Como acolher adolescentes em crise: Daniel Becker lista
sinais de alerta e dá dicas práticas para pais e educadores
O pediatra defende a criação de espaços de escuta sem
julgamentos e o uso de estratégias simples, como conversas no carro, para
romper o isolamento dos jovens.
03/04/2026 06h00 Atualizado 10h00
A Pesquisa Nacional
de Saúde do Escolar, realizada pelo IBGE, colocou
luz sobre a crise de saúde mental que aflige os jovens brasileiros. De
acordo com os dados colhidos a partir de 118 mil estudantes, são crescentes os
índices de tristeza e desânimo entre adolescentes de 13 a 17 anos.
O quadro exige novas estratégias de abordagem de pais, mães
e educadores a esses jovens. No
podcast O Assunto, pediatra e sanitarista Daniel Becker destaca
que, embora o cenário seja complexo devido ao impacto das redes sociais e do
confinamento digital, existem caminhos para reconstruir vínculos e aumentar o
acolhimento.
Sinais de alerta: o que observar
Becker enfatiza que a família deve estar atenta a mudanças
de comportamento que podem indicar sofrimento profundo ou depressão. Entre os
sinais listados estão:
- Isolamento
extremo: o adolescente deixa de participar de refeições e
reuniões familiares, preferindo ficar trancado no quarto com telas;
- Alterações
físicas e escolares: cansaço excessivo, olheiras por falta de
sono, desculpas para faltar às aulas (que podem indicar bullying) e queda
repentina no rendimento escolar;
- Discursos de desesperança: frases como "não sirvo para nada" ou "não quero mais viver" devem ser tratadas com seriedade imediata, pois indicam risco de suicídio.
A técnica da conversa no carro
Uma das orientações mais práticas do médico é sobre a forma
de abordagem. Becker sugere que conversar no carro ou no ônibus é mais eficaz
do que o confronto direto.
"No carro, a gente não olha para o adolescente e ele
não se sente julgado. Como estão todos olhando para a frente, a conversa flui
melhor porque ele não se sente observado", explica o pediatra
Dicas para o acolhimento afetivo
Para o especialista, o espaço de convivência não pode ser
focado em sermões, mas sim em afeto e delicadeza. Ele recomenda as seguintes
abordagens:
- Escuta
ativa: é fundamental ouvir o jovem sem forçar a barra ou aplicar
punições excessivas. O objetivo é servir como guia e orientação;
- Convites
para o "mundo real": chamar o adolescente para
atividades simples, como ver um jogo, ir ao cinema ou jantar, ajuda a
manter o contato com a realidade fora das telas;
- Rede
de apoio: envolver avós, tios e amigos da família para que o jovem
tenha diferentes pontos de contato e suporte;
- O papel do esporte: Becker afirma categoricamente que "o esporte salva na adolescência", sendo essencial para retirar o jovem do confinamento digital.
Quando buscar ajuda profissional
Se os sinais de alerta persistirem, o médico orienta que os
responsáveis devem "arregaçar as mangas" e procurar imediatamente um
profissional de saúde mental
Além disso, a articulação com a escola é indispensável para
entender o comportamento do jovem fora do ambiente doméstico
"A atenção amorosa ao adolescente hoje é
fundamental. Eles dizem que se sentem não vistos, não reconhecidos, e isso
agrava tudo", conclui Becker
O Assunto é o podcast diário produzido pelo g1, disponível
em todas as plataformas de áudio e no YouTube. Desde a estreia, em agosto
de 2019, o podcast O Assunto soma mais de 168 milhões de
downloads em todas as plataformas de áudio. No YouTube, o podcast diário
do g1 soma mais de 14,2 milhões de visualizações.

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