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quinta-feira, 21 de março de 2024

O Papa: ver o rosto de Jesus em quem vive na miséria por causa das injustiças sociais

Mutirão Nacional - 6ª Semana Social Brasileira (Vatican News)

Francisco recorda que "desde sua primeira edição em 1991, a Semana Social Brasileira propôs-se como caminho para uma “Igreja em saída”, comprometida em derrubar os muros do descarte e da indiferença, acompanhando os mais pobres e carentes dos direitos básicos em sua luta por terra, moradia e trabalho".

Vatican News

O Papa Francisco enviou uma carta, nesta quarta-feira (20/03), aos 150 participantes do Encontro Nacional de encerramento da 6ª Semana Social Brasileira. O encontro começa nesta quarta-feira, em Brasília, e prossegue até sexta-feira, 22.

"Com o coração repleto de esperança, dirijo-me a todos os participantes na VI Semana Social Brasileira, promovida pela Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Socio-transformadora da CNBB sobre o tema “O Brasil que queremos, o Bem Viver dos Povos”. Quero assegurar-lhes minha proximidade e minhas orações pelo bom andamento do encontro e seus frutos", escreve o Papa.

Terra, casa e trabalho

Francisco recorda que "desde sua primeira edição em 1991, a Semana Social Brasileira propôs-se como caminho para uma “Igreja em saída”, comprometida em derrubar os muros do descarte e da indiferença, acompanhando os mais pobres e carentes dos direitos básicos em sua luta por terra, moradia e trabalho".

Além disso, propõe uma nova economia, mais solidária, e a revitalização dos valores democráticos que auxiliam a construir uma sociedade onde haja verdadeira participação popular nos processos decisórios da Nação. "Agradeço-lhes vivamente por este compromisso e também pela promoção, junto com a juventude do Brasil, da Economia de Clara e Francisco", ressalta ainda o Pontífice.

"Estou-lhes igualmente grato por promoverem o chamado, que dirigi aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 2014, para responder “a um anseio muito concreto, a algo que qualquer pai, qualquer mãe, deseja para os próprios filhos; um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos, com tristeza, cada vez mais distante de se tornar realidade na vida da maioria das pessoas: terra, casa e trabalho", afirma o texto.

Uma sociedade mais justa

O Papa espera "que o “Mutirão pela vida”, organicamente vinculado à Semana Social Brasileira, produza abundantes frutos em favor de uma sociedade mais justa, na qual, como diz a Campanha da Fraternidade deste ano, se vivam a fraternidade universal e a amizade social".

Francisco convida a "ver naqueles que são forçados a viver na miséria pelas injustiças sociais o rosto de Jesus que nos instiga a não permanecermos indiferentes, pois, como Ele próprio disse: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!”"

"Confiando estes votos e preces à intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil", o Papa concede de coração a sua bênção, pedindo ainda que não se esqueçam de rezar por ele.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

São Nicolau de Flue

São Nicolau de Flue (A12)
21 de março
São Nicolau de Flue

Nicolau nasceu em 1417 na cidadezinha de Flüe, Sachseln, no Cantão suíço de Obwalden, então Confederação dos oito Cantões da Suíça central. De uma família de camponeses, permaneceu analfabeto por toda a vida, e desde a juventude desejava a vida religiosa, mas ajudou o pai em serviços do campo.

Entre 1440 e 1444, teve que partir como soldado e depois como oficial, sempre com comportamento exemplar, contra o cantão de Zurique, que havia se rebelado contra a Antiga Confederação Helvética. De volta à casa e a pedido do pai, casou-se com Dorothy Wiss, filha de agricultores, num matrimônio feliz. Tiveram dez filhos, dos quais vários seguiram o sacerdócio; um dos netos, Conrado Scheuber, faleceu com fama de santidade.

Reconhecido pelo seu senso de justiça, integridade moral e retidão de consciência, foi solicitado a assumir muitos cargos públicos, como conselheiro, deputado na Dieta federal, e por nove anos juiz no seu Cantão. Recusou o cargo maior de Landamman (governador) do seu Cantão. Como pai de família, não podia dedicar-se à oração como gostaria, mas quando completou 50 anos Deus lhe concedeu as três graças que desejava: o consentimento de sua esposa e filhos para partir, a ausência da tentação de voltar e a possibilidade de viver sem beber e comer. Abandonou os cargos públicos e retirou-se para um local perto de casa, num lugar íngreme, chamado Ranft, onde construiu uma cela de tábuas (depois, transformada em capela pelos habitantes locais). Viveu ali 20 anos em oração, penitências e jejum; ia à Missa nos domingos e dias santos, sempre descalço, mesmo no gelo; dormia numa tábua usando uma pedra por travesseiro, vestia-se com roupas rudes e, de acordo com as provas de várias testemunhas ao longo do tempo, alimentava-se somente da Eucaristia, tendo saúde e boa disposição física, mental e espiritual.

Não conseguiu permanecer totalmente solitário, pois era procurado para conversas, conselhos e explicações religiosas, a todos, simples e poderosos, atendendo com caridade e boa vontade. Passou a ser conhecido carinhosamente como Irmão Klaus. Mediou com sucesso negociações que evitaram uma guerra iminente entre a Suíça e a Áustria. Em 1481, acedeu aos pedidos para intervir na Assembleia de Stans, onde conseguiu a unificação dos partidos na Confederação Suíça, impedindo uma guerra fratricida no país. Em 1482, foi chamado para resolver uma questão entre Constança e a Confederação sobre o exercício do direito em Thurgau, e novamente restabeleceu a paz. Enorme é o seu mérito em conciliar protestantes e católicos, sendo por ambos respeitado e amado.

Sua capacidade de reconciliação, inimiga de violência, guerra e conquistas ambiciosas, e também alianças comprometedoras com outras nações, muito influenciou o seu povo, e há um consenso de que, se a Suíça é um país pacífico e que raramente se envolve em conflitos mundiais, isto se deve à sua influência.

São Nicolau faleceu em sua cela de Flüe, em 1487, no dia em que completava 70 anos. Considerado um dos maiores místicos da Igreja católica, é o santo mais popular e conhecido na Suíça, de onde é padroeiro e chamado de Pai da Pátria.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

São Nicolau de Flüe só desejava a Deus – e por isso conquistou uma nação. Soube ele esperar os tempos de Deus, até alcançar o que mais queria, realizando com humildade, obediência e amor cada passo específico da vida: filho que ajudou o pai, esposo que santificou a família, militar que combateu o bom combate, agindo com humanidade mesmo no fragor das batalhas (diz-se dele que “lutava com uma espada na mão e o Rosário na outra”); bom conselheiro, da paz e da reconciliação. Este tempo de preparação e espera, ele o chamava de "lima que aperfeiçoa e aguilhão que estimula", sem revolta ou impaciência. Alcançou assim, já nesta Terra, a vida de Comunhão com Deus, no retiro e silêncio que almejava. Como Jesus, ele “fez tudo bem feito” (cf. Mc 7,37). São Nicolau rezava: “Ó meu Deus e meu Senhor, afaste de mim tudo o que me afasta de Vós. Ó meu Senhor e meu Deus, dê-me tudo o que me aproxima de Vós. Ó meu Senhor e meu Deus, livre-me do meu egoísmo e conceda-me possuir somente a Vós. Amém”. É preciso cuidado com o que queremos. Pois se realmente o desejarmos, vamos obtê-lo: seja com a ajuda de Deus, seja com a mão do diabo.

Oração:

Pai de amor e bondade, que nos desejas alimentar somente com o Pão da Vida, de modo que não nos envenenemos com as podridões mundanas, concedei-nos por intercessão de São Nicolau de Flüe fazer guerra somente contra o pecado, e desejar somente a reconciliação Convosco e a paz com os irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, e Nossa Senhora. Amém.


Fonte: https://www.a12.com/

quarta-feira, 20 de março de 2024

Bom filho, bom Padre

Bom filho, bom Padre (Opus Dei)

Bom filho, bom Padre

"Quando uma pessoa conhecida, boa e querida falece, passam pela cabeça mil lembranças diferentes". Neste texto Dom Guillaume Derville conta suas recordações de Dom Javier Echevarría, e reflete sobre a marca que ele deixou em sua vida.

12/12/2018

Quando uma pessoa conhecida, boa e querida falece, passam pela cabeça mil lembranças diferentes, como fagulhas que despertam na alma sentimentos contrastantes. Mais ainda quando se trata de um Padre que mostrou amplamente como vivia somente para nós, para levar-nos ao coração de Cristo. Em nossa alma, há uma mistura de ação de graças e de desejos de reparação pela própria falta de correspondência. A realidade da morte, do tempo que passa, se faz mais presente. E à dor de uma ausência, se une a gloriosa esperança do Céu. À oração pela alma de um cristão, soma-se o recurso a uma intercessão que se percebe mais poderosa. Assim vem sendo, em um rápido esboço, a ressonância do falecimento de Dom Javier em muitas pessoas da Obra, e em tantas outras que nos querem bem.

PERCEBE-SE, QUASE MELHOR AGORA, A SINGULARIDADE DE UMA VIDA QUE SE GASTOU DESDE A JUVENTUDE: PRIMEIRO PERTO DE SÃO JOSEMARIA, E DEPOIS DO BEM-AVENTURADO ÁLVARO.

A morte de um Padre como Dom Javier traz muitas lembranças: algumas vividas por cada um e cada uma. Outras, tantas vezes escutadas, como esses relatos de família que se contam de geração em geração. Percebe-se, quase melhor agora, a singularidade de uma vida que se gastou desde a juventude: primeiro perto de São Josemaria, e depois do Bem-aventurado Álvaro, e, finalmente, como sucessor de ambos com a memória do coração e da inteligência sempre viva, para transmitir com fidelidade o espírito recebido de Deus por meio de suas mãos. O carinho que São Josemaria mostrou desde muito cedo a Dom Javier, correspondido por uma admiração e uma obediência filiais cheias de fé na ação de Deus nos santos, fizeram de Dom Javier um filho leal e valente. Seu sentido da filiação divina passou pelo caminho da filiação ao Padre na Obra, primeiro em sua missão de atender às necessidades materiais de São Josemaria, e depois, em sua estreita colaboração com Dom Álvaro.

A entrega decidida e constante de Dom Javier como custos[1] (palavra latina para custódio), e o cumprimento fiel ad mentem Patris (com a mente do Padre) das tarefas que lhe eram confiadas, foram uma preparação intensa para seu longo ministério pastoral como Padre e Prelado do Opus Dei. Sua relação com Deus, o exemplo e a proximidade de São Josemaria e do Bem-aventurado Álvaro, abriram o coração desse filho fiel para que a graça de Deus o enchesse de caridade. Foi um bom filho e foi um bom Padre. Desvivendo-se sempre por suas filhas e filhos no Opus Dei e atento a estreitar os vínculos de nossa fraternidade sobrenatural, foi filho não só quando nosso Padre e Dom Álvaro estavam nesta terra, mas também depois. A partir da integridade de seu caráter, que saltava à vista, sentia saudades desses dois gigantes da fé e do amor, ao mesmo tempo em que se sabia sempre em sua presença. Como homem que sabia amar, e ainda hoje tão querido, palpitava no seu coração a saudade do tempo em que São Josemaria vivia entre nós.

Bom filho, bom Padre (Opus Dei)

Como Padre e Prelado queria seguir as pegadas dos seus santos predecessores, não se afastar de um caminho bem traçado, cuidar amorosamente de um espírito esculpido. Como filho, foi co-herdeiro valente de Cristo (cf. Rom 8-17): levou a Cruz, peso bendito das almas, jugo suave e carga leve (cf. Mt 11,30). Com frequência, Dom Javier dizia que era necessário apostarmos tudo na carta do Amor. Esse foi o seu grande anseio, o seu esforço constante.

REPETIRIA AQUILO QUE, ESPECIALMENTE NOS ÚLTIMOS ANOS, TINHA CHEGADO A SER UM REFRÃO NOS SEUS LÁBIOS: QUE VOS QUEIRAIS BEM, QUE VOS AMEIS CADA VEZ MAIS!

«Se aquele que chamamos Padre durante vinte e dois anos –dizia Mons. Fernando Ocáriz, atual prelado do Opus Dei, na homilia da missa por Dom Javier na basílica de Santo Eugênio–, estivesse aqui entre nós, com certeza nos pediria que aproveitássemos estes momentos para intensificar o nosso amor à Igreja e ao Papa, que permanecêssemos muito unidos entre nós e com todos os nossos irmãos em Cristo. E repetiria aquilo que, especialmente nos últimos anos, tinha chegado a ser um refrão nos seus lábios: que vos queirais bem, que vos ameis cada vez mais! E não só nos seus lábios: impressionava ver como sabia querer bem aos outros. Lembro, por exemplo, que um dia antes de falecer, expressou o seu desconforto por estar incomodando a tantas pessoas que cuidavam dele. E espontaneamente respondi: “Não, Padre. É o senhor que sustenta a todos nós”»[2].

Agora este filho bom e fiel continua nos sustentando a todos lá do Céu. Muitos notaram, desde o dia do seu falecimento, como Dom Javier os ajudava em tantos aspectos da sua vida diária, como se o Padre, que sempre teve um temperamento ativo e generoso e que tanto nos convidava a acudir à intercessão dos que nos precederam, quisesse empenhar-se para ajudar-nos a cada uma, a cada um. Talvez para agradecer aquela carta que lhe escrevemos, para responder a essa pergunta que não lhe pudemos fazer, enfim, para continuar nos mostrando a paternidade de Deus.

Por: Guillaume Derville

Tradução: Mônica Diez


[1]N.T. Um dos dois sacerdotes que sempre acompanham o Padre e o auxiliam em assuntos materiais e espirituais. Numa entrevista, Dom Javier explicava assim os custódios: Os custódios existem para que o Prelado, o Padre, não viva sozinho, não seja um homem isolado lá em cima. E, além disso, para que possam ajudá-lo a ser melhor. (https://opusdei.org/es/article/tras-la-huella-de-un-padre 18/06/2012).

[2] N.T. https://opusdei.org/pt-br/article/homilia-de-mons-fernando-ocariz-na-missa-pelo-prelado-do-opus-dei.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

EXEGESE: «A fé exige o realismo dos acontecimentos» (III)

Portal da Virgem do Batistério de Parma, obra de Benedetto Antelami (século XIII) | 30Giorni

Revista 30Dias – 06/2003

O discurso do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé por ocasião do centenário da constituição da Pontifícia Comissão Bíblica

«A fé exige o realismo dos acontecimentos»

“A opinião de que a fé como tal não sabe absolutamente nada sobre os fatos históricos e deve deixar tudo isso para os historiadores é gnosticismo”. A intervenção do Cardeal Joseph Ratzinger. prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. por ocasião do centenário da criação da Pontifícia Comissão Bíblica.

por Joseph Ratzinger

Parece-me que podem ser distinguidos dois níveis do problema, então e ainda em questão. Num primeiro nível, devemos perguntar-nos até onde se estende a dimensão puramente histórica da Bíblia e onde começa a sua especificidade que escapa à mera racionalidade histórica. Também poderia ser formulado como um problema interno ao próprio método histórico: o que ele pode realmente fazer e quais são os seus limites intrínsecos? Que outros modos de compreensão são necessários para um texto deste tipo? A laboriosa investigação a realizar pode ser comparada, em certo sentido, ao esforço exigido pelo caso Galileu. Até aquele momento parecia que a visão geocêntrica do mundo estava indissociavelmente ligada ao que era revelado pela Bíblia; parecia que aqueles que eram a favor da visão heliocêntrica do mundo estavam desintegrando o núcleo da Revelação. A relação entre a aparência externa e a mensagem real do todo teve que ser completamente revista, e só lentamente puderam ser desenvolvidos os critérios que teriam permitido a racionalidade científica e a mensagem específica da Bíblia. É claro que a tensão nunca pode ser considerada completamente resolvida, pois a fé testemunhada pela Bíblia inclui também o mundo material, afirma algo também sobre ele, sobre a sua origem e a do homem em particular. Reduzir toda a realidade que nos chega a causas puramente materiais, confinar o Espírito criativo à esfera da mera subjetividade é inconciliável com a mensagem fundamental da Bíblia. Contudo, isto envolve um debate em torno da própria natureza da verdadeira racionalidade; visto que, se uma explicação puramente materialista da realidade é apresentada como a única expressão possível da racionalidade, então a própria racionalidade é falsamente compreendida. Algo semelhante deve ser afirmado em relação à história. A princípio parecia indispensável, para a fiabilidade das Escrituras e, portanto, para a fé nela fundada, que o Pentateuco fosse indiscutivelmente atribuído a Moisés ou que os autores dos Evangelhos individuais fossem verdadeiramente aqueles nomeados pela Tradição. Também aqui foi necessário, por assim dizer, redefinir lentamente as áreas; a relação fundamental entre fé e história precisava ser repensada. Tal esclarecimento não era uma tarefa que pudesse ser feita da noite para o dia. Também aqui haverá sempre espaço para discussão. A opinião de que a fé como tal não sabe absolutamente nada sobre os factos históricos e deve deixar tudo isto para os historiadores é gnosticismo: esta opinião desencarna a fé e reduz-a a uma ideia pura. Para a fé que se baseia na Bíblia, o realismo do acontecimento é uma exigência constitutiva. Um Deus que não pode intervir na história e nela se mostrar não é o Deus da Bíblia. Portanto, a realidade do nascimento de Jesus da Virgem Maria, a própria instituição da Eucaristia por Jesus na Última Ceia, a sua ressurreição corporal dentre os mortos - este é o significado do túmulo vazio - são elementos da fé como tal, que ela pode e deve defender contra um único conhecimento histórico supostamente melhor. Que Jesus - em tudo o que é essencial - foi realmente o que os Evangelhos nos mostram não é de forma alguma uma conjectura histórica, mas um facto de fé. Objeções que querem nos convencer do contrário não são a expressão do conhecimento científico real, mas são uma superestimação arbitrária do método. Além disso, muitas questões nos seus detalhes devem permanecer abertas e ser confiadas a uma interpretação consciente das suas responsabilidades, é o que entretanto aprendemos.

Com isto surge agora o segundo nível do problema: não se trata simplesmente de fazer uma lista de elementos históricos indispensáveis ​​à fé. Trata-se de ver o que a razão pode fazer e por que a fé pode ser razoável e a razão aberta à fé. Entretanto, não só foram corrigidas as decisões da Comissão Bíblica que haviam entrado demasiado na esfera das questões puramente históricas; também aprendemos algo novo sobre os caminhos e limites do conhecimento histórico. Werner Heisenberg, no campo das ciências naturais, estabeleceu com o seu “princípio da incerteza” que o nosso conhecimento nunca reflete apenas o que é objetivo, mas é sempre também determinado pela participação do sujeito, pela perspectiva em que ele faz as perguntas e pela sua capacidade de perceber. Tudo isto, naturalmente, é válido numa medida incomparavelmente maior onde o próprio homem entra em jogo ou onde o mistério de Deus se torna perceptível. Fé e ciência, Magistério e exegese, portanto, já não se opõem como mundos fechados sobre si mesmos. A fé é em si uma forma de conhecimento. Querer deixá-lo de lado não produz mera objetividade, mas constitui a escolha de um ângulo que exclui uma perspectiva específica e não quer mais levar em conta as condições casuais do ângulo escolhido. Contudo, se percebermos que as Sagradas Escrituras vêm de Deus através de um sujeito que ainda vive – o povo peregrino de Deus – então também fica racionalmente claro que este sujeito tem algo a dizer sobre a compreensão do livro.

A Terra Prometida da liberdade é mais fascinante e multifacetada do que poderia imaginar o exegeta de 1948. As condições intrínsecas da liberdade tornaram-se evidentes. Pressupõe escuta atenta, conhecimento dos limites dos vários caminhos, plena seriedade da relação , mas também disponibilidade para se limitar e para se superar no pensar e no conviver com o sujeito que nos garante as diferentes escritas do Antigo e do Novo Aliança como obra única, a Sagrada Escritura. Estamos profundamente gratos pelas aberturas que o Concílio Vaticano II nos deu, como resultado de um longo esforço de investigação. Mas não condenamos o passado nem levianamente, mas antes vemos-no como parte necessária de um processo de conhecimento que, considerando a grandeza da Palavra revelada e os limites das nossas capacidades, nos apresentará sempre novos desafios. Mas esta é precisamente a beleza disso. E assim, cem anos depois da criação da Comissão Bíblica, apesar de todos os problemas que surgiram neste período, ainda podemos olhar, gratos e cheios de esperança, para o caminho que se abre diante de nós.

O discurso do Cardeal Ratzinger
foi proferido no Augustinianum em 29 de abril de 2003.

Fonte: https://www.30giorni.it/

A experiência do deserto e jejum quaresmal

Fiel haitiana recebe as cinzas na Igreja São Pedro em Porto Príncipe, Haiti - 17/02/2021 (EPA/Orlando Barria) (ANSA)

O tempo quaresmal é por excelência um tempo penitencial, de obras de misericórdia, jejum e mortificação. Jesus, tal como o Povo de Israel, fez a experiência do deserto, no lugar onde é tentado pelo inimigo. No deserto há sempre um grande desafio. O jejum quaresmal nos coloca no nosso próprio deserto, à mercê das tentações que nos vem ao encontro, que devemos vencer e nos desviar, mergulhando nossa vida em Deus que é nossa força.

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

“Deus não Se cansou de nós. Acolhamos a Quaresma como o tempo forte em que a sua Palavra nos é novamente dirigida: «Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão». É tempo de conversão, tempo de liberdade. O próprio Jesus, como recordamos anualmente no primeiro domingo da Quaresma, foi impelido pelo Espírito para o deserto a fim de ser posto à prova na sua liberdade (...). Ao contrário do Faraó, Deus não quer súbditos, mas filhos. O deserto é o espaço onde a nossa liberdade pode amadurecer numa decisão pessoal de não voltar a cair na escravidão. Na Quaresma, encontramos novos critérios de juízo e uma comunidade com a qual avançar por um caminho nunca percorrido. Isto comporta uma luta: assim no-lo dizem claramente o livro do Êxodo e as tentações de Jesus no deserto. (Papa Francisco)”

A Quaresma é um sinal sacramental da nossa conversão, ou seja, a graça da conversão nos é dada em diferentes níveis e intensidades. Permite-nos crescer no conhecimento do mistério de Cristo, o que significa uma graça especial na escuta fecunda da Palavra de Deus e na compreensão espiritual dela. Ou seja, um tempo forte que significa testemunhar isto com uma conduta de vida digna, recebendo a graça de traduzir o Evangelho em obras e escolhas de pensamento e de vida, o que implica uma contínua conversão e restauração da nossa personalidade cristã. "É tempo de agir e, na Quaresma, agir é também parar: parar em oração, para acolher a Palavra de Deus, e parar como o Samaritano em presença do irmão ferido", diz o Papa Francisco em sua Mensagem para a Quaresma deste ano.

Neste contexto, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe a reflexão "A experiência do deserto e jejum quaresmal":

"Joseph Ratzinger, em suas obras completas, aponta que “antes da reforma pós-conciliar, o calendário litúrgico conhecia um singular entrelaçamento dos tempos que, porém, não era mais há muito tempo compreendido e era concebido de modo muito formal e superficial. De acordo com a data mais ou menos antecipada da Páscoa, o tempo depois da Epifania deve ser diminuído ou prolongado. Os domingos que ficam interrompidos vinham, pois, mudados para o fim do Ano Litúrgico”.¹

A Constituição Sacrosanctum Concilium aponta sobre as celebrações nos mais variados tempos litúrgicos e sobretudo que o Mistério Pascal seja acentuado na Liturgia cristã, valorizando o Domingo como dia consagrado ao Senhor, de escuta da Palavra e participação da Eucaristia. Está claro essa preocupação dos padres conciliares, escrita nos números 106 e 107.

No número 105, a Constituição sobre a Liturgia descreve sobre os exercícios de piedade, afirmando assim: “Em várias épocas do ano e seguindo o uso tradicional, a Igreja completa a formação dos fiéis servindo-se de piedosas práticas corporais e espirituais, da instrução, da oração e das obras de penitência e misericórdia”. No número 109 da SC, na letra “b”, aponta a natureza própria da penitência quaresmal que detesta o pecado como ofensa feita a Deus. Vamos ao texto literal: “o mesmo se diga dos elementos penitenciais. Quanto à catequese, inculque-se nos espíritos, de par com as consequências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que é detestação do pecado por ser ofensa a Deus; nem se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitenciai, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores”.

Por isso, o Concílio delineou o período quaresmal para melhor evidenciar o itinerário que a Igreja oferece a cada cristão para que chegue renovado nas celebrações do Mistério Pascal. O Concílio deu acento à Páscoa, cuja Quaresma tem por finalidade de preparar. O caderno de número 13 – Cadernos do Concílio – em preparativa ao ano jubilar 2025, diz assim: “A reforma litúrgica especificou a finalidade, a estrutura e a duração desse período: em primeiro lugar, determinou-se que a quaresma tem por finalidade preparar a Páscoa, ou seja, conduzir à celebração do Mistério Pascal”, tanto aos catecúmenos e aqueles que renovam sua adesão ao Senhor, “mediante a lembrança do batismo e o compromisso de conversão pela penitência”(p. 14).

O tempo quaresmal é por excelência um tempo penitencial, de obras de misericórdia, jejum e mortificação. Jesus, tal como o Povo de Israel, fez a experiência do deserto, no lugar onde é tentado pelo inimigo. No deserto há sempre um grande desafio. O jejum quaresmal nos coloca no nosso próprio deserto, à mercê das tentações que nos vem ao encontro, que devemos vencer e nos desviar, mergulhando nossa vida em Deus que é nossa força. Os autores Anselm Grün e Michael Reepen, no pequeno subsídio sobre o Ano Litúrgico nos trazem uma profunda reflexão sobre o sentido do deserto em nossa caminhada preparatória à Páscoa. Dizem assim os autores: “O deserto é um lugar onde ficamos totalmente desprotegidos. Lá estamos sozinhos, frente a frente com nós mesmos, com nosso vazio interior, nosso desamparo, nossa solidão, com o imenso nada ao redor e dentro do coração. Lá topamos com nossos limites, descobrimos que não podemos nos autoajudar, que precisamos da ajuda de Deus. No deserto nos expomos sem proteção, temos sede de tanta coisa e fome do que possa preencher o que nos falta” ².

Esses dois monges escritores também falam do jejum, importante prática quaresmal: “O jejum retira o véu que encobre os nossos pensamentos e sentimentos, e assim constatamos diretamente todas as fúrias guardadas, todas as aspirações e necessidades não satisfeitas. O jejum nos mostra a verdadeira essência de nossa vida, do nosso bem-estar. Será que só ficamos bem com Deus, será que só ficamos de bom humor quando comemos e bebemos bastante?”³. A Igreja no Brasil nos propõe o jejum e a abstinência de carne na Quarta-Feira de Cinzas e na sexta-feira Santa. Mas não só. Toda a Quaresma é tempo de jejum e penitência. Mas nesses dias especiais de abstinência, banquetear-se de peixe faz perder o sentido espiritual e penitencial do jejum. É preciso ter bom senso que um peixe frito pode ser mais agradável do que uma outra carne.

A liturgia considera o jejum da Quaresma um tempo de graça. No jejum nós assumimos nossas próprias carência, renunciando às coisas que costumeiramente temos à mão, de comida e bebida, para entrar na dinâmica de conversão e entrega de nossa vida nas mãos do Senhor."

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
______________

¹ RATZINGER, Joseph. Obras completas, Volume XI, Teologia da Liturgia – Fundamento Existencial da Vida Cristã, Edições CNBB, 2019, p. 94.
² GRÜN, Anselm e REEPEN, Michael. O Ano Litúrgico – como ritmo de uma Vida plena de sentido, Vozes, Petrópolis 2013, p. 49-50.
³ Ibidem, 51.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Sermão do depósito

Sermão do depósito (ArqRio)

SERMÃO DO DEPÓSITO

Dom Anuar Battisti
Arcebispo emérito de Maringá (PR)

A Semana Santa é um período de profundo significado para os cristãos em todo o mundo. É uma época em que recordamos e celebramos os eventos centrais da fé cristã, especialmente a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Cada dia da Semana Santa é marcado por eventos específicos que nos conduzem por meio dos últimos momentos da vida terrena de Jesus. 

No contexto da Semana Santa, o Sermão do Depósito ocupa um lugar de destaque. Este sermão, geralmente proferido na segunda-feira da Semana Santa, concentra-se na condenação e prisão de Jesus Cristo. É um momento de contemplação da escuridão que envolveu o mundo no momento em que Jesus foi preso, quando seus próprios discípulos o abandonaram por medo. 

A prisão de Jesus representa o início dos eventos que culminariam em sua crucificação. É um momento de profunda tristeza e angústia, tanto para Jesus quanto para seus seguidores. É também um lembrete do sofrimento e da injustiça que Jesus enfrentou em seu caminho para a Cruz. 

O Sermão do Depósito nos convida a refletir sobre a natureza da injustiça e da opressão, tanto nos tempos de Jesus quanto nos dias de hoje. Recordamos aqueles que são perseguidos por causa de sua fé, os injustiçados e marginalizados, e todos os que sofrem nas mãos da opressão e da violência. 

Além disso, o Sermão do Depósito nos desafia a examinar nossas próprias vidas e a considerar como podemos responder ao chamado de Jesus para defender os oprimidos e trabalhar pela justiça em nosso mundo. É um lembrete poderoso de que, assim como Jesus sofreu injustamente, também somos chamados a agir em solidariedade com os que sofrem e a trabalhar pela transformação de nossa sociedade. 

Ao participarmos do Sermão do Depósito, somos convidados a refletir não apenas sobre o sofrimento de Jesus, mas também sobre o significado mais amplo de sua vida e ensinamentos. É um momento para nos comprometermos novamente com os valores do Evangelho e para renovarmos nosso compromisso de seguir a Jesus em todas as áreas de nossas vidas. 

Portanto, durante a Semana Santa, ao participarmos do Sermão do Depósito, somos desafiados a enfrentar as trevas e a injustiça em nosso mundo com coragem e determinação, confiando na promessa da ressurreição e na vitória final do amor de Deus sobre o mal e a morte.

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

O Papa: prudência, capacidade de direcionar as ações para o bem

Audiência de 20/03/2024 com o Papa Francisco (Vatican News)

"Num mundo dominado pelas aparências, pelos pensamentos superficiais, pela banalidade tanto do bem quanto do mal, a antiga lição da prudência merece ser recuperada." Este é um trecho da catequese do Papa Francisco que na Audiência Geral refletiu sobre a prudência, dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre "Vícios e virtudes".

https://youtu.be/K8fc7dB4efE

Mariangela Jaguraba – Vatican News

A catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, desta quarta-feira (20/03), realizada na Praça São Pedro, foi dedicada à virtude da prudência. O Papa saudou os fiéis e peregrinos e disse que também desta vez, devido à sua dificuldade com a voz, o monsenhor rosminiano Pierluigi Giroli, da Secretaria de Estado, iria ler o texto preparado.

"Junto com a justiça, a fortaleza e a temperança", a prudência "forma as chamadas virtudes cardeais, que não são prerrogativa exclusiva dos cristãos, mas pertencem à herança da sabedoria antiga, em particular dos filósofos gregos. Portanto, um dos temas mais interessantes no esforço de encontro e inculturação foi precisamente o das virtudes".

Segundo Francisco, "nos escritos medievais, a apresentação das virtudes não é uma simples lista de qualidades positivas da alma. Voltando aos autores clássicos à luz da revelação cristã, os teólogos imaginaram o setenário das virtudes – as três teologais e as quatro cardeais – como uma espécie de organismo vivo, onde cada virtude tem um espaço harmonioso a ocupar. Existem virtudes essenciais e virtudes acessórias, como pilares, colunas e capitéis".

A pessoa prudente é criativa

Não é a virtude da pessoa temorosa, sempre hesitante quanto à ação a tomar. Não, esta é uma interpretação errada. Não é tampouco apenas cautela.

“Dar primazia à prudência significa que a ação do homem está nas mãos da sua inteligência e da sua liberdade. A pessoa prudente é criativa: raciocina, avalia, tenta compreender a complexidade do real e não se deixa dominar pelas emoções, pela preguiça, pelas pressões das ilusões.”

De acordo com Francisco, "num mundo dominado pelas aparências, pelos pensamentos superficiais, pela banalidade tanto do bem quanto do mal, a antiga lição da prudência merece ser recuperada".

Santo Tomás, seguindo Aristóteles, chamou-a de “recta ratio agibilium”. "É a capacidade de governar as ações para direcioná-las para o bem; por isso é apelidada de o “cocheiro das virtudes”. Prudente é aquele que é capaz de escolher. Quem é prudente não escolhe ao acaso: primeiro sabe o que quer, considera as situações, procura conselhos e, com visão ampla e liberdade interior, escolhe qual o caminho a seguir. Isso não quer dizer que não possa cometer erros, afinal continuamos sempre humanos; mas pelo menos evitará grandes derrapagens."

A pessoa prudente é clarividente

Infelizmente, em todos os ambientes há quem tende a descartar os problemas com piadas superficiais ou a sempre levantar polêmicas. A prudência, por outro lado, é a qualidade de quem é chamado a governar: sabe que administrar é difícil, que há muitos pontos de vista e que é preciso tentar harmonizá-los, que se deve fazer o bem não a alguns, mas a todos.

Segundo o Papa, "a prudência também ensina que, como se costuma dizer, “o ótimo é inimigo do bem”. O zelo em demasia, de fato, pode causar desastres em algumas situações: pode destruir uma construção que precisava de gradualidade; pode gerar conflitos e incompreensões; pode até mesmo desencadear a violência".

O prudente sabe preservar a memória do passado, não porque tenha medo do futuro, mas porque sabe que a tradição é um patrimônio de sabedoria. A vida é feita de uma sobreposição contínua de coisas velhas e coisas novas, e não é bom pensar sempre que o mundo começa a partir de nós, que temos de enfrentar os problemas começando do zero. A pessoa prudente também é clarividente. Depois de decidir o objetivo a atingir, é preciso buscar todos os meios para alcançá-lo.

Santos inteligentes

O Papa recordou algumas passagens do Evangelho que nos ajudam a educar a prudência, como por exemplo: "Quem constrói a sua casa sobre a rocha é prudente e quem a constrói sobre a areia é imprudente" ou "sábias são as damas de honra que trazem óleo para as suas lâmpadas e tolas são aquelas que não o fazem". "A vida cristã é uma combinação de simplicidade e astúcia. Preparando os seus discípulos para a missão, Jesus recomenda: “Eis que Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas”.

“Como se dissesse que Deus não quer apenas que sejamos santos, ele quer que sejamos santos inteligentes, porque sem a prudência é fácil seguir o caminho errado.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

São Martinho de Braga

São Martinho de Braga )A12)
20 de março
São Martinho de Braga

Martinho nasceu na Panônia, atual Hungria, no século VI, provavelmente no ano de 518. Jovem, foi para o Oriente, onde estudou Grego e ciências eclesiásticas, com tal distinção que Santo Isidoro o chamou de ilustre na Fé e na Ciência, e São Gregório de Tours o considerava como um dos homens insuperáveis do seu tempo. Voltando ao Ocidente, continuou os estudos, em Roma e na França, tendo a oportunidade de conviver com as pessoas de maior eminência em santidade e saber da época. Em especial, visitou o túmulo de São Martinho de Tours, de quem era especialissimamente devoto.

Foi então que conheceu o rei Charrico dos suevos. Este era um povo de origem germânica que invadiu a Península Ibérica (Hispânia do Império Romano) em 409, tendo ali permanecido até 585, quando foram derrotados pelos visigodos; inicialmente ocuparam a antiga província romana da Galécia (atual norte de Portugal e Galiza), estendendo-se ao Rio Tejo, na região da Lusitânia, e sua capital era Bracara Augusta (hoje Braga). Martinho acompanhou Charrico na volta ao seu reino, em 550, e apesar de que desde 448 a Galécia abraçava o Cristianismo, ali ainda havia restos do gentilismo (isto é, paganismo) e expansão do arianismo, por causa da grande ignorância religiosa.

Martinho foi um dos principais obreiros da cristianização e do monaquismo nesta região da Península. A partir de Dume, aldeia próxima de Bracara Augusta, onde fundou um mosteiro, iniciou sua evangelização. Caso único na história da Igreja, a Diocese de Dume por ele criada incluía apenas o mosteiro, e em 556 Martinho foi seu primeiro bispo, pois o bispo de Braga, que lhe concedeu o episcopado, reconheceu sua santidade, zelo e saber.

Em 559 o arianismo já estava praticamente extinto no reino suevo. Em 569 Martinho assumiu também a Sé de Braga, que, como capital do reino e sede episcopal, ganhou importância duradoura, sendo até hoje a Sé metropolita, ou primaz, das dioceses no noroeste português. Ele fundou também, pessoalmente, a igreja e o mosteiro de São Martinho de Tours, em Cedofeita, na atual cidade do Porto, na época um importante posto militar e administrativo (num burgo de nome Cale Castrum Novum – Castelo Novo de Cale –, havia um porto, Portus Cale ou Porto de Cale, atual Ribeira às margens do Rio Douro, cujo nome deu origem ao nome Portugal; Porto foi a capital, isto é, residência real, centro administrativo e sede diocesana do final do domínio suevo).

Em 561-563 Martinho convocou o 1° Concílio de Braga, quando proibiu que se cantassem muitos dos hinos e cantos de caráter popular nas missas e celebrações; com o tempo, a música litúrgica foi sendo fixada no Cantochão (do qual deriva o Canto Gregoriano, forma musical oficial da Igreja, próprio para as celebrações litúrgicas, pois eleva com serenidade a mente e a alma a Deus, sem distrações). Em 572, houve o 2° Concílio de Braga, e nesta ocasião ele registrou: Com a ajuda da graça de Deus, nenhuma dúvida há sobre a unidade e retidão da fé nesta província”. De fato, um escrito de 580, o “Paroquial Suévico” relaciona 13 dioceses e 134 paróquias na região, embora também alguns “pagus”, paróquias arianas ou não cristãs.

São Martinho foi um profícuo e profundo escritor, abordando temas morais, teológicos, canônicos e monásticos. Além de “Escritos canônicos e litúrgicos”, outras das suas principais obras são: Aegyptiorum Patrum Sententiae (“Sentenças dos Padres Egípcios”, que traduziu e comentou), De Correctione Rusticorum (“Da Correção dos Rústicos”, livro simples e claro para a evangelização dos pagãos – não confundir com “Como Catequizar os Rudes”, de Santo Agostinho), Formula Vitae Honestae (“Fórmula da Vida Honesta”, durante séculos atribuído a Sêneca e dirigido ao rei suevo, enfatizando a Justiça aos responsáveis pelo governo), De Moribus (“Tratado dos Costumes”), De ira (“Da Ira”, comentário ao livro homônimo de Sêneca, e no mesmo espírito do ditado latino ira furor brevis est, de Horácio – “a ira é uma loucura de curta duração”), Pro Repellenda Jactantia (“Para Repelir a Jactância”), Item de Superbia (“Acerca da Soberba”), Exhortatio Humilitatis (“Exortação da Humildade”).

Importantíssima contribuição de Martinho na história da cultura e língua portuguesas foi a adoção dos atuais nomes dos dias da semana: segunda-feira, terça-feira, etc.. Até então, todas as línguas utilizavam nomes de deuses pagãos para este fim, relacionados aos astros, o que se mantém até hoje exceto no Português; na origem, Latim Lunae dies para o “dia da lua”, depois Espanhol Martes para o “dia de Marte”, Inglês Saturday para o “dia de Saturno”, etc.. Martinho utilizou uma nomenclatura escolástica, Feria ou Festa (de onde “feriado”), no caso, litúrgica: Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum, Dominica Dies, o sábado em referência ao Shabat sagrado dos judeus, que no Catolicismo foi substituído pelo “dia do Senhor (Dominus)”, o domingo. Assim a perspectiva pagã foi substituída no povo católico pela referência ao Deus Uno e Trino, o Qual nos concede o tempo. Como o 1° Concílio de Braga, quando foi feita esta substituição, era um concílio local e não de toda a Igreja, as demais línguas neolatinas permaneceram com as origens pagãs. Os mais antigos documentos em Português já trazem a mudança, uma mostra de que a partir dos suevos latinizados já houve a compreensão da maior dignidade desta nomenclatura para os fiéis católicos.

De fato, dentre os povos germânicos invasores, os suevos são reconhecidos como os de maior influência e importância para a formação de Portugal, tanto geograficamente quanto dos nomes e diversos aspectos da cultura local, bem como da sua base genética. Também São Martinho de Braga, pela sua obra de evangelização, pelos seus escritos, pelo impulso cultural do mosteiro de Dume, que cresceu por toda a Idade Média, marcou profundamente a cristianização, história e cultura da Península Ibérica, notadamente Portugal.

 São Martinho faleceu em 20 de março de 579. Escreveu seu próprio epitáfio, honrando seu patrono particular São Martinho de Tours, que termina assim: “Tendo-te seguido, ó Patrono, eu, o teu servo Martinho, igual em nome que não em mérito, repouso agora aqui na paz de Cristo”. É também conhecido como Martinho de Braga ou Martinho de Dume, Martinho Dumiense, Martinho Bracarense ou Martinho da Panônia. É considerado Apóstolo dos Suevos e principal padroeiro da arquidiocese de Braga. A sua festa litúrgica oficial, no Calendário Romano, é a 5 de dezembro, mas a 22 de outubro na diocese de Braga e 20 de março em Portugal e na igreja Ortodoxa, que também o reconhece como santo.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

A imensa obra de São Martinho de Braga é centrada na sabedoria, santidade e apostolado a partir dos mosteiros, um método extremamente eficaz de fixar a vida católica numa região, pois como centros de paz, virtudes, conhecimento, espiritualidade, atraem e enraízam a Palavra de Deus entre os povos. Durante toda a Idade Média ocidental, este foi o meio mais importante para difundir e estabelecer a Igreja nas ruínas do antigo Império Romano e no caos dos invasores bárbaros. Mas o seu zelo também deu atenção à Liturgia, já naquela época sofrendo alguns abusos; a música na Missa tem um propósito específico relacionado à oração, e não à simples manifestação de alegria, por exemplo. Um zelo semelhante certamente faria muito bem à espiritualidade do povo de Deus, nos dias atuais. Não menos importante é a sua contribuição para a nomeação, mais adequada do ponto de vista da cultura católica, dos dias da semana em Português. Algo muito interessante para ser adotado no orbe da Igreja. Pelos próprios títulos dos seus livros, que indicam suas exortações para a necessidade da humildade para vencer a soberba, a jactância e a ira, e reformular os costumes, pode-se seguir um itinerário de busca da perfeição espiritual, que é o cerne da vida humana: um exemplo a ser imitado por todos os fiéis, assim como ele se espelhou em São Martinho de Tours.

Oração:

Senhor Deus, que na Vossa infinita bondade nos concedestes o tempo, de modo a que todo dia possa ser vivido para Vós e para o bem que devemos fazer nesta vida, concedei-nos por intercessão de São Martinho de Braga conhecer e praticar com amor a Vossa Doutrina, Vossos Mandamentos e Sacramentos, que são a verdadeira fórmula pra a vida honesta que precisamos ter para corrigir os nossos rústicos pecados e então, iguais no nome de irmãos, com o Cristo, embora não iguais nos Seus méritos, repousemos infinitamente na Vossa paz. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.


Fonte: https://www.a12.com/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF