A OITAVA DA PÁSCOA NO CRISTIANISMO ANTIGO
08/04/2026
por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá
Os santos padres, os primeiros escritores cristãos tiveram
presentes considerações importantes sobre a oitava da Páscoa na qual nós a
estamos celebrando na comunidade com fé, com esperança e com caridade. A Páscoa
é passagem da morte para a vida em Jesus Cristo. Ele é o eterno vivente, Aquele
que não está mais no sepulcro (cf. Mt 28,5) está nas dimensões humana e divina,
Jesus Cristo. Nós celebramos a eucaristia do Domingo de Páscoa, na qual a
mensagem central é: Cristo ressuscitou dos mortos. Vejamos a seguir algumas
afirmações fundamentais a respeito da oitava da Páscoa nos santos padres e
ilumine a nossa realidade rumo à eternidade.
O mistério pascal
Melitão de Sardes, Bispo no século II, Ásia Menor falou a
respeito do mistério pascal que é ao mesmo tempo novo, segundo a Palavra de
Deus que se fez carne (cfr. Jo 1, 14) e é antigo segundo a Lei; transitório,
pela figura; eterno pela graça; corruptível pela imolação do cordeiro;
incorruptível pela vida do Senhor; mortal pela sua sepultura e é também imortal
pela sua ressurreição dentre os mortos[1].
As descrições da Lei e da Palavra
O Bispo de Sardes descreveu a Lei que na verdade é antiga,
mas a Palavra é nova; a figura é transitória, mas a graça é eterna; se o
cordeiro é corruptível, mas o Senhor é incorruptível. Ele foi imolado como
cordeiro, mas Ele ressuscitou como Deus[2]. A Páscoa está em ligação profunda com o
Senhor Jesus Ressuscitado dentre os mortos.
Ovelha, Cordeiro: Deus, Cristo
A homilia tem presentes que Jesus era como ovelha levada ao
matadouro, pela sua morte salvadora, e contudo não era ovelha; foi dito que era
como cordeiro silencioso (cfr. Is 53,7) e no entanto não era cordeiro. Na
verdade a figura passou e apareceu a realidade perfeita, pois em lugar de um
cordeiro, apareceu Deus; em vez de uma ovelha, apareceu Cristo que tudo contém[3].
Deus-Homem
O Bispo de Sardes disse também que o Senhor, sendo Deus
fez-se ser humano, homem, e sofreu por aquele que sofria, foi encarcerado em
lugar do prisioneiro, condenado em vez do criminoso e sepultado em vez do que
jazia no sepulcro, ressuscitou dentre os mortos. A ação do Senhor foi aquela de
libertar o condenado, pois Ele deu a vida ao morto, ressuscitou o que estava
sepultado. O Senhor Jesus Cristo que destruiu a morte, triunfou do inimigo,
calcou aos pés o inferno, arrebatou o ser humano para as alturas dos céus[4].
Jesus se apresenta como o perdão, a Páscoa
Jesus Ressuscitado se apresenta como o perdão diante do
pecado humano; Ele é a nossa Páscoa da salvação: o Cordeiro imolado para toda a
humanidade, a água que purifica a todas as pessoas, a ressurreição, a luz, a
nossa salvação[5].
A sua missão salvadora passando por Jerusalém
Santo Anastácio, Bispo de Antioquia, século VI afirmou que
Jesus Cristo, por suas palavras e ações sendo verdadeiro Deus e Senhor do
Universo, disse que a sua missão salvadora deveria passar por Jerusalém: “Eis
que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos
gentios, aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei, para ser escarnecido,
flagelado e crucificado” (Mt 20,18.19). Jesus também estava em unidade com as
predições dos profetas, que haviam anunciado a sua morte em Jerusalém[6].
A salvação humana
O Bispo de Antioquia colocou o dado que a Sagrada Escritura
havia predito a morte de Jesus com os sofrimentos que precederiam pelos
julgamentos religioso e político dando as sentenças de morte de Jesus. O motivo
essencial pelo qual o Verbo de Deus se submeteu à morte era a salvação humana[7] na qual Jesus doou tudo de si para o
bem e o amor a todas as pessoas da humanidade.
O sofrimento de Jesus
Santo Anastácio disse que era preciso que Jesus Cristo
padecesse pelo bem da humanidade pecadora. A sua paixão era necessária que
acontecesse, porque foi o próprio Filho quem a declarou, pelo qual Ele chamou
de insensatos e lentos de coração os que ignoravam que Cristo padecesse, para
que assim Ele entrasse em sua glória (cfr. Lc 24,25-26). Desta forma Ele veio
ao encontro de seu povo para salvá-lo, deixando aquela glória que tinha junto
do Pai antes da criação do mundo. Por isso a salvação devia consumar-se por
meio da morte do autor da vida em vista da vida da humanidade, tornando-se Ele
desta forma, princípio da vida (cf. Hb 2,10)[8].
A glória divina dada por meio da cruz
A glória do Filho Unigênito, glória divina que por nossa
causa Ele havia deixado por breve tempo, foi-lhe restituída por meio da cruz,
pela encarnação do Verbo que Ele que tinha assumido. Desta forma a morte de
Cruz era para Jesus no evangelho de São João, a glória: “Quando eu for elevado
da terra atrairei todos a mim” (Jo 12,32). O Senhor orava antes de ser
crucificado, pedindo ao Pai que o glorificasse com aquela glória que tinha
junto dele, antes da criação do mundo (cfr. Jo 17, 5)[9].
Os santos padres, os primeiros escritores cristãos
escreveram homilias, textos maravilhosos a respeito da oitava da Páscoa, sendo
um dia em oito dias e oitos dias num único dia, para especificar a importância
do mistério pascal, de sua passagem da paixão, morte à ressurreição em vista da
salvação humana e para a glória de Deus Uno e Trino.
[1] Cfr. Da Homilia sobre a Páscoa, de Melitão de Sardes. Nn.2-7. 100-103; SCh 123, 60-61: 120-122. In: Segunda-feira na oitava da Páscoa – Liturgia das Horas Online.
Notas:
[2] Cfr. Idem.
[3] Cfr. Ibidem.
[4] Cfr. Ibidem.
[5] Cfr. Ibidem.
[6] Cfr. Dos sermões de Santo
Anastácio de Antioquia. (Oratio 4,1-2; PG 89, 1347-1349). In: Terça-feira
na Oitava da Páscoa – Liturgia das Horas Online.
[7] Cfr. Idem.
[8] Cfr. Ibidem.
[9] Cfr. Ibidem.

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