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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

CRISTANDADE: Certeza como maravilha (Parte 2/2)

A cristandade (Facebook)

CRISTANDADE

Arquivo 30Dias nº 12 - 1998

Certeza como maravilha

A Igreja dos últimos vinte anos insistiu em apresentar-se, em seu desafio ao mundo, como uma cidadela de certezas inabaláveis. Mas, para usar as palavras do Concílio de Trento, essas certezas são frequentemente construídas pelo próprio indivíduo, desprovidas de qualquer piedade. O oposto da fé simples dos apóstolos, fortalecida pela admiração da realidade presente.

Entrevista com o Cardeal Godfried Danneels por Gianni Valente

O crescente volume de catecismos modernos e a extensão dos cursos de catecismo não seriam, talvez, resultado da mesma perspectiva? Especialistas explicam que, para se tornar um cristão convicto, é preciso se preparar adequadamente, refletir mais, tomar consciência do significado dos sinais sacramentais... 

DANNEELS: Para mim, a catequese é como a partitura de uma sinfonia. Para descrever uma sinfonia de Mozart, uma partitura impressa é certamente necessária. As notas na partitura, para aqueles que entendem de música, descrevem a sinfonia. Mas a partitura não é a música. A música começa de verdade apenas quando a orquestra começa a tocar, e todos, mesmo os não iniciados, podem ouvi-la. Entretanto, mil reflexões e digressões sobre as notas não produzem sequer um som. Se hoje dedicamos tanto tempo a explicações e lições para conscientizar sobre os sacramentos aqueles que os buscam, talvez seja porque já não reconhecemos a ação objetiva e eficaz da graça, que opera por meio do próprio sacramento. O que a doutrina tradicional chamava de gratia ex opere operato.

Ou seja, a graça que o próprio Senhor comunica nos sacramentos enquanto tais. Quando não há mais fé nessa obra interior da graça, as explicações e as palavras se multiplicam. Em vez disso, o importante no sacramento não é o que pode ser explicado falando sobre ele, mas o que ele faz. O que o próprio sacramento produz. Jesus, na Última Ceia, disse aos seus discípulos: "Tomem e comam". Ele não disse: "Tomem e falem sobre isso, tomem e reflitam sobre isso". E no final acrescentou: "Fazei isto em memória de mim", e não "falem sobre isso em memória de mim". O grande problema é que a Igreja perdeu a fé na graça ex opere operato . Para usar as palavras de Péguy, "o mistério e a operação da graça" não são reconhecidos.

Péguy escreve que, quando a ação da graça é removida, o cristianismo fica apenas com "excelente material didático"... 

DANNEELS: Se a operação da graça for removida, se a Igreja deixar de ser um gesto de graça ou um sacramento de Jesus Cristo, como o último Concílio nos lembrou repetidamente, então toda a Igreja pode facilmente se transformar em uma imensa escola para ensinar os homens a descobrir verdades. Em todas as expressões da missão, o elemento didático e explicativo se expande, mas perdeu toda a dimensão do querigma , o humilde reconhecimento da ocorrência da graça. A este respeito, Pio XI, o Papa que proclamou Santa Teresa de Lisieux como padroeira das missões, escreveu uma belíssima frase em sua encíclica missionária: "E, na verdade, os pregadores evangélicos poderiam trabalhar arduamente, suar e até mesmo dar a vida para levar os não crentes à religião católica; poderiam usar toda a indústria, toda a diligência, todos os meios humanos, mas tudo isso seria em vão, tudo cairia no vazio se Deus, com sua graça, não tocasse os corações dos não crentes para torná-los dóceis e atraí-los a si." Até mesmo o Papa Luciani, quando era bispo de Vittorio Veneto, disse o mesmo em sua primeira homilia na Catedral: "Não se trata de pressa; trata-se apenas da misericórdia e da ternura de Deus. Eu, o bispo, e meus sacerdotes podemos instruir, esclarecer, até mesmo convencer, mas nada mais; somente Deus pode tocar o coração e converter vocês." 

Isso não inclui também a multiplicação de intervenções e documentos eclesiais em todos os níveis sobre todos os fenômenos culturais e sociais da vida moderna? Na sincera intenção de quem os produz, eles deveriam fornecer diretrizes confiáveis ​​para enfrentar os chamados "desafios" do nosso tempo...

DANNEELS: Não creio que a palavra "desafio" seja um bom termo para descrever a relação entre a Igreja e o mundo moderno. Ela evoca um vocabulário de batalha, ou pelo menos contém a ideia de que a fé e a vida cristã ganham credibilidade e interesse no mundo moderno como resultado de dialéticas culturais. Acredito que uma reforma da Igreja é autêntica e frutífera apenas se, em última análise, levar à simplificação, a um retorno ao essencial. Para mim, a maior reforma da Igreja foi a de São Francisco. Ele lia o Evangelho em sua simplicidade e se opunha à adição de notas explicativas às margens do texto, que pretendiam explicar, mas que, no fim, sempre prejudicavam o testemunho vivo das testemunhas oculares. 

Agora, o problema para muitos parece ser este: reapresentar e explicar as verdades cristãs, buscando um discurso persuasivo que ateste sua credibilidade e explique sua necessidade para as pessoas de hoje. É assim que as pessoas tentam convencer os outros dessas certezas... 

DANNEELS: Em primeiro lugar, parece-me um erro de perspectiva. Se o cristianismo não desperta o interesse humano, não é principalmente por falta de explicações sobre suas verdades, como alguns parecem acreditar. E por que o Evangelho e o cristianismo se tornariam interessantes simplesmente por serem explicados e demonstrados como a verdade?

Há muito ceticismo em relação ao que é a verdade. Parece-me que, hoje em dia, a insistência em apresentar o cristianismo como um conjunto de verdades ou a insistência em virtudes morais acaba gerando resistência. Quando a ênfase está na verdade, todos nos tornamos como Pôncio Pilatos, que perguntou em dúvida: o que é a verdade? E quando a ênfase está na transformação dos costumes morais, todos nos sentimos como o pobre Pedro, que se sentiu inadequado, incapaz de seguir Jesus sozinho. Em vez disso, quando o Jesus ressuscitado apareceu, sua presença comoveu e tranquilizou tanto o incrédulo Tomé quanto o pecador Pedro. Isso também pode revelar o erro de uma certa maneira de conceber a certeza cristã. 

Qual delas? 

DANNEELS: A certeza cristã não é o resultado da reflexão, da consciência da verdade eterna do cristianismo. Como ensina o Primeiro Concílio Vaticano na constituição De fide catholica.A doutrina da fé não é apresentada como um "philosophicum inventum", uma invenção filosófica (Denzinger 3020). A certeza cristã tem uma dinâmica completamente diferente. Ninguém se torna cristão e cresce na certeza da fé por meio de uma explicação, por meio da reflexão sobre as verdades cristãs, mas somente por meio de um encontro com a presença gratuita do Jesus Cristo vivo. O início é sempre um impacto estético, algo belo de se contemplar, algo que atrai. Penso ser notável que Jesus tenha dito às primeiras pessoas que encontrou: "Sigam-me". Ele não lhes disse: "Escutem as verdades que lhes direi e reflitam sobre elas". Ele simplesmente lhes disse para segui-lo. Não se pode seguir uma ideia; só se pode seguir uma presença humana que tenha despertado interesse. Se não houver primeiro um encontro desse tipo, um que desperte interesse, o esforço para explicar as razões do cristianismo fracassa, ou até mesmo corre o risco de parecer pretensão. 

Há uma frase de São Gregório de Nissa, recentemente revisitada pelo Padre Luigi Giussani, que alude a essa dinâmica da certeza cristã: "Conceitos criam ídolos, só a admiração sabe". 

DANNEELS: É uma descrição excepcional. A convivência dos apóstolos com Jesus foi uma experiência assim. A certeza deles brotou, floresceu e cresceu somente dentro de uma atração despertada por uma presença real, uma admiração que se repetiu e cresceu ao longo de sua convivência com Jesus. Como diz Santo Agostinho: "Non cognoscitur nisi per amicitiam", não se conhece senão pela amizade. Eles conheceram Jesus porque, maravilhados com sua presença, viveram com ele e assim se tornaram seus amigos. Isso fica claro nas histórias da ressurreição. O Jesus ressuscitado, ao encontrar seus seguidores, não faz grandes discursos nem os incita a pensar, a refletir para encontrar significado. Jesus não profere o Sermão da Montanha, não acrescenta parábolas após a ressurreição. Quando Jesus chega, ele simplesmente diz: eis-me aqui, eis-me aqui. A partir do espanto dos apóstolos com a sua presença tangível após a Páscoa, que com o tempo renovou de forma ainda maior o espanto dos primeiros encontros, nasceu a fé do mundo. Palavras e pensamentos por si só não podem incutir a certeza da fé, que é de ordem sobrenatural, isto é, fruto de uma revelação e comunicação livres. Por isso, me espanta ver que a grande maioria dos discursos da Igreja se dirige ao Senhor usando a terceira pessoa do singular: Ele é. O "Tu" já não é usado, o "Tu" da oração, dos sacramentos. É mais um sinal de que passamos do encontro, do diálogo, para a reflexão sobre.
Há uma imensa diferença entre refletir sobre a grandeza de Deus e poder dizer: Tu, Senhor, és grande e misericordioso.

Se o cristianismo é meramente "um excelente tema para o ensino", os competentes, aqueles que conhecem essas verdades até mesmo profissionalmente, têm uma vantagem. Se, no entanto, a certeza surge da admiração por um encontro, isso pode acontecer livremente a qualquer pessoa.

DANNEELS: O próprio Jesus disse: "Eu te bendigo, Pai, que revelaste estas coisas aos pequeninos e aos ignorantes, e não aos inteligentes". Jesus ficou admirado com isso, ficou admirado com isso no Espírito. É um dos poucos episódios do Evangelho em que a admiração de Jesus se destaca, assim como a admiração que ele sentiu pela fé do centurião. É isso que comove o coração de Deus. Ver a admiração dos homens diante dos gestos de Sua graça é o que admira e comove o coração de Deus.

Em seu livro Admirável Mundo Novo, Erich Voegelin explica que os gnósticos viam um "elemento de insegurança" na fé cristã. Para dissipar essa sensação de vertigem, de precariedade, eles se esforçaram para "buscar um fundamento mais sólido para sua existência no mundo" por meio da "criação de certezas imaginárias". Seria a certeza da fé, então, uma certeza "insegura"?

DANNEELS: A graça da fé proporciona uma certeza muito humana, mas nunca é uma certeza fabricada , entendida como uma posse adquirida, como um domínio sobre a realidade que o homem pode manipular e reproduzir. Aqueles que seguem Jesus não conseguem imaginar, antes de partir, como serão todos os passos da jornada. Os apóstolos que o seguiram seus passos, mas não imaginaram que ele caminhava em direção à cruz e à ressurreição. Eles eram como crianças seguindo o pai caminhando na neve, sem conseguir enxergar à frente porque as costas do pai são muito largas. Mas o pai está com eles, e assim caminham felizes e confiantes. A certeza cristã, como sugere o salmo, tem a mesma dinâmica da admiração e do abandono da criança nos braços da mãe. Por isso, fico perplexo com essas teses teológicas que pretendem racionalizar até mesmo os mistérios da escatologia, partindo do conceito filosófico de eternidade. Sabemos pouco sobre os mistérios últimos. Sabemos que a misericórdia nos abraçará. Mas não sabemos tudo. Querer ir além disso, querer racionalizar dentro de um sistema sem respeitar humildemente todos os dados do Evangelho, é como querer se apropriar do Mistério.

Fonte: https://www.30giorni.it/

As bem-aventuranças (3): o microfone de Deus

Foto/Crédito: Opus Dei.

As bem-aventuranças (3): o microfone de Deus

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." A dor pode ser uma experiência que nos permite acolher a Deus. Este texto, voltado para os jovens, fala sobre as bem-aventuranças propostas pelo Papa Francisco para preparar para a Jornada Mundial da Juventude, na Polônia.

01/07/2016

Aquele não era um mestre como os outros. As centenas de pessoas que se espalhavam pelas ladeiras da colina ouviam com surpresa sua pregação, feita com palavras novas. Tinha chamado felizes os pobres e havia prometido o Reino dos Céus.

Para que a primeira bem-aventurança penetrasse bem nos corações, o Senhor provavelmente faria uma pausa antes de enumerar a segunda. Então disse: Felizes os que choram, porque serão consolados[1].

Ao ouvir estas palavras, muitos levantariam a cabeça. Não eram felizes e, por isso, tinham deixado sua casa e sua aldeia para caminhar durante dias em busca desse Rabi que incendiava os corações. Queriam ser curados de uma doença, libertar-se de uma situação injusta, mudar de vida ou recuperar a esperança em Deus. Mas, chorar? Como pode o Senhor desejar que choremos, que soframos? Qual Salvador promete lágrimas a seus seguidores?

Surpresos, meditariam as palavras do Mestre. Depois de ter-se dirigido aos pobres, o Senhor indica agora um caminho aos que choram. É um Messias que não fala só aos ricos, nem aos que gozam de muitos talentos, nem àqueles a quem tudo corre bem na vida. Esse Mestre tem uma mensagem para todos, porque: quem não chorou alguma vez? Quem duvida de que a tristeza, a adversidade ou a dor aparecerão antes ou depois na própria vida?

O microfone de Deus

Para que precisamos de Deus? É uma pergunta que pode surgir em alguns momentos da nossa existência. São épocas em que temos outras ocupações mais interessantes ou urgentes para fazer. Nossa cabeça e nosso coração estão em outras coisas, e a relação com o Senhor é vista como uma carga, cheia de regras e compromissos (por exemplo, assistir à missa aos domingos), da qual nada obtemos. Não vale a pena.

É que quando na vida navegamos como num mar calmo, a sensação de sermos os capitães do nosso próprio barco pode levar-nos a duvidar, inclusive, de Deus. No entanto, basta pouco para compreendermos que a nau que conduzimos é muito frágil. Uma doença, problemas na família, um amor não correspondido ou a sensação de que nada nos completa são experiências capazes de lançar uma sombra sobre tudo o que nos rodeia.

O escritor C. S. Lewis interpreta esses momentos de dor – física ou interior – como uma chamada forte de Deus. “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas horas de sofrimento: esse é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo”[2].

Efetivamente, Deus nos acompanha sempre e seus conselhos na vida ordinária nos chegam como um sussurro. Não se impõe, mas propõe. Por isso, não é estranho que o ruído interior, as preocupações ou os interesses que ocupam nosso espírito cheguem a esconder a Sua voz. Simplesmente, nos esquecemos do Senhor e O encurralamos no nosso interior. Tornamo-nos surdos. Mesmo assim, ainda que Deus não deseje nem provoque nossa dor, volta para acompanhar-nos no momento da prova, pois não nos abandona nunca.

Que alguém diga o seu nome

Os sofrimentos que aparecem na vida podem ser provocados por uma situação objetiva – o falecimento de um familiar, uma época de dificuldade econômica ou profissional, uma doença, etc. São ocasiões em que a solução para o problema não está completamente em nossas mãos. Nesses momentos, podemos aprender de Maria Madalena, uma das muitas personagens que – como o próprio Jesus, a Virgem, São Pedro ou São Paulo – vemos chorar nos Evangelhos.

Dois dias depois da crucifixão do Senhor, Maria acode ao túmulo do Mestre para limpar o cadáver com aromas. A sua dor não é um obstáculo para servir a Jesus uma última vez. Quantas recordações a invadiriam naquela manhã, sozinha, nas ruas de Jerusalém! Porém, ao chegar ao sepulcro e descobrir que está vazio, Madalena se desmorona. Não lhe resta nem sequer o consolo de ver o corpo do Senhor: tiraram-lhe tudo. Perguntaria uma e outra vez a Deus: Por quê? Por quê?

“Mulher, por que choras?”[3], lhe diz uma voz. Ela, pensando que fosse o jardineiro, responde: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo”. Aquela mulher não podia imaginar o que havia ocorrido: só Deus conhece o porquê dos fatos que nos podem levar ao desespero. “Maria!”, chama o Senhor. “Rabûni! Mestre!”, grita ela de alegria ao reconhecê-lo.

“Maria!” Ao ser chamada, os olhos de Madalena se abrem à verdade. Às vezes, só necessitamos que alguém diga o nosso nome com amor para que as penas se iluminem. Quando não encontrarmos sentido na dor e já não soubermos o que fazer, é bom ir em frente ao Sacrário, deixar o problema nas mãos de Deus e ouvir ao Senhor que pronuncia o nosso nome.

O elefante na estaca

Mas quem deseja encontrar o Senhor na sua vida cotidiana não precisa esperar uma grande tragédia para obter o consolo de Deus, mas as pequenas decepções, desânimos, queixas ou contrariedades de cada dia serão oportunidades para buscar a Sua ajuda.

Especificamente, uma fonte de dor costuma ser a acumulação de misérias pessoais. Embora pensemos que não fizemos nada de grave na vida, o nosso coração conserva a lembrança de cada ferida. De modo misterioso, a alma se cansa dos pecados cometidos, grandes e pequenos. E assim, um dia, sentimo-nos esgotados, desmotivados ou nos desprezamos sem motivo. Nesses momentos, ficamos especialmente fracos, por isso não convém permanecer tristes por muito tempo, porque a tristeza chama o pecado, e assim quando estamos irritados, chateados ou derrotados podemos cometer grandes bobagens. “Um abismo chama outro abismo”[4], diz a Bíblia.

“Todos nós temos escuridões na nossa vida” – reconhece o Papa Francisco – “ocasiões em que há escuridão em tudo, inclusive na própria consciência. Caminhar nas trevas significa estar satisfeito consigo mesmo; estar convencido de que não precisa de salvação: Essas são as trevas!”[5] De fato, como aponta o Papa, existe o perigo de nos conformarmos com a nossa miséria e de preferir a amargura à mudança, porque a mudança implica crescimento, luta, maturidade. Pensamos: “deveria estudar”, “deveria discutir menos com meus pais e compreendê-los”, “deveria abandonar esse vício”… porém, muitas vezes, ficamos apenas nos desejos.

Antigamente, para que os elefantes não fugissem dos circos, costumava-se atá-los a uma estaca com uma corda grossa. O enorme animal possuía uma força imensa e poderia libertar-se com um puxão da pata. Por que não tentava? Porque, assim que nasciam, eram presos a esse pau e, ainda pequenos, lutavam para escapar, porém perdiam logo a vontade de continuar tentando. Já grandes, sem consciência da força adquirida, continuavam vencidos por aquela simples estaca.

Pode nos ocorrer a mesma coisa: durante muito tempo, lutamos contra defeitos que nos superam e, cansados no fim, deixamos de combater. Levantar-nos cedo de manhã, estudar o tempo que havíamos previsto, viver a castidade, falar com sinceridade na confissão ou ser amáveis quando os outros nos contrariam podem ter-se tornado guerras impossíveis de vencer. E não é assim: com a ajuda de Deus, temos de continuar tentando, porque talvez o que antes não era possível, agora será com um pouco de esforço. Além disso, contamos com a graça de Deus: Ele só nos pede que correspondamos, pede-nos que estiquemos o nosso braço para segurarmos o dEle.

Quem ainda não é maduro o suficiente para ver que a causa de seus problemas está em si mesmo, pode reagir com rebeldia ou acusando outros (a família, os amigos, o “sistema”, etc.). Acontece que o pecado nos fecha em nós mesmos e deixamos de levantar os olhos para os outros e para Deus. Já não vemos as necessidades alheias, e só pensamos no que nos afeta.

Por isso, um primeiro passo para libertar-nos da dor pode ser olhar com outros olhos para os que nos rodeiam e deixar de atribuir a eles as culpas do nosso sofrimento. Ajudar em casa, preocupar-nos pelos problemas dos nossos pais, dedicar tempo e atenção a um amigo que precisa ou comprometer-nos numa iniciativa de solidariedade pode ser um bom começo. Descobriremos, entre outras coisas, que possuímos a enorme capacidade de fazer os outros felizes. Vale a pena realizar esse esforço!

Outra vez, e outra e outra e outra

São Josemaría perguntava: Não há alegria?  Então pensa: há um obstáculo entre Deus e mim.  Quase sempre acertarás.”[6]. É que, para sair de um contratempo na vida, uma boa confissão, algumas vezes, pode ajudar muito. Se ainda não estamos preparados para nos confessar, podemos pelo menos fazer exame de consciência e reconhecer que precisamos mudar. Se o nosso orgulho não nos impede, Deus nos dará inclusive as forças que às vezes precisamos para pedir perdão.

Os obstáculos que poderão aparecer – “melhor confessar-me outro dia”, “não estou preparado para contar esta coisa”, “o sacerdote não vai me entender”, “quando tiver vontade”...; são armadilhas que o diabo coloca no nosso caminho, que temos de atravessar com decisão. Não devemos conceder-lhe nem uma só vitória. De joelhos diante do sacerdote, na presença de Deus, não só cairá de nossa alma a máscara de mentiras que nos sustentava fragilmente, como o Senhor nos encherá da sua graça.

“Pensamos que ir à confissão é como ir à lavanderia, mas Jesus no confessionário não é uma lavanderia” e sim um encontro com Alguém “que nos espera como somos. Mas, Senhor, olha, eu sou assim. Temos vergonha de dizer a verdade, ‘fiz isso, pensei aquilo’ (...) a capacidade de envergonhar-se é uma virtude do humilde". Portanto, devemos confessar-nos “com confiança, também com alegria, sem nos maquiar. Não devemos jamais nos maquiar diante de Deus! Com a verdade. Com vergonha? Bendita vergonha…” E, com otimismo, o Papa pergunta-se: “E se amanhã fizer o mesmo? Confesse-se outra vez, e outra e outra e outra… Ele te espera sempre”[7]. E em outra ocasião dizia: “Deus não se cansa de perdoar; nós é que cansamos de pedir perdão”.

Só assim a nossa fragilidade não será um peso que nos enche de insegurança, mas uma ocasião para viver com a alegria, que só possuem aqueles que sabem que são filhos de Deus. Assim o aconselhava São Josemaría: “Triste?... Por teres caído nessa pequena batalha? Não! Alegre! Porque na próxima, com a graça de Deus e com a tua humilhação de agora, vencerás!”[8].

Então compreenderemos que as lágrimas que nos levaram até ali – os sofrimentos interiores, a debilidade ou as dúvidas – valeram a pena. Conhecer-nos-emos melhor e, acima de tudo, saberemos que contamos com a ajuda do Senhor. Quando abandonarmos nossos pesares em Deus e saborearmos a paz e a alegria serena da confissão, entenderemos, enfim, porque Jesus chamou “bem-aventurados” os que choram.

* * *

Preguntas para a oração pessoal

 Pratico a fé unicamente quando é útil? Lembro-me do Senhor só quando preciso pedir algo? Para não me esquecer de Deus nas épocas em que outras coisas ocupam minha cabeça, poderia buscar um momento no dia para falar uns minutos com Ele ou recitar alguma oração? Posso concretizar com meu diretor espiritual um plano para conversar com Deus diariamente?

 Aceito as coisas que não são como eu gostaria? Peço a Deus que me ajude a ver a Sua vontade e a aproveitar essas ocasiões para aproximar-me mais dEle?

 Quando me chateio ou uma situação fica complicada, penso em que mais eu poderia fazer? Critico sempre os outros sem reconhecer nunca a minha parte de responsabilidade? Peço perdão quando percebo que errei ou feri, mesmo que me custe?

 Que obstáculos me afastam de pedir perdão a Deus na confissão? Se já me confesso, faço alguma coisa para aprender a me confessar cada vez melhor? Vou confessar-me com a atitude de quem vai “esvaziar o carrinho de mão” ou procuro pedir perdão ao Senhor de verdade, com o coração?

J. Narbona / J. Bordonaba


[1] Mt 5,4.

[2] C. S. Lewis, O Problema do sofrimento.

[3] Jo 20,11-18.

[4] Sal 42,8 .

[5] Homilia do Papa Francisco, 29/04/2013.

[6] Caminho, n. 662.

[7] Homilia do Papa Francisco, 29/04/2013.

[8] São Josemaria, Via Sacra, III estação, n. 3.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Papa: o ministério sacerdotal exige fidelidade e comunhão, não autorreferencialidade

Papa Leão XIV durante missa com ordenação sacerdotal em 31 de maio de 2025 (Vatican Media)

Na Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro”, publicada nesta segunda-feira, 22/12, por ocasião dos 60 anos dos Decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum Ordinis, o Papa Leão XIV reflete sobre a identidade, a missão e o futuro do ministério presbiteral. Formação permanente, fraternidade, sinodalidade e discernimento no uso das mídias estão no centro do texto, que convida os sacerdotes a uma fidelidade vivida como dom, conversão e serviço à evangelização.

Thulio Fonseca - Vatican News

A fidelidade sacerdotal como caminho que gera futuro para a Igreja está no centro da Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro”, publicada pelo Papa Leão XIV nesta segunda-feira, 22 de dezembro, no contexto do 60º aniversário dos Decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum Ordinis. No Documento, assinado na Solenidade da Imaculada Conceição (08/12), o Pontífice propõe uma releitura atualizada da identidade e da missão dos presbíteros, à luz das transformações culturais, sociais e tecnológicas do nosso tempo.

O Papa recorda que não se trata de uma simples comemoração histórica, mas de uma oportunidade para “revigorar sempre e todos os dias o ministério presbiteral”, conscientes de que “a desejada renovação de toda a Igreja depende, em grande parte, do ministério sacerdotal, animado do espírito de Cristo”.

LEIA A CARTA APOSTÓLICA NA ÍNTEGRA

Fidelidade que nasce do encontro com Cristo

No início da Carta, Leão XIV sublinha que toda vocação nasce do encontro pessoal com Jesus, “que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”. Antes de qualquer atividade pastoral ou compromisso ministerial, está o chamado do Senhor: “Vem e segue-me” (Mc 1,17) A fidelidade à vocação, observa o Papa, fortalece-se quando o sacerdote não perde a memória daquele primeiro chamado e permanece unido a Cristo: 

“Ao longo de toda a vida somos sempre ‘discípulos’, com o constante anseio de nos configurarmos a Cristo. Apenas esta relação de obediente seguimento e fiel discipulado pode manter a mente e o coração na direção certa, apesar das perturbações que a vida reserva.”

Formação permanente: memória viva da vocação

A Carta dedica amplo espaço à formação permanente, definida como condição indispensável para manter vivo o dom recebido na Ordenação. “A fidelidade ao chamamento não é imobilismo ou fechamento, mas um caminho de conversão quotidiana”, afirma o Papa, destacando que a formação não pode limitar-se ao tempo do seminário.

Diante das feridas causadas pelos abusos e da dolorosa realidade do abandono do ministério por parte de alguns sacerdotes, Leão XIV insiste na necessidade de uma formação integral que assegure “o crescimento e a maturidade humana”, juntamente com uma vida espiritual sólida. O seminário, recorda, deve ser “uma escola de afetos”, onde se aprende a amar como Cristo, para que o sacerdote seja sempre “ponte, não obstáculo ao encontro com Cristo”.

Fraternidade presbiteral: dom a ser vivido

Outro eixo fundamental do texto do Pontífice é a fraternidade presbiteral. O Papa recorda que ela não é apenas um ideal ou um esforço organizativo, mas “um dom inerente à graça da Ordenação”. Citando o Concílio, afirma que os presbíteros “são irmãos entre os irmãos, membros de um só e mesmo corpo de Cristo”. A fidelidade à comunhão exige superar o individualismo e cuidar concretamente uns dos outros, sobretudo dos sacerdotes mais sós, doentes ou idosos, e questiona: 

“Como poderíamos nós, ministros, ser construtores de comunidades vivas, se entre nós não houvesse antes de tudo uma fraternidade efetiva e sincera?”

Sinodalidade e corresponsabilidade

Inserida no caminho sinodal da Igreja, a Carta exorta os presbíteros a cultivarem relações marcadas pela escuta, pela colaboração e pelo reconhecimento dos carismas dos leigos. “Devem descobrir com sentido de fé os carismas, humildes ou excelentes, que sob múltiplas formas são concedidos aos leigos”, recorda Leão XIV, citando o Presbyterorum Ordinis.

O ministério sacerdotal, afirma o Papa, não perde força numa Igreja mais sinodal; ao contrário, encontra novas possibilidades de fecundidade quando supera modelos de liderança isolada e se abre a uma condução mais colegial e missionária.

Missão, sobriedade e discernimento no uso das mídias

Ao tratar da missão, o Pontífice alerta para duas tentações opostas: a lógica da eficiência e do ativismo, que mede o valor do sacerdote pela quantidade de atividades realizadas, e o fechamento defensivo que paralisa o impulso evangelizador. A resposta está na caridade pastoral, definida como “o princípio que unifica a vida do presbítero”. É neste contexto que se insere uma importante reflexão dedicada ao discernimento sobre a visibilidade pública do sacerdote e o uso dos meios de comunicação:

“Educado pelo mistério que celebra na santa liturgia, cada sacerdote deve ‘desaparecer para que Cristo permaneça, fazer-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (cf. Jo 3, 30), gastar-se até ao limite para que a ninguém falte a oportunidade de O conhecer e amar’. Por isso, a exposição mediática, o uso das redes sociais e de todos os instrumentos hoje à disposição devem ser sempre avaliados com sabedoria, tendo como paradigma de discernimento o serviço à evangelização. ‘Tudo me é lícito! Sim, mas nem tudo convém’ (1 Cor 6, 12).”

Fidelidade que gera futuro

Na conclusão, Leão XIV expressa o desejo de que este aniversário conciliar suscite um renovado impulso vocacional na Igreja. “Não há futuro sem cuidar de todas as vocações”, afirma, convidando a uma pastoral juvenil e familiar mais corajosa e explicitamente vocacional:

“A escassez de vocações sacerdotais exige que todos reflitam sobre a fecundidade das práticas pastorais da Igreja. É verdade que os motivos desta crise podem, frequentemente, ser variados e múltiplos, dependendo, em particular, do contexto sociocultural; porém, ao mesmo tempo, é necessário que tenhamos a coragem de fazer propostas fortes e libertadoras aos jovens, disponibilizando cada vez mais nas Igrejas particulares os ambientes e as formas de pastoral juvenil impregnadas de Evangelho, onde as vocações ao dom total de si possam manifestar-se e amadurecer.”

Por fim, ao confiar os seminaristas, diáconos e presbíteros à intercessão da Virgem Maria e de São João Maria Vianney, o Papa recorda que “o sacerdócio é o amor do coração de Jesus. Um amor tão forte que dissipa as nuvens da rotina, do desânimo e da solidão; um amor total que nos é dado em plenitude na Eucaristia. Amor eucarístico, amor sacerdotal”.

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Arquidiocese de Brasília encerra o Ano Jubilar da Esperança com celebração solene na Catedral

Ano Jubilar da Esperança (arqbrasilia)

A Arquidiocese de Brasília se prepara para viver um momento de profunda fé e comunhão no próximo domingo (28/12), com o encerramento do Ano Jubilar da Esperança, às 12h.

22/12/2025

A programação terá início com uma procissão em frente à Cúria Metropolitana de Brasília, de onde os fiéis sairão em peregrinação até a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida. O percurso simboliza o caminho espiritual vivido ao longo do Ano Jubilar, marcado pela vivência da esperança cristã, da reconciliação e do compromisso com a missão evangelizadora.

Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida - Brasília, DF (catedral.org)

Na Catedral, será celebrada a Santa Missa de encerramento, presidida pelo Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo de Brasília, e concelebrada por diversos sacerdotes da Arquidiocese.

O Ano Jubilar da Esperança foi um tempo especial de graça para a Igreja Particular de Brasília, especialmente ao celebrar também o seu Jubileu de Safira pelos 65 anos de missão evangelizadora na capital federal, incentivando a vivência da misericórdia, da solidariedade e da esperança que não decepciona.

O encerramento deste período jubilar convida os fiéis a levarem para a vida cotidiana os frutos espirituais cultivados ao longo do ano, fortalecendo a fé e o compromisso com o Evangelho.

A Arquidiocese de Brasília convida toda a comunidade a participar deste momento celebrativo, expressão da unidade do povo de Deus e do caminho sinodal vivido na esperança em Cristo.

Fonte: https://arqbrasilia.com.br/

Para entrar no espírito natalino: a bela, breve, pontual e oportuna meditação sobre São José feita pelo Papa Leão XIV

O Santo Padre Abençoou As Imagens Do Menino Jesus Trazidas Por Centenas De Crianças Para Essa Ocasião. Foto: Vatican Media

Discurso por ocasião da oração do Angelus no domingo, 21 de dezembro de 2025.

21 DE DEZEMBRO DE 2025, 00H37 - EQUIPE EDITORIAL

(ZENIT News / Cidade do Vaticano, 21 de dezembro de 2025) – Ao meio-dia de domingo, 21 de dezembro, o Papa Leão XIV rezou o Angelus com milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro. Retomando uma tradição negligenciada por seu antecessor, o Santo Padre abençoou as imagens do Menino Jesus que centenas de crianças trouxeram para a ocasião. Segue abaixo o discurso do Papa, que se concentrou na imagem de São José:

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O Santo Padre Abençoou As Imagens Do Menino Jesus Trazidas Por Centenas De Crianças Para Essa Ocasião. Foto: Vatican Media

Queridos irmãos e irmãs: Bom dia!

Hoje, no quarto domingo do Advento, a liturgia nos convida a meditar sobre a figura de São José. Ela nos apresenta-o, em particular, no momento em que Deus lhe revela a sua missão em sonho (cf.  Mt  1,18-24). Desta forma, oferece-nos uma bela passagem da história da salvação, cujo protagonista é um homem frágil e falível — como nós — e, ao mesmo tempo, corajoso e forte na fé .

O evangelista Mateus o chama de “homem justo” (cf.  Mt  1,19), descrevendo-o como um israelita devoto que observava a Lei e frequentava a sinagoga. Mas, além disso, José de Nazaré também nos é apresentado como uma pessoa extremamente sensível e humana.

Vemos isso quando, mesmo antes de o Anjo lhe revelar o mistério que se cumpre em Maria, diante de uma situação difícil de compreender e aceitar, ele não escolhe o caminho do escândalo e da condenação pública de sua futura esposa, mas sim o caminho discreto e benevolente da repudiação secreta (cf.  ibid .). Dessa forma, ele demonstra que compreendeu o significado mais profundo de sua própria prática religiosa: a misericórdia .

O Santo Padre Abençoou As Imagens Do Menino Jesus Trazidas Por Centenas De Crianças Para Essa Ocasião. Foto: Vatican Media

A pureza e a nobreza de seus sentimentos tornam-se ainda mais evidentes quando o Senhor, em sonho, revela-lhe o seu plano de salvação, indicando o papel inesperado que ele deve assumir: ser o esposo da Virgem Mãe do Messias. Aqui, de fato, José, com um grande ato de fé, também abandona a última margem de suas certezas e navega para o mar aberto rumo a um futuro que já está inteiramente nas mãos de Deus. Santo Agostinho descreve sua aceitação assim: "Da piedade e caridade de José nasceu da Virgem Maria um filho, um Filho de Deus" ( Sermão  51, 30).

Piedade e caridade, misericórdia e abnegação: estas são as virtudes do homem de Nazaré que a liturgia nos propõe hoje, para nos acompanhar nestes últimos dias do Advento, em nossa caminhada rumo ao santo Natal. São atitudes importantes que treinam nossos corações para o encontro com Cristo e com nossos irmãos e irmãs, e que podem nos ajudar a ser, uns para os outros, uma manjedoura acolhedora, um lar confortável, um sinal da presença de Deus. Neste tempo de graça, não percamos nenhuma oportunidade de praticá-las: perdoando, encorajando, dando um pouco de esperança àqueles com quem convivemos e àqueles que encontramos; e renovando na oração nossa entrega filial ao Senhor e à Sua Providência, confiando-Lhe tudo com confiança.

Que a Virgem Maria e São José nos ajudem nisso, pois foram os primeiros a acolher Jesus, o Salvador do mundo, com grande fé e amor.

Fonte: https://es.zenit.org/

Natal de luz: singular e especial

Menino Jesus na Santa Missa na Noite de Natal na Basílica de São Pedro  (Vatican Media)

"A fixação da data do Natal não tem preocupação cronológica, mas litúrgica e teológica". A data de 25 de dezembro "viria da adoração do “sol invencível” (Natalis Solis invicti), que era uma festa romana e pagã que celebrava o solstício do inverno no hemisfério norte. Chamava-se “festa do sol”. O Cristianismo aproveitou essa data para apontar Cristo, sol nascente que nos veio visitar, como luz do alto para os que jazem nas trevas e na sombra da morte ali morte ali estão sentados".

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

“Aos peregrinos provenientes de todas as partes do mundo que visitarem a Praça de São Pedro, a cena da Natividade recordará que Deus se aproxima da humanidade, tornando-se um de nós, entrando na nossa história com a pequenez de um menino. Com efeito, na pobreza do estábulo de Belém, contemplamos um mistério de humildade e amor. ¹(Leão XIV)”

Jesus assume a fragilidade humana, tornando-se um de nós. Isso é uma prova do amor de Deus, que desceu até nós para nos resgatar, e a salvação se torna uma realidade presente, não apenas uma promessa distante. E se a encarnação é o "como" Deus veio, a ressurreição é a "garantia" de que a vitória sobre o pecado e a morte foi alcançada.  Assim,  esses dois movimentos - encarnação e ressurreição - devem ser mantidos juntos, disse o cardeal Cantalamessa.

Já às portas do Natal, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje a reflexão "Natal de Luz: singular e especial":

"O Concílio Vaticano II não dedicou um documento exclusivo ao Natal, mas tratou de modo profundo e central do mistério que o Natal celebra: a Encarnação do Verbo Divino. Esse tema aparece de forma transversal em vários documentos conciliares, sobretudo na Constituição dogmática Lumen Gentium, na Constituição pastoral Gaudium et Spes e na Constituição dogmática Dei Verbum

A constituição Pastoral Gaudium et Spes, no número 22, aponta que Deus entra na história humana, assume a nossa condição e revela plenamente o seu amor: “Na realidade, o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”. Na Constituição Dogmática Lumen Gentium, lê-se assim no número 3: “O Filho de Deus… assumiu a natureza humana para realizar a obra da redenção”. No Natal, Deus não apenas envia uma mensagem: Ele mesmo vem. Jesus é a Palavra viva, o Verbo feito carne, a revelação plena do Pai.

Cada celebração de Natal, não é mais uma vez que se celebra, de uma maneira repetitiva e talvez rotineira, mas um novo ciclo litúrgico que acontece de maneira singular e genuinamente especial. Segundo o filósofo Kierkegaard, com a encarnação de Cristo, quando um Deus tão imenso se fez tempo e espaço, fazendo-se pingo de gente, a eternidade entrou no tempo e criou-se assim a própria possibilidade da esperança. Por esses dias, findamos o Ano Santo Jubilar da Esperança. Na “teologia da esperança” não seria a encarnação o fundamento da esperança, mas a ressurreição. Porém, Cristo não se encarna simplesmente para se encarnar, mas com um objetivo próprio e concreto, ou seja, para salvar a humanidade, para morrer e ressuscitar por amor a nós.

Esses dois movimentos precisam ser mantidos juntos: a encarnação e a ressurreição. É o que nos aponta o cardeal Raniero Cantalamessa, ex-pregador da Casa Pontifícia: “As duas coisas devem ser mantidas juntas. Num ponto da história - a Encarnação - a humanidade entrou no tempo, em outro ponto da história - a ressurreição - o tempo entrou na eternidade! O horizonte cristão da eternidade - como mais genericamente da salvação - é possibilitado, conjuntamente, pela encarnação e ressurreição de Cristo."

O Papa Leão XIV tem enfatizado que a mensagem do Advento é viver uma espera ativa, abrindo-se ao Senhor que vem, a colocar nossa confiança em Cristo como centro da vida cristã e que o tempo natalino é ocasião para renovar compromissos com a paz, justiça e cuidado com o outro.

Cristo não se fez homem, no Natal, para fazer turismo e vir tão somente uma visitinha qualquer entre nós e depois partir de volta para o Pai. Quando se faz gente como a gente, tem uma missão, uma tarefa fundamental: a salvação de cada homem e cada mulher. Veio para iluminar todo o homem do planeta, segundo nos aponta o Concílio Vaticano II. A razão do Natal é a Páscoa. Mas, o Natal não é menos indispensável para a esperança cristã do que é a Páscoa. Outros homens morreram e ressuscitaram, segundo a Bíblia, mas não fundaram nenhuma esperança nova. Se isso aconteceu com Cristo, é porque a sua não era a morte e ressurreição de uma pessoa qualquer, mas de um homem-Deus”, conforme aponta Cantalamessa.

Kierkegaard ainda diz assim: “A Esperança do Cristianismo é a eternidade e Cristo é o caminho; o seu abaixamento (kênosis na teologia, que celebramos na concepção, no Natal e sobretudo na cruz) é o caminho, mas também quando ascende ao céu, Ele é o caminho”. Para o pensamento bíblico, o ser humano não é tanto o que é determinado a ser pelo seu nascimento, mas o que é também chamado a se tornar, mediante o exercício de sua liberdade, na obediência à Palavra de Deus, em toda a sua trajetória.

Na liturgia, foi demarcada em 25 de dezembro o dia do nascimento do Salvador. Diferente da Páscoa, a fixação da data do Natal não tem preocupação cronológica, mas litúrgica e teológica. A demarcação da festa do Natal em 25 de dezembro viria da adoração do “sol invencível” (Natalis Solis invicti), que era uma festa romana e pagã que celebrava o solstício do inverno no hemisfério norte. Chamava-se “festa do sol”. O Cristianismo aproveitou essa data para apontar Cristo, sol nascente que nos veio visitar, como luz do alto para os que jazem nas trevas e na sombra da morte ali estão sentados e mergulhados (cf. Lucas 1,79).

O profeta da esperança já anunciava: “O povo que jazia nas trevas, viu uma grande luz” (Isaías 9,2). Quando Jesus começa seu ministério, se cumpre essa profecia em Mateus 4,15-16: “o povo que jazia nas trevas, viu uma grande luz; aos que jaziam na região sombria da morte, surgiu uma grande luz”. Não é por nada, que no Natal, se ascendem incontáveis luzes, em todos os lugares. Em todas as cidades se faz “Natal Luz”. Cristo é nossa luz, esperança para cada amanhecer. O domingo é justamente o primeiro dia da semana, dia da ressurreição do Senhor, o oitavo dia, que nos lembra o primeiro dia da criação, no qual Deus criou a luz (Cf. Gn 1,3-5). Enfim, Cristo nascido-morto-ressuscitado é a verdadeira luz, dos homens e das nações. Jesus mesmo se apresentou como “Luz do mundo” (João 8,12). Quem o seguir, não andará nas trevas".

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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¹ Discurso do Papa Leão XIV aos doadores do Presépio da Sala Paulo VI e da Árvore de Natal da Praça São Pedro: 
https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/speeches/2025/december/documents/20251215-delegazioni-presepe-albero.html

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

CRISTANDADE: Certeza como maravilha (Parte 1/2)

A cristandade (Facebook)

CRISTANDADE

Arquivo 30Dias nº 12 - 1998

Certeza como maravilha

A Igreja dos últimos vinte anos insistiu em apresentar-se, em seu desafio ao mundo, como uma cidadela de certezas inabaláveis. Mas, para usar as palavras do Concílio de Trento, essas certezas são frequentemente construídas pelo próprio indivíduo, desprovidas de qualquer piedade. O oposto da fé simples dos apóstolos, fortalecida pela admiração da realidade presente.

Entrevista com o Cardeal Godfried Danneels por Gianni Valente

Há um clichê ganhando força nas análises de cenários para o efêmero milênio. Trata-se do ditado de que, em meio aos escombros da civilização pós-moderna, agonizando na areia movediça do niilismo e do relativismo, a última reserva de certezas inabaláveis ​​é representada pela Igreja Católica, a única guardiã de uma visão firme do mundo e dos destinos de uma modernidade confusa.

A interpretação dominante da mais recente encíclica papal, Fides et Ratio , percebida por muitos como um manifesto programático do pensamento católico forte no final do milênio, reiterou, nos comentários de observadores seculares e católicos, essa imagem da Igreja como uma cidadela de certezas sólidas como rocha. Cardeais influentes chegaram a reivindicar para a Igreja, no final do milênio, o papel de defensora da civilização , um bastião de verdades perenes sobre as quais reconstruir os alicerces de nossa fragmentada convivência civil. Assim, a Igreja das certezas, que "desafia" a anorexia generalizada do sentido, fechando o milênio na ofensiva, é dialeticamente contrastada por muitos com a Igreja dos anos 1970, duvidosa e atordoada pela modernidade, em recuo.

A estrutura eclesial, em muitas de suas manifestações, está sendo remodelada segundo o clichê das certezas fortes. Teologia, liturgia, acontecimentos pastorais, doutrina social: todas as expressões da atual estrutura eclesial têm como horizonte a produção de eventos, símbolos e palavras, para fornecer certezas ao homem moderno e convencer de sua verdade um mundo fadado ao colapso.

Mas a própria dinâmica e os efeitos em curso nesta nova era levantam questões sobre a substância e a raiz das certezas cultivadas e propostas pelo aparato eclesial. Certezas reais ou certezas construídas? Reconhecimento de evidências reais ou fruto de processos de autossugestão psicológica? E, sobretudo: onde começa a certeza da fé e como ela cresce? O jornal 30Giorni conversou sobre isso com o Primaz da Bélgica, Cardeal Godfried Danneels, em um encontro na residência oficial do arcebispo em Mechelen.

Eles afirmam que, após um período de dúvidas e incertezas, a Igreja retornou a um tempo de certeza. Você concorda com essa interpretação?
GODFRIED DANNEELS: Precisamos ter uma perspectiva histórica. Nos tempos modernos, até o último Concílio, sempre houve essa tentação de transformar o conteúdo vivo da revelação, que é o mistério vivo de Jesus, em uma teologia, um sistema de verdades teológicas. Quando o pensamento teológico se sobrepõe ao mistério vivo da pessoa de Jesus, a teologia inevitavelmente se torna uma sistematização filosófica.

O último Concílio teve como objetivo justamente retomar todas as definições dogmáticas, teológicas e morais, todas essas expressões, e reintroduzi-las nas fontes da revelação, que são a Bíblia e a Tradição. Após o último Concílio, que sob a fiel orientação de Paulo VI foi um grande Concílio, mais pastoral do que teológico-dogmático, alguns, mesmo sem má intenção, pensaram que tudo poderia ser mudado. E que o critério final seriam as próprias opiniões, as próprias avaliações. Um certo subjetivismo se infiltrou na Igreja, o que por vezes levou a dúvidas até mesmo sobre os fundamentos da fé, o que obviamente não era a intenção do Concílio.

Agora, testemunhamos uma reação, especialmente no centro da Igreja, talvez para conter o perigo de transformar a fé em uma emoção subjetiva. Salvaguardar e expor os conteúdos essenciais da fé é sempre algo bom. Os dogmas são como as margens de um rio onde a corrente da vida cristã pode fluir livremente. Mas hoje, a ênfase muitas vezes não recai sobre as certezas essenciais da fé cristã, mas sim sobre certezas marginais e periféricas.

Essa imagem de uma Igreja de certezas é cultivada principalmente no centro, porque, por exemplo, aqui na Bélgica não vejo uma era de certezas. E não será sempre assim. Esta também é uma fase que passará. A única coisa que sustenta a Igreja e a mantém no caminho certo são a oração e a vida sacramental e, portanto, mística. São os santos, antes de tudo, que preservam o tesouro da revelação. 

Que imagem de certeza está sendo transmitida pelo aparato eclesiástico hoje? DANNEELS: A verdade do cristianismo é um mistério, está diante de nós como um fato externo que nos chega e é sempre maior do que nós, uma realidade viva a ser humildemente reconhecida. E não um objeto a ser possuído. É o próprio mistério que, ao se manifestar, atrai e persuade a mente e o coração humanos com uma espécie de magnetismo, uma força de atração. Não é a mente humana que constrói a certeza sobre a verdade por sua própria força.

Em vez disso, a ideia de certeza buscada na Igreja hoje parece muitas vezes seguir as trajetórias das ideologias e dos sistemas de pensamento modernos: há afirmações verdadeiras, que se tenta tornar persuasivas por meio da coerência lógica de um mero discurso. Trata-se de uma ideia de certeza "desprovida de toda piedade ", como diria o Concílio de Trento no decreto De iustificatione (Denzinger 1533), ou seja, a certeza daqueles que não reconhecem humildemente a realidade. Uma certeza fabricada que, em última análise, permanece uma projeção do sujeito, mesmo que construída em nome do pensamento objetivo contra o pensamento relativista.

Como essa estratégia de certeza se expressa em vários aspectos da vida da Igreja, por exemplo, na teologia? DANNEELS: Há teses teológicas que, em vez de aderirem humildemente ao mistério revelado, pretendem construir um sistema de domínio teológico sobre a realidade. Por exemplo, isso ocorre quando se tenta deduzir abstratamente a salvação humana a partir da tese teológica de que todos os homens, no âmago do seu ser, já pertencem a Cristo, visto que Ele é o centro do cosmos e da história. Assim, tenta-se transformar toda a dinâmica gratuita e histórica da salvação numa fórmula matemática com um resultado certo e preestabelecido. Nessa demonstração de certezas conceituais, que funcionam como um sistema de proteção, de seguro preventivo, chega sempre o momento em que se esquece que a realidade, e portanto a verdade, é sempre uma dádiva e não um produto humano. 

Não são também o ativismo litúrgico, a invenção de novos símbolos, marcados por essa ansiedade por eventos e gestos que constroem certeza psicológica? DANNEELS: Sim, é o mesmo problema. A liturgia é algo que existe, que vem de fora. Para a Igreja, a liturgia é como uma casa, na qual os fiéis entram com humildade e respeito por algo que existe e que Jesus ali colocou. Pode-se reorganizar os móveis, mas a casa está lá. A liturgia acontece diante de Deus. Em vez disso, a liturgia é agora concebida como uma espécie de teatro sobre Deus. Uma performance humana na qual expressamos nossas sensações, nossas experiências, nossas ansiedades, as boas intenções desenvolvidas pelo raciocínio sobre a ideia de Deus. Assim, até mesmo os sinais e as orações são reduzidos a expedientes para comunicar, de forma cênica, essas reflexões, esses ensinamentos e pensamentos sobre Deus.

Deus. Tudo isso pode ser muito nobre, mas é a dinâmica oposta à da liturgia cristã. Os sinais não são mais aqueles que o próprio Senhor coloca. Sinais e símbolos inventados apenas expressam o esforço do homem em fingir ser Deus. São uma projeção do eu, do seu próprio esforço para imaginar o Deus desconhecido. Através deles, em última análise, simbolizamos a nós mesmos. 

Em outro nível, mais emocional, a proliferação de eventos de grande escala e encontros eclesiais não corre o risco de se transformar em uma mobilização para proporcionar segurança psicológica? O Cardeal Ratzinger confessou um certo desconforto com o que chamou de "estruturas celebratórias permanentes" que estão se espalhando por toda a Igreja... DANNEELS: Concordo plenamente com o Cardeal Ratzinger. Essa atmosfera de celebração contínua e permanente não é o estado normal da vida cristã. Penso que também há um contágio da mentalidade pós-moderna aqui, segundo a qual algo só existe se causar alvoroço, se acabar na televisão. Não se pode viver de celebração em celebração. Além disso, se eventos excepcionais são celebrados a cada dois dias, eles deixam de ser verdadeiros feriados e se tornam "dias festivos comuns". Os feriados são uma função da vida cotidiana. Não existe domingo sem os outros seis dias normais de trabalho. Em vez disso, na Igreja, muitas vezes parece acontecer o oposto: os dias comuns parecem ter significado apenas em relação ao feriado, servindo para preparar o grande evento. 

Fonte: https://www.30giorni.it/

domingo, 21 de dezembro de 2025

As Bem-aventuranças (1): Sonhar coisas grandes

Foto/Crédito: Opus Dei.

As Bem-aventuranças (1): Sonhar coisas grandes

O Papa Francisco disse aos jovens, referindo-se às bem-aventuranças: "Leiam-nas e meditem-nas que lhes fará muito bem”. Quem se aproxima de Jesus Cristo aprende um segredo: aquilo que nos faz felizes também nos faz santos.

22/01/2016

Você quer ser santo? Muitas pessoas podem hesitar antes de responder a esta pergunta. Imaginam uma existência cinza e cheia somente de sacrifícios, uma vida sem sonhos na que Deus impõe a Sua vontade à força.

Você quer ser feliz? Neste caso, ao contrário, a resposta é clara: sim, todos queremos ser felizes, todos queremos conseguir uma vida plena, olhar para trás, no final dos nossos dias e poder dizer: valeu a pena que eu existisse, não fui indiferente, fui útil, deixei rasto...

Quem se aproxima de Jesus Cristo aprende um segredo: aquilo que nos faz felizes também nos faz santos. Com razão, São Josemaria diz que «a felicidade do Céu é para os que sabem ser felizes na terra»[1], porque os nossos sonhos são os do Senhor: Ele só deseja nos ajudar a cumprir as nossas aspirações mais altas, alcançar e inclusive superar os desejos de infinito que cada um de nós tem dentro de si.

Quem se aproxima de Jesus Cristo aprende um segredo: aquilo que nos faz felizes também nos faz santos

Contam que um sábio disse um dia aos seus seguidores: «Quando vocês chegarem às portas do Céu, lhes farão somente uma pergunta, só uma!». Todos os que o rodeavam tentavam adivinhar a questão: «Você cumpriu os mandamentos?», perguntava-lhe um, «Você ajudou os pobres?», dizia outro. «Rezou muito? Ia à Igreja? Amou muito o próximo?... ». O sábio, sorrindo, afirmou: «A única pergunta será simplesmente esta: 'Você foi feliz?' Aquele que responder afirmativamente terá um lugar diante de Deus».

Você foi feliz? É uma pergunta que já podemos antecipar agora: Serei feliz da maneira como me proponho viver...? Logo compreendemos que não é simples responder com um sim definitivo. O futuro não está completamente em nossas mãos e há muitas as escolhas que teremos que fazer ao longo dos anos: Vou acertar com minha orientação profissional? Seguirei a vocação que Deus quer para mim? Encontrarei uma pessoa que me ama e a quem eu possa amar? Escolherei bem as amizades? E se vier a doença?

O futuro de cada pessoa está aberto: não somos capazes de ver além de nosso presente. No entanto, Deus – respeitando nossa liberdade –, sabe muito bem quais serão os nossos passos. Por isso, em alguns momentos da vida poderemos rezar assim: Senhor, não sei ainda o que Você quer de mim, nem que desafios enfrentarei. Às vezes tenho dúvidas sobre o caminho que devo tomar, mas sei que Você tem um plano para mim: você conhece tão bem as dificuldades que encontrarei quanto os talentos que me deu para superá-las. Por isso, ajude-me a viver perto de Você e assim, faça o que fizer, aconteça o que acontecer, estarei caminhando pelo bom caminho.

Foto/Crédito: Opus Dei.

Confiar, sonhar

De fato, confiar em Deus nos permitirá sonhar com ambição e nos libertará do freio mais forte: o medo de fracassar. Mas, para ser verdadeiramente livres, é necessário fazer duas coisas: confiar e sonhar. Assim nos confirma o Papa: «em Cristo, queridos jovens, encontra-se a plena realização dos vossos sonhos de bondade e felicidade. Só Ele pode satisfazer as vossas expectativas tantas vezes desiludidas por falsas promessas mundanas»[2].

Como Francisco sugere, basta dar uma olhada para trás para distinguir os momentos de verdadeira plenitude daqueles que, embora agradáveis, passaram por nossa vida de maneira indiferente. Uma festa que esperávamos com grande desejo, momentos de diversão com os videogames ou na frente da televisão, uma viagem com os amigos ou uma tarde de compras com as amigas são atividades que, sem dúvida, podem deixar uma boa lembrança, mas não uma marca indelével. Não permanecerão em nosso coração para sempre porque, ainda que sejam positivas, não estão projetadas para a eternidade.

Numa sociedade desiludida, que se esqueceu de sonhar, existe o perigo de nos conformarmos com esses sucedâneos de felicidade, isto é, com imitações baratas de nossos desejos mais profundos, que nos dão um recompensa imediata, obtida com pouco esforço e normalmente a um certo preço (de dinheiro ou tempo). Entusiasmar-nos com a última tendência em moda ou tecnologia, arrastar-nos até o fim de semana, buscar a companhia de amigos custe o que custar ou conceder-nos compensações nestes momentos livres que reservamos somente para nós, são atitudes que podem nos ajudar a ir empurrando a vida, inclusive durante anos.

Intuímos que a verdadeira felicidade está no final de um longo caminho sem atalhos. Por isso, é necessário encher a vida de ideais

Mas não estamos chamados a isso: «Queridos jovens – disse o Papa Francisco-, não enterrem os seus talentos, os dons que Deus lhes deu de presente! Não tenham medo de sonhar coisas grandes!». Quando nos apaixonamos, participamos em uma atividade solidária ou prestamos um serviço valioso a um amigo, percebemos que são momentos que fazem brilhar um pouco da grandeza de que somos capazes. Intuímos que a verdadeira felicidade está no final de um longo caminho sem atalhos. Por isso, é necessário encher a vida de ideais, entusiasmar-nos com objetivos que nos obriguem a esticar-nos para dar mais, a crescer com empenho para tirar o melhor de nós mesmos.

Pode acontecer que verdadeiramente queiramos fazer coisas grandes e lutar por elas, mas ainda não tenhamos encontrado um motivo ou uma pessoa à altura de nossos desejos. É necessário procurar. Ao contrário daquelas marcas comerciais, filosofias baratas ou personalidades públicas que nos indicam claramente o que devemos fazer para viver uma vida satisfeita, a fé não nos dá respostas feitas nem fórmulas fechadas ou combos de felicidade, mas nos abre sempre novos interrogantes: «Que tenho que fazer para alcançar a vida eterna?» «Quem vocês dizem que Eu sou?» «Quem é meu próximo?» «De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se depois se perde a si mesmo?»[3] Nessas e outras perguntas que surgem da leitura do Evangelho, a fé nos propõe o desafio maior e radical: tomar o controle da nossa própria vida e decidir fazer dela uma obra prima[4].

Por isso, se nos faltam ideais que deem sentido a uma vida, quem melhor que Deus para poder nos orientar? A fé nos abrirá essas inquietações para as quais o coração precisa encontrar resposta. Diante do Sacrário e com a alma em Graça será fácil sintonizar com Deus: somente diante Dele obteremos luz para continuar procurando e compreenderemos que «o que é preciso para conseguir a felicidade não é uma vida cômoda, mas um coração enamorado»[5].

Foto/Crédito: Opus Dei.

A montanha das Bem-Aventuranças

O Evangelho nos conta que uma manhã Jesus subiu uma montanha situada perto do lago da Galileia. Caminhava sozinho, mas uma multidão de pessoas O seguia a poucos metros. «Grandes multidões acompanharam-no da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e dos países do outro lado do Jordão»[6]. Eles, como nós vinte e um séculos mais tarde, procuravam no Senhor alguém que os orientasse, que os ajudasse a voar alto, a superar as suas misérias e a satisfazer plenamente os seus desejos.

«Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele»[7]. No alto de algumas montanhas, o Senhor realiza ações importantes: escolhe os Apóstolos, Se transfigura, revela as bem-aventuranças, morre na Cruz, ascende ao Céu... Subir costa acima Lhe custaria esforço, mas é nos topos que o Senhor nos mostra melhor sua intimidade com Deus Pai. Também para nós pode custar esforço parar e meditar, tirar uns minutos do nosso dia para falar com Deus, desligar o telefone e procurar a solidão. Mas, uma vez conseguida a calma interior – com empenho –, nos elevaremos por cima da agitação diária e – como do alto de uma montanha –, poderemos ver mais longe, mais profundamente. De fato, necessitamos da solidão, porque Deus fala em voz baixa. Bem sabem os apaixonados que as frases mais importantes se dizem assim, em sussurros, para que cheguem ao coração.

«Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele»[8]. O Senhor se sentou no chão e as pessoas o imitaram. Quando um rabino – um mestre da lei judia – se sentava, queria indicar que estava a ponto de ensinar algo muito importante. Seus discípulos mais próximos, a quem, pouco tempo antes havia escolhido chamando-os pelo seu próprio nome, se aproximaram para não perderem nenhuma palavra dos seus ensinamentos.

As bem-aventuranças são o plano de Jesus para nós leiam-nas e meditem-nas, que lhes fará bem (Papa Francisco)

Embora o Senhor tivesse uma voz forte, somente aqueles que estavam ao seu redor poderiam capturar cada gesto, cada sorriso, cada entonação com as que Jesus enchia seu discurso. Assim nós, temos a possibilidade de escutar as bem-aventuranças com diferentes atitudes: de longe, ouvindo-as simplesmente, como faria quem se sentou entre os grupos mais distantes, perdendo talvez o fio do discurso. Ou, aproximando-nos do Mestre, escolhendo um lugar próximo, fixando nosso olhar Nele sem distrações, sentando-nos no meio dos Apóstolos, para, junto deles, aprender algo novo.

«Então abriu a boca e lhes ensinava, dizendo: Bem-aventurados... »[9]. No silêncio daquela montanha, a voz do Senhor foi recitando as bem-aventuranças. «Elas são o plano de Jesus para nós (...) – disse o Papa – leiam-nas e meditem-nas, que lhes fará bem»[10]. Sabemos que contêm o segredo dessa felicidade que não conseguimos apagar com as satisfações diárias. Elas serão a pauta da nossa oração e procuraremos aplicá-las à nossa vida ordinária para obter respostas capazes de dar sentido a tudo o que fazemos.

Somente desse modo, dentro de muitos anos, poderemos sorrir quando, ao encontrar-nos frente a frente com o Senhor, Ele nos pergunte: «E você? Foi feliz?».

Perguntas para a oração pessoal

- Proponho-me objetivos grandes na minha vida? Que obstáculos me impedem de sonhar? Perguntei alguma vez a Deus o que Ele espera de mim?

- Procuro realizar o que me faz feliz (planos com amigos e amigas, o namoro, o esporte...) de tal forma que também me faça santo? Percebo que o que me aproxima a Deus (momentos de oração, serviço aos outros, superação dos defeitos...) me ajuda a conseguir a autêntica felicidade?

- Quais são os meus talentos? Estou usando-os para ser melhor, isto é, coloco-os a serviço de Deus e dos outros?

- Procuro, cada dia, um momento de conversa com Jesus? Reservo momentos de solidão – sem música, nem mensagens, nem distrações –, para escutar a voz de Deus?

J. Narbona / J. Bordonaba


[1] São Josemaria, Forja, n. 1005.

[2] Papa Francisco, Mensagem para a XXX Jornada Mundial da Juventude, 2015.

[3] Mc 10,17; Mt 16,15; Lc 10,29; Mc 8, 36.

[4] Cf. João Paulo II, Encontro com Jovens em Gênova, 22 de setembro de 1985.

[5] São Josemaria, Sulco n. 795.

[6] Mt 4,25.

[7] Mt 5,1.

[8] Ibid.

[9] Mt 5,2.

[10] Papa Francisco, Discurso no Encontro com os Jovens no Paraguai, 12 de julho de 2015.

Fonte: https://opusdei.org/pt-br

Reflexão para 4º domingo do Advento (A)

4º domingo do Advento | Vatican News.

Que nós, neste Natal, saibamos ser como José, deixando tudo nas mãos do Senhor, confiando em Sua divina ação. Também sejamos como Maria, não pedindo explicações, mas sabendo que o Senhor é poder e Amor.

Vatican News

A primeira leitura da liturgia deste 4º domingo do Advento, apresenta a aliança entre dois reis, com a finalidade de depor um terceiro, Acaz, rei de Jerusalém.  Com isso a dinastia davídica se esfacelaria e outro rei, de outra família, ocuparia o trono de Jerusalém.

Mas Deus é fiel e manterá sua promessa de que um descendente de Davi seria o rei de Judá. Contudo o rei Acaz não dá muito importância à palavra de Deus, não confia em suas palavras, mas confia em sua aliança com um 4º rei.

O profeta Isaías fica preocupadíssimo com o modo de agir do rei Acaz e percebe que tudo será um desastre para Israel.

O povo confia em Deus, mas fica estarrecido com menosprezo que Acaz dá à situação e sua atitude em relação aos ídolos pagãos a ponto de oferecer seu filho aos mesmos.

Por isso ele, de modo falso, diz que não irá incomodar Deus, quando lhe é dito de pedir um sinal a Deus.

Nesse momento é dado, pelo profeta Isaías, um sinal: a virgem dará á luz um filho que se chamará Emanuel.

Acaz se torna empedernido, perde a guerra, os assírios se tornaram colonizadores de Israel, mas Deus se manteve fiel. Ezequias, o filho da virgem, descendente de Davi, nasceu e se tornou rei, um bom rei. Ele foi visto como a presença de Deus, de Deus que não abandona, de Deus que está com seu povo, de Deus que se chama Emanuel – Deus conosco!

Essa leitura questiona nosso modo de pensar e de agir quando não confiamos em Deus e não damos a Ele a primazia em nossas decisões, quando confiamos mais no mundo, em nossos feitos e amizades, em nossas “orações” e “novenas”, em nossas superstições e não na palavra dele de que nos ama, de que se entregou por nós, na presença de Nossa Senhora ao nosso lado. Não somos nossa providência, ninguém é nossa providência, só o Senhor é a Providência.

Deus conosco é o tema também do Evangelho de Mateus, proclamado nesta liturgia, que nos fala da gravidez de Maria, após a realização do contrato nupcial entre ela e José, mas ainda sem coabitarem.

O sinal que Isaías falava para o rei Acaz pedir a Deus, é concretizado no nascimento de Jesus, o Deus Conosco, o Emanuel.

Maria é a virgem, que confiou absolutamente em Deus e se entregou totalmente à missão que Ele lhe confiava. Também Jose, o justo, porque entre situações muito embaraçosas, optou por não cometer injustiças, mas deixar tudo nas mãos de Deus e confiar na divina Providência.

Que nós, neste Natal, saibamos ser como José, deixando tudo nas mãos do Senhor, confiando em Sua divina ação. “Deixa aos cuidados do Senhor o teu destino; confia nele, e com certeza ele agirá”, diz o salmo 36.

Também sejamos como Maria, não pedindo explicações, mas sabendo que o Senhor é poder e Amor.

Entreguemo-nos, confiadamente, ao Senhor que vem a nós em forma de uma criança, para habitar conosco, a cada dia de nossa vida, presente em cada segundo de nosso existir, afinal Ele é o Amor, o Emanuel, o Deus conosco!

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt

Pe. Manuel Pérez Candela

Pe. Manuel Pérez Candela
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição - Sobradinho/DF