavra, Deus. O niilista se insurge contra os valores da tradição, aposta na desagregação, contesta tudo para, em seguida, ele mesmo colocar-se naquela posição originária que não remete a nenhum fundamento, para criar novos valores, na transvalorização de todos os valores. 

Para compreender o impacto avassalador do niilismo, convém relembrar brevemente sua história. Originando-se nas controvérsias do idealismo alemão, o niilismo ganhou força na segunda metade do século XIX, tornando-se um tema central de discussão na filosofia e na literatura. Nietzsche (1844-1900), com sua afirmação da “morte de Deus”, ou seja, da derrocada das crenças tradicionais, é considerado um dos principais teóricos do niilismo. A palavra, entretanto, teria surgido pela primeira vez, em âmbito literário, com o escritor russo Ivan Turgenev (1818-1883), no romance Pais e Filhos (1862). O niilismo, etimologicamente enraizado na palavra “nihil” (nada), representa uma postura filosófica obcecada pela ausência de significado e propósito. Ao negar os valores tradicionais e transcendentais, o niilista confronta a própria essência da existência humana, lançando dúvidas sobre a validade de nossas crenças e convicções mais profundas. 

Além de sua repercussão no ambiente filosófico do século passado, o niilismo emerge em outras esferas da experiência humana. Em um mundo marcado pelo desmantelamento dos valores tradicionais e pela ascensão do vazio existencial, o niilismo emerge como um protagonista sombrio, questionando a própria razão de nossa existência neste universo aparentemente desprovido de significado. A crise de valores, a negação da humanidade do outro através das diversas formas de intolerância e violência, a alienação social são apenas algumas das consequências desse fenômeno complexo e multifacetado. À medida que a sociedade contemporânea se debate com o impacto corrosivo do niilismo, torna-se imperativo explorar suas ramificações em todos os aspectos da vida moderna. 

Em seu cerne, o niilismo desafia diretamente o problema do sentido da vida. Ao negar radicalmente qualquer fundamento transcendente, ele lança os seres humanos em um abismo de incerteza e desespero existencial. A busca por significado torna-se uma jornada solitária e desafiadora em mundo caótico e sem propósito. Não faltam exemplos desse mal-estar. Muitas pessoas vivem precariamente, enfrentando doenças, medo, desespero, negação de sua dignidade, relegadas à invisibilidade e ao anonimato, mesmo em países considerados ricos. Como encontrar significado em meio à desigualdade e à precariedade e a falta de empatia? Há uma acentuação do individualismo e uma crise de identidade que atinge também o homem religioso. Alguns experimentam a “desertificação” espiritual, não conseguindo ser testemunhas de esperança para aqueles que estão sedentos de sentido e busca por Deus. Instaura-se uma espécie de relativismo prático, em que se age como se Deus não existisse (Cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium [EG], n. 80).  A sensação de derrota sufoca o fervor e a ousadia de quem poderia suscitar a confiança no triunfo, mesmo em meio às adversidades e à cultura niilista da sociedade contemporânea. 

Apesar dos desafios impostos pelas novas formas de niilismo, é possível vislumbrar caminhos para além do abismo do vazio existencial. A busca por significado pessoal, a reconstrução de valores fundamentais e a exploração de formas individuais de transcendência emergem como possíveis soluções para lidar com o dilema do sentido da vida, ao invés de sucumbir ao desespero e ao vazio sem sentido. 

O niilismo permanece como um desafio urgente para a busca de sentido. Ao invés de aceitar passivamente o vazio, somos chamados a abraçar a plenitude da existência humana, encontrando significado na transcendência. Como enfatiza o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium (n. 84), a alegria encontrada no Evangelho é tão profunda que nada nem ninguém pode roubá-la de nós (cf. Jo 16, 22). Os desafios enfrentados pelo mundo e pela própria Igreja não devem ser desculpas para diminuir nossa dedicação e fervor. Em vez disso, devemos encará-los como oportunidades de crescimento. “A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio” (EG, n. 84). Outrossim, podemos também encontrar sentido na imanência de nossas experiências ordinárias, sabendo apreciar “a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai” (EG, n. 4). É possível buscar a luz no coração da escuridão, a esperança no cerne do desespero e o sentido no âmago da incerteza!

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

NAZARENO: Antecipação do Paraíso no Tabor (Transfiguração e cura do endemoniado) - (33)

Nazareno (Vatican News)

Cap. 33 - Antecipação do Paraíso no Tabor (Transfiguração e cura do endemoniado)

Jesus sobe ao Monte Tabor e leva consigo Pedro, João e Tiago. Enquanto reza, seu rosto muda de aparência e seu manto se torna branco e deslumbrante. E eis que dois homens conversam com ele: são Moisés e Elias e falam de seu êxodo, que está prestes a ocorrer em Jerusalém. Enquanto isso, os três apóstolos adormeceram, cansados. Quando acordam, veem sua glória e Pedro pergunta se ele pode ficar ali para sempre. Enquanto ele está falando isso, surge uma nuvem e os discípulos ouvem uma voz que diz: Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o!" No dia seguinte, quando eles descem da montanha, uma grande multidão vem ao seu encontro. Entre eles está um homem que pede ajuda para seu filho possuído por um demônio. Jesus o liberta.

Enquanto todos estão admirados com todas as coisas, ele diz aos discípulos: "O Filho do Homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens". Seus discípulos não entendem e começam a discutir sobre quem era o maior entre eles. Jesus entende o que está acontecendo, pega uma criança, coloca-a perto dele e diz a eles: “Aquele que receber uma criança como esta por causa do meu nome, recebe a mim, e aquele que me receber recebe aquele que me enviou; com efeito, aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande”. Em seguida, o Nazareno acrescenta: “Caso alguém escandalize um desses pequeninos que creem em mim, melhor será que lhe pendurem ao pescoço uma pesada mó e seja precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! É necessário que haja escândalos, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem!.

https://media.vaticannews.va/media/audio/s1/2024/03/08/11/137762004_F137762004.mp3


Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sexta-feira, 8 de março de 2024

Quem foi São Tomás de Aquino, intelectual da Idade Média que influenciou a filosofia ocidental (1)

Tomás de Aquino entre Platão e Aristóteles, retratado em pintura de Benozzo Gozzoli, no século 15

Quem foi São Tomás de Aquino, intelectual da Idade Média que influenciou a filosofia ocidental.

Autor, Edison Veiga

Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

7 março 2024

Para especialistas contemporâneos, Tomás de Aquino (1225-1274) foi um divisor de águas do pensamento humano. Não somente da teologia, mas também da filosofia. Em plena Idade Média, o religioso ousou beber em uma fonte pagã — os textos do sábio grego Aristóteles (384 a.C. - 323 a.C.) — para buscar explicar a existência do ser humano e a própria ideia das relações com o divino.

“Tomás de Aquino foi para sua época uma luz irradiosa e inteligente, repropondo um paradigma de mundo, na passagem do mundo antigo para a escolástica”, afirma à BBC News Brasil o teólogo e filósofo André Luiz Boccato, frade dominicano e professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“Sua importância é tamanha que, depois dele, se convencionou chamar de ‘tomismo’ todo tipo de releitura em que se volta a Tomás para responder a problemas circunstanciais de outros momentos históricos.”

A escolástica — concilia a fé cristã com pensamento racional — foi o método crítico que vigorou nas universidade medievais europeias, sobretudo na última fase do período medieval. “Para a filosofia, o pensamento de Tomás de Aquino é fundamental e bem original”, pontua Boccato.

De acordo como professor, a principal contribuição de Aquino para o pensamento foi “a centralidade que ele deu à razão, enquanto perscrutadora do real, ao invés da crença e de uma concepção dualista de fé”.

“Ao colocar a razão, não a razão instrumental de hoje ou cientificista, mas a razão aberta à transcendência e a Deus, de um certo modo ele a encara como um infinito presente em toda criatura racional chamada à busca de sentido”, detalha.

“Uma segunda [contribuição] seria propriamente a acolhida e o desdobramento do pensamento de Aristóteles no ocidente cristão, com todas as suas consequências, nos vários campos do conhecimento filosófico”, ressalta o professor.

O pensamento aristotélico encontrava resistência no meio religioso — afinal, se tratava de um ilustre representante do helenismo clássico.

Também frade dominicano e conhecido por sua trajetória nos movimentos sociais progressistas, o jornalista e escritor Frei Betto compara a referência a Aristóteles nos tempos de Aquino como o mergulho na filosofia de Karl Marx (1818-1883) empenhado pelos religiosos da Teologia da Libertação, sobretudo nos anos de ditadura militar brasileira.

“O que me impressiona em São Tomás é como ousou basear sua filosofia e teologia em um filósofo pagão, Aristóteles”, comenta ele, à BBC News Brasil. “Assim como, séculos depois, a Teologia da Libertação encontraria seu instrumental de análise da realidade em Marx e [Friedrich] Engels [(1820-1895)]. Tomás teve a vantagem de beber na filosofia grega no momento em que árabes islâmicos a tornavam conhecida no Ocidente. Por isso levantou suspeitas de alguns prelados.”

Frei Betto acrescenta que “a densidade política do pensamento” de Aquino fez com que a Igreja Católica pudesse “adotar várias de suas teses revolucionárias, como o tiranicínio, a ignorância invencível, a prevalência da consciência sobre as leis”.

Para ele, foi impregnado desse pensamento que religiosos brasileiros lutaram contra o regime militar. “Foi graças ao pensamento de Tomás que, na década de 1960, um grupo de frades dominicanos do Brasil [inclusive o próprio Frei Betto] apoiou a luta armada contra a ditadura militar, o que nos valeu quatro anos de cárcere como ‘terroristas’”, justifica.

Teologia e filosofia

Boccato ressalta que Tomás de Aquino aprofundou e dialogou com “todo o pensamento aristotélico”. “A saber: metafísica, física, ética, política, estética, ciência medieval, etc.”, enumera.

Para o professor, uma terceira contribuição do pensador foi a maneira como ele aprendeu de seu mestre, Alberto Magno (1193-1280), “a positividade do conhecimento científico advindo da realidade e sua verdade própria”.

“Conseguiu distinguir a capacidade humana de conhecer a realidade em sua essência, sem desvincular da visão cristã sedimentada na criação e na fé”, afirma.

“Ele procurou construir sua teologia sobre princípios filosóficos muito sólidos, foi buscar um solo firme para a sua filosofia e buscou princípios racionais para tentar mostrar como a revelação poderia ser compreendida pelos homens”, contextualiza o filósofo, teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Segundo Moraes, “nesse sentido há uma relação muito intensa entre filosofia e teologia”, e isso faz com que a obra de Aquino “seja profundamente inovadora” quando se pensa na época em que ele viveu.

“Tanto do ponto de vista teológico como filosófico, Tomás de Aquino é um divisor de águas, um marco muito importante”, define o pesquisador de textos sagrados Thiago Maerki, associado da Hagiography Society, dos Estados Unidos.

“[Ele] pode ser considerado o maior sintetizador da relação entre fé e razão, fruto do longo caminho histórico cristão desde as origens”, afirma Boccato. “Ele distinguiu a ordem natural, a filosofia, da ordem sobrenatural, teologia, mas [o fez] unindo-as, não as separando. Hoje vivemos uma cultura das separações e divisões, de radicalizações e negação da diferença. Tomás imprime um espírito dialético à teologia na Idade Média, apresentando-se como grande mestre do diálogo e da inclusão do diferente.”

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF