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sábado, 23 de março de 2024

Quarta pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (II)

4ª Pregação da Quaresma 2024 - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

Quarta pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

"A esperança necessita da tribulação como a chama necessita do vento para se reforçar. As razões de esperança terrenas devem morrer, uma após a outra, para que venha à tona a verdadeira razão inabalável, que é Deus."

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA”
Quarta pregação da Quaresma de 2024

Só agora, após ter assegurado o fato histórico da Ressurreição de Cristo, podemos dedicar a nossa atenção ao significado existencial da palavra de Jesus, que é o que mais nos interessa no contexto destas meditações. Comentando o episódio dos mortos ressuscitados e que apareceram em Jerusalém no momento da morte de Cristo (Mt 27,52-53), São Leão Magno escreve: “Aparecem também agora na Cidade Santa [isto é, na Igreja] os sinais da futura ressurreição e o que deve se cumprir um dia nos corpos, cumpra-se agora nos corações[6]. Há, em outras palavras, dois tipos de ressurreição: há uma ressurreição do corpo que acontecerá no último dia e há uma ressurreição do coração que deve acontecer cada dia!

A melhor maneira para descobrir o que se entende por ressurreição do coração é observar o que a ressurreição física de Jesus produziu espiritualmente na vida dos Apóstolos. Pedro inicia a sua Primeira Carta com estas elevadas palavras:

Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva, para uma herança que não se desfaz, não se estraga nem se altera, e que é reservada para vós nos céus (1Pd 1,3-4).

A ressurreição do coração, portanto, é o renascimento da esperança. Estranhamente, a palavra “esperança” está ausente na pregação de Jesus. Os Evangelhos referem muitas de suas frases sobre a fé e sobre a caridade, mas nenhuma sobre a esperança, mesmo que toda a sua pregação proclame que existe uma ressurreição dos mortos e uma vida eterna. Ao contrário, após a Páscoa, vemos literalmente explodir a ideia e o sentimento da esperança na pregação dos Apóstolos. Deus mesmo é definido “o Deus da esperança” (Rm 15,13). A explicação da ausência de frases sobre a esperança no Evangelho é simples: Cristo devia antes morrer e ressurgir. Ressurgindo, abriu a fonte da esperança; inaugurou o próprio objeto da esperança, que é uma vida com Deus além da morte.

Tentemos ver o que poderia produzir um renascimento da esperança em nossa vida espiritual. Os Atos dos Apóstolos narram o que acontece, um dia, diante da porta do templo de Jerusalém chamada “Formosa”. Ao lado dela jazia um coxo pedia esmolas. Um dia, passaram por ali Pedro e João, e sabemos o que acontece. O coxo, curado, pôs-se em pé e, finalmente, depois de quem sabe há quantos anos ali jazia abandonado, também ele cruza aquela porta e entra no templo “saltando e louvando a Deus” (At 3,1-9).

Algo de semelhante poderia acontecer também a nós, graças à esperança. Frequentemente nos encontramos também nós, espiritualmente, na posição do coxo no limiar do templo; inertes e tíbios, como que paralisados diante das dificuldades. Mas eis que a esperança divina passa ao nosso lado, trazida pela palavra de Deus, e diz também a nós, como Pedro disse ao coxo e como Jesus disse ao paralítico: “Levanta-te e anda!” (Mc 2,11). E nós nos levantamos e finalmente entramos no coração da Igreja, prontos para assumir, de novo e com alegria, as tarefas e responsabilidades que não são designadas pela Providência e pela obediência. Estes são os milagres diários da esperança. Ela é realmente uma grande taumaturga, operadora de milagres; reergue milhares de coxos e paralíticos espirituais, milhares de vezes.

O que é extraordinário na esperança é que a sua presença muda tudo, mesmo quando exteriormente não muda nada. Tenho um pequeno exemplo em minha vida. Sou uma pessoa que sente muito mais frio do que calor. Agora, na Itália, em março, no início da primavera, a temperatura, como se sabe, é mais ou menos a mesma que no fim de outubro e início de novembro. Mesmo assim, por anos notei que o frio de março me causava menos problema do que o de novembro. Perguntei-me por que, se a temperatura é a mesma, e finalmente descobri a razão. O frio de novembro é um frio sem esperança, porque se está caminhando para o inverno; o frio de março é um frio com esperança, porque se está caminhando para o verão!

  *    *    *

A Carta aos Hebreus compara a esperança a “uma âncora da alma, segura e firme”. Segura e firme porque lançada não à terra, mas no céu, não no tempo, mas na eternidade, “para além da cortina do Santuário”, diz a Carta aos Hebreus (Hb 6,18-19). Este símbolo da esperança tornou-se clássico. Mas também temos uma outra imagem da esperança – em certo sentido, oposta à precedente – isto é, a vela. Se a âncora é o que dá segurança ao barco e o mantém firme em meio às ondas do mar, a vela é o que o faz mover e avançar no mar.

De ambos os modos opera a esperança, tanto em relação ao barco, que é a Igreja, quanto ao barquinho da nossa vida. É realmente como uma vela que capta o vento e, sem barulho, transforma-o em uma força motriz que transporta o barco sobre as águas. Como a vela, nas mãos de um bom marinheiro, tem condições de aproveitar qualquer vento, donde quer que sopre, favorável ou desfavorável, para mover o barco na direção desejada, assim faz a esperança.

Antes de tudo, a esperança nos vem em auxílio ao nosso caminho pessoal de santificação. A esperança se torna, em quem a põe em prática, o próprio princípio do progresso espiritual. Ela está sempre a postos para descobrir novas “ocasiões de bem”, sempre realizáveis. Por isso, não se permite acomodar na tibieza e na acídia. A esperança é o exato oposto do que às vezes se pensa. Não é uma disposição interior bela e poética que faz sonhar e construir mundos imaginários. Ao contrário, é muito concreta e prática. Passa o seu tempo colocando-nos sempre tarefas a cumprir.

Quando, em uma determinada situação, não há absolutamente nada o que fazer – diz o filósofo Kierkegaard, em um dos seus edificantes discursos –[7], aí sim, seriam a paralisia e o desespero. Mas a esperança descobre sempre que há algo que pode ser feito para melhorar a situação: trabalhar mais, ser mais obedientes, mais humildes, mais mortificados. Quando estiver tentado em dizer a si mesmo: “Não há mais nada a fazer” (é ainda Kierkegaard quem nos fala), a esperança vem e lhe diz: “Reze!”. Você responde: “Mas eu rezei!”, e ela: “Reze ainda!”. E, mesmo que a situação se torne de tal forma dura, que não pareça haver realmente nada mais a fazer, a esperança nos indica ainda uma tarefa: resistir até o fim e não perder a paciência. Isto, evidentemente, não é possível pelos nossos esforços, mas só pela graça de Deus, que nos vem em auxílio e não nos deixa sós.

A esperança tem uma relação privilegiada, no Novo Testamento, com a paciência. É o contrário da impaciência, da pressa, do “tudo e imediatamente”. É o antídoto ao desânimo. Mantém vivo o desejo. É também uma grande pedagoga, no sentido de que não indica tudo de uma vez – tudo o que deve ou pode ser feito – mas nos põe diante de uma possibilidade por vez. Dá só “o pão de cada dia”. Distribui o esforço e permite, assim, realizá-lo.

A Escritura continuamente evidencia esta verdade: que a tribulação não tira a esperança, mas, ao contrário, aumenta-a: “A tribulação – escreve o Apóstolo – gera a perseverança, a perseverança leva a uma virtude comprovada, e a virtude comprovada desabrocha em esperança. Ora, a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5).

A esperança necessita da tribulação como a chama necessita do vento para se reforçar. As razões de esperança terrenas devem morrer, uma após a outra, para que venha à tona a verdadeira razão inabalável, que é Deus. Acontece como no lançamento de um navio. É necessário que sejam removidos os andaimes que sustentavam artificialmente o navio, quando estava em construção, e que sejam tirados um após o outro os suportes, para que possa flutuar e avançar livremente sobre a água.

A tribulação nos tira toda “amarra” e nos leva a esperar só em Deus. Conduz àquele estado de perfeição que consiste em esperar quando parece não haver esperança (Rm 4,18), isto é, em continuar a esperar confiando na palavra uma vez pronunciada por Deus, também quando toda razão humana para esperar desapareceu. Tal foi a esperança de Maria sob a cruz e, por isso, a piedade a invoca com o título de Mater Spei, mãe da esperança.

A força transformadora da esperança está maravilhosamente descrita em uma belíssima passagem de Isaías:

Até os adolescentes se afadigam e cansam,
e mesmo os jovens às vezes tropeçam!
Aqueles, porém, que esperam no Senhor, renovam suas forças,
criam asas como de águia, correm e não se afadigam,
caminham e não se cansam 
(Is 40,30-31).

O oráculo é a resposta ao lamento do povo que diz: “Do Senhor está escondido o meu caminho”. Deus não promete tirar as razões do cansaço e da exaustão, mas dá esperança. A situação permanece, de per si, a que era, mas a esperança dá a força para superá-la.

No livro do Apocalipse lemos que: “Quando viu que tinha sido lançado à terra, o dragão começou a perseguir a mulher que tinha dado à luz o menino. Mas a mulher recebeu as duas asas da grande águia e voou para o deserto” (Ap 12,13-14). Se a imagem das asas da águia se inspira, como parece claramente, no texto de Isaías, isso significa que a toda a Igreja foram dadas as grandes asas da esperança, para que com elas possa, toda vez, fugir dos ataques do mal e superar toda dificuldade. Hoje, como outrora.

Concluamos escutando, como se feita agora sobre nós, a invocação que o Apóstolo Paulo faz em favor dos fiéis de Roma ao término da sua Carta endereçada a eles:

O Deus da esperança vos encha de toda alegria e paz em vossa fé. Assim, vossa esperança abundará, pelo poder do Espírito Santo (Rm 15,13).

__________________________

Tradução de Fr. Ricardo Farias
[6] Cf. Leão Magno, Sermo 66,3: PL 54,366.
[7]Cf. Søren Kierkegaard, Gli atti dell’amore, Parte II, n. 3.

 Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

sexta-feira, 22 de março de 2024

Quarta pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (I)

4ª Pregação da Quaresma 2024 - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

Quarta pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

"A esperança necessita da tribulação como a chama necessita do vento para se reforçar. As razões de esperança terrenas devem morrer, uma após a outra, para que venha à tona a verdadeira razão inabalável, que é Deus."

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU A RESSURREIÇÃO E A VIDA”
Quarta pregação da Quaresma de 2024

Em nosso comentário aos solenes “Eu Sou” de Cristo no Evangelho de João, chegamos ao capítulo 11. Ele está todo ocupado pelo episódio da ressurreição de Lázaro. O ensinamento que João quis transmitir à Igreja com a sábia composição do capítulo pode ser resumido em três pontos:

Primeiro ponto: Jesus ressuscita o amigo Lázaro (Jo 11,1-44).

Segundo ponto: A ressurreição de Lázaro provoca a condenação de Jesus à morte (11,47-50):

Os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram então o sinédrio e discutiam: “Que vamos fazer, visto que este homem faz muitos sinais? Se o deixarmos continuar assim, todos crerão nele, e os romanos virão destruir nosso Lugar Santo e nossa nação”. Um deles, chamado Caifás, sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: “Vós não entendeis nada! Não considerais ser melhor para vós, que um só morra pelo povo e não pereça a não inteira?”.

Terceiro ponto: A morte de Jesus obterá a ressurreição de todos os que creem nele (11,51-53). O Evangelista assim comenta:

Caifás não falou isso por si mesmo, mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus haveria de morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para reconduzir à unidade os filhos de Deus dispersos. A partir desse dia decidiram matar Jesus.

Resumindo, a ressurreição de Lázaro provoca a morte de Jesus; a morte de Jesus provoca a ressurreição de quem crer nele!

*    *    *

Agora podemos nos concentrar na palavra de autorrevelação contida no contexto:

Jesus respondeu: “Teu irmão vau ressuscitar”. Marta disse: “Eu sei que ele vai ressuscitar, na ressurreição do último dia”. Então Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá (11,23-26).

“Eu sou a ressurreição!”. Perguntamo-nos: de qual ressurreição Jesus fala aqui? Marta pensa na ressurreição final. Jesus não nega esta ressurreição “do último dia”, que ele mesmo promete em outra parte (Jo 6,54), mas aqui anuncia una coisa nova: que a ressurreição começa já, desde agora, para quem crê nele. Santo Agostinho comenta: “O Senhor nos indicou uma ressurreição dos mortos que precede a ressurreição final. E não se trata de uma ressurreição como aquela de Lázaro ou do filho da viúva de Naim... que ressuscitaram para morrer uma outra vez, mas no sentido que afirma aqui: “...tem a vida eterna”[1].

Como se vê, a ideia de uma ressurreição “espiritual” e existencial, que acontece já nesta vida graças à fé, não era desconhecida na tradição cristã. A novidade interveio quando se quis fazer dela o único significado da palavra de Jesus. É conhecida a posição de Bultmann, já em grande parte superada, mas que se impunha quando eu estudava teologia. Segundo ele, a ressurreição de que fala Jesus é uma ressurreição existencial, um despertar de consciência, baseado na fé. Estamos na linha do vago “apelo à decisão” e do “decidir-se por Deus”, aos quais ele reduz quase toda a mensagem do Evangelho.

Mas João dedica dois capítulos inteiros do seu Evangelho à ressurreição real e corporal de Jesus, fornecendo algumas das informações mais detalhadas sobre ela. Para ele, portanto, não é apenas “a causa de Jesus”, isto é, a sua mensagem, que ressuscitou da morte – como alguém escreveu[2] – mas a sua pessoa!

A ressurreição atual não substitui aquela final do corpo, mas é a sua garantia. Ela não anula e não torna inútil a ressurreição de Cristo do túmulo, mas antes se funda justamente sobre ela. Jesus pode dizer “Eu sou a ressurreição”, porque ele é o Ressuscitado! A dimensão existencial depende daquela real, não a substitui.

Antes de João, foi o Apóstolo Paulo a afirmar o vínculo indissolúvel entre a fé cristã e a ressurreição real de Cristo. É sempre útil e salutar recordar as suas veementes palavras aos Coríntios:

E se Cristo não ressuscitou, é vã é a nossa pregação, e vã nossa fé. Assim também seríamos considerados falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra ele que ressuscitou Cristo, a quem, de fato, não ressuscitou, se é verdade que os mortos não ressuscitam... E se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é ilusória e ainda estais nos vossos pecados (1Cor 15,14-17).

Jesus mesmo indicara a sua ressurreição como o sinal por excelência da autenticidade da sua missão. Aos adversários que lhe pediam um sinal, ele dá uma resposta que dificilmente pode ser atribuída a outrem senão ao próprio Jesus:

Uma geração má e adúltera busca um sinal, mas nenhum sinal lhes será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. De fato, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também o Filho do Homem estará três dias e três noites no seio da terra (Mt 12,39-40).

Os seus opositores sabiam bem que Jonas não permanecera para sempre no ventre da baleia, mas que tinha saído dela após três dias.

Em uma meditação anterior, falei do pré-julgamento presente nos não crentes em relação à fé, que não é menor do que aquele que reprovam nos fiéis. Reprovam nos fiéis, de fato, em não poderem ser objetivos, a partir do momento em que a fé lhes impõe, em princípio, a conclusão a que devem chegar, sem se darem conta de que igualmente acontece com ele. Se se parte do pressuposto de que Deus não existe, que o sobrenatural não existe e que os milagres não são possíveis, também a conclusão a que se chegará é dada em princípio, por isso, literalmente, um pré-juízo.

A ressurreição de Cristo constitui o caso mais exemplar disso. Nenhum evento da antiguidade é sufragado por tantos testemunhos de primeira mão como este. Alguns deles remetem-se a personalidades do calibre intelectual de Saulo de Tarso, que anteriormente combatera ferozmente tal crença. Ele fornece um elenco detalhado de testemunhas, algumas das quais ainda em vida, que poderiam, por isso, facilmente desmenti-lo (1Cor 15,6-9).

Tira-se proveito das discordâncias acerca dos lugares e tempos das aparições, sem se dar conta de que esta coincidência não programada sobre o fato central é uma comprovação da verdade histórica deste, mais do que um desengano. Nenhuma “harmonia preestabelecida” neste caso! Antes de serem postos por escrito, os eventos da vida de Jesus foram por décadas transmitidos por via oral – e variações e adaptações marginais são típicos de toda narrativa que uma comunidade viva e em expansão faz das próprias origens, segundo os lugares e as circunstâncias. É a conclusão a que chegou a mais recente e abalizada pesquisa crítica sobre os Evangelhos[3].

De resto, não há apenas as aparições. São João Crisóstomo tem, a respeito, uma famosa página, à qual toda a investigação crítica moderna não tirou nada da sua força de convicção. Dizia, assim, em uma homilia ao povo:

Donde vem que doze homens, e ignorantes, que viviam às margens dos lagos, dos rios e no deserto, enfrentassem tal empreendimento e aqueles que talvez jamais haviam ido a uma cidade e a uma praça, se entregassem à luta contra toda a terra? Que na prisão de Cristo, depois de tantos milagres, uns fugiram, e outro, o chefe de todos eles, o negou. De onde vem que eles, enquanto Cristo vivia, não enfrentaram o ataque dos judeus, e depois de morto e sepultado, (...) armaram-se contra a terra inteira? Acaso não diriam a si mesmos: O que é isto? Não pôde salvar-se a si mesmo e nos protegerá? Enquanto vivo não socorreu a si próprio, e estender-nos-á a mão depois de morto? Enquanto viveu, não submeteu nem um só povo, e nós, proferindo seu nome, converteremos o orbe todo? Não seria desarrazoado não só agir assim, mas até mesmo pensar? É evidente que, se não o tivessem visto ressuscitado, com uma grande prova de seu poder, não se teriam aventurado a obra tão perigosa[4].

A todas estas provas, o não crente não pode opor senão a convicção de que a ressurreição dos mortos é algo de sobrenatural e o sobrenatural não existe. E o que é isto se não, justamente, um pré-juízo e um “a priori”?

Fides christianorum resurrectio Christi est, escreveu Santo Agostinho: “A fé dos cristãos é a ressurreição de Cristo. Todos acreditam que Jesus esteja morto, também os malvados o creem, mas nem todos creem que tenha ressuscitado e não somos cristãos se não cremos nisso”[5]. Este é o verdadeiro artigo com o qual “a Igreja ou está ou cai”. Nos Atos, os Apóstolos são definidos simplesmente como “testemunhas da sua ressurreição” (At 1,22;2,32). Portanto, valeria a pena refrescar a nossa fé nela, antes de celebrá-la liturgicamente em algumas semanas.

*    *    *

Tradução de Fr. Ricardo Farias

[1] Cf. Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João, 19,9.
[2] Cf. W. Marxsen, La risurrezione di Gesú di Nazareth, Bologna 1970 (ed. ingl. The Resurrection of Jesus of Nazareth, London 1970).
[3] Cf. J.D.G. Dunn, Gli albori del Cristianesimo, 3 voll., Paideia, Brescia 2006, sintetizado em seu livro Cambiare prospettiva su Gesù, Paideia, Brescia 2011.
[4] Cf. João Crisóstomo, Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios, 4,4 (PG 61,35ss).
[5] Cf. Agostinho, Enarr. in Psaslmos, 120,6.

 Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

A sabedoria dos Salmos

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A SABEDORIA DOS SALMOS

Dom Pedro Cipollini
Bispo de Santo André (SP)

Na Bíblia Sagrada existe o Livro dos Salmos. Impressiona a todos, geração após geração, este livro de oração e poesia ancestral. Nele está o que há de mais profundo das aspirações do coração humano voltado para Deus através da fé, e da constatação dos fatos que se dão na realidade do dia a adia.  

Na língua grega a palavra salmo designa um poema a ser acompanhado por instrumentos musicais. Nos salmos da bíblia está toda doutrina religiosa do Antigo Testamento, neles é possível perceber o amor de Deus pelas criaturas e o louvor verdadeiro que se exprime por um coração transformado segundo a sabedoria divina. 

O próprio Jesus fez suas orações com os salmos, ele mesmo afirmou: “Isto é o que vos dizia quando estava convosco, que deveria se cumprir tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos profetas e nos Salmos’(Lc 24,44). 

Os salmos são perpassados por uma afirmação que muitas vezes pode passar despercebida, trata-se da justiça de Deus na defesa dos pobres, como por exemplo afirma o Salmo 53, conforme se encontra na Edição da Bíblia Sagrada – Edição Pastoral: “Será que os malfeitores não percebem, eles que devoram o meu povo, como se comessem pão, e não invocam a Deus? Eles vão tremer de medo, porque Deus espalha os ossos do agressor, e ficarão envergonhados porque Deus os rejeita”. 

Nos Salmos podemos ver como a história, a profecia, a sabedoria e a lei penetraram a vida do povo, transformando-a em oração viva marcada pelas situações do dia a dia das pessoas e da coletividade. Os Salmos nos ajudam a perceber os dramas da história à luz de Deus, o qual tem a última palavra, quer queira ou não. 

Nos salmos de fato encontramos unidas orações de ação de graças e profecia ao mesmo tempo, como por exemplo no Salmo 9: “Eis que Deus sentou-se para sempre, firmou seu trono para o julgamento. Ele julga o mundo com justiça e governa os povos com retidão…Os povos caíram na cova que fizeram, no laço que ocultaram prenderam o pé. Deus apareceu fazendo justiça, apanhou o injusto em sua manobra. Que os injustos voltem ao túmulo, os povos todos que se esquecem de Deus! Pois o indigente não será esquecido para sempre, e a esperança do pobre jamais se frustrará”. 

Estas são orações que exprimem uma esperança que na verdade se realiza na história através dos séculos. Os reinos e impérios injustos, os sistemas políticos que sustentam a ganância dos poderosos e oprimem os pobres, vão à falência um atrás do outro. O salmista observa que “O injusto se gloria da própria ambição, o avarento despreza e maldiz a Deus! O injusto é soberbo, jamais se interroga. Deus não existe – é tudo o que pensa”( Salmo 10, 3-4). 

Os Salmos nos estimulam a ver a ação de Deus na defesa dos fracos e imitá-lo: “Feliz quem cuida do fraco e do indigente, Deus o salva no dia infeliz. Deus o guarda e mantém vivo, para que seja feliz na terra, e não o entrega á vontade de seus inimigos”(Salmo 41, 2-3). Nos Salmos somos estimulados a colocar em prática a lei de Deus que é a lei do amor fraterno: “A lei de Deus é perfeita, um descanso para a alma. O testemunho de Deus é firme, instrução para o ignorante. Os preceitos de Deus são retos, alegria para o coração. O mandamento de Deus é transparente, é luz para os olhos”(Salmo 19, 8-9). Se observássemos os mandamentos de Deus a Terra viveria em paz. 

E por fim os Salmos, em nossa cultura que adora o dinheiro, a fama e o poder,  nos convidam a confiar em Deus acima de tudo: “Só em Deus a minha alma repousa, porque dele vem a minha salvação. Ele é minha rocha e salvação, a minha fortaleza: jamais serei abalado”(Salmo 62, 2-3). “Porque o Senhor é meu pastor, nada me falta”(Salmo 23,1).

Fonte: https://www.cnbb.org

Dia Mundial da Água: "Água para a prosperidade e a paz"

Dia Mundial da Água (Vatican News)

A data marcada neste 22 de março reforça o apelo por gestão sustentável; novas realidades econômicas e sociais, incluindo alterações climáticas e geopolíticas, tem implicações hídricas; mais de 60% da água doce mundial flui através de fronteiras nacionais, mas progresso em acordos transfronteiriços é considerado lento.

Vatican News

Celebra-se nesta sexta-feira, 22 de março, o Dia Mundial da Água. Segundo a ONU, a data quer chamar a atenção para a importância da água doce e defender a gestão sustentável deste "bem vital e comum da humanidade".

Este ano, a data tem como foco o tema "Água para a Prosperidade e a Paz", com mensagens da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), e da Comissão Econômica da ONU para a Europa, (Unece).

Condições sociopolíticas instáveis

Segundo a Unesco, a gestão sustentável da água gera uma infinidade de benefícios para indivíduos e comunidades, incluindo saúde, segurança alimentar e energética, proteção contra riscos naturais, educação, melhoria dos padrões de vida e emprego, desenvolvimento econômico e uma variedade de serviços ecossistêmicos.

A agência defende que é através desses benefícios que a água leva à prosperidade e que a partilha equitativa desses benefícios promove a paz.

A edição de 2024 do Relatório Mundial de Desenvolvimento da Água das Nações Unidas destaca como desenvolver e manter a segurança hídrica e o acesso equitativo aos serviços de água.

De acordo com a Unesco, eventos recentes de epidemias globais e conflitos armados, enfatizaram que as condições sociopolíticas sob as quais a água é fornecida, gerenciada e usada podem mudar rapidamente.

Para a agência, a gestão da água tem de levar em conta as novas realidades econômicas e sociais, incluindo as mudanças climáticas e geopolíticas e as suas implicações nos recursos hídricos. Promover a água para a prosperidade e a paz, portanto, requer ações além do domínio hídrico.

Cooperação transfronteiriça na gestão da água

A Unece afirma que mais de 60% da água doce mundial flui através de fronteiras nacionais, como no Congo, no Danúbio, na Amazônia e no Mekong, nas bacias de lagos como o Lago Genebra ou os Grandes Lagos. A agência citou ainda as mais de 450 reservas transfronteiriças de águas subterrâneas identificadas em todo o mundo.

Com a crescente escassez de água em todo o planeta, a cooperação transfronteiriça é considerada crucial para a estabilidade regional, a prevenção de conflitos e o desenvolvimento sustentável.

Os impactos das mudanças climáticas, como as secas e as inundações, bem como a poluição e a crescente procura por água, estão colocando uma pressão crescente sobre os recursos hídricos, tanto nos países em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos, e estão entre os principais motores da dinâmica da cooperação.

No entanto, o progresso é considerado muito lento. Novos dados de um relatório conjunto da Unesco e Unece sobre a cooperação transfronteiriça no domínio da água revelam que apenas 26 dos 153 países em todo o mundo que partilham recursos hídricos têm todas as suas áreas de bacias transfronteiriças cobertas por acordos operacionais para cooperação hídrica, em comparação com 24 em 2020. Apenas 10 novos acordos transfronteiriços foram assinados no período.

Fatos relevantes

2,2 bilhões de pessoas não tinham condições para gerir com segurança a água potável em 2022.

Cerca de 80% dos empregos são dependentes da água em países de baixa renda, onde a agricultura é a principal fonte de subsistência.

72% de captação de água doce é utilizada pela agricultura.

1,4 bilhão de pessoas foram afetadas por secas entre 2002 e 2021.

Até 10% do aumento da migração global entre 1970-2000 esteve ligado a déficits de água.

Dia Mundial da Água | Brasil Escola - UOL

Doenças relacionadas com água e saneamento inadequados

Nessa data, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) recorda que todos os dias mais de mil crianças abaixo de 5 anos morrem por causa de doenças relacionadas com água e saneamento inadequados, matando mais de 1 milhão e 400 mil pessoas por ano.

A nível mundial, quase 1 bilhão de crianças (953 milhões) estão expostas a níveis elevados ou extremamente elevados de estresse hídrico. Estresse hídrico é a proporção entre a demanda total de água e os suprimentos renováveis disponíveis de águas superficiais e subterrâneas. A demanda de água inclui usos domésticos, industriais, de irrigação e pecuária. Valores mais elevados indicam maior concorrência entre os usuários.

Na Itália, estima-se que em 2022 aproximadamente 298 mil crianças foram expostas a níveis elevados ou muito elevados de estresse hídrico. No mundo, 240 milhões de crianças estão altamente expostas às inundações costeiras e 330 milhões de crianças estão altamente expostas às inundações fluviais.

Os dados revelam grandes desigualdades

Uma a cada quatro pessoas no mundo não tem água potável gerenciada de forma segura. Além disso, 2 a cada 5 pessoas ainda não têm saneamento gerenciado de maneira segura (banheiros) e 1 a cada 4 não tem instalações básicas de água (pias para lavar as mãos).

Os dados revelam grandes desigualdades, sendo que os mais pobres e os que vivem em áreas rurais têm menor probabilidade de usar um serviço básico.

Na maioria dos países, a obrigação da coleta de água continua recaindo principalmente sobre as mulheres e meninas. No âmbito global, em 2 a cada 3 famílias, as mulheres são as principais responsáveis pela coleta de água. 16% da população mundial, ou seja, 1 bilhão e 800 milhões de pessoas, coletam água de fontes situadas fora de suas casas. Desse número, 63% das mulheres são responsáveis pelo transporte de água, em relação aos 26% dos homens. Globalmente, é mais provável que as meninas busquem água do que os meninos em todas as regiões, exceto no Norte da África e na Ásia Ocidental. Na África Subsaariana, 45% da população coleta água e as mulheres têm quatro vezes mais probabilidade do que os homens de serem responsáveis pelo transporte de água.

(ONU News e Unicef)

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Santa Léia

Santa Léia (A12)
22 de março
Santa Léia

Léia viveu por volta do ano 370 em Roma, Itália. Sua família era nobre e rica, e ela recebeu ótima formação cristã, sendo muito piedosa. Jovem, casou-se, porém não teve filhos, tendo logo ficado viúva.

O costume da época seria que de novo se casasse, e teve por pretendente o cônsul romano Vécio Agorio Pretestato, prefeito da cidade. Este seria um casamento mutuamente vantajoso, com prestígio e privilégios para ambos, dada a sua nobreza e o cargo e riqueza do cônsul, ainda maior do que a da sua família.

Léia, contudo, recusou o pedido, pois sentia-se atraída para uma vida totalmente consagrada a Deus. Era amiga de outra nobre e viúva, Marcela, depois mártir, e também canonizada; Marcela conhecia São Jerônimo, que morou em Roma antes de ir para a África e a chamava de “a glória das damas romanas”. No seu palácio em Aventino (uma das sete colinas onde foi fundada a Cidade Eterna), Marcela abriu uma escola de estudo das Sagradas Escrituras e de orações para mulheres que desejavam levar uma vida ascética e austera, uma comunidade que se tornou um dos primeiros mosteiros fundados e dirigidos por Jerônimo, e da qual ela era a abadessa. Léia convivia com as irmãs da comunidade e participava das suas atividades, e, sentido-se vocacionada, tornou-se monja.

Trocou assim uma vida luxuosa por uma pequena cela, dedicando-se à oração (muitas vezes ao longo de toda a noite), jejuns, penitência e caridade. Vendeu seus ricos vestidos, doando o dinheiro aos pobres, e passou a vestir-se com um rústico hábito feito de saco. Escolhia as tarefas mais humildes no mosteiro, agindo como serviçal e escrava das irmãs. Um seu cuidado especial era praticar boas ações de forma escondida, para não receber elogios, reconhecimento ou recompensas. Assim viveu por vários anos, e por sua santidade foi eleita Madre Superiora, função que exerceu até o seu falecimento em 384.

Neste mesmo ano, faleceu seu antigo pretendente, o cônsul Vécio. Ao saber destas mortes, São Jerônimo, que a conhecera pessoalmente, e que já então vivia em Belém, escreveu uma carta às religiosas do mosteiro, que ainda dirigia à distância, carta esta a única fonte sobre a vida de Santa Léia; na missiva, ele compara a situação do cônsul, que antes, riquíssimo e vestido com finas vestes de púrpura, estava agora envolto pela escuridão, ao passo que Léia, que escolhera vestir-se com roupa de saco, estava agora revestida de luz e glória infinitas.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

O fecundo matrimônio espiritual de Santa Léia com o Senhor gerou muito mais vida do que o seu estéril casamento terreno; ela, como outros santos e santas, é a prova concreta de que a virgindade dedicada a Deus é sempre fértil, isto é, gera verdadeiramente grande quantidade de filhos para Deus. Urgente é no século atual a valorização da castidade consagrada, pessoal ou formalmente, como caminho certo de santidade. A verdadeira riqueza, a pérola a ser adquirida pelo emprego de todos os bens disponíveis (cf. Mt 13,44-46) é a prisão no serviço a Deus: a cela de Deus é a liberdade do Homem, e Santa Léia de fato vendeu o que possuía para encerrar-se no seu pequeno quarto, de onde abriu-se a ela a imensidão do Céu. A plenitude do espírito não pode nunca estar confinada na matéria, e até mesmo essa será transformada no Paraíso, como o Corpo Glorioso do Senhor, caso contrário não pode acompanhar o esplendor das almas salvas. Creio que uma observação pertinente é que São Jerônimo não explicita que Vécio era necessariamente mau, nem se diz que taxativamente fosse condenado ao inferno; mas não dedicou sua vida, como Léia, ao amor a Deus e ao próximo, e na sua morte, ao contrário do caso dela, pode-se apenas dizer com segurança que ficou nas sombras, implicando sim (e no mínimo) numa vida apagada, enquanto que ela certamente está na Luz pela santidade: sem dúvida perspectiva muito melhor e desejável, também para nós.

Oração:

Senhor Deus Todo-Poderoso, que Vos fizestes servo para nos dar o exemplo e nos salvar, concedei-nos pela intercessão de Santa Léia não buscarmos o destaque nesta vida, mas como ela, fazer o bem na quietude e discrição, revestidos da verdadeira humildade, de modo a estarmos com as vestes apropriadas para poder participar do banquete celeste que nos preparastes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora. Amém.


Fonte: https://www.a12.com/

quinta-feira, 21 de março de 2024

VOCAÇÕES NA BÍBLIA: Miquéias, o defensor da vida

Miquéias, o defensor da vida (Revista Ava Maria)

Por; Pe. Nilton Cesar Boni, cmf

Miqueias, cujo nome significa “quem como Javé”, nasceu em Moreshet-Gath, a 35 quilômetros de Jerusalém, no século VIII a.C. Era um homem do povo, criado na zona rural, e falava com simplicidade. Foi vítima das opressões. Fazia parte do reino de Judá e sua cidade era cercada por fortalezas e quartéis com numerosos soldados e oficiais para garantir a segurança do reino. Viveu num ambiente cercado por grandes proprietários de terra, altos impostos, muitos problemas sociais como roubos, trabalho escravo, prostituição e aldeias sendo saqueadas. Atuou nos reinados de Joatão, Acaz e Ezequias e era contemporâneo dos profetas Oseias e Isaías.

A definição de seu nome já nos introduz em sua missão, marcada por uma profunda experiência de Deus revelada por meio de visões. Esse profeta, imerso na realidade conflitante do povo, começa a denunciar os abusos de autoridade dos governantes, suscitando incômodo. Suas denúncias estão ligadas à dominação dos lavradores por meio de corrupção, exploração, propinas, interesses em poder, massacre dos pobres e indefesos.

Sua fé foi alimentada desde a infância em um ambiente temente a Deus e marcado pelo desejo de justiça. A esperança era o selo de sua existência e por ela se ocupou até o fim de sua vida.

Miquéias, em seus escritos, refletiu sobre as duas classes de autoridade que exercem influência direta nas pessoas. A primeira é a autoridade falsa exercida pelos governantes civis, que amam a maldade e detestam o bem, a dos líderes religiosos, que se corrompem esperando pagamento e a dos líderes morais que usam o povo para guerrear em nome da paz. A outra é a autoridade verdadeira, alimentada e administrada por Deus, que gera paz e salvação.

O mais importante na pregação de Miqueias é fazer as pessoas retornarem ao verdadeiro templo de Deus e colocá-lo no centro de sua peregrinação. É dessa forma que o pecado será exterminado e Jerusalém voltará a ser a cidade santa onde o amor brilhará. “Já te foi dito, ó homem, o que convém, o que o Senhor reclama de ti: que pratiques a justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus” (Mq 6,8).

A promessa que Javé faz a Miqueias é reaver o seu povo perdido moralmente e explorado pelos poderosos. A bondade de Deus em proteger seu povo é marca nesse profeta. O amor e a fraternidade é que estabelecem vínculos de paz e intimidade com Deus e o próximo, por isso, é direito que todos tenham a dignidade assegurada pelos líderes civis e religiosos.

Miqueias propõe a formação de uma consciência moral reta que assegura os valores éticos fundamentais, sustentando a comunidade humana e transformando-a num espaço de encontro e paz. É preciso reeducar ética e religiosamente a sociedade que prioriza o ter sobre o ser, restaurando o indivíduo para um mundo melhor onde a liberdade e a responsabilidade sejam marcas de seu compromisso com o Reino de Deus. Nesse sentido, podemos colocar em prática os desejos de Deus para que a vida tenha sentido e o bem prevaleça. Só o amor transfigurante do Senhor pode dar ao ser humano a resposta para cumprir sua missão de ser filho amado e escolhido.

Pe. Nilton Cesar Boni, cmf

Fonte: Revista Ave Maria - Março/2024, páginas 8 e 9 (https://revistaavemaria.com.br/)

Reflexões ao final da Quaresma: rumo à conversão

Quaresma: tempo de reflexão (Revista Ave Maria)

REFLEXÕES AO FINAL DA QUARESMA: RUMO À CONVERSÃO

Dom Jailton Oliveira Lino
Bispo de Teixeira de Freitas/Caravelas (BA)

À medida que nos aproximamos do término da Quaresma e nos preparamos para entrar na Semana Santa, é essencial que mergulhemos profundamente em nossa jornada espiritual, buscando a verdadeira conversão do coração. Durante este tempo sagrado, somos chamados a refletir sobre nossas ações, a praticar a penitência e a intensificar nossa vida de oração. Nesse contexto, a Palavra de Deus, expressa na Sagrada Escritura, nos orienta e nos inspira a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo. 

Uma passagem que ressoa profundamente com o tema da conversão é encontrada no livro de Isaías, no Antigo Testamento. Em Isaías 55,7, lemos: “Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos; volte-se ao Senhor, que terá misericórdia dele; e para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar.” Esta passagem nos lembra da importância de abandonar nossos maus caminhos e nos voltarmos para Deus, que está sempre pronto para nos perdoar e nos acolher de volta em seu amor. 

Outro texto que ilustra a necessidade da conversão é encontrado nas palavras de Jesus, registradas no Evangelho de Lucas 13,3: “Se, porém, não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis.” Aqui, Jesus nos adverte sobre a urgência do arrependimento e da mudança de coração. Ele nos convida a deixar para trás nossos pecados e a nos voltarmos para Deus, pois somente assim encontraremos a vida verdadeira e eterna. 

Além disso, as cartas de São Paulo também oferecem valiosas reflexões sobre o tema da conversão. Em Romanos 12,2, São Paulo nos exorta: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Essas palavras nos lembram da importância de nos afastarmos das influências do mundo e de nos renovarmos em Cristo, buscando viver de acordo com a vontade de Deus. 

Diante dessas passagens bíblicas e de tantas outras que poderíamos citar, somos desafiados a refletir sobre nossa própria jornada de fé durante este tempo de Quaresma. Que possamos nos arrepender de nossos pecados, nos voltarmos para Deus em oração e buscar viver de acordo com seus ensinamentos, para que possamos experimentar verdadeiramente a transformação que Ele deseja operar em nossas vidas. 

Que a luz da ressurreição de Cristo brilhe sobre nós neste tempo sagrado, guiando-nos no caminho da verdadeira conversão e da plenitude da vida.

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF