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domingo, 24 de março de 2024

Quinta Pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (I)

5ª Pregação da Quaresma - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

Quinta Pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

Que, nesta Páscoa, o Senhor ressuscitado faça, ele mesmo, ressoar em nosso coração algum daqueles seus divinos “Eu Sou”, sobre os quais meditamos nesta Quaresma! Principalmente aquele que proclama a sua vitória pascal: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá".

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA”
Quinta Pregação da Quaresma de 2024

Em nosso itinerário em meio ao Quarto Evangelho, à descoberta de quem é Jesus para nós, chegamos à última etapa. Entramos naqueles que se costuma definir “os discursos de adeus” de Jesus e aos seus apóstolos. Desta vez, não tento nem mesmo fazer um resumo do contexto e trazer à luz as diversas unidades e subdivisões. Seria como querer traçar quadros e distinguir setores em uma lava fundida que desce da cratera. Por isso, vamos diretamente à palavra que queremos captar nesta meditação:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, porque vou preparar-vos um lugar. E depois que eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também. E para onde eu vou, sabeis o caminho”. Tomé disse: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?”. Jesus respondeu: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,2-6).

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”: palavras que apenas uma pessoa no mundo poderia pronunciar e pronunciou de fato. Cristo é o caminho e é a meta da viagem. Como Verbo eterno do Pai, é a verdade e a vida; como Verbo feito carne, é o caminho.

Tivemos ocasião para contemplar Cristo como Vida, comentando a sua palavra “Eu sou o pão da vida”, como Verdade comentando outra sua palavra “Eu sou a luz do mundo”. Concentremo-nos, por isso, em Cristo Caminho. Após ter contemplado Cristo como dom, temos a ocasião para contemplá-lo como modelo. “Como – escreve Kierkegaard – a Idade Média se desviara sempre mais ao acentuar o lado de Cristo como modelo, Lutero acentuou o outro lado, afirmando que ele é dom e que este dom, compete à fé aceita-lo”. Mas agora – acrescentava o mesmo autor – deve-se insistir também em Cristo modelo, se não quisermos que a doutrina sobre a fé se resuma a uma folha de figo que cubra as omissões mais anticristãs[1].

Jesus continua a dizer àqueles que encontra – isto é, a nós, neste momento – o que dizia aos apóstolos e àqueles que encontrava durante a sua vida terrena: “Vinde após mim”, ou mesmo ao simples “Segue-me!”. O seguimento (em grego, acolouthia) de Cristo, é um tema ilimitado. Sobre ele, foi escrito o livro mais amado e mais lido na Igreja, após a Bíblia, ou seja, a Imitação de Cristo. Limita-nos em dizer sobre ele o tanto que nos serve para passar a algumas aplicações práticas, sempre de caráter espiritual e pessoal, como nos determinamos nestas meditações.

O tema do seguimento de Cristo ocupa um lugar relevante no IV Evangelho. Seguir Jesus é quase sinônimo de crer nele. Crer, contudo, é uma atitude da mente e da vontade; a imagem do “caminho” e do “caminhar” evidencia um aspecto importante do crer, que é o “caminhar”, isto é, o dinamismo que deve caracterizar a vida do cristão e a repercussão que a fé deve ter na conduta de vida. O seguimento – ao contrário da fé e do amor – não indica apenas uma atitude particular da mente e do coração, mas delineia ao discípulo um programa de vida que implica um compartilhamento total: do modo de viver, do destino e da missão do Senhor.

*    *    *

Com a relevância dada ao episódio da lavagem dos pés, João quis sublinhar um âmbito particular e prioritário do seguimento de Cristo, o do serviço (Jo 13,12-15). Mas não falarei do serviço. A este tema, dediquei a última pregação da Quaresma passada, e não é o caso de me repetir. Também porque creio ser o menos qualificado para falar de serviço, tendo exercido, em minha vida, quase que apenas “o serviço da Palavra” que, por mais importante que seja, é também relativamente fácil e mais gratificante do que muitos outros serviços na Igreja.

Gostaria mais de falar do que caracteriza o seguimento de Cristo e o distingue de todo outro tipo de seguimento. De um artista, de um filósofo, de um letrado, diz-se que se formou na escola deste ou daquele renomado mestre. Também de nós, religiosos, diz-se que nos formamos na escola, de Bento, de Domingos, de Francisco, de Inácio de Loyola e de outros homens ou mulheres. Mas, entre este seguimento e o de Cristo há uma diferença essencial. Ela é expressa, como melhor não se poderia fazer, pelas palavras do próprio João, no final do Prólogo do seu Evangelho: “A Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1,17).

Para nós, religiosos, isto significa: a regra nos foi dada por meio do nosso Fundador ou Fundadora, mas a graça e a força para colocá-la em prática só nos vêm de Jesus Cristo. Para nós e para todos os cristãos, do mesmo modo, esta palavra significa também uma outra coisa, ainda mais radical: o Evangelho nos foi dado pelo Jesus terreno, mas a capacidade de observá-lo e pô-lo em prática só nos vem de Cristo ressuscitado, mediante o seu Espírito!

A respeito, Santo Tomás de Aquino escreveu palavras que, nos lábios de um doutor menos fidedigno do que ele, deixar-nos-iam perplexos. Comentando a frase paulina “a letra mata, mas o Espírito faz viver” (2Cor 3,6), ele escreve: “Por letra, entende-se toda lei escrita que permanece fora do homem, mesmo os preceitos morais contidos no Evangelho; por isso, também a letra do Evangelho mataria, se não fosse acrescentada a graça da fé que cura”[2].E pouco antes disse explicitamente que “a graça que nos cura” não é outra coisa senão “a mesma graça do Espírito Santo que dada aos crentes”[3]. Entendera-o por experiência pessoal Santo Agostinho e, por isso, inventou aquela sua extraordinária oração: “Senhor, tu me ordenas ser casto. Pois bem, dá-me o que me ordenas e de pois ordena-me o que quiseres”[4].

Eis porque boa parte dos discursos de Jesus na última ceia tem por assunto o Espírito Paráclito que ele enviaria sobre os apóstolos. Recordemos algumas das promessas a respeito:

Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas não sois capazes de suportá-las agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, então ele vos guiará a toda a verdade. Ele não falará de si mesmo, mas dirá tudo quanto tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu, para vo-lo anunciar (16,12-14).

Se Jesus é “o Caminho” (em grego, odòs), o Espírito Santo é “o Guia” (em grego, odegòs, ou odegìa). Assim já o definia São Gregório de Nissa[5], e assim o invoca a Igreja Latina no Veni Creator. Os dois versículos “Ductore sic te praevio – vitemus omne noxium”, de fato significam, “assim guiados (ductor) por Vós evitaremos todo mal”.

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Entre as várias funções que Jesus atribui ao Paráclito nesta sua obra em nosso favor, aquela sobre a qual queremos nos deter é a de Sugeridor: “Ora, o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (14,26). “Ele vos recordará”: a Vulgata Latina traduzia com ipse suggeret vobis: ele vos sugerirá.

O sugeridor, no teatro, está escondido dentro de uma cavidade e está invisível ao público: justamente como o Espírito Santo que ilumina tudo, permanecendo ele invisível e, por assim dizer, nos bastidores. O sugeridor pronuncia as palavras em voz baixa para não ser ouvido pelo público, e também o Espírito fala “em baixa voz”, suavemente. Contudo, diferente dos sugeridores humanos, ele não fala aos ouvidos, mas ao coração; não sugere mecanicamente as palavras do Evangelho, como de um roteiro, mas as explica, adapta, aplica às situações.

Estamos falando, naturalmente, das “inspirações do Espírito”, as chamadas “boas inspirações”. A fidelidade às inspirações é o caminho mais breve e seguro à santidade. Não sabemos em princípio qual é concretamente a santidade que Deus quer de cada um de nós; só Deus a conhece e no-la desvela à medida que o caminho prossegue. Não basta, por isso, ter um programa de perfeição bem claro, para assim realizá-lo progressivamente. Não há um modelo de perfeição idêntico para todos. Deus não faz os santos em série, não ama a clonagem. Cada santo é uma invenção inédita do Espírito. Deus pode pedir a alguém o contrário do que pede a outro. A consequência, daí, é que para alcançar a santidade, o homem não pode se limitar em seguir regras gerais que valem para todos. Deve também entender o que Deus lhe pede, e somente a ele.

Ora, o que Deus quer de diverso e particular de cada um, descobre-se mediante os acontecimentos da vida, a palavra da Escritura, a guia do diretor espiritual, mas o meio principal e ordinário são as inspirações da graça. Estas são solicitações interiores do Espírito no profundo do coração, perlas quais Deus não só dá a conhecer o que deseja de nós, mas dá a força necessária e, frequentemente, também a alegria para cumpri-lo, se a pessoa consentir.

Pensemos no que teria acontecido se Madre Teresa de Calcutá se obstinasse em observar as regras canônicas então vigentes nos institutos religiosos. Até a idade de 36 anos, ela era uma irmã de uma congregação religiosa, certamente fiel à sua vocação e dedicada ao seu trabalho, mas nada que fizesse prever nela algo de extraordinário. Foi durante uma viagem de trem de Calcutá a Darjeeling para seu retiro espiritual anual que aconteceu o fato que mudou a sua vida. O Espírito Santo lhe “sussurrou” ao ouvido do coração um claro convite: deixa a tua ordem, a tua vida precedente, e põe-te à minha disposição para uma obra que te indicarei. Entre as filhas de Madre Teresa, este dia – 10 de setembro de 1946 – é recordado com o nome de “Dia da Inspiração”.

Quando se trata de decisões de importância para nós mesmos ou para outros, a inspiração deve ser submetida e confirmada pela autoridade, ou pelo próprio padre espiritual. Assim fez, de fato, Madre Teresa. Nós nos expomos ao perigo se nos confiarmos unicamente à nossa própria inspiração pessoal.

As boas inspirações têm algo em comum com a inspiração bíblica, à parte, naturalmente, a autoridade e o alcance que são essencialmente diversos. “Deus disse a Abraão...”, “O Senhor falou a Moisés”: este falar do Senhor não era, do ponto de vista da fenomenologia, algo de diverso do que aconteceu nas inspirações da graça. A voz de Deus, também no Sinai, não ressoava ao exterior, mas dentro do coração sob forma de clareza, de impulsos, originados pelo Espírito Santo. Os dez mandamentos não foram inscritos pelo dedo de Deus em tábuas de pedra (é-nos difícil até de imaginá-lo!), mas no coração de Moisés, que depois inscreveu em tábuas de pedra. “Foi sob o impulso do Espírito Santo que alguns falaram da parte de Deus (2Pd 1,21); eram eles a falar, mas movidos pelo Espírito Santo; repetiam com a boca o que escutavam no coração. Deus, diz o profeta Jeremias, grava a sua lei nos corações (Jr 31,33).

Toda fidelidade a uma inspiração é recompensada por inspirações sempre mais frequentes e mais fortes. É como se a alma se exercitasse para chegar a uma percepção sempre mais clara da vontade de Deus e a uma maior facilidade ao cumpri-la.

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Tradução Fr. Ricardo Farias, OFMCap

[1] Cf. Diário, X 1 A 154.
[2] Cf. Tomás de Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q. 106, a. 2.
[3] Cf. Ibid., q. 106, a. 1; cf. Agostinho, De Spiritu et littera, 21, 36.
[4] Cf. Agostinho, Confissões, X, 29.
[5] Cf. Gregório de Nissa, De fide (PG, 45, 141C).

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt.html

Santa Catarina da Suécia

Santa Catarina da Suécia (A12)
24 de março
Santa Catarina da Suécia

Caterina nasceu em Vadstena, Östergötland, na Suécia, no ano de 1331. Foi a sexta de oito filhos de Santa Brígida da Suécia e Ulf Ulphon, Príncipe da Nerícia na Suécia, parentes da família real sueca, tendo assim um lar nobre, rico e, principalmente, intensamente cristão, com a mãe santa e o pai piedoso.

Com sete anos, ela e sua irmã Ingeborg foram confiadas ao mosteiro cisterciense de Riseberg, pois sua mãe fôra convocada pela Corte sueca como governanta de Bianca de Namur, jovem noiva do rei Magnus Eriksson. Nesta abadia, as irmãs a instruíram e desenvolveram sua natural vocação religiosa, já preparada por Santa Brígida.

Cedo o diabo a perseguiu. Numa noite, tomando a forma de um touro, jogou-a com os chifres para fora da cama, tentando matá-la. Os gritos de Catarina atraíram a abadessa, à qual o demônio apareceu dizendo: "Com que gosto eu teria acabado com ela, se Deus me tivesse dado licença".

Quando Santa Brígida deixou Estocolmo, anos mais tarde, em peregrinação com o marido, Catarina e Cecília, sua irmã, foram transferidas ao convento dominicano de Skenninge, para prosseguir nos estudos. Com 14 anos terminou sua formação, e seu pai, voltando de Santiago de Compostela com a esposa, desejou que a filha se casasse com um nobre de grande virtude, Edgar von Kyren. Catarina aceitou por obediência, mas, de comum acordo, os esposos mantiveram a castidade, numa vida de oração, jejuns e penitências. Mais tarde, Edgar ficou doente e paralítico, sendo cuidado por ela.

Em 1349 morreu o pai de Catarina, e Brígida dedicou-se totalmente à vida religiosa. Iniciou com uma peregrinação a Roma, para visitar os túmulos dos Apóstolos obtendo indulgências. Com a autorização de Edgar, Catarina foi com ela. Estando as duas em Roma, faleceu também Edgar. Brígida então a convidou a permanecer na Itália.

O diabo começou a tentá-la, de modo a que sua estadia em Roma parecesse aborrecida, e começou a desejar a volta para a Suécia, sentindo solidão e depressão; vivia triste e emagreceu. Sua mãe e seu confessor a aconselharam a ficar. Mãe e filha recorreram a Nossa Senhora para ter um esclarecimento, e a Virgem lhe apareceu em sonho, com ar severo, repreendendo-a por querer desistir da sua missão e voltar à Suécia onde havia perigos para a sua alma. Ao acordar, Catarina correu a Santa Brígida, prometendo não abandoná-la mais.

Catarina, muito bela, teve que evitar muitos pretendentes inoportunos após a morte de Edgar. Um deles chegou a tentar raptá-la, mas foi distraído por um cervo, e ficou cego; recuperou a visão ao pedir perdão de joelhos a Catarina. Por isso as representações de Santa Catarina a mostram com um cervo próximo.

Brígida e Catarina tornaram-se religiosas e passaram a morar numa casa perto do Campo dei Fiori, vivendo em extrema pobreza, por mais de 20 anos, numa rotina de orações, visitas aos pobres e doentes e peregrinações, muitas vezes passando por perigos. Ambas fundaram o mosteiro de Vadstena, onde criaram a Ordem de São Salvador. Santa Brígida foi abadessa e as freiras passaram a ser chamadas de brigidinas.

Na volta de uma peregrinação à Terra Santa, Santa Brígida faleceu em Roma, e Catarina levou seu corpo para a Suécia. Desde então Catarina foi aclamada como abadessa de Vadstena. E como inúmeros milagres começassem a ocorrer pela intercessão de Santa Brígida, as autoridade religiosas e reais da Suécia lhe pediram para advogar em Roma a canonização da mãe. Ficou na Cidade Eterna cinco anos, morando num convento, mas com a morte do Papa Gregório XI e o cisma provocado pela ascensão de Urbano VI, a causa pouco progrediu. Mas lá Catarina operou grandes milagres, como a conversão de uma dama de má vida e ao impedir que o rio Tibre trasbordasse.

Voltando à Suécia, Catarina rezou por um dos acompanhantes que, caindo do carro, teve a perna esmagada por uma das rodas, e com o toque da sua mão ele ficou imediatamente curado. Na chegada ao mosteiro, viu um operário cair de um edifício e, novamente, após rezar e tocar nele com a mão, aconteceu a cura imediata.

Quando da sua volta, Catarina já estava doente, e sua saúde apenas piorou. Ela faleceu em 24 de março de 1381, com pouco mais de 50 anos, no convento de Vadstena. Deixou escrito um trabalho intitulado “Consolação da Alma”. É a santa mais conhecida e venerada na Suécia.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

Conta-se que as águas do Tibre se acalmaram ao contato com os pés de Santa Catarina, e foi pelo toque de suas mãos, precedidas de oração, que se curaram fraturas. Os milagres de restabelecimento e consolidação das almas quebradas é sempre um toque da mão do Senhor, que nos afaga no Seu amor cicatrizante. E mais: também aos pés de Cristo, firmados para nós na Cruz, devem sossegar nossas almas, para que delas só transborde amor, e o curso de nossa alma siga como o do Jordão, batizado pela imersão de Cristo. Nisto imitaremos as virtudes de Santa Catarina, que tanto bem fez ao próximo porque quis peregrinar a vida inteira na busca da santidade. Como ela seguiu fielmente Santa Brígida, também nós devemos seguir a Mãe; e como ela advogou pela canonização materna, devemos nós lutar pela santidade pessoal, para que seja reconhecida não talvez pelos homens, mas por Deus. Uma santa família costuma gerar santos. Assim foi com Santa Brígida, que de berço foi conduzida a Deus pela bem-aventurança caseira, e que, certamente, gerou muitos filhos espirituais para o Pai. É este tipo de origem, de gênese, que desde o princípio a Trindade desejou que o ser humano chegasse à plena revelação, apocalipse, do Seu infinito amor, e é no lar da Igreja que todos os irmãos devem crescer para poder chegar à morada Celeste e definitiva.

Oração:

Ó Deus, que desejais a nossa santidade, segurança e salvação, concedei-nos pelo exemplo e pela intercessão de Santa Catarina da Suécia a santificação das nossas famílias, e a humildade e determinação de ouvir a Vossa Igreja e fugir dos chifres da tentação, com que o diabo, explícita ou sutilmente, nos ataca para nos afastar do Caminho, Verdade e Vida que é Jesus, e nos matar a alma. Pelo mesmo Cristo Senhor Nosso, Vosso Filho, e Nossa Senhora. Amém.


Fonte: https://www.a12.com/

sábado, 23 de março de 2024

O desafio do “nós”

O desafio do "nós" (Opus Dei)

O desafio do “nós”

O Papa convida-nos a sermos construtores de novos vínculos sociais. Para isso é imprescindível, além de pregar o Evangelho, procurar ser pessoalmente um autêntico testemunho de caridade cristã.

25/03/2021

“Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14), disse Jesus em um de seus primeiros discursos, do alto de um monte. Era um desafio ambicioso para os seus ouvintes, que dificilmente teriam se ausentado da Palestina alguma vez e que, em muitos aspectos, não eram melhores do que outros povos dos arredores. Como podiam iluminar o mundo inteiro? O Papa Francisco recordou também certa vez que nós batizados somos chamados a ser no mundo um “evangelho vivo”, a temperar todos os ambientes com “uma vida santa”, com “o testemunho de uma caridade genuína”[1]. A sua proposta ganha em nossos dias uma relevância especial ao considerar que os cristãos, em alguns lugares do mundo, são uma imensa minoria, como acontecia nos primeiros tempos da Igreja: para muitos homens e mulheres do século XXI, a relação com um católico que pratica a sua fé será às vezes a única oportunidade de aproximar-se do Evangelho. Isto implica uma enorme oportunidade. Contamos, além disso, com uma garantia: a luz que aspiramos transmitir a outros não é nossa, mas de Deus.

Essa luz tem certamente a ver com o conteúdo de uma mensagem que gostaríamos de estender no mundo; mas também – e isso não é menos importante – com o meio que a transmite e com o modo de fazê-lo. Os dois aspectos estão intrinsicamente unidos, um influi no outro: nossa condição de discípulos de Jesus manifesta-se ao mesmo tempo no quê e no como. Não ignoramos que o cristianismo não é puro conhecimento, não consiste num saber teórico nem numa soma de leituras: é, sobretudo, um modo de estar no mundo e de relacionar-se com os outros que tem origem no encontro com Jesus Cristo. Implica um empenho prático que, quando surge desse diálogo interior com Deus, acaba por interpelar as pessoas próximas. São Josemaria resumiu-o em um dos pontos iniciais de Caminho: “Oxalá fossem tais o teu porte e a tua conversação que todos pudessem dizer ao ver-te ou ouvir-te falar: Este lê a vida de Jesus Cristo”[2].

Por isso, a formação cristã não visa uma simples erudição doutrinal, e sim levar-nos à identificação com Jesus. Estenderemos assim a boa nova através de nossas palavras e especialmente com a nossa própria vida, como o próprio Jesus fez. Este modo de estar no mundo não se opõe à convivência com os outros, inclusive logicamente, os que podem estar mais longe. A proposta de Jesus é magnânima, e mesmo revolucionária, representa uma das grandes novidades do Evangelho: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam” (Lc 6, 27-29). É sempre possível olhar para essa mensagem e examinar até que ponto a tornamos nossa.

A diferença é um presente

Todos nós somos diferentes. Distinguimo-nos no aspecto físico, na voz, na forma de pensar, no modo de interpretar a liberdade, nas soluções que propomos para os conflitos da existência, e mesmo no modo de entender a humanidade ou a própria vida. Diante dessa realidade, a nossa atitude não é simplesmente tolerar a diferença, resignar-se com ela, aceitá-la como se fosse um mal inevitável. A diversidade foi querida por Deus e, portanto, é uma riqueza, uma manifestação da sua infinitude. As diferenças formam parte da grandeza da criação, podemos e devemos beneficiar-nos delas. Amando os outros como são, nós os amamos como Deus os ama. Ouvimos dizer tantas vezes que o amor de Deus é incondicional, que talvez o alcance desse adjetivo tenha se diluído um pouco. Trata-se, no entanto, de um desafio decisivo: o amor de Deus supera e ultrapassa todas as nossas condições, por muito razoáveis que nos pareçam. Converte-se por isso também num desafio, numa chamada para que amemos incondicionalmente, sem preconceitos, sem antecedentes, sem exceções, sem nenhum tipo de inércia.

Esse esforço levar-nos-á a evitar o risco de passar sutilmente do “sou diferente” ao “sou melhor”, a afastar a tentação de converter-nos em critério para medir os outros, perigo frequente em qualquer tipo de grupo humano, desde um círculo de amigos até uma nação inteira. Esse “sou o melhor” pode induzir a uma certa superioridade moral que aumenta a distância entre as pessoas até criar, às vezes, fronteiras intransponíveis. São Josemaria, pelo contrário, pensando no espírito do Opus Dei, pregou sempre que “a missão sobrenatural que recebemos não nos leva a distinguir-nos e a separar-nos dos outros; leva-nos a unir-nos a todos, porque somos iguais aos outros cidadãos da nossa pátria”[3]. Além disso, é sempre possível descobrir no próximo qualidades que o tornam melhor que nós. “São Tomás de Aquino, uma das mentes mais prodigiosas da história da humanidade, disse-o claramente: ‘Em qualquer homem existe algum aspecto pelo qual outros podem considerá-lo superior’. Há sempre alguém que de algum modo nos supera e de quem podemos aprender”[4].

Decidir-se a procurar o outro

Os algoritmos das redes sociais – a fórmula que seleciona a informação que recebemos – geram uma tendência a procurar, promover, compartilhar e consumir somente notícias, comentários ou interpretações que reforçam as nossas próprias ideias. Isto pode levar-nos muitas vezes a subestimar ou ignorar opções alternativas ou experiências diferentes da nossa. O Papa Francisco advertiu-nos contra este perigo: “O funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios”[5].

É sempre mais cômodo receber permanentemente confirmações do que pensamos. A inércia afasta-nos das dúvidas em questões opináveis, extingue o bom espírito crítico. As conversas difíceis custam a todos, nem sempre ficamos à vontade quando abandonamos a segurança do conhecido. Por isso, o caminho para encontrar o outro requer uma decisão pessoal, uma atitude proativa. Procurar juntos a verdade através do diálogo, do conhecimento mútuo, “É um caminho perseverante, feito também de silêncios e sofrimentos, capaz de recolher pacientemente a vasta experiência das pessoas e dos povos”[6].

Nesse diálogo, nós, cristãos, sabemos bem que não se trata de mudar a mensagem de Cristo nem de compará-la retoricamente com outras propostas em busca de um ponto médio conciliador. Constituiria uma armadilha colocar o quê e o como frente a frente numa luta teórica. Nós cristãos queremos viver a mensagem de Cristo em sua integridade, adquirir um novo modo de ser: esta é uma premissa substancial da nossa missão. Por isso estamos abertos a conhecer, valorizar e aproveitar a experiência dos outros.

Esta aspiração pode complicar-se quando as pessoas que pensam de modo diferente adotam uma postura hostil. O desenlace da vida terrena de Jesus pode ser um espelho para nós quando as dúvidas nos inquietarem. Descobriremos em sua paixão e morte que essa incompreensão não deveria preocupar-nos muito. A assimetria que o cristão assume ao conviver assim, tendo a cruz como o ponto de partida da sua vida, encarna o discurso do Senhor sobre o amor aos inimigos. Mais ainda, essa desproporção no trato com os outros pode ser uma manifestação específica do cristianismo. Com palavras do próprio Jesus: “Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem também os pecadores” (cfr. Lc 6, 32-33). Podemos aplicar isso também aos que nos compreendem – ou que nós compreendemos – menos e às pessoas cujo trato pode ser para nós um pouco mais difícil, pelo menos no princípio.

Jesus acolhe a samaritana

É razoável imaginar uma sintonia crescente entre Jesus e os apóstolos conforme passam os meses juntos: são seus amigos, as pessoas mais próximas, as mais favoráveis à sua missão. Mas vão aparecendo também nos evangelhos outros homens e mulheres alheios aos interesses, à geografia e ao estilo de vida dos doze. A samaritana, por exemplo. O diálogo de Jesus com ela é um dos mais extensos do Evangelho. É uma conversa da qual Jesus se serve para reduzir rapidamente as distâncias que os separam. Enquanto Pedro e os outros vão procurar algo para comer, ele pede água a essa mulher e inicia uma conversa em que faz os seus preconceitos e barreiras desaparecerem rapidamente. As palavras do Mestre sacodem a alma da samaritana e, quando se despedem, ela se sente impulsionada a compartilhar a sua descoberta com todos: “A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito. Não seria ele, porventura, o Cristo?” (Jo 4, 28-29). Havia-se convertido numa mulher apóstola de quem Deus se serviu para que muitos samaritanos acreditassem em Jesus.

A relação do Senhor com a samaritana contém um ensinamento eloquente: não devemos descartar ninguém. As distâncias entre ambos eram evidentes, mas o desfecho do relato evangélico anima-nos a levar a Deus pessoas que podem parecer-nos pouco inclinadas a isso. Jesus transformou rapidamente em um nós aquele único encontro. Às vezes, as diferenças com as outras pessoas ou os juízos apressados que fazemos delas se manifestam por meio de uma simples conjunção adversativa: “é bom trabalhador, mas...”, “é muito generosa com o seu tempo, mas...”, “é bastante agradável no trato, mas...”. O mas será frequentemente inevitável, às vezes refletirá apenas algumas situações externas. Devemos estar atentos para não o converter numa desculpa para manter distância do outro.

Na hora de eliminar obstáculos, pensar na própria família traz uma chave que talvez tenhamos experimentado pessoalmente. Os laços especialíssimos que nos unem a nossos pais, irmãos ou filhos proporcionam um sentido diferente a esse mas. O que antes representava uma objeção, inclusive uma trincheira, serve-nos para unir, traz-nos uma razão lógica para não descartar ninguém. Podemos ter tal ou qual diferença com uma pessoa, inclusive importante para nós, “mas é meu irmão”, “mas é minha filha”, “mas é meu pai”. A caridade consiste, de alguma forma, em aplicar este critério em outros âmbitos. No caso da samaritana, Jesus transformou o mas em um além disso. Um cristão é uma pessoa que acolhe. E a sua acolhida tem mais sentido com os que vêm de mais longe. “Nós, tentando – dentro de nossa pequenez – imitar o Senhor, também não ‘excluímos ninguém, não apartamos nenhuma alma do nosso amor em Jesus Cristo. Por isso, vocês devem cultivar uma amizade firme, leal e sincera – isto é, cristã – com todos os seus colegas de profissão: mais ainda, com todos os seres humanos, quaisquer que sejam suas circunstâncias pessoais’”[7].

A “revolução copernicana” do amor

Nesse empenho por construir pontes e fortalecer as relações com pessoas diferentes, a alegria do cristão pode representar uma vantagem decisiva. “Ganhar mais afabilidade, alegria, paciência, otimismo, delicadeza e todas as virtudes que tornam a convivência amável é importante para que as pessoas possam se sentir acolhidas e felizes”[8]. Uma pessoa alegre interpela os outros com a sua própria vida, sem necessidade de justificações teóricas prévias. Bento XVI considera que “A força com que a verdade se impõe tem de ser a alegria, que é a sua expressão mais clara. Os cristãos deveriam apostar nela e nela dar-se a conhecer ao mundo”[9]. Por isso, em certo sentido, a alegria é uma responsabilidade neste mundo agitado e mutante. A paciência é igualmente necessária, sobretudo com pessoas que possam manifestar uma atitude um pouco hostil. “Oferecer a nossa amizade de maneira autêntica, pressupõe a capacidade de arriscar, pois cabe a possibilidade de não sermos correspondidos”[10]. E, unido à paciência, é também imprescindível o respeito, que “não é uma resignação educada diante dos defeitos dos outros, com a qual ficamos protegidos atrás do nosso muro de defesa. Uma postura próxima, compreensiva, magnânima, que nos permite olhar de verdade nos olhos de cada pessoa[11]”.

As manifestações anteriores fazem parte da caridade, que é o traço fundamental da nossa relação com os outros. São Paulo já o experimentou: “Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada” (1 Co 13, 2). Bento XVI também falou da ”revolução copernicana do amor” que consiste em entrar em uma nova dimensão da caridade: Deus nos ama não porque sejamos bons ou tenhamos algum mérito, mas porque Ele é bom. A imitação de Cristo neste aspecto permitir-nos-á amar não apenas um pequeno círculo de pessoas e sim todos os homens e mulheres que Deus colocou em nosso caminho. Nunca seremos plenamente conscientes do fruto desta atitude: nunca saberemos até que ponto a proximidade, o carinho, a paciência e o respeito ativaram desejos magnânimos nas pessoas que encontramos na vida. Temos, no entanto, a convicção de que, para ser luz do mundo, não há nenhuma estratégia de transmissão possível fora da caridade. São Josemaria sintetizou isso: “De que tu e eu nos portemos como Deus quer – não o esqueças – dependem muitas coisas grandes”[12].

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Vivemos tempos propícios para a magnanimidade: o Papa Francisco usou a parábola do bom samaritano para recordar-nos que devemos ser “construtores de um novo vínculo social”[13], para percebermos que todos os dias estamos diante da “opção de ser bons samaritanos ou viajantes indiferentes que passam ao largo”[14]. O exemplo daquele único caminhante que se deteve para ver um homem ferido na beira da estrada recorda-nos que “hoje estamos diante da grande oportunidade de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos”[15]. O bom samaritano constitui uma mensagem viva, mostra a identificação entre o quê da sua alma e o como de seus atos.

Algumas vezes os preconceitos e as barreiras poderão parecer insuperáveis. Há, no entanto, um recurso muito eficaz para desfazer rancores ou posturas irredutíveis: a oração. Rezar por uma pessoa com fé e constância une-nos a ela de modo especial e nos aproxima da proposta citada do evangelho: rezar pelos inimigos ajuda a não ter inimigos, muda a nossa visão sobre qualquer pessoa, também aquelas que talvez sejam desagradáveis para nós. São Josemaria pedia diariamente a Deus na Santa Missa pelas pessoas que o tinham prejudicado alguma vez[16]. É uma proposta que parece resumida num ponto de Forja: “Considera o bem que fizeram à tua alma os que, durante a tua vida, te prejudicaram ou procuraram fazê-lo. Outros chamam inimigos a essas pessoas. Tu, procurando imitar os santos, pelo menos nisso, e sendo muito pouca coisa para ter ou ter tido inimigos chama-lhes benfeitores. E acontecerá que, à força de pedir a Deus por eles, simpatizará com eles”[17].

Javier Marrodán


[1] Francisco, Ângelus, 09/02/2014.

[2] São Josemaria, Caminho, n. 2.

[3] São Josemaria, Carta 1, n. 5a.

[4] Isabel Sánchez, Mujeres brújula en un bosque de retos, Planeta, Barcelona, 2020, p. 159.

[5] Francisco, Fratelli tutti, n. 45.

[6] Ibid. , n. 50.

[7] Mons. Fernando Ocáriz, Carta Pastoral, 01/11/2019, n. 7. O texto entre aspas, na citação, pertence à carta 18 de São Josemaria.

[8] Ibid., n. 10.

[9] Bento XVI, Opera Omnia, vol. 11, parte C, 11, 4.

[10] Mons. Fernando Ocáriz, Carta Pastoral, 01/11/2019, n. 12.

[11]“Com um olhar de carinho”, em www.opusdei.org.br

[12] São Josemaria, Caminho, n. 775.

[13] Francisco, Fratelli tutti, n. 66.

[14] Ibid. , n. 69.

[15] . Ibid., n. 77.

[16] Cfr. Javier Echevarría, Carta pastoral, 01/04/1999.

[17] São Josemaria, Forja, n. 802.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Mantenha um equilíbrio saudável de espírito e corpo, como Jesus

Shutterstock e KieferPix
Por Aleksander Bańka publicado em 22/03/24
Jesus disse aos seus discípulos que ‘vão embora e descansem um pouco’ quando estivessem cansados ​​do ministério. Extremos são prejudiciais, mas o equilíbrio entre corpo e espírito é difícil.

Se medirmos os erros que cometemos na nossa vida espiritual pelos extremos em que caímos, há dois aos quais devemos prestar atenção: o hedonismo ou o espiritismo excessivo, para seguirmos o verdadeiro exemplo de equilíbrio que Jesus nos deu.

Hedonismo

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Hedonismo significa focar no prazer e colocá-lo no centro da vida. Não significa necessariamente focar explicitamente no corpo, embora na verdade sejam os prazeres corporais que, em última análise, constituem o seu propósito e significado.

Não é incomum construirmos nosso bem-estar concentrando-nos nos desejos e paixões corporais que nos controlam, que não estão necessariamente relacionados à esfera sexual. Às vezes, são simplesmente desejos de vários bens, confortos sensuais ou experiências emocionais agradáveis.

Tais desejos, em si, não são maus. O problema começa quando eles passam a governar a nossa vida espiritual, dominando-a e subordinando-a. Em tal situação, a espiritualidade é reduzida a uma espécie de cobertura, uma forma de justificativa para tendências que reduzem a felicidade ao bem-estar físico e medem a qualidade do nosso relacionamento com Deus de acordo com a medida do nosso bem-estar. São Paulo chama isso de viver “na carne”.

Espiritismo

Do lado oposto está o erro do espiritismo excessivo. Aqui, por sua vez, as necessidades e desejos do corpo são fortemente marginalizados e até suprimidos em favor da esfera do espírito. Percebemos o corpo humano como um obstáculo ao nosso relacionamento com Deus. No mínimo, consideramos que não participa de forma significativa.

Como resultado, em vez de construirmos uma unidade harmoniosa entre o espírito e o corpo, caímos num forte dualismo que separa ambas as ordens. Identificamos o corpo com o mal e o pecado, e o espírito com o que é bom, puro e abençoado.

Este é, obviamente, um erro que se parece mais com a heresia do gnosticismo do que com uma espiritualidade cristã saudável. Então, como podemos encontrar o equilíbrio certo entre esses dois extremos e configurar adequadamente a nossa vida espiritual?

Cuide de nós mesmos

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De certa forma, a resposta nos foi dada pelo próprio Jesus. Vendo o cansaço dos seus discípulos ao regressarem de um ministério intenso, «disse-lhes: 'Vinde para um lugar deserto e descansai um pouco'. Porque eram muitos os que iam e vinham, e nem sequer tinham tempo de comer” ( Marcos 6, 31 ).

A palavra grega ἀναπαύσασθε (anapausasthe), que o evangelista São Marcos usa no texto, significa não apenas “descansar”, mas também – e talvez o mais importante – “reclinar-se”, “refrescar-se”.

Assim, significa que o tipo de descanso que nos proporcionará será alimentar e “frescor” espiritual. Jesus está se referindo ao cuidado adequado das necessidades e desejos do corpo de uma forma que não o volte contra o reino espiritual, mas antes o coloque novamente sob sua orientação, com maior energia.

Porque há um princípio sábio em jogo. Cada ser humano é uma unidade de corpo e espírito, e estes dois aspectos condicionam-se mutuamente. Portanto, não podemos excluir o nosso corpo em benefício do nosso espírito, nem dar tanta prioridade às suas necessidades que elas as dominem.

Descansar e cuidar do nosso corpo serve de “refresco” e “alimento”, para que, como pessoa integral, possamos cumprir a nossa missão e vocação à felicidade em sábia harmonia entre espírito e corpo. Em última análise, o conceito cristão de ascetismo consiste precisamente nesta harmonia. E, portanto, parte integrante disso também deve ser a capacidade de descansar.

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Semana Santa: um caminho de fé

"O bem que Deus traz através da cruz é a salvação, ela é a expressão maior do amor de Deus" (Vatican Media)

Para este penúltimo domingo do mês, o de Ramos da Paixão do Senhor, dom Adimir Antonio Mazali, bispo diocesano de Erexim, assina artigo e faz uma reflexão sobre o início da "Semana Maior da Igreja". Com o coração aberto, convide ele, "participemos das celebrações em nossas comunidades, fortalecendo nossa fé e a esperança na ressurreição de Jesus, bem como, a certeza de que em Cristo Ressuscitado, somos todos irmãos e irmãs".

Dom Adimir Antonio Mazali*

A Quaresma convidou-nos a voltarmos para o Senhor de todo o coração. Depois de cinco semanas de preparação para a Páscoa, convidados a viver mais intensamente a oração, a penitência e a caridade, com o Domingo de Ramos entramos na Semana Santa, a Semana Maior do Ano Litúrgico, semana em que celebramos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

Prezados irmãos e irmãs. Conforme os Evangelhos Sinóticos - Mateus, Marcos e Lucas -, Jesus iniciou seu ministério na Galileia. Depois de morar “mais ou menos trinta anos” (Lc 3,23) em Nazaré, Jesus foi batizado por João Batista, no Rio Jordão, fez um retiro de quarenta dias e quarenta noites no deserto, se preparando para a missão. No deserto foi tentado pelo demônio, venceu as tentações e depois retornou para Nazaré afim de iniciar sua missão. Ao iniciar a missão, foi expulso de Nazaré (Lc 4,28-29). Com isso, foi morar em Cafarnaum (Lc 4,31; Mt 4,12-13), cidade próxima ao Mar da Galileia, de onde exerceu sua missão com o povo da Galileia, a região norte da Palestina. Lá constituiu o grupo dos Doze (Mc 3,13-19), que passaram a viver e caminhar com Ele por todos os lugares onde ia, curou muitas pessoas doentes, paralíticos, cegos, libertou muitos possessos, ensinou aos discípulos e a todas as pessoas a dinâmica e a lógica do Reino de Deus. Jesus andou por todos os lugares “fazendo o bem” (At 10,38) e “fez bem todas as coisas” (Mc 7,37).

Ao concluir sua missão na Galileia, Jesus “tomou decididamente o caminho para Jerusalém” (Lc 9,51), para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também ao povo que encontrasse pelo caminho e aos habitantes da capital, Jerusalém. Jesus, acompanhado de seus discípulos, foi um missionário itinerante. Entendia que sua tarefa era “fazer a vontade de Deus Pai” (Jo 4,34). Em seu ministério, Jesus foi constantemente perseguido, sobretudo pelas autoridades religiosas. A perseguição foi uma das marcas da trajetória de Jesus.

Caríssimos irmãos e irmãs. A Liturgia da Palavra deste Domingo de Ramos inicia com o Evangelho que descreve a chegada de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10). Jesus estava acompanhado de seus discípulos, e estes estavam com muito medo, pois ele os havia alertado a respeito da perseguição que iria sofrer. Jesus, “o rei dos judeus”, chegou montado num jumentinho, como havia profetizado Zacarias: “Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho” (Zc 9,9). Significa que esse rei é pacífico, manso e humilde de coração (Mt 11,28-30). Além disto, o rei dos judeus e Filho de Deus é inocente. As falsas testemunhas não encontraram provas contra ele. Em sua entrada em Jerusalém, “muitos estenderam suas vestes pelo caminho, outros puseram ramos” e cantavam “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mc 11,8). Os pobres de Jerusalém o acolheram com alegria.

O Apóstolo Paulo, na Carta aos Filipenses (2,6-11), revela a espiritualidade que orientou a vida e os passos de Jesus. “Sendo de condição divina, Jesus esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição humana, tornando-se igual aos homens e, como homem, fez-se servo, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte e morte de cruz”. O preço da encarnação foi a cruz. A cruz foi a consequência de sua fidelidade ao plano de Deus Pai.

Estimados irmãos e irmãs. Tudo isso celebramos na Semana Santa. Com o Tríduo Pascal mergulhamos no Mistério Pascal de Cristo, seu esvaziamento total. Na Quinta-feira Santa celebramos a Última Ceia. Com ela Jesus deu as últimas recomendações aos Doze antes de sua morte na cruz. Na instituição da Eucaristia, Jesus se fez alimento para fortalecer os discípulos na fé e na missão. Ao lavar os pés dos Apóstolos, Jesus mostrou a eles que o espírito de serviço deveria ser o modo de vida de todos eles.

A Sexta-feira Santa convida-nos a mergulharmos no mistério da morte de Jesus. Desta surge dois questionamentos: 1º) Por que mataram Jesus? É a pergunta pelas causas da morte de Jesus. Os Evangelhos mostram que a pregação e a prática de Jesus representavam uma ameaça ao poder constituído. As causas da perseguição e morte de Jesus são, no fundo, as denúncias de Jesus contra o poder opressor. A perseguição e morte de Jesus na cruz ocorreu porque ele propunha um projeto de vida e de sociedade alternativo, incluindo a todos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

2º) Por que Jesus morreu? É a pergunta pelo sentido de sua morte, de seu martírio! Na cruz não morreu qualquer ser humano, mas o próprio Filho de Deus. De acordo com o Novo Testamento, é pela cruz de Jesus que Deus nos salvou do pecado. O bem que Deus traz através da cruz é a salvação, ela é a expressão maior do amor de Deus: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho” (Jo 3,16); “Deus enviou seu Filho ao mundo, não para julgar o mundo e sim para salvar o mundo” (Jo 3,17).

Por isso, com o coração aberto, participemos das celebrações em nossas comunidades, fortalecendo nossa fé e a esperança na ressurreição de Jesus, bem como, a certeza de que em Cristo Ressuscitado, somos todos irmãos e irmãs. 

* Bispo Diocesano de Erexim – RS

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

5 conselhos para viver bem a Semana Santa

Imagem referencial | Daniel Ibáñez (ACI Prensa)

Como viver bem a Semana Santa? Pe. Gianfranco Castellanos Melzi, Capelão da Universidade Católica San Pablo de Arequipa, no Peru, compartilha estes 5 conselhos para que todo cristão possa acompanhar cada passo da liturgia deste tempo.

1. Diminuir as distrações: O sacerdote explicou que como são dias que constituem um caminho que vai do sofrimento e dor à alegria, é importante “reduzir tudo aquilo que impeça a reflexão e recordar o motivo pelo qual é feriado”.

2. Participar das liturgias: "Não há motivo para não participar de cada rito", assegurou Pe. Castellanos, que argumentou que todos os lugares, todas as igrejas realizam as celebrações da Semana Santa.

3. Confissão: Também recordou que a Igreja Católica recomenda receber a comunhão pelo menos uma vez por ano na Páscoa, então, "seria importante realizar uma boa confissão durante a Semana Santa para poder se aproximar da comunhão".

4. Jejum: Da mesma forma, a Igreja sugere, "com um sentido penitencial", a prática do jejum e da abstinência dois dias por ano: Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa.

5. Alegria Pascal: Finalmente, Pe. Castellanos afirmou que "os cristãos devem se cumprimentar no dia da Páscoa como no Natal".

A saudação pascal é uma tradição que "não deve ser perdida", pois é "a alegria de saber que Jesus venceu a morte ressuscitando, cumprindo com sua promessa de salvação", concluiu o sacerdote.

Fonte: https://www.acidigital.com/

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF