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segunda-feira, 11 de março de 2024

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa (II)

3ª Pregação da Quaresma 2024 - Cardeal Cantalamessa (Vatican News)

A terceira pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

"Impusemo-nos em não falar, nestas meditações, do que devemos fazer pelos outros, mas somente do que Jesus é e faz por nós: de nos identificarmos com as ovelhas, mão com o pastor. Mas devemos fazer uma pequena exceção nesta ocasião. Apesar de todas as exortações do Evangelho, nem sempre está em nosso poder nos livrarmos do medo e da angústia. Em contrapartida, está em nosso poder libertar alguém (ou ajudá-lo a se libertar) deles."

Fr. Raniero Card. Cantalamessa, OFMCap
“EU SOU O BOM PASTOR”
Terceira Pregação da Quaresma de 2024

Neste ponto, devemos trazer à mente o intuito ao qual nos propusemos com estas meditações: um intuito pessoal, mais que “pastoral”, fazer penetrar o Evangelho em nossa vida, para depois poder anuncia-lo ao mundo com mais credibilidade.

O discurso de Jesus tem dois atores: o pastor e o rebanho, ou seja, no singular, cada ovelha individualmente. Com qual dos dois nos identificaremos? Santo Agostinho, no aniversário da sua ordenação episcopal, dizia ao povo: “Para vós sou bispo, convosco sou cristão!”: “vobis sum episcopus, vobiscum sum christianus[1]. E em outra ocasião: “Em relação a vós, somos como pastores, mas, em relação ao sumo Pastor, somos ovelhas como vós”[2]. Esqueçamos, portanto, o nosso papel – o seu, de pastores, e o meu, de pregador – e sintamo-nos apenas por uma vez e unicamente ovelhas do rebanho. Recordemos a pergunta que importa a Jesus no diálogo de Cesaréia: “Para vós, quem sou?”. Como se dissesse: “Esquecei por um momento quem sou eu para as pessoas e concentrai-vos sobre vós mesmos”.

O grande psicólogo Carl Gustav Jung define o psiquiatra: “A wounded healer”: um curador ferido. O sentido da sua teoria é que é necessário conhecer as próprias feridas psicológicas para tratar daquelas dos outros e que conhecer as feridas dos outros ajuda a tratar as próprias. A intuição do psicanalista vale também para as feridas espirituais. O pastor da Igreja é também ele um wounded healer”, um enfermo que deve ajudar os outros a curar.

Busquemos ver qual é a principal doença da qual devemos nos tratar, para tratar os outros. Qual é a coisa que, do início ao fim da Bíblia, vem inculcada nas ovelhas em relação a Deus-Pastor? É para não ter medo! As palavras se acumulam na memória, neste ponto, começando por aquelas de Jesus: “Não tenhas medo, pequeno rebanho” (Lc 12,32), Por que tendes medo, fracos na fé”, disse aos apóstolos, após ter acalmado a tempestade (Mt 8,26). Recordemos também algumas palavras familiares dos Salmos, não como simples citações bíblicas, mas fazendo-as nossas enquanto as escutamos:

O Senhor é o meu pastor,
nada me falta...

Mesmo se eu tiver de andar por um vale de sombra mortal,
não temerei os males, porque estás comigo
 (Sl 23,1.4).

O Senhor é minha luz e minha salvação: de quem terei medo?
O Senhor é o refúgio da minha vida:
diante de quem tremerei?
 (Sl 27,1).

Falamos, portanto, deste “mal obscuro” do medo, que tem tanto poder para roubar dos homens e mulheres a alegria de viver. O medo é a nossa condição existencial; ele nos acompanha desde a infância até a morte. A criança tem medo de muitas coisas; nós as chamamos de terrores infantis; o adolescente tem medo do sexo oposto e se envolve às vezes em complexos de timidez e de inferioridade; Jesus deu um nome aos nossos principais medos de adultos: medo do amanhã – “que comeremos? – (Mt 6,31), medo do mundo e dos poderosos – “dos que matam o corpo” (Mt 10,28). Sobre cada um destes medos, pronunciou o seu: Nolite timere! Esta não é uma palavra vazia e impotente; é uma palavra eficaz, quase sacramental. Como todas as palavras de Jesus, opera o que significa; não é como o simples: “Tem coragem!” que, os seres humanos, dizemo-nos uns aos outros, seres humanos.

*     *     *

Mas o que é o medo? Deixemos de lado a angústia existencial sobre a qual discutem os filósofos há um século e meio. Falamos dos medos comuns e familiares. Podemos dizer que o medo é a reação a uma ameaça ao nosso ser, a resposta a um perigo real ou presumido: do maior perigo de todos, que é o da morte, aos perigos particulares que ameaçam ou a tranquilidade, ou a incolumidade física, ou o no­sso mundo afetivo. O medo é uma manifestação do nosso instinto fundamental de conservação. Conforme se trate de perigos objetivos e reais, ou imaginários, fala-se de medos justificados e injustificados, ou mesmo de neuroses: claustrofobia, agorafobia, medo de doenças imaginárias, e assim por diante.

A psicologia e a psicanálise buscam tratar medos e neuroses analisando-os e trazendo-os do inconsciente ao consciente. O Evangelho não desvia destes meios humanos, antes, encoraja-os, mas acrescenta algo que nenhuma ciência pode dar. São Paulo escreve: “Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada?... Em tudo isso, porém, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou (Rm 8,35.37). Aqui, a libertação não está em uma ideia ou em uma técnica, mas em uma pessoa! O “solvente” de todo medo é Cristo, que disse aos seus discípulos: “Tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Do âmbito pessoal, o Apóstolo alarga o olhar sobre o grande cenário do espaço e do tempo, dos pequenos medos individuais passa a aos grandes e universais. Escreve:

“Tenho certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potências, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39).

“Nem a morte, nem a vida!”. Cristo venceu a coisa que mais nos causa medo no mundo, a morte. Dele, a Carta aos Hebreus, afirma que ele morreu “para destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo. Assim libertou os que, por medo da morte, estavam a vida toda sujeitos à escravidão (Hb 2,14-15).

“Nem a altura, nem a profundeza”, ou seja: nem o infinitamente grande como o universo, com as proporções que estão se dilatando sempre mais, nem o infinitamente pequeno – o átomo – do qual já descobrimos, por nosso risco, a terrível potência. Hoje, estamos mais do que nunca expostos a este gênero de medos cósmicos. O homem moderno percebe intensamente a sua vulnerabilidade de um modo violento e enlouquecedor. O que será do amanhã do nosso planeta se, apesar dos gritos de alarme do Papa e das pessoas mais responsáveis da sociedade, continuamos, a rédeas soltas, a consumir e poluir?

Ao término das suas reflexões filosóficas sobre o perigo da técnica para o homem moderno, Martin Heidegger, quase desistindo, exclamava: “Só um deus pode nos salvar!”[3]. “Um deus” (letra minúscula!) é o habitual modo mítico para falar de algo que está acima de nós. Tiramos o artigo indefinido e dizemos “só Deus” (e sabemos qual Deus!) pode nos salvar!”.

Não é jogar sobre Deus as nossas responsabilidades, mas crer, que, no fim, “tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus” [e que Deus ama!] (cf. Rm 8,28). Quando se deve tratar com Deus, a medida é a eternidade. Podemos ficar desiludidos no tempo, mas não pela eternidade. Nós, cristãos, temo sum motivo bem mais forte do que o salmista para repetir, diante das perturbações físicas e morais do mundo:

Deus é nosso refúgio e fortaleza,
socorro sempre encontrado nos perigos.

Por isso, não temeremos, se a terra tremer,
e se as montanhas afundarem no mar
 (Sl 46).

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Tradução de Fr. Ricardo Farias

Notas:

[1]Cf. Agostinho, Sermo 340,1 (PL 38,1483).
[2] Cf. Agostinho, Comentário aos Salmos, 126,3.
[3] Cf. Martin Heidegger, Antwort. Martin Heidegger im Gespräch,

Gesamtausgabe, vol. 16, Frankfurt 1975.

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Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

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Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF