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terça-feira, 12 de março de 2024

Cardeal Scherer: Uma aposta perigosa

Jogo de azar (Imagem: Divulgação)

No Congresso Nacional tramita há mais de 30 anos o Projeto de Lei (PL) 442/1991, sobre a legalização dos jogos de azar. Depois de várias tentativas frustradas de aprovação, o PL 442/91 foi novamente retomado com força total e já passou pela Câmara dos Deputados, esperando ser apreciado e votado no Senado.

Cardeal Odilo Pedro Scherer - Arcebispo de São Paulo 

Ao que tudo indica, além da pressão de grupos interessados na legalização dos jogos de azar no Brasil, desta vez a busca de arrecadação para o erário poderia levar vento favorável aos militantes da causa. De fato, um dos argumentos invocados é de que a aprovação do PL 442/91 poderia contribuir para o cumprimento das metas de arrecadação do governo.

Qual seria o problema e que mal haveria na legalização dos jogos de azar? Alguns invocam o respeito à liberdade individual e que o Estado não deveria proibir essa prática, deixando ao cidadão a liberdade de escolha sobre o que deseja fazer ou deixar de fazer. Desconsidera, porém, esse argumento que a prática da jogatina leva, muitas vezes, a uma paixão compulsiva e a uma dependência extremamente maléficas pelo jogo. A ludopatia, ou doença do jogo, é difícil de ser tratada e seu desfecho, depois de ocasionar muito sofrimento também para terceiros, leva à frustração econômica e social e, não raro, ao suicídio.

Argumenta-se, também, que outros países, onde o jogo é legal, tiram vantagens turísticas dessa prática. E logo se pensa em Las Vegas, Monte Carlo e outros paraísos da jogatina. Seria essa uma aposta promissora para o Brasil? Parece pouco provável, pois o fluxo turístico significativo não transita por cassinos e locais de jogos de azar, mas atrai muito mais quem mora perto. Sem esquecer que há muitos outros pontos de interesse para o turismo de massa. Não falta ao Brasil um potencial turístico maravilhoso, sem precisar de jogos de azar.

Por que motivo não legalizar os jogos de azar, uma vez que eles acontecem igualmente, de modo clandestino, sem que haja benefícios tributários? Em resposta, cabe uma nova pergunta: quem assegura que, quando os jogos de azar forem legalizados, as contravenções, os jogos clandestinos e a lavagem de dinheiro serão debelados de maneira eficaz? É sabido que o submundo dos jogos de azar é dominado por fortes grupos ilegais que, certamente, relutarão para renunciar a tão promissores campos de ganho fácil. De maneira semelhante, a legalização do comércio do cigarro não debelou o seu comércio clandestino no Brasil.

Pareceria razoável legalizar os jogos de azar, uma vez que se trata de uma prática irrefreável. Mas, mal comparando, pode-se perguntar se a solução para o desvio de impostos seria a legalização dessa prática. Não se torna boa, mediante a legalização, uma prática ilegal, ilícita e maléfica, que gera graves danos e sofrimentos humanos. Além disso, o custo social, a fiscalização e o controle precisam ser considerados nessa conta. Ao legalizar a jogatina, o Estado deverá controlar seriamente e investir somas enormes em segurança e repressão dos crimes relacionados com os jogos de azar.

Será real a expectativa de que as atividades de jogatina vão trazer novas iniciativas econômicas? Certamente, podem ser gerados empregos e tributos. Mas, em contrapartida, haverá atividades econômicas seriamente ameaçadas e até destruídas pela jogatina. Não faltam histórias de falências econômicas pessoais e empresariais por causa da paixão pelos jogos de azar. Além do mais, o jogo que se pretende legalizar não será uma atividade econômica aberta a novos empreendedores, uma vez que ela já tem donos poderosos.

Não se pode desconsiderar o risco de aumento do crime organizado, da lavagem de dinheiro e dos crimes contra a pessoa. A ludopatia não traz problemas apenas para quem se envolve nessa atividade, mas também para muitas outras pessoas. A legalização da jogatina pode gerar lucros enormes para a própria indústria dos jogos, mas vai socializar imensos custos para a sociedade, que terá de se encarregar dos perdedores, não apenas do seu dinheiro e patrimônio, engolidos pelas tentadoras máquinas de vender ilusões, mas também da saúde mental e da perda do seu lugar social e produtivo. Ninguém tenha ilusões: o Estado e a sociedade serão chamados em causa para pagar a conta de tantos novos desvalidos e perdedores de seus bens e de muito mais.

Honestamente, que vantagem o Brasil e o povo brasileiro teriam com a legalização de mais esta espécie de entorpecente psicológico e moral, capaz de fazer vítimas e causar danos e sofrimentos? Já não bastam os malefícios do consumo desenfreado de entorpecentes, com todo o pacote de males que espalha? A quem interessa a legalização dos jogos de azar e quem espera tirar grandes vantagens com isso? Mesmo com o aceno a algumas possíveis vantagens tributárias, é preciso pesar muito bem as desvantagens que a legalização dessa atividade vai acabar trazendo para o Estado e para a sociedade. Em vez de serem legalizados, os males devem ser prevenidos e debelados.

Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 9 de março de 2024

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

segunda-feira, 11 de março de 2024

A eternidade se esconde dentro de cada aparência (II)

O encontro de Jesus ressuscitado com os apóstolos no monte da Galiléia | 30Giorni

Revista 30Dias – 06/1999

A eternidade se esconde dentro de cada aparência

O discurso de Dom Luigi Giussani no encontro promovido pelo Pontifício Conselho para os Leigos sobre o tema “Movimentos eclesiais e novas comunidades na pastoral dos bispos” Roma, 18 de junho de 1999.

por Monsenhor Luigi Giussani

) Eu me interessava pelos alunos, porque as relações que tive, desde os primeiros dias da minha função como professor de seminário, eram todas com alunos. Não foi a escolha de um ambiente específico para dizer certas coisas; Eu me encontrei lá. Assim como um dia encontrei aqueles três meninos no trem, indo para Rimini. Eu não os conhecia e descobri que eram terrivelmente ignorantes e cheios de preconceitos sobre o cristianismo. Esta foi a razão que me levou a pedir aos meus superiores que abandonassem o ensino de teologia no seminário para me dedicar ao trabalho entre as crianças das escolas de Milão.

As coisas que lhes contei não vieram de uma análise do mundo estudantil, mas do que minha mãe e o seminário me contaram. Em suma, tratava-se de falar aos outros com palavras ditadas pela Tradição, mas com consciência visível, até às implicações metodológicas.

O que quer que eu fizesse, em qualquer lugar da Igreja eu teria feito! O que senti e vi foi como uma forma nova, não intuída antes, exceto nos textos dos Padres e dos Papais. Essa constatação veio de uma experiência. Li as mesmas palavras do Evangelho e da Tradição de uma maneira nova.

A diferença entre os fundamentalistas e os tradicionalistas e nós é que, enquanto eles, para salvar a forma antiga, queriam reconduzir os outros à condição anterior (e imitar mecanicamente os seus pais), para nós foi necessário, precisamente, salvar a Tradição, para compreender em que consistia o conteúdo da mesma, explicá-la e dar um exemplo. Eu “entendi”, e outros comigo, que Cristo estava ali, presente.

) Procurei me esclarecer, explicar essa graça de conhecimento e reflexão que tive. Muitas vezes senti-me inaceitável pelas paróquias e pelas associações oficiais, mas para mim a imagem que me veio deu-me uma alegria e uma segurança incomparáveis ​​do facto cristão e fez dele um facto que encheu todo o meu coração na sua abertura à totalidade da realidade. da Igreja no mundo. E esta certeza, esta esperança e esta abertura foram traduzidas nas crianças que começaram a me seguir. Foi o surgimento de uma forma de sentir a presença de Jesus na Igreja como resposta total e abrangente às questões do mundo.

Depois de muitos anos, percebi, precisamente na comparação que sempre procurei e amei com a autoridade da Igreja, que o meu desejo, a paixão do coração que sentia por esta novidade de vida era uma graça particular do Espírito, que se chama carisma. O carisma apareceu-me claramente como o modo concreto pelo qual o Espírito faz nascer no coração do homem uma compreensão e um afeto adequado por Cristo num contexto histórico específico. E quem o recebe «deve» participar no mandato de Cristo: «Ide por todo o mundo!». Do dom dado a uma pessoa começa uma experiência de fé que pode ser útil de alguma forma à Igreja.

Entendo que se sinta que um modo de expressão é mais interessante que outro, mas pode haver uma maneira pela qual o carisma traduza, comunique com a consciência tranquila o que São Paulo afirma sobre a nova criatura; não apenas da nova inteligência ou de um novo coração de caridade, mas da nova criatura na sua totalidade! E isto sublinhando o que é o método cristão. Assim como Deus se fez presente ao homem em Jesus de Nazaré, também a nossa fórmula para sentir a vibração do protagonista desta história é verificar a sua presença integralmente humana e, portanto, a origem de algo que na sua totalidade, tornando-se fonte de um homem diferente, torna-se fonte de uma sociedade diferente. 

) A dinâmica de reconhecimento e verificação da presença de Cristo faz com que qualquer pessoa se torne criativa e protagonista e faz descobrir como a atividade do cristão é por natureza missionária, isto é, participante do próprio método de Cristo que criou a Igreja para se fazer conhecido em todo o mundo. A finalidade da existência cristã é, portanto, viver para a glória humana de Cristo na história. Por isso amamos todas as formas que a Igreja reconhece e estamos prontos dentro dos nossos limites para colaborar com qualquer iniciativa. Tudo o que fazemos não podemos deixar de concebê-lo como uma missão, o destino último de cada ação.

A nossa certeza, fonte de alegria, é a pertença à Igreja, de cuja autoridade, como se traduz a todos os níveis, dependemos, pedindo para sermos reconhecidos, prontos ao sacrifício até ao da vida, mas sobretudo prontos em cada tempo à conversão. sua mente e coração de uma mentalidade mundana. 

7 ) Por isso a nossa concepção moral, reconhecendo a sucumbência do homem ao pecado original, deseja passar pelo aparecimento de tudo em profunda simpatia por Cristo presente para afirmar o seu significado último, para que a relação com qualquer coisa seja vivida como sinal e convite à destino. O cristão é, portanto, um homem que percebe a eternidade escondida em cada aparência.


Fonte: https://www.30giorni.it/

A mulher e a moral cristã

Crédito: Cléofas

A mulher e a moral cristã

 POR PROF. FELIPE AQUINO

“A mulher não nasce, se faz”. Esta frase de Simone Beuavoir, líder feminista radical, se converteu em um verdadeiro estandarte deste movimento. Vários fatos concorreram para isso: a revolução sexual e feminista inspirada em um neo-marxismo, e facilitada pela pílula anticoncepcional, desenvolvida na década de 60.

O movimento feminista radical inspirou-se no marxismo e criou a tal ideologia de “Gênero” (do inglês Gender). Para Karl Marx, toda a história é uma luta de classes, de opressores contra oprimidos, em um batalha que terminará só quando os oprimidos se conscientizarem de sua situação, fizerem uma revolução e impuserem a “ditadura dos oprimidos”. A sociedade será, então, totalmente reconstruída e emergirá a “sociedade sem classes”, livre de conflitos e que assegurará a paz e prosperidade utópicas para todos. Isto foi aplicado na Rússia, China, Camboja, Vietnã, Laos, Cuba, etc. e gerou 100 milhões de mortos, e nada gerou de bom.

Foi Frederick Engels quem colocou as bases para a união do marxismo e do feminismo. O feminismo do “gênero” foi lançado pela primeira vez por Christina Hoff Sommers, em seu livro “Who stole feminism?” (Quem roubou o feminismo?)

A ideologia do gênero reinterpretou a história sob uma perspectiva neomarxista, em que a mulher se identifica com a classe oprimida e o homem com a opressora. O matrimônio monógamo é a síntese e expressão do domínio patriarcal. Toda diferença é entendida como sinônimo de desigualdade, e portanto é preciso acabar com ela. O antagonismo se supera com a luta de classes. Então, as mulheres “devem ir à luta”.

Essa ideologia penetrou nas Nações Unidas (ONU) e então começou sua carreira ascendente. A primeira conquista foi em Pequim, em 1995, na IV Conferência da Mulher, da ONU, com um documento final que estabelecia uma série de pautas para implantar a ideologia. Desde então esta ideologia está se infiltrando cada vez mais nos costumes e na educação (colégios, universidades e meios de comunicação).

A tal ideologia de “gênero” (gender) hoje exige a eliminação de qualquer tipo de diferenças sexuais. Esta perigosa ideologia difunde que a moral cristã é discriminatória a respeito da mulher, e que é um obstáculo para seu crescimento e desenvolvimento; logo, precisa ser destruída. Assim, muitas organizações feministas promovem o aborto, o divórcio, o lesbianismo, a contracepção, o ataque à família, ao casamento, e, sobretudo à Igreja Católica; pois são realidades “opressoras” da mulher.

Mas na verdade foi o oposto; foi o Cristianismo quem libertou a mulher da condição de quase escrava e que se encontrava de modo geral no mundo pagão. O Papa João Paulo II afirmou na Carta Apostólica “Dignitatem Mulieris” (n. 12) que: “Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: «ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher» (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos. «Ficaram admirados» até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, «disse consigo: “Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora”» (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até «santa indignação» deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: «Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31)”.

Cristo e o Cristianismo resgataram a mulher. Naquele tempo ela não podia, por exemplo, ser testemunha diante do Sinédrio, o tribunal dos judeus, sua voz não valia. Quantas mulheres se destacaram no Cristianismo já no seu início. Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino foi uma gigante; a rainha dos francos Clotilde, esposa de Clovis, rei dos Francos, Joana D'arc, e tantas outras santas, mártires. A Igreja lutou contra o adultério também por parte do homem; o que não acontecia no mundo antigo. A proibição do divórcio deu grande proteção às mulheres. Além disso as mulheres obtiveram mais autonomia graças ao Catolicismo. Na Idade Média católica a rainha era coroada como o rei, geralmente na Catedral de Rheims, na França, ou em outras catedrais. E a sua coroação era tão prestigiada quanto a do Rei; o que mostra que a mulher tinha importância. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais tiveram papel importante na história, como Leonor de Aquitânia († 1204) e Branca de Castela († 1252); no caso de ausência, doença ou morte do rei, exerciam o seu poder.

Foi só no século XIX, mediante o “Código de Napoleão”, que aconteceu o processo de despojamento da mulher novamente: deixou de ser reconhecida como senhora dos seus próprios bens, e, em casa mesmo, passou a exercer papel inferior.

A mulher foi por muitos séculos a reserva moral do Ocidente. A ela competia o ensino daquelas coisas que se não se aprende nos primeiros anos de vida, não se aprendem mais. Ela ensinava os filhos a rezar e a distinguir o bem do mal; ensinava o valor da família e das tradições. Mas hoje em dia o feminismo radical, eivado e ateísmo, gerou a banalização do sexo e o hedonismo, fazendo suas vítimas, levando a mulher a perder o sentido do pudor, da maternidade e da piedade.

Isto não significa que, sem descuidar dos afazeres familiares, e na medida de sua vocação, a mulher não possa também dar a contribuição feminina no âmbito a cultura, das artes, da economia, e inclusive a política. Mas tudo isso sem prejuízo do sentido de piedade, do pudor e de maternidade que sempre foram o suporte da formação das pessoas e das sociedades do Ocidente.

Infelizmente hoje cresce esta perigosa ideologia de gênero (gender) que avança de maneira destruidora nas escolas e nas universidades, se propaga pela mídia e começa a moldar a cultura do povo. Para esta ideologia não existe mais sexo, apenas “gênero”; é a pessoa que define o seu sexo e não a natureza. Assim, não tem mais sentido falar em pai, mãe, filho, filha, neto, neta, avô, avó, marido e esposa, homem e mulher. Os sexos não são dois, mas cinco: homem heterossexual, homem homossexual, mulher heterossexual, mulher homossexual e bissexuais. Violentando a natureza, se destrói a mulher, o casamento, a família e a sociedade. É isto que começa agora a ser ensinado a nossas crianças e jovens nas escolas.

É por isso que a ideologia de “gênero” odeia a religião, a natureza, a família e o casamento. Tudo precisa ser destruído, desconstruído, por que tudo isso “sufoca e escraviza a mulher”. É preciso não ignorar a tudo isso.

Prof. Felipe Aquino

Fonte: https://cleofas.com.br/

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (II)

3ª Pregação da Quaresma 2024 - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

"Impusemo-nos em não falar, nestas meditações, do que devemos fazer pelos outros, mas somente do que Jesus é e faz por nós: de nos identificarmos com as ovelhas, mão com o pastor. Mas devemos fazer uma pequena exceção nesta ocasião. Apesar de todas as exortações do Evangelho, nem sempre está em nosso poder nos livrarmos do medo e da angústia. Em contrapartida, está em nosso poder libertar alguém (ou ajudá-lo a se libertar) deles."

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU O BOM PASTOR”
Terceira Pregação da Quaresma de 2024

Neste ponto, devemos trazer à mente o intuito ao qual nos propusemos com estas meditações: um intuito pessoal, mais que “pastoral”, fazer penetrar o Evangelho em nossa vida, para depois poder anuncia-lo ao mundo com mais credibilidade.

O discurso de Jesus tem dois atores: o pastor e o rebanho, ou seja, no singular, cada ovelha individualmente. Com qual dos dois nos identificaremos? Santo Agostinho, no aniversário da sua ordenação episcopal, dizia ao povo: “Para vós sou bispo, convosco sou cristão!”: “vobis sum episcopus, vobiscum sum christianus[1]. E em outra ocasião: “Em relação a vós, somos como pastores, mas, em relação ao sumo Pastor, somos ovelhas como vós”[2]. Esqueçamos, portanto, o nosso papel – o seu, de pastores, e o meu, de pregador – e sintamo-nos apenas por uma vez e unicamente ovelhas do rebanho. Recordemos a pergunta que importa a Jesus no diálogo de Cesaréia: “Para vós, quem sou?”. Como se dissesse: “Esquecei por um momento quem sou eu para as pessoas e concentrai-vos sobre vós mesmos”.

O grande psicólogo Carl Gustav Jung define o psiquiatra: “A wounded healer”: um curador ferido. O sentido da sua teoria é que é necessário conhecer as próprias feridas psicológicas para tratar daquelas dos outros e que conhecer as feridas dos outros ajuda a tratar as próprias. A intuição do psicanalista vale também para as feridas espirituais. O pastor da Igreja é também ele um wounded healer”, um enfermo que deve ajudar os outros a curar.

Busquemos ver qual é a principal doença da qual devemos nos tratar, para tratar os outros. Qual é a coisa que, do início ao fim da Bíblia, vem inculcada nas ovelhas em relação a Deus-Pastor? É para não ter medo! As palavras se acumulam na memória, neste ponto, começando por aquelas de Jesus: “Não tenhas medo, pequeno rebanho” (Lc 12,32), Por que tendes medo, fracos na fé”, disse aos apóstolos, após ter acalmado a tempestade (Mt 8,26). Recordemos também algumas palavras familiares dos Salmos, não como simples citações bíblicas, mas fazendo-as nossas enquanto as escutamos:

O Senhor é o meu pastor,
nada me falta...

Mesmo se eu tiver de andar por um vale de sombra mortal,
não temerei os males, porque estás comigo
 (Sl 23,1.4).

O Senhor é minha luz e minha salvação: de quem terei medo?
O Senhor é o refúgio da minha vida:
diante de quem tremerei?
 (Sl 27,1).

Falamos, portanto, deste “mal obscuro” do medo, que tem tanto poder para roubar dos homens e mulheres a alegria de viver. O medo é a nossa condição existencial; ele nos acompanha desde a infância até a morte. A criança tem medo de muitas coisas; nós as chamamos de terrores infantis; o adolescente tem medo do sexo oposto e se envolve às vezes em complexos de timidez e de inferioridade; Jesus deu um nome aos nossos principais medos de adultos: medo do amanhã – “que comeremos? – (Mt 6,31), medo do mundo e dos poderosos – “dos que matam o corpo” (Mt 10,28). Sobre cada um destes medos, pronunciou o seu: Nolite timere! Esta não é uma palavra vazia e impotente; é uma palavra eficaz, quase sacramental. Como todas as palavras de Jesus, opera o que significa; não é como o simples: “Tem coragem!” que, os seres humanos, dizemo-nos uns aos outros, seres humanos.

*     *     *

Mas o que é o medo? Deixemos de lado a angústia existencial sobre a qual discutem os filósofos há um século e meio. Falamos dos medos comuns e familiares. Podemos dizer que o medo é a reação a uma ameaça ao nosso ser, a resposta a um perigo real ou presumido: do maior perigo de todos, que é o da morte, aos perigos particulares que ameaçam ou a tranquilidade, ou a incolumidade física, ou o no­sso mundo afetivo. O medo é uma manifestação do nosso instinto fundamental de conservação. Conforme se trate de perigos objetivos e reais, ou imaginários, fala-se de medos justificados e injustificados, ou mesmo de neuroses: claustrofobia, agorafobia, medo de doenças imaginárias, e assim por diante.

A psicologia e a psicanálise buscam tratar medos e neuroses analisando-os e trazendo-os do inconsciente ao consciente. O Evangelho não desvia destes meios humanos, antes, encoraja-os, mas acrescenta algo que nenhuma ciência pode dar. São Paulo escreve: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada?... Em tudo isso, porém, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou (Rm 8,35.37). Aqui, a libertação não está em uma ideia ou em uma técnica, mas em uma pessoa! O “solvente” de todo medo é Cristo, que disse aos seus discípulos: “Tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Do âmbito pessoal, o Apóstolo alarga o olhar sobre o grande cenário do espaço e do tempo, dos pequenos medos individuais passa a aos grandes e universais. Escreve:

“Tenho certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potências, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39).

“Nem a morte, nem a vida!”. Cristo venceu a coisa que mais nos causa medo no mundo, a morte. Dele, a Carta aos Hebreus, afirma que ele morreu “para destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo. Assim libertou os que, por medo da morte, estavam a vida toda sujeitos à escravidão (Hb 2,14-15).

“Nem a altura, nem a profundeza”, ou seja: nem o infinitamente grande como o universo, com as proporções que estão se dilatando sempre mais, nem o infinitamente pequeno – o átomo – do qual já descobrimos, por nosso risco, a terrível potência. Hoje, estamos mais do que nunca expostos a este gênero de medos cósmicos. O homem moderno percebe intensamente a sua vulnerabilidade de um modo violento e enlouquecedor. O que será do amanhã do nosso planeta se, apesar dos gritos de alarme do Papa e das pessoas mais responsáveis da sociedade, continuamos, a rédeas soltas, a consumir e poluir?

Ao término das suas reflexões filosóficas sobre o perigo da técnica para o homem moderno, Martin Heidegger, quase desistindo, exclamava: “Só um deus pode nos salvar!”[3]. “Um deus” (letra minúscula!) é o habitual modo mítico para falar de algo que está acima de nós. Tiramos o artigo indefinido e dizemos “só Deus” (e sabemos qual Deus!) pode nos salvar!”.

Não é jogar sobre Deus as nossas responsabilidades, mas crer, que, no fim, “tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus” [e que Deus ama!] (cf. Rm 8,28). Quando se deve tratar com Deus, a medida é a eternidade. Podemos ficar desiludidos no tempo, mas não pela eternidade. Nós, cristãos, temo sum motivo bem mais forte do que o salmista para repetir, diante das perturbações físicas e morais do mundo:

Deus é nosso refúgio e fortaleza,
socorro sempre encontrado nos perigos.

Por isso, não temeremos, se a terra tremer,
e se as montanhas afundarem no mar
 (Sl 46).

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Tradução de Fr. Ricardo Farias

Notas:

[1]Cf. Agostinho, Sermo 340,1 (PL 38,1483).
[2] Cf. Agostinho, Comentário aos Salmos, 126,3.
[3] Cf. Martin Heidegger, Antwort. Martin Heidegger im Gespräch,

Gesamtausgabe, vol. 16, Frankfurt 1975.

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Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE III)

O Juízo Final (apologistasdafécatólica)
AS REALIDADES ESCATOLÓGICAS (PARTE III)
O Concílio de Trento

8) Concílio de Trento (XIX ecumênico)
a) Decreto Cum hoc tempore (sess. VI – 13/01/1547)

O Concílio de Trento voltou três vezes ao tema do purgatório. Em ordem cronológica, a primeira foi em 1547 a propósito da justificação; não se falou então dele ex professo, mas não era possível omiti-lo, porque em 1530 Lutero já começara a negar a existência do purgatório¹³, como consequência de seu modo de conceber a justificação”.

b) Decreto sobre o Sacrifício da Missa (sess. XXII – 17/09/1562)

Transferido o concílio para Bolonha, foi o tema do purgatório tratado junto com o das indulgências; mas é sabido que não se chegou a passar das discussões a uma formulação definitiva. Durante o terceiro e último período (1562-1563), voltou-se a falar, embora sumariamente, do tema do purgatório no decreto sobre a Missa como Sacrifício, quando se afirma que ele é oferecido também pelos mortos em Cristo ainda não plenamente purificados.

c) Decreto Cum catholica Ecclesia (sess. XXV – 3-4/12/1563)

Finalmente chegou o momento de se examinar a questão do purgatório: foi na última sessão, quando o concílio se ocupou rapidamente de algumas matérias pendentes, mais disciplinares que dogmáticas, como o culto dos santos e as indulgências. Também o decreto sobre o purgatório tem caráter disciplinar, porque pretende preservar os fiéis de toda espécie de superstição; não deixa, porém, de chamar os católicos à Fé na doutrina tradicional sobre o purgatório, tal como sempre a ensinou a Igreja e como, um século antes, a confirmara o Concílio de Florença”. Subentende, portanto, que seja um dogma de Fé.

“Porque a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada na Sagrada Escritura e na antiga Tradição dos Padres, ensinou, nos sagrados concílios mais e, recentemente, neste concílio ecumênico, que o purgatório existe e que as almas que estão lá podem ser ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e, de modo particularíssimo, com o Santo Sacrifício do altar: manda o santo concílio aos bispos que, com diligência, se empenhem em que a sã doutrina sobre o purgatório, transmitida pelos Santos Padres e pelos sagrados concílios, seja crida pelos fiéis cristãos, guardada, ensinada e pregada em toda a parte la Christifidelibus credi, teneri, doceri et ubique praedicari]. Entretanto, diante da gente menos instruída, excluam-se das pregações populares as questões mais difíceis e mais sutis, que não servem para a edificação (cf. 1 Tm 1,4), e das quais, geralmente, não se colhe nenhum fruto para a piedade. Igualmente, não permitam que sejam difundidas, nem tratadas doutrinas incertas ou que possam ter aparência de falsidade [specie falsi laborant. Proíbam, além disso, como escândalos e pedras de tropeço para os fiéis, aquelas questões que [só] servem para uma certa curiosidade e superstição e vã especulação [turpe lucrum sapiunt] (…).”
1. É de Fé católica que só o pecado original já basta para criar uma separação escatológica de Deus e, neste sentido, trazer um estado de condenação. A questão de fato, ou seja, a existência de um estado após a morte em que se achem almas só com o pecado original, tradicionalmente denominado “limbo”, continua como uma doutrina teológica [cf. SANTO TOMÁS DE AQUINO, Summa theologiae. Suppl., q.69, a. 4-6; idem, De malo, q. L. BILLOT, diversos artigos em Etudes, 1920-1922; INOCÊNCIO III, Carta Maiores Ecclesiae.

2. ORÍGENES, De principiis 2,10,6: PG 11, 238.

3. Contra Celsum 5, 15: PG 11, 1204.

4. Schleiermacher muito contribuiu para a difusão desta idéia. Segundo A. HARNACK, Dogmengeschichte, Tubingen, 4ª ed., 1909,3,661, todos os reformadores aderiram de coração à apocatástase, e também em nossos dias muitos teólogos modernos bizantinos e greco-russos a veem com simpatia. Cf. M. JUGIE, Theologia dogmatica orientalium dissidentium IV, Paris, 1931, 137-151. Outra forma de negação da eternidade das penas do inferno, tanto na Antiguidade, como na Idade Média, era a de sustentar o aniquilamento dos condenados, teoria já defendida pelos gnósticos no séc. II: cf. SANTO IRINEU, Adversus haereses 1,7,1: PG 7, 514. Foram depois imitados pelos socinianos medievais. Paralelamente, houve quem evoluísse com a teoria, chegando a afirmar que a alma humana não é imortal por natureza, mas Deus a torna imortal só para os eleitos (ARNÓBIO, O VELHO, Adversus nationes 2.14.

5. Bibliografia: B. ALTANER, Patrologia, Edições Paulinas, São Paulo, 1972, 213; J. DANIELOU, Origène, Paris, 1948, 207-217.

6. M. RONCAGLIA, Georges Bardanes métropolite de Corfou et Barthélemy de l’Ordre Franciscain, Roma, 1953, com documentação dos colóquios entre gregos e latinos.

7. Trata-se de Frei João Parastron ou Barastron, O.F.M., nascido em Constantinopla e apóstolo da união, que acompanhou até Lyon os legados gregos e assistiu à sessão IV do concílio. O Papa reconhece que ele se empenhou diu et utiliter pela união. Morreu em Constantinopla em 1275.

9. SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Sermo in festo Omnium Sanctorum: PL 185, 472. Cf. SANTO AGOSTINHO, Enarratio in psalmum 43: PL 36, 485; Id., De Trinitate 1, 13: PL. 42, 843-844. Não seria difícil encontrar em outros textos patrísticos passagens no mesmo sentido.

10. Bento XII estava bem a par da questão: quando cardeal, já havia composto o tratado De statu animarum ante generale iudicium, que depois, como Papa, apurou cuidadosamente a partir de julho de 1335 (Bibl.Vat., ms. lat. 4006, ff. 16-218).

11. M. DYKMANS, Les sermons de Jean XXII sur la vision
béatifique, Roma, 1973; DTC 2, 657-696 (X. LE BACHELET).

12.Isto é, os que hão de morrer nos séculos futuros: o mesmo vale para as expressões análogas mais adiante.

13. LUTERO, Exhortatio (à Assembléia de Augsburg): ed. Weimar 30/II, 289-290.

Fonte: https://apologistasdafecatolica.wordpress.com/

Um estilo de vida sustentável

Laudato Si' Action Plan | Vatican News

No mundo inteiro, muitas pessoas e organizações inspiraram-se na encíclica «Laudato si’» do Papa Francisco. A comunidade jesuíta na Austrália respondeu ao seu convite a cuidar da Terra, nossa casa comum, de toda a criação e de quantos a habitam, sobretudo os pobres.

https://youtu.be/jWi6NFjOaso

MARY BAYNIE, Adida das comunicações Irmãs de São José do Sagrado Coração (Austrália)

A comunidade josefina, que abrange as congregações australianas das irmãs de São José do Sagrado Coração e das irmãs de São José de Lochinvar (alargada a leigos que compartilham o carisma josefino), respondeu ao convite do Papa Francisco, aderindo à plataforma de ação Laudato si’. Além disso, em 2022, também a comunidade josefina publicou o plano de ação Laudato si’ intitulado Explore~Embrace~Embody.

A irmã Mary-Ann Casanova, religiosa de São José do Sagrado Coração com sede em Adelaide, Austrália meridional, é adida do projeto Explore~Embrace~Embody. Professora experiente, trabalhou também para a Catholic EarthCare Austrália e para o Rahamin Ecology Centre. Recentemente, completou o doutoramento no Califórnia Institute of Integral Studies, com a pesquisa sobre a relação entre ciência e espiritualidade na vida de dois sacerdotes, Julian Tenison Woods e Pierre Teilhard de Chardin.

Santa Maria MacKillop e Padre Julian Tenison Woods (Pintura de Reg Campbell, usada com permissão dos curadores das Irmãs de São José) | Vatican News

«As irmãs de São José foram fundadas pela primeira santa canonizada da Austrália, Mary MacKillop, e pelo padre Julian Tenison Woods, na solenidade de São José, em 1866», diz a irmã Mary-Ann. Fundaram-nas «em resposta à necessidade de educação católica para crianças pobres e marginalizadas e para dar uma resposta à pobreza, então alastradora, na Austrália colonial».

«Tanto Mary como Julian estavam comprometidos a favor de um modo de vida sustentável», explica a irmã Mary-Ann. «Como sacerdote e cientista, o padre Julian uniu a sua paixão espiritual à sua paixão científica em busca de soluções ambientais. Defendia a legislação e práticas de gestão no respeito pelos direitos dos pobres a levar uma vida justa, a necessidade de preservar a biodiversidade e as carências das gerações futuras».

Hoje, as irmãs josefinas continuam a responder onde há necessidade. E mantêm também um profundo compromisso com as questões ecológicas e o meio ambiente. «As congregações josefinas procuram identificar e atender às necessidades da Terra, dos seus povos e de toda a criação», observa a irmã Mary-Ann.

Antes do lançamento online de Explore~Embrace~Embody a 7 de outubro de 2022, aniversário da morte do padre Julian, as religiosas, o pessoal e os patrocinadores reuniram-se para debater e discernir a melhor forma de responder ao apelo do Papa Francisco na Laudato si’.

«Um resultado positivo dos encontros foi a capacidade de reunir documentos e recursos josefinos recentes num único volume», acrescenta a irmã Mary-Ann. «Esta simples ação reforçou a nossa noção, como josefinos, de que éramos líderes no campo da consciência ecológica e evolutiva». Explore~Embrace~Embody inclui os sete objetivos da Laudato si’, que foram repensados num contexto josefino. Os objetivos josefinos são: Alimentar a consciência ecológica, Viver com simplicidade, Fortalecer a economia ecológica e Aumentar a participação e o apoio da comunidade.

A irmã explica que a aliteração no título Explore~Embrace~Embody «é um bom instrumento para frisar um ciclo de transformação ou conversão pessoal e comunitária/organizacional».

A data do lançamento «escolhida é uma celebração comum da comunidade josefina. Associar o plano de ação ao padre Julian revigora o apelo à consciência ecológica e evolutiva como parte integrante do que fazemos — sempre tivemos um modelo», diz. «A esperança do plano de ação é que, embora o tema seja constante, o apelo ao crescimento pessoal, à maior consciência ecológica e evolutiva seja um compromisso para toda a vida», explica.

Irmã Mary Ellen O'Donoghue, membro do Comitê do Plano de Ação Laudato Si' e da Equipe de Liderança Congregacional das Irmãs de São José do Sagrado Coração | Vatican News

Até hoje, a comunidade josefina produziu vídeos sobre Explore~Embrace~Embody, com membros da comissão de ação josefina Laudato si’ e pessoal leigo. Nestes vídeos, os membros explicam em que consiste Explore~Embrace~Embody, os seus objetivos e como podem participar os patrocinadores.

Ao longo de 2023, as josefinas centraram-se no impacto ambiental dos plásticos flexíveis, sensibilizando e incentivando as pessoas a reduzir a sua utilização e a reciclá-los através de numerosas ideias e iniciativas.

Irmã Mary-Ann Casanova com sua instalação artística PLASTICS, feita com plástico | Vatican News

«A campanha “Soft Plastics” é um meio de convidar à mudança, a nível individual e sistémico, conjugando sensibilização, ação, economia, fé, moral e interligação. Isto torna os quatro objetivos do nosso plano de ação contemporaneamente operacionais», afirma.

As religiosas josefinas acreditam que qualquer contribuição, grande ou pequena, ajuda. Como dizia Santa Mary MacKillop, «faz tudo o que puderes com os meios de que dispões e deixa tranquilamente o resto para Deus».

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

São Rufo e São Zózimo

Santos Rufo e Zózimo (A12)
11 de março
São Rufo e São Zózimo

Muito pouco se sabe a respeito da biografia destes santos do primeiro século. As informações disponíveis são do Martirológio Romano e de uma referência de São Policarpo. Consta que eram discípulos de Jesus.

A verdadeira Fé havia sido levada a Filipos por São Paulo, sendo a primeira comunidade cristã que fundou na Europa e para a qual escreveu uma carta constante do Cânon bíblico. Parece que Rufo e Zózimo acompanhavam São Paulo nessa ocasião. A cidade, cujo nome homenageava Felipe II, pai de Alexandre Magno, era localizada no leste da antiga província da Macedônia, a 13 km do mar Egeu, no topo de uma colina (atualmente, Grécia). A maioria dos cristãos era ali formada, na época, por ex-pagãos, e também, em menor número, convertidos do judaísmo. Ali também foram perseguidos os cristãos.

São Policarpo (69 – 155 d.C.), exalta os mártires locais, em carta aos fiéis do lugar, enquanto seguia para a Turquia, ele mesmo a caminho do martírio: “Estou muito satisfeito convosco em Nosso Senhor Jesus Cristo, por terdes recebido os modelos da verdadeira caridade. Eu vos exorto a obedecerdes e a exercerdes a vossa paciência, aquela que tendes visto com vossos próprios olhos, não só nos bem-aventurados Inácio, Rufo e Zózimo, mas também em outros vossos concidadãos, no próprio Paulo e nos outros Apóstolos. Estejam certos de que todos estes não têm corrido em vão, mas na fé e na justiça, que eles estão juntos do Senhor, no lugar que lhes é devido pelos sofrimentos que suportaram. Porque eles não amaram o século presente, mas Aquele que por nós morreu e que para nós foi ressuscitado por Deus.”

São Rufo e São Zózimo foram condenados a serem devorados pelas feras no circo romano, em 107.

Colaboração: José Duarte de Barros Filho

Reflexão:

Embora ter sido discípulo direto de Jesus seja um privilégio, também nós, pela graça batismal, somos Seus discípulos, e ainda hoje devemos estar prontos a dar a vida por Ele. Da mesma forma, com o auxílio dos santos, a exemplo de São Rufo e São Zózimo (cujo nome significa “guerreiro abnegado”), temos o dever de tornar elevadas espiritualmente, como Filipos geograficamente, as nossas cidades. Para isso é necessário “não amar o século presente”, mas sim “Aquele que por nós morreu e ressuscitou”. Não importa se para o mundo não ficarão registros nossos, nem mesmo uma referência epistolar: Rufo e Zózimo são conhecidos e reconhecidos por Cristo, e não é outro o objetivo da vida e trabalhos que aqui fazemos, senão o de “correr na fé e na justiça para estarmos juntos ao Senhor”. Assim foi o exemplo de todos os peregrinos desta vida, Paulo, Inácio, Policarpo, Rufo, Zózimo...

Oração:

Senhor Deus, que sabeis recompensar aqueles que Vos são fiéis, concedei-nos pela intercessão de São Rufo e São Zózimo participar ativamente e até a morte na fundação de estadias temporais onde os irmãos Vos possam conhecer, e assim participar da morada definitiva que nos preparastes no Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, e Nossa Senhora. Amém.


Fonte: https://www.a12.com/

domingo, 10 de março de 2024

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (I)

3ª Pregação da Quaresma 2024 - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

"Impusemo-nos em não falar, nestas meditações, do que devemos fazer pelos outros, mas somente do que Jesus é e faz por nós: de nos identificarmos com as ovelhas, mão com o pastor. Mas devemos fazer uma pequena exceção nesta ocasião. Apesar de todas as exortações do Evangelho, nem sempre está em nosso poder nos livrarmos do medo e da angústia. Em contrapartida, está em nosso poder libertar alguém (ou ajudá-lo a se libertar) deles."

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU O BOM PASTOR”
Terceira Pregação da Quaresma de 2024

Continuemos a nossa reflexão sobre os grandes “Eu Sou” de Cristo no Evangelho de João. Desta vez, Jesus não se apresenta a nós com símbolos de realidades físicas inanimadas – o pão, a luz –, mas com um personagem humano, o pastor: “Eu – diz – sou o bom pastor!”. Escutemos a parte do discurso em que está contida a autoproclamação de Cristo:

Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá sua vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e a quem as ovelhas não pertencem, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, enquanto o lobo as ataca e as dispersa. De fato, ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom pastor. Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas (Jo 10,11-15).

A imagem de Cristo “Bom Pastor” tem um lugar privilegiado na arte e nas inscrições paleocristãs. O Bom Pastor é apresentado, segundo o módulo clássico, no esplendor da juventude. Traz sobre as costas a ovelha, bem segura pelas patas. A imagem joanina do bom pastor é já amalgamada com aquela sinótica do pastor que vai em busca da ovelha perdida (Lc 15,4-7).

O contexto da passagem sobre o bom pastor é o mesmo dos dois capítulos precedentes, isto é, a discussão com “os judeus”, que acontece em Jerusalém, por ocasião da festa das Tendas. Mas, em João, sabe-se que o contexto conta relativamente, porque, diferentemente dos Sinóticos, ele não está preocupado em nos dar um relatório histórico e coerente da vida de Jesus (que parece dar por conhecido), mas um conjunto de “sinais” e ensinamentos do Mestre. Contudo, estes jamais aparecem fora do tempo e do espaço, como acontece nos livros de teologia, mas situados em lugares e tempos precisos (às vezes, mais precisos do que os próprios Sinóticos), que lhes conferem um valor “histórico” no sentido mais profundo do termo.

*    *    *

Digamo-lo também: a imagem do bom pastor, e aquelas vinculadas de ovelha e de rebanho, realmente não estão na moda hoje em dia. Ao nos chamar de ovelhas, não teme Jesus em ferir a nossa sensibilidade e ofender a nossa dignidade de homens livres? O homem de hoje rejeita orgulhosamente o papel de ovelha e a ideia de rebanho. Não se dá conta de como, porém, na realidade, ele viva a situação que ele condena na teoria. Um dos fenômenos mais evidentes da nossa sociedade é a massificação. Imprensa, televisão, internet, são chamados “meios de comunicação de massa”, não só porque informam as massas, mas também porque as formam, massificam.

Sem perceber, deixamo-nos guiar supinamente por todo tipo de manipulação e de persuasão oculta. Outros criam modelos de bem-estar e de comportamento, ideais e objetivos de progresso, e as pessoas os adotam; vão atrás, com medo de perder o passo, condicionados e sujeitados pela publicidade. Comemos o que nos dizem, vestimos como impõe a moda, falamos como ouvimos falar. Nós nos divertimos quando vemos um vídeo acelerado, com as pessoas que se movem por quadros, rapidamente, como marionetes; mas é a imagem que teríamos de nós mesmos se nos víssemos com um olhar menos superficial.

Para entender em que sentido Jesus se proclama o bom pastor e nos chama de suas ovelhas, é preciso referir-se à história bíblica. Israel foi, no início, um povo de pastores nômades. Os Beduínos do deserto nos dão hoje uma ideia daquela que um tempo foi a vida das tribos de Israel. Nesta sociedade, a relação entre pastor e rebanho não é somente de tipo econômico, baseada no interesse. Desenvolve-se uma relação quase pessoal entre o pastor e o rebanho. Dias e dias passados juntos em lugares solitários, sem qualquer alma viva por perto. O pastor acaba por conhecer tudo de cada ovelha; a ovelha reconhece a voz do pastor, que frequentemente fala em voz alta com as ovelhas, como se fossem pessoas. Isto explica como, para expressar sua relação com a humanidade, Deus se serviu desta imagem, hoje ambígua. “Ó Pastor de Israel, dá ouvido, tu, que conduzes José, como a uma ovelha”, reza o salmista (Sl 80,2).

Com a passagem da situação de tribos nômades àquela de povo sedentário, o título de pastor é dado, por extensão, também àqueles que fazem as vezes de Deus na terra: os reis, os sacerdotes, os chefes em geral. Mas, neste caso, o símbolo se divide: não evoca mais apenas imagens de proteção, de segurança, mas também de exploração e opressão. Ao lado da imagem do bom pastor, aparece a do mau pastor. No profeta Ezequiel, encontramos uma terrível denúncia contra os maus pastores que apascentam apenas a si mesmos; nutrem-se de leite, vestem-se de lã, mas não cuidam minimamente das ovelhas, as quais tratam “com dureza” (cf. Ez 34,1ss). A esta denúncia contra os maus pastores, segue uma promessa: Deus mesmo, um dia, assumirá o cuidado amoroso de seu rebanho:

Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, enfaixarei a quebrada, fortalecerei a doente (Ez 34,16).

Jesus, no Evangelho, retoma este esquema do bom e do mau pastor, mas com uma novidade. “Eu – afirma – sou o bom pastor!”. A promessa de Deus tornou-se realidade, superando toda expectativa.

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Tradução de Fr. Ricardo Farias

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Reflexão para o 4º Domingo da Quaresma (B)

Jesus e Nicodemos (Vatican News)

Diante da entrega radical a Deus, de total descentralização, de abnegação absoluta, de esvaziamento de si mesmo, nosso coração deverá aprender a lição de amor e moldar-se ao Crucificado.

Padre Cesar Augusto, SJ - Vatican News

Se existe uma imagem de Jesus que me agrada bastante é a do Senhor crucificado. Vejo nela o símbolo maior de nossa fé e o sinal mais explícito do amor de Deus por nós. É a imagem da entrega radical ao Pai, por amor.

Por outro lado, preocupa-nos quando alguns cristãos dizem que a imagem do crucificado os choca e que não deveria ficar exposta, mas a do Senhor ressuscitado. É verdade, O Cristo ressuscitado é a última palavra.

No Evangelho deste domingo o Senhor nos fala que ele deverá ser levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Ele recorda a Nicodemos o episódio no deserto quando, sob a orientação de Deus, Moisés levantou uma haste de onde pendia uma serpente de bronze. Todos os que eram picados por serpente, deveriam olhar para a de bronze e ficariam curados.

Todos nós, no Paraíso, fomos picados pela serpente do egoísmo, do egocentrismo e de todos os males. É preciso que, para nossa cura, olhemos com fé para o Crucificado, testemunho maior do amor do Pai por nós, como fonte de vida, de reconciliação e de paz. Diante da entrega radical a Deus, de total descentralização, de abnegação absoluta, de esvaziamento de si mesmo, nosso coração deverá aprender a lição de amor e moldar-se ao Crucificado.

Queridos irmãos, ouvintes da Rádio Vaticano, quando nos expomos ao sol, não fazemos nada, apenas deixamos que sua luz nos passe os benefícios de que nosso organismo necessita. Nossa vida espiritual e, por que não dizer, nossa maturidade psicoafetiva necessita que fixemos o olhar na imagem do Cristo crucificado, sinal maior de libertação, de maturidade e de entrega por amor.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF