É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E FÉ?
19/02/2026
Dom Julio Endi Akamine
Arcebispo de Belém do Pará (PA)
“Ciência e religião não estão em contradição, mas têm
necessidade uma da outra para completar-se na mente do homem que pensa
seriamente” (Max Planck). A razão e a fé são distintas, mas não se separam: a
ciência se dedica à cena do ser, ao fenômeno, aos dados e aos fatos, ao “como”;
a religião se consagra ao “fundamento”, ao sentido último do ser, ao “por
quê”.
Quem crê pensa, e quem pensa pode crer. Para constatar esse
fato, basta prestar atenção ao modo como em nossa vida cotidiana conhecemos
mais por fé do que por evidência e demonstração. As nossas convicções mais
firmes, na realidade, não são baseadas em demonstrações. Por exemplo: a
segurança com que o filho, que volta depois de uma longa ausência, reconhece os
pais na rodoviária, a certeza com que, num matrimônio bem-sucedido, um cônjuge
refuta uma calúnia contra o outro cônjuge, não são precedidas de argumentações,
nem implicam dúvidas.
Tal reconhecimento imediato e intuitivo, embora não sendo
fruto de um raciocínio explícito, pode ser explicado e justificado por meio de
um raciocínio. Um perito, que, ao primeiro olhar, reconhece numa pintura a obra
de um grande mestre, pode em seguida apontar os critérios que demonstram a
validez da atribuição: se não for capaz disto, sua intuição se tornará
suspeita.
A razão ajuda a crer melhor, e é uma ajuda indispensável
para aprofundar a compreensão da fé e para comunicar o seu conteúdo de maneira
razoável, inteligível e dialogal aos outros. Assim o fiel cristão pode refletir sobre
a certeza da própria fé e pode prestar contas de sua razoabilidade. Com efeito,
a fé deve apresentar-se como um ato racional. Se assim não fosse, o cristão não
poderia ser convidado a prestar contas da esperança que está nele
(cf. 1Pd 3,15). A verdade revelada por mais sobrenatural que seja
nunca é irracional ou absurda no senso forte.
A fé não é a conclusão de uma pesquisa científica. Se a fé
fosse fruto de uma demonstração, já não mais seria uma adesão livre e,
portanto, não seria culto a Deus. Por outro lado, nenhuma demonstração
científica pode conduzir àquela firmeza que é peculiar da fé: quem crê está
pronto a dar a vida pela sua fé.
O próprio ato de crer consiste exatamente em dar o
assentimento refletindo. De fato, quem crê pensa, e crendo pensa e pensando
crê. A fé se não é pensada não é nada. Se se tira o assentimento, se elimina a
fé, porque sem o assentimento não se dá a fé (Santo Agostino, PL
35,1631.178). Outro adágio de Santo Agostinho é muito apropriado: “creio
para compreender, e compreendo para melhor crer”. A fé se volta para si
mesma para buscar a inteligência do próprio conteúdo.
Nesse sentido, a fé não paralisa a razão, antes a impulsiona
a penetrar mais profundamente no mistério revelado para que a fé adira ainda
mais fortemente. A busca da inteligência daquilo que se crê não é motivada por
fatores alheios à própria fé; é pela sua própria natureza que a fé busca
compreender, aprofundar e transmitir o seu conteúdo. É a própria fé que exige,
portanto, a responsabilidade de um estudo constante dos seus conteúdos, de um
crescimento permanente e de um cultivo cuidadoso na vida de fé.
O testemunho cristão, em nosso tempo, precisa mais do que
nunca se motivar, bebendo das fontes da reflexão. Precisa, sobretudo, recuperar
o porquê de valer a pena acreditar. Em outras palavras: é preciso pensar a fé.
O não pensar a fé pode levar facilmente as pessoas a estranhar-se da fé, a não
a acolher em sua dupla valência de dom e de livre aceitação, de dom e
responsabilidade.
A fé não age como um elemento extrínseco ou exógeno na
filosofia, na cultura, nas ciências e nas tradições religiosas. Ela age como
fermento, a partir de dentro e levando à plenitude a filosofia, as ciências, as
culturas e as religiões.
A fé pensa e dá o que pensar. Ela emancipa a razão humana
abrindo-lhe horizontes de pesquisa e descoberta mais amplos, verdadeiros e
humanizantes. A fé não bloqueia a razão, antes solicita o ser inteligente a
caminhar em busca da verdade sem jamais se cansar, apesar de toda a canseira
que essa busca implica.
A verdade é a meta da busca tanto da fé quanto da ciência.
Hoje é muito difícil falar de “verdade” sem ser acusado de autoritarismo e
desejo de domínio, mas a verdade não deve ser entendida como instrumento de
imposição e de dominação. Ela é que dá sentido e significado genuíno à vida
humana. Tanto a ciência quanto a fé estão a serviço da busca e do encontro
daquilo que é sumamente significativo e humano.
A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos
nossos passos, ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende
que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre
os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a
pessoa amada (LF 27).
Ciência e fé também estão unidas na superação do sofrimento
humano. Elas informam e dão forma a um agir autenticamente humano. O agir
cristão não se contrapõem ao que é autentica e verdadeiramente
humano, pelo contrário procura ser um agir plenamente humano que nos faça mais
humanos, nos faça verdadeiramente humanos.
Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que
explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o
acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para
nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar conosco
esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz (LF).

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