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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

EDITORIAL: Nosso pecado e o peso de um mundo em chamas

Papa Leãp XIV (Vatican Media)

A homilia de Leão XIV na Missa da Quarta-feira de Cinzas e a nossa responsabilidade.

Andrea Tornielli

"Como é raro encontrar adultos que se arrependem, pessoas, empresas e instituições que admitem ter errado!" As palavras pronunciadas pelo Papa Leão XIV na homilia da Missa da Quarta-feira de Cinzas fotografam uma realidade do nosso tempo: vivemos circundados por pessoas, empresas e instituições em todos os níveis que raramente admitem que erraram. Temos enormes dificuldades em admitir que cometemos erros e pedir perdão, reconhecendo o nosso erro.

O início da Quaresma é uma grande oportunidade para os cristãos se reconhecerem como pecadores, necessitados de ajuda e de perdão, e chama a atenção como o Sucessor de Pedro tenha desejado enfatizar a sua dimensão comunitária: "A Igreja também existe como profecia de comunidades que reconhecem os seus pecados". Em vez de buscar sempre o inimigo externo, em vez de olhar para o mundo considerando-nos sempre justos e do lado certo, somos chamados a uma atitude contracorrente e a "um corajoso assumir de responsabilidades", pessoal mas também coletivo.

Porque é verdade que o pecado "é pessoal", como enfatizou o Papa. Mas é igualmente verdade — acrescentou ele, ecoando a Encíclica Sollicitudo rei socialis de São João Paulo II — que isso "ganha forma nos ambientes reais e virtuais que frequentamos, nas atitudes com que nos condicionamos mutuamente, muitas vezes dentro de autênticas “estruturas de pecado” de ordem económica, cultural, política e até religiosas".

Entre estas poder-se-ia incluir, por exemplo, alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro, que produz enormes desequilíbrios e injustiças, definido pelo Papa Francisco em sua primeira exortação apostólica como "uma economia que mata". Ou os enormes interesses econômicos que impulsionam o vasto mercado de armamentos, que precisa ser alimentado por conflitos permanentes.

As cinzas sobre a cabeça de cada indivíduo e da comunidade como um todo nos convidam a sentir, como disse Leão XIV, "o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras destruídas pela guerra: as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos, as cinzas de ecossistemas inteiros e da concórdia entre as pessoas, as cinzas do pensamento crítico e de antigas sabedorias locais, as cinzas daquele sentido do sagrado que habita em cada criatura".

Ao iniciarmos o caminho quaresmal, torna-se assim importante essa coparticipação, na consciência que o pecado pessoal se amplifica e se cristaliza em "estruturas de pecado".

É por isso que, ao recebermos as cinzas sobre a cabeça, somos chamados a um exame de consciência em relação aos nossos próprios erros, mas também àqueles que reverberam em grande escala. E assim, ao sentirmos o peso de um mundo em chamas, podemos nos perguntar, como comunidade, como país, como Europa, como organizações internacionais: fizemos tudo o que era possível para pôr fim à trágica guerra na Ucrânia, que começou com a agressão russa em 2022? Será que tudo foi feito para buscar soluções negociadas, ou o único objetivo real perseguido hoje é apenas uma corrida armamentista insana? Como foi possível testemunhar, após o ataque desumano perpetrado pelo Hamas contra os israelenses, a destruição total de Gaza com suas mais de setenta mil mortes? Por que nada de concreto foi feito para acabar com o massacre? Como é possível aceitar que existam países onde a livre expressão do protesto popular seja brutalmente reprimida, com milhares de vítimas? E ainda, como é possível aceitar, em nome de uma vida pacífica ou de uma pertença política, a perpetuação da ecatombe que ocorre no Mar Mediterrâneo, com migrantes que ali se afogam?

"Reconhecer os nossos pecados para nos convertermos - concluiu o Papa - é já um presságio e um testemunho da ressurreição: significa, efetivamente, não nos determos nas cinzas, mas levantarmo-nos e reconstruir".

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF