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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Papa na Missa de Natal: estamos ao serviço de uma presença que suscita o bem

Natal do Semhor - Santa Missa presidida pelo Papa Leão XIV (Vatican Media)

Em sua homilia na missa de Natal, Leão XIV recordou que "a paz de Deus nasce de um choro de criança acolhido, de um pranto ouvido: nasce entre ruínas que invocam solidariedades renovadas". O Pontífice disse que "fragilizada se encontra a carne das populações indefesas, provadas por tantas guerras em curso ou concluídas, deixando escombros e feridas abertas. Fragilizadas estão as mentes e as vidas dos jovens obrigados a pegar em armas".

https://youtu.be/cTxuGgk_XeM

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Leão XIV presidiu a missa de Natal, na Basílica de São Pedro, na manhã desta quinta-feira, 25 de dezembro.

O Pontífice iniciou sua homilia com um trecho do Livro do Profeta Isaías: «Irrompei em cânticos de alegria». É o que diz "o mensageiro da paz a todos aqueles que se encontram entre as ruínas de uma cidade inteiramente por reconstruir".

"A paz existe e já está no meio de nós", disse o Papa Leão, recordando "a surpresa que a liturgia do Natal coloca diante de nós: o Verbo de Deus aparece e não sabe falar, vem até nós como um recém-nascido que apenas chora e dá vagidos. «Fez-se carne» e, embora crescerá e um dia aprenderá a língua do seu povo, agora fala apenas a sua presença simples e frágil.

“«Carne» é a nudez radical à qual, em Belém e no Calvário, falta até a palavra; como a não têm muitos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. A carne humana pede cuidados, invoca acolhimento e reconhecimento, procura mãos capazes de ternura e mentes dispostas à atenção, deseja palavras bonitas.”

"Eis a forma paradoxal segundo a qual a paz já está entre nós: o dom de Deus envolve-nos, procura acolhimento e mobiliza a dedicação. Surpreende-nos porque se expõe à rejeição, encanta-nos porque nos arranca da indiferença", disse ainda Leão XIV.

“É um verdadeiro poder o de nos tornarmos filhos de Deus: um poder que permanece enterrado enquanto estivermos distantes do choro das crianças e da fragilidade dos idosos, do silêncio impotente das vítimas e da melancolia resignada de quem faz o mal que não quer.”

A seguir, o Pontífice recordou as palavras do Papa Francisco na Evangelii gaudium: «Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura».

"Queridos irmãos e irmãs, uma vez que o Verbo se fez carne, agora a carne fala, brada o desejo divino de nos encontrar. O Verbo ergueu no meio de nós a sua frágil tenda", disse ainda Leão XIV, acrescentando:

“E como não pensar nas tendas de Gaza, expostas durante semanas à chuva, ao vento e ao frio, e nas tendas de tantos outros deslocados e refugiados em todos os continentes; ou nos refúgios improvisados de milhares de pessoas sem-abrigo dentro das nossas cidades? Fragilizada se encontra a carne das populações indefesas, provadas por tantas guerras em curso ou concluídas, deixando escombros e feridas abertas. Fragilizadas estão as mentes e as vidas dos jovens obrigados a pegar em armas, que precisamente na frente de batalha percebem a insensatez do que lhes é exigido e a mentira de que estão embebidos os discursos inflamados daqueles que os enviam para a morte.”

"A paz de Deus nasce de um choro de criança acolhido, de um pranto ouvido: nasce entre ruínas que invocam solidariedades renovadas, nasce de sonhos e visões que, como profecias, invertem o curso da história. Sim, tudo isso existe, porque Jesus é o Logos, o sentido a partir do qual tudo tomou forma", sublinhou o Papa Leão, recordando que por Jesus «é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência». "Este mistério interpela-nos a partir dos presépios que construímos, abre-nos os olhos para um mundo em que a Palavra ainda ressoa, «muitas vezes e de variados modos», e continua a chamar-nos à conversão", sublinhou.

De acordo com o Papa, "o Evangelho não esconde a resistência das trevas à luz, descreve o caminho da Palavra de Deus como uma estrada intransitável, repleta de obstáculos. Até hoje, os autênticos mensageiros da paz seguem o Verbo neste caminho, que finalmente alcança os corações: corações inquietos, que muitas vezes desejam justamente aquilo a que resistem".

“Assim, o Natal motiva novamente uma Igreja missionária, impelindo-a pelos caminhos que a Palavra de Deus traçou para ela. Não estamos ao serviço de uma palavra prepotente – já ressoam por toda parte –, mas de uma presença que suscita o bem, conhece a sua eficácia e não reivindica o seu monopólio.”

"Eis o caminho da missão: um caminho em direção ao outro", sublinhou Leão XIV, ressaltando que "em Deus, cada palavra é uma palavra dirigida, é um convite à conversação, uma palavra que nunca é igual a si mesma". "É a renovação que o Concílio Vaticano II promoveu e que veremos florescer apenas caminhando juntos com toda a humanidade, sem nunca nos separarmos dela", disse ainda o Papa Leão, recordando que "o contrário é mundano: ter-se a si mesmo como centro".

Segundo o Pontífice, "o movimento da Encarnação é um dinamismo de conversação" e, de acordo com ele, "haverá paz quando os nossos monólogos se interromperem e, fecundados pela escuta, cairmos de joelhos diante da carne despojada do outro". "Precisamente nisto, a Virgem Maria é a Mãe da Igreja, a Estrela da evangelização, a Rainha da paz. Nela compreendemos que nada nasce da exibição da força e tudo renasce a partir do poder silencioso da vida acolhida".

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Natal em tons de cinza: A realidade dos excluídos na Casa dos Pobres

Frei Luiz Favaron | Divulgação | Aleteia

Paulo Teixeira - publicado em 24/12/25

Enquanto a maioria das famílias se prepara para as festividades de fim de ano com luzes, banquetes e trocas de presentes, existe um grupo para o qual o calendário parece ter estagnado em uma rotina de invisibilidade e sobrevivência.

 No coração da "Casa dos Pobres", na periferia de São Paulo,  Frei Luiz Favaron compartilha uma reflexão profunda sobre o impacto — ou a falta dele — que o Natal exerce sobre aqueles que ele descreve como "os mais pobres entre os pobres". 

Para este público, a marginalização é tão profunda que atinge até a percepção de pertencimento espiritual. O Frei relata que, durante as celebrações eucarísticas de domingo, um número considerável de frequentadores da casa opta por sair e não participar do rito. "Penso que eles acham e sentem que a igreja não é para eles" , observa o religioso, evidenciando o abismo que a exclusão social cava entre o indivíduo e as instituições. 

Na tentativa de reaproximar esse povo da mensagem cristã, Frei Luiz utiliza a imagem do presépio não como um adorno estético, mas como um reflexo da realidade crua das calçadas. Ele frequentemente lembra aos acolhidos que a origem de Cristo guarda uma semelhança direta com a jornada deles. "Digo que Jesus nasceu na rua, como muitos deles estão agora vivendo na rua". 

O impacto dessa afirmação é imediato e inexplicável. "Quando falo isso, se faz um profundo silêncio. Tem algo misterioso que se manifesta nesse momento. Eu não sei explicar". É neste silêncio que a figura de Deus parece ser a única âncora que resta a quem já foi destituído de tudo. 

A vida sem cores

Apesar dos esforços da Casa dos Pobres em proporcionar um ambiente festivo — com almoços diferenciados, salões enfeitados e músicas temáticas —, Frei Luiz confessa sentir uma ponta de frustração diante da apatia causada pela miséria extrema. Para o homem que vive à margem, a data no calendário não altera a urgência da fome ou a necessidade de roupas e material de higiene. 

"Para esse povo mais pobre, Natal e Ano Novo é a mesma coisa que todo outro dia do ano", afirma o Frei. Ele descreve a existência desse grupo como uma jornada sem matizes: "A vida deles é cinza, não tem mais sonhos, não tem mais desejos, são pessoas tão humilhadas e excluídas que a capacidade de projetar o futuro ou desejar algo além da sobrevivência imediata foi neutralizada”. 

Gratidão

Mesmo inseridos nesse cenário de desesperança e "vida cinza", o comportamento desses homens e mulheres diante da divindade surpreende quem os atende. Existe uma resistência espiritual que desafia a lógica do consumo e da troca, tão presentes no Natal comercial. 

O Frei destaca que, ao serem incentivados a apresentar seus pedidos a Deus, os acolhidos raramente solicitam bens materiais ou mudanças de sorte. Em vez disso, o foco se volta inteiramente para o reconhecimento do que ainda possuem. "Quando a gente pede para eles de fazer algum pedido a Deus, eles só agradecem, eles não pedem nada, só agradecem". A gratidão se manifesta pelas coisas mais fundamentais: pela vida, pelo prato de comida e pelo acolhimento recebido na Casa dos Pobres. 

Essa lição de fé e resiliência, vinda de quem habita as margens da sociedade, encerra o ano de Frei Luiz com um sentimento de assombro e respeito pelo mistério que envolve a relação entre o criador e a criatura nos momentos de maior vulnerabilidade. 

Fonte: https://pt.aleteia.org/

TEOLOGIA: A face autêntica da Igreja na comunidade cristã de Jerusalém

Pedro pregando para a multidão, Masolino, Capela Brancacci, Florença | 30Giorni.

TEOLOGIA

Arquivo 30Dias nº 03 - 1999

A face autêntica da Igreja na comunidade cristã de Jerusalém

Algumas notas do Cardeal, antigo Presidente do Pontifício Conselho para a Interpretação dos Textos Legislativos, sobre um estudo histórico-jurídico de Dante Gemmiti, professor da Universidade de Roma Tor Vergata.

Por Cardeal Vincenzo Fagiolo

A Igreja, que é, em Cristo, “sacramento ou sinal e instrumento de união com Deus e da unidade de toda a raça humana” ( LG 1), encontramos inicialmente na primeira comunidade de Jerusalém. Historicamente, apresenta-se a nós como uma comunidade que vive o mistério de Cristo na comunhão da mesma fé, esperança e caridade, celebrando-o na Eucaristia, proclamando-o com a Palavra de Deus, testemunhando-o comunitariamente como um só coração e uma só alma (cf. At 4,32-37). Tudo se revela como fruto da efusão do Espírito Santo enviado pelo Ressuscitado (cf. At 2,42-47).

O Vaticano II recordou-nos que a única Igreja de Cristo é aquela que professamos no Credo como una, santa, católica e apostólica, e que o nosso Salvador, após a sua ressurreição, confiou a Pedro o seu pastoreio, confiando-lhe a ele e aos outros apóstolos a sua difusão e orientação (cf. LG 8). Como Cristo quis e estabeleceu, a Igreja, no próprio lugar onde Cristo viveu, morreu e ressuscitou, foi dada aos apóstolos. Teve sua primeira configuração histórica na comunidade de Jerusalém, que se tornou modelo e fonte de inspiração; nela, as outras comunidades se sentiram chamadas a refletir-se. São Paulo permanece o exemplo mais emblemático dessa referência. Temendo ter ido em vão, dirigiu-se a Jerusalém, àqueles que eram considerados as colunas, e os confrontou (cf. Gl 2,1-2).

Mas a comunidade de Jerusalém não foi apenas o modelo para todas as outras Igrejas fundadas em várias partes do mundo pelos apóstolos e seus sucessores. Foi também um modelo para todas as comunidades mais específicas do que a particular ou – como se dizia mais comumente – diocesana. Foi também uma fonte privilegiada de inspiração para todas as comunidades de monges ou religiosos, isto é, de homens e mulheres convictos de deixar o mundo ( fuga mundi ) para buscar a Deus na solidão, no ascetismo e para reviver radicalmente a mesma experiência dos primeiros cristãos de Jerusalém. Assim nasceu a anacorese e o início daquela jornada histórica das comunidades de vida consagrada, da qual o Vaticano II também nos lembrou, ao introduzir a discussão sobre a "renovação da vida religiosa" (decreto Perfectae caritatis ): "Desde os primórdios da Igreja houve homens e mulheres que, pela prática dos conselhos evangélicos, se propuseram a seguir a Cristo..." ( PC 1).

Por meio de um estudo sistemático de fontes antigas sobre a comunidade cristã primitiva, vista como uma presença e uma norma de comportamento, o professor Dante Gemmiti, da Universidade de Tor Vergata, em Roma, explica o sentido e a extensão em que a comunidade de Jerusalém serviu de modelo para o pensamento dos primeiros escritores eclesiásticos. Esta pesquisa também permite uma avaliação mais adequada de todos os desvios eclesiológicos ou comportamentais que ocorreram durante a Idade Média e a era moderna. O estudo se limita aos séculos III, IV e V e examina "testemunhos orientais, especialmente de Orígenes, Eusébio, Basílio e Crisóstomo; e ocidentais, com referências a Tertuliano, Cipriano, Hilário de Poitiers, Jerônimo, Ambrósio e Agostinho". Segue-se um apêndice sobre o monasticismo oriental e ocidental, estudado a partir da perspectiva de seu respectivo modelo na comunidade de Jerusalém (Dante Gemmiti, La Chiesa nascente ideale di vita cristiana , Nápoles-Roma, LER, 1999, p. 370).

A comunidade cristã, toda comunidade cristã, nasce, vive, trabalha e se desenvolve segundo o modelo da de Jerusalém. Os elementos essenciais que deram vida àquela comunidade tornaram-se as exigências de existência e conduta para todas as outras que surgiram nos séculos subsequentes. Esta é uma prova irrefutável da norma canônica que, ao definir a natureza essencial da Igreja, nos apresenta a sua imagem. De fato, «uma diocese é aquela porção do povo de Deus confiada aos cuidados pastorais de um bispo, com a cooperação do presbitério, de modo que, unida ao seu pastor e reunida por ele no Espírito Santo, através do Evangelho e da Eucaristia, constitui uma Igreja particular na qual a Igreja una, santa, católica e apostólica de Cristo está verdadeiramente presente e operante» (cân. 369). Esta configuração teológica e normativa da comunidade eclesial é tão essencial e autêntica que o próprio Código, seguindo o Vaticano II (cf. LG 23), declara que “as Igrejas particulares [são aquelas comunidades] nas quais e das quais subsiste a única Igreja Católica” (cân. 368).

A imagem da Igreja universal é ao mesmo tempo ideal e histórica, abstrata e concreta. A determinação ou definição doutrinal deriva do modelo da primeira comunidade, em seu comportamento como assembleia de fiéis em Cristo, unidos como um só coração e uma só alma, porque se alimentavam à mesma mesa (como expressou Santo Agostinho ao explicar o Salmo 132 aos “servos de Deus” em Hipona) com a Palavra e a Eucaristia. E se descermos da comunidade diocesana para a comunidade paroquial, que é uma parte dela, a configuração, com os elementos que a constituem substancialmente, pode igualmente ser rastreada até o modelo da comunidade de Jerusalém (cf. cânones 515 §1, 528). Isso explica não apenas a origem histórica, mas também a natureza essencial do ser e do funcionamento de toda autêntica comunidade cristã. Esse era o compromisso dos antigos Padres da Igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente. A vida comunitária estabelecida pelos próprios apóstolos e praticada pelos primeiros cristãos em Jerusalém teve sua origem bíblica nos resumos , o primeiro grande resumo encontrado em Atos 2:42-47 e o segundo, igualmente, em Atos 4:32-37.

O professor Gemmiti aprofunda-se nas fontes patrísticas para nos mostrar seu propósito. Os Padres da Igreja dos séculos III, IV e V voltaram-se para o modelo de Jerusalém para, primeiramente, identificar o significado preciso dessa maravilhosa experiência eclesial, interpretando-a em seus diversos contextos — teológico, normativo e social — e, ao mesmo tempo, para compreender como e em que medida esse modelo poderia e deveria ser seguido no momento histórico específico da Igreja.

A análise do autor começa em meados do século III. Isso, contudo, não significa que os autores cristãos anteriores tenham omitido qualquer referência à vida eclesial primitiva, conforme descrita nos Atos dos Apóstolos e, em particular, segundo a fase inicial da história da comunidade cristã nascida em Jerusalém (cf. Atos 1-5). Significa, antes, que, se alguém deseja encontrar uma referência explícita e consciente à comunidade primitiva, deve voltar-se para o período que se inicia por volta de meados do século III. Ou seja, quando houve uma avalanche de notícias sobre a crise na comunidade cristã, devido às numerosas, porém inconsistentes, conversões do clero, que se mostrava apenas um representante da fé, e não alguém que realmente era, e pela disseminação de vícios e hábitos pagãos entre os cristãos (temos uma denúncia disso no Sínodo de Elvira, em 305). Foi nesse contexto, pouco edificante do ponto de vista cristão, que o recurso ao texto dos Atos dos Apóstolos (2:42-47; 4:32-37) começou a ser valorizado significativamente para alertar as comunidades cristãs sobre seu comportamento, que diferia do da comunidade em Jerusalém.

De Orígenes, para o Oriente, e de Cipriano, para o Ocidente, o autor reúne a primeira documentação que atesta a veracidade de suas conclusões. O mesmo ocorrerá para os períodos subsequentes, até o século V. Algumas referências nos ajudarão a compreender a realidade histórica que o autor extrai dos textos dos principais escritores eclesiásticos dos séculos III, IV e V. A partir das obras de Orígenes, por exemplo, emerge uma imagem muito negativa do comportamento cristão das comunidades onde Orígenes viveu e trabalhou: Alexandria e Cesareia, na Palestina.

A conduta das pessoas é julgada negativamente por sua ausência no culto, por distrair os presentes e por seu interesse em coisas mundanas: "Eles vão à igreja apenas alguns dias para ouvir a Palavra de Deus, mas logo a abandonam, e não dedicam mais tempo à meditação da própria Palavra divina" ( Números hom. 13, 7: Die griechischen christlichen Schriftsteller 7, Leipzig, pp. 116-117, abreviado daqui em diante para GCS).Contra as mulheres: «Como se pode pensar que as mulheres, especialmente, concebem em seus corações se fofocam e tagarelam, de modo a não deixar espaço para o silêncio?» ( Êxodo, hom. 13, 3: GCS 56, p. 272). Novamente: «…Se entre vós houver alguns que [...] não se esforçam para melhorar sua conduta, corrigir suas ações, abandonar os vícios, praticar a castidade, apaziguar a ira, reprimir a avareza, refrear a ganância, eliminar de suas bocas a calúnia, a insensatez ou a obscenidade e o veneno da difamação…» ( João, hom. 10, 3: GCS 7, p. 360). E continua denunciando aqueles que não observam suas promessas batismais. E não poupa o clero, a quem denuncia por hipocrisia, orgulho e sede de poder, ganância por riquezas e a tendência de colocar os interesses da comunidade acima dos da família. Ele lamenta isso, também porque vê o destino do clero atrelado ao do povo.

A partir de todas essas observações amargas, Orígenes apela para o modelo insuperável da Igreja primitiva. Ele a chama de insuperável em um sentido absoluto, não historicamente, mas apenas porque fala do caráter transcendente da verdadeira Igreja, a celestial. A Igreja histórica de Jerusalém constitui um evento bastante temporal, realizado no presente de cada comunidade cristã, de cada verdadeiro crente que acolhe a ação do Espírito. Todos os imitadores de Cristo são pedras, e em cada um deles a Igreja é construída. Em cada Igreja, descobrimos a Igreja primitiva através de sua relação com Deus na oração de seus membros, formando uma verdadeira comunidade fraterna. O texto que Orígenes segue é surpreendente, centrado na koinonìa , e que nosso autor relata na íntegra, demonstrando como Orígenes avaliava a comunidade cristã primitiva (ver D. Gemmiti, op. cit. , pp. 50-117). 

***
Mais do que um apêndice, o foco no importante fenômeno do monasticismo constitui uma segunda parte do tratamento único dos elementos constitutivos de uma comunidade cristã. Mesmo com suas conotações teológicas, normativas e ascéticas específicas, o monasticismo — e, em geral, toda forma de vida consagrada — encontra sua origem e a natureza essencial de seu ser Igreja naquela comunidade cristã que foi historicamente a primeira a seguir a Cristo, desapegando-se do modo de vida do mundo por causa do que o mundo tinha de contrário ao Evangelho e por causa da novidade da criatura humana inserida no mistério de Cristo pelo batismo. De fato, o Vaticano II (seguido pelo Código de Direito Canônico) afirmará que o estado de vida daqueles que professam os conselhos evangélicos, fundados nas palavras e no exemplo do Senhor e recomendados pelos apóstolos, "embora não diga respeito à estrutura hierárquica da Igreja, pertence, contudo, à sua vida e à sua santidade" ( LG 44; cf. cân. 574 §1), isto é, à constituição divina da Igreja. Ao abordar este tema, este estudo começa com o elemento que demonstra mais imediatamente, ou poderíamos dizer quase visivelmente, a primeira característica essencial de toda autêntica comunidade cristã, mesmo que no monasticismo — e em toda forma de vida consagrada em geral — essa mesma característica seja vivida de forma mais radical e una de modo especial a Cristo, à sua Igreja e ao seu mistério (cf. LG 44; cânones 573, 607 §1). Refiro-me às expressões: "deixar para trás os seus bens", "doá-los", etc., que o nosso autor cita e cuja essência nos ajuda a apreender através da citação de uma exegese de Orígenes sobre um texto de Lucas. «Após tal concepção e tal nascimento [=chamado divino], [...] era conveniente que [João] se retirasse, fugindo do tumulto das cidades e da contenda das massas populares, e que fosse para o deserto [...] para que pudesse se dedicar à oração por um crescimento surpreendente» ( In Luc. hom. 11: GCS 9, p. 80).

Portanto, não surpreende que alguns escritores eclesiásticos identifiquem o monasticismo com a Igreja primitiva (Cassiano, por exemplo), mesmo quando se destacam formas específicas de monasticismo, como o egípcio, o basiliano e o ocidental. Contudo, deparamo-nos sempre com certezas que, ao assegurarem os dados legislativos que regulam a vida monástica em geral, garantem a santidade da própria vida. São, de fato, certezas da continuidade do movimento monástico com a tradição evangélico-apostólica, da autenticidade da koinonìa.
que provém de Cristo, pois fala de "comunhão com Ele" e, portanto, com todos os irmãos.

E isso tem um significativo valor teológico-jurídico e ascético, porque tudo está relacionado "à disciplina dos Evangelhos, encerrada na pedra angular, o Senhor Jesus Cristo". E, nesse aspecto, o monasticismo ocidental não difere substancialmente das formas que surgiram no Oriente, e não se pode dizer que dele tenha surgido. Do solo fértil das Igrejas locais do Ocidente, de fato, floresceu aquele monasticismo que se caracteriza essencialmente por uma vivência radical e existencial do Evangelho.

Assim, Santo Agostinho indicaria o aspecto primordial do monasticismo na simplicidade de coração na busca do único Deus e Senhor, e na vivência, de modo muito particular, da pobreza evangélica, capaz, entre outras coisas, de abrir o indivíduo à concretude da caridade fraterna. A partir daqui, o pensamento agostiniano se desenvolve ainda mais, ampliando a dimensão do ascetismo inteiramente pessoal para uma espiritualidade que se reveste da forma comunitária modelada na dos primeiros cristãos da Igreja de Jerusalém, com ênfase particular nos valores essenciais: caridade, fraternidade e humanidade.

Isso se evidencia pelas frequentes referências aos resumos dos Atos dos Apóstolos, a partir dos quais toda a pesquisa acadêmica do autor teve início. Ele vê uma originalidade na exegese de Santo Agostinho da frase " anima una et cor unum " . A isso, Santo Agostinho acrescenta " in Deum " para enfatizar a natureza sobrenatural e o propósito da união fraterna. O vínculo que Agostinho destaca entre a comunidade monástica e a de Jerusalém permitiu-lhe ressaltar a vida apostólica da comunidade monástica: "Que ninguém reivindique nada como seu, seja no vestuário ou em qualquer outra coisa, pois desejamos viver segundo a norma dos apóstolos O projeto monástico estará presente nos desejos de Santo Agostinho ao longo de toda a sua vida. nele, ele nos permite vislumbrar um prenúncio da "cidade celeste", como será consistentemente enfatizado pelo Magistério, e o encontramos novamente na própria legislação da Igreja sobre a vida consagrada, definida como um "sinal da vida futura" (cân. 607 §1), uma vez que os religiosos e religiosas, "tendo-se tornado sinal luminoso na Igreja, prenunciam a glória celeste" (cân. 573 §1).

É, portanto, fácil reconhecer neste estudo, de elevado perfil científico e de rigorosa pesquisa histórica e exegética das fontes, essa dimensão não só histórica, mas também teológica e canônica, o que o torna valioso para especialistas na área, para as comunidades eclesiais, tanto diocesanas quanto paroquiais, e para a vida consagrada.

Fonte: https://www.30giorni.it/

Leão XIV: no Natal, 24 horas de paz em todo o mundo

Em Castel Gandolfo, o Papa responde às perguntas dos jornalistas do lado de fora da Villa Barberini (Vatican Media)

Em Castel Gandolfo, o Papa responde às perguntas dos jornalistas do lado de fora da Villa Barberini. Sobre a Ucrânia, expressa tristeza pela recusa da Rússia a uma trégua de Natal e relança o apelo para que sejam respeitadas 24 horas de paz. Recorda também a visita do cardeal Pizzaballa a Gaza e manifesta o desejo de que o acordo de cessar-fogo “siga adiante”. O Pontífice declara-se ainda “muito decepcionado” com a aprovação de uma lei sobre suicídio assistido no estado de Illinois, nos EUA.

https://youtu.be/pH41kuOft4w

Vatican News

“Faço mais uma vez este pedido a todas as pessoas de boa vontade para que respeitem, ao menos na festa do nascimento do Salvador, um dia de paz.” Este foi o apelo de Leão XIV às vésperas das festividades natalinas, lançado nesta noite de 23 de dezembro, a poucos dias do Natal, a partir de Castel Gandolfo.

Como todas as semanas, o Pontífice passou ali o seu dia de descanso e trabalho. Os fiéis, com canções natalinas, além da música da banda municipal de Castel Gandolfo, acolheram sua saída da Villa Barberini. O pároco, padre Tadeusz Rozmus, da Paróquia Pontifícia de São Tomás de Villanova, dirigiu ao Papa os votos de Feliz Natal em nome de todos e lhe entregou o presente de alguns produtos típicos.

Um dia de paz em todo o mundo

Como já é costume, Leão XIV deteve-se com um grupo de jornalistas para responder às suas perguntas. Oriente Médio e Ucrânia estiveram entre os temas abordados. Sobre a Ucrânia, onde nas últimas horas intensos ataques russos atingiram diversas regiões, o Papa Leão afirmou: “Realmente, entre as coisas que me causam muita tristeza nestes dias está o fato de que, aparentemente, a Rússia recusou o pedido de uma trégua de Natal”. O Bispo de Roma reiterou então o seu apelo para que no Natal seja respeitado um momento de trégua: “Quem sabe nos escutem e haja 24 horas, um dia de paz em todo o mundo”.

Que o acordo de paz no Oriente Médio siga adiante

Ainda voltando o olhar para a guerra, desta vez do Oriente Médio, onde se discute a Fase 2 do cessar-fogo, o Papa recordou a “belíssima visita” realizada nestes dias a Gaza pelo cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém. “Há uma hora estive em contato com o pároco”, ou seja, o padre Gabriel Romanelli, pastor da igreja da Sagrada Família, na Cidade de Gaza. “Eles estão tentando celebrar uma festa em meio a uma situação ainda muito precária. Esperamos — acrescentou Leão — que o acordo de paz siga adiante”.

Decepção com a lei sobre suicídio assistido em Illinois

Voltando a atenção para os Estados Unidos, o Papa comentou a recente aprovação, em seu estado de origem, Illinois, de uma lei que permite o suicídio assistido para adultos com doenças terminais e prognóstico de seis meses ou menos, a partir de setembro de 2026. Leão XIV explicou que já havia tratado do tema “de forma muito explícita” com o governador JB Pritzker durante a audiência no Vaticano, em novembro passado: “Naquela época, o projeto de lei já estava sobre a mesa dele”. “Fomos muito claros quanto à necessidade de respeitar a sacralidade da vida, do início ao fim. E, infelizmente, por diversas razões, ele decidiu assinar aquele projeto de lei. Estou muito decepcionado com isso”, sublinhou o Pontífice.

Em seguida, convidou “a todos, especialmente nesta festa de Natal, a refletirem sobre a natureza da vida humana, sobre o valor da vida humana. Deus se fez humano como nós para nos mostrar o que significa verdadeiramente viver a vida humana”. A esperança e a oração do Pontífice são para que “o respeito pela vida volte a crescer em todos os momentos da existência humana, da concepção até a morte natural”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Quem é são Torlaco, padroeiro da Islândia?

Catedral de Cristo Rei em Reykjavik, Islândia. | Wirthi, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Por Redação central

23 de dez de 2025 às 06:00

A Islândia celebra hoje (23) seu padroeiro, são Torlaco, ou Thorlak Thorhallsson.

Embora a assembleia nacional da Islândia o tenha declarado santo em 1198, só cinco anos depois de sua morte, essa canonização só se tornou oficial graças ao papa são João Paulo II declará-lo padroeiro do país em janeiro de 1984.

Torlaco nasceu em 1133, menos de dois séculos depois de missionários alemães e noruegueses começarem a primeira evangelização efetiva da Islândia. A conversão da nação pagã foi uma luta nacional dramática, porque muitos islandeses se apegavam ferozmente ao paganismo ancestral, que envolvia adoração de ídolos e infanticídio.

A Igreja estabeleceu-se solidamente na Islândia na época do nascimento de Torlaco. No entanto, havia muita desordem: o clero local desconsiderava o celibato e vendia cargos na Igreja para ganho pessoal.

Os pais de Torlaco, mal conseguindo ganhar a vida como fazendeiros, notaram os talentos do filho e se esforçaram para que ele recebesse instrução religiosa de um padre local. Torlaco foi ordenado diácono antes dos 15 anos e se tornou padre aos 18 anos.

Depois, ele foi estudar teologia na França e na Inglaterra. Nesse tempo, ele se comprometeu a viver pela regra monástica de santo Agostinho, uma parte importante da tradição da Igreja ocidental. Essa regra comprometia um padre não só com o celibato, mas também com uma vida em comunidade sem posses pessoais, como os apóstolos nos primeiros dias da Igreja.

Inspirado por essa visão de discipulado radical, ele se manteve firme na disciplina do celibato clerical, mesmo depois de voltar à Islândia e ser pressionado a se casar com uma viúva rica. Em vez disso, ele fundou um mosteiro agostiniano, que se tornou lugar renomado de oração e estudo.

Dez anos depois do mosteiro ser fundado, o arcebispo norueguês Augustine Erlendsson, outro seguidor da antiga regra de vida agostiniana, chamou Torlaco para ser bispo da diocese islandesa de Skalholt. Embora ele fosse profundamente apegado ao seu modo de vida monástico, Torlaco reconheceu a necessidade urgente de reforma e orientação entre o clero.

Como bispo, ele se dedicou profundamente a implementar as reformas da Igreja ocidental às quais o papa são Gregório VII deu início no século anterior, que previam não só uma disciplina rigorosa de celibato clerical, mas também a independência da Igreja contra a intrusão de autoridades seculares.

Torlaco também buscou melhorar a moralidade pública e ousou confrontar o chefe mais popular e poderoso da Islândia, que teria tido um caso extraconjugal com a irmã do bispo. Torlaco ansiava por voltar à vida monástica. Mas ele morreu em 23 de dezembro de 1193 como bispo.

São Torlaco foi, sem dúvida, o santo nativo mais popular da Islândia no período católico do país. Mais de 50 igrejas foram dedicadas à sua memória antes que a Islândia se tornasse oficialmente luterana no século XVI.

Hoje, a antiga diocese de Skalholt, em St. Thorlak, faz parte da diocese de Reykjavik, capital do país, que só foi estabelecida em sua forma atual em 1968.

Embora a Igreja não tenha mais uma grande presença na Islândia, a celebração da festa de são Torlaco persistiu como um costume nacional generalizado. Os islandeses celebram 23 de dezembro como o último dia de preparação antes do Natal e mantiveram o costume de se reunir para comer peixe curado.

Fonte: https://www.acidigital.com/

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Frei Vitório: O Natal dos que amam a espiritualidade franciscana

Yuganov Konstantin | Shutterstock

Paulo Teixeira - publicado em 23/12/25

Importante recordar nesse período o primeiro presépio da história, montado por São Francisco de Assis em 1223, na pequena aldeia de Greccio, na Itália.

Em entrevista à Rede Imaculada de Comunicação, Frei Vitório Mazzuco, destacou que não é apenas uma recordação do que aconteceu oito séculos atrás, mas um convite para reavaliar como percebemos a presença de Deus no cotidiano. Segundo o religioso, Francisco não apenas criou uma representação visual, mas "levou a encarnação de Greccio para todos os cantos do mundo", reavivando a força do Evangelho através da simplicidade. 

A centralidade do Natal no carisma franciscano

Diferente de outras solenidades, o Natal ocupava um lugar único no coração de Francisco de Assis. Frei Vitório destaca que o santo tinha uma reverência especial por esta data, considerando-a a maior das festas. "Ele tinha a reverência pelo Natal como nenhuma outra solenidade do Senhor. Porque, embora todas as solenidades mostram como a nossa salvação foi operada, o Natal mostra que ele vem nascer entre nós, viver entre nós". 

Essa escolha de Deus por tomar a forma de um corpo humano e habitar a pobreza é o que sustenta o carisma franciscano. O Frei explica que a trajetória de Francisco é um ciclo que une três pilares: "Presépio, eucaristia e cruz. São os seus olhos fixos na vida daquele que transplantou para nós a vida do Pai Celeste". Em Greccio, o objetivo era representar, da maneira mais fiel possível, o desconforto e a humildade do estábulo de Belém, transformando a fé em algo palpável. 

O Presépio como "colírio" para a humanidade

Frei Vitório utiliza uma metáfora de Santo Agostinho para descrever a Encarnação: a vinda do Filho de Deus funciona como um "colírio" que limpa a visão espiritual da humanidade. "A vinda do Filho em nossa carne é um colírio que consegue tornar perceptível aos nossos olhos o que os nossos olhos nunca podiam ver". Ao vermos Deus em uma criança, somos convidados a uma "reumanização". No presépio, diz o Frei, encontra-se "um trono simples para um menino reumanizado, porque nele é visível a glória do Pai". 

Este processo de enxergar o divino no humano elimina a distância entre o Criador e a criatura. Deus não apenas observa a humanidade de longe, mas "vem experimentar a nossa vida, o nosso nascimento, crescimento, sofrimento, atividades". Ao absorver a nossa vida, Cristo estabelece um novo patamar de igualdade e irmandade entre todos os seres. 

Natal: O jeito de ser fraterno

Para a espiritualidade franciscana, a consequência direta do Natal é a fraternidade. Não há como celebrar o nascimento de Jesus de forma isolada ou egoísta. "Para Francisco, o Natal tem jeito de fraternidade, porque ser irmão, ser irmã, filho e filha é inseparável de ser fraterno. O amor é impensável sem convivência". 

Frei Vitório Mazzuco encerra sua mensagem reforçando que o Advento e o Natal são tempos de aprendizado sobre o amor mútuo. A encarnação de Deus deve ser um evento diário, manifestado através do encontro com o outro. "O amor mútuo, quando se junta, faz todo dia o amor encarnar-se".  

Fonte: https://pt.aleteia.org/

Um poema na véspera de Natal

Véspera de Natal (You Tube)

UM POEMA NA VÉSPERA DE NATAL 

23/12/2025

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

Na véspera de Natal, o mundo respira de outro modo. Há um silêncio, uma pausa mais profunda, como se a história, por um instante, diminuísse o ritmo para escutar a si mesma. As luzes, os gestos repetidos, os encontros marcados, convivem com uma pergunta quase muda sobre o amanhã. E é justamente nessa véspera, nesse intervalo delicado entre o que ainda não aconteceu e o que já se anuncia, que nasce a intuição de um poema. 

O poema surge quando a alma encontra uma forma de dizer aquilo que não se deixa explicar. A véspera de Natal é o lugar natural desse dizer. Não é o dia do cumprimento, mas o instante suspenso no entardecer. Tudo ainda é frágil, tudo pode se perder, tudo pode nascer. A véspera educa o coração para a espera sem controle, para a confiança que não exige garantias. 

Assim foi também na primeira noite. Antes da manjedoura, houve a longa fadiga da história, o peso do domínio estrangeiro, a esperança cansada de um povo que rezava há gerações. Neste horizonte que se fechava Deus se decide por não abandonar a história. 

A esperança católica nasce da coragem de acolher. O Natal começa com uma presença. Um menino colocado no centro do mundo. Um Deus que se oferece como companhia fiel. E um futuro que já não precisa ser enfrentado sozinho. 

Talvez por isso tantas narrativas natalinas falem de transformação interior mais do que de milagres visíveis. Há pessoas que precisam revisitar o próprio tempo para reaprender a viver. Há pobres que se tornam ricos quando descobrem que o dom vale mais do que o objeto oferecido. Há poetas que intuem que a vida só permanece quando é tratada com ternura. Todas essas histórias tocam o mesmo mistério que a fé contempla em Belém. O coração humano se reordena quando encontra sentido no amor que se entrega. 

A véspera de Natal tem essa densidade espiritual. Nela, tudo permanece vulnerável. A paz, as relações, os sonhos, a própria fé. E ainda assim, a Igreja nos conduz a uma cena desarmada e silenciosa. Uma mulher que confia. Um homem que guarda. Um menino que dorme. A pobreza que não se envergonha.  

Um poema na véspera de Natal é mais que uma imagem delicada. É uma maneira de habitar o mundo. É permitir que o coração escreva, mesmo com mãos trêmulas, uma frase simples de confiança. É olhar a complexidade do tempo presente sem cinismo. É aceitar que a história possa estar confusa sem estar abandonada.  

A véspera, então, se transforma em oração sem artifícios, quase um sussurro por onde Deus chega. O Natal não elimina o sofrimento, mas impede que ele seja o último capítulo. 

Que nesta véspera de Natal cada um encontre o seu poema. Talvez ele não tenha métrica perfeita. Talvez seja apenas um gesto interior de perdão, de recomeço, de confiança retomada, de cuidado silencioso. Algo pequeno, quase imperceptível, como uma manjedoura. É assim que Deus costuma iniciar. 

O Natal confirma que a esperança nunca esteve vencida. Ela aguardava o tempo certo para nascer. Nasce assim, discreta e verdadeira, no centro da noite, no coração da história. O amor chegou! 

Fonte: https://www.cnbb.org.br/

Leão XIV quer cúria romana mais missionária e critica divisões internas

Papa Leão XIV discursa hoje (22) para autoridades da Cúria Romana no Vaticano. | Vatican Media

Por Angela Ambrogetti , CNA Staff , ACI Stampa

22 de dez de 2025 às 16:45

O papa Leão XIV pediu hoje (22) aos funcionários da Cúria Romana que aprofundem tanto a missão quanto a comunhão, instando os escritórios da Santa Sé a serem “mais orientados para a missão” e alertando contra as “forças da divisão” que podem criar raízes mesmo “sob uma aparente calma”.

Em sua mensagem de Natal aos membros da administração central da Igreja, Leão XIV também prestou homenagem ao papa Francisco, a quem descreveu como seu “amado predecessor”, que “este ano concluiu sua vida terrena”.

O papa disse que a “voz profética, o estilo pastoral e o rico magistério” de Francisco encorajaram a Igreja “a colocar a misericórdia de Deus no centro, a dar um novo impulso à evangelização e a ser uma Igreja alegre, acolhedora para todos e atenta aos mais pobres”.

Baseando-se na exortação apostólica Evangelii gaudium, do papa Francisco, Leão XIV concentrou seu discurso naquilo que chamou de “dois aspectos fundamentais da vida da Igreja: missão e comunhão”.

“Por sua própria natureza, a Igreja é voltada para o exterior, para o mundo, missionária”, disse o papa, dizendo que a Igreja existe para convidar as pessoas à “boa nova do amor de Deus”.

Ele disse que as estruturas eclesiais deveriam servir à evangelização, em vez de retardá-la. "As estruturas não devem sobrecarregar ou atrasar o progresso do Evangelho, nem impedir o dinamismo da evangelização; em vez disso, devemos torná-las mais orientadas para a missão", disse Leão XIV.

Aplicando esse princípio diretamente à governança da Santa Sé, o papa disse: “Precisamos de uma Cúria Romana cada vez mais missionária, na qual as instituições, os ofícios e as tarefas sejam concebidos à luz dos principais desafios eclesiais, pastorais e sociais da atualidade, e não meramente para garantir a administração ordinária”.

Leão XIV disse que o mistério do Natal destaca não só a missão do Filho de Deus, mas também o propósito dessa missão: a reconciliação e um novo tipo de fraternidade. "O Natal nos lembra que Jesus veio revelar a verdadeira face de Deus como Pai, para que todos nós pudéssemos nos tornar Seus filhos e, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros", disse ele.

O papa disse que a comunhão dentro da Igreja exige uma conversão contínua, especialmente quando surgem tensões nos locais de trabalho e debates sobre doutrina e prática.

“Por vezes, por baixo de uma aparente calma, podem estar em jogo forças de divisão”, disse ele. Leão XIV falou sobre o perigo de “oscilar entre dois extremos opostos: a uniformidade que não valoriza as diferenças, ou a exacerbação das diferenças e dos pontos de vista em vez da busca pela comunhão”.

Segundo ele, esses padrões podem levar à "rigidez ou ideologia" e aos conflitos que se seguem.

No entanto, disse ele, os cristãos estão unidos em Cristo mesmo em meio à diversidade real. "E em Cristo, embora muitos e diversos, somos um: In Illo uno unum", disse ele.

Leão XIV, particularmente, chamou os funcionários da Cúria de "construtores da comunhão de Cristo", enfatizando uma Igreja sinodal na qual "todos cooperam na mesma missão, cada um segundo o seu carisma e função".

O papa disse que longos anos de serviço podem deixar alguns funcionários da Santa Sé desanimados com a dinâmica do ambiente de trabalho, como "o exercício do poder", "o desejo de prevalecer" ou "a busca de interesses pessoais".

Ele fez uma pergunta diretamente: “É possível ser amigo na Cúria Romana? Ter relações de genuína amizade fraterna?” Ele disse ser “uma graça encontrar amigos confiáveis, quando caem máscaras e subterfúgios”, quando “as pessoas não são usadas nem ultrapassadas” e quando “a cada um se reconhece o seu valor e a sua competência”.

Segundo ele, esses relacionamentos exigem conversão pessoal para que o “amor de Cristo” se torne visível.

O papa também relacionou a comunhão interna ao testemunho público da Igreja num mundo marcado pela violência e polarização. Ele disse que essa conversão se torna um sinal “ad extra num mundo ferido pela discórdia, violência e conflito”, onde há “um crescimento da agressão e da raiva”, muitas vezes “exploradas tanto pela esfera digital quanto pela política”.

“Queridos irmãos e irmãs, a missão e a comunhão são possíveis se colocarmos Cristo no centro”, disse Leão XIV.

Ele também falou sobre a importância do atual ano jubilar da Igreja, dizendo que isso reforça a ideia de que Cristo “é a única esperança que não decepciona”.

O papa fez referência a dois aniversários importantes celebrados este ano: o Concílio de Niceia do século IV, que, segundo ele, reconduz a Igreja “às raízes da nossa fé”, e o Concílio Vaticano II (1962-1965), que “fortaleceu a Igreja e a enviou para dialogar com o mundo moderno”.

Leão XIV encerrou sua fala falando sobre o 50º aniversário da exortação apostólica do papa são Paulo VI, Evangelii nuntiandi, falando sobre a ênfase que ela dá à evangelização como um direito de toda a Igreja e que o primeiro meio de evangelização é o testemunho de uma vida autenticamente cristã.

“Lembremo-nos também disso no nosso serviço na Cúria: o trabalho de cada um é importante para o todo, e o testemunho de uma vida cristã, expresso na comunhão, é o primeiro e maior serviço que podemos oferecer”, disse ele.

Citando o pastor e teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer sobre a humildade de Deus revelada no Natal, Leão XIV orou para que o Senhor conceda à Cúria “Sua própria humildade, sua compaixão e seu amor”, e concluiu desejando a todos os presentes “um santo Natal” e pedindo a Deus que “conceda paz ao mundo”.

Ao fim da troca de cumprimentos, o cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio de Cardeais, ofereceu votos de Natal em nome da Cúria Romana, do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano e da diocese de Roma, e o papa presenteou os funcionários da Cúria com um exemplar de A Prática da Presença de Deus, o clássico espiritual que ele recomendou recentemente.

Fonte: https://www.acidigital.com/

CRISTANDADE: Certeza como maravilha (Parte 2/2)

A cristandade (Facebook)

CRISTANDADE

Arquivo 30Dias nº 12 - 1998

Certeza como maravilha

A Igreja dos últimos vinte anos insistiu em apresentar-se, em seu desafio ao mundo, como uma cidadela de certezas inabaláveis. Mas, para usar as palavras do Concílio de Trento, essas certezas são frequentemente construídas pelo próprio indivíduo, desprovidas de qualquer piedade. O oposto da fé simples dos apóstolos, fortalecida pela admiração da realidade presente.

Entrevista com o Cardeal Godfried Danneels por Gianni Valente

O crescente volume de catecismos modernos e a extensão dos cursos de catecismo não seriam, talvez, resultado da mesma perspectiva? Especialistas explicam que, para se tornar um cristão convicto, é preciso se preparar adequadamente, refletir mais, tomar consciência do significado dos sinais sacramentais... 

DANNEELS: Para mim, a catequese é como a partitura de uma sinfonia. Para descrever uma sinfonia de Mozart, uma partitura impressa é certamente necessária. As notas na partitura, para aqueles que entendem de música, descrevem a sinfonia. Mas a partitura não é a música. A música começa de verdade apenas quando a orquestra começa a tocar, e todos, mesmo os não iniciados, podem ouvi-la. Entretanto, mil reflexões e digressões sobre as notas não produzem sequer um som. Se hoje dedicamos tanto tempo a explicações e lições para conscientizar sobre os sacramentos aqueles que os buscam, talvez seja porque já não reconhecemos a ação objetiva e eficaz da graça, que opera por meio do próprio sacramento. O que a doutrina tradicional chamava de gratia ex opere operato.

Ou seja, a graça que o próprio Senhor comunica nos sacramentos enquanto tais. Quando não há mais fé nessa obra interior da graça, as explicações e as palavras se multiplicam. Em vez disso, o importante no sacramento não é o que pode ser explicado falando sobre ele, mas o que ele faz. O que o próprio sacramento produz. Jesus, na Última Ceia, disse aos seus discípulos: "Tomem e comam". Ele não disse: "Tomem e falem sobre isso, tomem e reflitam sobre isso". E no final acrescentou: "Fazei isto em memória de mim", e não "falem sobre isso em memória de mim". O grande problema é que a Igreja perdeu a fé na graça ex opere operato . Para usar as palavras de Péguy, "o mistério e a operação da graça" não são reconhecidos.

Péguy escreve que, quando a ação da graça é removida, o cristianismo fica apenas com "excelente material didático"... 

DANNEELS: Se a operação da graça for removida, se a Igreja deixar de ser um gesto de graça ou um sacramento de Jesus Cristo, como o último Concílio nos lembrou repetidamente, então toda a Igreja pode facilmente se transformar em uma imensa escola para ensinar os homens a descobrir verdades. Em todas as expressões da missão, o elemento didático e explicativo se expande, mas perdeu toda a dimensão do querigma , o humilde reconhecimento da ocorrência da graça. A este respeito, Pio XI, o Papa que proclamou Santa Teresa de Lisieux como padroeira das missões, escreveu uma belíssima frase em sua encíclica missionária: "E, na verdade, os pregadores evangélicos poderiam trabalhar arduamente, suar e até mesmo dar a vida para levar os não crentes à religião católica; poderiam usar toda a indústria, toda a diligência, todos os meios humanos, mas tudo isso seria em vão, tudo cairia no vazio se Deus, com sua graça, não tocasse os corações dos não crentes para torná-los dóceis e atraí-los a si." Até mesmo o Papa Luciani, quando era bispo de Vittorio Veneto, disse o mesmo em sua primeira homilia na Catedral: "Não se trata de pressa; trata-se apenas da misericórdia e da ternura de Deus. Eu, o bispo, e meus sacerdotes podemos instruir, esclarecer, até mesmo convencer, mas nada mais; somente Deus pode tocar o coração e converter vocês." 

Isso não inclui também a multiplicação de intervenções e documentos eclesiais em todos os níveis sobre todos os fenômenos culturais e sociais da vida moderna? Na sincera intenção de quem os produz, eles deveriam fornecer diretrizes confiáveis ​​para enfrentar os chamados "desafios" do nosso tempo...

DANNEELS: Não creio que a palavra "desafio" seja um bom termo para descrever a relação entre a Igreja e o mundo moderno. Ela evoca um vocabulário de batalha, ou pelo menos contém a ideia de que a fé e a vida cristã ganham credibilidade e interesse no mundo moderno como resultado de dialéticas culturais. Acredito que uma reforma da Igreja é autêntica e frutífera apenas se, em última análise, levar à simplificação, a um retorno ao essencial. Para mim, a maior reforma da Igreja foi a de São Francisco. Ele lia o Evangelho em sua simplicidade e se opunha à adição de notas explicativas às margens do texto, que pretendiam explicar, mas que, no fim, sempre prejudicavam o testemunho vivo das testemunhas oculares. 

Agora, o problema para muitos parece ser este: reapresentar e explicar as verdades cristãs, buscando um discurso persuasivo que ateste sua credibilidade e explique sua necessidade para as pessoas de hoje. É assim que as pessoas tentam convencer os outros dessas certezas... 

DANNEELS: Em primeiro lugar, parece-me um erro de perspectiva. Se o cristianismo não desperta o interesse humano, não é principalmente por falta de explicações sobre suas verdades, como alguns parecem acreditar. E por que o Evangelho e o cristianismo se tornariam interessantes simplesmente por serem explicados e demonstrados como a verdade?

Há muito ceticismo em relação ao que é a verdade. Parece-me que, hoje em dia, a insistência em apresentar o cristianismo como um conjunto de verdades ou a insistência em virtudes morais acaba gerando resistência. Quando a ênfase está na verdade, todos nos tornamos como Pôncio Pilatos, que perguntou em dúvida: o que é a verdade? E quando a ênfase está na transformação dos costumes morais, todos nos sentimos como o pobre Pedro, que se sentiu inadequado, incapaz de seguir Jesus sozinho. Em vez disso, quando o Jesus ressuscitado apareceu, sua presença comoveu e tranquilizou tanto o incrédulo Tomé quanto o pecador Pedro. Isso também pode revelar o erro de uma certa maneira de conceber a certeza cristã. 

Qual delas? 

DANNEELS: A certeza cristã não é o resultado da reflexão, da consciência da verdade eterna do cristianismo. Como ensina o Primeiro Concílio Vaticano na constituição De fide catholica.A doutrina da fé não é apresentada como um "philosophicum inventum", uma invenção filosófica (Denzinger 3020). A certeza cristã tem uma dinâmica completamente diferente. Ninguém se torna cristão e cresce na certeza da fé por meio de uma explicação, por meio da reflexão sobre as verdades cristãs, mas somente por meio de um encontro com a presença gratuita do Jesus Cristo vivo. O início é sempre um impacto estético, algo belo de se contemplar, algo que atrai. Penso ser notável que Jesus tenha dito às primeiras pessoas que encontrou: "Sigam-me". Ele não lhes disse: "Escutem as verdades que lhes direi e reflitam sobre elas". Ele simplesmente lhes disse para segui-lo. Não se pode seguir uma ideia; só se pode seguir uma presença humana que tenha despertado interesse. Se não houver primeiro um encontro desse tipo, um que desperte interesse, o esforço para explicar as razões do cristianismo fracassa, ou até mesmo corre o risco de parecer pretensão. 

Há uma frase de São Gregório de Nissa, recentemente revisitada pelo Padre Luigi Giussani, que alude a essa dinâmica da certeza cristã: "Conceitos criam ídolos, só a admiração sabe". 

DANNEELS: É uma descrição excepcional. A convivência dos apóstolos com Jesus foi uma experiência assim. A certeza deles brotou, floresceu e cresceu somente dentro de uma atração despertada por uma presença real, uma admiração que se repetiu e cresceu ao longo de sua convivência com Jesus. Como diz Santo Agostinho: "Non cognoscitur nisi per amicitiam", não se conhece senão pela amizade. Eles conheceram Jesus porque, maravilhados com sua presença, viveram com ele e assim se tornaram seus amigos. Isso fica claro nas histórias da ressurreição. O Jesus ressuscitado, ao encontrar seus seguidores, não faz grandes discursos nem os incita a pensar, a refletir para encontrar significado. Jesus não profere o Sermão da Montanha, não acrescenta parábolas após a ressurreição. Quando Jesus chega, ele simplesmente diz: eis-me aqui, eis-me aqui. A partir do espanto dos apóstolos com a sua presença tangível após a Páscoa, que com o tempo renovou de forma ainda maior o espanto dos primeiros encontros, nasceu a fé do mundo. Palavras e pensamentos por si só não podem incutir a certeza da fé, que é de ordem sobrenatural, isto é, fruto de uma revelação e comunicação livres. Por isso, me espanta ver que a grande maioria dos discursos da Igreja se dirige ao Senhor usando a terceira pessoa do singular: Ele é. O "Tu" já não é usado, o "Tu" da oração, dos sacramentos. É mais um sinal de que passamos do encontro, do diálogo, para a reflexão sobre.
Há uma imensa diferença entre refletir sobre a grandeza de Deus e poder dizer: Tu, Senhor, és grande e misericordioso.

Se o cristianismo é meramente "um excelente tema para o ensino", os competentes, aqueles que conhecem essas verdades até mesmo profissionalmente, têm uma vantagem. Se, no entanto, a certeza surge da admiração por um encontro, isso pode acontecer livremente a qualquer pessoa.

DANNEELS: O próprio Jesus disse: "Eu te bendigo, Pai, que revelaste estas coisas aos pequeninos e aos ignorantes, e não aos inteligentes". Jesus ficou admirado com isso, ficou admirado com isso no Espírito. É um dos poucos episódios do Evangelho em que a admiração de Jesus se destaca, assim como a admiração que ele sentiu pela fé do centurião. É isso que comove o coração de Deus. Ver a admiração dos homens diante dos gestos de Sua graça é o que admira e comove o coração de Deus.

Em seu livro Admirável Mundo Novo, Erich Voegelin explica que os gnósticos viam um "elemento de insegurança" na fé cristã. Para dissipar essa sensação de vertigem, de precariedade, eles se esforçaram para "buscar um fundamento mais sólido para sua existência no mundo" por meio da "criação de certezas imaginárias". Seria a certeza da fé, então, uma certeza "insegura"?

DANNEELS: A graça da fé proporciona uma certeza muito humana, mas nunca é uma certeza fabricada , entendida como uma posse adquirida, como um domínio sobre a realidade que o homem pode manipular e reproduzir. Aqueles que seguem Jesus não conseguem imaginar, antes de partir, como serão todos os passos da jornada. Os apóstolos que o seguiram seus passos, mas não imaginaram que ele caminhava em direção à cruz e à ressurreição. Eles eram como crianças seguindo o pai caminhando na neve, sem conseguir enxergar à frente porque as costas do pai são muito largas. Mas o pai está com eles, e assim caminham felizes e confiantes. A certeza cristã, como sugere o salmo, tem a mesma dinâmica da admiração e do abandono da criança nos braços da mãe. Por isso, fico perplexo com essas teses teológicas que pretendem racionalizar até mesmo os mistérios da escatologia, partindo do conceito filosófico de eternidade. Sabemos pouco sobre os mistérios últimos. Sabemos que a misericórdia nos abraçará. Mas não sabemos tudo. Querer ir além disso, querer racionalizar dentro de um sistema sem respeitar humildemente todos os dados do Evangelho, é como querer se apropriar do Mistério.

Fonte: https://www.30giorni.it/

As bem-aventuranças (3): o microfone de Deus

Foto/Crédito: Opus Dei.

As bem-aventuranças (3): o microfone de Deus

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." A dor pode ser uma experiência que nos permite acolher a Deus. Este texto, voltado para os jovens, fala sobre as bem-aventuranças propostas pelo Papa Francisco para preparar para a Jornada Mundial da Juventude, na Polônia.

01/07/2016

Aquele não era um mestre como os outros. As centenas de pessoas que se espalhavam pelas ladeiras da colina ouviam com surpresa sua pregação, feita com palavras novas. Tinha chamado felizes os pobres e havia prometido o Reino dos Céus.

Para que a primeira bem-aventurança penetrasse bem nos corações, o Senhor provavelmente faria uma pausa antes de enumerar a segunda. Então disse: Felizes os que choram, porque serão consolados[1].

Ao ouvir estas palavras, muitos levantariam a cabeça. Não eram felizes e, por isso, tinham deixado sua casa e sua aldeia para caminhar durante dias em busca desse Rabi que incendiava os corações. Queriam ser curados de uma doença, libertar-se de uma situação injusta, mudar de vida ou recuperar a esperança em Deus. Mas, chorar? Como pode o Senhor desejar que choremos, que soframos? Qual Salvador promete lágrimas a seus seguidores?

Surpresos, meditariam as palavras do Mestre. Depois de ter-se dirigido aos pobres, o Senhor indica agora um caminho aos que choram. É um Messias que não fala só aos ricos, nem aos que gozam de muitos talentos, nem àqueles a quem tudo corre bem na vida. Esse Mestre tem uma mensagem para todos, porque: quem não chorou alguma vez? Quem duvida de que a tristeza, a adversidade ou a dor aparecerão antes ou depois na própria vida?

O microfone de Deus

Para que precisamos de Deus? É uma pergunta que pode surgir em alguns momentos da nossa existência. São épocas em que temos outras ocupações mais interessantes ou urgentes para fazer. Nossa cabeça e nosso coração estão em outras coisas, e a relação com o Senhor é vista como uma carga, cheia de regras e compromissos (por exemplo, assistir à missa aos domingos), da qual nada obtemos. Não vale a pena.

É que quando na vida navegamos como num mar calmo, a sensação de sermos os capitães do nosso próprio barco pode levar-nos a duvidar, inclusive, de Deus. No entanto, basta pouco para compreendermos que a nau que conduzimos é muito frágil. Uma doença, problemas na família, um amor não correspondido ou a sensação de que nada nos completa são experiências capazes de lançar uma sombra sobre tudo o que nos rodeia.

O escritor C. S. Lewis interpreta esses momentos de dor – física ou interior – como uma chamada forte de Deus. “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas horas de sofrimento: esse é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo”[2].

Efetivamente, Deus nos acompanha sempre e seus conselhos na vida ordinária nos chegam como um sussurro. Não se impõe, mas propõe. Por isso, não é estranho que o ruído interior, as preocupações ou os interesses que ocupam nosso espírito cheguem a esconder a Sua voz. Simplesmente, nos esquecemos do Senhor e O encurralamos no nosso interior. Tornamo-nos surdos. Mesmo assim, ainda que Deus não deseje nem provoque nossa dor, volta para acompanhar-nos no momento da prova, pois não nos abandona nunca.

Que alguém diga o seu nome

Os sofrimentos que aparecem na vida podem ser provocados por uma situação objetiva – o falecimento de um familiar, uma época de dificuldade econômica ou profissional, uma doença, etc. São ocasiões em que a solução para o problema não está completamente em nossas mãos. Nesses momentos, podemos aprender de Maria Madalena, uma das muitas personagens que – como o próprio Jesus, a Virgem, São Pedro ou São Paulo – vemos chorar nos Evangelhos.

Dois dias depois da crucifixão do Senhor, Maria acode ao túmulo do Mestre para limpar o cadáver com aromas. A sua dor não é um obstáculo para servir a Jesus uma última vez. Quantas recordações a invadiriam naquela manhã, sozinha, nas ruas de Jerusalém! Porém, ao chegar ao sepulcro e descobrir que está vazio, Madalena se desmorona. Não lhe resta nem sequer o consolo de ver o corpo do Senhor: tiraram-lhe tudo. Perguntaria uma e outra vez a Deus: Por quê? Por quê?

“Mulher, por que choras?”[3], lhe diz uma voz. Ela, pensando que fosse o jardineiro, responde: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo”. Aquela mulher não podia imaginar o que havia ocorrido: só Deus conhece o porquê dos fatos que nos podem levar ao desespero. “Maria!”, chama o Senhor. “Rabûni! Mestre!”, grita ela de alegria ao reconhecê-lo.

“Maria!” Ao ser chamada, os olhos de Madalena se abrem à verdade. Às vezes, só necessitamos que alguém diga o nosso nome com amor para que as penas se iluminem. Quando não encontrarmos sentido na dor e já não soubermos o que fazer, é bom ir em frente ao Sacrário, deixar o problema nas mãos de Deus e ouvir ao Senhor que pronuncia o nosso nome.

O elefante na estaca

Mas quem deseja encontrar o Senhor na sua vida cotidiana não precisa esperar uma grande tragédia para obter o consolo de Deus, mas as pequenas decepções, desânimos, queixas ou contrariedades de cada dia serão oportunidades para buscar a Sua ajuda.

Especificamente, uma fonte de dor costuma ser a acumulação de misérias pessoais. Embora pensemos que não fizemos nada de grave na vida, o nosso coração conserva a lembrança de cada ferida. De modo misterioso, a alma se cansa dos pecados cometidos, grandes e pequenos. E assim, um dia, sentimo-nos esgotados, desmotivados ou nos desprezamos sem motivo. Nesses momentos, ficamos especialmente fracos, por isso não convém permanecer tristes por muito tempo, porque a tristeza chama o pecado, e assim quando estamos irritados, chateados ou derrotados podemos cometer grandes bobagens. “Um abismo chama outro abismo”[4], diz a Bíblia.

“Todos nós temos escuridões na nossa vida” – reconhece o Papa Francisco – “ocasiões em que há escuridão em tudo, inclusive na própria consciência. Caminhar nas trevas significa estar satisfeito consigo mesmo; estar convencido de que não precisa de salvação: Essas são as trevas!”[5] De fato, como aponta o Papa, existe o perigo de nos conformarmos com a nossa miséria e de preferir a amargura à mudança, porque a mudança implica crescimento, luta, maturidade. Pensamos: “deveria estudar”, “deveria discutir menos com meus pais e compreendê-los”, “deveria abandonar esse vício”… porém, muitas vezes, ficamos apenas nos desejos.

Antigamente, para que os elefantes não fugissem dos circos, costumava-se atá-los a uma estaca com uma corda grossa. O enorme animal possuía uma força imensa e poderia libertar-se com um puxão da pata. Por que não tentava? Porque, assim que nasciam, eram presos a esse pau e, ainda pequenos, lutavam para escapar, porém perdiam logo a vontade de continuar tentando. Já grandes, sem consciência da força adquirida, continuavam vencidos por aquela simples estaca.

Pode nos ocorrer a mesma coisa: durante muito tempo, lutamos contra defeitos que nos superam e, cansados no fim, deixamos de combater. Levantar-nos cedo de manhã, estudar o tempo que havíamos previsto, viver a castidade, falar com sinceridade na confissão ou ser amáveis quando os outros nos contrariam podem ter-se tornado guerras impossíveis de vencer. E não é assim: com a ajuda de Deus, temos de continuar tentando, porque talvez o que antes não era possível, agora será com um pouco de esforço. Além disso, contamos com a graça de Deus: Ele só nos pede que correspondamos, pede-nos que estiquemos o nosso braço para segurarmos o dEle.

Quem ainda não é maduro o suficiente para ver que a causa de seus problemas está em si mesmo, pode reagir com rebeldia ou acusando outros (a família, os amigos, o “sistema”, etc.). Acontece que o pecado nos fecha em nós mesmos e deixamos de levantar os olhos para os outros e para Deus. Já não vemos as necessidades alheias, e só pensamos no que nos afeta.

Por isso, um primeiro passo para libertar-nos da dor pode ser olhar com outros olhos para os que nos rodeiam e deixar de atribuir a eles as culpas do nosso sofrimento. Ajudar em casa, preocupar-nos pelos problemas dos nossos pais, dedicar tempo e atenção a um amigo que precisa ou comprometer-nos numa iniciativa de solidariedade pode ser um bom começo. Descobriremos, entre outras coisas, que possuímos a enorme capacidade de fazer os outros felizes. Vale a pena realizar esse esforço!

Outra vez, e outra e outra e outra

São Josemaría perguntava: Não há alegria?  Então pensa: há um obstáculo entre Deus e mim.  Quase sempre acertarás.”[6]. É que, para sair de um contratempo na vida, uma boa confissão, algumas vezes, pode ajudar muito. Se ainda não estamos preparados para nos confessar, podemos pelo menos fazer exame de consciência e reconhecer que precisamos mudar. Se o nosso orgulho não nos impede, Deus nos dará inclusive as forças que às vezes precisamos para pedir perdão.

Os obstáculos que poderão aparecer – “melhor confessar-me outro dia”, “não estou preparado para contar esta coisa”, “o sacerdote não vai me entender”, “quando tiver vontade”...; são armadilhas que o diabo coloca no nosso caminho, que temos de atravessar com decisão. Não devemos conceder-lhe nem uma só vitória. De joelhos diante do sacerdote, na presença de Deus, não só cairá de nossa alma a máscara de mentiras que nos sustentava fragilmente, como o Senhor nos encherá da sua graça.

“Pensamos que ir à confissão é como ir à lavanderia, mas Jesus no confessionário não é uma lavanderia” e sim um encontro com Alguém “que nos espera como somos. Mas, Senhor, olha, eu sou assim. Temos vergonha de dizer a verdade, ‘fiz isso, pensei aquilo’ (...) a capacidade de envergonhar-se é uma virtude do humilde". Portanto, devemos confessar-nos “com confiança, também com alegria, sem nos maquiar. Não devemos jamais nos maquiar diante de Deus! Com a verdade. Com vergonha? Bendita vergonha…” E, com otimismo, o Papa pergunta-se: “E se amanhã fizer o mesmo? Confesse-se outra vez, e outra e outra e outra… Ele te espera sempre”[7]. E em outra ocasião dizia: “Deus não se cansa de perdoar; nós é que cansamos de pedir perdão”.

Só assim a nossa fragilidade não será um peso que nos enche de insegurança, mas uma ocasião para viver com a alegria, que só possuem aqueles que sabem que são filhos de Deus. Assim o aconselhava São Josemaría: “Triste?... Por teres caído nessa pequena batalha? Não! Alegre! Porque na próxima, com a graça de Deus e com a tua humilhação de agora, vencerás!”[8].

Então compreenderemos que as lágrimas que nos levaram até ali – os sofrimentos interiores, a debilidade ou as dúvidas – valeram a pena. Conhecer-nos-emos melhor e, acima de tudo, saberemos que contamos com a ajuda do Senhor. Quando abandonarmos nossos pesares em Deus e saborearmos a paz e a alegria serena da confissão, entenderemos, enfim, porque Jesus chamou “bem-aventurados” os que choram.

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Preguntas para a oração pessoal

 Pratico a fé unicamente quando é útil? Lembro-me do Senhor só quando preciso pedir algo? Para não me esquecer de Deus nas épocas em que outras coisas ocupam minha cabeça, poderia buscar um momento no dia para falar uns minutos com Ele ou recitar alguma oração? Posso concretizar com meu diretor espiritual um plano para conversar com Deus diariamente?

 Aceito as coisas que não são como eu gostaria? Peço a Deus que me ajude a ver a Sua vontade e a aproveitar essas ocasiões para aproximar-me mais dEle?

 Quando me chateio ou uma situação fica complicada, penso em que mais eu poderia fazer? Critico sempre os outros sem reconhecer nunca a minha parte de responsabilidade? Peço perdão quando percebo que errei ou feri, mesmo que me custe?

 Que obstáculos me afastam de pedir perdão a Deus na confissão? Se já me confesso, faço alguma coisa para aprender a me confessar cada vez melhor? Vou confessar-me com a atitude de quem vai “esvaziar o carrinho de mão” ou procuro pedir perdão ao Senhor de verdade, com o coração?

J. Narbona / J. Bordonaba


[1] Mt 5,4.

[2] C. S. Lewis, O Problema do sofrimento.

[3] Jo 20,11-18.

[4] Sal 42,8 .

[5] Homilia do Papa Francisco, 29/04/2013.

[6] Caminho, n. 662.

[7] Homilia do Papa Francisco, 29/04/2013.

[8] São Josemaria, Via Sacra, III estação, n. 3.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF